domingo, março 15, 2026

AUŠRA KAZILIŪNAITĖ, VIRGINIA HIGA, RENATO NOGUERA & LOURIVAL BATISTA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Music from Man Of La Mancha (2018), Love Stories (2019), Mirror Mirror (2021), Quietude (2022) e Time And Again (2024), da premiada cantora, pianista, arranjadora e compositora, Eliane Elias. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


Era dezembro & La Madóna di Ursatt... - Desassombrado, Zé-Bruão não abria nem prum trem descendo desenfreado. Pro grandalhão, situação que fosse, encarava; se a civilidade não vingava, tabefes, sarrabulhada. Apelidavam-no, às escondidas, de tudo que fosse abrutalhado, bicho ruim, até de Urso: Lá vai ele, ruindade! E ele só de cara fechada, de soslaio mostrando os queixares no canto da boca. Assim enfrentou muitas e tantas: linguarudos, desenvultados, maluvidos, topetudos, moléstias e pragas. Deu cabo de jactantes, poltergeists, tomahawks, nem pestanejava, providências nos conformes, nocaute no desafeto e limpava as mãos: Resolvido. Qualquer surpresa aversiva tratava na maior naturalidade, levava no comum: favas contadas. Enfrentou outras e quantas, o invencível, famigerado. Eis que amanhecia sexta 13, bateram à porta. Quem é? Não ouviu resposta. Desaferrolhou e... teibei! Viu-se impactado: arrepiou os cabelos, do globo ocular se dilatar estarrecido, dando voltas quase saltando fora, tonteou e teve um troço. Despertou com uma venta aos bafos na sua, o peso na caixa dos peitos fazendo força para reavivá-lo. Hem? Reagiu sacudindo longe, violentamente, o despropósito. Ora, ora. Estava fora de si, vertiginoso, balançou a cabeça, cerrou os punhos esfregando-os aos olhos e não viu nada: Tô cego. De novo, o canto mais limpo: Pesadelo brabo. Ih! Que piripaque é esse? Levantou-se de um pulo, asseou-se e saiu de casa à toa. Andou, zanzou, voltou, girou e, ao dobrar a esquina, esbarrou. Virge! Teve uns tremeliques e, quando deu por si, estava jogado numa maca hospitalar. Vôte! Era o absurdo e parecia ter emergido, sem mais nem menos, do fundo duma garrafa de seu destino, ninguém estava a salvo. Será? Ergueu-se firme e zarpou derrubando males e paredes, espichou lonjuras. Aí atravessou a manhã, percorreu toda tarde e, na boquinha da noite, cadê? Vasculhou a paisagem, nada. Retornava ao domicílio e de repente: Eita! Via-se de novo em palpos de aranha. Ainda deu pra ouvir: Que moleza é essa, moço? Hem! Parecia mais um donzelão! Oxe! Só conseguia balbuciar blábláblás, cheio de vírgulas e interrogações. Lascou! Estava desvelado o seu mais secreto: o indócil era mesmo casto, ali sua vulnerabilidade. Que negócio é esse? Para quem era o emblema da crueldade, da selvageria, da brutalidade, que havia reunido em si todos os poderes dos polares, dos pardos, dos grizzlies, dos negros americanos e asiáticos, dos pandas, dos de-óculos, dos malaios e dos preguiças, agora um tabacudo que só via de bom ali o cheiro de mel. Ué! Donde vinha o eflúvio melífluo que amolecia suas reações? Cobriu-se de pressentimentos, quase vira a cara e fugia da serendipidade. De viés viu o forte modo dela, deslindou a sua topografia corporal e cismou: esbelta, onduladas ancas, seios graciosos, hummmm. E intuiu: Ó, me ferrei nessa! Então perscrutou: era dela e quem? A melífica deusa celta Artio havia descido das constelações Arcturus & Ursinho, com toda pompa ancestral dos ainus, da ilha japonesa de Hokaido, para intimá-lo. Danou-se tudo agora! Ele tombou escusas acossado pela irrupção, o tempo endoidecia escamoteando emoções. E como era dezembro, embananou tudo: tempo da festa Ainu Kamui omante. E ela: Veja! Mostrava pra ele a presença de todos os koriaks, os giliarks, tlingits, tongas e haidas, todos o aguardavam. Também os pomos, os iacutos, os soiotes, os tungúsios, os chores, os teleutes, os lapões, os tártaros de Altai e Minussink, os pueblos no kiva, todos olhavam pra ele. Acha pouco é? Ela asseverou: Tem que se lembrar e não esquecer de nada. Que coisa! Meio mundo de gente! Então, foi cientificado por ela: Trouxe o mistério Yu-o-Grande para incorporá-lo no poder dos kshatriya. Como? Você é o Avô dos algonquinos canadenses; e também riksha, a montaria da yogini Ritsamada. Tá ficando doida, é? Dance. O quê? Dance, vá! Você é o inconsciente ctônico, o seu sopro emana das cavernas para acompanhar a minha irmã, Ártemis, na hierofania lunar pelos cemitérios da Sibéria. Agora deu! Você tem que me devorar se eu for culpada. Pronto! E encantadoramente ela solfejou para a plateia toda: Tomai bastante cuidado, pobres mulheres / tomai bastante cuidado com vosso ventre / protegei vosso pequeno fruto!... Pela primeira vez na vida ele estava deveras encurralado: Tô fodido e mal pago! De que adiantava tanto poderio se, àquela hora, tudo era inútil. E deu um passo atrás, mais outro e viu-se cercado, enfim cedeu. Vamos! E seguiram por entre estatuetas em bronze de Muri, em Berna, acompanhados pelos celtas Helvetii. No culto da deusa: Vamos salvar famílias da fome. Hum? Ali mesmo ela então uniu o céu e a Terra; e recomendou com severidade: feche os olhos, respire profundamente e recolha-se dentro de si. Desça aí bem fundo, tape os ouvidos, não tenha medo, está protegido por mim. E, dominando o desajeitado, quebrou-lhe a resistência paulatinamente e acasalaram nos Alpes Réticos. Eita, tirou o cabresto! Viva! Durante a cópula nasceram-lhes na hora dois filhotes que saíram para socorrer uma mãe faminta com os seus cinco chorosos filhos. Onde? Numa aldeia alpina, a coitada genitora rezava devotadamente e enchia uma grande panela com água para ferver, fingia preparar a refeição, não havia nada. Desesperada foi ao jardim e constatou: nenhum comestível. Recolheu um punhado de pedras: que mais poderia fazer? E as escondeu sob as vestes, voltando à cozinha. A água mal esquentava e bateram à porta: quem seria? Eram os dois filhotes trazendo o milagre: estavam providos em abundância, o amor é providencial redenção. Até mais ver.

 

Doris Lessing: São as nossas histórias que nos recriarão quando estivermos dilacerados, feridos, até mesmo destruídos. É o contador de histórias, o criador de sonhos, o criador de mitos, que é a nossa fênix, que nos representa no nosso melhor e no nosso momento mais criativo... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Juana de Ibarbourou: O amor é fragrante como um ramo de rosas, amando se possuem todas as primaveras... Veja mais aqui.

E. L. James: Existe uma linha muito tênue entre prazer e dor. São duas faces da mesma moeda, uma não existe sem a outra... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

EXISTE UM RIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Há mulheres tão retas quanto cordas, sempre se esforçando para serem afinadas. / Você não um encontrando único fiapo em seus restos. / Há homens de terno que sempre apertam sua mão. / Eles sorriem – mas mentemente. Dissíduo / Há um vagabundo que dormiu no ponto de ônibus de Šilo. / Há um rio por perto. Há colinas e vales. / Há cartas sem resposta e patos flutuando em água fraca. / E lá estou eu – eu / a pendurar o alaúde, em algum momento, realmente / sabia o que fazer e querer da vida. / E ali existe um rio. / Há rios em potes de vidros e em tempos de sorteio há muitos / em nossas pequenas despensas. Risos mofados. / E há núcleos, asas lindas núcleos do céu. Elas mudam. / Ali são suas mãos. / Ali está a vontade de pegar e querer sua mão. / Ali está uma cidade. / Ali estão as ruas. / Ali estão as casas. Ali estão escadarias. Ali estão degraus. / Às vezes subimos mais alto. Às vezes descemos. / Existe uma noite. Dormimos à noite. Existe o dia. / Existem cafeterias, universidades e lojas. Existem escritórios e galerias. / Categoria: Fotos existem. Categoria: Fotos do existem. Categoria: Fotos do existem. / E ali existe um rio.

Poema da filósofa e poeta lituana Aušra Kaziliūnaitė, autora dos livros The First Lithuanian Book (2007), 20% Concentration Camp (2009); The Moon Is a Pill (2014), I Am Crumbled Walls (2016) e Jūros nėra (2020).

 

O ENCANTO DO VERÃO - [...] E quão pouco alcance têm a graça ou a inteligência, em todo caso, se elas só podem ser percebidas através da linguagem. [...]. Trecho extraído da obra El hechizo del verano (Sigilo Editorial, 2023), da escritora e tradutora argentina Virginia Higa, que no seu outro livro, Os sorrentinos (Sigilo, 2018), ela expressa que: [...] Os sorrentinos eram uma massa redonda e recheada inventada por Umberto, o irmão mais velho de Chiche, e batizada em homenagem à cidade de seus pais. O sorrentino não tinha a borda de massa dos pansotti, nem o recheio de carne dos agnolotti, nem continha ricota como os cappelletti. Era uma meia esfera com algum volume, feita com uma massa secreta, macia como uma nuvem, recheada de queijo e presunto. [...].

 

IARA – [...] as habilidades de Iara são a causa de sua desgraça: A guardiã do reino das águas percebeu antes do ataque a ação dos irmãos, e para se defender flechou mortalmente todos eles. Ao tomar conhecimento do fato, o seu pai e pajé, sem buscar o motivo da ação da filha, tomado de dor, decidiu castigá-la. Iara foi obrigada a fugir. Iara escondia-se porque amava o pai e não queria confrontá-lo. Ela dormia camuflada, misturada com a floresta e seus habitantes. A moça não temia onça nem cobra; o único medo era o pai. Tomada pela culpa, passava dias sem encontrar sono. Mantinha-se a maior parte do tempo em vigília, à espreita, pronta para se defender de um ataque. Depois de sete ciclos de lua cheia, o pai encontrou Iara acampada entre árvores. Em uma manhã em que o sol chegou manso e a chuva fina da noite tinha se retirado, o dia fresco embalou o sono de Iara. Assim, o pai amarrou a própria filha, arrastou-a até o encontro voraz entre os rios Negro e Solimões. Iara acordou com a queda nas águas e desceu como uma pedra até as raízes dos rios. O espírito das águas junto ao reino dos peixes protegeu Iara e a transformou em uma mulher peixe. A partir de então, ela tem atraído homens para o fundo dos rios. Em geral, esses homens nunca retornam. Por isso, sua reputação permanece assustando quem passa pelo domínio de suas águas. [...]. Trecho extraído da obra Mulheres e deusas: Como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual (Harper Collins, 2018), do filósofo, escritor, dramaturgo, roteirista e pesquisador Renato Noguera, também autor da obra O ensino de filosofia e a Lei 10.639 (Pallas, 2015).

 

LOURIVAL BATISTA, O LOURO DO PAJEÚ

Cantar comigo é um risco / quebra pedra, espalha cisco; / vem trovão, e vem corisco; / vem corisco e vem trovão; / desce água em borbotão; / as águas formando tromba / teu açude, agora, arromba / nos oito pés de quadrão!

É muito triste ser pobre; / para mim é um mal perene…/ trocando o ‘p’ pelo ‘n’, / é muito alegre ser nobre;/ sendo ‘c’, é cobre / cobre, figurado, é ouro / botando o ‘t’, fica touro / como a carne e vendo a pele / o ‘t’, sem o traço, é ‘l’ / termino só sendo Louro!

Para Dragão, estás errado, / pois Lourival já te explica: / tira letra, apaga letra, / bota letra e metrifica: / tira o ‘d’, apaga o ‘r’ / bota o ‘c’, vê como fica…

Poemas do repentista e poeta popular Lourival Batista (Lourival Batista Patriota – 1915-1992), o Louro do Pajeú, rei do trocadilho. Em sua homenagem foi publicado o livro Um certo Louro (EduFRN, 2001), pelo poeta e professor Alberto da Cunha Mélo. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

USINA DE ARTE FESTIVAL JAZZ & BLUES

 


Capiba aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Valéria Vicente aqui.

Marco Nanini aqui.

Ana das Carrancas, a Dama do Barro (Ana Leopoldina dos Santos - 1923-2008) aqui & aqui

Mestre Zé do Carmo (José do Carmo Souza – 1933-2019) aqui.

Virginia Leal aqui, aqui & aqui.

Lula Cardoso Ayres aqui, aqui & aqui.

Helia Scheppa aqui.

Xirumba Amorim aqui.

Nash Laila aqui.

&

AS MULHERES NA REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

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domingo, março 08, 2026

LAILA LALAMI, DARIJA ŽILIĆ, KATE BORNSTEIN & ARNAUD RODRIGUES

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Oíd su nombre olímpico resuena por el globo, \ Lo dice en Carabobo; triunfante su clarín; \ Y con marcial estrépito, también su nombre escucho, \ Glorioso en Ayacucho, magnífico en Junín. \ Los cánticos de gloria para él no tienen fin. \ ¡Bolívar! Dice El Ávila…

Trecho do Himno al Libertador Simón Bolívar (musical para solista, coro y orquesta, 1883), da pianista, cantoras, compositora e maestrina venezuelana Teresa Carreño (María Teresa Carreño García de Sena - 1853-1917), com letra do poeta venezuelano Felipe Tejera (1846-1924), com regência de Gonzalo Castellanos & Orquesta Sinfónica Venezuela con la Coral Filarmónica. Veja mais aquí.

 

A desconhecida da oculta rua anônima... - Naquela tarde Manuela sentiu a leveza de sua alma libertária. Era março e aniversariava revivendo o falatório festivo de seu batizado: um encômio à heroína espanhola Malasaña Oñoro. Salves e vivas. Seguia espontânea e extrovertida Monika, com suas dezessete primaveras repletas de beleza e simpatia, enquanto esperava quase Emma pelo emergente príncipe encantado que nunca dera as caras para sua redenção. As lembranças rondavam agora distantes suas passadas no crepúsculo: o cheiro de pão quentinho trazido pelo genitor padeiro e as orações maternas da costureira por mais um dia reunindo trapos. Queria era fugir da rotina e dos assédios, ignorando que na sua fuga caíra coagida na arapuca daquela Maria Kutschera, encurralada na casa dos Von Trapp, Santa Zita que a salvasse do martírio de La mujer que nunca hizo nada. Escapulia serelepe entre os jardins, sonhava Maria Teodora: o mundo todo era seu à beira dos canteiros, alheia a tudo, o universo espargia no seu coração. Era uma tarde como outra qualquer e nem se dera conta do convulsivo confronto entre prós e contras com seus tambores beligerantes. Os seus olhos no rio espelhavam o céu e o inexplicável outro lado de lá, todos os futuros na espiral dourada, ornando memórias e fantasias aos ventos: era só uma menina que adolescia no afã de amar pela primeira vez, sem a astúcia da Charlotte. Nem ouviu o disparo: abriu-lhe a fronte e uniu suas sobrancelhas, pálpebras cerradas na vertigem de tombar ao meio fio da praça. Logo um cortejo se fizera em sua alada projeção, reunindo umas às outras, desde a Juanita de Ampato, a jovem vítima celta dos Durotriges de Dorset, as dos Odinists de Delphi, as 3 mulheres de Arroio dos Ratos, as esquartejadas da casa de Florencio Varela, as de São Cristóvão de Salvador, as enterradas no jardim de Buenos Aires, as duas da casa de Vicência, as jovens de Feira de Santana, as assassinadas a tiros no Rio, a dos feminicídios em São Paulo, a procissão das que sucumbiram ao juvenicídio da necropolítica. Sentiu-se assim um vago sobrenome a mais na pele de Eloá e o retrato perdido pelo sangue que escorria pelas homicidas mãos paternas. Muito menos saberia tempos depois ali mesmo, pelas mãos enamoradas do poetescultor, a sua imagem escultural como uma respigadora Afrodite Kalipígia - La Spigolatrice di Sapri: a desconhecida duma rua anônima. Até mais ver.

 

Carolina Maria de Jesus: Quem inventou a fome são os que comem... Quando o homem decidir reformar a sua consciência, o mundo tomará outro roteiro... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Louise Gluck: A alma é silenciosa. Se ela fala, fala em sonhos... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Rhonda Byrne: Plante o máximo de bons pensamentos que puder em cada dia... Seus pensamentos causam seus sentimentos... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

RESPIRAÇÃO - Respire e deixe que as sombras da geada e dos tubérculos se intensifiquem. \ Quebre e abra seus jardins interiores \ E o coração, que acumulara amargura por anos, \ Deixe descansar sob o toque suave \ da mão silenciosa de alguém.

O FUTURO É PROMISSOR! - Quero dizer, de hoje para amanhã. \ Um bilhete de compra dizia: atum, \ O protetor de tela contém uma imagem. \ de uma flor na água. \ O futuro é promissor, disse. \ a famosa atleta, e então ela acrescentou— \ Viva o presente e pense apenas no agora. \ depois.

Poema da poeta, crítica literária, tradutora, ativista e editora croata Darija Žilić, autora de obras como Breasts and Strawberries (2005), To Write in Milk (2008), Muse outside Ghetto: Essays on Contemporary Literature (Prêmio Julije Benešić, 2012), Nomads and hybrids: Essays on Contemporary Literature and Film (2010), Parallel Gardens: Interviews with Theorists, Writers and Activists (2010), Tropics: Critics about Contemporary Poetry (2011), Dance, Modesty, Dance (2010), Omara (2012) e Tropics 2: critics about poetry, prose and society (2014).

 

HOTEL DOS SONHOS – [...] Ser mulher era observar a si mesma não apenas com os próprios olhos, mas também com os olhos dos outros. [...] Historiadores observam o mundo, cientistas tentam explicá-lo, mas são os engenheiros que o transformam. Passo a passo, substituíram casamenteiros de aldeia por aplicativos de namoro, arautos por redes sociais e médicos locais por ferramentas de diagnóstico. Chegou a hora de sábios, místicos e profetas cederem lugar à inteligência artificial. Assim, a história segue em frente. [...] Em todo caso, o crime é relativo — seus limites se alteram a serviço das pessoas no poder. [...] Em determinadas circunstâncias, qualquer coisa pode se transformar em algo sinistro. [...] A vida foi feita para ser vivida, para ser aproveitada ao máximo, para que toda a sua beleza e alegria sejam extraídas; ela não foi feita para ser contida e inventariada em nome da segurança. [...]. Trechos da obra The Dream Hotel: A Read with Jenna Pick (Pantheon, 2026), da escritora marroquina Laila Lalami, autora de obras como Die Anderen (2021), La Florida (2020), Conditional Citizens: On Belonging in America (2020), The Other Americans (2019) e The Moor's Account (2014).

 

A PRÓXIMA GERAÇÃO FORA DA LEI DE GÊNERO - [...] É fácil ficcionalizar uma questão quando você não está ciente das muitas maneiras pelas quais você é privilegiado por ela. [...] A primeira pergunta que costumamos fazer aos novos pais é: “É menino ou menina?”. Há uma ótima resposta para essa pergunta que circula por aí: “Não sabemos; ainda não nos disse”. Pessoalmente, acho que nenhuma pergunta que contenha “ou um ou outro” merece uma resposta séria, e isso inclui a questão do sexo do bebê. [...] Nunca transe com alguém com quem você não gostaria de transar. [...] Em vez de dizer que todo gênero é isso ou todo gênero é aquilo, vamos reconhecer que a palavra gênero carrega consigo inúmeros significados. É uma amálgama de corpos, identidades e experiências de vida, impulsos subconscientes, sensações e comportamentos, alguns dos quais se desenvolvem organicamente e outros são moldados pela linguagem e pela cultura. Em vez de dizer que gênero é uma única coisa, vamos começar a descrevê-lo como uma experiência holística. [...]. Trechos da obra Gender Outlaws: The Next Generation (Pub Group West, 2010), da escritora, atriz e ativista estadunidense Kate Bornstein, que na obra Hello Cruel World: 101 Alternatives to Suicide for Teens, Freaks & Other Outlaws (Seven Stories Press, 2006), expressou que: […] Tenho a ideia de que, sempre que descobrimos que os nomes que nos dão nos impedem de sermos livres, precisamos criar novos nomes para nós mesmos, e que os nomes que nos damos não devem mais refletir o medo de sermos rotulados como forasteiros, não devem mais nos prender a um sistema que preferiria nos ver mortos. [...] Vamos parar de "tolerar" ou "aceitar" a diferença, como se fôssemos muito melhores por não sermos diferentes. Em vez disso, vamos celebrar a diferença, porque neste mundo é preciso muita coragem para ser diferente e agir de forma diferente. [...] E lembre-se de que a pessoa que torna a vida digna de ser vivida hoje não será a mesma pessoa que tornará a vida digna de ser vivida daqui a um ano. Identidades não são feitas para serem permanentes. São como carros: nos levam de um lugar para outro. Trabalhamos, viajamos e buscamos aventuras com eles até que quebrem de vez. Nesse ponto, viver bem significa encontrar um novo modelo que se adapte melhor a nós em um novo momento. [...]. Ela também é autora de A Queer and Pleasant Danger: The True Story of a Nice Jewish Boy Who Joins the Church of Scientology and Leaves Twelve Years Later to Become the Lovely Lady She is Today (2006). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ARNAUD RODRIGUES

Em cima daquele morro \ Passa boi, passa boiada \ Passa boiada \ Tem movimento paca! \ Em cima daquele morro \ Passa boi, passa boiada \ Passa boiada \ Tem movimento paca! \ Tem movimento paca! \ Paca, tatu, cotia, não \ Não tem na serra não \ Ah, porque nêgo mata! \ Joguei uma pedra nágua \ De pesada, foi ao fundo \ E foi ao fundo \ E ninguém disse nada! \ Tubarão, peixe, piaba \ Tubarão, peixe, piaba \ Não respondem não \ Ah, se não, nêgo mata! \ Batatinha, quando nasce \ Esparrama pelo chão \ Esparrama não! \ Ah, porque nêgo cata! \ E passarada passa o arado \ E nada vem do chão \ Ah, porque nêgo rapa! \ Mata jacu, jaó \ Paca, tatu, maracajá \ No jacá de cipó \ E taca o tiro, e taca a faca \ A faca fere a fera! \ Onde a inteligência impera \ É que se dá coisa pior \ E morre a fauna e não se ouve \ O sabiá cantando! \ E morre a flora e não se vê \ A flor desabrochando! \ E não se escuta mais o ronco \ Daquela cascata! \ É o fim da vida, é o fim da água \ Nêgo tá matando a mata!

Letra da música Em Cima Daquele Morro, do álbum O som do Paulinho (1976), do ator, cantor, compositor, roteirista, produtor e humorista Arnaud Rodrigues (Antônio Arnaud Rodrigues – 1942-2010), que estreou na extinta TV Tupi, foi parceiro de Chico Anysio, do qual foi parceiro do grupo musical Bahiano & Os Novos Caetanos, atuando como Paulinho Cabeça de Profeta, creditado como um dos precursores do rap brasileiro. No cinema ele atuou nos filmes O Doce Esporte do Sexo (1971), Uma Nega Chamada Tereza (1973), Os Trapalhões e o Mágico de Oróz (1984) e A Filha dos Trapalhões (1984). Veja mais aqui & aqui.

&

1817 – A REVOLUÇÃO ESQUECIDA

O documentário 1817 – A revolução esquecida (2017), dirigido por Ricardo Favilla & Tizuka Yamasaki, conta a história pernambucana de março de 1817, do levante civil-militar, independentista e republicano da história brasileira, envolvendo a paixão de Domingos José Martins e Maria Teodora, que viviam um amor proibido e se casam. O filme é inspirado na obra A noiva da revolução: o romance da República de 1817 (1977 – Comunigraf, 2006), do escritor e jornalista Paulo Santos de Oliveira. Veja mais aqui & aqui.

 

Paulo Diniz aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Isa Pontual aqui.

Tiago Amorim (Sebastião Wilson Ferreira de Amorim) aqui & aqui.

Kamille Carvalho aqui.

Clóvis Pereira aqui & aqui.

Lúcia dos Prazeres aqui.

Gilvan Lemos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Layza Pereira aqui.

Cícero Dias aqui, aqui, aqui & aqui.

Terezinha do Acordeon aqui.

 &

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja o vídeo do show aqui & mais aqui & aqui.



 


domingo, março 01, 2026

PHILIPPA GREGORY, JANA ORLOVÁ, CAROLYN PORCO, LUIZ FELIPE PONDÉ & JAQUE MONTEIRO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Echolocation (1987), A Delay is Better (2004), A Secret Code (2021), Echolocation - Freedom to Spend (2021) e Simultaneous (2025), da compositora, performer e artista multimedia estadunidense Pamela Z.


 

Cômpito das emoções, desvelo da consanguinidade... - Depois de haver realizado os 12 trabalhos de Hércules e a jornada do herói de Campbell, o andejo Uiruuetê viu-se escolhido sem nem mesmo saber pra quê, errante por um sentido pra sua existência. Afinal, a seu ver, ninguém valia mais que a sua própria morte. E já que era filho da poderosa Uiraçu – a que desde os tempos em que o céu quase esmagou a terra dos Ikolen, salvando-os do desastre e totemizada em símbolo da conexão entre o céu e a terra -, vinha ele de lá degustando paisagens do Paraná, diuturnidades pelo Mato Grosso, alumbramentos pelo Rio de Janeiro, pouso emergencial em Campo Grande, já que repentinamente estava sob escolta e acontecências inexplicáveis. Matutava a querela de ter sido confundido com acauã – ah, por conta do agouro de morte e chamado sinistro da seca, lobrigou -, sendo por isso jogado num ninho de gaviões hostis. Pelava-se de medo, havia no ar a ameaça de ser devorado. Para quem fora abandonado pelo irmão e familiares, era mais uma provação. Uma velha tartaruga veio não se sabe de onde, só cuspir-lhe às faces, punindo-lhe o passado. Insultado ao limite, atacou com vingança até apropriar-se de todas as cores da quelônia. E sua revolta o fez inchar-se peremptório, a ponto de grasnar trovejante e, com toda ferocidade, agitou o brasão do Panamá e nasceu-lhe um penacho na cabeça, a coroa da sua monarquia; seu corpo encheu-se de penas, seus braços eram agora asas possantes e viu-se bípede nas patas com unhas aduncas. Desfez-se o mal entendido e logo foi incorporado à dança dos gaviões do povo Awá-Guajá e, rodopiando entre os Karawara, os espíritos da floresta, tornou-se imediatamente parente dos urubus-buzzards, milhafres-milhanos-queimados, harriers-tartaranhão, buteos e águias. Já estreitado, ele soube da inundação que emergiria dos confins do mundo e teria de partir visando salvar a parentela que deixara longe dali. Chegando lá, a surpresa: foi tratado como a vergonha da família, um pervertido demônio e enxotado aos apupos dos insensatos desafetos. Lamentou-se exilado no meio da tempestade que despencara pro dilúvio dos Tocantins. Sem razão pra viver deu o mergulho fatal e se deixou levar pela correnteza. Sentiu-se envolvido por uma harpia com seus ventos tempestuosos, resfolegou apavorado e, quase afogando-se, usou de sua rapidez, perspicácia e instinto de caça, até desvencilhar-se da morte a cantarolar uma modinha: Voa, voa, voa gavião \ Vai caçar noutro chão \ Vai se embora e volta não... Por um instante respirava aliviado, quando viu lá longe, no topo da montanha, um vulto de mulher. E pra lá se esgueirou apressado: Quem será? Aproximando-se reconheceu Moema, aquela de cujo ventre nasceu o bastardo Brasil, de Adriana Varejão. A nativa Tupinambá havia ressuscitado depois de afogar-se de paixão por seu amado Caramuru, que partiu sem dizer adeus. Tempos depois, um jovem Sioux por ela enamorou-se e, pela segunda vez, desabou em prantos. Estava ali provando da infelicidade: onde sua mãe virou águia para trazer a água e acabar com a seca que assolava. Ledo engano. Por sua incansável faina envelhecera e viera praqui depondo o seu próprio bico, penas e garras, para morrer e ressuscitar. Ainda a viu bicando pedras, mas ela ao avistá-la, logo voou senhora dos ares, rainha do céu, a mãe das aves, para nunca mais. O que fazer então? Assim, noites e dias. Ele, um gavião errante; ela, uma águia enlutada. E a lua era cúmplice das líricas confissões, o Sol esquentava nas veias o teor de arrebatadora paixão. Ali, solidários, o movimento das águas, a dança das estrelas, o mormaço dos corpos, a brisa da paixão. As águas baixavam e o alarme ecoou do monstro Voçoroca, uma ameaça destrutiva e precisavam agir sem demora. Antes, porém, completamente apaixonado, ele ousou indagar: Quem era sua mãe? Uiraçu. Como? Já iminente hora e voaram para cumprir cada qual sua missão. Até mais ver.

 

Wislawa Szymborska: Todo começo nada mais é do que uma sequência, e o livro dos acontecimentos está sempre aberto no meio... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Svetlana Alexievich: Um tempo cheio de esperança foi substituído por um tempo de medo. A era deu uma volta e retrocedeu no tempo. O tempo em que vivemos agora é de segunda mão... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Juliette Binoche: Vivo sempre o presente. Aceito esse risco. Não nego o passado, mas é uma página que preciso virar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

I - Você se senta diante da morte. \ Está quente e nas alturas \ Você vai arrancar a sua própria pele. \ para atender a uma marca.

II - Tudo é temporário. \ certamente até mesmo que você seja o denominador \ de todos os meus pensamentos \ Em termos de sentimento, há algo \ infantil, e ainda \ É melhor ser um herege do que um santo.

Poemas da poeta, curadora e teórica de arte checa Jana Orlová, autora de obras como: Čichat oheň (2012), Újedě (2017), Падло й інші вірші (2019), Mă fuţi din milă (2019), Choice of Lipstick (2020), Nie uciekniesz (2021), Neutečeš (2022) e Pus (2022).

 

TERRAS MARÉS – […] Ela havia encontrado, incrustada em seu coração, como um poste de campo submerso em um barranco de lama, uma grande determinação para viver. […] Ela permaneceu em silêncio em meio aos sons tranquilos da noite, e a certeza a invadiu. [...] Eram pessoas simples: quando alguém lhes dizia que não tinham nada a temer, sabiam que estavam em apuros. [...]. Trechos extraídos da obra Tidelands (Thorndike Pr, 2019), da escritora e acadêmica anglo-queniana Philippa Gregory, que também se expressa: Acredito em mim, na minha visão de mundo. Acredito na minha responsabilidade pelo meu próprio destino, na culpa pelos meus próprios pecados, no mérito pelas minhas próprias boas ações, na determinação da minha própria vida. Não acredito em milagres, acredito no trabalho árduo... Você precisa escolher o melhor, todos os dias, sem concessões... guiado por sua própria virtude e mais elevada ambição... Veja mais aqui & aqui.

 

NÓS & A TERRAUma poderosa sensação surge dentro de nós quando vemos nosso pequeno planeta azul oceânico nos céus de outros mundos. Num instante, percebemos o quão pequenos, frágeis e solitários realmente somos... Vamos ensinar aos nossos filhos, desde muito pequenos, a história do universo e sua incrível riqueza e beleza. É algo muito mais glorioso, impressionante e até reconfortante do que qualquer coisa que eu conheça, seja encontrada nas escrituras ou em qualquer conceito de Deus... Nós, humanos, embora problemáticos e belicosos, também somos os sonhos, os pensadores e os exploradores que habitam um planeta de beleza comovente, ansiando pelo sublime e capazes do magnífico... Pensamento da planetóloga, astrônoma e acadêmica estadunidense Carolyn C. Porco, que desenvolve o trabalho de exploração do sistema solar, tendo começado no Programa Voyager, nas missões aos planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, nos anos 1980, líder do programa de imageamento da sonda Cassini-Huygens, em órbita de Saturno e atualmente atua na divisão de imageamento da sonda New Horizons, lançada rumo a Plutão, em 2006, e atuando como especialista em anéis planetários e no satélite natural de Saturno, Encélado. Veja mais aqui.

 

LUIZ FELIPE PONDÉ

Sem hipocrisia não há civilização - e isso é a prova de que somos desgraçados: precisamos da falta de caráter como cimento da vida coletiva...

Pensamento do filósofo, escritor, ensaísta e professor Luiz Felipe Pondé (Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé), autor de obras como: O homem insuficiente: Comentários de Antropologia Pascaliana (2001), Crítica e profecia: filosofia da religião em Dostoiévski (2003), Contra um mundo melhor: Ensaios do Afeto (2010), Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (2012), A filosofia da adúltera - Ensaios Selvagens (2013), A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo (2014), Guia Politicamente Incorreto do Sexo (2015), Filosofia para Corajosos (2016), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

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VOU CONTAR ATÉ 100, JAQUE MONTEIRO

Acaba de ser lançado o livro Vou contar até 100 (Uiclap, 2026), da escritora e arte-educadora Jaque Monteiro, reunindo 100 microcontos e todos os microtextos com 100 caracteres. Ela é autora dos livros Estações de humor, do I Oficina de Catadupas do Brasil (2025) e As setigonistas ao quadrado (2026). Veja detalhes e muito mais aqui, aqui & aqui.

 

Luiz Vieira aqui

Arlete Salles aqui, aqui & aqui.

Paulo Bruscky aqui, aqui, aqui & aqui.

Tâmara Dornelas aqui.

Nhô Caboclo (Manuel Fontoura 1910–1976) aqui.

Janaína Esmeraldo aqui.

Irandhir Santos aqui.

Bruna Valença aqui.

Reynaldo Fonseca aqui.

Lourdes Nicácio aqui.

 


AUŠRA KAZILIŪNAITĖ, VIRGINIA HIGA, RENATO NOGUERA & LOURIVAL BATISTA

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Music from Man Of La Mancha (2018), Love Stories (2019), Mirror Mirror (2021), Quietude ...