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domingo, junho 21, 2026

JOY HARJO, WALEED AL-HUSSEINI, SUSANA TRIMARCO & BRINCANTES DA MATA SUL

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

É o beija-flor \ E aqui dentro vai guardando o medo \ Mantendo em segredo o que deve mostrar \ Pois já tem medo de se ver sozinho \ Perder o caminho por compartilhar \ E vai voando de flor em flor \ Feito o beija-flor, sem se apaixonar \ E pouco a pouco vai perdendo o medo \ De se ver do avesso, por saber amar \ E voa mais que eu \ Seu beija-flor sou eu \ Além de nós, um eu \ Pra que eu seja todo seu \ E nunca mais seguir sozinho \ Construiu seu ninho, vai acreditar \ Sorrir com o choro do primeiro filho \ E servir de abrigo sem sequer chorar \ Pois foi voando de flor em flor \ Feito beija-flor, até se apaixonar \ E pouco a pouco foi perdendo o medo \ De se ver do avesso por saber amar... Pra que eu seja todo seu (aí, ó!)...

Ao som dos álbuns Dominguinho (Vol. 1 – Olinda, 2025 & Vol. 2 – Salvador, 2026), aclamado projeto acústico que une o compositor cantor de píseiro/forró, João Gomes (João Fernando Gomes Valério), o cantor, compositor e violonista Jota.pê (João Paulo Gomes da Silva) e o sanfoneiro, cantor, compositor e arranjador Mestrinho (Erivaldo Júnior Alves de Oliveira), com a participação do violonista Vanutti e da percussão inventiva de Gilú Amaral, homenageando o legendário sanfoneiro Dominguinhos, com repertório dos três artistas e releituras de clássicos. Veja mais aqui & aqui.

 


O bufo garçom na festa do céu... – Luzantoinho era bandoleiro de nascença. Desde bruguelo pirrototinho, bastava mãos ou braços que fossem e lá pulava, dele sair dando chau, com os dentes de fora. Já rapazote parecia ter tomado jeito de gente no baque das ondas pelas batucadas dos mulungus de Chico de Itá, no Maracatu Porto Rico, então apelidado já de Cutiliquê. Vôte! Foi aí, cheio das loas, o despranaviado: viu-se acometido pela síndrome da Tourette. E agora? Foi sacudido aos empurrões pra fora: Sai pra lá, cururu! Nisso ficou: liso e lesado, a coçar cocuruto. Num estalo deu o pira aos pinotes, montando com uma tocha de fogo no rabo dum porco ronceiro, dele ganhar rumo pra meter uma lança em África. Foi-se. Parecia: era uma vez... Qual nada, rasgou foi a boca. Nada, não. Aí penteou a gaforinha e foi ser aprendiz de feiticeiro com Tó Zeca: descobriu o rato dentro do queijo, o segredo da abelha, o dente de coelho, o elefante branco, o estômago de avestruz, a formiga de asa – tanajura? -, os gansos do Capitólio, as lágrimas do crocodilo, o leão-de-chácara, o leite de pato, as macacas de auditório, os olhos de lince, o asno de Buridan, o carneiro de Panúrgio, o cisne negro e a mula de Tales de Mileto que fez Him e voou sem cabeça por aí. Eita, bagaceira! Viu que a jaboticaba era pouca, nem dava pro gasto. Queixou-se ao bispo, arrumou os mijados e zarpou: Isso num vale um peido! Mandou tudo pras urtigas, ora. Nem acenou, mal-agradecido. Num vupe era o bei de Tunes e tinha de passar pelo sacrifício de Cúrcio, quando o galo cantou fora de hora atrapalhando tudo, de findar na garapa azeda pelo labirinto de Creta e, vexado, botou o ovo de Colombo na justiça de Cambises. Que aperto, meu! Quebrava a cabeça. E enquanto o diabo esfregava o olho, determinou-se agarrando no fio de Ariadne, com a lanterna de Diógenes e as muletas de Xisto. Valeu-se das cebolas do Egito e das cobras que perderam o veneno, dobrou o beiço e o rumo da venta pras galinhas dos ovos de ouro pelos jardins das Hespérides. Foi trupé. Mas, não: teve de encarar o bafo do Cérbero, a espada de Dâmocles no toitiço, a chuvada de canivetes. Que coisa! Nem mel nem cabaça na noite de Walpurgis, outros galos cantarão. Será? Isso se não desse em Lua cheia de saci correr bicho, com os relinchos da mula-sem-cabeça, os assobios da Curupira e agouros de Boitatá. Quem mexeu o angu é que sabe da bronca. Até aí já tinha morrido o burro atrepado no telhado e escapava tirando fino no bafo da onça. Por pouco, hem? Só voltas e revoltas às lonjuras, pertinho de nada, suas aporias. Suava muito a camisa pra tirar o pé do lodo e bote monturo nisso. Até que caiu do céu a sorte vocacional: garçom de ocasião festejado por clientela batucando em seu louvor A conversa de botequim do Noel & Vadico. Arrocha! Foi o que deu na beira de lagoa e ele só: Foi, foi, foi! Aprumou-se dedicado e passou a adivinhar pedidos dos paroquianos, oxe, metido a guardião Le Cordon Bleu, o faz-tudo inventava cardápio como se servisse deliciosa culinária de Cápua, dos fregueses lambuzarem-se de chupar os dedos e lamber os pratos. Eba! Virou casa de Orates. Com o tempo tornou-se confidente de solitários – teve de acalmar Alceste, alcovitar Alfeu e Aretusa, amansou Xatipa, até descobriu o anel de Polícrates e o escambau. Tô feito! Psiu! Tá dando em cima? Saideira. Tirava foto dos corujões e flagrava o anjo da guarda mangando dele, os 10%, folgado, bobão. Ainda apartou brigas de Chimangos e Maragatos, deu paradeiro ao dinheiro de sacristão, exaltou pretensos lotários, guardou a lista negra de sicários, até consolou o doutor da mula ruça chorando a morte da bezerra e escorado na mãe de Pedro, avalie. Com o tempo sabia de tudo: o resultado do bicho, o horóscopo do dia de cada signo, o prêmio da loteria, a manchete de amanhã, todas as fofocas, eventos, até da verdadeira e quilométrica lista dos propineiros do Banco Master e doutras escusas tramoias judiciais. Ora, se. E viu sucumbir os castelos no ar de muito soberbo que foi com muita sede ao pote e findou na Canosia, hem hem, para não dizer de quem pediu penico, abriu da vela e cagou fora do caco, maior meladeiro repugnante. Sacou? Foi nesse ínterim que ele foi escolhido pra servir na festa do céu. Eita! Viva! Maior badalação de soçaites embecados e noticiários retumbantes. O cara ajeitou-se todo na pinta e bancou profissa de responsa. Chegando lá estavam aboletados, entre os convivas, o cachorro Kratin-Qitmir-Al-Raqim dos 7 companheiros da caverna adormecidos em Éfeso, a jumenta falante de Balaão, a camela prenhe de Salé, Naqat Allah, que saiu de dentro duma rocha com bençãos gerais e leite em abundância; a baleia jactante que engoliu o profeta Jonas, a formiga de Salomão, o carneiro do Monte Moriá sacrificado por Abraão, o pássaro de Balgis-Belquisse da rainha Sabá, o bezerro de ouro de Moises, o burro Buraque-Al Borak de Maomé e a pomba do ramo de oliveira da arca de Noé. É mole? Só. Que marmota é essa, hem? Sou mais o criatório de Zeca Biu! Cadê o povo todo? Psiu. Foi empurrado entre bandejas e uma tuia de pratos agigantados, afora terrinas e travessas da muita, tudo fumegante e aos reclamos. Fui engalobado; mas, fiquei famoso. No outro dia, lá estava ele recolhido à Tebaida com cara de quem levou xexo e perdeu a mão na roda da fortuna, piongo de quase invisível. Foi então surpreendido por uma rabiçaca do destino: Era ela. Vixe! Um achado, ruidoso milagre. Jeitoso da gema, tirou da manga do colete toda sagacidade e: A-rá! E partiu pra melindrosa todo fogueteiro. Madame? Tenho esmola agora não. Posso servi-la? Passe outra hora. A bicuda olvidava e ele insistente no encalço, suspirava com os seus redondos seios, a diferente alvura dos seus dentes, a morenice brejeira, o cheiro fresco, seus gestos inéditos, sacudida de beleza vistosa, oooooooh, dele estouvar recreando-se ousada estimação nas pernas bambas, ah, danada, nela daria jeito. Ah, se. Poetou e fez figa: Lá vai a água descendo sem dizer nada. Já vai tarde. Aí arretou-se, pegou no bico da chaleira fervendo, pintou o caneco e pôs as tripas ao Sol: A senhora dá-me a honra desta dança? Ela virou a cara. Ele lá só conjugando: o nariz de Cleópatra, as orelhas de Midas, as joias de Cornélia, não há lindeza maior no mundo. Ela passou um rabo de olho e ele agitou as mãos, sorridente: Há um dia para o caçador e a caça fazerem a festa! Ela achou graça. Ih, deu mole, tô dentro! E não teve papas na língua, mandou ver nas razões chacoalhando aranzel chavecado no juízo dela, num esforço repuxado pelas pataratices, amabilidades aos bocados, até que, lá pras tantas, viu-la perder a paciência e deu o tiro de misericórdia, dela dar-se por vencida: Só uma valsa! E saiu com ele pelo salão dois pra lá e pra cá. Esmerou-se no gingado. No enfim, ela destrancou-se, entressorriram-se. Ele destampou seus segredos exagerando-se no macio como quem folheia abusado o Kama Sutra, venceu-lhe a pirraça, ancho como o homem da capa preta descabaçando a donzela de Orleães, nem se dando conta de tão enredado pela teia de Penélope, tecida e destecida, no de antes emprestado ao depois, nem desconfiava das astúcias dela, a ponto de emplacar sobrenome em agoniado cerimonial. Hoje é de vê-lo todo pabo pula-pula lavando a jega com suco de jurubeba ou gengibre, escanchado na porta de casa. Como vai sua patroa? E ele torando aço: Cala boca, a perereca tá lá dentro virada no créu, deixa quieto. Ih! Até mais ver.

 

Zezé Motta: É preciso ter coragem para viver... Não fico presa nessa ideia de lutar contra o tempo. Faz parte da vida... O palco, a música, o cinema, o carinho das pessoas. Tudo isso me mantém viva, ativa, com brilha no olhar. Trabalhar com o que amo há tantos anos também é combustível... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Efraim Medina Reyes: A vida tem muitas dimensões, mas estamos condenados a escolher uma e ignorar as outras. Estamos condenados a sentir que, por melhor que estejamos, nossa escolha foi errada. Estamos condenados a viver com alguém enquanto desejamos outros dia após dia. Estamos condenados a mentir, a dar beijos frios, a continuar tateando no escuro, fingindo uma paixão que se desvaneceu há anos. Por que fazemos isso? O medo de aceitar o fracasso pode ser uma das razões... Sabe, você me lembra um poema que não consigo recordar, uma canção que nunca existiu, e um lugar onde não tenho certeza já estive... Nada que se move está isento de falhas... Veja mais aqui.

Anna Akhmatova: É insuportavelmente doloroso para a alma amar em silêncio... Você ouvirá trovões e se lembrará de mim, e pensará: ela queria tempestades... Durante os terríveis anos do terror de Yekhov, passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Um dia, alguém me "identificou". Então, uma mulher com os lábios azulados de frio, que estava atrás de mim e, claro, nunca tinha ouvido falar do meu nome, saiu do torpor que nos afetava a todos e sussurrou no meu ouvido (todos falávamos em sussurros): "Você poderia descrever isso?". Eu disse: "Posso!". Então, algo parecido com um sorriso surgiu no que antes era o seu rosto... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

FOGO - Uma mulher não pode sobreviver apenas com a própria respiração; ela precisa conhecer as vozes das montanhas, precisa reconhecer a eternidade do céu azul, precisa fluir com os corpos fugazes dos ventos noturnos que a acolherão em seu interior. Olhe para mim: eu não sou uma mulher separada; sou uma continuação do céu azul; sou a garganta das montanhas, um vento noturno que queima a cada respiração.

ESTA TERRA É UM POEMA - Esta terra é um poema de ocre e areia queimada que eu jamais conseguiria escrever, \ a menos que o papel fosse o sacramento do céu, e a tinta a linha quebrada de \ cavalos selvagens cambaleando no horizonte a quilômetros de distância. Mesmo assim, \ será que algo escrito importa para a terra, o vento e o céu?

Poemas da escritora, musicista, dramaturga e poeta estadunidense Joy Harjo, que se inspira nas histórias e narrativas das Primeiras Nações, bem como nas tradições poéticas feministas e de justiça social, incorporando mitos, símbolos e valores indígenas: Sinto fortemente que tenho uma responsabilidade para com todas as fontes que sou: para com todos os ancestrais passados e futuros, para com minha terra natal, para com todos os lugares que piso e que fazem parte de mim, para com todas as vozes, todas as mulheres, toda a minha tribo, todas as pessoas, toda a Terra e, além disso, para com todos os começos e fins. De uma forma estranha, me liberta para acreditar em mim mesma, para poder falar, para ter voz, porque preciso; é a minha sobrevivência... Entre seus álbuns musicais, o Red Dreams, A Trail Beyond Tears (2010), o espetáculo solo, Wings of Night Sky, Wings of Morning Light (desde 2009) e a peça musical, We Were There When Jazz Was Invented. Também é membro fundadora do conselho da Native Arts and Cultures Foundation.

 

BLASFEMO - […] Aqueles que são chamados de revolucionários e rebeldes, ou seja, aqueles que escaparam desse condicionamento, movidos pela vontade de viver, de refletir, de compreender uns aos outros e de explorar a vida e suas nuances. [...] É um grito de alarme que corro para salvar a inocência de crianças ameaçadas pela loucura e pela raiva. E é na escola e na mesquita que elas são moldadas para se tornarem criminosas! Porque no meu país e em outros, os principais fornecedores de terroristas são as mesquitas. [...]. Trechos extraídos da obra The Blasphemer: The Price I Paid for Rejecting Islam (Arcade, 2017), do escritor palestino Waleed Al-Husseini, que foi preso em 2010 sob a acusação de difamação, fugiu para a França onde obteve asilo. É autor dos ensaios publicados no seu blog Noor al-Aqel (Iluminação da Razão) e em língua inglesa no Proud Atheist (O ateu orgulhoso), descrevendo Alá como "um deus primitivo, beduíno e antropomórfico, e Maomé como um "maníaco sexual", o que lhe valeu antipatias de familiares e conterrâneos, afora ameaças de morte. Para ele todas as religiões são: um amontoado de lendas incríveis e uma pilha de disparates que competem entre si em estupidez. Ele critica o tratamento dado pelo Islã, a supressão da criatividade humana e as alegações de que o Alcorão contém milagres científicos. Fundou em 2013 o Conselho dos Ex-Muçulmanos de França. É também autor de The collaborationists of radical Islam unveiled (2017), Blasphémateur ! Les Prisons d'Allah (2015) e Une trahison française: Les collaborationnistes de l'islam radical dévoilés (2017). Para ele: É verdade que nem todos os muçulmanos são terroristas, mas todos os terroristas são muçulmanos. O problema no Islã está no conteúdo do Alcorão, e isso é absolutamente cristalino. Quem defende o contrário está cego... Não dizer nada é tolerar o intolerável. Não temo aqueles que me chamarão de “islamofóbico” quando denunciar o seu fundamentalismo: a sua chantagem com a islamofobia nunca funcionou comigo... O véu nada mais é do que um símbolo do islamismo político, assim como as braçadeiras eram para os nazistas!...

 

DOR DE MÃE CORAGEM & AS FILHAS DA DOR - [...] O dia 3 de abril de 2002 foi o dia mais triste da minha vida. Nunca me esquecerei desse dia, pois foi quando a vida da minha filha foi destruída [...] Essa é uma dor terrível que carrego permanentemente na minha alma. Quase me acostumei a viver com ela. [...] Quando Marita não voltou naquele dia, meu marido e eu sentimos que algo terrível tinha acontecido. Como pais, a gente simplesmente pressente essas coisas [...] Havia cerca de 60 mulheres, todas com roupas sumárias. Marita não estava entre elas. Eu disse a essas mulheres que quem estivesse ali contra a sua vontade, deveria se apresentar e vir conosco. Imediatamente, uma jovem correu para os meus braços e não me soltou até sairmos daquele lugar [...] Eu não era uma figura pública na época, então isso facilitou as coisas. Nem sequer contei ao meu marido que ia fazer isso. [...] Cada uma tinha um preço. Havia até meninas menores de idade, algumas com apenas 14 anos. Todas pareciam aterrorizadas. Quando você olhava para elas, baixavam o olhar e tentavam cobrir seus corpos quase nus com as mãos [...] A linguagem grosseira dessas meninas demonstrava o terror e a dor que elas estavam passando [...] Foi então que decidi criar uma fundação [...] Também vou continuar lutando na rua, nos meios de comunicação e onde quer que seja contra a exploração sexual, por minha filha Marita e por todas as moças que passam e passaram pela que ela sofreu... [...] Aqui, no meu peito, sinto que ela está viva e meu desejo mais profundo é o de abraçá-la forte... [...] Techos da entrevista Enfrentando os traficantes de pessoas na Argentina (BBC News, 2012), da ativista argentina Susana Trimarco, mãe de Marita Verón e fundadora da Fundación María de los Ángeles. Marita (María de los Ángeles Verón Trimarco) tinha 23 anos, em 2002, quando desapareceu em San Miguel de Tucumán, negociada por uma rede de tráfico de mulheres. A luta da mãe viúva e ex-funcionária pública argentina para encontrar sua filha, levou-a a se vestir de cafetina em prostíbulos, infiltrando-se em quadrilhas de tráfico humano, contando com a participação direta de sua neta, a adolescente Micaela Sol Trimarco. Ela sobreviveu a duas tentativas de assassinato, sua casa foi incendiada, ela recebeu inúmeras ameaças de morte, mas nada a impediu de procurar por sua filha desaparecida. Até hoje ela continua a denunciar fortemente a cumplicidade entre redes de tráfico humano, policiais e o poder político. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE JOÃO GUIMARÃES ROSA - A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada... O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando... Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura...  Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo... Viver é etecetera... Trechos extraídos das obras do escritor, diplomata e médico João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

BRINCANTES DA MATA SUL

[...] Escrever esta obra foi caminhar por um mapa de afetos. A motivação veio do desejo de honrar aqueles que guardam o brilho da nossa cultura no corpo e na voz. [...].

Trecho da apresentação da obra Brincantes da Mata Sul: mapeamento da tradição popular pernambucana (Arranco-PNAB, 2022), da produtora cultural Maria Clara Catende (Maria Clara Mendes) e Flor das Chagas, resultado de uma pesquisa de campo realizada nas cidades de Catende e Palmares, marcadas por uma rica tradição de folguedos populares que atravessa gerações, na Mata Sul de Pernambuco. Durante a pesquisa de campo, a equipe percorreu engenhos, feiras, distritos e comunidades rurais, indo de porta em porta para ouvir, registrar e compreender os brincantes que mantêm vivas as manifestações como a Mazuca, o Guerreiro, o Caboclinho e o Bumba Meu Boi. A obra reúne registros fotográficos, entrevistas e um mapeamento detalhado das expressões culturais dos dois municípios. Veja mais aqui.

 

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL, PERNAMBUCANIDADE NA HISTÓRIA:

ENTRE VERSOS, BACAMARTES & FOGUEIRAS – O CICLO JUNINO COMO EXPRESSÃO DA LITERATURA, DAS TRADIÇÕES E IDENTIDADE CULTURAL PERNAMBUCANA

Dia 25 de junho na Biblioteca Fenelon Barreto, Palmares (PE). Veja mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.



 


segunda-feira, setembro 05, 2022

MARYANNE WOLF, CAROLINA DE JESUS, YOANI SÁNCHEZ, ADELMO ARCOVERDE & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

Ao som dos álbuns O convertido (2013) e Mensageiro (2014), do compositor, instrumentista, arranjador e violeiro, Adelmo Arcoverde, autor do livro Viola do Nordeste – Método de Viola (Nova Presença, 2022).

 

TRÍPTICO DQP: - A casa dela... - Ali não havia quintal, apenas os olhos vivos de Copacabana repletos de esperança e alguns temores com os ruídos e a dispersão do tempo, desencontros e incompreensões. Às vezes, na casa dela, seus olhos brilhavam assustados na encruzilhada fortuita como se estivessem submersos pelas sombras da Inés de Goya, diante dos fantasmas misóginos que povoavam os arredores para captura das Filhas da Dor. Eram abantesmas que diziam aos seus passos: Ôpa, volta... E ela não, levada pela Carolina Maria de Jesus: Anda, anda... faz de conta que está sonhando. E seguia Sol a pino, com suas intensas inquietações na contundência de dizer não, porque não era Efeito Mandela: tudo acontecia na esquina – a mão atrevida do algoz, as vestes aos farrapos, a marca do estupro, o desdém da hipocrisia, a dor de nunca esquecer. E tinha de sair de casa para constatar o que dizia a jornalista/blogueira cubana Yoani Sánchez: Fomos para as ruas porque tínhamos fome, é certo. Tínhamos tanta fome que comemos o medo. A liberdade é contagiosa, sempre se quer mais. Era assim que podia sorrir: olhos pedintes, a volúpia na carne, a entrega da alma. Na moradia do passado, portadentro, ela exorcizava seus medos e se desnudava impune para valer a vida: meu sexo nela.

 

As aldravias de Xexéu... - Na manhã ensolarada Janilson era mais que imponente porque Rute era mais que poeta radiante: os dois brilhavam no palco na maior festa. Na entrada eu conversava com Durán e Tony Antunes sobre o volume da publicação de Dom Acácio, arremedando hestórias de ontem quase esquecidas na memória. O povo xexeuense foi chegando engalanado e logo os acordes da Banda Ipiranga saudavam a todos com a abertura ao som da Aquarela de Ari Barroso, seguida de um Pot-pourri do inesquecível Gonzagão. Para os presentes começou a festa: gente chamada para compor a mesa das autoridades, a ciranda da meninada do Maria das Mercês, as aldravias do casal Donadon com as Confidência do itabirano do Drummond: Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!..., os livros infantis da Eliane Santos e a conversa animada sobre As Lendas do Piauí, com a radialista/jornalistescritora Arleni Portelada, também retratadas pelo Mestre Portelada: ... me deparei com muitas estórias compartilhadas por toda a região do Nordeste. E falou do Cabeça de Cuia: No caso do Crispim há o castigo da metamorfose do ser errante e sem paz, como mensagem. Conversa animada, tudo corria como o desejado pelo poetamigo Marcos Xhêpa. E seguiu-se até ao meio dia quando desci a ladeira para o almoço na companhia da Maria Joyce. Singramos a cidade, percorremos ruas e a feira já quase desfeita, saboreamos suas canções com uma cerveja gelada até o finalzinho da tarde para constatar, no meio de uma rompante crepuscular: canto e sou xexéu!

 


A poesia em queda livre... - Na ruina das certezas todas as dúvidas, graças. Afinal estou vivo e já sei: toda beira do abismo é redonda, assim o infinito é pequeno (porque, como diz o poeta, a criação do homem derrota Deus). Pois é, foi Vital Corrêa de Araújo que deu as caras e sacou: Todo ápice cambaleia! E com uma meia declaração sincera: a eternidade é inútil! Havia nos olhos dele os tendões do amanhã: quem não vacila diante do aparato de possibilidades, se nada mais intransponível entre palavras perdidas, o confessional e a crua meditação, o dom noturno e a aura da desilusão, as estrelas descalças da calçada pelo chão da manhã, situações nuas e o rio lento e voraz do tempo, todas as náuseas e vergastas, haja paradoxo. Disse-me mais: É preciso conjulgar tudo com nada: a liberação total da força expressão. Evidente alguém ouvir isso e se achar como se numa desconfortável assistência a um concerto, digamos, de música atonal ou dodecafônica; ou de uma exposição de pintura abstrata, ou mesmo de uma sessão com cenas delirantes de um teatro ou filme de vanguarda. E ainda por cima ouvir Cocteau: A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê... Serviria de consolo saber de Ionesco: Creio que se tinha esquecido, nestes últimos tempos, o que é teatro. E eu fui o primeiro a esquecê-lo; penso tê-lo novamente descoberto, para mim, passo a passo, e eu acabo de descrever simplesmente a minha experiência... Favorecendo a digestão, talvez, melhor Sábato: Se é absurdo, no entanto, é eficaz; se contraditório, é poderoso, porque substitui as palavras e expressões desgastadas que, psicologicamente, são inoperantes, por novas combinações que atraem pelo inesperado. Sabe de uma coisa? O melhor é que de tudo que sabia até agora, muito ainda por aprender. Ponto final, até mais ver.


A alfabetização está tão entrelaçada em nossas vidas que muitas vezes deixamos de perceber que o ato de ler é um milagre que está acontecendo nas nossas mãos. O que lemos, como lemos e por que lemos mudam a maneira como pensamos.

Pensamento da professora estadunidense Maryanne Wolf. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



domingo, janeiro 02, 2022

HÉCTOR ABAD, DARRIEUSSECQ, IGNACIO PADILLA & FRANCESCA WOODMAN

 

 

TRÍPTICO DQP – Esperança, amanhã diferente - Ao som do álbum Les Voix Humaines (Alia Vox, 1998), do gambista, regente e compositor catalão Jordi Savall. – Era primeiro de janeiro, o Ano Novo, enquanto do outro lado do planeta só se comemorará lá pra depois de meados do mês de março e outro ano diverso do daqui. Não consigo entender direito a razão disso. Saber eu sei, vale mesmo que O Sol nasce para todos e aqui os que vivem na escuridão se alimentam para a tragédia da violência monstruosa. Sigo pela rua sombria abandonada pelas estrelas daquele dia, terra de mortes e nascimentos. É como se estivesse na cidade da eterna primavera e eu visse ali tombar assassinado o médico sanitarista colombiano n’A ausência que seremos (Companhia das Letras; 2011), do escritor Héctor Abad Faciolince: ... Os anos, as palavras, as brincadeiras, as carícias se apagaram, e no entanto, de repente, rememorando o passado, alguma coisa volta a se iluminar na sombria região do esquecimento. Quase sempre é um misto de vergonha e alegria, e quase sempre aparece o rosto do meu pai, colado ao meu como a sombra que arrastamos ou que nos arrasta... Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de desaparecer... Diante de mim as cenas do drama Forgotten We Be (2020), do cineasta espanhol Fernando Trueba. Lá estava eu envolvido com a trama e cônscio entre milhares de outros mortos doutros rincões que não foram apenas sequestrados, desaparecidos ou imobilizados, como as Filhas da Dor e os tantos crimes sem solução engordando as estatísticas da impunidade. Não sei por onde voo nas periferias e favelas sem Estado nem futuro algum, locais em que grupos fardados, paramilitares e narcoterroristas cultuam o fascismo de sicários no espetáculo do terror: são os inimigos do povo, polícia, exército, facções criminosas, facínoras que pregam o medo das represálias com palavras de ordem, notícias falsas, contragolpes, plantões emergenciais, programas de rádio e tevê, manchetes sensacionalistas que mitificam os Pol Pot, Leopoldo II da Bélgica, Hiroito, Hernan Cortés, Tamerlão, Stalin, Hitler, Nurhad, Gengis Khan e todos abomináveis com os seus escusos triunfos do presente. No bolso do morto um fragmento do Epitáfio, de Jorge Luis Borges: Já somos o esquecimento que seremos. / A poeira elementar que nos ignora / e o que era o Adão vermelho, e o que é agora, / todos os homens, e isso não veremos. Não é outro lugar senão a minha cidade onde deixei a Carta ao meu pai: para quem esperança, só esperava um amanhã diferente.

 


O mundo todo é aqui... – Imagens: arte da fotógrafa estadunidense Francesca Woodman. - Ao despertar o amanhecer no lombo de um navio de deserto pela pátria do Beduino, a Arábia deserta, suportando cargas fabulosas por mais de duzentos quilômetros. Fui recepcionado pelo papagaio poliglota, Para, que além de me saudar em muitos idiomas misturados, relinchou, miou, só não cantou como os pássaros. Ele havia discursado sério e exaltadamente em uma assembleia de juízes e padres da corte, deixando-os para me conduzir até o poeta sonhador Arnaud que me sorriu com sua barba de zuavo, seu ar sério de velas acesas, heroísmo negligente, talento simples e encantador para a aventura. Estava num albergue do Cairo, ao lado de seu companheiro Vayssiére, um ajudante-major de verve característica do Languedoc. Contou-me que havia desembarcado na praia de Hodeida, com a missão de retornar a Maarib porque lá havia encontrado cinquenta e seis inscrições, cuja estampagem conseguiu fazer com uma escova de sapatos e traduzido tudo com um asno hermafrodita. Apresentou-me a Parihou com sua esposa Ati - um verdadeiro paquiderme de tão deformada pela gordura, pernas curtas e pesadas, a exibir seus sinais de prosperidade, a me dizer que a sombra de Arnaud iria para Hadramaut que se tornou famosa e próspera pela represa de Maarib e que se encontrava agora no livro perdido de um certo explorador alemão Hans Helfritz: No reino de Sabá, o país sem sombra. Depois dos elefantes e rinocerontes, ela era a mais volumosa das criaturas vivas e trazia em cada orelha uma argola de ouro que jorrava por todos os lados em um colar de várias voltas e correntes pelo tornozelo. Seus seios caiam-lhe até o joelho e era desenhada pelo artista acocorado, Deir el-Bahari. Dela recebi a notícia de Cambises que havia desposado as duas irmãs dos comedores de peixes e que depois assassinou a mais jovem, Roxana, e ao irmão dela Bardixa que foi vencido na prova do arco etíope, conforme narrado por Heródoto e que logo apareceu ali e me disse: De todos os infortúnios que afligem a humanidade, o mais amargo é que temos de ter consciência de muito e controle de nada. É sem dúvida mais fácil enganar uma multidão do que um só homem. Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro. Foi ele quem me levou para Belquis que estava pendurada seminua sobre a porta. Sim, a mesma que na tradição árabe era a rainha de Sabá e que governava os abissínios. Ela tinha vindo do Iêmen pelo Estreito de Bab-al-Mandb, acompanhada por sua fabulosa caravana carregada de presentes para mim. Logo me confidenciou que o seu desejo era me levar para Aksum e deu-me uma estela do deus Hórus de pé, nu sobre os crocodilos, segurando em uma das mãos um leão, um caprídeo e os animais ctonianos, o escorpião e a serpente, com uma madeixa lateral da infância e dominado pela cabeça dos deus Bés – um demônio benigno que protege contra as entidades do mal. Disse-me ela ser este presente revestido da magia protetora doméstica. Depois ofereceu um cálice de ouro recheado de caracteres sibilinos incompreensíveis: era para eu beber e ficar imunizado. Ao sorver o líquido, entregou-me uma pedra de Aksum com inscrições antigas e que o rei havia conservado ao pé do leito: Ela cura toda espécie de doenças, e se um homem souber utilizá-la, tornava-se invulnerável. Despiu-se e se deitou ao lado de uma bacia com uma serpente, enquanto me oferecia outras estatuetas mágicas para que eu não tivesse a mesma sorte de Dillon que morreu de febre, do doutor Petit que foi levado por um crocodilo, de Schaeffner que morrera de disenteria, nem a do desenhista Vignaud que foi tragado pelo esgotamento no caminho de volta. Entre os tantas oferendas lá estava a imagem do rei sacralizada: seu rosto é ornado pelo carneiro tricéfalo – animal atributo do deus Amon –, usando arranjo cilíndrico na cabeça, tendo no alto crescente lunar e um disco solar, símbolo da cultura sabeu-etíope. Apresentou-me o pequeno Menelique, filho de sua ligação com Salomão e que seria o fundador da dinastia dele na Abissínia. Segredou-me que eu devia me cuidar para não ser atacado pelas serpentes aladas fêmeas que devoram o macho logo após o acasalamento e depois é a vez da mãe ser comida pelos filhotes que lhe devoram as entranhas para abrir caminho ao parto. Também que eu evitasse Ghul, um djin feminino que costuma seduzir o pobre beduíno. Reiterou confidente: São bastante perigosas, esteja de prontidão. E foi tirando minhas vestes para me banhar: Só pode entrar no hima, o recinto sagrado, depois de rituais de purificação com a água. Despido ela me conduziu até a sua alcova e deitou-me de frente para um espelho que simbolizava o paredro, com o Sol que era a deusa-Mãe, ao lado do deus-Lua e, por trás de ambos, estavam as três deusas que protegiam as rotas: al-Lat que recebia a os que voltassem das viagens; al-Ozza, a que habitava o bosque sagrado dos caminhos e que será cortado pelo profeta; e Manat, a divindade da felicidade e também do acaso, era ela que, com suas tesouras, cortava a linha do destino. Prestei atenção a tudo que me dizia enquanto alternava poses para consultar o voo dos pássaros, a marcha dos animais, a posição de um feixe de flechas jogadas ao chão, era o costume dali: as mulheres liam a sorte com o auxílio de um punhado de conchas jogadas sobre um pano velho. Foi o que fez antes de proibir terminantemente a morte de meninas enterradas vivas ao nascerem. Depois sentou-se como se representasse uma matrona, meio de frente, olhando nua para o céu: Lady Bar’at. Levantou-se para encenar a Rainha Candace da Etiopia: Amanetere. Era a mesma que vira nos muros dos templos de Naga, seguida de um eunuco etíope que ia levá-la para uma grande e bela torre. Estava agora acompanhada de seu leão familiar e me conduziu ao templo de Naga, onde as pregas da esteatopigia era o galardão de nobreza. Lá estava a filha da rainha Bartare que dispunha de uma corte com enorme séquito e bens nada negligenciáveis: veio-me com seus quadris enormes realçados pelo vestido plissado, um bracelete troncônico etíope, coberta de joias e um ombro nu em sinal de respeito: Venha, vou levá-lo ao templo de Isis de Philae onde me deu o tesouro da rainha Amanishakete: uma estatueta de bronze do Hermafrodita apontando para o seu sexo ao levantar a sua longa túnica até o umbigo, enquanto o seu ombro esquerdo deixava a mostra o seu seio desenvolvido. Era ela, de repente, o esqueleto de Eva para me levar por Melka Konture, a mais de dois mil metros de altitude, próxima do Awash. Lá já recomposta para remexer as nádegas proeminentes, participou do culto da fecundidade no eixo de um dólmen que os indígenas chamavam de daga koliya e que encerrava grandes tesouros. Depois encostou-me às suas costas para que desfrutasse do seu glúteo desnudo, a me levar pela Baixa Núbia e rumar pela região selvagem e árida do Bato al-Hagar, onde os desencaminhados eram submetidos à servidão. Chegamos em Tebas, onde ela puxou meus braços e pôs minhas mãos sobre os seus seios para que eu ficasse colado às suas costas e me mostrar as mulheres que serviam os visitantes. Assim, agarrado em seu dorso ouvi o aviso de Heliodoro de Êmeso: dava conta de que um camelo leopardo provocava pânico numa cerimônia de sacrifícios. Logo vi que ali expiava um negro colocado de joelhos debaixo do rabo do cavalo: postura bem ridícula e humilhante. Outros escravos eram oferecidos com os braços atados, acompanhados de suas mulheres de seios nus e bebês nas costas. Presenciei Amenófis III fazer questão trazer sua esposa Tiyi para glória de seu reino, mandando construir para ela um templo com seu nome. Liberado pela acompanhante, ele ofereceu-me depois todas elas: a esposa ao lado de outras das ancas fartas para cobrir minha nudez e se desnudarem para fartar todos os meus desejos e regalo com as benesses da rainha nua por quantos anoiteceres incontáveis. Foram dias primorosos, até ver-me só apreciando a civilização não só admirada por Heródoto, como também por Diodoro, Estrabão, Plinio, entre tantos outros, lendo o livro que me fora presenteado por Guy AnnequinAs civilizações do mar vermelho (Ferni, 1977): nossa época agitada é mestre na arte de destruir tudo, esses países correm um grande perigo.... perde-las-emos para sempre! Estava então só com uns versos do Gerión e a Suméria (Cepe, 1997), de Fernando Monteiro: ... Eu não queria somente ter / esse vazio na alma, / esse vácuo que me faz contemporâneo / de um século de nada... E só me restava o eco das palavras de Espinosa na cabeça: O desejo é a própria essência do homem, enquanto concebida como determinada a fazer algo por uma afecção qualquer nela verificada... A alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior... A tristeza é uma passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor. Seguir meu caminho era trilhar para onde nasce o Sol, onde sempre estou e vivo.

 


Perdido no chão da casa... – Imagem: Portrait Of An Artist As A Woman (1989), de Eric Fischl. - E se não sabia onde, logo me dei conta de que estava só numa praça em que estava erguida uma estátua que fora jogada no lixo e era Bamba de Totó il Buono (1943- Monte Università Parma, 2003), do escritor italiano Cesare Zavattini (1902-1989): os habitantes vivem na mendicância e ganham a vida à noite, governados pelo jovem Totó, nascido de um repolho e aconselhado por uma pomba que fora dada pelo espírito de sua defunta mãe. Ali imperava a hostilidade dos Mobbis, criaturas de casacos de pele e corações de pedra. Os que conseguem se safar dos malignos, logo se defrontam com o fantasma de Gilbert Ryle aos gritos: É de extrema importância notar desde o início que estupidez não é a mesma coisa, ou o mesmo tipo de coisa, que ignorância. Não há incompatibilidade entre ser bem informado e ser bobo, e uma pessoa que tem um bom faro para discussões ou piadas pode ter uma cabeça ruim para os fatos. Ou com Arthur Koestler pelas esquinas sentenciando: Fez o melhor que podia - não foi bom o bastante... Nada é mais triste que a morte de uma ilusão... ou ainda com a trupe do escritor Ignacio Padilla, a Crack mexicana (Createspace Independent, 1996): ... profundo respeito pelo leitor inteligente, que deseja participar ativamente da literatura, acompanhado pelo escritor Pedro Ángel Palou: A ideia era brincar com a onomatopeia. Fazendo uma fenda a gente fazia uma fissura, uma fenda, na tradição. Queremos reescrever a tradição latino-americana sem romper com ela. Estamos cansados da marca latino-americana. Abriu-se então uma brecha no tempo e pela rachadura onírica surgiu Marie Darrieussecq com seu jeito encantador para me dizer: A angústia, por exemplo, é uma experiência muito comum que pode alterar profundamente a visão, a audição, até o olfato e o equilíbrio... Trata-se de paixão. Paixão não é amor. O amor te ajuda a viver. O amor te ajuda a trabalhar. Você está em boa companhia com o amor. A paixão o impede de viver, trabalhar, respirar. A paixão é um desastre. É um desastre extraordinário. É tão intenso, é fabuloso. Sua presença era um alívio e pude vê-la sorrir enigmática enquanto permitia que eu pudesse sonhar um pouco com seu jeito fascinante. Na real, eu fugia da dupla tragédia dagora: a peste e o desgoverno. Ela sentou-se e me fitava firme: nos seus olhos havia a certidão de que eu estava deveras exilado a seguir na loucura hodierna dos estranhos lugares tão familiares quanto a minha terra onde eu fosse ou estivesse: o mundo todo é aqui. Até mais ver.

 

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domingo, setembro 05, 2021

LAWRENCE FERLINGHETTI, ALEX CAPRILES, ANKE FEUCHTENBERGER, LILLIAN CONSTANTINE & CAROL ITO

 

 

TRÍPTICO DQP – Entre ditos & desditos... - Ao som do Jubileu das Cordas 50 Anos de Violão (2019), do violonista e compositor Henrique Annes. - Os fantasmas brincalhões da minha convivência hibernaram num vasto e quinquenal silêncio. Para quem vive de trela com os visinvisíveis, nenhuma graça emerge na álgida noite que povoa os amanheceres desde então. É tudo tão noturno, da sombria sobrevivência, um ou outro insone abantesma aparece entre tantos trogloditas raivosos vivinhos da silva atrapalhando a conversa, de logo desaparecem neste tempo de Fecamepa do mico Coisonário. Para mim uma primavera perdida se aproxima apesar de hesitante e tão longínqua, de restar apenas uma indagação: qual independência de mesmo é a deste dia 7 de setembro, hem? Equivocações reiteradas, parece. Sim, isso mesmo. Para minha extemporânea satisfação, constato a chegada do poeta Lawrence Ferlinghetti a me dizer que O mundo é um ótimo lugar e, diante da minha anuência para lá de desconfiada, recita um verso: Piedade para a nação - óh, piedade para os homens / que permitem que os próprios direitos sejam corroídos / e suas próprias liberdades levadas embora. / Minha Pátria, lágrimas de ti / doce terra de liberdade!... Com ele, ao mesmo tempo, a sensação de júbilo pela interlocução, enquanto um coveiro à espreita interrompe e é muito difícil manter a compaixão, nada impossível. Salve-se quem puder, sou outro a cada passo.

 


Uma & outra... - Imagem: For the Love of Money (2020), da artista estadunidense Katherine Gianaclis (1924-1999), ao som de Epifanie, per voce e orchestra su testi di Proust, Machado, Joyce, Sanguineti, Simon, Brecht (1961), de Luciano Berio, na interpretação de Cathy Berberian & Orchestra della RAI di Roma, 15 Marzo 1969. - Estou atordoado e não poderia ser diferente: meu país naufraga inevitavelmente pelas intermitentes e mais terríveis tormentas desde que Pindorama se perdeu. Sou como todos os demais: vivo à deriva, agarrado a uma boia imaginária que ameaça se dissolver para minha completa exaustão. Vivo de talvez, vez em quando. E me surpreendo com a presença inesperada de Alex Capriles a decodificar este tempo muito louco, insistindo risonho que existe muito mais loucura, crimes e doenças associadas ao dinheiro do que ao sexo ou qualquer outro conteúdo mental. Sorrio amarelo, tento disfarçar, impossível: agora é um mundo complexo e arriscado. Ele então segura firme o meu braço e adverte: É utópico pensar em acabar com o dinheiro. Mas os sofisticados instrumentos financeiros estão desfigurando a noção habitual de dinheiro. Hoje, o conhecimento é mais importante que o capital. O poder, a sexualidade e a fama sempre existirão como paixões humanas. O importante é analisar o lugar que elas ocupam nas nossas vidas... Fiquei sem saber o que dizer nem fazer, olhei pros lados e ele tagarelou persistente enumerando patologias monetárias, comparando situações da potencializada avareza com os pobretões de espírito soberbamente endinheirados, da compulsão pela acumulação e as taras monetárias como graves distúrbios psicossociais. Para quem náufrago sem saída, era como se ocorresse instantaneamente a releitura de Huberman ou revisse as veias abertas de Galeano. Viu-me espantado e fitou meus olhos: Ninguém está imune à decepção. Tornou-se um flagelo e para me livrar passei a encarar semblantes passantes: cifrões ditavam sorrisos e consternações. Ele sorriu, abraçou-me e se despediu com umas palmadinhas nas costas: levou de mim a ignorância do olhar e me deixou olhos agudos de peito aberto.

 


Duas ou mais de amores & violência... - Imagem: arte da quadrinista, ilustradora e jornalista Carol Ito. - Os pensamentos eram os passos dos outros povoando minha mente. Desconcertado, recorri ao banco da praça e nem me dei conta de uma bela jovem já ali aboletada. Era Lillian Constantine, disse-me seu nome e de chofre: Filmei meu próprio estupro e consegui a prisão do meu agressor. Nossa! Baixou os olhos, vi-lhe as mãos e lábios trêmulos. Virei-me para ela, uma jovem britânica na flor dos seus 21 anos, acredito. Tentei demonstrar meu apoio e, com seu jeito cabisbaixo, contou-me daquela noite numa rua escura de Ramsgate, Kent, há 5 anos atrás, lembrando dos mínimos detalhes e a sua opção: havia renunciado o direito à privacidade e filmara o ataque, relatando... Em primeiro lugar, virei a gravação do vídeo no meu telefone e acendi a luz também porque estava escuro como breu onde eu estava e pensei: 'Ok, se ele me ver' estou gravando '- e gritei para ele: Estou gravando você, estou gravando você - ele vai fugir, vai assustá-lo, não vai querer ser pego. Mas ele não se importou nem um pouco. Eu estava tão chocada. Eu estava gritando com ele, xingando, gritando por socorro. Eu pensei: este deve ser um maníaco absoluto. Foi completamente bárbaro. Percebi que ao me contar buscava forças dentro de si para superar o trauma. Enquanto isso, um caleidoscópio de imagens rondava ao nosso redor: da Aracelli de Louzeiro, da bela Inés do Goya de Milos Forman, da Lolita de Nabokov, e outras tão reais e que ocorrera por perto, como a das Sombras do Coração de Gilvanícila, de Telma & Todas as Filhas da Dor, até mesmo das oriundas da Nota Técnica nº 11 - Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde (Ipea, 2014), de Daniel Cerqueira e Danilo Santa Cruz Coelho, dando conta da dramática situação apurada pelo Ministério da Saúde, de que 15% dos estupros registrados foram cometidos por duas ou mais pessoas, e que 11,3% dos casos envolvem crianças vitimadas pelos próprios pais. Era tudo muito perturbador. Ela e eu, suspensos no tempo. Então ela deitou a cabeça desamparada ao meu ombro e, cá comigo, eu teimava, sem dizer palavra alguma, que poderia ser tudo tão diferente, não fossem os impunes Ashraf Miah que vão e voltam escondidos em suas máscaras humanas.

 


Outra a mais & o amor assim... - Imagem: a arte da artista Maria Angela Biscaia. - Naquele encontro nos demoramos e eu me vi Émile e ela transformada na estonteante doméstica, Jeanne Rozerot, como se fosse paixão à primeira vista e ao meu dispor. Na minha cabeça ela era Nana e sequer dali imaginava Germinal. Da praça à intimidade, foi como estalar os dedos e logo cenas dela nos afazeres, provocantemente varrendo a casa, lavando roupa, limpando os móveis, cuidando da casa nas férias em Royan, eu fotografando tudo dentro de casa na rue Saint-Lazare, conversando curiosamente sobre sua vida – era a filha do moleiro e órfã de mãe, castigada pela madrasta, fugiu com sua irmã para viver com a avó e tornar-se a criada ideal dos meus sonhos e desejos. Não fossem tantos acontecimentos, como o Caso Dreyfus, as ameaças de morte, o empreiteiro de fornos e os vapores do monóxido de carbono na perturbada noite com Alexandrine, poderia ter sido feliz por muito mais tempo ao lado dela.

 


Cada um diga o que quiser falar... - A arte da artista, professora e cartunista alemã Anke Feuchtenberger. – Nada pudera, não era abril, nem mesmo o paraíso. Quando me vi sozinho perdido no meio da minha noite interminável, ela reapareceu e era a poeta Leila Ferraz que fez outra escrita da pele para digitar na minha língua um recado de amor. Ela então bailou como se fosse a coreógrafa cubana Alicia Alonso (1920-2019) a recitar suas Lágrimas insuspeitas: Algumas mulheres de minha geração sofreram muito / com a usurpação do tempo que devia ser delas. / Não há ouvidos para meus apelos. / É como se eu tivesse enraizado meus pés em uma terra devoluta / e meus braços se agitassem unicamente com a força dos ventos em fúria. / Doem-me as feridas de um tempo que passa levando consigo / meu corpo e flagelos da alma para a cova rasa do esquecimento. / Mais do que nunca hoje eu fui embora. / Para bem longe, onde a liberdade me escolta presa à arquitetura da satisfação solitária. / Sou uma civilização perdida e isolada do mundo. / Presa em um retângulo de sacrifícios. / Meu desgosto é trágico como uma ópera de cavernas. / Só me resta pouco tempo neste corpo cativeiro de almas. E mais tivemos além da entrega mútua e viva nas mãos que soltaram pela bifurcação dos passos. Dela, o milagre da flor: a escolha de ser livre. Cada um o seu momento, o que vale é o que vai de um coração a outro. Sempre disse sim, cuidei do ouro das cicatrizes. Não ofendi minha sorte, tudo valeu a pena, até o silêncio de uma ideia perdida. Até mais ver.

 

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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...