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domingo, setembro 05, 2021

LAWRENCE FERLINGHETTI, ALEX CAPRILES, ANKE FEUCHTENBERGER, LILLIAN CONSTANTINE & CAROL ITO

 

 

TRÍPTICO DQP – Entre ditos & desditos... - Ao som do Jubileu das Cordas 50 Anos de Violão (2019), do violonista e compositor Henrique Annes. - Os fantasmas brincalhões da minha convivência hibernaram num vasto e quinquenal silêncio. Para quem vive de trela com os visinvisíveis, nenhuma graça emerge na álgida noite que povoa os amanheceres desde então. É tudo tão noturno, da sombria sobrevivência, um ou outro insone abantesma aparece entre tantos trogloditas raivosos vivinhos da silva atrapalhando a conversa, de logo desaparecem neste tempo de Fecamepa do mico Coisonário. Para mim uma primavera perdida se aproxima apesar de hesitante e tão longínqua, de restar apenas uma indagação: qual independência de mesmo é a deste dia 7 de setembro, hem? Equivocações reiteradas, parece. Sim, isso mesmo. Para minha extemporânea satisfação, constato a chegada do poeta Lawrence Ferlinghetti a me dizer que O mundo é um ótimo lugar e, diante da minha anuência para lá de desconfiada, recita um verso: Piedade para a nação - óh, piedade para os homens / que permitem que os próprios direitos sejam corroídos / e suas próprias liberdades levadas embora. / Minha Pátria, lágrimas de ti / doce terra de liberdade!... Com ele, ao mesmo tempo, a sensação de júbilo pela interlocução, enquanto um coveiro à espreita interrompe e é muito difícil manter a compaixão, nada impossível. Salve-se quem puder, sou outro a cada passo.

 


Uma & outra... - Imagem: For the Love of Money (2020), da artista estadunidense Katherine Gianaclis (1924-1999), ao som de Epifanie, per voce e orchestra su testi di Proust, Machado, Joyce, Sanguineti, Simon, Brecht (1961), de Luciano Berio, na interpretação de Cathy Berberian & Orchestra della RAI di Roma, 15 Marzo 1969. - Estou atordoado e não poderia ser diferente: meu país naufraga inevitavelmente pelas intermitentes e mais terríveis tormentas desde que Pindorama se perdeu. Sou como todos os demais: vivo à deriva, agarrado a uma boia imaginária que ameaça se dissolver para minha completa exaustão. Vivo de talvez, vez em quando. E me surpreendo com a presença inesperada de Alex Capriles a decodificar este tempo muito louco, insistindo risonho que existe muito mais loucura, crimes e doenças associadas ao dinheiro do que ao sexo ou qualquer outro conteúdo mental. Sorrio amarelo, tento disfarçar, impossível: agora é um mundo complexo e arriscado. Ele então segura firme o meu braço e adverte: É utópico pensar em acabar com o dinheiro. Mas os sofisticados instrumentos financeiros estão desfigurando a noção habitual de dinheiro. Hoje, o conhecimento é mais importante que o capital. O poder, a sexualidade e a fama sempre existirão como paixões humanas. O importante é analisar o lugar que elas ocupam nas nossas vidas... Fiquei sem saber o que dizer nem fazer, olhei pros lados e ele tagarelou persistente enumerando patologias monetárias, comparando situações da potencializada avareza com os pobretões de espírito soberbamente endinheirados, da compulsão pela acumulação e as taras monetárias como graves distúrbios psicossociais. Para quem náufrago sem saída, era como se ocorresse instantaneamente a releitura de Huberman ou revisse as veias abertas de Galeano. Viu-me espantado e fitou meus olhos: Ninguém está imune à decepção. Tornou-se um flagelo e para me livrar passei a encarar semblantes passantes: cifrões ditavam sorrisos e consternações. Ele sorriu, abraçou-me e se despediu com umas palmadinhas nas costas: levou de mim a ignorância do olhar e me deixou olhos agudos de peito aberto.

 


Duas ou mais de amores & violência... - Imagem: arte da quadrinista, ilustradora e jornalista Carol Ito. - Os pensamentos eram os passos dos outros povoando minha mente. Desconcertado, recorri ao banco da praça e nem me dei conta de uma bela jovem já ali aboletada. Era Lillian Constantine, disse-me seu nome e de chofre: Filmei meu próprio estupro e consegui a prisão do meu agressor. Nossa! Baixou os olhos, vi-lhe as mãos e lábios trêmulos. Virei-me para ela, uma jovem britânica na flor dos seus 21 anos, acredito. Tentei demonstrar meu apoio e, com seu jeito cabisbaixo, contou-me daquela noite numa rua escura de Ramsgate, Kent, há 5 anos atrás, lembrando dos mínimos detalhes e a sua opção: havia renunciado o direito à privacidade e filmara o ataque, relatando... Em primeiro lugar, virei a gravação do vídeo no meu telefone e acendi a luz também porque estava escuro como breu onde eu estava e pensei: 'Ok, se ele me ver' estou gravando '- e gritei para ele: Estou gravando você, estou gravando você - ele vai fugir, vai assustá-lo, não vai querer ser pego. Mas ele não se importou nem um pouco. Eu estava tão chocada. Eu estava gritando com ele, xingando, gritando por socorro. Eu pensei: este deve ser um maníaco absoluto. Foi completamente bárbaro. Percebi que ao me contar buscava forças dentro de si para superar o trauma. Enquanto isso, um caleidoscópio de imagens rondava ao nosso redor: da Aracelli de Louzeiro, da bela Inés do Goya de Milos Forman, da Lolita de Nabokov, e outras tão reais e que ocorrera por perto, como a das Sombras do Coração de Gilvanícila, de Telma & Todas as Filhas da Dor, até mesmo das oriundas da Nota Técnica nº 11 - Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde (Ipea, 2014), de Daniel Cerqueira e Danilo Santa Cruz Coelho, dando conta da dramática situação apurada pelo Ministério da Saúde, de que 15% dos estupros registrados foram cometidos por duas ou mais pessoas, e que 11,3% dos casos envolvem crianças vitimadas pelos próprios pais. Era tudo muito perturbador. Ela e eu, suspensos no tempo. Então ela deitou a cabeça desamparada ao meu ombro e, cá comigo, eu teimava, sem dizer palavra alguma, que poderia ser tudo tão diferente, não fossem os impunes Ashraf Miah que vão e voltam escondidos em suas máscaras humanas.

 


Outra a mais & o amor assim... - Imagem: a arte da artista Maria Angela Biscaia. - Naquele encontro nos demoramos e eu me vi Émile e ela transformada na estonteante doméstica, Jeanne Rozerot, como se fosse paixão à primeira vista e ao meu dispor. Na minha cabeça ela era Nana e sequer dali imaginava Germinal. Da praça à intimidade, foi como estalar os dedos e logo cenas dela nos afazeres, provocantemente varrendo a casa, lavando roupa, limpando os móveis, cuidando da casa nas férias em Royan, eu fotografando tudo dentro de casa na rue Saint-Lazare, conversando curiosamente sobre sua vida – era a filha do moleiro e órfã de mãe, castigada pela madrasta, fugiu com sua irmã para viver com a avó e tornar-se a criada ideal dos meus sonhos e desejos. Não fossem tantos acontecimentos, como o Caso Dreyfus, as ameaças de morte, o empreiteiro de fornos e os vapores do monóxido de carbono na perturbada noite com Alexandrine, poderia ter sido feliz por muito mais tempo ao lado dela.

 


Cada um diga o que quiser falar... - A arte da artista, professora e cartunista alemã Anke Feuchtenberger. – Nada pudera, não era abril, nem mesmo o paraíso. Quando me vi sozinho perdido no meio da minha noite interminável, ela reapareceu e era a poeta Leila Ferraz que fez outra escrita da pele para digitar na minha língua um recado de amor. Ela então bailou como se fosse a coreógrafa cubana Alicia Alonso (1920-2019) a recitar suas Lágrimas insuspeitas: Algumas mulheres de minha geração sofreram muito / com a usurpação do tempo que devia ser delas. / Não há ouvidos para meus apelos. / É como se eu tivesse enraizado meus pés em uma terra devoluta / e meus braços se agitassem unicamente com a força dos ventos em fúria. / Doem-me as feridas de um tempo que passa levando consigo / meu corpo e flagelos da alma para a cova rasa do esquecimento. / Mais do que nunca hoje eu fui embora. / Para bem longe, onde a liberdade me escolta presa à arquitetura da satisfação solitária. / Sou uma civilização perdida e isolada do mundo. / Presa em um retângulo de sacrifícios. / Meu desgosto é trágico como uma ópera de cavernas. / Só me resta pouco tempo neste corpo cativeiro de almas. E mais tivemos além da entrega mútua e viva nas mãos que soltaram pela bifurcação dos passos. Dela, o milagre da flor: a escolha de ser livre. Cada um o seu momento, o que vale é o que vai de um coração a outro. Sempre disse sim, cuidei do ouro das cicatrizes. Não ofendi minha sorte, tudo valeu a pena, até o silêncio de uma ideia perdida. Até mais ver.

 

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terça-feira, agosto 23, 2016

MERLEAU-PONTY, YO-YO MA, ILYA KABAKOV, MILOS FORMAN, DEISE FURLANI, PATRICK PALMER & GUAYASAMIN


DA INOCÊNCIA E DA INJUSTIÇA MILENAR– Imagem: Las manos de la protesta, do pintor e escultor equatoriano Oswaldo Guayasamin (1919-1999) - Ninguém escapa de uma cruzeta! Sim, sei, cada caso é um caso. Os registros históricos e, sobretudo, a Literatura estão fartas de ocorrências que se mostraram injustas e ocorridas há milênios. Manobras, conspirações e conluios de interesses são ardilosamente maquinados na calada da noite ou nos recônditos do dia secularmente. Vítimas são ceifadas, muitas vezes sobrecarregadas de inesgotável inocência, só pelo puro prazer de uns poucos grotescos em sobrepujar os limites dos mais desprezíveis motivos dos proveitos ambicionados. Coisas monstruosas, decerto. Nada mais que vantagens indesculpavelmente amorais, oriundas do mais injustificável egoísmo que se sobressai sobre tudo e todos. Quanta vileza. Vinganças inaceitáveis, atitudes apequenadas de seres que se mostram menores que o próprio tamanho, cuja razão só se expressa por meio da força bruta, do pisotear, humilhar, sacanear, suprimir, vergastar, cercear e usurpar direito alheio. Quanta barbaridade! Exemplos é o que não faltam, expô-los aqui daria um rol interminável: milênios de malquerenças. Pleno século XXI e tais bizarrices se repetem cotidianamente desde a mais remota era do inventário humano: fulano que no cumprimento de seu estrito dever foi torturado até a morte, beltrano que saiu de casa pra padaria e foi alcançado num tiroteio por uma bala perdida que o levou a óbito, sicrana beldade cobiçada foi capturada, seviciada e morta pela mais revoltante violência e manchetes agressivamente estampadas fazem a festa da banalização de crimes. A minha indignação supera todos os limites dos termômetros da revolta e eu não sei por que cargas d’água tanta selvageria à toa: tudo nivelado por baixo. Ah, quem sabe, um dia sejamos realmente humanos. Tudo muito lamentável, tudo pelo poder, pela posse. Aos carrascos do presente: ninguém passa impune, o tempo julgará. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

Curtindo o cd/dvd do álbum Live from Tanglewood: The Silk Road Ensemble with Yo-Yo Ma (2012), reunião de músicos promovida pelo violoncelista franco-americano Yo-Yo Ma na exploração de como as artes avançam na compreensão glogal, conectando o mundo por meio da arte e na concentração de esforços que envolvem desempenho musical, programas de aprendizagem e empreendedorismo cultural.

PESQUISA 
[...] O saber nunca é categórico, coloca-se sob o beneficio do inventário, nada pode fazer com que sejamos o passado: é apenas um espetáculo postado diante de nós e que precisamos interrogar. As questões partem de nós e as respostas, portanto, não esgotam, por principio, uma realidade histórica que não esperou por elas para existir. Ao contrário, o presente somos nós. Para ser, espera nosso assentimento ou nossa recusa. A suspensão do juízo, regra no que concerne ao passado, torna-0se impossível agora: esperar que as coisas adquiram feição para decidir, é decidir deixá-las ser por sua própria conta. E, no entanto, a proximidade do presente, fazendo-nos responsável por ele, nem por isso nos dá o acesso à própria coisa – desta feita, é por ausência de distancia que estamos condenados a ver apenas um lado. Saber e prática enfrentam, a mesma infinidade do real histórico. Porém, respondem-lhe de duas maneiras opostas: o saber, multiplicando os pontos de vista por meio de conclusões provisórias, abertas, motivadas, isto é, condicionadas a prática, por meio de decisões absolutas, parciais, injustificáveis. [...].
Trecho do ensaio A crise do entendimento, extraído da obra As aventuras da dialética (Martins Fontes, 2006), do filósofo fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
[...] Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho, quando nos arriscamos pela internet, o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais, e por toda prte o terror do tempo que passa e que, sentimos, vai devorando uma vida que nunca aprendemos a administrar – pois jamais nos pertenceu. [...].
Trecho da obra Histórias do tempo (Mandarim, 2000), da escritora e tradutora gaúcha Lya Luft. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:

[...] este mundo nos foi revelado em toda sua completude: uma nova terra e um novo céu tornaram-se visíveis, todas as hierarquias celestes [...] e a completude inteira do cosmos celeste banhado em uma luz de ouro. O ícone é um modelo deste mundo e simultaneamente uma projeção, em nosso mundo, do mundo do outro lado. [...]
Trecho extraído da obra Über die ‘Totale’ Installation / On the ‘total’ installation (Cantz Verlag, 1995), do artista conceitual russo Ilya Kabakov.

IMAGEM DO DIA
A atriz, produtora e diretora de cinema israelense Natalie Portman no filme Sombras de Goya (Goya´s Ghosts – Espanha/EUA, 2006), do cineasta Milos Forman. Veja mais aqui.

Veja mais sobre A intromissão do verbo, Nelson Rodrigues, Nazik Al-Malaika, Antonio Meneses, Chan-Wook Park, Lourival Viegas, Nicole Kidman, Narrativas de Yamato, O pensamento pós-moderno e as tendências epistemológicas aqui.

DESTAQUE
Mosaico em cerâmica da mosaicista Deise Furlani.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nude, by Patrick Palmer.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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quarta-feira, fevereiro 18, 2015

ÁGOTA KRISTOF, EWA LIPSKA, HÉLÈNE METZGER & DYLAN THOMAS


 

A SOLIDÃO DE DYLAN... - Ainda criança ouvia do seu pai, que era professor de escola primária, o costume de Shakespeare. Essa audição o fez, ainda menino a escrever mais de duzentos poemas. Logo dirigiu o jornal da escola e, na adolescência, largou tudo para ser repórter júnior no Dailly Post. Abandonou o trabalho para se concentrar na poesia em tempo integral. Mal completara 20 anos e seguiu para Londres, ganhador do prêmio Poet’s Corner, publicando seus 18 poems – um volume composto de cadernos de poesia escritos na adolescência. Começou a abusar do álcool, sem se preocupar com questões intelectuais ou sociais, mergulhado nas influências célticas, românticas e surreais. Quis servir à guerra, mas não foi convocado pelo comitê de recrutamento por conta de seus problemas de saúde. Esta uma grande decepção e somava-se às características da morbidez, pois já acreditava que não viveria muito. Era um mar voraz, indomável como as ondas de seu país. Não reconhecia nenhum limite em sua autodestruição e indisfarçável egoísmo. Aliciado por seus próprios excessos, o divertimento com sua obsessão, produzia e desperdiçava tempo, refugiando-se nos pubs. Tornou-se roteirista de cinema, fez documentários, uma celebridade: sua voz seduzia milhares de ouvintes, atraia novos admiradores; sua irreverência impressionava o mundo atônito. Um profundo solitário apaixonado pela sonoridade das palavras e estilo incrivelmente pessoal. Não tinha um tostão no bolso levado por suas fundas raízes telúricas, uma nostalgia pelo passado. Comportava-se como um perdulário, muito embora demonstrasse para todos não possuir nenhuma forma de usura ou de apego a bens materiais: um poeta puro, absoluto! Foi pros Estados Unidos com sua romântica teatralidade e porres homéricos, tornando-se figura lendária: um ídolo pros Beat. Arrebatou plateias com sua grave voz ao ler seus versos, influenciando um jovem compositor: Robert Allen Zimmerman – que tomaria seu nome para si. O inconformista que não deu certo com secretos desígnios na escolha nada fortuita e tão imoderado na música das ideias: A morte e a vida deixam de ser antíteses... Era visível seu declínio, os atritos com a esposa mais se agravavam, deteriorando-se rapidamente. Implorava por meio cartas desesperadas e pungentes uma reconciliação. E violentava-se a si mesmo e às palavras: sofria paroxismos de culpa. Deixou cadernos de poemas para trás e ingeriu quarenta canecas de cerveja: Este adorável planeta vai arder sob os efeitos da hecatombe nuclear... O poeta que simbolizava a vanguarda passou a ser visto como um personagem fora de moda e, com o declínio de sua reputação, não ficou impune às sequelas das bravatas alcoólicas ou ao insulto cerebral, nem a devastação perseguidora de uma legião de ninfomaníacas e, com os versos da longa e magnífica Elegia inacabada, sucumbiu de vez como um enfant terrible no Chelsea Hotel, subjugado pelo cansaço em Laugharme, de onde sua alma talvez jamais tenha saído. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A vida sempre lhe oferece uma segunda chance. Isso se chama amanhã... Um bom poema é uma contribuição à realidade. O mundo nunca mais é o mesmo depois que um bom poema é adicionado a ele. Um bom poema de ajuda a mudar a forma do universo, ajuda a ampliar o conhecimento de todos sobre si mesmos e sobre o mundo ao redor... Gosto de pensar na poesia como declarações feitas a caminho do túmulo... Eu carrego uma fera, um anjo e um louco dentro de mim. Aquele que busca descanso encontra tédio. Aquele que busca trabalho encontra descanso. Alguém está me entediando. Acho que sou eu. O amor é a última luz falada. Embora enlouqueçam, eles permanecerão sãos; embora afundem no mar, eles se levantarão novamente; embora os amantes se percam, o amor não se perderá; e a morte não terá domínio. Pensamento do poeta gales Dylan Thomas (1914-1953), que ao nascer recebeu o seu nome extraído do Mabinogton, uma coletânea de manuscritos em prosa escritos em galês medieval, baseados em eventos históricos, no qual cada um dos quatro contos termina com um colofão que diz: “Assim termina este ramo do mabinogi" e que consta: “Nomearei este criança, e o nome que lhe darei será Dylan”. Assim, conforme Ivan Junqueira, no texto de Dylan Thomas, um perfil, da obra Dylan Thomas: poemas reunidos (1934-1953) (José Olympio, 1991), assinala: Assim foi chamado o menino de cabelos de ouro, e dirigiu-se diretamente para o mar. E, quando alcançou a praia, tornou-se de imediato parte do mar, compartilhou de sua natureza e nadou tão longe quanto a salamandra aquática. E, por essa razão foi por ele chamado Dylan Eil Ton, filho marinho das ondas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O pensamento expansivo é aquele que corre ruidosamente e simultaneamente em todas as direções onde pode abrir caminho, que irá constantemente e irregularmente adiante sem parar um momento para contemplar com um olhar o terreno percorrido, e sem tentar construir um monumento doutrinário... Pensamento da filósofa francesa Hélène Metzger (1889–1944), que no seu estudo La méthode philosophique en histoire des sciences: Textes 1914–1939 (Fayard, 1987), expressou que: [...] penetrar com maior certeza e simpatia mais ativa o pensamento criativo do passado no qual ele infunde nova vida, que ele revive por um momento. Além disso, há um fator pessoal, subjetivo … que é impossível eliminar completamente; é melhor admiti-lo honestamente do que negá-lo a priori . Os historiadores, como todos os filósofos, como todos os cientistas e como todos os humanos, têm tendências inatas, modos de pensar individuais, mas imperceptíveis, que ainda não são opiniões ou mesmo sistemas de pensamento, mas que podem engendram tais opiniões e sistemas. [...]. Ela também é autora dos estudos La genèse de la science des cristaux (1918), Les doctrines chimiques en France du début du XVIIe à la fin du XVIIIe siècle (1923), Les Concepts scientifiques (1926), Newton, Stahl, Boerhaave et la doctrine chimique (1930), La chimie (1930), La Philosophie de la matière chez Lavoisier (1935), Attraction universelle et religion naturelle chez quelques commentateurs anglais de Newton (1938), La Science, l'appel de la religion et la volonté humaine (1954), La Méthode philosophique en histoire des sciences(1987), entre outros.

 

ONTEM – [...] Eu tinha apenas um desejo: ir embora, andar, morrer, tanto faz. Eu queria fugir, nunca mais voltar, desaparecer, derreter na floresta, nas nuvens, não ter mais memórias, esquecer, esquecer. [...]. Trecho extraído da obra Yesterday (Random House, 1997), da escritora húngara Ágota Kristof, que no seu livro Le grand cahier (Points, 1995) expressou que: [...] Para decidir se é “Bom” ou “Não Bom”, temos uma regra muito simples: a composição deve ser verdadeira. Devemos descrever o que é, o que vemos, o que ouvimos, o que fazemos. [...] Já no livro La prevue (Points, 1995), expressou que: [...] A dor diminui, as memórias desaparecem. O insone olha para Lucas: — Para diminuir, para esmaecer, eu disse, sim, mas para não desaparecer. [...]. Por fim, no seu livro Claus y Lucas (Booket, 2014), expressou que: [...] Tenho convicção que todo ser humano nasce para escrever um livro, só para isso. Um grande livro ou um livro medíocre, não importa, mas quem não escreve nada é um ser arruinado, que passou pela terra sem deixar vestígios. [...]. Veja mais aqui.

 

DOIS POEMASABISMO - Às vezes você vê gesso \ caindo das cabeças. \ A fachada da razão se desfazendo. \ História novamente. \ Por que voltar a isso, \ já que tudo está à nossa frente de qualquer maneira. \ Está feito. Não pode ser desfeito. \ Sento-me sob qualquer céu antigo \ e ouço o que a mediocridade tem a dizer. \ Nos livros de orações, \ um marcador anunciando \ aves anti-rugas. \ De todas as nações vocês sabem que \ Assassinos podem ser eliminados. ESTUDE A MORTE - Estude a morte. Aprenda de cor. \ Seguindo as regras de ortografia \ de palavras mortas. \ Soletre-os juntos \ como comunidade ou linho. \ Não divida \ entre os mortos. \ Você é o escolhido dos deuses. \ Estude a morte cedo. \ O amor ao país \ também pode ser mortal. \ Estude a morte \ no amor. \ Estude a morte não apenas \ para matar o tempo. \ O tempo pode ser suicida \ e ficar pendurado em uma árvore por horas. \ Teste você mesmo. \ Um verdadeiro teste ao vivo. Poema da poeta polonesa Ewa Lipska. Veja mais aqui.

 

SACADOUTRAS

 

NADJA – O escritor francês André Breton (1886-1966) que em 1924 lançou o Manifesto do Surrealismo pregando a liberdade total da imaginação como base para a liberdade total do ser humano. Líder do movimento surrealista, ele pretendeu que se gire em torno de três ideias básicas: o amor, a liberdade e a poesia. É no livro Nadja (1928) que ele apresenta mencionado que: Se, ao longo deste livro, o simples ato de escrever, para não mencionar o de publicar qualquer espécie de livro,já era classificado na categoria das vaidades, que seria de pensar da complacência do autor em querer, tantos anos depois, melhorar pelo menos um pouco a sua forma! Contudo convém distinguir, para o bem ou para o mal neste caso, entre o que se refere ao registro afetivo e se prende exclusivamente a ele - o que é, sem dúvida, o essencial -, e o que representa, no dia-a-dia, tão impessoal quanto possível, a inter-relação dos mínimos acontecimentos numa forma determinada (Feuille de charmille, de Lequier, sempre voltamos a ti!). Se é inevitável que a tentativa de retocar à distância a expressão de um estado emocional sem que se possa revivê-lo no presente, resulte em dissonância e frustração (Já o vimos bastante em Valéry, quando um insaciável anseio de rigor o levou a rever seus "versos antigos"), talvez não seja interdito querer obter um pouco mais de adequação de termos e também de fluidez. [...] Subjetividade e objetividade travam, ao longo de uma vida humana, uma série de combates, nos quais a primeira costuma sair-se inteiramente mal. Ao cabo de trinta e cinco anos (a fuligem não é brincadeira), os leves cuidados com que resolvo cercar a segunda testemunham apenas certa preocupação quanto à melhor forma de expressar, que só a esta dizem respeito, de vez que o maior valor da outra - que continua a me importar muito mais - reside precisamente na carta de amor crivada de erros e nos "livros eróticos sem ortografia".Veja mais aqui.

Imagem: Danae with Shower of Gold, do pintor sueco Adolf Ulrik Wertmüller (1751-1811)

Ouvindo Yanomami, op 47 (1980), do compositor erudito Marlos Nobre com o Coro Cervantes de Londres, condução de Carlos Fernandes Aransay, violão Fabio Zanon e o tenor Julian Stocker. Veja mais aqui.

DA ODISSEIA E DA ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO – O escritor grego Nikos Kazantzákis (1883-1957) é autor de umas das mais obras que se encontram no panteão da literatura universal. Tive a oportunidade de ler seus livros Zorba, o grego, Cristo recrucificado e A última tentação de Cristo, este último que virou filme homônimo dirigido pelo cineasta Martin Scorcese, em 1988. Numa antologia da poesia moderna da Grécia, o escritor José Paulo Paes alguns fragmentos do poema Da Odisseia, dos quais destaco o IX: “Minha mente, eu a deixo livre para anelar em segredo, desejar o que não tem mais, querer aquilo que perdeu; digo-te que seguro as rédeas, firme, com as duas mãos, mas meu cavalo solto sem temor nas pastagens do sonho. Eu te agradeço, Deus[...] o insaciável coração que me deste: ele festeja tudo sobre a terra e não se apega a nada”. Veja mais aqui, aquiaqui.

DO APRENDIZADO DO AR – O poeta, critico literário e letrista carioca Tanussi Cardoso já foi destacado Poeta do Mês no meu Guia de Poesia, ocasião que me concedeu uma entrevista quando do lançamento da antologia Rios. Entre os seus muitos poemas, destaco Do aprendizado do ar: imaginemos o ar solto na atmosfera / o ar inexistente à luz dos olhos / imaginemos o ar sem senti-lo / sem o sufocante cheiro de abelhas e zinabre / o ar sem cortes e fronteiras / o ar sem o céu / o ar de esquecimentos / imaginemos fotografá-lo / fantasma sem textura / moldura inerte / quadro de sugestões e aparências / imaginemos o ar / paisagem branca sem o poema / vácuo impregnado de Deus / o ar que só os cegos vêem / o ar silêncio de Bach / imaginemos o amor / assim como o ar. Veja mais dele aqui.

JAZZ – O livro Jazz (Companhia das Letras, 2009), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison narra uma história instigante. Para se ter ideia, ela começa o livro assim: Xi, eu conheço essa mulher. Ela morava com um bando de pássaros na avenida Lenox. Conheço o marido dela também. Ele ficou caído por uma garota de dezoito anos, um daqueles amores de espantar, lá do fundo, que fez ele ficar tão triste e feliz que matou a moça para o sentimento continuar. Quando a mulher, o nome dela é Violet, foi ao velório para ver a moça e cortar a cara dela, foi jogada no chão e para fora da igreja. Ela correu, então, no meio de toda aquela neve, e quando voltou para o apartamento tirou todos os passarinhos de dentro das gaiolas e botou na janela para eles congelarem ou voarem para longe, inclusive o papagaio que dizia “eu te amo”. Vale a pena ler. Confira mais aqui, aquiaqui.


SOMBRAS DE GOYA – Dos maravilhosos filmes que assisti do premiadíssimo cineasta tcheco Milos Forman, entre eles Um estranho no Ninho (1975), Hair (1979), Amadeus (1984), entre outros tantos, um deles me chamou mais ainda a atenção: Goya´s Ghost (Sombras de Goya, 2006), no qual destaco a atuação da belíssima atriz Natalie Portman, já destacada aqui pela sua sempre marcante atuação em diversos filmes. Veja detalhes desse filme aqui.
 


Veja mais sobre:
Educação no Brasil aqui.

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A educação por água abaixo pra farra dos mal-educados, o cenário escolar, Friedrich Nietzsche, Gilles Deleuze & Félix Guattari, Santiago Nazarian, Pierre Salvadori, Henri Cartier-Bresson, George Segal, P com P de Teatro, Eulalia Valldosera, Roger de La Fresnaye, Jussara Silveira, Crânio & Quando ciuço pacaru embarcou no maior revestrés aqui.
Educação & formação do professor, Psicologia Ambiental & a arte na educação e direitos das comunidades, Probidade Administrativa & outras coisitas mais aqui.
O umbigo no cultuo da avareza, Denise Levertov, Johan Huizinga, Philippe Ariés, Camargo Guarnieri, Lauri Blank, Emil Nolde & Kim Thomson aqui.
O sonho de Orungan, James Joyce, Ayn Rand, Lenine, Elisa Lucinda, Enrique Simonet, Alina Zenon, Ekaterina Krysanova & Paula Burlamaqui aqui.
A obra de Darcy Ribeiro aqui.
Maceió, uma elegia para os que ousam sonhar, Luis da Câmara Cascudo & a burrinha de padre, Máximo Gorki, Mario Vargas Llosa, Autran Dourado, Sarah Vaughan, Suzana Amaral,Carl Barks & Dianne Wiest aqui.
Aos quatro cantos e ventos minha vida, Jacob Boehme, Esther Scliar, Jo Ansell, Tamara de Lempicka, Jonathan Charles & Dene Ramos aqui.
Solilóquio na viagem noturna do sol, Sêneca, Educação, Maria Esther Pallares, Paula Águas, Terry Miura & Amenaide Lima aqui.
A lição de cada amanhecer, A lenda da origem do Solimões, Anne Schneider, Alice Soares, Lorenzo Quinn, O Lobisomem Zonzo & Edla Fonseca aqui.
O cordão dos a favor & os do contra, Água, Jorge Ben Jor, Hélio Oiticica, Vampirella & Forrest J. Ackerman, Eliane Queiroz Auer & Lia Kosta aqui.
O certo & o errado no reino das ideologias, Nobuo Uematsu, Hélio Pellegrino, Mat Collishaw, Raoul Dufy & Danicleci Matias Souza aqui.
Mnemônicas anedotas, Gonzaguinha, Adolphe William Bouguereau & Bruno Steinbach aqui.
Direito de Família, Psicologia Escolar & Compromisso Social, Pedofilia, Psicose Puerperal & A liderança na organização contemporânea aqui.
Direito autoral na era digital, Psicologia Social dos valores humanos, Ambiente de trabalho & doenças ocupacionais aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

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