domingo, novembro 20, 2022

EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

 

 Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel, com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina finlandesa Dalia Stasevska.

 

TRÍPTICO DQP: - A solidão do poema... - A lenha da palavra e a combustão da ideia: a fogueira da poesia. A cidade é uma penumbra asfixiante, mais parece a nuvem tóxica de Nova Delhi. Emma Lazarus surpreende a caminhada: Então a Natureza moldou o coração de um poeta - uma lira/ de cujos acordes a brisa mais leve que sopra / deu uma música trêmula... Olhos escondidos perseguem a minha clausura andeja. Confesso arrasado na rotina ordinária, renegado pela intolerância e mediocridade. Quantas aspirações, fingimento, privações. Era como se eu fosse o lenhador de fadas com a missão secreta d’O Golpe de Mestre do Fairy Feller de Richard Dadd: a imaginação cheia ao deitar por malograr no atentado ao papa e o parricida esfaqueando o demônio a mando de Osíris entre fadas e gramíneas, gnomos e flores, elfos e o machado pronto para o golpe na castanha; a libélula ao trombone para a rainha Mab com seus centauros, o menino e o monge anão com outros mágicos, uma aranha tecelã, o lavrador e o político dos patriotários, o dândi de fada por cima da ninfa, um pedagogo agachado, duas empregadas e um sátiro, um esfarrapado e o bisbilhoteiro, as crianças nas margaridas e uma nova carruagem para a realeza dos sonhos de Oberon e Titânia, nos sonhos de uma noite de verão de Shakespeare. Lá iam as investidas criminosas e a disrupção psicótica para enlouquecer com o Queen nas xilogravuras do Clique, as vozes instigantes e as gargantas cortadas, o non compos mentis como na narrativa do Perceval de Bateson e o fetiche por ovos e cerveja. Senti na pele o doloroso pesadelo, não era eu e só despertei com Marguerite Yourcenar: Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino... Também duvido da minha sanidade, talvez eu seja um perigo paratodos, resta a companhia de mim mesmo, não há saída: a vida reduzida ao poema e nada mais...

 

O grito rasga o dia... – Imagem: Arte do escultor, pintor, gravador e professor Rubem Valentim (1922-1991). - Tudo parece em ordem, mas não está. O que previsivel diante do inesperado? Não era apenas afeto ou asco, nem apenas heroi ou vilão no conflito entre pícaros – quem se aceita a si mesmo? Passado e presente embaralhados: o heroi sem carater, o golpista dissimulado e o céu de vermelho-alaranjado com o silêncio desesperador e seus fantasmas. Os amigos se foram e eu fiquei com o toque de melancolia, o grito de Munch: o fracasso do amor e a alienação dos outros. Assim a existência com suas perdas, a tristeza das doenças, a ansiedade e a morte, o socorro agozinante e a vida real na Noite da rua Karl Johan - eliciadores do medo e a revivescência, os nervos à flor da pele, ameaças e quantos pretextos para viver as muitas versões: A dança da vida em Åsgårdstrand e lá estava o friso da vida na Madonna nua e feita de Amor e dor - era Marina Abramović como Selma Lagerlöf: Ninguém pode livrar os homens da dor, mas será bendito aquele que fizer renascer neles a coragem para a suportar. A alegria é a dor que se dissimula - à face da Terra só existe a dor. Como reconciliar eu não sei, só se um OVNI viesse abduzir-me com a supressão da memória, mesmo que os erros batessem à porta e eu me esquecesse da paixão antiga pela tia – como se fosse antes da Revolução de Bertollucci, nem lembrasse de quantos amores se perderam e nada mais pudesse viver de benéfico nem de venturoso. Seguir pelas pedras e rieiras...

 


Não estava só na loucura... - Imagem: arte da artista visual Gio Simões, que se dedica ao desenho, à pintura e à fotografia. – Lá estava ela como se fosse a Dormeuse aux persiennes de Picasso: desligada de tudo, cansada e recolhida em si mesma. Olhou-me com surpresa e me disse Don DeLillo: A loucura é tão pessoal. É difícil saber quem compartilha nossos segredos... Logo abriu o jogo e fez-se tagarela inquieta, atormentada. Era como se sobrevivesse às lembranças da infância – o estupro de menina e o casamento falido dos pais, ela tragada como se protagonizasse If Only Alcyone Would Wake, de Joan Rodriguez. Insistia nua para lá e para cá: precisava acordar e assumir o controle de sua vida depois da depressão pós-parto – a lembrança dos seus dois lindos filhos, a sua infância com o conforto da arte na solidão e mais tamponava a dor na ideação suicida. Não poderia, jamais. Mais uma vez fitou-me severa e insistia em dizer que teve medo com a sua história despedaçada, precisava esquecer suas raízes, a escravidão disfarçada, fantasiar o presente sem que precisasse da aceitação ou recusa, e reiteradamente disse que nunca revelaria o seu segredo, pois, condenada a viver na escuridão. De repente se fez Nadine Gordimer: Eu sou a chama de uma vela que balança em correntes de ar que você não pode ver. Você precisa ser aquele que me firma para queimar. Eu falhei em muitas coisas, mas nunca tive medo. Todo mundo acaba caminhando sozinho em direção a si mesmo. Minha resposta é: Reconheça-se nos outros... Ah, não, era preciso cuidar dela, assim me fiz e nela do pesadelo à fantasia viva de amar. Era mesmo preciso, não estava só nas minhas andanças, uma vez mais e a vida. Até mais ver.

 


[...] Avaliar é indispensável em toda atividade humana e, portanto, em qualquer proposta de educação [...] A avaliação é inerente e imprescindível, durante todo processo educativo que se realize em um constante trabalho de ação-reflexão-ação [...] Precisamos, então, fazer com que nossa prática educacional esteja conscientemente preocupada com a promoção da transformação social [...] avaliar não pode ser um ato mecânico nem mecanizante para que possamos contribuir para a construção de competência técnicas sócio-política-culturais. [...].

Trechos extraídos da obra Avaliação: novos tempos, novas práticas (Vozes, 1998), do professor e pesquisador Edmar Henrique Rabelo. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



domingo, novembro 13, 2022

ANNA GREEN, KRISTEVA, SEXTON, BENJAMIN. BARNBROOK. JOANA LIBERAL & ESTÉVÃO QUEIROGA

 

Ao som do álbum Ciranda das Mestras (2015-2021), da pianista, compositora e professora da UFRGS, Catarina Domenici.

 

TRÍPTICO DQP: - Fábula de truz... - O prólogo e nenhuma pausa para o que saiba de queda ou excelência, só a chuva persistente e a cidade submersa em sono profundo: a perdição do paraíso distante que se esquivara pelos sonhos evadidos. Agora só os pesadelos rutilantes daqueles soberbos que nunca souberam perder com seus detritos perfumados difícil de digerir. Era como se ao meu ouvido Anna Katharine Green: Palavras podem ser ditas em um momento que não serão esquecidas em anos. A culpa não tem o direito de lucrar com a generosidade dos inocentes. De nada adiantava no barulho da grande indústria do desperdício subestimando o que esperava do chamado jamais chancelado, porque é tudo muito distante e desanimadores passantes com seus noturnos afetos desviantes, enquanto escapo peregrino da destruição e era como se um abismo me engolisse pelas subterrâneas escuridões de inferno disfarçado de futilidades destroçadas, só mosca na sopa, calo no sapato, pereba na perna e a violência implícita nos olhos de algodão forjado de louvores falsos, incestos, façanhas delirantes, desastres tempestuosos, surtos ameaçadores, reinvenções inúteis e ataques de pânicos pelas exóticas extravagâncias de biltres desertores comovidos, um enfadonho prato cheio de choradeira, desespero e baixaria, tudo malcheiroso e daninho. Era o trunfo da dietrologia caricatural, de nenhum hiato no acesso da saturação e sem o discernimento às escolhas, porque Walter Benjamin na sua solidão: Não se deve dizer que o passado clareia o presente ou que o presente ilumina o passado. É em uma imagem, que o outrora encontra o agora em um relâmpago, que forma uma constelação. E ainda não é outro dia como desde sempre. Reconstituo o tempo e um outro mundo talvez só depois da morte e era o meu retrato no mundo comum e sem graça: sonho amanhã porque algo acontecerá...

 


Florescer esperançável... - Imagem: arte da fotógrafa, arte-educadora e artista visual Tatiana Altberg. - Luto lutas e é cada um por si e Deus que segure as pontas. Da janela o lixo escorre pelas valetas e esgotos com mentiras, heroína, mercúrio, incinerações; as paranoias com a alternância de fatos alucinantes e o derretimento de reputações, soropositivos, paraplégicos, psicóticos, obesos, e indigentes nos muros quedavam com a insolência dos gestos, os plenos pecados diluídos na luxúria. Essa a convivência desmantelada pelas arrastadas tensões de invasores alheios obcecados com sua pele de branquitude bastarda aos controversos acenos sórdidos nas travessias insólitas com seus tumultos tão decadentes para habitar o mundo, mesmo que ouça Jonathan Barnbrook me dizer: Nós estamos criando novas formas para a humanidade se expressar melhor. Será? Sei do olhar do outro e os meus pelas paisagens humanas, a busca incessante por não sei o quê, autorretratos: estereótipos e ostracismo. Tudo leva ao genocídio silencioso – o silêncio é cúmplice da violência, enquanto repetem alhures que tudo é interdependente e indivisível. E mais voo mais que A partida e o norte de Estévão Queiroga: O caminho muda e ele muda o caminhante É um caminho incerto, / não um caminho errado / Eu, caminhante, quero o trajeto terminado, / Mas no caminho, mais importa o durante... É duro caminhar sozinho, exilado...

 


Pelas ruas da minha janela... - Imagem: Água na boca, da artista visual Joana Liberal. - As águas dos rios extrapolaram as margens e lavaram meus pés no meio da rua. Das ondas ela emergiu remanescente atlante, ninfa oceânica, Vênus enfeitiçante. Noutro idioma ela me falou ter se tornado gueixa para que eu fosse o marinheiro de sua odisseia e seu anjo da guarda para salvá-la ao ser amaldiçoada por abjurar a fé de seus antepassados. Antes fosse, o que seria uma grande farsa de alcoviteiros inescrupulosos que a aprisionaram numa arapuca por quase um milênio e não foi vendida ao príncipe Yamadori outra vez por causa da minha intervenção na sua quase imolação e eu não sabia de nada disso. Talvez ela fosse louca e tão bela quanto o raiar do dia para me mostrar na pedra as formas opulentas das Vênus paleolíticas e a de Bassempony para decifrar mais de 70 mil anos de grafias abstratas com linhas triangulares que se entrecruzavam e eu me perdia no seu olhar como nos paralelepípedos da Marianne de Delacroix, contando uma das histórias da catedral de Notre Dame nos deslumbres dos vitrais da arquitetura gótica e o mapa de Eratosthenes ao colo da nudez realçada por robustas coxas voluptuosas e seios fartos debruçados para que eu enlouquecesse pela maior tesão de tê-la espalmada ao meu jugo priápico. Como se adivinhasse o meu tormento fitou-me tal Julia Kristeva: Cada obra é apenas a tecelagem de outras obras já vistas. Tão inocente parecia, esplendidamente trágica para que eu amasse aquela estranha como nunca e ela mais pressentia Anne Sexton: Como já foi dito: O amor e a tosse não podem ser disfarçados, Nem mesmo a pequena tosse. Nem mesmo o pequeno amor. Viva ou morra, mas não envenene tudo. A ventania serviu para mais me atordoar e ela sugeriu para que eu me suicidasse quando sempre tive motivos demais para não cometer nada disso, era como se me jogasse para ela e permitisse, assim foi, abrasados e mútuos. Às pressas, um passo adiante a buscar de esconderijo propício e demos de cara com Bispo do Rosário num buraco do metrô e ela foi audaciosa pelo cenário de sucata na demanda do Santo Graal. O que vai acontecer para preencher o vazio e o que fazer, quem sabe. Amanhã não será apenas outro dia e a ressurreição, tomara. Só enxergo seus lábios insinuantes, água na boca. E nela serei mais que inteiro além dos tempos de seu corpo sedutor, assim foi... noitedias. Até mais ver.

 


[...] a dimensão estética tem a ver com a corporeidade: o corpo que vê tudo que olha, que ouve tudo o que escuta, que sente tudo o que toca; o corpo que capta o mundo com sua presença, que evoca o passado e projeta o futuro no aqui e agora, que pensa, sonha, deseja e se emociona; o corpo que transforma e se transforma. [...].

Trecho extraído da obra O ensino e a aprendizagem da linguagem teatral na Educação de Jovens e Adultos (UFPB, 2003 – Dissertação de Mestrado), da professora e pesquisadora Maria das Graças Vital de Melo. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


domingo, novembro 06, 2022

VICTORIA CAMPS, CECÍLIA MEIRELES, GUY GAVRIEL KAY, DAREL, DUANE MICHALS & ELIANA YUNES

 

 Ao som do álbum Prelude in C minor, do violonista paraguaio Augustin Barrios Mangoré (1885-1944), na interpretação da violonista russa Valeria Galimova.

 

TRÍPTICO DQP: - Ráfagas et escâncaras (inspirado no livro homônimo inédito de Vital Corrêa de Araújo) – Lá estava eu às voltas com as diatribes do estoico Epictetus: Tudo isso é nada: estou preparado para coisas grandes. Para quem foi escravo ele foi longe demais, até as nove sentenças. Não estava tão à toa e foi por ele que fui levado a passar as vistas pelas considerações do Bernardo de Claraval – o tal doctor Meliflus que foi o último guia pelo paraíso nos cantos trigésimo primeiro e terceiro da Comédia de Dante. Depois pela novela enciclopédica das maravilhas de Ramon Llull – o libertino de jogral que ao ter tido sabe-se lá quando umas visões místicas tornou-se o beato doctor Inspiratus que influenciou Leibniz -, isso até me deparar com as devastadoras sátiras de Gregório Boca de Guerra. A sensação era de que fui atirado longe, quase perto da fechadura na constelação de Orion, com o peso na cacunda de haver cometido o dobro de uns quinze ou mais pecados capitais, sem me conformar por não ter abusado mais que isso. Apesar disso nem capitulei porque na verdade vivia como no centro das cenas do teatro de Beckett ou dum filme de Arrabal, e todos ao meu lado como na pintura desfigurativa de Bacon e no meio duma performance das transfigurações de Olivier de Sagazan que me disse imediatamente: É permanentemente como numa forma de cambalhota assim, vês? De passos largos. Vi e não era nada às claras no meio da umbrosa tragédia cotidiana, na qual reiterava Duane Michals: Vivemos em uma cultura onde aquele que grita o mais alto recebe mais atenção. Não é no vulgar, não é no choque que se encontra arte. E não é o excessivamente bonito. Está no meio; está em nuance. Foi precisa a simpática recepção da Victoria Camps: ...porque são as situações adversas que testam o significado da felicidade e a capacidade do indivíduo de encaixá-las em sua própria vida. Sim. Fui à forra e nem tinha para onde ir, apenas a sensação de que venci com muitos a primeira etapa para dar risada dos despautérios porque desgraça pouca é bobagem, enquantoutros asseclas do século sigiloso andam esperneando pelo que nem sabia direito para entender, coisas da estupidez fanática deles, o que perdeu a graça: a piada além de imitar piorou a vida.

 


Alagoinhanduba... - A cidade do meu exílio se parece muito com aquela dos traços de Darel Valença Lins. Poderia ser qualquer Macondo, Pasco do Cerro, Antares, Itabira ou rincão ignorado desses onde o diabo perdeu as botas, porque a minha sombra arquetípica é indecisa: um misto entre o inescusável e a desventura. Só conversa fiada, uma vez que na horagá esta minha cidade parece que teve tanta personalidade quanto um rolo de papel higiênico já inutilizado, isso mesmo. A sensação que ficou é de que seja o lugar ideal para se pegar uma bronquite, por exemplo; isto na baixa, pois há quem reclame ter saido de lá com alma de leproso ou coisa que valha. Pior: se não for o cu do mundo, está perto, porque parece que assim foi feita e com couro de tecido chué. Careca de saber aquilo que dissera Guy Gavriel Kay: Todas as estradas são escuras. Só no final há uma esperança de luz... A coragem residia em lutar para tentar ultrapassar esse medo, em erguer-se para fazer o que tinha de ser feito. De fato, longe de mim tal sortilégio, melhor mesmo é nada de contar vantagem, sai mais em conta, porque já falou Joel Pinheiro da Fonseca: Dar ao indivíduo aquilo que ele quer não é receita para sua felicidade. É sua destruição. Cá me previno e não é porque não fui embora que será o fim do mundo. Pelo jeito que as coisas vão, só dá pra querer que dure um pouquinho mais a festa esperançosa de dias melhores que virão, oxalá.

 


Novembroutro... - Quarenta anos se passaram, infortúnios e mazelas, ainda não aprendi direito, tarde demais. É que despontei pro anonimato justo quando queria reconhecimento e dei de cara com o que disse Gertrude Stein: Não sei como meus leitores conseguem entender o que escrevo. Depois de algum tempo, nem eu mesma sei o que queria dizer. Nem eu, pudera. Estudei que só e não sei qual a equação disso ou a raiz quadrada daquilo, tempo precioso que poderia ter sido aplicado noutra coisa de melhor serventia e me passei, como sempre. Ouso desagradar leitora: só joio, mais nada. Tenho imaginação sim, tanto é que todas as mais lindas mulheres passaram pela minha mão e nem precisei agradecer nem me desculpar por isso nem por nada, pois sempre achei que os outros se divertiam às minhas custas e pelas costas, seja lá quem fosse. Menti um pouco e nunca fui de caçadas, nem pra guerra nem candidato pruma eleição no raio que partiu a doidice toda. Nunca me importei mesmo, o que detesto é a prova dos nove ou o flagra da pinoia. Uso daquela do James Callaghan: Uma mentira pode correr meio mundo antes mesmo que a verdade consiga calçar as botas. Mesmo assim não hesitei nem me abstive de rascunhar garranchos, só inutilidade de dentes e cabelo caírem, memória fraca hoje em dia. Certa estava Cecília Meireles: Tudo é mistério nesse reino que o homem começa a desconhecer desde que o começa a abandonar. Não foi nem será fácil, deixo muito a desejar - como se as palavras saíssem na marra, quando na verdade, levo surra delas cada vez que me meto a escrevinhar minhas garatujas. Ora, sou lá congenitamente incapaz de uma frase refinada ou dizer a verdade, o melhor é seguir à risca a lição de Henry Miller: Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe. Destá. Vou no bambo, vai que acerto, coisa rara essa; mas quando erro pelo menos posso fingir que não sou tão idiota. Quando eu morrer que falem mal à vontade, nunca me incomodei porque é tudo verdade e será a vez que não invejarei o morto: estarei em dia com a ignorância alheia. Pois é, eu vivo e digo: viva ainda hoje que amanhã pode ser ilegal, viu? Até mais ver.

 


Ler não é decodificar um texto apenas, mas assenhorar-se do que pode ou não afetar seu leitor, possibilitando que compare e lucidamente corresponda ao lido, seja com ações interiores em sua subjetividade, ou externas, na coletividade de que participa. Ler não é automático, displicente, nem pode ser ingênuo: a leitura exige discernimento, não importa se de uma criança aprendiz ou de um leitor experiente. E em nenhum caso, o resultado é único ou tranquilo, mas exige coerência entre ler e viver. Ou não faria sentido... ler!

Trecho do texto de apresentação da obra A Falta que faz a Leitura: Saberes em diálogo (IIL-PUC-RJ, 2022), organizada professora e pesquisadora Eliana Yunes. Veja mais Educação & Livroterapia aqui & aqui.

 



terça-feira, novembro 01, 2022

ALDA MERINI, ELIANE BRUM, ILONA GUITAR & ATELIÊ VIRTUAL

 

 Ao som do Prelude nº 1, de Heitor Villa-Lobos, na interpretação da violonista polonesa Ilona Guitar.

 

TRÍPTICO DQP: - Quando o Sol e os escombros... - Ufa! Uma e outra vez flui o rio pro mar. Já era tempo ouvia Primo Levi: A intolerância tende a censurar, e a censura promove a ignorância dos argumentos dos outros e, portanto, a própria intolerância: um círculo vicioso e rígido que é difícil de quebrar... E isso doía na quebrada dos últimos anos, como aquele verso do Georg Trakl: A neve negra que escorre dos telhados; / Um dedo vermelho mergulha em sua testa / Flocos azuis afundam no quarto vazio, / Estes são os espelhos mortos dos amantes... Impossivel ignorar que antes foi o golpe e depois emergiu a caquistocracia: os sobressaltos tudo outra vez e batiam cabeça como se o perigo não passasse nem tão cedo– o que esperar de Fabos-cabeças-de-fósforos se eles são irredutíveis no Fecamepa? E com eles a pandemia: estúpidos por conta própria com as suas ucronias pelos alto-falantes, tão inquietante quanto claustrofóbicos, do desagradável ao intolerável - qual calibre da guilhotina e as reprises de pólvora, a bofetada sem revide. E conseguem manter com suas baforadas o ar fétido do mundo a franzir o cenho à careta do que desagradavam porque odeiam aflato e vagido, quando pararão de se debater, ninguém sabe – e entre eles, desde que não fizessem às claras e nem assustassem as crianças. Ora, ora. Nem todo mundo é carrasco, nem todo mundo é só do contra porque verdugo e antipático são quase senão os mesmos. Só conseguia ouvir ao meu lado a Eliane Brum: Há realidades que só a ficção suporta... Não adiem os começos, porque o fim já está dado... Era como se só restasse pedir demissão da humanidade, chovendo por dentro entre o sombrio e a existência, os corpos e a morte. A torcida era para que aparecesse um vaqueiro bom pra botar essa boiada espalhada no seu devido curral. Entretons e eutopias, eu me dizia: a vida é necessária como toda arte é política. Graças! Agora parece podermos respirar um pouco mais aliviado porque esta cidade não pertence a ninguém, nem a bandeira é só para energúmenos. Caminho longo pela frente, ainda bem que a estrela brilhou com teor de remissão e alumiando a estrada. Lavei a alma. Prossigamos, enquanto o Sol e os escombros...

 


Ateliê Virtual – A ideia foi do Rubens Cunha Lima, sugestão logo acatada por todos, até pra encampar bloco carnavalesco num desfile geral – troça essa que faria questão de compor mais um frevo! Vambora. Logo a Cibele Carneiro tomou as rédeas das providências e foi arrumando tudinho enquanto sapecava artes. Não demorou muito e lá estávamos todos prontos para trocar ideias. De chapa o Ricardo Aidar trouxe a arte do centenário Pierre Soulages e desafiou a gente pruma pesquisa aprofundada a respeito - – afora mostrar dois quadros de sua autoria que me trouxeram de volta a Intromissão do verbo. A Solange Pinheiro não ficou de fora e me sugeriu logo o Vik Muniz, enquanto a inquieta Márcia Gebara arrumava uma Feira de Livros duma escola. E todas as quintas desde as instruções dos adoráveis professores Renata Sant'Anna de Godoy Pereira, Evandro Nicolau & Maria Angela Serri Francoio. Daí deu-se a organização do nosso ateliê. E eu que não passava dum caçula desenhador, logo me vi parceiro na empreitada. Simbora com aquela sensação do Paul Celan entre o complexo e o complicado: A poesia é uma espécie de regresso a casa... Havia terra dentro deles, e eles cavaram... Eles me curaram em pedaços. E o que de bom vai adiante, rumbora!

 


Hic et Nunc... - Curiosamente ocorrera comigo o que foi narrado um dia por Middleton: Alguém se aproximou para me entregar um folheto e uma recomendação: não é pra qualquer um. Sim? Reiterou: Só para pessoas especiais. Intrigado, abri o comunicado. Atento, descobri: lá estava inscrita oferta de serviços funerários. Hem? Ao levantar as vistas para indagar a respeito, não havia ninguém: será a trama do xadrez dele? Fiquei só com o distante eco dos antepassados revividos que emergiam no meio das ruas. Era como se me chamassem pelo nome e eu sabia: a tragédia na geral. Mas a mim que haviam tumultuado. Sei que tudo é para ser experimentado: diferentes cotidianos, o aqui dentro e o lá fora. O bom foi a surpresa de Alda Merini: Estamos com fome de ternura, em um mundo onde tudo é abundante que somos pobres desse sentimento que é como uma carícia para o nosso coração que precisamos desses pequenos gestos. Faça-nos sentir boa ternura é um amor desinteressado e generoso, que não pede mais nada para ser entendido e apreciado... O que me deu agora ou depois, respirar fundo o pó da estrada: sempre o inesperado, como se eu dissesse noutro tempo verbal: não há nada melhor, nem há outra escolha. Amanhã já é outro, feliz de quem vive e possa morrer em paz. Não é de hoje, só agora vale mais. Até mais ver.


 

Outro dia mexendo em uma livraria, estarrecido encontrei a cartilha Caminho Suave, a mesma em que fui alfabetizado quarenta e tantos anos atrás. Alguma coisa está errada. As crianças mudaram muito nesses anos, enquanto a educação deu pequenos passos adiante. Pequenos passos mais voltados para a estatística, que para o conteúdo. O futuro será péssimo, pois daqui a 10 anos entre essas crianças que chegam a 5ª série sem saber ler e escrever, estarão os futuros educadores...

Trecho extraído da apresentação da obra Domínio público – literatura em quadrinhos (Funcultura, 2006), do arquiteto, editor e presidente do Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil (IMAG), Gualberto Costa. Veja mais Educação & Livroterapia aqui & aqui.




 


domingo, outubro 23, 2022

ADELA CORTINA, SONIA HERNANDÉZ, TRUDI CANAVAN, JANETE LINS & PINTANDO NA PRAÇA

 

Ao som dos álbuns Desconhecido (Independente, 2011), Ó (YB Music/Natura, 2016) e Folhuda (Circus, 2019), da instrumentista, cantora e compositora Juliana Perdigão.

 

TRÍPTICO DQP: - Mãe caeté, malunguinho sou... – Ah, do quilombo onde nasci as cinzas, estou no esconderijo da Cova da Onça saboreando a Jurema Sagrada: Caboclo índio, índio africano /Caboclo índio da Jurema. Êhô! Nenhum festejo e algo me assalta. Coisas que não entendo, voo por desvendar, tal Sonia Hernandéz: Tudo o que não entendo me move, o que é muito. Leio e escrevo para entender as coisas e assimilá-las. É a minha forma de pensar, o resto é deixar-se arrastar. Assim sou, minha mãe. Não sei se ficou sabendo: a cabeça a prêmio e altas recompensas porque fugitivo do que não sei, escapando das manobras de tropas tão imperiais pelas clareiras primaveris. O que sei é que todos os meus estão sendo caçados e fogem da escravidão. E o que somos, todos caetés e bantos que se valem do Malunguinho, companheiro quimbundo, marinheiro congolês, o líder do Catucá. Foi ele que me deu a Acácia Jurema e, com isso, ganhei dos meus ancestrais a sabedoria com a trindade de Mestre, Exu e Caboclo. Para quem vejo peço que me diga lá as novidades, quem somos e que fim levou João Batista da Cabanada, cadê João Pataca dos batuques e o séquito das mulheres. Cadê João Bamba e os cento e tantos outros rebelados: nada, como sempre, esclarecido. Só escuto Trudi Canavan repetidas vezes: Há sempre um pouco de verdade em cada boato, o problema é descobrir qual... A sabedoria e o conhecimento estão em toda parte, mas a estupidez também... Tudo como se antes fosse agora e o grotesco respira sua aporofobia fungando no cangote da nossa desgraça, sou ressurreto Zumbi pelos Palmares dagora...

 


Escritos esparsos no meio da diáspora... – Imagem: arte do gravador, desenhista e pintor Lívio Abramo (1903-1992). - Meu coração Goeldi, minha solidão de Debord: a espetacularização & o cansaço. Entre vozes, Adela Cortina me chama atenção: Devido à crise, percebemos que por falta de ética, o dinheiro foi para muitos lugares e trouxe sofrimento, principalmente para os mais vulneráveis... Nenhum país pode sair da crise se o comportamento imoral de seus cidadãos e políticos continuar a proliferar impunemente... Esta a vez da aporofobia, lembrando Ortega y Gasset: O homem é a sua circunstância. Alguém reitera e não sei quem é: como confiar numa pessoa que não gosta do que os outros escolhem ou gostam como se tivessem seus interesses contrariados. Há quem bata o pé: não há alternativa. E por que não? Ao menos era mais um doido observando outro pretendente à normalidade, ou melhor, normose. Se tudo está invertido, talvez o outro lado do inverso, quem sabe, lá tenham razão, enquanto lacerado sei que tudo passa. Quem ainda ousa isso nesse calor? Até depois de mortos há quem deixe conflitos por resolver. Quando não o desfile daqueles que formam a pútrida legião de descarados, com a obra-prima do mau gosto, afora dar importância desmedida ao dinheiro, ué! Ninguém sabe de Lin Yutang: A vida social só pode existir na base de uma certa dose de mentiras refinadas e de que ninguém diga exatamente o que pensa. Quase me permite uma licença poética, Felizberto Hernández: Não creio que deva escrever apenas sobre o que sei, mas que devo escrever também sobre os outros... E lá vou eu com as diversas maneiras de atrair o desastre e o fracasso, não mais que dois dedos de largura por espaço e me descubro mero diletante como se fosse uma constelação de nada.

 


Pintando na praça... - E ontem mais que um sábado inteiro agora, outra vez felizmente uma manhã ensolarada, propícia para récita da Criação de Vinicius. Tela, pincéis, cavaletes a postos, a mãe caeté renascendo na minha solidão. A primeira saudação foi da lindamiga Sil Neves que me trouxe notícias do maridamigo e do filho maestro-Marwin. E a gente Pintava na Praça com a meninada estudantil esfuziante que alvoroçava a praça diante da exposição no anfiteatro. Foi bom rever Emerson do Barro moldando fisionomias, o parceirirmão Zé Ripe solto nas artesanias, enquanto a anfitriã Nalva sorria com a mão na massa da oficina, ao lado do mestre Celso Madeira de Igarapeba. Alexandre Freitas me peitou pra câmara do seu canal virtual, vamolá. Nem deu pra conversar direito com João Paulo às providências & Mary & Sheila mangando dum e doutro do povo passante. Ana Paula veio de Xexéu para me mostrar a casa da sua infância, boas lembranças aquelas da Rua Nova. Amigos dantanho contava lorotas e pisoteios de idos e acontecidos. O esplendor do casal AG – marimbondamigos do coração – ensolarava de afagos meu coração. E mais de uma vez vi Profeta com a satisfação do dever cumprido. Estamos sempre juntos. (Veja fotos e registros do evento aqui). Até mais ver.

 


[...] É suficiente lembrar que ingressamos no terceiro milênio com novas demandas de formação e de conhecimento requeridas pelas mudanças sociais em curso., sem sequer termos assegurado direito à escolarização fundamental de qualidade para a maioria da população, o que exemplifica tanto a permanência como o agravamento dos níveis de desigualdade social historicamente imperantes entre nós. Essas mudanças, elas próprias causadoras dos perversos níveis de desigualdades, ao atingir toda a realidade social, fazem com que os seus reflexos atinjam os processos de produção do conhecimento científico. [...].

 Trechos extraídos da obra A educação como política pública: polêmicas do nosso tempo (Autores Associados, 2001), da professora Janete Maria Lins de Azevedo. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


domingo, outubro 16, 2022

PAULO FREIRE, JENNIFER EGAN, ELVIRA NAVARRO, ZAMBRA, BRINGHURST, LETITIA LONDON & VAILLAND

 

Ao som dos álbuns 02022020 (2020), Time 2 Stop Worrying (2019), Turnitup (2016) e Sometimes a Girl Needs Some Sugar Too (2011), da compositora e instrumentista dinamarquesa Ida Nielsen.

 

TRÍPTICO DQP: - Eterno menino da beira do rio... - Voltei à infância para rever o mundo de outro jeito. Hoje posso lembrar o acidentado e limítrofe arruado que me permitia singrar a margem de cá sem que de lá houvesse a possibilidade de atravessar a ponte, tão longe quanto proibitiva, devaneios com o relinchado na hora certa do Jegue de Paul. Não era assim quando estava lá pelo brejo das sereias multicoloridas, uma mais linda que a outra. Elas saíam d’água e se esgueiravam pelas touceiras da margem oposta, escondidas no meio da plantação. De lá provocavam: Vamos timbungar? Não, que não sou peixe! Mesmo que eu tivesse uma jangada na ideia, do canto não saía. E brincavam bulindo comigo passando de um lado a outro. Uma delas transformou-se numa grande ave e entoou um canto melodioso. Chegou perto de mim: era a sirena Partênope, uma ninfa encantadora e serva de Perséfone a me dizer Robert Bringhurst: Por todos os meios quebrar as regras! E insistia: Você precisa! Queria me levar para a ilha de Antemoessa na promessa de me iniciar nas Argonáuticas de Apollonios e eu não tinha como nem onde me amarrar, sequer saberia como apelar para virtuose da lira feito Orfeu, inútil tapar os ouvidos: seu mavioso canto ocupava toda minha cabeça. Não distinguia direito harpias ou erínias, sabia das sereias: as almas dos defuntos egípcios. Diante do meu mutismo mandou-me então para as Ilhas Afortunadas, com o recado da Jennifer Egan: Todos que perdemos, vamos encontrar. Ou eles vão nos encontrar. Aquilo arrepiou a alma se bem que meus mortos não eram tantos. Agora muitos pra meu desconsolo. De repente tudo se pareceu uma visagem e vi-me diante do espelho das águas do brejo, outra face para dirimir qualquer mal entendido, um sentimento extraviado, memória perdida, apenas um eterno menino da beira do rio.

 


Multiplenredo... – Imagem arte de Nancy Bossert - O que procuro se o tríptico fraseado de Gauguin na indagação suprema: quem sou, de onde venho e pra onde voo, não sei. Há mais do que por trás da lindeza dos canaviais floridos e das ribanceiras exaltadas, sob o asfalto das cidades, embaixo das pontes, além dos ermos distantes, no matagal dos pântanos, nas várzeas dos rios, na profundidade dos mares, nas fronteiras das galáxias ou no infinito da imensidão cósmica. Não há como saber, apenas Roger Vailland para me dizer: Não há amor, há apenas provas de amor. O amor é também um prazer... Não é possível e o silêncio me faz olhos bem abertos. No meio das interrogações, Letitia Elizabeth London: Força, poder e majestade pertencem ao homem; eles fazem a glória nativa de sua vida... Mas a doçura é o atributo de uma mulher – por isso ela reinou e por isso reinará... Era como se tivesse minha mãe ali do lado no acalanto de uma história que era a minha e, ao final, me dizia Alexandre Zambra: Ninguém fala pelos outros. Que, mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história... O que procuro no fiapo da ideia, contar uma hestória, começassim, passassado: entrou pela perna de pinto, saiu pela perna de pato.

 


E era ela outra hestória... - Imagem arte de Nancy Bossert. - A cidade amanheceu com a notícia: ela dali, sim, a arrebatadora daquelas arrasa quarteirão, a inesgotável sedutora viu-se vicária na noite anterior e estava mergulhada num tanque oval com sua dor. Aquele amor era, na verdade, a Besta de Gévaudan. Quem? Sabe-se lá! Foi preciso a intervenção do Padre Bidião à confissão dela: Ele iludiu-me, padre, arrastou-me para as bandas do matagal de Merçoire, lá cravou os dentes formidáveis com o intento de me estuprar. Vi-lhe enlouquecido arrancar as vestes e expor peitoril largo com pele avermelhada e odor insuportável. Partiu pra cima de mim feito um tarado, mordeu-me o pescoço e apoderou-se da minha fragilidade. Ia me decapitar! Ora, se. Juntei todas as minhas forças. Aqui, ó! Lutei inutilmente, mas consegui agarrar-lhe a cauda imensa e arrastar uma estaca afiada que apanhei no chão, pronto, desferi golpe certeiro nas suas costas. Ele fugiu urrando, ainda estou convalescendo. Mas, minha filha, não pode ser: este bicho foi extinto há muitos séculos! Estou doente, padre, sinto necessidade de comer carne crua, foi um bife cru pela primeira vez, agora quero mais: Tem que ser viva, não gosto de cadáveres! Não aguentando tentei cortar os pulsos. Aqui estou desamparada. E lá escorada, mostrando o lado B da sua vida, o sangue jorrava em profusão, dizia-se endemoninhada e precisava ser exorcizada. Ele então a recolheu afetuosamente e mandou todos saíssem do recinto – enxotados foram todos os pregadores, enrolões e enredeiros que faziam plantão pra moribunda: Xô! E lá se demorou aos cuidados com a sua paciente, horas na empreitada. A Besta Fubana surgiu em seu auxilio e acomodou-se no oitão da casa espantando curiosos e línguas soltas. Tempo enorme de expectativas. Tarde quase anoitecendo o padre saiu às carreiras, amontou na besta e partiu. Não demorou muito, devidamente curada às gargalhadas ela saudou a todos como se fosse Elvira Navarro: Você só precisa de um pouco de ansiedade para que o normal pareça ameaçador. E saiu toda reboladeira rua acima até confundir-se ao lusco-fusco. Eu, hem? Até mais ver.


 

[...] Democratizando mais seus critérios de avaliação do saber a escola deveria preocupar-se com preencher certas lacunas de experiência das crianças, ajudando-as a superar obstáculos em seu processo de conhecer. É obvio, por exemplo, que crianças a quem falta a convivência com palavras escritas ou que com elas têm pequena relação, nas ruas e em casa, crianças cujos pais não leem livros nem jornais, tenham mais dificuldades em passar da linguagem oral à escrita. Isto não significa, porém, que a carência de tantas coisas com que vivem crie nelas uma “natureza” diferente, que determine sua incompetência absoluta. [...].

Trecho extraído da obra A educação na cidade (Cortez, 2006), do educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...