sexta-feira, fevereiro 19, 2016

GOETHE, BACON, BEAUVOIR, GAY TALESE, CHIZIANE, SOPHIE CALLE, MARGUERITE PORETE, GOMBRICH, PINKER & LITERÓTICA



OS GOLES GENEROSOS DELA... – Ela exibiu o Arco do Cupido e inquieta com uma mioquimia labial, ora contraindo, premendo, mordiscando aos muxoxos osculantes, investiu decidida e um afetuoso beijo de biquinho estalou delicado na pontinha da minha glande, o que fez com meu membro se sacudisse dilatando-se, com um leve sopapo invulgar entre seus lábios extremamente sedosos. Ela suspirou suavemente majorando seus afagos gratificantes, a precipitar sua aveludada língua numa tímida lambida circulante e auspiciosa, de me levar ao apogeu dali e, em questão de décimos de segundos, além da Via Láctea, perdido na imensidão. Sua ofensiva insinuação afagante se apropriou do meu sexo e se espalhou a esfregá-lo ternamente em seu nariz, agrados provocados pelo inalar adelgaçado entre singelos ósculos para lá de benfazejos. E não parou por aí, logo passou a deslizá-lo meigamente pela pele de sua face macia, por seus seios altos, pelas dobras dos ombros, subindo-lhe garganta, por trás do ouvido, como enfeitiçada, genuflexa e debruçada sobre minhas coxas, fazendo dali o seu propício regaço. Meticulosamente envolveu-o entre as mãos, imprimindo seu provocante hálito morno a cobiçá-lo calma e discretíssima, como se o espreitasse apaixonada, comprimindo-o prudente às beiçadas, a tê-lo inteiro, abocanhando todo comprimento sem tocá-lo e abarcando-o completamente como se quisesse engoli-lo gulosa desvairada e envolvê-lo com sua exalação sobejada. Desfrutava-o cheia de mimos, cheiros e lambidelas, contendo-se aparentemente apaziguada, dissimulação denunciada pela respiração profunda a cada assalto em degustá-lo preventiva aos poucos e bons bocados. A cada serena aboquejada saboreava ruidosa e premente, a servir-se em descomedida infusão, calmamente deliciada com teor venerável, como se privasse dele o manjar predileto. Rebuscou-se enlevada de servil indecência, com todos os truques de provar ao paladar, sugando-o com todo apetite, enquanto me extorquia com a língua permeável aveludada, aos louvores e exaltação, esbanjando-se subalterna com todo desfrute ardoroso, fruindo-o com imensa dedicação, empanturrando-se a sorver venturosa com toda gula peculiar, a degluti-lo ávida mordiscando-o vingativa e a chuchar aos solavancos das hábeis mãos simultâneas com manobras eximias de me masturbar, enquanto saqueava sugadora todos os meus atributos já despossuídos. Dona de si aspirava infatigável e prosperava altiva a ingerir o suco incipiente que emanava do meu pênis rigidamente provocado a papá-lo faminta às engolidas chupadoras, deleitando-se manhosa aos dengos e fetiches mais desarvorados. Aproveitava-se esgotando aos fungados toda minha vitalidade e hauria empolgada logrando ousada para se fartar de toda provisão às mamadas mais diligentes. E absorvia arrebatada como se roubasse minhas forças em assanhar seus cabelos fogosos, agarrando firme sua carne deleitosa estimulante, completamente eriçada e a cada momento arquejante com a sucção do seu indisfarçável regalo amotinado, aos goles devoradores e a soltar seus gemidos ávidos em falsete, qual bendita égua no cio rendendo-se aos açoites. Assim emborcada na prestimosa felação soberba, pilhando entusiasticamente todo êxtase ardente de prazer insuperável, a borrifar-se destinatária do meu sumo em profusão, abastecendo-a voraz anfitriã, com o ápice do meu gozo extremado, como se depusesse audaz sua garbosa libação prazerosa. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Contar uma história significa levar as mentes no voo da imaginação e trazê-las de volta ao mundo da reflexão... Em primeiro lugar eu escrevo para existir, eu escrevo para mim. Eu existo no mundo e a minha existência repete-se nas outras pessoas...

Pensamento da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

Como sempre, os problemas trazem soluções. Este problema trouxe tantas respostas que eu jamais poderia ter imaginado. Penso nesse processo em termos da palavra francesa interpréter, que tem um duplo sentido: pensar sobre o significado ou analisar, e atuar teatralmente. Um ator é um un interpréte. Todas as mulheres estavam entre mim e a letra, como interprètes.

Pensamento da escritora, fotógrafa e artista conceitual Sophie Calle. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

O MOTEL DO VOYEUR -  [...] Se nossa sociedade tivesse a oportunidade de ser voyeur por um dia, encararia a vida de maneira muito diferente da atual. [...]. Trecho extraído da obra The Voyeur's Motel (Grove Press, 2016), do escritor estadunidense Gay Talese, que na sua obra Thy Neighbor's Wife: A Chronicle of American Permissiveness Before the Age of AIDS (Harper Perennial, 2009), ele expressa que: [...] Ao contrário dos milhões que se masturbam casualmente em solidão enquanto olham fotos de mulheres na Playboy e revistas semelhantes, o massagista preferia uma cúmplice, uma acompanhante de aparência respeitável que o ajudasse a reduzir a culpa e a solidão desse ato de amor tão solitário. [...] Embora a força moral da tradição judaico-cristã e da lei tenha buscado purificar o pênis e restringir sua semente à instituição santificada do matrimônio, o pênis não é, por natureza, um órgão monogâmico. Ele não conhece código moral. Foi projetado pela natureza para o desperdício, anseia por variedade, e nada menos que a castração eliminará o fascínio da prostituição, da fornicação, do adultério ou da pornografia. [...] Curiosamente, o caso histórico de 1868 na Inglaterra, que definiu pela primeira vez a obscenidade — conhecido entre os advogados como a decisão Hicklin — surgiu da acusação de um panfleto que descrevia como os padres frequentemente ficavam tão excitados sexualmente ao ouvirem as confissões das mulheres que às vezes se masturbavam e até copulavam com suas súditas arrependidas no confessionário. [...] O homem casado comum, se tivesse energia, poderia fazer sexo com várias mulheres sem diminuir o carinho e o desejo que sentia pela esposa. Mas mulheres como Judith – ao contrário de mulheres verdadeiramente libertas como Barbara e Arlene – não podiam simplesmente aceitar um homem como um instrumento temporário de prazer; eles queriam luzes suaves e promessas, não apenas um pênis, mas o homem ligado a ele. [...]. Ele também é autor de obras como The Kingdom and the Power: Behind the Scenes at The New York Times: The Institution That Influences the World (Random House Trade, 2007), The Gay Talese Reader: Portraits and Encounters (Bloomsbury, 2003) e The Bridge: The Building of Verrazano-Narrows Bridge (Walker Books, 2003), entre outros.

 

O ESPELHO DAS ALMAS SIMPLES – [...] O amor não é destruição, mas sim instrução, alimento e sustento para aqueles que nele confiam, pois o amor é plenitude, abismo e a plenitude do mar. [...] Amor: Tal Alma, diz o Amor, nada no mar da alegria, isto é, no mar de delícias que fluem e jorram da Divindade, e ela não sente alegria, pois ela mesma é alegria, e assim ela nada e flui em alegria sem sentir nenhuma alegria, pois ela habita na alegria e a alegria habita nela; pois através do poder da alegria ela mesma é alegria, que a transformou em si mesma. Agora eles têm uma vontade comum, como fogo e chama, a vontade do amante e a do amado, pois o amor transformou esta Alma em si mesma. A Alma: Ah, dulcíssimo, puro, divino Amor, diz esta Alma, quão doce é esta transformação pela qual sou transformada naquilo que amo mais do que a mim mesma! E sou tão transformada que, com isso, perdi meu nome por amor, eu que posso amar tão pouco; e sou transformada naquilo que amo mais do que a mim mesma, isto é, no Amor, pois não amo nada além do Amor. [...] Amor. Esta Alma, diz o Amor, é dilacerada pela mortificação e queimada pelo ardor do fogo da caridade, e suas cinzas são espalhadas pela insignificância de sua vontade sobre os altos mares. Na prosperidade, ela tem a nobreza dos bem-nascidos; na adversidade, a nobreza dos exaltados; em todos os lugares, quaisquer que sejam, a nobreza dos excelentes. Aquela que é assim² não busca mais a Deus pela penitência ou por qualquer sacramento da Santa Igreja, nem por reflexões, palavras ou obras, nem por qualquer criatura aqui embaixo ou lá em cima, nem pela justiça, misericórdia ou a glória das glórias, nem pelo conhecimento divino, pelo amor divino ou pelo louvor divino. Amor. Esta Alma, diz o Amor, é dilacerada pela mortificação e queimada pelo ardor do fogo da caridade, e suas cinzas são espalhadas pela insignificância de sua vontade sobre os altos mares. Na prosperidade, ela tem a nobreza dos bem-nascidos; na adversidade, a nobreza dos exaltados; em todos os lugares, quaisquer que sejam, a nobreza dos excelentes. Aquela que é assim² não busca mais a Deus pela penitência ou por qualquer sacramento da Santa Igreja, nem por reflexões, palavras ou obras, nem por qualquer criatura aqui embaixo ou lá em cima, nem pela justiça, misericórdia ou a glória das glórias, nem pelo conhecimento divino, pelo amor divino ou pelo louvor divino. [...] Amor: Ah, Razão, diz o Amor, você sempre verá com um só olho, você e todos aqueles que são nutridos por sua doutrina. Pois o homem é de fato caolho aquele que vê as coisas que estão diante de seus olhos, mas não sabe o que são; e este é o seu caso. [...]. Trechos extraídos da obra The Mirror of Simple Souls (Paulist Press, 1993), da mística beguina Marguerite Porete (1258-1310), que foi queimada na fogueira por heresia em Paris, em 1310, após um longo julgamento por se recusar a retirar seu livro de circulação ou a retratar-se de suas ideias.

 

HISTÓRIA DA ARTE - [...] Eu gostaria de ajudar a abrir os olhos, não a soltar a língua [...] É evidente que o agradável ganho em tolerância resultará também numa perda de padrões, e que a busca de novas emoções também de se pôr em perigo aquela paciência que fez os amantes de artes do passado cortejarem as obras-primas reconhecidas até herdarem algo de um segundo. É tudo como certo que em respeito pelo passado tinha seus inconvenientes, sempre que leve a negligenciar a obra de artistas vivos. Não temos garantia alguma de que nossa receptividade não nos leve a desdenhar um verdadeiro gênio entre nós, que se abre seu caminho para o futuro sem levar em conta a moda e a publicidade [...]. Trechos extraídos da obra A história da arte (Guanabara, 1978), do historiador da arte Ernst Hans Josef Gombrich (1909-2001). Veja mais aqui.

 

OS ANJOS BONS DA NOSSA NATUREZA - [...] Passar em revista a história da violência é assombrar-se repetidamente com a crueldade e o desperdício de tudo aquilo e às vezes ser tomado pela cólera, pela repugnância e por um incomunicável tristeza [...]. Trecho extraído da obra Os anjos bons da nossa natureza: porque a violência diminuiu (Companhia das Letras, 2013), do psicólogo e linguista canadense Steven Pinker (Steven Arthur Pinker), defendendo com base em vastos dados estatísticos e históricos, que a violência diminuiu drasticamente ao longo da história da humanidade. O declínio é impulsionado por instituições sociais, pela razão e pela empatia. O declínio global da violência é explicado por quatro fatores principais (os "anjos bons"): O Leviatã (O Estado): A centralização do poder e o monopólio da força pelos governos reduziram a necessidade de vingança privada e a violência por retaliação, garantindo a paz civil. O Suave Comércio: A expansão do comércio global aumentou o valor de manter os parceiros comerciais vivos do que mortos, estimulando a cooperação em vez do conflito. A Feminização: A ascensão de valores tipicamente associados às mulheres — como empatia, resolução de conflitos por negociação e aversão à crueldade gratuita — moldou normas sociais. O Escalão da Razão: O aumento da educação, da alfabetização e do pensamento crítico permitiu que a humanidade reconhecesse a violência como um problema solucionável, em vez de um ato glorioso. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A DEUSA – [...] a Deusa se dá dentro de um contexto patriarcal, onde a perda de representação da Deusa atinge profundamente e principalmente ao universo religioso das mulheres, sendo que, o culto a Asherah vai sobrevivendo, até ser definitivamente extinguido e proibido, dos espaços, das mentes e dos corpos, de homens e mulheres que tinham em Asherah uma fonte de significação para a vida. [...]. Trecho extraído da obra O Segundo Sexo (Nova Fronteira, 2002), da escritora, filósofa, feminista e ativista política francesa Simone de Beauvoir (Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir – 1908-1986). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A NOIVA DE CORINTO - De Atenas provindo, a Corinto \ Chega um jovem que desconheciam, \ Como hóspede em domo distinto. \ Os dois pais sempre se recebiam, \ Ambos desde cedo \ O moço e a moça \ Noivo e noiva já se prometiam. \ Mas será ele também lá bem-vindo, \ Se boas graças nunca conquistou? \ Com seus gentios é pagão ainda, \ E o da casa em Cristo batizou. \ Nova fé que fulge \ Contra amor insurge \ Qual erva daninha logo se arrancou. \ Repousa a casa inteira, é tarde, \ Sem pai ou filha, só, a dona domina; \ Recebe o moço com boa-vontade, \ Logo o melhor quarto ela lhe destina. \ Uma ceia ostenta, \ Bem alojá-lo tenta: \ Depois diz boa noite, sai em surdina. \ Entretanto o apetite é perdido \ Farta refeição posta, a despeito; \ Extenuado, de comes abstido, \ Mesmo vestido faz-se ao leito; \ Quase ele cochila, \ Mas a porta estila \ Esgueira-se ao quarto um afeito. \ Ao clarão da luz, vê se insinuar \ Pelo quarto, moça virginal \ Brancos véus a acobertar, \ Cingindo a fonte preto-ouro xal. \ Tão logo o vislumbra \ No canto à penumbra, \ Espanta, mão alva eleva ao alto. \ “Sou por acaso estranha”, diz ela, \ “Que do hóspede nem tenho notícia? \ Ah, assim mantêm-me eles na cela! \ Por isso cometo a inconveniência. \ Prossiga dormindo \ Me esquivo, vou indo, \ Saio como vim, peço licença.” \ “Fique, jovem!” — grita o rapaz \ Lépido num só pulo de seu tálamo: \ “De Céres e Baco, as oferendas \ Tens. Agora amor traz teu âmago. \ O susto te descora \ Vem, não vá embora, \ Deleitemos dos deuses o júbilo! \ “Fique longe, mancebo! Parado! \ Não me é permitida a ventura. \ Fatal passo, ah! já foi dado. \ Boa mãe doente em insânia pura! \ Caso convalesça \ A promessa faz: \ Que consagra filha aos céus em jura. \ De deuses antigos o cortejo \ Proscrito, a casa silencia logo. \ Invisível um uno em adejo, \ O salvador na cruz está morto. \ E o imoleiro, \ Não rês ou cordeiro, \ Mas, seres humanos tem sacrificado. \ Ele indaga as palavras pesando, \ Que jamais com o espírito desavêm: \ É possível ter num ermo aposento \ Minha noiva em pessoa ante mim? \ “Seja minha, criança! \ Os pais com a fiança \ Bênçãos celestes nos concedem.” \ “Coração, não é a ti que destino! \ É a mana que te hão de atribuir. \ Enquanto na cela nefasta amofino, \ Lembre de mim um dia no porvir, \ Que só penso em ti \ Pelo amor sofri \ E a terra em breve há de cobrir!” \ “Não! Eu juro, com a mão sobre o fogo \ Vontade paterna compartilhar; \ Nem perdida ou desdita, te rogo, \ Vem para a casa comigo viajar. \ Fique! Eu te peço! \ Um sonho confesso. \ Nossas núpcias em festim celebrar! \ E trocam eles prendas de amor: \ Ela dá-lhe um dourado adereço, \ Por sua vez, faixa de prata cor, \ Presenteia-lhe em terno apreço. \ “Não é meu o xale! \ Mas muito me vale! \ Dê-me uma mecha de teu cabelo.” \ Dos fantasmas soa a fúnebre hora, \ Quando ela transforma-se langue. \ Ávida sorve a pálida boca \ Sôfrega o vinho tinto qual sangue: \ Mas de trigo o pão, \ Que o gentil em vão, \ Lhe oferece, ela sequer o tange. \ Estende ela o cálice ao moço, \ Que ardente o esvazia num gole. \ E suplica a cear licencioso; \ Amor, que seu coração console. \ Mas ela resiste, \ Ao que ele insiste, \ Até que na cama em pranto implore. \ Aproxima-se ela, ajoelha: \ “Desatino é ver teu sofrer! \ Satisfaça-te e toque-me e olhe \ Esses membros que estou a esconder. \ Clara como a neve, \ Mas fria como deve \ A amada que vens de eleger.” \ Ardente a cerra, abraço viril, \ Intenso a estreita, a inunda: \ “Eu desejo aquecê-la do frio, \ Mesmo que tu me venhas da tumba! \ Um beijo fervente! \ Anseio eloquente! \ Não te queima uma paixão profunda?” \ E selando em êxtase o amor, \ Lágrimas ao desejo se mesclam; \ Suga-lhe ela à boca o calor, \ Presos um ao outro se infundem. \ Seu ardor feroz \ Anima-a voraz; \ Não lhe pulsa o coração, porém! \ Nisso a mãe pela casa vagueia \ Sempre alerta, tão tarde em ofício, \ Detém-se escutando à soleira, \ Um singular gemido e bulício. \ Em pleno alvoroço \ A moça e o moço \ Indícios de amor em balbucio. \ Ela imóvel detém-se ao umbral, \ Suspeita mas reluta uma vez, \ Cisma e apura paixão cabal, \ Que evoca a sanha cupidez — \ “O galo canta, amada! — \ Mas noutra madrugada…” \ Beijos, beijos. “Tu vens, talvez?” \ Não contém a raiva em delonga, \ A porta ela abre de chofre: \ “Há cá nesta casa songa-monga, \ Que ao forasteiro se oferece?” \ Entra e ojeriza, \ Ao clarão divisa — \ Santo Deus! A ilha reconhece. \ O jovem no primeiro espanto \ Tenta com o véu a impudente, \ Com o tapete, cobrir-lhe o desmanto; \ Mas ela se ergue logo saliente. \ Como um fantasma \ Que do alto plasma \ Longa e lenta, plana ao leito. \ “Mãe, mãe!” Diz com voz de sepulcro, \ “Você quer ser desmancha-prazer? \ Tira-me ao tépido e pulcro! \ Me acorda para arrefecer? \ Como se não basta, \ Quando inda casta, \ Você cedo ao túmulo me por? \ Mas uma lei bem própria me expulsa \ Me liberta da baldia prisão. \ A cantilena sacra é insulsa, \ A mim sequer comove oração; \ Salmodiou sem efeito \ Se os jovens a eito; \ Ah! Terra não esmorece paixão. \ Esse moço me foi prometido, \ Nos bons tempos do templo de Vênus. \ Mãe, contudo foi o voto rompido, \ Pois o alheio e falso os seduz! \ Mas nenhum deus ouve,\ Quando a madre ousa \ Recusar à ilha as bodas de jus. \ Da sepultura lançada à vida, \ À procura do anelado bem,\ Por perdido ser inda querida \ Aspirar todo o sangue que tem. \ Quando ele morrer, \ Mais hei de querer, \ Sedenta, a debelar gente jovem. \ Tanto não viverás! \ Definhas-te, aqui neste lugar, meu belo; \ Ofertei-te minha correntinha \ Comigo guardo a mecha com zelo. \ Veja-lhe ademãs, \ Depois, meras cãs! \ Lá insosso e sem cor será o pelo. \ “Ouça, mãe, a prece derradeira: \ Minha última morada abre! \ Então arme uma grande fogueira, \ Os amantes nas chamas, descanse! \ Chispa resplandece, \ Brasa incandesce, \ Devoltamos à crença fagueira”. A balada “Die Braut von Korinth” (1797), do polímata alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), inspirado na obra tratado De Mirabilibus (Livro das maravilhas), do escritor grego Flégon de Treales, conta a história da jovem Filinion, que retorna da morte para desfrutar os prazeres negados em vida. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

POR VOCÊ, POR NÓS DOIS
– A poeta paranaense Marinez Novaes reúne seu trabalho no Recanto das Letras e no seu blog Eu digitais, nome este oriundo do seu livro recém-lançado. Da sua lavra destaco o poema Por você... por nós dois!: Sem censura... / Sem palavras / Apenas te quero sussurrar... / Se aconchegue em meus braços / Envolva-se em meus carinhos / Busque-me em pedacinhos / Perca-se de você / E me encontre / No suor do seu corpo! / Beija-me trazendo para meus lábios / O sabor dos seus desejos! / Minhas mãos não me obedecem / E se apressam em / Um vai e vem de sedução / Não te largo / Não te detenho / Não me nego / Eu me entrego! / Esqueço tudo / Só para te provocar / Deito-te sobre as brasas / Vivas da paixão / Labaredas de Fogo / Queimam por dentro e / Estão por todos os lados / Queimam nossos corpos / Entrelaçados! / Na mais perfeita magia do amor / Sem receios / Sem pudor / Dividimos o tempo / Um minuto de troca de olhares / Um segundo para um piscar de olhos / E o resto do tempo / Colocamos em movimento / Toda a cumplicidade / Na mais linda e intensa intimidade! / Hoje quero mais que o mundo / Se acabe / Levando com ele o amanha / Mas que fiquem as horas / Testemunhando nosso amor... / esqueçam de ir embora! Veja mais aqui.

NOVUM ORGANUM, DE FRANCIS BACON - Todos aqueles que ousaram proclamar a natureza como assunto exaurido para o conhecimento, por convicção, por vezo professoral ou por ostentação, infligiram grande dano tanto à filosofia quanto às ciências. Pois, fazendo valer a sua  opinião, concorreram para interromper e extinguir as investigações. Tudo mais que hajam feito não compensa o que nos outros corromperam e fizeram malograr. Mas os que se voltaram para caminhos opostos e asseveraram que nenhum saber é absolutamente seguro, venham suas opiniões dos antigos sofistas, da indecisão dos seus espíritos ou, ainda, de mente saturada de doutrinas, alegaram para isso razões dignas de respeito. Contudo, não deduziram suas afirmações de princípios verdadeiros e, levados pelo partido e pela afetação, foram longe demais. De outra parte, os antigos filósofos gregos, aqueles cujos escritos se perderam, colocaram-se, muito prudentemente, entre a arrogância de sobre tudo se poder pronunciar e o desespero da acatalepsia. Verberando com indignadas queixas as dificuldades da investigação e a obscuridade das coisas, como corcéis generosos que mordem o freio, perseveraram em seus propósitos e não se afastaram da procura dos segredos da natureza. Decidiram, assim parece, não debater a questão de se algo pode ser conhecido, mas experimentá-lo. Não obstante, mesmo aqueles, estribados apenas no fluxo natural do intelecto, não empregaram qualquer espécie de regra, tudo abandonando à aspereza da medita ção e ao errático e perpétuo revolver da mente. Nosso método, contudo, é tão fácil de ser apresentado quanto difícil de se aplicar. Consiste no estabelecer os graus de certeza, determinar o alcance exato dos sentidos e rejeitar, na maior parte dos casos, o labor da mente, calcado muito de perto sobre aqueles, abrin do e promovendo, assim, a nova e certa via da mente, que, de resto, provém das próprias percepções sensíveis. Foi, sem dúvida, o que também divisaram os que tanto concederam à dialética. Tornaram também manifesta a necessidade de escoras para o intelecto, pois colocaram sob suspeita o seu processo natural e o seu movimento espontâneo. Mas tal remédio vinha tarde demais, estando já as coisas perdidas e a mente ocupada pelos usos do convívio cotidiano pelas doutrinas viciosas e pela mais vã idolatria. Pois a dialética, com precauções tardias, como assinalamos, e em nada modificando o andamento das coisas, mais serviu para firmar os e rros que descerrar a verdade. Resta, como única salvação, reempreender-se inteiramente a cura da mente. E, nessa via, não seja ela, desde o início, entregue a si mesma, mas permanentemente regulada, como que por mecanis mos. Se os homens tivessem empreendido os trabalhos mecânicos unicamente com as mãos, sem o arrimo e a força dos instrumentos, do mesmo modo que sem vacilação atacaram as empresas do intelecto, com quase apenas as forças nativas da mente, por certo muito pouco se teria alcançado, ainda que dispusessem para o seu labor de seus extremos recursos. Considere-se, por um momento, este exemplo que é como um espelho. Imagine-se um obelisco de respeitável tamanho a ser conduzido para a magnificência de um triunfo, ou algo análogo, e que devesse ser removido tão-somente pelas mãos dos homens. Não reconheceria nisso o espectador prudente um ato de grande insensatez? E esta não pareceria ainda maior se pelo aumento dos operários se confiasse alcançar o que se pretendia? E, resolvendo fazer uso de algum critério, se se decidisse pôr de lado os fracos e colocar em ação unicamente os robustos e vigorosos, esperando com tal medida lograr o propósito colimado, não proclamaria o espectador estarem eles cada vez mais caminhando para o delírio? E, se, ainda não satisfeitos, decidissem, por fim, os dirigentes recorrer à arte atlética e ordenassem a todos se apresentarem logo, com as mãos, os braços e os músculos untados e aprestados, conforme os ditames de tal arte: não exclamaria o espectador estarem eles a enlouquecer, já agora com certo cálculo e prudência? E se, por outro lado, os homens se aplicassem aos domínios intelectuais, com o mesmo pendor malsão e com aliança tão vã, por mais que esperassem, seja do grande número e da conjunção de forças, seja da excelência e da acuidade de seus engenhos; e, ainda mais, se recorressem, para o revigoramento da mente, à dialética (que pode ser tida como uma espécie de adestramento atlético), pareceriam, aos que procurassem formar um juízo correto, não terem desis tido ainda de usar, sem mais, o mero intelecto, apesar de tanto esforço e zelo. E manifestamente impraticável, sem o concurso de instrumentos ou máquinas, conseguir -se em qualquer grande obra a ser empreendida pela mão do homem o aumento do seu poder, simple smente, pelo fortalecimento de cada um dos indivíduos ou pela reunião de muitos deles. Depois de estabelecermos essas premissas, destacamos dois pontos de que queremos os homens claramente avisados, O primeiro consiste em que sejam conservados intactos e sem restrições o respeito e a glória que se votam aos antigos, isso para o bom transcurso de nossos fados e para afastar de nosso espírito contratempos e perturbações. Desse modo, podemos cumprir os nossos propósitos e, ao mesmo tempo, recolher os frutos de nossa discrição. Com efeito, se pretendemos oferecer algo melhor que os antigos e, ainda, seguir alguns caminhos por eles abertos, não podemos nunca pretender escapar à imputação de nos termos envolvido em comparação ou em contenda a respeito da capacidade de nossos engenhos. Na verdade, nada há aí de novo ou ilícito. Por que, com efeito, não podemos, no uso de nosso direito que, de resto, é o mesmo que o de todos —, reprovar e apontar tudo o que, da parte daqueles, tenha sido estabelecido de modo incorreto? Mas, mesmo sendo justo e legítimo, o cotejo não pareceria entre iguais, em razão da disparidade de nossas forças. Todavia, visto intentarmos a descoberta de vias completamente novas e desconhecidas para o intelecto, a proposição fica alterada. Cessam o cuidado e os partidos, ficando a nós reservado o papel de guia apenas, mister de pouca autoridade, cujo sucesso depende muito mais da boa fortuna que da superioridade de talento. Esta primeira advertência só diz respeito às pessoas. A segunda, à matéria de que nos vamos ocupar. É preciso que se saiba não ser nosso propósito colocar por terra as filosofias ora florescentes ou qualquer outra que se apresente, com mais favor, por ser mais rica e correta que aquelas. Nem, tampouco, recusamos às filosofias hoje aceitas ou a outras do mesmo gênero, que nutram as disputas, ornem os discursos, sirvam o mister dos professores e que provejam as demandas da vida civil. De nossa parte, declaramos e proclamamos abertamente que a filosofia que ofe- recemos não atenderá, do mesmo modo, a essas coisas úteis. Ela não é de pronto acessível, não busca através de prenoções a anuência do intelecto, nem pretende, pela utilidade ou por seus efeitos, pôr-se ao alcance do comum dos homens. Que haja, pois talvez seja propício para ambas as partes, duas fontes de geração e de propagação de doutrinas. Que haja igualmente duas famílias de cultores da reflexão e da filosofia, com laços de parentesco entre si, mas de modo algum inimigas ou alheia uma da outra, antes pelo contrário coligadas. Que haja, finalmente, dois métodos, um destinado ao cultivo das ciências e outro destinado à descoberta científica. Aos que preferem o primeiro caminho, seja por impaciência, por injunções da vida civil, seja pela insegurança de suas mentes em compreender e abarcar a outra via (este será, de longe, o caso da maior parte dos homens), a eles auguramos sejam bem sucedidos no que escolheram e consigam alcançar aquilo que buscam. Mas aqueles dentre os mortais, mais animados e interessados, não no uso presente das descobertas já feitas, mas em ir mais além; que estejam preocupados, não com a vitória sobre os adversários por meio de argumentos, mas na vitória sobre a natureza, pela ação; não em emitir opiniões elegantes e prováveis, mas em conhecer a verdade de forma clara e manifesta; esses, como verdadeiros filhos da ciência, que se juntem a nós, para, deixando para trás os vestíbulos das ciên cias, por tantos palmilhados sem resultado, penetrarmos em seus recônditos domínios. E, para sermos melhor atendidos e para maior familiaridade, queremos adiantar o sentido dos termos empregados. Chamaremos ao primeiro método ou caminho de Antecipação da Mente e ao segundo de Interpretação da Natureza. Para algo mais chamamos a vossa atenção. Procuramos cercar nossas reflexões dos maiores cuidados, não apenas para que fossem verdadeiras, mas também para que não se apresentassem de forma incômoda e árida ao espírito dos homens, usualmente tão atulhado de múltiplas formas de fantasia. Em contrapartida, solicitamos dos homens, sobretudo em se tratando de uma tão grandiosa restauração do saber e da ciência, que todo aquele que se dispuser a formar ou emitir opiniões a respeito do nosso trabalho, quer partindo de seus próprios recursos, da turba de autoridades, quer por meio de demonstrações (que adquiriram agora a força das leis civis), não se disponha a fazê-lo de passagem e de maneira leviana. Mas que, antes, se inteire bem do nosso tema; a seguir, procure acompanhar tudo o que descrevemos e tudo a que recorremos; procure habituar-se à complexidade das coisas, tal como é revelada pela experiência; procure, enfim, eliminar, com serenidade e paciência, os hábitos pervertidos, já profundamente arraigados na mente. Aí então, tendo começado o pleno domínio de si mesmo, querendo, procure fazer uso de seu próprio juízo. NOVUM ORGANUM – A obra Novum organum: ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza, do filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), é uma obra de cunho científico e filosófico publicada em 1620, dividida em duas partes, a primeira com aforismos sobre a interpretação da natureza e o reino do homem, objetivando a substituição do Organon aristotélico, a partir da pars destruens, em que proporciona a inutilidade do silogismo e, por consequência, a sua destruição na investigação das ciências naturais, atribuindo aos idolos criados pela mente humana como o estágio avançado para a ciência de então, identificando-os como os ídolos da tribo formadores dos preconceitos e do antropomorfismo; os ídolos da caverna, considerados como os erros oriundos da educação individual; os idolos do forum, erros oriundos da imperfeição da linguagem; e os idolos do teatro, que são os preconceitos de autoridade. Na segunda parte o autor apresenta o método indutivo, opondo-se ao método dedutivo da escolástica, e utilizando a experimentação e a observação como base do método, defendo que só a causa formal rege os objetivos da observação científica. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
BACON, Francis. Novum organum: ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


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