sábado, maio 28, 2022

ROSA MONTERO, MARYANNE WOLF, GUILLERMO CABREIRA INFANTE, ORIDES FONTELA & BARTYRA SOARES

 

 

TRÍPTICO DQP: Era uma vez outras mais tantas vezes, pálin... – Ao som da Sonata for cello and piano (op. 65), de Chopin, na interpretação da violoncelista israelense Danielle Akta e da pianista Revital Hachamoff. - De profundis: o Sinal de Paulinho no Retorno de Nietzsche. As palavras povoam o mundo, rumores em cascata. Não é possível ter sorte, há quem diga mesmo: nascer aqui já diz tudo. Antes assim, se não era a hora, ficou para depois, não agora, não foi pra isso que nasci e viver a narrar do nada travesseiro entre jaboticabeiras, pinheiros e eucaliptos. Na curva da vida nunca precisei reter a respiração, mesmo que a turbulência deixasse claro o que era de venturoso e infortúnio, de lisonjas e rejeições – todos estamos sujeito ao logro, aos vícios do amor. Não há como não topar com parvos e esnobes, epítetos, rótulos ou assombros, dá tudo no mesmo: fisionomias desertoras que rilham os dentes e imprecam com os pés fincados no chão remoendo inquietações e de sobreaviso com os truques, sabe-se lá do quê, as hostilidades avassaladoras dos olhos que me viram e sei já estão mortos desde antes. Eis que da flor da aurora inventada alguém me diz Orides Fontela: só porque erro encontro o que não se procura. Depois, um silêncio tumular... Após alguns momentos complementa a Memória dela: A cicatriz, talvez / não indelével / o sangue / agora / estigma. / Nunca amar / o que não / vibra / nunca crer / no que não / canta. / O espelho dissolve / o tempo / o espelho aprofunda / o enigma / o espelho devora / a face. Não dá para identificar direito o vulto daquela que soa agradável aos ouvidos, mesmo que insista amanhecer no meio da noite. De mim nada mais que uma dúzia vezes mil de erros e nenhum acerto, como se fosse caronista disperso – cada qual seu papel de louco na dança de roda ou numa jornada cujo mapa construído apenas a partir de cada passo, sobrevivente de abismos pelos trunfos sucedidos aos fracassos e confundidos com as funduras das muitas profundezas. Não há nem onde começou de tão inútil, ninguém precisa saber: a loucura salva.

 


Nada & fumaça... – Imagem do artista estadunidense Bruce Neuman. – Basta um estalo, ou piscar de olhos, o triz: e nada mais. Agora mesmo não sei mais por onde anda o Doro e só me lembrei dele porque folheei Fumaça pura (Bertrand Brasil, 2003), do escritor cubano Guillermo Cabreira Infante, e logo dei de cara: Viver também faz mal a saúde. É que entre os membros da tripulação de Colombo, também chegava ao Novo Mundo, o desafortunado Rodrigo de Xerez, espantadíssimo com os homens-chaminé: os indígenas fumavam, era a descoberta do tabaco. De volta à Espanha, encheu-se de empáfia numa demonstração pública, não se dando conta de quem ausente às línguas ferinas pelas costas reputações retorcidas e findam na sina patibular, vez que a audiência, vendo-o exalar fumaça por todos os orifícios, julgava ser ele afinado com o diabo, enquanto sua própria esposa deitava denúncia ao Santo Ofício que o condenou a vinte anos de cárcere. Ufa! Por pouco não virou fumaça nas fogueias católicas. Essa não foi a sorte do Doro ao manipular a Teibei: bastava uma golada no fumegante aperitivo e logo envultava por uns três ou quatro dias desaparecido desta dimensão, pelo menos. Desta vez não, parece que abusou da dose, pelo que soube, depois de encher o tampo e virar mais de litros da tirana: faz tempo que ele não dá as caras, significa que ainda não desenvultou. É o que dizem e não estou aqui para discordar. Deixá-lo para lá, melhor...

 


O motor das reviravoltas... Imagem: a arte da fotógrafa e atriz estadunidense Elizabteh Lee Miller (1907-1977) - Era outro de muitos sonhos e Perséfone com a magia do olhar de quem chega, desfilava a beldade dos seus quarenta e não sei quantos anos de tanto rir, deixando à mostra o espalhafato das ancas arredondadas de seu pódice majestoso em baixo do curto roupão. De lá para cá, curvava-se para me virar as faces e deixar-me o busto ilustre de proeminentes seios soltos sob a veste amarrada na cintura, a me dar a sensação daquela frescura de frutas colhidas no quintal. Era como vê-la sair dos banhos sulfurosos pelas fontes, alheia às intrigas criadas com suas carnes de mil olhos curiosos e indecentes. Mostrou-me uma planta rara e carnívora do Camboja - uma planta-jarro – e me aparecia como quem saísse da clausura dos dias para me provocar na composição de recônditos setígonos jamais revelados aos viventes. Era tudo muito envolvente e despertei na agonia da volúpia. Para meu espanto lá adiante reluzia a estátua de Cocteau a me dizer: Havia muitas coisas comoventes, pungentes ou estranhas que eu queria... Então me aproximei e fui conferir de perto, evitou-me o olhar: Eu sou uma abetarda, a mim ninguém me apanha... É melhor partir sem pesar desta terra que rola e esmaga os que desejam dominá-la. Sim, ela encerrava a aventura da alma humana e do seu olhar distante uma ave fabulosa desprezava o caçador de quem sempre escapava e logo se tornava nas cinzas espalhadas ao redor do leito fúnebre: a alma que libertava para o voo. Algo me dizia que ela não se afastava da terra, nem era capaz de alçar altos voos. Insisti do seu lado e logo ela ergueu os braços sobre a cabeça e me contou desapontada sobre a gonorreia no estupro aos 7 anos, a foto dos absorventes menstruais, o corte no pescoço pela agressão de Man Ray, as enfermas crianças de Viena, a miséria dos camponeses da Hungria, o banho na banheira do Führer... Baixou as vistas e me falou Rosa Montero: Os homens costumam chamar destino àquilo que lhes acontece quando perdem as forças para lutar... Aí me insinuei, beijei-lhe a face fria e senti a sua carne viva crescer na minha pele sussurrando Bartyra Soares: Um dia deixei a cidade... ousei ultrapassar seus limites, fui mais longe, descobri o realismo fantástico e, assim, mergulhei noutros mistérios e labirintos, segredos e sonhos, sempre à cata de histórias que, até hoje, embora esporadicamente, nunca mais deixei de contar. Ali, abraçando-a afetuosamente, ouvi seus relatos mais íntimos e nela me revelei completamente perdido, como se nada mais soubesse, afinal, ou a coisa toda não regulava sempre lá muito bem hoje em dia ou só sou eu alvo de insuportáveis aborrecimentos: a vida toda só foi passar vergonha. Nela eu podia mais que viver e vivi. Até mais ver.

 

Normalmente, quando você lê, tem mais tempo para pensar. A leitura oferece um botão de pausa único para a compreensão e a percepção. A leitura é uma ponte para o pensamento. A leitura muda nossas vidas e nossas vidas mudam nossa leitura.

Pensamento da professora estadunidense Maryanne Wolf. Veja mais aqui e aqui.

 



domingo, maio 15, 2022

MARUJA TORRES, EMILY ESFAHANI SMITH, MARUŠA KRESE, SUSANA SZWARC & ZABÉ DA LOCA

 

 

 

TRÍPTICO DQP: Valuna, estaca zero. Imagem: COLAM, ao som dos álbuns Da idade da pedra (2002), Zabé da Loca (MDA, 2003) e Bom todo (Crioula Record, 2008), da pifeira Zabé da Loca (Isabel Marques da Silva – 1924-2017), que viveu por mais de 25 anos na loca fechada por duas paredes de taipa num sítio de Monteiro-PB. – Ao despertar Valuna era Venúsia e o outro nome secreto dela: uma ilha com duas estátuas colossais no meu deserto atlântico. Sabia que ali era o lugar onde nasci, mas se parecia outro tão estranho; ela não, realmente tão indígena quanto deusa nórdica: as duas faces de uma mesma paixão desnuda, águas pelas pernas nas proximidades do equador. Se eu me achava perdido ali, lá estava ela, de fato, recostada e nua nos jardins de Fons Belli, como se fosse a Pauline de Canova, a Vênus Victrix do meu coração: um sorriso de Sol e um troféu na mão - a maçã da vitória de Afrodite no julgamento de Páris. Reacomodou-se, abriu-me os braços como se fosse a Estrela D’Alva, mostrando o caminho pelos canais ornados por orquídeas, begônias, amazonas, bacantes e deusas. Para ela segui, até alcançá-la. Seria o reencontro? Não sabia. Abraçou-me como quem felicitasse a minha presença e me levou pelo monte até a mansão de mármore na torre de bronze, rodeada por pomares de laranjeiras e limoeiros, limítrofe do trágico vulcão Toba. Na sua alcova, sentou-se na cama e puxou-me do lado para recitar Como?, de Susana Szwarc: Vamos ver a coisa real: / por exemplo o rio / - daqui até aqui / poderíamos inventar / uma porta para a casa / mas / não - vamos ver como um vento talvez causado pelo próprio rio / não arrasta um chapéu em direção ao seu centro / Vamos ver mais tarde outra coisa: / a chuva que começa inundando o chapéu / faz com que as águas subam a tal ponto / que nos é impossível continuar vendo / porque o real que saiu de seu canal nos afoga. Olhou-me profundamente, beijou-me as faces e nada mais disse: já era Vésper porque tudo parecia malogrado e partiu na velocidade orbital do asteroide. Deixou-me ali a vida noitadentro com todos os sonhos impossíveis da felicidade ambulante e um fedor de fosfina no ar. Se era o primeiro dia eu não sei, parecia-me milênios de convivência e a solidão.

 


O segundo sonho de Ix... – Era o segundo dia e um rio corria no sopé da montanha das boas entradas florestais. Dali eu via as calçadas de mármore do palácio real e era ela a linda rainha Zixi, que há séculos reinava no seu trono. Achegou-se como quem traz a vida mais para perto e me contou que Guðríður havia percorrido distâncias maiores que os passos e fora levada por seu pai para se casar com o príncipe reinante. Depois da cerimônia navegou para Vinland e, por conta de um naufrágio em plena lua de mel, enviuvou. Outras viagens feitas, o tempo passava entre dores e esperanças perdidas. Dela restava uma escultura de Laugarbrekka: retratada de pé em um navio, equilibrando no ombro o seu filho, uma mão apoiada na cabeça de um dragão e o olhar fixo no futuro. Sabia que era a história dela mesma, a outra de muitas que sempre foi. Deu-me um beijo nas faces e me chamou atenção para Minha geração de Maruša Krese: Não toque nas minhas coisas. / A vida está aprendendo agora. / Não me culpe mais. / No fundo, nunca nos livramos disso. / Como gatos jovens, já nos afogamos. / Quando meninas fomos defloradas, / meninos foram levados atrás do frio. / Como papagaios em conservatórios fechados. / Junto com o leite materno, eles nos alimentaram com medo / Marcados como herdeiros de jovens heróis, / retratados como mimados. / A cultura da alma é a burguesia, a / dúvida na vida é quase adultério. / As crianças são o seu otimismo, / por favor, tudo vai bem até lá. / Não se desespere, / você nos pediu para não viver. Uma lagrimou rolou na sua face serena e ali estava dado o sinal de que estaria só e à espera da minha chegada ali em Ix, a ilha a oeste de Sem-Terra, para me contar o seu segredo: diante do espelho uma velha horrorosa. Voltou-se chorosa, abracei-lhe. Fiz uma canção na sua carne e outros poemas com as nossas travessuras impunes das noitedias de sonhação. Não sei se ela se foi mais uma vez, a sensação que tenho até hoje é de que ela ficou em mim.

 


O terceiro de poucos dias... – Imagem: Tristan and Isolde (1910), do pintor espanhol Rogelio de Egusquiza (1845-1915). - Era o terceiro dia e ali um piso de mármore verde não me deixava perceber que não havia cantos nem ângulos. As paredes brancas davam numa cúpula de teto arqueado com uma coroa adornada de ouro e pedras preciosas, e me davam a impressão de que me encontrava numa gruta redonda cortada na lisa pedra branca. Estava deitado numa cama elevada e esculpida no centro de um cristal de rocha. Dava para ver a porta de bronze, presa por duas grandes barras, uma de cedro, a outra de marfim, e que só poderia ser aberta por dentro: porque o verdadeiro amor não pode ser forçado. Todo ambiente era iluminado pelas três pequenas janelas no alto dos paredões. Ela adentrou me chamando Tristão e eu esquecido quantos dragões havia enfrentado e sucumbia mortalmente ferido, enquanto ela prisioneira na torre da solidão, e que tudo se parecia com as narrativas de Gottfried von Strassburg pela região remota e montanhosa da Cornualha, uma história recontada e totalmente perdida como o Santo Graal. Sim, isso eu sabia: ela era agora Isolda, aquela que fugira dos ciúmes de seu esposo. Era como se revivêssemos a nossa Laranja Mecânica recorrente e ouvíssemos o eco da escritora espanhola, Maruja Torres: Os homens sempre gostaram de se reunir e discutir, e fingir que tomam decisões consensuais que farão do planeta um lugar melhor. Então a realidade vem e os derrota... A vida é como café ou castanhas no outono. Eles sempre cheiram melhor do que têm sabor. Ela me olhou com o brilho de todas as manhãs para me dizer que tudo flui do inesperado entre a porta aberta da espera e o adeus. Até mais ver.

 


Nossa cultura é obcecada pela felicidade, mas vejo que buscar um sentido é o caminho mais gratificante. E os estudos mostram que pessoas que encontram um sentido na vida são mais resilientes, se saem melhor na escola e no trabalho, chegam até a viver mais...

Pensamento da escritora, psicóloga e jornalista estadunidense Emily Esfahani Smith. Veja mais aqui e aqui.

 



segunda-feira, maio 09, 2022

CRISTINA PERI ROSSI, CARRASCOZA, RONALDO CORREIA DE BRITO & LUZIA DE LAGOA SANTA

 

 

TRÍPTICO DQP: O projeto do farol... – Imagem: AcervoLAM, ao som do álbum The lighthouse project (Iceland, 2013), do quarteto islandês Amiina. - Segue a vida e quase enclausurado na minha própria fantasia, não há como ser de outro jeito: viver tem se tornado muito difícil. Quantas vezes o sangue quente da memória, qual Gulliver pelas minhas mil e uma noites, como se acusado pelo que não cometera e as vozes familiares repreendendo demoradamente nada mais que um Quixote metido a Perec no Oulipo. Na verdade era ânsia malograda do mágico de Rubião: inventava de dia os sonhos da noite, nada adianta. Quem dera outra fosse a paisagem e nada parecesse com tochas acesas e candeeiros lampejantes sobre andrajos, enquanto sigo atado às comoções e engasgado por ser o personagem de mim mesmo, se não sei mais onde nasci nem onde vou morrer, acho que enganchado num mata-burro intransponível. A quase salvação se dera quando a professora Renata Sant’Anna de Godoy surpreendentemente trouxe a lembrança da minha predileção Kandisnki: A cor é o meio para exercer uma influência direta sobre a alma. A cor é a tecla, o olho é o martelo moderador, a alma é um piano com muitas cordas e o artista representa a mão que, mediante uma tela determinada, faz vibrar a alma humana... Foi daí que entendi: das coisas nascem coisas... Só novas formas de manipulação, como? Se a mão sem jeito, a provocação da tela e um milhão de ideias na cabeça sem saber nem por onde começar. Ah, nem batia os olhos, pois se trata de coisas assim e nunca se sabe, muito menos eu.

 


Misse Stultitiam Consiliis Brevem: Dulce est desipere in loco - Imagem do artista visual italiano Nicolò Canova. - A frase de Horácio martelava no juízo, como se eu quebrasse a caixa entre a Eudaimonia aristotélica e o Epistemicídio do Boaventura, enquanto repetia insistentemente o verbete da paz do Dicionário do diabo de Ambrose Bierce que já quase sabia de cor: é só o período de conversa fiada entre duas guerras. Do outro lado a Harper Lee ecoava O sol é para todos, porque Luzia de Lagoa Santa da Lapa Vermelha queimava outra vez ao meu lado. Espanto maior foi com a poeta uruguaia Cristina Peri Rossi: Quando perdemos a capacidade de rir de nós mesmos, estamos à beira de uma profunda depressão. Eu não queria parar de falar de amor para falar de sobremesas. Eu só queria parar de falar sobre amor para fazer isso. Pois é. Se bem que depois do sim e do não depôs Carrascoza: o mundo é indiferente à nossa sensibilidade. Na verdade, se vou ou se fico, não sei lidar com nada disso, apenas vivo. Um pouco de loucura, talvez, faça mesmo bem à saúde.

 


Entre sonhos, pesadelos e devires... –Imagem: AcervoLAM. – Não demorou muito e era Joel que chegava. Sabia disso, ouvia de longe suas gargalhadas gratuitas. Bastava olhar pra ele e dele as gaitadas eclodiam assim do nada. O pior foi que ele tentava explicar sobre a diferença das folhas de jaca mole e dura, parecia palavra de doutor sobre o assunto, e eu patavina de entender. No alto da sua soberba, uma distinta senhora corrigiu: É ao contrário, meu senhor: esta é de mole, esta outra é de dura. Ué? E mudou, foi? E caiu nas casquinadas, emendando outra disso e daquilo, resenha sem fim. Para mim era como se fosse coisas saídas daquele As noites e os dias (Bagaço, 1996), do Ronaldo Correia de Brito, tudinho ali se enfileirando feita cenas de novela: a doidice de Maria Caboré pilando arroz no meio dos sonhos com o Príncipe Odilon e Rei-de-Congo, atrapalhada por mãos atrevidas se adiantando entre seus seios e coxas; e a galinha que fez Otacílio ver o sol, e de Dolorida que escorraçou o diabo, e o morto que voltou para salvar Inácia da vingança, e aquela pervertida sensual que não conseguiu escapulir do Rabo-de-burro; e outras se sucediam como se entre uma e outra: ... a casa de três vãos, grande como a alma de um homem que vivera muito. Ninguém sabia quem existira primeiro, se o velho ou a casa. Ele sempre fora visto ali, os cabelos perdendo o preto, como o dia, a luz... Essa a vida daqui, dos que penam e sorriem, dos que se fazem de manha nas pitangas para engalobar os bestas, e todos saúdam e se ofendem mutuamente, dia sim e outro mais. Até mais ver.

 


[...] o educador deve ter vindo de uma formação que lhe possibilite um eficiente aporte teórico e epistemológico, deve ter imaginação e ser criativo e ter capacidade de liderar e enxergar a realidade concreta a ponto de poder influenciá-la. Sendo a Educação Ambiental uma educação para a cidadania, os educadores precisam ultrapassar os limites disciplinares da área em que atuam, interligando o social às suas práticas escolares, fazendo emergir discussões sobre o lugar que o homem ocupa no mundo, refletindo criticamente sobre sua situacionalidade. [...].

Trecho extraído da dissertação de mestrado Educação Ambiental em uma escola agrícola de Campo Grande-MS: que saberes, que práticas e que resultados (UCDB, 2007), da professora e pesquisadora Kely Adriane Brandão Pereira. Veja mais Educação Ambiental & Leitura aqui, aqui e aqui.

 


domingo, maio 01, 2022

ANA HATHERLY, GABRIEL MATZNEFF, MICHÈLE PETIT & GRAÇA LINS

 

 

TRÍPTICO DQP: De volta à estrada, de novo... – Imagem: AcervoLAM, ao som do álbum Antropopfagia ao vivo em New York  (Biscoito Fino, 2014), da poeta, compositora e multiartista Beatriz Azevedo. - O céu desabou faz tempo e o eclipse reina porque a neblina esconde o amanhecer, a derrocada geral de nenhuma despedida. Meus pés nas poças dos prantos invernosos canavial afora pelo passado que não lembro. O caminho parece longo e os edifícios são monstros escarnecedores da minha condenação, não me salvam do pé d’água torrencial pela punição do desterro: a distância é mais que o interdito de nunca ter que chegar perto de nada nem de lugar qualquer, nem de ninguém. Ah, antes fosse o caminho disfarçado do paraíso, a Ilha dos Amores dos Lusíadas de Camões: da terra imensa e mar não navegado. Não, não era, era a odisseia do Ulisses que errou de tudo, até das páginas soltas que se perderam no incêndio da biblioteca. Lá vou eu de novo com o poema de cor no desterro de Scorza, cruzando aqui e acolá com fantasmas que perderam sua direção. Entre um e outro distingui o escritor francês Gabriel Matzneff: A minha pátria profunda é o exílio. E tentou me livrar a cuspida na cara de alma penada. Eu que me desvencilhei de tudo no rebojo das horas e dos dias, tinha de levantar os olhos e seguir em frente. Quem aquela que acena ali? Quase não vi ao esbarrar apressado na alma solícita da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015): A teimosa realidade. Na arqueologia da paisagem a viagem da escrita é abolição oblíqua, delírio provocado, lição de tentativa. Ao fim de tantos anos o desejo faz-se exílio. Apontou-me o perigo e pude contornar sozinho proutra direção. Do que não tive por abrigo, a vida fez-se ambulante pelo que ficou para depois e nunca mais voltar.

 


Os gibis das chamas – Imagem: a arte do artista visual Raymundo Colares (1944-1986) – Os ônibus passam para lá e para cá, e não distingo mais nada: sou um bólido no espaço. Os luminosos indicam os destinos, pronde será que vão os olhos pregados no horizonte? As cores voam e me sinto outro, como se revivesse a infância com as experiências de Bruno Munari: a fila no ponto, o alvoroço do embarque, o engarrafamento: pronde vão? O centro emporcalhado, as curvas do largo, o cruzamento do metrô e as piruetas das motocicletas: pronde é que tudo vai? A sirene rasga a loucura, a buzina no semáforo, o ronco do ferro na frenagem, as marchas reengatadas, qual destino? O sonho lotado, o aceno na esquina tirou fino no retrovisor, passou perto a placa do velocímetro e queimou o ponto, subiu a serra e estreitos logradouros pelos morros do subúrbio. Se desceu eu nunca vi, piso o chão como quem buscasse a direção do bom porto: um filme roda na cabeça, nada se firma na ventania e rouba as formas de Volpi. Sou aquela pedra atirada na vidraça do museu e na parada obrigatória atravesso a vida e sinto como se eu fosse atropelado pela própria obra que fugiu do Salão Nacional, sem que perdesse as cores de Klee e nada entendesse da absurda lógica de Mondrian. De relance a velocidade, o caleidoscópio, o fogo na maca: a arte está morta, mas eu estou vivo. O final da linha: das cinzas, a tragédia no sanatório: outra é a ressurreição.

 


A leitura do eu e todos os outros... – Imagem: arte da poeta e artista visual Lenora de Barros. – Tudo se parecia como se eu tivesse saído das páginas de um livro qualquer da Biblioteca de Fenelon: finalmente o dia claro para o xexéu no voo das vespas à procura de maribondamigo. A casa onde eu nasci à beira do rio não existe mais e sou o eterno bocejo doutro lugar na espera do Pinheiros. É quase tão tarde, nunca demais: sou apenas o menino que fugiu confeitos nos bolsos da bodega dos avós e não sabia se subia a Coreia sem ter pronde ir, ou se pegava a rodagem da usina pra Pirangi, ou se dobrava a esquina das freiras pro Matadouro que nunca gostei. Nada, ficava no Pontilhão vendo as meninas passar e só voltava na hora do almoço para vê-la acenar: uma faísca no teor do raio daquela rubro-negra da foto furtada de tempos longínquos que reaparecia só pra que um dia eu pudesse homenageá-la numa postagem daqui. Agora depois de muita água passada por baixo da ponte de Japaranduba, o reencontro só para lembrar os Olhos de Clarice nas entrelinhas que ela escreveu. Afora coisas que a gente viveu no que ela expressou de amores e livros – ah, o professor Brivaldo na sala de aula do Ginásio, quando não peiticava comigo às gargalhadas de Pedro Bó ao reunir suas memórias prum livro. Foi então que ela me presenteou suas escrituras: das enigmáticas badaladas do sino que Heleninha não sabia o alarme dos comunistas tidos por monstruosos estupradores com 50 dedos em cada uma das 8 mãos e outras aberrações da invencionice; do nome de batismo daquele idílio de periquito enquanto o amor mandava ver nas palavras do mestre Machado; e a glória sem tortura de seu Bispo da Izácio – minha cidade ainda é empestada de nomes de rua com santos e milicos, salvam-se as praças da Luz e Maurity, uma ou outra rua como a do Limão que ninguém sabe se é azedo ou não, da Palma que pode ser da palmeira ou da mão, da Aurora que só se vê o Sol ao meio dia, do Jardim que não tem sequer um pé de coisa qualquer pra remédio, e as hilárias do Mijo, do Cu-de-boi, Esconde Negro e por aí vai. Saudoso Manoel dos meus compadres Javanci & Sandra. Coisa de encher o peito de tão bom, de jogar conversa fora e falar besteira. Aos meus olhos ela me disse linda como sempre: Ao ler, lemos a nós mesmos! Eis a salvação, folga meu coração erradio. Até mais ver.

 

[...] ler permite iniciar uma atividade de narração e que se estabeleçam vínculos entre os fragmentos de uma história, entre os quais participam de um grupo e, às vezes, entre universos culturais. Ainda mais quando essa leitura não provoca um decalque da experiência, mas uma metáfora. [...] Ler tem a ver com a liberdade de ir e vir, com a possibilidade de entrar à vontade em um outro mundo e dele sair. Por meio dele o leitor traça a sua autonomia [...].

Trechos extraídos da obra A arte de ler ou como resistir à adversidade (Ed. 34, 2009), da antropóloga francesa Michèle Petit. Veja mais sobre Leitura/Livroterapia & Educação aqui, aqui e aqui.

 



MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...