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Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
BIRITOALDO: A VINGANÇA NO FORMIGUEIRO - Biritoaldo, meu
Deus, esse veio de encomenda! Ele até que se esforça, mas pense num horror! Imagine
o que é um ré-pra-trás! Imaginou? O cara não acerta uma, sequer! O parvo é só o
sol na moleira com o sal se pisando pra banda dele! Primeiro veja o bronco: a
camisa, a gola desajeitada, o colarinho troncho, a carreira de botão cada um na
casa errada, a calça cu-de-mochila, queimando o arroz, uma perna maior que a
outra no desabanhado e, o pior, pegando borboleta! A mangação: - Vixe, que
coronha! Quando não: - Ei! De braguilha aberta, mô fio?!? Bote vexame no
riscado! Quando vê um cachorro, se estranham dele fugir das mordidas; quando
cruza com um gato, o bicho que se arrepia todo. Jumento? Olhe o coice,
desgraçado. Quando feliz, pisa num tolote de bosta. Ih, tira o pé da merda,
zé-roela! Se vai na calçada todo nos trinques da domingueira, tem de algo
acontecer pra jogar lama e botar tudo a perder! Vai pegar condução, destino
errado. Se vai falar, logo se vê que se trata de um conselheiro Acácio. Amizade?
O último amigo abotoou o paletó faz tempo. Livrou-se dele. Os dentes queiros
tudo encruado na boca, imagine tudo doendo duma vez só! Por isso, nunca entende
direito o que falam - Ô cara tapado da porra! Se é da mulher, só leva
desacerto; dos vizinhos, xingamentos; da família, reprovação. Ou seja: além
queda, cotovelada nas fuças! Se cai de costa, quebra a pomba; se leva topada,
empena o espinhaço. Avalie, só vive com o pau da venta arranhado e levando
pisada na unha encravada. Ai, doeu. Quando se deita na cama, o lastro arrebenta
e acorda todo mundo! Maior buruçú pra tudo que é lado. Ah, quando dão espaço,
maior folga: cheio das intimidades. Oxe, o cara não tem o menor simancol! Só é
bronca na caixa dos peitos e muito grito por desaforo na lata. Isso quando não
é Alceste pra todo lado no maior esporro! Pelo visto, já viu, né? O cara não
tem moral nenhuma: o que apanha da vida, não tá no gibi! Exceto... ah, quando
não tendo mais de onde levar bordoada, se tranca no banheiro pra chorar. É aí
que aparece a sua vingança! É que na hora da micção, aparece lá no vaso sanitário,
uma desavisada duma formiguinha zanzando ao léu. Aí meu, ele apruma a pontaria
do pingolim e só fica satisfeito quando leva a bichinha na força do mijo pra morrer
afogada. Pronto, feliz da vida. Vingado! De peito lavado! Agora, sim. E fica
esperando pra ver se aparece outra prele esmagar com a força do mijo. Eita,
apareceu! A hora da vingança II. E lá vai ele empurrando a formiguinha pra
descarga! Fica horas nisso. Não sei onde ele arruma tanta carga pra detonar! Aí
dá a curiosidade de ver se tem mais: achou uma tuia delas fazendo carreirinha
na borda do vaso. Oxe, lá vai a força do jato da mangueira dele pra atacar suas
inimigas! Agora foi. Não deixa uma só pra remédio. Por conta disso, já deu até
de se ajeitar no arruado lá da casa dele, de não poder avistar um buraco na
terra que, pra ele, vira formigueiro. Inclusive, criou uma técnica pra não ser
flagrado pela polícia mijando na rua. Sabe como é? Ele chega, ajeita a perna da
calça, apruma o calcanhar como uma biqueira bem na loca das formigas e deixa a
urina escorrer pra causar maior maremoto de urina na morada delas. Ô vingança!
Freud explica? Jung, por favor! (Luiz Alberto Machado). Veja mais das Proezas
do Biritoaldo aqui, aqui, aqui e aqui. DITOS &
DESDITOS
Sonhar é uma
linguagem... A poesia está presente em todas as formas de criação. É ela que
lhes confere beleza — uma beleza que é um despertar, um grito de alerta... A
poesia é tanto a crítica do sonho quanto a sua forma mais extrema... Em cada
pintura, penso eu, é como se “Deus estivesse desistindo de acabar com o mundo”...
Pensamento do poeta,
ensaísta e tradutor francês Yves
Bonnefoy (1923-2016). Veja
mais aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU:
Creio que todos
somos nossos próprios cemitérios; habitamos entre os túmulos das pessoas que
fomos. Se estamos saudáveis, cada dia é uma celebração, um Dia dos Mortos, no
qual agradecemos pelas vidas que vivemos, e se somos neuróticos, ruminamos,
lamentamos e desejamos que o passado ainda estivesse presente...
Pensamento do
escritor, cineasta e artista visual britânico Clive Barker.
DEUS ALEIJADO – […] Não basta desejar um mundo melhor para as crianças. Não basta protegê-las
com facilidade e conforto. Lostara Yil, se não sacrificarmos a nossa própria
facilidade, o nosso próprio conforto, para tornar o mundo do futuro um lugar
melhor, então estaremos amaldiçoando os nossos próprios filhos. Deixamos-lhes
uma miséria que não merecem; deixamos-lhes uma infinidade de lições não
aprendidas. […] E agora a página diante de
nós se turva. Uma era findou. O livro deve se fechar. Somos entregues à
história. Ergam mais uma vez o estandarte esfarrapado Dos Caídos. Olhem através
da fumaça que flutua Para as manchas escuras no tecido. Este é o sangue de
nossas vidas, este é o Pagamento de nossos feitos, tudo prestes a ser
Esquecido. Nunca fomos o que as pessoas poderiam ser. Fomos apenas o que
éramos. Lembrem-se de nós. [...]. Trechos extraídos da obra The Crippled God (Tor
Books, 2011), do escritor, antropólogo e arqueólogo canadense Steven Erikson (Steven Rune Ludin), autor de obras como Toll the Hounds (2008),
The Bonehunters (2006), Midnight Tides (2004), House of Chains
(2002), Memories of Ice (2001), Deadhouse Gates (2000) e Gardens
of the Moon (1999).
CREPÚSCULO DO TORMENTO – [...] Sob
estas latitudes onde o céu não é nem abrigo nem refúgio, ser mulher é matar o
próprio coração [...] Era indispensável que cada um
reconhecesse o universal onde ele estava: na diversidade dos modos de expressão. [...] Tanto nos roubaram. Arrancaram partes inteiras de
nós mesmas. Pedaços de nossa alma. É isso o que buscamos. Como nos tornarmos
novamente nós mesmas por inteiro [...]. Trechos extraídos da obra Crépuscule du tourment (Pocket, 2016), da escritora camaronesa Léonora
Miano. Veja mais aqui.
MEDUSA - Quando eu disse que nada aconteceu
\ Eu menti-te. \ Acontece, acontece todos os dias, \ em pontes, em espaços
abertos. \ Porque eu me cedi ao amor \ Eu caminho, para alguns um objeto de
vergonha, \ para outros um espelho. Quem olha para mim \ é transformado em
pedra, \ congelado. \ Quando eu disse que nada aconteceu \ Simplesmente
esqueci. \ Desde aquele dia \ todos os cavaleiros, todos os pedestres \ carregaram
meu nome(Vergonha) \ como um escudo. \ Se uma pedra é jogada em mim \ Respondo
com pedra... \ Quando eu disse que nada aconteceu, \ Acabei de mentir. \ É isso
que acontece: eu respiro, eu existo. \ Meu coração é um tumor sufocante, perto
da mama. \ Recortei as músicas, \ a música maligna, metástase \ que traz de
volta as vozes dos dias perdidos. \ Meu coração é um celandine, \ ressequidos.
\ Meu amor, pode valer a pena? \ À noite minha cabeça pendura no meu pescoço
por um único cabelo \ então de manhã, e a dor da ferida cicatrizada \ e começa
tudo de novo. Poema da poeta, linguista, publicitária e professora georgiana Diana
Anphimiadi, autora dos livros Shokoladi (2008), Konspecturi
Mittologia (2009), Alhlokhedvis Traektoria (2012) e Chrdilis
Amoch’ra (2015).
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: AQUI É O CU DO MUNDO! - É ou não é, quem não tem coragem não amarra
negro! Tais pensando o quê? Aqui é terra de ninguém: quando não falta água,
falta luz! Nada vai pra frente, tudo anda para trás! Também, pudera: o povo
todo é só boi de cambão! O graudão pinta e borda, faz e desfaz, todo mundo sabe
no amiudado, ninguém tem coragem de dar com língua nos dentes, quem é doido?
Tudo lagartixa, frouxos que só. Também, tudo acoloiado: o bispo ajeita dum
lado, os padres arremedam do outro; os pastores seguem o ditado, os espíritas
no mesmo riscado, xangozeiro, coroinha, catimbozeiro, todas as ladainhas,
político, contador, empresário, matador, polícia, caçador, maçom e
prestidigitador, saco bem avantajado, lá vai tudo na sopa do maior misturado,
quem é que pode abjurar desse balaio de gato sabido? Com eles, não precisa
diploma de bacharel, basta dar duas ou três caracrachás no peito, tudo
resolvido! É só cantando: Caranguejo é
doutor, o siri capitão, aratu por ser pequeno é inspetor do quarteirão.
Aqui é assim: Viveu de fé, morreu de esperança, enterrou-se na caridade. Eita,
desgraceira! Biloca saiu pra comprar carne de sol e, do nada, estranhou-se com
um lá, levou duas facadas, uma em cada peito, bateu as botas e era uma vez. O
Tubiba tomou uma de perder a ideia: baixou a lomba de corno, matou a mulher e
retalhou em postas, arrancou o couro e ficou exibindo; agora ele anda sem
aguardente nem saia. Quando não é de morte matada, se morre do mesmo jeito ou
do coração. A vida é nadica de nada, um vintém furado. A política ajeita todo
mundo, amansa e dá rumo – só que ninguém sabe para qual precipício, são muitos.
Se for mulher, ainda é pior: de primeira como uma flor, a maior azaração pros
regalos; depois como uma maldição, mãozada no focinho e soando maior badalo. O
cenário é este mesmo, ninguém, mas ninguém mesmo, menino, marmanjo ou idoso,
tudo de nada. Tá, mas vamos aprumar a conversa: e o tal do Canoeiro, hem? Você
não sabe? O cabra é ladino! Oxe, foi preso e lá dentro da delegacia, ele
arrepiou a cabeleira e arrochou o pau nas costelas do delegado, tapou-lhe a
boca com mãozadas e bofetes e, depois de desancar aquelas autoridades todas,
passou pitu em todo mundo, saiu pela rua, atravessou o asseiro, levou nos
peitos o trecho encoivarado do roçado, entrou no canavial, timbungou no rio
Tapirahy e penetrou as funduras de não ser mais visto. O joão meia dúzia
pipocou que só, foi tiro pra mais de hora e parece que não acertaram o alvo,
tudo munheca ruim, pontaria desvalida. Danou-se de gente na água de rede
barredoura, gente que veio de anzol, de jerer, de tarrafa, como a onça para
pegar o macaco. Eu quero é novidade, isso eu já soube porque o sujeito tem
arrancada do diabo e foi se esconder das rebordosas lá na caixa pregos. Ninguém
ficou sabendo de nada do paradeiro dele, sabe onde ele estava? Como é? Estava
era com a Berimbela, aquela coquete rabuda que tem umas barroquinhas nas
bochechas que ao riso se abrem tão engraçadinha, aquela mesma que era a duquesa
do linguarudo, sabe quem é? Ora, se sei. Aquela menina da saia branca, da
janelinha do meio, deu-lhe uma gota d’água das borrachinhas do seio, dele se ri
e ela também feito flor desabrochando, ele só provocando mais a musa, na maior
versejaria: Sou amante da branquinha, do caju sou camarada, o copo na
viradinha, vira vira uma bicada. E tome peiada dela se achegar e ele só
pedindo: Deixa eu ficar no seu cangote. Oxe, foi no sopapo dela e por todos
seus bruxedos de branquela, benzodeus, logo aquela, os dois esperneavam na lama,
vuque-vuque avexado, enquanto ele impava com as odoríferas exalações do seu
perfumado cangote. Pode um negócio desse? O cara é rola doce! Ah, tem mais, o
cara é fogo na roupa! Mesmo? Destá, depois de se lambuzar com ela, deu um trato
na Maria Caxuxa, sabe aquela dançarina de primeira que deixa todo mundo
afogueado e doido pra chambregar com ela? Claro que sei. Pois foi: ela acodiu
ao gosto dele com aquele jeitinho dela abrir as pernas de fazer barra que ainda
hoje tá assentada bailando no cajado dele, dela gritar: Ô sapateado bom e
gostoso que só canjanja! Dizem que pegaram os dois, ele com os olhos revirando
e pendurado no remelexo dela, chega poetava de todo mundo decorar: Dengosa,
linda morena, minha flor de tiririca, gosto mais de você do que dum prato de
canjica! Vixe! O cara é virado! Só sei que ele está bastante encrencado. Eita! Isso
é pouco, ora, está é mesmo para lá de embaraçado no molho de bronca! Ainda
antontem viram ele enganchado na filha do Coronelão! De novo? Ora, se. Isso
depois já do sequestro? E apois! Então ela gostou. E toda macharia quer
pegá-lo, maridos, namorados, amantes, inconformados, solteiros, emancebados,
tudinho cobrindo seus passos para esfolá-lo vivo! Deixa pra lá, o problema é
dele, mas me diga uma coisa, como é que anda a mixórdia das eleições? Ah, tem
muita gente mexendo esse pirão, cada um que bote o seu mau gosto dando pitaco e
direção, da coisa ficar monstruosa, desindireitada e pronta pra danação. O que
se pode prever é que só os graduados que se entendem não sei como, os demais, a
gente e os da gente, nem comendo bosta de cigano dá para adivinhar ou entender.
Isso é só aqui! Viva a gente do Buraco, viva o buraco da gente! Eita, língua
solta! Desocupe o beco, bora!... Veja mais aqui.
ELA, AFORTUNADA...
Ela capitula e
se rende nua, cede e sucumbe crua, com toda gula se desprende, não mede e
pretende ser subjugada, mais se excede, transcende exacerbada e me incumbe a
alçada de incliná-la veemente, a vergá-la indecente, como quem nula se concede e
acende a medula afortunada, ascende encantada pro meu deslumbre de plena
gozada.
DITOS &
DESDITOS
O
relacionamento depende da influência mútua das identidades, sejam elas
individuais ou coletivas, e exige que cada identidade seja distinta e
independente. Relacionamento não significa confusão ou diluição. Posso mudar
trocando com o Outro e ainda não me perder ou me distorcer. É por isso que
precisamos de fronteiras, não como lugares para parar, mas como o ponto em que
podemos exercer esse direito de livre passagem do mesmo para o Outro; saboreie
a maravilha daqui e de lá...
Pensamento do
escritor e teatrólogo martinicano Édouard Glissant
(1928-2011), autor da obra Poetics of Relation (1990).
ALGUÉM FALOU:
Sempre que
pensava em desistir acabava por ganhar algum prémio ou algo bom acabava por
acontecer e insistia em avançar... O preconceito já me irritou mais. Agora
estou focada em fazer os meus filmes... Foi importante fazer filmes sem
financiamento, mas agora é um novo capítulo...
Pensamento da
cineasta cabo-verdiana Samira Vera-Cruz (Samira Nandi Marques Vera-Cruz Pinto), autora do premiado
curta Buska Santu (2016), que foi inspirado no filme Ladrões de
Bicicletas, de Vittorio de Sica, tratando sobre a relação entre um pai e um
filho, na Ilha de Santiago, ao som de tabanka como fundo pra trama.
OS BRANCOS - [...] Ele tinha apenas quarenta e dois anos, mas aquele olhar de "celofane
amassado", somado à postura típica de um insone de primeira categoria, já
havia lhe garantido a entrada no cinema com desconto para idosos. [...] Ele tinha aquele tipo de olhar caído que
sugeria que jamais havia se recuperado da experiência exaustiva de nascer. [...].
Trechos extraídos do livro The
Whites (Henry Holt &
Company, 2015), do escritor e roteirista estadunidense Richard Price, autor
de obras como Lush Life (2008), Samaritan (2002), Freedomland: A
Novel (1998), Clockers (1992), Bloodbrothers: A Novel (1976) e I Wanderers (1974).
NÃO HÁ NADA A FAZER - O sol engole o
quarto onde escrevo — \ o agradável túmulo do antes, do amanhã, do depois. \ Um
abutre branco rasga a janela \ e sua sombra de cera inclina \ a casa inteira
para o céu. \ Não há nada a fazer. \ As estátuas desta cidade inclinam-se
lentamente \ em direção à morte. E aqui as noites \ parecem divididas pelas
palavras de um profeta \ adorado por pássaros, pelos cavalos dos ciganos. \ O
ar está selado como um túmulo de órfãos. \ A solidão nos afoga, remando pela
noite! \ Às vezes, uma brisa nos atravessa, \ vinda de uma noite completamente
diferente, \ como um grito acorrentado dentro de uma resposta, \ como o
silêncio de um soldado, \ amplo o suficiente para aprisionar impérios \ conquistados
pela hesitação, pelo medo. \ Nos cobrimos, camadas de morte sobre morte. \ Não
há nada a fazer. \ O sol engole o quarto onde escrevo — \ túmulo do antes, do
amanhã, do depois. \ E agora? Sou menos que uma sombra. \ O céu desta cidade é
a boca de uma fonte. \ Você corre para dentro dela como se atravessasse um
campo de trigo. \ E você não se importa com o poder de ser menos que uma
sombra. \ E você não se importa que, há muito tempo, não haja nada a ser feito. Poema da
escritora, jornalista e editora romena Aura Christi.
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: ÓRFÃO DA SINA CAETÉ - Os meus pais? Os perdi ainda menino, aos
quatro anos, órfão. Do meu pai, nenhuma lembrança, nem a fisionomia dele me
aparece, o que sei foi a minha madrinha que me contou. Procuro ainda hoje sua
imagem, o meu destino. O que sei é que era um primogênito negociante do ramo de
móveis e eletrodomésticos, numa sociedade mercantil que reunia meu avô e dois
tios mais novos que ele. Era tataraneto de um sanguinário traficante de
escravos, ficou dono de tudo e fez fortuna. O negócio deixou de prosperar por
conta da má gestão e concorrência acirrada. A ruina começou quando o meu tio
caçula se envolveu com atividades escusas e foi assassinado meio dia em ponto
numa via de acesso à cidade. O do meio, teve lá um piripaque, dizem que por
conta de um câncer de próstata e foi pro saco alguns meses depois do primeiro
infortúnio. Meu avô que era viúvo, sucumbiu poucos dias depois de um infarto
fulminante. Restava o meu pai que tocava a loja sob a pressão dos
acontecimentos. Para se livrar do estresse, resolveu numa tarde de sábado fazer
o que nunca fizera: caçar. E se embrenhou na mata sozinho, com uma espingarda,
acredito, sob o pretexto de sair do sufoco e buscar a paz, meditando como ia
tocar a vida. Não tinha o menor traquejo. Foi encontrado febril e desacordado,
dizem. Quando voltou a si, já haviam passado mais de duas semanas do seu
desaparecimento. Estava sob os cuidados de uma tribo indígena que o havia
resgatado. Foi lá que conheceu uma dedicada jovem que cuidou dele e, mais
tarde, se tornaria a minha mãe. Completamente restabelecido, pediu ao pajé a
mão dela em casamento, veio para a cidade, comprou este sítio, e viveu aqui com
ela, onde eu nasci e até o fatídico dia do acidente em que ambos deixaram esta
existência. Isso é tudo que sei dele, afora outras coisas contadas por minha
madrinha e que, pelo menos agora, são irrelevantes. Tenho a sensação de que
está em algum lugar, procuro por ele até hoje, sinto que ele está pronto para
aparecer. Algumas vezes vou ao cemitério procurar pela cova dele... Nunca
encontrei ou desapareceu, por isso acho que ainda está vivo, perdido ou
escondido do que não sei. Já minha mãe, essa vive em mim o tempo inteiro, sonho
com ela todos os dias, como se ela vivesse ao meu lado a todo instante,
sobretudo com seus olhos no rio. É como se me dissesse sempre para onde devo
ir, o que fazer, como proceder e evitar enrascada. Minha madrinha me contou que
a conheceu um dia em que estava desesperada com a saúde de seu próprio pai.
Minha mãe a consolava e prescreveu umas ervas que curaram e o manteve vivo por
alguns anos, que era ensinamento dos Caeté, Carajós. Era índia dessa tribo
secular que fora perseguida desde a chegada dos portugueses. Era dada pela
história como extinta e viviam longe da civilização, escondidos nas matas. Com
a chegada do Coronelão por estas bandas, os problemas se agravaram. As
emboscadas com o fito de expulsá-los das terras provocaram mortandades, não se
sabendo mais se ainda resistiram aos ataques ou se fugiram para outras bandas,
vez que as matas foram sendo derrubadas para plantio de cana-de-açúcar,
formando grandes latifúndios. Quando meu pai encerrou as atividades da loja, todos
passamos a morar aqui de vez, tendo, apenas, por amigos os meus padrinhos. Eu
sempre gostei daqui, brincava livre no terreiro, inventava divertimento de todo
tipo com as plantas, os bichos e o rio que nasce logo ali. Fui crescendo e um
dia, era setembro quando morreram, minha mãe não queria fazer aquela viagem,
mas meu pai teimoso não arredou o pé e foram vítimas de um acidente que nunca
me explicaram direito. As lembranças vivas da minha mãe é o que conta, guardo
todos os mínimos momentos em que estive com ela, os momentos mais felizes da
minha vida, das histórias que me contava sobre a criação do mundo, quando Tupã
criou o céu, a Terra, os pássaros e os bichos todos numa planície sem fim, só
depois que criou as montanhas e os mares. O povo vivia em paz com os benefícios
do criador, até o dia que os homens se deram aos desafios, o que deixou Tupã
muito ofendido e mandou o fogo celeste por castigo e tudo mudou, com morros e
vales. Só se salvou Irin-majé que subiu aos céus e viu o criador a chorar,
criando a chuva que deram nos rios, mares e outras águas. Foi aí que ele deu para
Irin-majé a Maire-Monã e eles povoaram a Terra, ensinando-lhes a tonsura, a
epilação e os ritos. Eu ficava vidrado e pedia para que me contasse de novo e
recontasse essa história um montão de vezes para minha fantasia. Não terminava
por aí, outras tantas me contava do seu povo e é isso que norteia até agora
tudo o que fiz e faço. Minha madrinha chamava-a de Ciganídia porque ela sempre
sabia o que fazer, adivinhava as coisas e curava as pessoas que a procuravam
com seus problemas de saúde. O amor dos seus olhos ternos, o seu sorriso
inocente, o rio, tudo dela em mim. A vida é dura, fria e cruel. Veja mais aqui.
Ela ali nua submersa
me abre os braços pro seu regaço e se de dispersa pro meu desembaraço a sorrir.
Nela meu espaço daqui e transversa pros nossos laços, imersa Iaravi.
Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Em rota de colisão, a sorte...