domingo, março 29, 2026

NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden.

 


Hestorinha da cantoria de passarinho... Não havia tempo ruim para Fulô – Florilândio de batismo e papel passado. Foi assobiando escorreito a revelação do seu talento canoro: sacou dum apito, despertava sua curiosa habilidade. – Simbora no arrasta-pé! Triunfou ajeitando meticulosamente uma folha de papel enrolada jeitosamente num pente, aos assopros de predileto repertório musical das paradas de sucesso, parampampã! - Isso é bom, doido! Segura o trupé! Arroxa baião! De um pífano, um botão de rosa pra paquera timorata: ganhou dela um gracioso sim, sem precisar sequer falar namoro pra ela. Duma corneta, um ramo de lírio branco pra mãe dele: era o dia dela, regozijada. E era sempre cedo na hora pra ele que ia ladeira acima, morro abaixo, no embalo chistoso. - Olha o forró, gente! Tornou-se assim corneteiro, dando as horas certas, convocando o povo pras cerimônias viandeiras, alertando pirraças ou maracutaias, chamando atenção pra isso ou aquilo, com toda sua alacridade. – É hora do xaxado, vambora! Das lições de Zé da Justa foi expulso e reprovado. Procurou outro: Cadê o maestro? O canto mais limpo: queimou as pestanas aprendendo sozinho cifras e partituras, solava desajustado. Por onde ia o mato brotava no chão esturricado, árvores floriam, relva no meio do asfalto, o sertão virava rio e dava pro mar: entrava de sola na vida de músico meio-lá-pra-cá e nos arranjos florais ineivados de plantão, puxando da flauta de Pã, Orfeu das mundividências, qual flautista de Hamelin. Foi buscar emprego na famigerada banda de Mané de Preto, findou quase tição eletrocutado. Levou um toque da vaca dos Assassinos do Frevo. – Ih, fui limado! Esgueirou-se pros Bitus, ajeitou-se Sibito entre rebitos e outros priquitos – Aí, me dei bem! Aprendeu a remexer os quadris com Dermeval, animando o dançado dos fantasmas da biblioteca. – O galope só é bom quando é à beira-mar! Aí, duma flauta doce, uma flor de Quipá; da gaita, uma Estrela da terra; da ocarina, Maracujá do mato; do uruá, uma Rainha do abismo; do berrante, uma Chanana; dum didjeridu, um molho de Erva fantasma; do clarinete, um maço de Planta queijo; do saxofone, um feixe de Boca de leão d’água; do fagote, um galho de Íris da praia; do trompete, um tufo de Enxerto de passarinho; do trombone, uma braçada de Alface d'água; da trompa, um cacho de Rabo de tatu; do oboé, um arranjo de Bredo-da-praia; da tuba, uma Coroa-de-frade-da-praia; e assim distribuía coroas, buquês, guirlandas, grinaldas, ramalhetes, florilégios, até um tussie-mussie de orquídeas, de pequis, cambarás, mangabas, vincas, salsa-da-praia, paqueviras, helicônias, parasitas, antúrios, alpínias, sorvetões e capim-agulha! Era flor na lapela, flores nos penteados, nos decotes, penduradas nas orelhas, ornando espalhafatosas e embecados. Assim, caía de boca desde os toques da alvorada logo cedo e os de se recolher tarde da noite: o Sol sorria, a Lua se exaltava enamorada, a Natureza em festa e o impossível de estrepitoso festejo abanando o calorão, diante das caras carrancudas que carpiam suas dores e flagelos, zoando acenos, vapores de saracoteados, cantoria de passarinho, coral da bicharada. - Houvesse hoje e onde se sacudia ao andar -, trazia chuvada boa, juntava separados, afáveis e enfadonhos. Desdantavante frevava e a cada batida de tom esqueletos saracoteavam e sacudiam seus anjos-da-guarda. Ele só regência no meio da rua, puxando o coreto. Sacudia o braço como se passasse marcha e rompia lonjuras, atravessava funduras e o povo atrás serpenteando num ziguezague. – Eita, que ele vai virado na peste! Era assim, tinha de existir e assim o queria solto na buraqueira das rodagens, moita adentro, estrada fora. – Foi-se! Oxe! Parecia ter ido pros fins da Terra, nem notícias mais, nunca mais voltou. Vôte!  Onde andará? Quem lá sabe! Ó. Pois é, foi. Até mais ver.

 

Elif Shafak: As vozes da nossa terra natal não param de ecoar em nossa mente. Nós as levamos conosco aonde quer que vamos... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Camille Paglia: Precisamos aceitar nossa dor, mudar o que pudermos e rir do resto... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Wangari Maathai: Consegui perceber que, se eu tinha uma contribuição a dar, eu devia fazê-la, independentemente do que os outros dissessem. Que eu estava bem do jeito que eu era. Que não havia problema nenhum em ser forte... A geração que destrói o meio ambiente não é a geração que paga o preço. Esse é o problema... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MILAGRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu olho para o horizonte por um trilhão, trilhões de anos. \ Vai acontecer, talvez, e eu serei testemunha. A Terra será milagrosamente \ curar-se a si mesma. A água vai se transformar em gelo. Hipnotizado, verei as esculturas brancas, \ lembrar o Ártico e sua magnificência, e tremer na costa. O sol vai jogar \ truques em minha mente, gravura no gelo branco puro a sombra de um longo talo. \ Uma única tulipa vermelha. \ Parabéns, esta flor é para você: o único humano ainda vivo, o único que \ ainda acredita em milagres.

Poema da escritora cipriota Nora Nadjarian.

 

QUANDO A VIDA TE DÁ - [...] Como posso explicar que ter a oportunidade de dar uma pausa no meio da vida e avaliar tudo é mais raro do que um arco-íris duplo? [...] Neste momento, tudo está exatamente como deveria estar. [...] Eu jamais puniria a filha pelos crimes da mãe. [...] Vaginas feitas sob medida são as novas bolsas Birkin. [...]. Trechos extraídos da obra When Life Gives You Lululemons (Simon & Schuster 2018), da escritora estadunidense Lauren Weisberger, autora de obras como Revenge Wears Prada: The Devil Returns (2013), Last Night at Chateau Marmont (2010), Chasing Harry Winston (2008), Everyone Worth Knowing (2005) e The Devil Wears Prada (2003). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CIÊNCIA DAS PLANTAS - [...] Levou muito tempo para desvendar como o inverno estimula a floração, mas partindo de um ponto inicial de quase nenhum conhecimento molecular, agora temos uma boa ideia do mecanismo regulatório. [...] É tão importante que a comunidade internacional de plantas se concentre em uma espécie como organismo de referência. Triagens prospectivas, clonagem baseada em mapas, os extensos recursos de genótipo e sequenciamento, além de descobertas importantes quando grupos que estudam coisas diferentes convergem para um mecanismo – tudo isso é essencial se realmente quisermos entender a base mecanicista de características complexas das plantas. [...] como as plantas usam sinais sazonais para sincronizar seu desenvolvimento. Nessa época, o fenômeno da Arabidopsis estava acontecendo – geneticistas de plantas haviam descoberto a utilidade de se concentrar em uma espécie como organismo modelo, e agora podíamos clonar genes importantes para características complexas por meio de clonagem baseada em mapeamento. Então, quando abri meu próprio laboratório, escolhi abordar a base molecular da vernalização em Arabidopsis. [...] Sinto-me privilegiada por fazer ciência todos os dias – é maravilhoso poder seguir uma paixão e ser pago por isso! É flexível e absorvente. Eu recomendaria a todos [...]. Trechos da entrevista (New Phytologist, 2025), concedida pela premiada bióloga e acadêmica britânica, Caroline Dean, integrante do grupo de estudos que determinou a base mecanística de como as plantas usam sinais sazonais de temperatura para determinar quando vão florescer.

 

A ARTE DE MAGDALE ALVES

[...] polarização é uma bobagem, porque cada um tem o seu pensamento e o respeito deve ser mútuo [...].

Pensamento da atriz e bailarina Magdale Alves, que estreou na dramaturgia com a peça Guarani com Coca-cola (1980) e fez carreira tanto no teatro, como no cinema, atuando em filmes como Quer Tapioca com Manteiga, Freguesa? (1985), Amarelo Manga (2002), Árido Movie (2005), Baixio das bestas (2006), Deserto feliz (2007), Gonzaga de pai pra filho (2012), entre outros. Atuou ainda em novelas televisivas, minisséries e curtas metragens, bem como dubladora, humorista, comediante, locutora, performer e apresentadora de TV. Veja mais aqui.

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MANTO MULHER, DE CARMEN CAMUSO

Recebi alguns mantos da vida \ Que se incumbiram de me fazer mulher \ Uns, enlaçados em fios de proteção \ Outros, treliçados, amarrando minhas mãos \ Mãos desatadas no desejo revelado \ Desnudam-me lentamente \ A pele sensível não mente \ Ao retirar cada manto \ Encontrei minha originalidade escondida \ A espontaneidade pra vida \ Agora, embalada pelo canto \ Pássaros livres que se alimentam em meu ombro

Poema extraído do livro de poesias Manto Mulher (2026), da poeta, psicóloga e feminista Carmen Camuso, integrante do Movimento Cultural Alvorecer. O livro reúne 48 poemas agrupados em dois capítulos: “O Manto” e “As Palhas”. O primeiro reúne poemas que expressam a relação mulher-mundo a partir das vivências da autora em seus diversos papéis sob o manto do gênero. No segundo capítulo, o que aparece é a relação mulher-outro que, sob palhas, simboliza o que dói ou cura. Veja detalhes aqui.

 

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&

 

ARTEXPRESSÃO – TRANSVERSALIZANDO ARTE NA ESCOLA

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domingo, março 22, 2026

IRMA PINEDA, SOFI OKSANEN, PETER TURCHIN & BÁRBARA DE EXU

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do concerto Live at Philarmonie Luxembourg (2025), oriundo do álbum Sonicwonderland (2023), da pianista e compositora japonesa Hiromi Uehara, com a Philarmonie Luxembourg, no Grande-Duchesse Joséphine-Charlotte Concert Hall. Veja mais aqui & aqui.


 

Da noite pro dia, gente, malacatifas... - De repente Tlaltecuhtli engoliu o Sol e anoiteceu: fez-se a maior escuridão. Do inesperado ao regozijo, Tó Zeca, então, aguardou Jaci reluzir no horizonte. O tempo passava e, pacientemente, mantinha-se à espera. Ela não apareceu. A demora e uma interrogação: Onde fui parar? Não tinha a menor noção. Só se deu conta das chamas pálidas azuladas flutuando lá ou acolá, intermitente fogo fátuo, sabia: Ah, Boitatá. Hesitou, pois temia ter de encarar aqueles olhos flamejantes, não era um bom sinal. Bastou uma leve fagulha alhures e viu-se diante do serpentário do chão à constelação equatorial de Ofiúco. Um sobressalto: o guizo advertia, um arrepio e o sinal do sangue frio de répteis poiquilotérmicos ao redor, o espavento de ver-se de cara com aquela rastejante bocarra 180º e a dilatação corporal. Xiii... Logo viu: era a noturna suaçuboia – Ô jiboia, que é que tu tais fazendo aí, mulher? Ah, senta-espera, peidona, isso é cobra-de-veado pronta pro bote! Ôpa! Logo a escura Boiúna emergiu Mãe do Rio bem fundo: Que é que há? Ao seu lado, logo notou a presença dos olhos de mel da Sofia, a filha do boto e da índia: tremia a terra. Olha lá! Por um instante deu-se conta da movimentação e êpa: lá ia a cavadora Ubijara, a mãe-de-saúva, anfisbena, com suas duas cabeças - Vai pra lá, ibicara; sai pra lá, licranço! Num átimo, o assombro com a perigosa jararacuçu, depois a surucucu, a áglifa araramboia, a camuflada jararaca-da-mata, a boipeva cabeça-chata. Ih! E ali se enroscavam a azulamboia, a periquitamboia, a delgada parda bicuda, a muçurana, preta, pendurada no cipó; a sucuri, muçurana; as três irmãs Jararacuçu, Urutu-cruzeiro e Caiçara, cada qual com seu veneno botrópico para inchar, necrosar e sangrar; a cascavel boicininga, a maracaboia de-quatro-ventas, a coral, a peçonhenta surucucu-pico-de-jaca e outro susto: era anaconda! Alto lá! E juntas: a amarela, a verde, a malhada, a akayima e a da-bolívia, danou-se! Eita, viborões! A canibal sucuri devorava seu macho depois do coito. E Norato com a sua irmã, a cruel Maria Caninana, a arabóia, que subiu na árvore e ficou de tocaia. Se era ou não cobra mandada, não se sabia. Mas se atrevia a chupar o seio da mãe adormecida, com o rabo na boca da criança para que ambas não acordassem. Tô frito! Reunidas, iam beber e antes escondiam a peçonha para não se envenenarem. Que coisa! E rastejavam nas próprias costelas, ondulando lateralmente, com seu movimento de sanfona ou concertina, em zigue-zague, mudando de pele, quando em vez. Se não era a jararaca venenosa, era uma sucuri com seus mais de 9 metros caçando na água. Na névoa um arco-íris e apareceu a mítica Naga de 7 cabeças para o Batismo do Oceano de Leite. E com ela os pigmeus de Baka, que vinham do sul de Camarões, com o Códice de Dresden, anunciando o egípcio Atum que emergia do caos primordial com o Livro dos Sarcófagos para formar a Enéade de Heliópolis. Aí subiu a Python que havia abandonado o Oráculo de Delfos na perseguição por Leto. Logo atrás a criocéfala celta, seguida da víbora-áspide que acabara de envenenar Cleópatra, todas acompanhadas pela híbrida Erictônia, a terimórfica Tibre-cornu de Virgílio e o emplumado Quetzalcóatl. O circo estava pronto, ameaça em riste. Tentou olvidar: Sou lá ofidiófilo! Há quem ofidiófobo, até herpetólogo. Nem, nem. Viu-se em apuros, procurou saída. Deu-se então o imprevisível: Tlaltecuhtli cuspiu o Sol e Tatewari, o Avô do Fogo, acendeu o dia. E Coaraci deu vazão à prática dum pajé de 9 fôlegos: o futuro nas mãos, curava à distância, tornava o animal que quisesse, ficava invisível, aparecia aqui, ali, acolá, o que bem quisesse: Vai encarar? Nem podia, porque Asclépio ergueu-se com o caduceu de Hermes para dar conta da teoria do relojoeiro do Deus otiosus. E aí o feitiço da Naja: a deusa Wadjet era a Kundalini se enroscando 3 vezes e meia na base da coluna vertebral dele, enroscando-se em suas botas e agigantando-se diante de si. Ofertou-lhe o wixárico Tsikuri, Ojo de Dios, ornado por opúncias e peiots, o que lhe deu a coragem de proclamar: Toda cobra do caminho arreda que vou passar! E uma nuvem cintilante rasgou as trevas e tudo clareou, nítida paisagem: o ninho de Ledo Ivo e já era a cidade com a multidão alvoroçada às idas e vindas, com suas expectativas, dolos e angústias. Ali aprendia Ouroboros: tudo é um. Até mais ver.

 

Pilar Quintana: Se você tem alguma dúvida de que o racismo sistêmico existe, é só olhar para lá. A maioria da população, que é negra e indígena, está vivendo na pobreza absoluta. É uma realidade muito dolorosa... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Linda Sue Park: Um erro cometido com boas intenções continua sendo um erro, mas é um erro pelo qual você deve se perdoar... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Shirin Neshat: Todo artista, de uma forma ou de outra, é político. A política define nossas vidas... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

O tempo conquistou o amor \ Isto mistério de nós impiedosamente \ e agora o que faço com a indiferença \ com essa solidão \ que os caras me abraçam gentilmente \ e me sufoca. \ Amor \ minha barriga agora é uma árvore seca \ que onze queriam florescer estrelas para suas noites. \ Minha barriga agora é uma montanha dura \ não mais espantado com o passar do tempo \ pelos dias sem vida. \ Nós ganhamos nosso tempo amor \ misericordioso, o mistério nos tirou \ e hoje não sei o que fazer com aquele desgosto \ com essa solidão \ que às vezes me abraça suave \ e às vezes ele me sufoca. \ Amor \ A minha barriga é uma árvore seca hoje \ que um dia ele queria florescer estrelas para suas noites. \ A minha barriga é uma montanha dura hoje \ que não se admira mais com a passagem do tempo \ para os dias sem vida.

Poema da escritora, editora, tradutora e educadora mexicana Irma Pineda Santiago.

 

PARQUE PARA CÃES - […] Eu me arrastava para o trabalho apenas para retornar a um apartamento que ecoava de saudade, onde as xícaras de café estavam sempre exatamente no mesmo lugar em que eu as havia deixado de manhã e onde nunca havia cheiros de outras pessoas, nunca a bagunça de ninguém além da minha. Eu não sabia que podia sentir falta de tais coisas. [...]. Trecho extraído da obra Koirapuisto (WSOY, 2019), da escritora e dramaturga finlandesa Sofi Oksanen, que ressalta: A memória é parte crucial da humanidade, composta por histórias... Veja mais aqui & aqui.

 

FIM DOS TEMPOS – [...] Nossa análise aponta para quatro fatores estruturais de instabilidade: a miséria popular que leva ao potencial de mobilização em massa; a superprodução das elites, resultando em conflitos intraelitistas; a saúde fiscal precária e a legitimidade enfraquecida do Estado; e fatores geopolíticos. O fator mais importante é a competição e o conflito intraelitista, que se configuram como um indicador confiável da crise iminente. [...] Os livros de história nos dizem que a Guerra Civil Americana foi travada por causa da escravidão, mas essa não é toda a história. Uma maneira melhor de caracterizar esse conflito é dizer que ele foi travado por causa da "escravocracia". [...] Como a escravidão fornecia a base econômica para o domínio do Sul, um ataque político aos proprietários de escravos poderia ser fortalecido por um ataque ideológico à escravidão. [...] Quais são as características das teorias da conspiração que as distinguem das teorias científicas? Primeiro, a teoria da conspiração costuma ser vaga quanto aos motivos dos líderes nos bastidores ou lhes atribui motivações implausíveis. Segundo, pressupõe que eles sejam extremamente inteligentes e conhecedores. Terceiro, coloca o poder nas mãos de um líder forte ou de uma pequena conspiração. E, finalmente, pressupõe que planos ilegais possam ser mantidos em segredo por períodos indefinidamente longos. Uma teoria científica, como a da dominação de classe, é muito diferente. [...] Mentes coletivas são resultado de discussões e esforços coletivos para alcançar um consenso, que pode ser ouvido (ao contrário de uma mente ilegível). Chegar a um programa de ação comum geralmente deixa rastros físicos, como atas de reuniões e documentos programáticos. É claro que alguns grupos são bastante reservados quanto aos seus processos internos de tomada de decisão. É aqui que denunciantes como Julian Assange e Edward Snowden se tornam essenciais para um sociólogo do poder. [...]. Trechos extraídos da obra End Times: Elites, Counter-Elites, and the Path of Political Disintegration (Allen Lane, 2023), do antropólogo russo Peter Turchin. Veja mais aqui.

 

BÁRBARA DE EXU, INIMIGA DO REI

É Bárbara, tenho certeza \ É Bárbara, sei que é ela \ Que de dentro da fortaleza \ Por seus filhos e irmãos \ Joga gemidos, gemidos no ar \ Que sonhos tão loucos, tão loucos, tão loucos \ Tão loucos foi Bárbara sonhar...

Trecho da música Passeio público (Berro, 1976), do cantor e compositor cearense Ednardo (José Ednardo Soares Costa Sousa), em homenagem à revolucionária pernambucana Bárbara Pereira de Alencar (1760-1832), primeira presa política do Brasil e heroína da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador. Sobre ela encontram-se as obras: a biografia da coleção Terra Bárbara (Demócrito Rocha, 2017), da jornalista e escritora Ariadne Araújo; A guerreira do Brasil (Universidade de Indiana, 2001), do escritor Roberto Gaspar; A heroína do Crato (Bazar do Tempo, 2022), da socióloga e roteirista Antonia Pellegrino; e a dissertação de mestrado Relações de gênero e poder no Cariri Cearense (UECE, 2015), de Kelyane S. de Sousa. Veja mais aqui & aqui.

 

Murillo La Greca aquí, aquí, aquí & aquí.

Amanda Vieira aqui.

Robertinho de Recife aqui, aqui & aqui.

Beta Ferralc aqui.

Mestre Nuca de Tracunhaém (Manoel Borges da Silva – 1937-2014) aqui.

Teresinha Gonzaga aqui.

Vital Santos (1948-2013) aqui.

Lia Letícia aqui.

Pablo Porfirio aqui.

Marília Parente aqui.

 


domingo, março 15, 2026

AUŠRA KAZILIŪNAITĖ, VIRGINIA HIGA, RENATO NOGUERA & LOURIVAL BATISTA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Music from Man Of La Mancha (2018), Love Stories (2019), Mirror Mirror (2021), Quietude (2022) e Time And Again (2024), da premiada cantora, pianista, arranjadora e compositora, Eliane Elias. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


Era dezembro & La Madóna di Ursatt... - Desassombrado, Zé-Bruão não abria nem prum trem descendo desenfreado. Pro grandalhão, situação que fosse, encarava; se a civilidade não vingava, tabefes, sarrabulhada. Apelidavam-no, às escondidas, de tudo que fosse abrutalhado, bicho ruim, até de Urso: Lá vai ele, ruindade! E ele só de cara fechada, de soslaio mostrando os queixares no canto da boca. Assim enfrentou muitas e tantas: linguarudos, desenvultados, maluvidos, topetudos, moléstias e pragas. Deu cabo de jactantes, poltergeists, tomahawks, nem pestanejava, providências nos conformes, nocaute no desafeto e limpava as mãos: Resolvido. Qualquer surpresa aversiva tratava na maior naturalidade, levava no comum: favas contadas. Enfrentou outras e quantas, o invencível, famigerado. Eis que amanhecia sexta 13, bateram à porta. Quem é? Não ouviu resposta. Desaferrolhou e... teibei! Viu-se impactado: arrepiou os cabelos, do globo ocular se dilatar estarrecido, dando voltas quase saltando fora, tonteou e teve um troço. Despertou com uma venta aos bafos na sua, o peso na caixa dos peitos fazendo força para reavivá-lo. Hem? Reagiu sacudindo longe, violentamente, o despropósito. Ora, ora. Estava fora de si, vertiginoso, balançou a cabeça, cerrou os punhos esfregando-os aos olhos e não viu nada: Tô cego. De novo, o canto mais limpo: Pesadelo brabo. Ih! Que piripaque é esse? Levantou-se de um pulo, asseou-se e saiu de casa à toa. Andou, zanzou, voltou, girou e, ao dobrar a esquina, esbarrou. Virge! Teve uns tremeliques e, quando deu por si, estava jogado numa maca hospitalar. Vôte! Era o absurdo e parecia ter emergido, sem mais nem menos, do fundo duma garrafa de seu destino, ninguém estava a salvo. Será? Ergueu-se firme e zarpou derrubando males e paredes, espichou lonjuras. Aí atravessou a manhã, percorreu toda tarde e, na boquinha da noite, cadê? Vasculhou a paisagem, nada. Retornava ao domicílio e de repente: Eita! Via-se de novo em palpos de aranha. Ainda deu pra ouvir: Que moleza é essa, moço? Hem! Parecia mais um donzelão! Oxe! Só conseguia balbuciar blábláblás, cheio de vírgulas e interrogações. Lascou! Estava desvelado o seu mais secreto: o indócil era mesmo casto, ali sua vulnerabilidade. Que negócio é esse? Para quem era o emblema da crueldade, da selvageria, da brutalidade, que havia reunido em si todos os poderes dos polares, dos pardos, dos grizzlies, dos negros americanos e asiáticos, dos pandas, dos de-óculos, dos malaios e dos preguiças, agora um tabacudo que só via de bom ali o cheiro de mel. Ué! Donde vinha o eflúvio melífluo que amolecia suas reações? Cobriu-se de pressentimentos, quase vira a cara e fugia da serendipidade. De viés viu o forte modo dela, deslindou a sua topografia corporal e cismou: esbelta, onduladas ancas, seios graciosos, hummmm. E intuiu: Ó, me ferrei nessa! Então perscrutou: era dela e quem? A melífica deusa celta Artio havia descido das constelações Arcturus & Ursinho, com toda pompa ancestral dos ainus, da ilha japonesa de Hokaido, para intimá-lo. Danou-se tudo agora! Ele tombou escusas acossado pela irrupção, o tempo endoidecia escamoteando emoções. E como era dezembro, embananou tudo: tempo da festa Ainu Kamui omante. E ela: Veja! Mostrava pra ele a presença de todos os koriaks, os giliarks, tlingits, tongas e haidas, todos o aguardavam. Também os pomos, os iacutos, os soiotes, os tungúsios, os chores, os teleutes, os lapões, os tártaros de Altai e Minussink, os pueblos no kiva, todos olhavam pra ele. Acha pouco é? Ela asseverou: Tem que se lembrar e não esquecer de nada. Que coisa! Meio mundo de gente! Então, foi cientificado por ela: Trouxe o mistério Yu-o-Grande para incorporá-lo no poder dos kshatriya. Como? Você é o Avô dos algonquinos canadenses; e também riksha, a montaria da yogini Ritsamada. Tá ficando doida, é? Dance. O quê? Dance, vá! Você é o inconsciente ctônico, o seu sopro emana das cavernas para acompanhar a minha irmã, Ártemis, na hierofania lunar pelos cemitérios da Sibéria. Agora deu! Você tem que me devorar se eu for culpada. Pronto! E encantadoramente ela solfejou para a plateia toda: Tomai bastante cuidado, pobres mulheres / tomai bastante cuidado com vosso ventre / protegei vosso pequeno fruto!... Pela primeira vez na vida ele estava deveras encurralado: Tô fodido e mal pago! De que adiantava tanto poderio se, àquela hora, tudo era inútil. E deu um passo atrás, mais outro e viu-se cercado, enfim cedeu. Vamos! E seguiram por entre estatuetas em bronze de Muri, em Berna, acompanhados pelos celtas Helvetii. No culto da deusa: Vamos salvar famílias da fome. Hum? Ali mesmo ela então uniu o céu e a Terra; e recomendou com severidade: feche os olhos, respire profundamente e recolha-se dentro de si. Desça aí bem fundo, tape os ouvidos, não tenha medo, está protegido por mim. E, dominando o desajeitado, quebrou-lhe a resistência paulatinamente e acasalaram nos Alpes Réticos. Eita, tirou o cabresto! Viva! Durante a cópula nasceram-lhes na hora dois filhotes que saíram para socorrer uma mãe faminta com os seus cinco chorosos filhos. Onde? Numa aldeia alpina, a coitada genitora rezava devotadamente e enchia uma grande panela com água para ferver, fingia preparar a refeição, não havia nada. Desesperada foi ao jardim e constatou: nenhum comestível. Recolheu um punhado de pedras: que mais poderia fazer? E as escondeu sob as vestes, voltando à cozinha. A água mal esquentava e bateram à porta: quem seria? Eram os dois filhotes trazendo o milagre: estavam providos em abundância, o amor é providencial redenção. Até mais ver.

 

Doris Lessing: São as nossas histórias que nos recriarão quando estivermos dilacerados, feridos, até mesmo destruídos. É o contador de histórias, o criador de sonhos, o criador de mitos, que é a nossa fênix, que nos representa no nosso melhor e no nosso momento mais criativo... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Juana de Ibarbourou: O amor é fragrante como um ramo de rosas, amando se possuem todas as primaveras... Veja mais aqui.

E. L. James: Existe uma linha muito tênue entre prazer e dor. São duas faces da mesma moeda, uma não existe sem a outra... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

EXISTE UM RIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Há mulheres tão retas quanto cordas, sempre se esforçando para serem afinadas. / Você não um encontrando único fiapo em seus restos. / Há homens de terno que sempre apertam sua mão. / Eles sorriem – mas mentemente. Dissíduo / Há um vagabundo que dormiu no ponto de ônibus de Šilo. / Há um rio por perto. Há colinas e vales. / Há cartas sem resposta e patos flutuando em água fraca. / E lá estou eu – eu / a pendurar o alaúde, em algum momento, realmente / sabia o que fazer e querer da vida. / E ali existe um rio. / Há rios em potes de vidros e em tempos de sorteio há muitos / em nossas pequenas despensas. Risos mofados. / E há núcleos, asas lindas núcleos do céu. Elas mudam. / Ali são suas mãos. / Ali está a vontade de pegar e querer sua mão. / Ali está uma cidade. / Ali estão as ruas. / Ali estão as casas. Ali estão escadarias. Ali estão degraus. / Às vezes subimos mais alto. Às vezes descemos. / Existe uma noite. Dormimos à noite. Existe o dia. / Existem cafeterias, universidades e lojas. Existem escritórios e galerias. / Categoria: Fotos existem. Categoria: Fotos do existem. Categoria: Fotos do existem. / E ali existe um rio.

Poema da filósofa e poeta lituana Aušra Kaziliūnaitė, autora dos livros The First Lithuanian Book (2007), 20% Concentration Camp (2009); The Moon Is a Pill (2014), I Am Crumbled Walls (2016) e Jūros nėra (2020).

 

O ENCANTO DO VERÃO - [...] E quão pouco alcance têm a graça ou a inteligência, em todo caso, se elas só podem ser percebidas através da linguagem. [...]. Trecho extraído da obra El hechizo del verano (Sigilo Editorial, 2023), da escritora e tradutora argentina Virginia Higa, que no seu outro livro, Os sorrentinos (Sigilo, 2018), ela expressa que: [...] Os sorrentinos eram uma massa redonda e recheada inventada por Umberto, o irmão mais velho de Chiche, e batizada em homenagem à cidade de seus pais. O sorrentino não tinha a borda de massa dos pansotti, nem o recheio de carne dos agnolotti, nem continha ricota como os cappelletti. Era uma meia esfera com algum volume, feita com uma massa secreta, macia como uma nuvem, recheada de queijo e presunto. [...].

 

IARA – [...] as habilidades de Iara são a causa de sua desgraça: A guardiã do reino das águas percebeu antes do ataque a ação dos irmãos, e para se defender flechou mortalmente todos eles. Ao tomar conhecimento do fato, o seu pai e pajé, sem buscar o motivo da ação da filha, tomado de dor, decidiu castigá-la. Iara foi obrigada a fugir. Iara escondia-se porque amava o pai e não queria confrontá-lo. Ela dormia camuflada, misturada com a floresta e seus habitantes. A moça não temia onça nem cobra; o único medo era o pai. Tomada pela culpa, passava dias sem encontrar sono. Mantinha-se a maior parte do tempo em vigília, à espreita, pronta para se defender de um ataque. Depois de sete ciclos de lua cheia, o pai encontrou Iara acampada entre árvores. Em uma manhã em que o sol chegou manso e a chuva fina da noite tinha se retirado, o dia fresco embalou o sono de Iara. Assim, o pai amarrou a própria filha, arrastou-a até o encontro voraz entre os rios Negro e Solimões. Iara acordou com a queda nas águas e desceu como uma pedra até as raízes dos rios. O espírito das águas junto ao reino dos peixes protegeu Iara e a transformou em uma mulher peixe. A partir de então, ela tem atraído homens para o fundo dos rios. Em geral, esses homens nunca retornam. Por isso, sua reputação permanece assustando quem passa pelo domínio de suas águas. [...]. Trecho extraído da obra Mulheres e deusas: Como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual (Harper Collins, 2018), do filósofo, escritor, dramaturgo, roteirista e pesquisador Renato Noguera, também autor da obra O ensino de filosofia e a Lei 10.639 (Pallas, 2015).

 

LOURIVAL BATISTA, O LOURO DO PAJEÚ

Cantar comigo é um risco / quebra pedra, espalha cisco; / vem trovão, e vem corisco; / vem corisco e vem trovão; / desce água em borbotão; / as águas formando tromba / teu açude, agora, arromba / nos oito pés de quadrão!

É muito triste ser pobre; / para mim é um mal perene…/ trocando o ‘p’ pelo ‘n’, / é muito alegre ser nobre;/ sendo ‘c’, é cobre / cobre, figurado, é ouro / botando o ‘t’, fica touro / como a carne e vendo a pele / o ‘t’, sem o traço, é ‘l’ / termino só sendo Louro!

Para Dragão, estás errado, / pois Lourival já te explica: / tira letra, apaga letra, / bota letra e metrifica: / tira o ‘d’, apaga o ‘r’ / bota o ‘c’, vê como fica…

Poemas do repentista e poeta popular Lourival Batista (Lourival Batista Patriota – 1915-1992), o Louro do Pajeú, rei do trocadilho. Em sua homenagem foi publicado o livro Um certo Louro (EduFRN, 2001), pelo poeta e professor Alberto da Cunha Mélo. Veja mais aqui, aqui & aqui.

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USINA DE ARTE FESTIVAL JAZZ & BLUES

 


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    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden .   ...