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segunda-feira, setembro 05, 2022

MARYANNE WOLF, CAROLINA DE JESUS, YOANI SÁNCHEZ, ADELMO ARCOVERDE & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

Ao som dos álbuns O convertido (2013) e Mensageiro (2014), do compositor, instrumentista, arranjador e violeiro, Adelmo Arcoverde, autor do livro Viola do Nordeste – Método de Viola (Nova Presença, 2022).

 

TRÍPTICO DQP: - A casa dela... - Ali não havia quintal, apenas os olhos vivos de Copacabana repletos de esperança e alguns temores com os ruídos e a dispersão do tempo, desencontros e incompreensões. Às vezes, na casa dela, seus olhos brilhavam assustados na encruzilhada fortuita como se estivessem submersos pelas sombras da Inés de Goya, diante dos fantasmas misóginos que povoavam os arredores para captura das Filhas da Dor. Eram abantesmas que diziam aos seus passos: Ôpa, volta... E ela não, levada pela Carolina Maria de Jesus: Anda, anda... faz de conta que está sonhando. E seguia Sol a pino, com suas intensas inquietações na contundência de dizer não, porque não era Efeito Mandela: tudo acontecia na esquina – a mão atrevida do algoz, as vestes aos farrapos, a marca do estupro, o desdém da hipocrisia, a dor de nunca esquecer. E tinha de sair de casa para constatar o que dizia a jornalista/blogueira cubana Yoani Sánchez: Fomos para as ruas porque tínhamos fome, é certo. Tínhamos tanta fome que comemos o medo. A liberdade é contagiosa, sempre se quer mais. Era assim que podia sorrir: olhos pedintes, a volúpia na carne, a entrega da alma. Na moradia do passado, portadentro, ela exorcizava seus medos e se desnudava impune para valer a vida: meu sexo nela.

 

As aldravias de Xexéu... - Na manhã ensolarada Janilson era mais que imponente porque Rute era mais que poeta radiante: os dois brilhavam no palco na maior festa. Na entrada eu conversava com Durán e Tony Antunes sobre o volume da publicação de Dom Acácio, arremedando hestórias de ontem quase esquecidas na memória. O povo xexeuense foi chegando engalanado e logo os acordes da Banda Ipiranga saudavam a todos com a abertura ao som da Aquarela de Ari Barroso, seguida de um Pot-pourri do inesquecível Gonzagão. Para os presentes começou a festa: gente chamada para compor a mesa das autoridades, a ciranda da meninada do Maria das Mercês, as aldravias do casal Donadon com as Confidência do itabirano do Drummond: Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!..., os livros infantis da Eliane Santos e a conversa animada sobre As Lendas do Piauí, com a radialista/jornalistescritora Arleni Portelada, também retratadas pelo Mestre Portelada: ... me deparei com muitas estórias compartilhadas por toda a região do Nordeste. E falou do Cabeça de Cuia: No caso do Crispim há o castigo da metamorfose do ser errante e sem paz, como mensagem. Conversa animada, tudo corria como o desejado pelo poetamigo Marcos Xhêpa. E seguiu-se até ao meio dia quando desci a ladeira para o almoço na companhia da Maria Joyce. Singramos a cidade, percorremos ruas e a feira já quase desfeita, saboreamos suas canções com uma cerveja gelada até o finalzinho da tarde para constatar, no meio de uma rompante crepuscular: canto e sou xexéu!

 


A poesia em queda livre... - Na ruina das certezas todas as dúvidas, graças. Afinal estou vivo e já sei: toda beira do abismo é redonda, assim o infinito é pequeno (porque, como diz o poeta, a criação do homem derrota Deus). Pois é, foi Vital Corrêa de Araújo que deu as caras e sacou: Todo ápice cambaleia! E com uma meia declaração sincera: a eternidade é inútil! Havia nos olhos dele os tendões do amanhã: quem não vacila diante do aparato de possibilidades, se nada mais intransponível entre palavras perdidas, o confessional e a crua meditação, o dom noturno e a aura da desilusão, as estrelas descalças da calçada pelo chão da manhã, situações nuas e o rio lento e voraz do tempo, todas as náuseas e vergastas, haja paradoxo. Disse-me mais: É preciso conjulgar tudo com nada: a liberação total da força expressão. Evidente alguém ouvir isso e se achar como se numa desconfortável assistência a um concerto, digamos, de música atonal ou dodecafônica; ou de uma exposição de pintura abstrata, ou mesmo de uma sessão com cenas delirantes de um teatro ou filme de vanguarda. E ainda por cima ouvir Cocteau: A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê... Serviria de consolo saber de Ionesco: Creio que se tinha esquecido, nestes últimos tempos, o que é teatro. E eu fui o primeiro a esquecê-lo; penso tê-lo novamente descoberto, para mim, passo a passo, e eu acabo de descrever simplesmente a minha experiência... Favorecendo a digestão, talvez, melhor Sábato: Se é absurdo, no entanto, é eficaz; se contraditório, é poderoso, porque substitui as palavras e expressões desgastadas que, psicologicamente, são inoperantes, por novas combinações que atraem pelo inesperado. Sabe de uma coisa? O melhor é que de tudo que sabia até agora, muito ainda por aprender. Ponto final, até mais ver.


A alfabetização está tão entrelaçada em nossas vidas que muitas vezes deixamos de perceber que o ato de ler é um milagre que está acontecendo nas nossas mãos. O que lemos, como lemos e por que lemos mudam a maneira como pensamos.

Pensamento da professora estadunidense Maryanne Wolf. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



sábado, maio 28, 2022

ROSA MONTERO, MARYANNE WOLF, GUILLERMO CABREIRA INFANTE, ORIDES FONTELA & BARTYRA SOARES

 

 

TRÍPTICO DQP: Era uma vez outras mais tantas vezes, pálin... – Ao som da Sonata for cello and piano (op. 65), de Chopin, na interpretação da violoncelista israelense Danielle Akta e da pianista Revital Hachamoff. - De profundis: o Sinal de Paulinho no Retorno de Nietzsche. As palavras povoam o mundo, rumores em cascata. Não é possível ter sorte, há quem diga mesmo: nascer aqui já diz tudo. Antes assim, se não era a hora, ficou para depois, não agora, não foi pra isso que nasci e viver a narrar do nada travesseiro entre jaboticabeiras, pinheiros e eucaliptos. Na curva da vida nunca precisei reter a respiração, mesmo que a turbulência deixasse claro o que era de venturoso e infortúnio, de lisonjas e rejeições – todos estamos sujeito ao logro, aos vícios do amor. Não há como não topar com parvos e esnobes, epítetos, rótulos ou assombros, dá tudo no mesmo: fisionomias desertoras que rilham os dentes e imprecam com os pés fincados no chão remoendo inquietações e de sobreaviso com os truques, sabe-se lá do quê, as hostilidades avassaladoras dos olhos que me viram e sei já estão mortos desde antes. Eis que da flor da aurora inventada alguém me diz Orides Fontela: só porque erro encontro o que não se procura. Depois, um silêncio tumular... Após alguns momentos complementa a Memória dela: A cicatriz, talvez / não indelével / o sangue / agora / estigma. / Nunca amar / o que não / vibra / nunca crer / no que não / canta. / O espelho dissolve / o tempo / o espelho aprofunda / o enigma / o espelho devora / a face. Não dá para identificar direito o vulto daquela que soa agradável aos ouvidos, mesmo que insista amanhecer no meio da noite. De mim nada mais que uma dúzia vezes mil de erros e nenhum acerto, como se fosse caronista disperso – cada qual seu papel de louco na dança de roda ou numa jornada cujo mapa construído apenas a partir de cada passo, sobrevivente de abismos pelos trunfos sucedidos aos fracassos e confundidos com as funduras das muitas profundezas. Não há nem onde começou de tão inútil, ninguém precisa saber: a loucura salva.

 


Nada & fumaça... – Imagem do artista estadunidense Bruce Neuman. – Basta um estalo, ou piscar de olhos, o triz: e nada mais. Agora mesmo não sei mais por onde anda o Doro e só me lembrei dele porque folheei Fumaça pura (Bertrand Brasil, 2003), do escritor cubano Guillermo Cabreira Infante, e logo dei de cara: Viver também faz mal a saúde. É que entre os membros da tripulação de Colombo, também chegava ao Novo Mundo, o desafortunado Rodrigo de Xerez, espantadíssimo com os homens-chaminé: os indígenas fumavam, era a descoberta do tabaco. De volta à Espanha, encheu-se de empáfia numa demonstração pública, não se dando conta de quem ausente às línguas ferinas pelas costas reputações retorcidas e findam na sina patibular, vez que a audiência, vendo-o exalar fumaça por todos os orifícios, julgava ser ele afinado com o diabo, enquanto sua própria esposa deitava denúncia ao Santo Ofício que o condenou a vinte anos de cárcere. Ufa! Por pouco não virou fumaça nas fogueias católicas. Essa não foi a sorte do Doro ao manipular a Teibei: bastava uma golada no fumegante aperitivo e logo envultava por uns três ou quatro dias desaparecido desta dimensão, pelo menos. Desta vez não, parece que abusou da dose, pelo que soube, depois de encher o tampo e virar mais de litros da tirana: faz tempo que ele não dá as caras, significa que ainda não desenvultou. É o que dizem e não estou aqui para discordar. Deixá-lo para lá, melhor...

 


O motor das reviravoltas... Imagem: a arte da fotógrafa e atriz estadunidense Elizabteh Lee Miller (1907-1977) - Era outro de muitos sonhos e Perséfone com a magia do olhar de quem chega, desfilava a beldade dos seus quarenta e não sei quantos anos de tanto rir, deixando à mostra o espalhafato das ancas arredondadas de seu pódice majestoso em baixo do curto roupão. De lá para cá, curvava-se para me virar as faces e deixar-me o busto ilustre de proeminentes seios soltos sob a veste amarrada na cintura, a me dar a sensação daquela frescura de frutas colhidas no quintal. Era como vê-la sair dos banhos sulfurosos pelas fontes, alheia às intrigas criadas com suas carnes de mil olhos curiosos e indecentes. Mostrou-me uma planta rara e carnívora do Camboja - uma planta-jarro – e me aparecia como quem saísse da clausura dos dias para me provocar na composição de recônditos setígonos jamais revelados aos viventes. Era tudo muito envolvente e despertei na agonia da volúpia. Para meu espanto lá adiante reluzia a estátua de Cocteau a me dizer: Havia muitas coisas comoventes, pungentes ou estranhas que eu queria... Então me aproximei e fui conferir de perto, evitou-me o olhar: Eu sou uma abetarda, a mim ninguém me apanha... É melhor partir sem pesar desta terra que rola e esmaga os que desejam dominá-la. Sim, ela encerrava a aventura da alma humana e do seu olhar distante uma ave fabulosa desprezava o caçador de quem sempre escapava e logo se tornava nas cinzas espalhadas ao redor do leito fúnebre: a alma que libertava para o voo. Algo me dizia que ela não se afastava da terra, nem era capaz de alçar altos voos. Insisti do seu lado e logo ela ergueu os braços sobre a cabeça e me contou desapontada sobre a gonorreia no estupro aos 7 anos, a foto dos absorventes menstruais, o corte no pescoço pela agressão de Man Ray, as enfermas crianças de Viena, a miséria dos camponeses da Hungria, o banho na banheira do Führer... Baixou as vistas e me falou Rosa Montero: Os homens costumam chamar destino àquilo que lhes acontece quando perdem as forças para lutar... Aí me insinuei, beijei-lhe a face fria e senti a sua carne viva crescer na minha pele sussurrando Bartyra Soares: Um dia deixei a cidade... ousei ultrapassar seus limites, fui mais longe, descobri o realismo fantástico e, assim, mergulhei noutros mistérios e labirintos, segredos e sonhos, sempre à cata de histórias que, até hoje, embora esporadicamente, nunca mais deixei de contar. Ali, abraçando-a afetuosamente, ouvi seus relatos mais íntimos e nela me revelei completamente perdido, como se nada mais soubesse, afinal, ou a coisa toda não regulava sempre lá muito bem hoje em dia ou só sou eu alvo de insuportáveis aborrecimentos: a vida toda só foi passar vergonha. Nela eu podia mais que viver e vivi. Até mais ver.

 

Normalmente, quando você lê, tem mais tempo para pensar. A leitura oferece um botão de pausa único para a compreensão e a percepção. A leitura é uma ponte para o pensamento. A leitura muda nossas vidas e nossas vidas mudam nossa leitura.

Pensamento da professora estadunidense Maryanne Wolf. Veja mais aqui e aqui.

 



domingo, outubro 31, 2021

PINTANDO NA PRAÇA, ALEJO CARPENTIER, JULIE MEHRETU, BILL MCKIBBEN & MATTHEW HERBERT

 

 

TRÍPTICO DQP – Acerto de contas... - Ao som do álbum Plat du jour (Accidental Records, 2005), do compositor britânico Matthew Herbert. – As incertezas todas e eu insistindo em ser feliz, como se ainda pudesse no meio dessa tragicomédia paradoxal, e se só restava uma esperança minada pelas lápides, arquivos e fotografias desbotadas. Apesar de tudo, persigo coração pulsante e partido porque carrego comigo o inferno dos outros em carne viva, o delírio de desembaraçar as linhas tênues de um passado perdido na memória. Se me dera a sorrir era porque ali estava Djuna Barnes insistentemente: O que é uma ruína senão o tempo diminuindo sua resistência? Corrupção é a Idade do Tempo. O insuportável é o início da curva da alegria. Um homem só é completo quando leva em consideração sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? O pior era ter de encarar T. S. Eliot me cuspir na cara o sarcasmo: O tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro. O que dissesse ou fizesse depois disso, não adiantava, era como se Arthur Miller me jogasse para protagonizar After the fall (Depois da queda, 1964) e me restasse ecoando: Não posso chorar nem por minha própria mãe... Não sei como sofrer, ao que parece... Deus, por que será a traição a única verdade que se agarra à gente! Tive que acender todas as luzes para não sucumbir inteiro no obscurecimento geral. No meio da minha louca sofreguidão, a surpresa com a emergência radiante de Maria Della Costa, como se fosse a Marilyn Monroe nua de todos os sonhos impossíveis, me trazer de novo, depois da entrega, o que olvidara do escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980): Os mundos novos tem de ser vividos, mais do que explicados. Aqueles que aqui vivem não o fazem por convicção intelectual; acreditam simplesmente que a vida suportável é está e não a outra. Não havia como evitar, era o acerto de contas com todos os meus equívocos edulcorados na incerteza e nada se acabava porque era a verdade que inventei.

 


Todos no mesmo barco... - Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu. - A solidão é o meu refúgio e sei que nunca estarei só, mesmo que tudo se pareça inconsolável. Não sei se ainda posso me salvar da asfixia do tempo, ou se já defuntei e sirvo apenas da lembrança do que vivi. Às vezes duvido, sobretudo ao ouvir o trecho severo do jornalista ambiental estadunidense, Bill McKibben, no The end of nature (Random House, 2014): Embora durante décadas a civilização tenha pilhado e poluído a Terra, no passado esse ataque era relativamente localizados; nos dias atuais, com as mudanças globais causadas pelos gases-estufa e a depleção de ozônio, o homem alterou a maioria dos processos de vida em toda a parte, e o mundo ao ar livre, a natureza em si mesma, tem se tornado o equivalente a uma enorme sala aquecida... Sim, um calor enorme, invencível, irrespirável. A ponto de me pegar a casa incendiada e salvei o fogo de Cocteau. Era o que deveria ter sido feito porque sempre disse sim! Como se conjugasse o verbo de Raymond Queneau: Eu sim, nós gozamos... eles sinzam. E reiterei tal como e.e.cummings: Sim é o mundo. E mesmo que o patético da agonia me mostrasse tantas benemerências escondendo a hipocrisia e que havia mais que um estrondo e tantos suspiros - quanta contrafação nos capítulos teratológicos do presente degenerado, seria preciso dar um basta na cafajestice, tudo é demais em torpezas, sordidez e anestesiados. Sim e assumi o passado porque o presente nunca será impune e o sonho nunca existiu: os testemunhos da solidão. Enfim, estamos todos no mesmo barco.

 


Cant&pintando na praça... - Desta vez não cantamos, mas estávamos lá, eu&Ripe&Linaldo solidários de sempre, como se cochichássemos a nossa Nênia. Desde a minha primeira em 2017, como de costume, o sábado estava lindo! E que ninguém nos ouça mesmo, porque tão lindo estava para a maravilha que não foi pouca, porque coroada pelos alunos da SEMED, inquietos e a postos: traços, tintas & moldes – do papel à tela, mãos à massa! Chega dava vontade de traquinar entre eles! Parecia: ensino, pesquisa & extensão! Tomara, coisa tão boa de ver! Aproveitamos, então, tudo no meio do movimento de curiosos e arteiros, a bela Secretária desfilando um cortejo e enchendo os olhos de uma vontade louca de teimar, o Profeta era a Nalva num sorriso só, enquanto Alexandre Freitas sapecava pinceladas ensinando o que é do talento, Isaac Vieira a cometer belezas na manhã que entardecia mais colorida, Rute Costa com seu tapete de leituras e simpatias para alegria de olhares perdidos, Epifânio trazia recados das suas artesanias, Tylla de Jahfari cantava no meu coração pro Erick Nelson solar tantos tons ao meu ouvido & eu testemunhava ainda ali o Poema vivo de Admmauro Gommes que a Poesia lhe dera. Tudo parecia como se fosse um primeiro passo para a práxis da Ação Cultural para a Liberdade, numa das homenagens tácitas ao saudosíssimo centenário Paulo Freire. Ali eu sabia: na praça central a minha cidade renascia. Até mais ver.

 

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CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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quinta-feira, julho 05, 2018

POE, COCTEAU, MIA COUTO, MERTON, LEILA MICCOLIS, HIROMI UEHARA & TOMMASO PINCIO


OS AMORES DO CORVO POE – Imagem: Portrait of Edgar Allan Poe, art by Tommaso Pincio. - Das tantas e muitas que soube, uma das mais singulares foi a do órfão aos dois anos de pais atores fracassados, para ser adotado na afeição de Francisca e brincar com a afilhada dela, Catarina Isabel. Afeiçoado com as travessuras pelos jardins e trelas às macieiras, ah Catarina, aquela que foi interrompida por ricas viagens que lhe facultaram o aprendizado do grego, latim, francês, espanhol e italiano, e o primeiro amor sucumbia. E surgiu a bela senhora majestosa Joana, mãe do amigo que lhe festejara a proeza de nadar seis milhas contra a corrente do rio James. Ah, Joana, bela e enlouquecida, a morte e ao seu túmulo o poema Helena: “à luz de ônix, teu vulto se revela”. Com o Tamerlão, “Doce consolação nesta hora extrema!”, a jovem delicada Mira – Sara Elmira - às juras de amor para casar, abandona a universidade ao jogo e depois expulso por falta às aulas, segue vida nômade e inconstante, desavenças com o tutor e o pai da moça que lhe cerceiam o idílio, ela casada em acordo com outro e a sinfonia de amor inacabada: “Em tua festa de núpcias eu te vi, ardendo de rubor”. Pra ela o poema: “o néctar dos lábios teus meu trouxe / fragrância tão balsâmica e tão doce, / dando o primeiro beijo apaixonado”. Vieram os Poemas na água-furtada e os cachos dos cabelos de Maria de Devereaux aos escândalos do chicote na paixão desenfreada rompida na marra. Com o Manuscrito encontrado numa garrafa, demitido por abuso de bebida, também A queda da casa de Usher com seus restos desmoronados e o nebuloso casamento com Virginia, a musa de tantos e muitos versos entre a miséria e a doença. E todos os Contos do grotesco e do arabesco com a tia-sogra viúva Maria Clemm sempre disposta a ser mãe e a ele servir entre os mais belos e puros amor, e Os crimes da rua Morgue a se referir à sua maneira de negar o que é e explicar o que não é, e O escaravelho de ouro e quem nos dirá desaparecessem todos que sabiam do segredo, se no barril do Amontillado, ou jogador de xadrez de Mawlzel, os mistérios de Marie Roget ou a carta roubada, o poço e o pêndulo ou de Berenice e quantas vieram ao coração: a compassiva e atenciosa Virginia, Os sinos para a prudente Luisa, a feminilidade frágil da poeta Francisca, a alma irmã da poeta misteriosa Helena “Vi-te uma vez, só uma, há vários anos..”; e queria morrer nos braços de Anita. E Mira enviuvara, era a sua vez. Com ela, O corvo e o reencontro com Catarina Isabel, portas fechadas não lhe atendem, vai embora até retornar a Richmond noivo de Mira e o fantástico das exacerbações: alucinações, neuroses, o duplo, cenários de fatalidade e morte, pavor e mistério. Eis, finalmente, diante de Catarina, nem se demora, quando voltará a vê-la? Nunca mais, até ser encontrado inconsciente poeta maldito numa rua de Baltimore: “Senhor, amparai minha pobre alma”. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da pianista e compositora japonesa Hiromi Uehara: Time control, Brain, Spiral & Estival Jazz Lugano & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] seja qual for a intenção dos analistas, suas análises tendem a possuir uma qualidade azeda: tendem a acusar, secularizar, ironizar, satirizar, alienar o conteúdo intrínseco da crença ou ponto de vista confessado. O que estes sistemas de análise têm em comum é a prática de descartarem o valor nominal das declarações, das crenças e dos sistemas de idéias, reexaminando-os dentro de um contexto novo que proporciona o 'significado real’ [...] Numa sociedade em que a desconfiança recíproca encontra expressões populares tais como 'quanto ele vai ganhar por isso' [...] em que a defesa contra as desilusões traumáticas talvez consistam em estarmos permanentemente desenganados, reduzindo as expectativas sobre a integridade de outros, dando  por descontados de antemão seus motivos e talentos; - numa sociedade assim, a análise sociológica sistemática e uma sociologia do conhecimento derivada assumem uma pertinência e convicção socialmente fundamentadas [...]. Trechos extraídos da obra Sociologia: teoria e estrutura (Mestre Jou, 1968), do sociólogo estadunidense Robert Merton (1910-2004).

VELHICE - A importância dos velhos tem a ver com o fato de que somos sociedades orais, e portanto os velhos são espécies de bibliotecas vivas, são detentores do saber. Cabe aos velhos essa missão de reprodução da moral, da ética. Nos sistemas religiosos monoteístas, há um julgamento, depois que morremos temos que prestar contas do que fizemos em vida. Nas religiões africanas, nós prestamos contas em vida, em nossa relação de viventes com os mortos. Não há essa coisa do Juízo Final, e portanto há disponibilidade para se estar vivo. Trecho extraído de Fronteiras do Pensamento (2014), do premiado escritor e biólogo moçambicano Mia Couto. Veja mais aqui e aqui.

A VOZ HUMANA – Um ato, um quarto, uma personagem, o amor e o acessório banal das peças modernas, o telefone: O autor gosta de fazer experiências. Tendo o hábito de perguntar a si mesmo o que é que pretendia fazer depois de ter visto o que fez, talvez seja mais simples dar algumas informações em primeira mão. Vários motivos o incentivaram a escrever este ato: 1.º O motivo misterioso que leva o poeta a escrever mesmo quando todas as suas mais profundas preguiças se recusam a fazê-lo e, sem dúvida, a recordação de uma conversa surpreendente ao telefone, a singularidade dos timbres, a eternidade dos silêncios. 2.º Criticam-no dizendo que age de acordo com estruturas maquinais, que instrumentaliza demasiado as suas peças, que conta demasiado com a encenação. Importava, por isso, partir do mais simples: um ato, um quarto, uma personagem, o amor e o adereço banal das peças modernas, o telefone. 3.º O teatro realista está para a vida como estão para a natureza as telas do Salão de Belas Artes. Era preciso pintar uma mulher sentada, não uma certa mulher, uma mulher inteligente ou estúpida, mas uma mulher anónima, e afastar-se do virtuosismo, do diálogo “tu falas e eu respondo”, das palavras de mulher apaixonada tão insuportáveis quanto as palavras das crianças, enfim, de todo aquele teatro que de forma venenosa, pastosa e sorrateira substitui o teatro tout court, o teatro verdadeiro, as álgebras vivas de Sófocles, de Racine e de Molière. O autor tem consciência da dificuldade da tarefa. Por isso mesmo, e de acordo com o conselho de Victor Hugo, relacionou a tragédia e o drama com a comédia, sob os auspícios dos imbróglios que o aparelho menos indicado para tratar dos assuntos do coração permite. 4.º Finalmente, e porque é muitas vezes criticado por exigir aos intérpretes uma obediência prejudicial ao seu talento, reclamando sempre prioridade, o autor quis escrever uma peça ilegível que, tal como o seu Roméo se intitula pretexto para uma encenação, seria um pretexto para uma atriz. Por detrás da interpretação, a obra apagar-se-ia, o drama ofereceria a possibilidade de desempenhar dois papéis, um quando a atriz fala, outro quando ouve e circunscreve o carácter da personagem invisível que se exprime através de silêncios. Apresentação da peça teatral A voz humana (1930 -Assírio & Alvim, 1989), do escritor, cineasta, dramaturgo, desenhista e ator surrealista francês, Jean Cocteau (1889-1963). Veja mais aqui e aqui.

CONFISSÃO - Dizem que o amor é cego, / não nego, / por isso te abro os olhos: / não tenho bens nem alqueires, / eu não sou flor que se cheire, / nem tão boa cozinheira, / (bem capaz que ainda me piches / por só comer sanduíches), / minha poesia é fuleira, / tenho idéias de jerico, / um cio meio impudico / como as cadelas e as gatas, / às vezes me torno chata / por me opor ao que comtemplo, / sei que sou péssimo exemplo, / por pouca coisa me grilo, / talvez por mim percas quilos, / eu não sei se valho a pena, / iguais a mim, há centenas, / desejo te ser sincera. / Mas no fundo o amor espera / que grudes qual carrapicho: / são tão grandes meu rabicho / e minha paixão por ti, / que não estão no gibi... / Ao te ver, viro pamonha, / sem ação, e sem vergonha / o meu ser inteiro goza. / Por isso, pra encurtar prosa, / do teu corpo, cada poro / eu adoro adoro adoro... Poema da escritora, editora, professora, promotora cultural e artista performática Leila Miccolis. Veja mais aqui e aqui.

EDGAR ALLAN POE: LOVE, DEATH AND WOMEN
O documentário Edgar Allan Poe: love, death and women ( Edgar Allan Poe: Amor, Morte e Mulheres, 2010), produzido pela BBC inglesa, incursiona nas histórias por trás dos textos do genial escritor, revelando as sensaborias femininas e vivenciais que inspiraram alguns dos mais aterrorizantes e influentes contos do século XIX, contando as relações entre Poe e as mulheres de sua vida - mãe, esposa, amante e musa - eram muito tênues, desastrosas na pior das hipóteses, por outro lado forneceram inspiração e estimulo para alguns dos mais influentes e aterradores contos, por viagens em Nova York, Virginia e Baltimore, para desvendar as tortuosas e peculiares relações de Poe, interligando os acontecimentos, a mente e suas mulheres através das próprias cartas, diários e escritos publicados.
Veja mais:

O Congresso de Educação do Vale do Sapucaí (2º CEVS) & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte do escritor e artista visual italiano Tommaso Pincio
&
Viver é tão pouco, é preciso sonhar, a dificuldade de ser de Jean Cocteau, a música de Egberto Gismonti, a escultura de Texeira Lopes & a arte de Gil Teixeira Lopes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


quarta-feira, outubro 11, 2017

KAFKA, COCTEAU, FOUCAULT, DELEUZE & GUATTARI, TANUSSI CARDOSO & MARGARET DYER

UMA COISA E OUTRA MAIS – Imagem: art by Margaret Dyer - Sou vivo e estou espontâneo andejo. Nada me faz melhor que outros, nenhum privilégio. Por que haveria de ser melhor? Não há pra quê. A única distinção: eu os vejo e eles nem ninguém a mim. A chuva molha o meu corpo e dela vejo o contorno dos seios nus colados na blusa, água na boca, imã nas mãos do que sou nela a calça apertada nas coxas estufando o ventre saboroso que é dela pra mim e vou como quem é premiado pelo amor maior. O Sol brilha para todos e esquenta a minha pele que deseja a dela bronzeada em tons de rosa, pra que eu tenha o pomar e seja seu jardineiro e possa seguir na tarde por dias infindos e teimar no dia que não sou melhor que ninguém, apenas dela e pra ela. Mais que nunca a noite dela fosse a lua ao alcance da mão no nosso céu estrelado de todas as alvoradas e crepúsculos, no meio do caminho entre ela e eu o hálito das rosas dela, a parte que me cabe do que vem antes ou depois do amor, despedidas, acenos, quão longe tivera ido dentro dela para ser-me e ao que me dou de prazer nela. De longe ouço as malsinações: rumores plangentes de coisas e nada: escarcéu de misérias, turba de insurretos. Não temo, todos temem entre céus e infernos, prospectados e ejaculados, os gritos dos desejos, as lamentações dos quereres não alcançados, frustrações, lamúrias, exacerbações. Ninguém mais sabe o que é justo nem justiça, não se sabe o que é direito, só o prazer do umbigo e todos que se danem com suas olheiras e clausuras. Passo ao largo tudo isso, ela é o meu olhar e direção, nada além do que me seduz o olhar pedinte e lânguido, o ombro requerente que vai dar nos seus seios nus, o ventre em brasa pronto pra me incendiar, as coxas de tocaia pronta nas pernas pros botes e me aprisionar no que dela será todo meu e poder romper seus limites e os meus além dos seus quadris enfeitiçadores, além do seu dorso nu a me servir de guarida e possessão, além dos seus cabelos aos ventos que me aprisionam Medusa de todos os seus redutos e presságios, além das suas mãos firmes agarradas ao meu membro viril e à minha carne toda exposta ao seu apetite para servi-la do que possa ter a me dar em troco muito mais que o esperado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Tom Zé: Todos os olhos, Com defeito de fabricação & Canções eróticas de ninar; da pianista Sonia Maria Vieira: Sonatas de Ricardo Tacuchian, Mizael Domingues & Sugestões poéticas de Guerra Peixe; do tecladista e compositor japonês Isao Tomita (1932-2016): The Ravel Album, Concert de Aranjuez, The Planets & The Bermuda Triangle; e da violonista Cristina Azuma: Sonhos latinos, Contatos, É de lei, Álbum & Santiago de Murcia a Portrait. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Penso efetivamente que não há um sujeito soberano, fundador, uma forma universal de sujeito que poderíamos encontrar em todos os lugares. Sou muito cético e hostil em relação a essa concepção do sujeito. Penso, pelo contrário, que o sujeito se constitui através de práticas de liberação, de liberdade, como na Antigüidade – a partir, obviamente, de um certo número de regras, de estilos, de convenções que podemos encontrar no meio cultural. [...]. Trecho de Uma estética da existência, extraído da obra Ditos e escritos: ética, sexualidade, política (Forense Universitária, 2004), do filósofo, historiador, filólogo, teórico social e crítico literário francês Michel Foucault (1926-1984). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LITERATURA & SOLIDARIEDADE – [...] Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior. No entanto, a primeira característica é, de qualquer modo, que a língua aí é modificada por um forte coeficiente de desterritorialização. [...] Mas sobretudo, ainda mais porque a consciência coletiva ou nacional está "sempre inativa na vida exterior e sempre em vias de desagregação", é a literatura que se encontra encarregada positivamente desse papel e dessa função de enunciação coletiva, e mesmo revolucionária: é a literatura que produz uma solidariedade ativa, apesar do ceticismo; e se o escritor está à margem ou afastado de sua frágil comunidade, essa situação o coloca ainda mais em condição de exprimir uma outra comunidade potencial, de forjar os meios de uma outra consciência e de uma outra sensibilidade. [...]. Trechos da obra Kafka: por uma literatura menor (Imago, 1977), do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) e do filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês Félix Guattari (1930-1992). Veja mais aqui e aqui.

OS SONHOS DE KAFKA - Escrever uma autobiografia me daria grande prazer, pois seria tão fácil quanto anotar sonhos. [...] Há momentos em que, falando ou ditando, durmo melhor do que sonhando [...] Mas o verdadeiro espólio só se encontra nas profundezas da noite, na segunda, terceira, quarta hora [...] Na penúltima ou antepenúltima noite sonhei com dentes sem parar: não com dentes alinhados na dentadura, mas formando uma massa, é isso, dentes encaixados como em brinquedos para criança montar, e que eram guiados por meus maxilares num movimento corrediço. [...]. Trechos extraídos da obra Sonhos (Iluminura, 2003), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O TESTAMENTO DE ORPHEU - Você tem certeza de não ter fugido voluntariamente para fundir essas personalidades que dividem vocês e porque o incomoda vocês serem dois? Vocês não estavam tentados em formar apenas uma personalidade, ao serviço da extravagância desse homem, igualmente duplo, seu pai verdadeiro e seu pai adotivo? Trecho do filme O Testamento de Orfeu (Le Testament d’Orphée, ou ne me demandez pourquoi! - 1960), do poeta, cineasta, designer, dramaturgo, romancista, ator e encenador francês Jean Cocteau (1889-1963), que afirma que: O ser humano procura no mito uma forma de fugir de si mesmo. E para tal utiliza-se de todas as formas. Drogas, álcool ou mentira. Incapaz como é de adentrar em si mesmo, o ser humano se disfarça. As mentiras e as imprecisões lhe proporcionam alguns minutos de alívio, o mesmo conforto provocado por um baile de máscaras. Desta forma, destaca-se daquilo que sente e daquilo que vê. Inventa. Disfarça. Mitifica. Cria. Congratula-se por definir-se artista, imita em escala reduzida os pintores que, igualmente, acusa de serem loucos. Veja mais aqui.

CARTA ABERTA AOS BRUXOS
Estou em paz, amor
Como os bruxos costumam estar
Se te disser que estou triste ou alegre
Será apenas detalhes de uma lâmina que corta
Será apenas o fio da faca
Que enfeita faces para ceifar:
Palavras restando inúteis querendo sangrar
Absolutamente te digo:
Não estou alegre nem triste – estou em paz
Que é o outro lado do eclipse
Que não vejo
Mas que sutilmente, amor,
Posso tocar.
Poema do livro Viagem em torno de (Sette Letras, 2000), do poeta Tanussi Cardoso. Veja mais aqui, aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Margaret Dyer.
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...