domingo, fevereiro 28, 2021

TESSA BRIDAL, ROBERT LOWELL, JOSIE BESZANT, BOHUSLAV MARTINŮ & LUIS SOLER

 

TRÍPTICO DQC: O TRÂMITE DA SOLIDÃO – Ao som da Spring waltz – Mariage d’amour, de Chopin, na interpretação da pianista sul-coreana Sung Chang. - Da janela a vida pulsa em todo canto e o mundo parece sereno. Não, não está, foi mera impressão minha. Bastou apurar e lá longe o zoadeiro indiferente: a farra de vizinhos nas bolhas espalhadas, a ladainha dos fieis nos cultos acolali e alhures, filas de passantes proutras direções, as ruas cheias de pernas e pisadas. Ah, olvidam do genocídio, não estão nem aí; e o desgoverno se ocupa apenas de salvar a própria pele e dos seus. O monstro invisível captura desavisados e precavidos: milhões infectados, milhares sacudidos ao esquecimento. A impressão que tenho é que era uma vez um país... Hoje tudo é tão falso e quase não reconheço o compatriota na atitude selvagem, apesar do riso amigo e da aparência que não esconde a semelhança: são tão estranhos quanto estúpidos, como se feras prontas para me estraçalhar. Lá fora parece que não está acontecendo nada, isso entristece. No meu desolamento solidário, a escritora uruguaia Tessa Bridal: Ainda somos governados por entidades poderosas das quais não participamos de moldar ou controlar e, em lugar de poderes coloniais ou religiosos, agora temos poderes comerciais. Temos que escolher o grau em que queremos nos tornar cientes da injustiça e se e como estamos dispostos a enfrentá-la. Sim, tive sempre comigo ser imoral o desrespeito ao outro, mas como privar o faminto de se saciar diante do fausto, mesmo se o que estiver disposto seja imundície disfarçada; ou como coibir à porta escancarada à fuga do aprisionado, mesmo que dê num precipício e jamais tivera outra opção, nunca se sabe, e escapar às pressas se não quiser ficar no mesmo. Afinal está difícil viver e muito. Da minha parte, não terceirizei a vida moral e corro sempre o risco do desafio amoral, isso porque em mim doem disfarçadas dores alheias, afinal minha raça é todo mundo.

 


DOIS: OUTRA SOLIDÃO NO PAÍS DO FECAMEPA...- Imagem: da artista britânica Josie Beszant, ao som de Carnival of the Spirits (EMI, 1975), de Moacir Santos - O doutor Zé Gulu não sai mais às ruas, se muito chega à porta, toma um gole, espia pros lados, saúda conhecidos e some lá para dentro. Que foi que houve, homem? Está tudo repleto de inocentes macunaímas de mãos dadas com os das qualidades de Musil, de supostos e midiáticos heróis infames e cultores do QAnon com seguidores de algoritmos e evangélicos, afora bichos outros não identificáveis. Como é que é? Ele hesita todo dia em por os pés fora de casa: Não me sujeito a essa correnteza desvairada. Ora, ora, distanciamento social pela pandemia? Não só, era uma vez um país... Hem? Tanta lei, interesses escusos; serviço público, só corrupção; tantas mortes, tanto faz, tanto fez: quem se livrar que viva, o resto que se dane! Não me vejo mais humano, vivo entre feras e eu vitimado com o complexo do Samsa de Kafka. Pode se explicar melhor? Não existe mais o que se possa chamar de povo, só desvalidos; não há como se socorrer, a Nação ruiu à desordem e ao desperdício. Calma, doutor, hoje é segunda-feira, está começando a semana, se anime, homem! Você não deu fé da calamidade ainda, escute Mário Palmério: João Soares estava com a razão: política só se ganha com muito dinheiro. A começar com o alistamento, que é trabalhoso e caro: tem-se que ir atrás de eleitor por eleitor, convencê-los a se alistarem e ensinar tudo, até a copiar o requerimento. Cabo de enxada engrossa as mãos — o laço de couro cru, machado e foice também. Caneta e lápis são ferramentas muito delicadas. A lida é outra: labuta pesada, de sol a sol, nos campos e nos currais. Ler o quê? Escrever o quê? Mas agora é preciso: a eleição vem aí, e o alistamento rende a estima do patrão, a gente vira pessoa. Sim, sim, e daí? Marcial que o diga: É já tarde começar a viver hoje: o sábio começou ontem. As alegrias não ficam; voam e fogem. Não entendo. Ora, escute o Robert Lowell: A luz no fim do túnel é apenas a luz de um trem que se aproxima. No final, não há fim. E se ainda houver tempo é a hora do poema dele Escola de Hipócritas: converse com seu filho sobre amizade / converse com seu filho sobre respeito / converse com seu filho sobre autoestima / converse com seu filho sobre compaixão / e mande seu adolescente para a guerra. O senhor está muito negativo, doutor! Vivo do jeito que posso e sei, pra você: se for por falta de adeus, inté.

 


TRÊS: DAS MEMÓRIAS & SONHOS - Ao som da Fantaisies symphoniques nº 6, do compositor tcheco Bohuslav Martinů (1890-1959). - Daquela vez, quase inesquecível: ela Alma no meu sonho obsessivo de Kokoschka - a paixão a pleno vapor. No meio da traquinagem ela se fez Pasifae e me quis Touro indomável por tardes, noites e dias. E queria mais, muito mais. Assim eu&ela, ela&eu, bocas, mãos e sexo. Ao sair, eu me vi nos labirintos de Borges; e porque não mais voltou, restou-me o dédalo de García Marquez. A ausência e as minhas mãos vazias, coração em chamas, cabeça desencontrada. A solidão e a arte, a busca e o desejo, um projeto de estátua artesanal e nenhum segredo: ela Galateia da minha vida Pigmalião e tornou-se mais que real ao me abraçar, me beijar, dançar comigo e já até vontade própria: quer assim e assado, discorda de tudo e, depois de muito chorar aborrecida de tudo, diz que me ama e me faz feliz. Até parece jamais, fez-se carne e o meu ideal. Até mais ver.

 

AS RAÍZES ÁRABES, NA TRADIÇÃO POÉTICO-MUSICAL DO SERTÃO NORDESTINO



[...] Alguns estudiosos das tradições literário-musicais sertanejas, têm apontado serem possiveis certas influências árabes. Todavia, o comentário é feito quase sempre de passagem e às pressas, o nome dos árabes sendo mais um, na lista sumária dos virtuais contribuintes. Tudo o que até aqui levamos dito, no entanto, tende a demonstrar que esta influência foi muito mais do que isto: ela foi preponderante sobre todas as restantes. [...].

A obra As raízes árabes, na tradição poético-musical do sertão nordestino (Universitária – UFPE, 1978), violinista catalão Luis Soler Realp (1920 - 2011), quando o mesmo lecionou no Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Veja mais aqui, aqui & aqui.


 

 

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

THEODORE STURGEON, GRACE METALIOUS, LINDA ALTERWITZ, VICTORIA ROWLEY & SEBASTIÃO PEDROSA

 

 

TRÍPTICO DQC: TerraMãe – Ao som da Symphony of Nature (2015), de Marcus Viana & Transfônica Orkestra - Sou rio para mar... Sim, porque esperar pelos outros e o que esperar dos outros, não é a minha nem se encaixa, é tudo irrespondível: guerra, miséria, astúcias, domínio. Não faço parte dessa leva, quem quiser que vá. Falo sozinho e, às vezes, uma presença qualquer me assalta, penso em voz alta. Numa dessas da vida, o escritor estadunidense Theodore Sturgeon (1918-1987) me escutou e disse: O amor é um tipo de coisa diferente, quente o suficiente para fazer você fluir em algo, interfluir, esfriar e recozer e ser uma solda mais forte do que você começou. Depois pigarreou, foi até o canto da jantela e voltou-se: Há em certas almas vivas uma qualidade de solidão indescritível, tão grande que deve ser compartilhada como a companhia é compartilhada por seres inferiores. Essa solidão é minha; então saiba por isso que na imensidão há alguém mais solitário do que você. Por que devemos amar onde o raio cai, e não onde escolhemos? 90% de tudo é lixo! Cuspiu, fez um aceno e se foi como se nada tivesse acontecido. Cá comigo, sim: sorrio para amar, sim. Não sou melhor que nada, apenas mais um. Com as árvores aprendi o vento e as raízes na Terra. Com os peixes assimilei a travessia das correntezas até as profundezas abissais oceânicas. Com todos os demais seres vivos compreendi o viver: coisas de arregalar os olhos, outras nem tanto. Ademais, voo vivo.

 


DOIS: Do perigo & o prazer de saber - Imagem: arte da artista visual estadunidense Linda Alterwitz, ao som de Spiritual State (Hydeout, 2011), do compositor japonês Nujabes. – Meu pouso nas andanças, comigo a apreensão de tudo percebido e o trâmite do visinvisível. Do lado, escuto Steven Pinker: Temos que ser gratos agora que suas opiniões foram expressas em suas épocas e eventualmente foram vitoriosas e, portanto, nos tempos atuais, temos que preparar terreno para ideias desconfortáveis, porque não sabemos, até que permitamos que elas sejam avaliadas, se elas têm mérito ou não. A moralidade vem da universalização de suas próprias preferências e isso dá sentido à vida: tornar a vida o mais benéfica possível para o maior número de pessoas possível; eliminar a fome, a doença, a guerra e a ignorância; e eu acho que isso fornece razões suficientes para a existência. Compreendo exatamente o que ele diz. Daí mais um pouco, do outro lado, Stephen Hawking: Não importa quanto a vida possa ser ruim, sempre existe algo que você pode fazer, e triunfar. Enquanto há vida, há esperança. Mesmo as pessoas que dizem que tudo está predeterminado e que não podemos fazer nada para mudá-lo, olham para os dois lados antes de atravessar a rua. Há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade; e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona. Entendi cada palavra e sentido do que disse, sou permeável aos mais paradoxais que sejam quaisquer pensamentos e teorias, discernimento valendo resiliência. Não muito depois, Maturana & Varela quase em uníssono, frase ecoada: Esse é o fundamento biológico do fenômeno social: sem amor, sem a aceitação do outro ao nosso lado, não há socialização, e sem socialização não há humanidade. Não se trata de moralizar — não estamos pregando o amor, mas apenas destacando o fato de que biologicamente, sem amor, sem a aceitação do outro, não há fenômeno social. Se ainda se convive assim, é hipocritamente, na indiferença ou ativa negação. Cegos diante da transcendência de nossos atos, fingimos que o mundo tem um vir-a-ser independente de nós, justificando assim nossa irresponsabilidade e confundindo a imagem que buscamos projetar, o papel que representamos, com o ser que verdadeiramente construímos em nosso viver diário. A manifestação deles premia a minha solidão e o mundo, apesar dos pesares, segue adiante.

 


TRÊS: Ainda no meio da noite – Imagem da série Silk road - Show Off Silks (2017), da artista visual britânica Victoria Rowley, ao som de Mid of the Night, symphonic poem (1904 - Chandos, 2006), do compositor britânico Frank Bridge (1879-1941), The BBC National Orchestra of Wales and Richard Hickox. - O chão repleto de estrelas, a noite paradisíaca, a lembrança dela. Certa vez, espalmada sobre o tapete de sua arte, ela me disse de Grace Metalious: Não pode haver beleza, nem confiança, nem segurança entre um homem e uma mulher se não houver verdade. Não sei a razão dela assim se expressar e, virando de lado, continuou no mesmo tom: Se cada homem... parasse de odiar e culpar todos os outros pelos seus próprios fracassos e deficiências, veríamos o fim de todo mal no mundo, da guerra à calúnia. Mais uma vez rolou sobre o tapete e manteve o tom: Pessoas mortas não podem te machucar. São os que estão vivos, você tem que tomar cuidado. O público adora criar um herói... Às vezes acho que eles fazem isso pela alegria de derrubá-lo do pico mais alto. Como uma criança que constrói uma casa de blocos e depois a destrói com um chute violento. Você nunca percebeu como são sempre as pessoas que desejam ter algo ou feito algo que odeia mais? Levantou-se, vestiu a blusa e pegou o copo para uma dose. De repente virou-se, afastando-se: Eu olhei para aquela garrafa vazia e me vi. E se foi nua dançando feliz na minha cabeça. Até mais ver.

 

A ARTE DE SEBASTIÃO PEDROSA



A arte do artista e educador de arte Sebastião Pedrosa, PhD pela University of Central England em Birmingham, Reino Unido. Foi professor do Departamento de Arte e Comunicação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e é professor do Departamento de Teoria da Arte da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde é Coordenador da Arte. Sua arte pode ser vista na Arte Plural Galeria. Veja mais aqui e aqui.

 



quinta-feira, fevereiro 25, 2021

VLADY KOCIANCICH, JOANNA BAILLIE, CRISTIANA REALI, IDEIA VILARIÑO & RECIFE

 

 

TRÍPTICO DQC: Mistério, a poesia de todas as coisas - Ao som do concerto Live at the Montreux Jazz Festival (2012), do violonista Paco de Lucía (1947-2012). - Meus olhos se perdem pelas entranhas do mundo aberto à minha janela. Neste momento, dou à luz o que é impossível falar, o que desajuda e mais eu pudesse nesta hora o incontrolável entre órbitas e células, quantos redemoinhos abissais: o tempo que é meu com afluentes que desaguam onde não é mais possível, pelo menos agora ou nunca, diante do precário indizível do cotidiano, a derradeira apreensão por tudo diluído na minha sincera tolice para além do timbre comovido. Tudo é só solidão e, como se quisesse me salvar, ouvi a escritora argentina Vlady Kociancich me contando O segredo de Irina (Tusquets, 2016): Já vimos tudo o que existe. Gostaria de realmente ir mais longe. Bem longe. Sim, mais longe que o calor escaldante do mar imenso de um céu longínquo, mais longe que uma alma cansada pelas ruínas de Chichén Itzá, muito além da vida e da morte numa jornada inevitável além das aparências. Mesmo assim não imagino qualquer destino, quisera morrer em pleno gozo, no ato: vida é uma palavra desmedida até onde fui e o que tiver de ser feito o farei já. O mistério é a poesia de todas as coisas. Vamos.

 


DOIS: DAS DORES DE AMOR - Ao som do Concerto para Violino E minor, op. 64, do compositor alemão Felix Mendelssohn (1809-1847), na interpretação da violinista estadunidense Hilary Hahn e a Frankfurt Radio Symphony Orchestra, condutor: Paavo Jarvi (Korea, 2012) - Não sei mais onde estou, se entre vivos e mortos, o maldito e o santo, a injustiça e a tirania, tudo se dissolve e é muito horrível! Joanna Baillie me aparece no meio da noite: Onde as formas dentro da memória são vistas, / Formas fracas ou vívidas, variando frequentemente, que parecem / Como objetos em movimento em um sonho seriado... E me conta o melodrama gótico sobre o medo e a loucura de Orra (A tragedy in five acts - The Plays on the Passions, 3 vols. - LibriVox, 2018). Ouço atento e qual o tempo, se agora ou no medievo quatrocento, o castelo assombrado na Floresta Negra, o exilio da paixão dela por Theobald, tudo em vão: Sua mente dentro de si mesma contém um mundo escuro / De fantasias sombrias e formas horríveis! / Não lute mais com ela. Ela à beira do terror abjeto pelas maquinações nefastas do cavaleiro ciumento, depois da recusa para casar-se com o filho do seu pupilo: o medo, a segregação, o declínio da força de vontade e a sobrevivência na loucura. Não mais direito à liberdade, o desafio às leis da ordem patriarcal são tão trágicas quanto preconceituosas. Ela se apaga e é eliminada da história: Mas a dor da mulher é como uma tempestade de verão, por mais curta que seja violenta. Assim que sussurrou a última palavra da frase, ocorreu a suspensão do fornecimento de energia elétrica. Mais nada disse, as horas se passaram. Com o retorno da luz muito tempo depois, me certifiquei que estava só, contando as estrelas à janela.

 


TRÊS: DO QUE VAI E NÃO VOLTA MAIS – Ao som do concerto Lee Konitz New Quartet - Jazzwoche Burghausen (Germany, 2012), do compositor e saxofonista estadunidense Lee Konitz (1927-2020). – A noite é íntima e a ausência dela atravessa amanheceres por ondas crepusculares. Perdi a hora de tudo porque os pensamentos viajam por cenas, como daquela vez que ela reapareceu carregada com uma coleção de livros organizados pelo livreiro e colecionador francês, Alexandre Dupouy, e era a belíssima Cristiana Reali diante do meu encanto, era a redenção. Não, não era, engano meu, logo ela desfez e meio sem jeito, entre um passo e outro para lá e para cá: Falar que beleza não ajuda é mentira. Mas falar que só ajuda também é mentira. É diferente dos anos 40 ou 60. Hoje, se você for bonita, tem que mostrar mais personalidade e mais inteligência. Tenho o lado doce, sensível, frágil de meu signo, Peixes, e ao mesmo tempo sou esforçada, curiosa, vulcânica, como se diz em francês. Depois disso ficou silenciosa, inquieta. E me recitou um poema da poeta e compositora uruguaia Ideia Vilariño (1920-2009):  Já não será / já não / Não viveremos juntos / Não criarei teu filho / Não coserei tua roupa / Não te terei a noite / Não te beijarei ao ir-me / nunca saberás quem fui / por que me amaram outros. / Não chegarei a saber / por que nem como nunca / nem se era de verdade / O que disseste que era / nem quem foste / nem que fui para ti / nem como seria / viver juntos / querermos / esperar-nos / estar. / Já não sou mais que eu / para sempre e tu / já não serás para mim / mais que tu. / Já não estás / em um dia futuro / Não saberei donde vives / com quem / nem se te recordas. / Não me abraçarás nunca / como essa noite / nunca. / Não voltarei a te tocar. / Não te verei morrer. E saiu sem um aceno como se fosse para nunca mais. Dias depois, lá estava ela, linda como nunca, amante como sempre: uma deusa entronizada e nua nos meus braços e reino de nada. Agora não mais, tudo dela inesquecível e recorrente, doendo no peito túrgido como se a lembrança sangrasse feito um talho imenso em carne viva. Até mais ver.

 

EI, PESSOAL! VAMOS CONHECER O RECIFE!



[...] O carnaval pernambucano tem características próprias por sua diversificação de agremiações carnavalescas [...] Mas na “quarta-feira ingrata, que é de fazer chorar”, não perdiam o Bacalhau do Batata e o Bloco dos Irresponsáveis, que desfilava, à tarde, pelas ruas de Água Fria [...]

O livro Ei, pessoal! Vamos conhecer o Recife (Edificantes, 1997), da escritora Marileide Tavares e do historiador, escritor, músico e artista plástico Edvaldo Arlégo, contando uma história com um completo roteiro histórico cultural para se conhecer o Recife, falando em seus capítulos sobre o Marco Zero, o Mercado de São José, a feirinha, os bairros de Santo Antônio e São José, da Boa Vista, o carnaval, os subúrbios, o metrô, o baile de máscara, o frevo, retalhos e outras coisas. Veja mais aqui e aqui.

 



quarta-feira, fevereiro 24, 2021

MAYA ANGELOU, CLARISSA PINKOLA, ANNA TSYGANKOVA, DUTILLEUX, TEMPOS DE FOLIA & CASSE-NOISETTE

 

 

TRÍPTICO DQC: Viagens da janela – Ao som do concerto para violoncelo e orquestra Tout un monde lointain..., do compositor francês Henri Dutilleux (1916-2013), na interpretação da violoncelista alemã Konstanze von Gutzeit & Orchestra of the University of Music Franz Liszt Weimar, conductor: Nicolás Pasquet (2016). – Diante da noite a vida é uma incógnita! O que passou, nunca mais: se aprendi, ao meu redor não, quase ninguém. Um fantasma ronda ameaçador com as suas garras devastadoras no noticiário e quantos ignoram, parece que nem se dão conta o quão maravilhoso é viver. Ou se preferem a morte em alvoroço, alaridos de festa. Eis que se aproxima presciente, ali e acolá, não poupa quem alcança, mesmo que muitos escapem. O seu alarde me traz de onde eu vim das águas de sal e sangue: reminiscências emolduradas com os pesadelos de agora. O que estou fazendo aqui: reles equilibrista entre as lapadas das borrascas, as mordidas da indiferença e os devires movediços. Para onde vou, o que será de mim: braços abertos para o amanhã, mãos dadas com Maya Angelou: O amor não conhece barreiras. Ele salta obstáculos, pula cercas, penetra paredes para chegar ao seu destino cheio de esperança. Assim voo, viagens da janela.

 


DOIS: O Reino das Bonecas – Ao som da Suíte nº 1 – O Quebra Nozes, op. 71, do compositor russo P. I. Tchaikovsky, executada pela Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (OSES), sob a regência de Leonardo David. – Não sei como, só sei que despertei na antecâmara de Silberhaus, na companhia de... Quem é você? Drosselmayer e me conduziu por um prado até a galeria pavimentada por macarrões e pistaches e colunas de açúcar de malte. Para onde vamos? Não me respondeu, ele apontou para as pastoras e caçadoras alvoroçadas pela floresta perfumada da aldeia de Marzipã. Às pressas fui levado por ele em uma jangada de conchas e gemas, puxadas por golfinhos de ouro, que me levaram até o bosque de Doceburgo, onde encontrei uma multidão venerando o líder espiritual deles. Quem é? Era o Confeiteiro que falava sobre metempsicose. Virei-me para ele que se mantinha mudo e disse: Isso aqui se parece com Histoire d'un casse-noisette (1844 - Nova Veja, 2018), do escritor, desenhista e compositor alemão, E. T. A. Hoffman (1776-1822), adaptado por Alexandre Dumas: Erguendo-se em esplendor na ilha havia um magnífico palácio, uma cintilante construção em pedra colorida e torreões circulares. Janelas salpicavam as torres, brilhando com cristais e vidros. Ao concluir a exposição do orientador, logo me encaminhou para o palácio – é que eu havia sido convidado para tomar chá com as princesas-bonecas de Marie, sequer sabia, mas fui servido por pequenos pajens da cabeça de pérola, corpo de rubi e esmeraldas e os pés de ouro puro. Ao tomar o primeiro gole do chá, me falaram do gigante Boca-Faminta que, naquele exato momento, comeu uma torre. E me apresentou a Hawthorn, o Regente do Reino das Flores; depois Shiver, Regente do Reino dos Flocos de Neve; e a Mãe Ginger: ...uma mulher, com um vestido de babados laranja e vinho com a barra decorada com borlas de cortinas. Os cabelos encaracolados ruivos eram fofos e estavam presos com uma fita amarela. Ela era a Regente do Reino do Divertimento. Logo me levaram a cada reino – um grandioso cenário cinematográfico, criado por Lasse Hallström e Joe Johnston -, e, ao final do passeio, em uma reunião solene me disseram: A sua missão é dizimar milhares de ratos comandados por um Rei de Sete Cabeças e, depois, enfrentar o Boca-Faminta. Eita! O inventor Drosselmayer que estava sentado sobre um relógio me disse: Você será amado por uma linda senhora! Quem será ela? Ah, é a Fada Plum! E antes mesmo de balbuciar mais qualquer sílaba, Marie, então, me deu uma espada e fui enfrentá-los: uma luta e tanto, parada dura. Uma batalha além do que podia, mas no fim saí vencedor. Confesso: para um eterno perna-de-pau em tudo, ganhar essa parada foi caisa para lá de desgastante. Pela primeira vez na vida êxito em alguma coisa, razão pela qual pude entender melhor a situação: o primeiro reino era inabitado; no segundo, o tempo transcorria muito lentamente; o terceiro, o que existia ali não poderia ser levado para o mundo real: coisas que não são possíveis aqui são possíveis no Reino; e o quarto... Era sinistro. Aí o autor apareceu de repente, veio em meu socorro: O mais feliz dos felizes é aquele que faz os outros felizes. Em amor, não há último adeus, senão aquele que se não diz. Ao dizer-me isso, Dumas sorriu passando seu braço sobre meu ombro e me conduzindo aos meus aposentos: Boa noite. Será? Jamais pregaria os olhos.

 


TRÊS: A DANÇA DAS SÁBIAS - Despertei no meio da noite e, ao meu lado, ela estava sensualmente sentada com os pés sobre o centro: era Keira Knightley. E me falou sobre A dança das mulheres sábias A descoberta e a aceitação do sagrado feminino e do seu poder (Marcador, 2019), da Clarissa Pinkola Estes: A poesia faz-se necessária para explicar a força vital de uma mulher: a dança, a pintura, a escultura, os ofícios do tear e da terra, o teatro, os adornos pessoais, as invenções, escritos apaixonados, estudo em livros e nos nossos sonhos, conversas com outras que sejam sábias, o atento intuir, refletir, sentir e pressentir... Criações e realizações de todos os tipos são necessárias... Pois existem certos assuntos místicos que as palavras concretas isoladas não conseguem expressar, mas que as ciências, contemplações do que é invisível porém palpável, e as artes conseguem. E me contou de uma antiga tradição húngara sobre a ocasião do casamento de uma jovem, quando as velhas se reuniam para dançar enquanto distraiam o noivo antes dele se introduzir no quarto nupcial. Contou-me e saiu. Fiquei um tempo sozinho matutando acerca de tudo que me dissera. Logo, ela irrompeu e novamente sentou-se, agora com um vestido para lá de sedutor. Depois de um longo tempo seus olhos em mim, ela levantou-se: Não importa onde ou como vivamos, não importa em que condições... Nunca estamos sem nosso supremo aliado, pois, mesmo que nossa estrutura externa seja insultada, agredida, apavorada ou mesmo destroçada, ninguém poderá extinguir o estopim dourado, e ninguém poderá matar sua guardiã subterrânea. Sim? Novamente saiu sem dizer mais nada. Ouvi o barulho de abrir e fechar de portas. Trocou de roupa e novamente entrou como se assomasse levitando, retirou a blusa e: ...uma ocasião especial é qualquer ocasião à qual a alma esteja presente. Escolher tornar-se mais sábia significa sempre escolher aprender de novo. Deu-me a mão e me levou para a Sala dos Tronos: a música roubava meus sentidos. Ao vê-la, era ela a bailarina russa Anna Tsygankova nua a me convidar para o Pas de Deux. E se era sonho eu só queria uma coisa: nunca mais acordar. Até mais ver.

 

TEMPOS DE FOLIA



[...] Parte significativa da produção intelectual que se dedicou a pensar o frevo é constituída de crônicas, que mereciam não só estudo acurado, mas que viessem à luz em novas publicações. [...]

Trecho extraído da obra Tempos de folia: estudos sobre o carnaval no Recife (FUNDAJ/Massangana, 2018), organizado por Isabel Cristina Martins Guillen e Augusto Neves Silva, reunindo textos e autores, a exemplo de Debates historiográficos em torno do Carnaval do Recife, dos organizadores; Carnaval do Recife: a alegria guerreira de Rita de Cássia Barbosa de Araújo, O Carnaval regenerado do Recife: a consagração das elites modernas nos dias de folia da década de 1910, de Lucas Victor Silva; O Estado, a festa e a cidade: medidas de controle e ordem nos dias de Carnaval no Recife (1930-1945), de Mário Ribeiro dos Santos; Viva o frevo original: o ideal é sorrir e ao passo da Federação aderir, de Francisco Mateus Carvalho Vidal; O Carnaval tem seus direitos, quem não pode com ele não se meta! Os maracatus-nação no Carnaval do Recife no século XX, de Isabel Cristina Martins Guillen; Tristeza no reino da alegria: enfrentamentos entre o Interclubes e o Rei Momo no Carnaval de chumbo do Recife (1969-1972), de Diogo Barreto Melo; É na magia do samba que eu vou! Os duelos de Estudantes e Gigantes no Carnaval do Recife, de Augusto Neves da Silva; e Batalhas para além de confetes e serpentinas. A espetacularização no Carnaval pernambucano e nos maracatus-nação, de Ivaldo Marciano de França Lima. Veja mais aqui e aqui.


 


terça-feira, fevereiro 23, 2021

BRECHERET, THEANO, FRANCISCA JÚLIA, NEELLY BELLAH, ADÃO PINHEIRO & PONTO DE MUTAÇÃO

 

 

TRÍPTICO DQC: Apesar de tudo: viver! - Ao som do álbum Fala de Bicho, Fala de Gente (2014), da cantora, compositora e pesquisadora Marlui Miranda, do livro homônimo da pesquisadora e professora Cristina Martins Fargetti, sobre as cantigas de ninar do povo juruna (Sesc, 2018). – Ganhei o mundo e era como se fosse On the road de Kerouak: Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de uma estrela cadente para outra até desistir. Era muito jovem e me salvava com o sonho dos antigos eremitas e a cabeça de visionários. Na vera, me perdi: se vivia só, o pior era a desolação de não ter quem nem pra onde ir. Só ouvia o eco das vozes do sociólogo estadunidense Robert Neelly Bellah (1927-2013): De certa forma, sair de casa envolve uma espécie de segundo nascimento, no qual damos à luz a nós mesmos. Por mais doloroso que seja o processo de saída de casa, para os pais e para os filhos, o que é realmente assustador para ambos seria a perspectiva de o filho nunca mais sair de casa. Embora existam razões práticas e por vezes morais para a decomposição da família, não coincide nem com o que a maioria das pessoas na sociedade afirma desejar nem, especialmente no caso das crianças, com o seu melhor interesse. Fui assim mesmo, Andejo da noite e do dia: se pensasse duas vezes, não saía do lugar – era só ir e voltar: arrependimentos e culpas. Perdi meus elos, raízes esgarçadas. Mais tinha de ir, feito Caio Fernando Abreu: Confesso! Às vezes tenho vontade de sair por aí destruindo corações, pisando em sentimentos alheios ou sei lá, alguma coisa que me faça realmente merecer esse meu sofrimento no amor. Era quase isso mesmo, precisava fazer alguma coisa, valendo-me de Wole Soyinka: Um tigre não sai por aí proclamando sua tigritude. Ele apenas ataca! Eu apenas queria viver e não sabia, vivia. Até me descobrir: não era o mundo nem os outros, era eu mesmo. A coragem da liberdade, o aprendizado da vida. É isso. Ainda deu tempo de saber A terra que sou & recitar os versos da Viva Vida Verde. Apesar de tudo, convinha lembrar: o direito de viver e deixar viver.

 


DOIS: Ponto de mutação - Imagem: Viagem indiana psicodélica por meio de ecos infinitos de pensamentos, da banda tcheca MindWalk e ao som da trilha sonora do compositor estadunidense Philip Glass para o filme homônimo dirigido por Bernt Amadeus Capra sobre a obra de Fritjov Capra. - À janela e o que vejo: Que mundo é este? Não há resposta, apenas sei que As pedras falam e estou calado. Foi o que ela me disse ao aparecer como se fosse a cientista Sonia Hoffman na pele de Liv Ullmann: os seus ideais traídos, a lucidez e frustração, os problemas com a filha. Não estava dividindo espaço com um político que se descobriu mentira nem com um dramaturgo em fuga, não, não estava: apenas eu e ela atravessando o pântano do tempo. Depois de uma longa caminhada em que discutíamos a diferença entre mudança e transformação, deparamo-nos com um castelo medieval no Litoral da França. O passado estava ali, enclausurado. E nós com todos os temas difusos que nos atormentam mundo afora: a vida, o amor e a guerra, a política, o planeta, a morte e as tecnologias. Encaramos nossos desencontros: o do secular mecanicismo dos fragmentos especializados, ao invés de considerar as interrelações sistêmicas: Preferimos falar sobre ‘hiperatividade’ ou a ‘incapacidade de aprendizagem’ de nossos filhos, em lugar de examinarmos a inadequação de nossas escolas; preferimos dizer que sofremos de ‘hipertensão’ a mudar nosso modo supercompetitivo dos negócios; aceitamos as taxas sempre crescentes de câncer em vez de investigarmos como a indústria química envenena nossos alimentos para aumentar seus lucros. A natureza é o corpo inorgânico do homem – isto é, a natureza, na medida em que ela própria não é o corpo humano. Estávamos diante dos efeitos mais desagregadores: Hoje, porém, a desintegração do patriarcado tornou-se evidente. O movimento feminista é uma das mais fortes correntes culturais do nosso tempo, e terá um profundo efeito sobre a nossa futura evolução... O universo começa a se parecer mais com um grande pensamento do que com uma máquina. Transigimos, destoamos, uma dolorosa constatação: A evolução da consciência deu-nos não só a pirâmide de Quéops, os concertos de Brandemburgo e a teoria da relatividade, mas também a queima de bruxas, o Holocausto e a bomba de Hiroxima. Fitamo-nos indecisos: a dúvida nos vivificou. Cada qual sua impressão, pensamentos em voz alta: o que somos e o que estamos fazendo aqui, é desanimador. O que nos espera, sabe-se lá quão doloroso.

 

TRÊS: A musa no Grand Guignol – Imagem: Musa impassível, do escultor Victor Brecheret (1894-1955), ao som de Love’s Greeting Op.12, do compositor britânico Edward Elgar (1857-1934). – De volta, não era ela: era a ausência dela na travessia, o olhar de Paula Maxa a me alertar: Olhos bem abertos! Olhos bem abertos! Você não percebe quanto horror está contido nessas três palavras! Não estava ali, bem sabia: estava em mim nos versos da poeta Francisca Júlia (1871-1920): Ouço e vejo o teu nome em tudo: ou nos ressolhos do vento, ou no fulgor das estrelas, radiante... Tu és sempre o mistério, a luz que tenho diante do olhar, quando te imploro a piedade, de geolhos. Atravessei sozinho a encruzilhada, contando os passos e ouvindo-a profundamente como se fosse a filósofa grega Theano de Crotona (séc. VI aC): Os números são a demonstração da realidade e individualidade... E ela segredasse sussurrante na mesma leva aos meus ouvidos: A mulher que vai para a cama com um homem deve tirar o pudor com a anágua e vesti-la novamente. Ri. Era o que me restava porque ela não estava ali para me recitar um verso apenas da Perenidade da poeta Fernanda Seno:.. seremos outra forma de presença porque o amor subsiste eternamente. Não sei onde estou e se voo, não sei. Até mais ver.

 

ADÃO PINHEIRO



A arte do gravador, entalhador, pintor, cenógrafo, artista gráfico, desenhista e professor Adão Odacir Pinheiro, que é pesquisador do artesanato popular do Nordeste e da Cultura Africana. Veja mais aqui e aqui.


 


domingo, fevereiro 21, 2021

D’ANNUNZIO, VIVAN SUNDARAM, CASTELNUOVO-TEDESCO, FRANK BRUNNER & BELLA KAHUN

 

 

TRÍPTICO DQC: Abri os olhos e a vida às minhas mãos. – Ao som da Fantasia op. 145, do compositor italiano Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968), na interpretação da violonista Antonina Ovchinnikova e da pianista Daria Kovaleva, no Wiener Musikakademie, 2015 – Da janela: minhas mãos no trajeto das estrelas, as estradas da imensidão. Um raio rasga o céu: é Apophis. E tudo estremece, enlouqueço. A fé que nunca tive, iconoclasta dou por feito: não há o que idolatrar, nem douro pílulas, a tragédia não tem fim. Olhos abertos, sou mamulengo – para onde os dedos vão um mundo se constrói: em cada um deles outros de mim mesmo e o que não tenho; em cada um deles a face oculta dos meus sonhos quase tosco avoengo. E se a aceleração de Yarkovsky o desviou, a desgraça é mais que evidente: o meu coração é o alvo e o mundo quase não mais se queimam tudo. Minha aflição é labareda no rio para afogar dendroclastas e afins. Ouço na minha agonia o poeta francês Raymond Queneau (1903-1976): O homem dissipa a sua angústia inventando ou adaptando desgraças imaginárias. A história é a ciência da infelicidade dos homens. O humor é uma tentativa para libertar os grandes sentimentos da sua parvoíce. Sorrio, mesmo que tardio. Ao ver-me atônito sequer me reconheceu, deu-me por titeriteiro aos distirambos como se não soubesse que estou na carroça do Juazeiro.

 


DOIS: Sou outro não-eu: fiz do outro o que sou – Imagem da artista indiana Vivan Sundaram. – Como não vi desde ontem o de sempre não sei o que virá. Sequer adivinho, nem tento. Apenas vi dois olhos e neles pude ao entendimento: sucumbência recorrente, piso falso, ermo para todo lado e nenhum trinco sequer para me segurar. Nesse trâmite Gabrielle D’Annunzio me diz: Nunca é tarde para tentar o desconhecido. Nunca é tarde para ir mais além. Devíamos sempre aprender a amar-nos é o único romance que dura a vida inteira. A paixão, tal como a arte, vive só para si: a arte para a arte, a proeza para a proeza, a coragem para a coragem, o amor para o amor, a embriaguez para a embriaguez, o prazer para o prazer. Quem disse que a vida é um sonho? A vida é um jogo. As grandes doenças da alma, bem como aquelas do corpo, renovam o homem e as convalescências espirituais não são menos agradáveis nem menos miraculosas do que as físicas. Se ainda não sei o que fazer assim tão sozinho, já era tempo, quase tarde demais: eu voo.

 


TRÊS: A cantora Kantocu dos Tasvirs – Imagem: arte do quadrinista estadunidense Frank Brunner. – Como ela nunca mais, aqueles dois olhos são meus, mesmo que o meu mundo tenha desabado pelas sombras do Karagöz. Ainda aos meus ouvidos o que ela cantava lá longe e desapareceu abrindo caminho com um som estridente, a se perder pelas silhuetas de todos os meus fantasmas soltos na escuridão. A mim sequer restava acrobata ilusionista Hokkabaz, errando a fonte de luz e a fonte dos desejos, atravessando as desditas de Hacivat com o desaparecimento do Hayali dos tasvirs. Se fosse ela Anaïs Nin: A vida se expande ou se encolhe de acordo com a nossa coragem. Você não encontra amor, encontra você. Tem um pouco a ver com o destino, a sorte, e o que está escrito nas estrelas. O amor nunca morre de morte natural. Morre porque não sabemos reabastecer sua fonte. Ele morre de cegueira e erros e traições. Morre de doença e feridas; morre de cansaço, de covinhas, de manchas. Quem dera fosse ela, não era, e eu assim tão só. Até mais ver.

 

BELLA KAHUN



Eu consegui criar gosto de verdade sobre essa coisa de criar uma identidade artística.

A arte da cantora Bella Kahun, que já lançou o álbum Crua (PE Squad, 2020), com singles que seguem uma trilha do R&B, MPB, jazz e bolero, dialogando com uma nova cena da música brasileira que transita entre o acústico, eletrônico, boêmio, global e regional. Veja mais aqui e aqui.

 



EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...