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quarta-feira, fevereiro 18, 2015

ÁGOTA KRISTOF, EWA LIPSKA, HÉLÈNE METZGER & DYLAN THOMAS


 

A SOLIDÃO DE DYLAN... - Ainda criança ouvia do seu pai, que era professor de escola primária, o costume de Shakespeare. Essa audição o fez, ainda menino a escrever mais de duzentos poemas. Logo dirigiu o jornal da escola e, na adolescência, largou tudo para ser repórter júnior no Dailly Post. Abandonou o trabalho para se concentrar na poesia em tempo integral. Mal completara 20 anos e seguiu para Londres, ganhador do prêmio Poet’s Corner, publicando seus 18 poems – um volume composto de cadernos de poesia escritos na adolescência. Começou a abusar do álcool, sem se preocupar com questões intelectuais ou sociais, mergulhado nas influências célticas, românticas e surreais. Quis servir à guerra, mas não foi convocado pelo comitê de recrutamento por conta de seus problemas de saúde. Esta uma grande decepção e somava-se às características da morbidez, pois já acreditava que não viveria muito. Era um mar voraz, indomável como as ondas de seu país. Não reconhecia nenhum limite em sua autodestruição e indisfarçável egoísmo. Aliciado por seus próprios excessos, o divertimento com sua obsessão, produzia e desperdiçava tempo, refugiando-se nos pubs. Tornou-se roteirista de cinema, fez documentários, uma celebridade: sua voz seduzia milhares de ouvintes, atraia novos admiradores; sua irreverência impressionava o mundo atônito. Um profundo solitário apaixonado pela sonoridade das palavras e estilo incrivelmente pessoal. Não tinha um tostão no bolso levado por suas fundas raízes telúricas, uma nostalgia pelo passado. Comportava-se como um perdulário, muito embora demonstrasse para todos não possuir nenhuma forma de usura ou de apego a bens materiais: um poeta puro, absoluto! Foi pros Estados Unidos com sua romântica teatralidade e porres homéricos, tornando-se figura lendária: um ídolo pros Beat. Arrebatou plateias com sua grave voz ao ler seus versos, influenciando um jovem compositor: Robert Allen Zimmerman – que tomaria seu nome para si. O inconformista que não deu certo com secretos desígnios na escolha nada fortuita e tão imoderado na música das ideias: A morte e a vida deixam de ser antíteses... Era visível seu declínio, os atritos com a esposa mais se agravavam, deteriorando-se rapidamente. Implorava por meio cartas desesperadas e pungentes uma reconciliação. E violentava-se a si mesmo e às palavras: sofria paroxismos de culpa. Deixou cadernos de poemas para trás e ingeriu quarenta canecas de cerveja: Este adorável planeta vai arder sob os efeitos da hecatombe nuclear... O poeta que simbolizava a vanguarda passou a ser visto como um personagem fora de moda e, com o declínio de sua reputação, não ficou impune às sequelas das bravatas alcoólicas ou ao insulto cerebral, nem a devastação perseguidora de uma legião de ninfomaníacas e, com os versos da longa e magnífica Elegia inacabada, sucumbiu de vez como um enfant terrible no Chelsea Hotel, subjugado pelo cansaço em Laugharme, de onde sua alma talvez jamais tenha saído. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A vida sempre lhe oferece uma segunda chance. Isso se chama amanhã... Um bom poema é uma contribuição à realidade. O mundo nunca mais é o mesmo depois que um bom poema é adicionado a ele. Um bom poema de ajuda a mudar a forma do universo, ajuda a ampliar o conhecimento de todos sobre si mesmos e sobre o mundo ao redor... Gosto de pensar na poesia como declarações feitas a caminho do túmulo... Eu carrego uma fera, um anjo e um louco dentro de mim. Aquele que busca descanso encontra tédio. Aquele que busca trabalho encontra descanso. Alguém está me entediando. Acho que sou eu. O amor é a última luz falada. Embora enlouqueçam, eles permanecerão sãos; embora afundem no mar, eles se levantarão novamente; embora os amantes se percam, o amor não se perderá; e a morte não terá domínio. Pensamento do poeta gales Dylan Thomas (1914-1953), que ao nascer recebeu o seu nome extraído do Mabinogton, uma coletânea de manuscritos em prosa escritos em galês medieval, baseados em eventos históricos, no qual cada um dos quatro contos termina com um colofão que diz: “Assim termina este ramo do mabinogi" e que consta: “Nomearei este criança, e o nome que lhe darei será Dylan”. Assim, conforme Ivan Junqueira, no texto de Dylan Thomas, um perfil, da obra Dylan Thomas: poemas reunidos (1934-1953) (José Olympio, 1991), assinala: Assim foi chamado o menino de cabelos de ouro, e dirigiu-se diretamente para o mar. E, quando alcançou a praia, tornou-se de imediato parte do mar, compartilhou de sua natureza e nadou tão longe quanto a salamandra aquática. E, por essa razão foi por ele chamado Dylan Eil Ton, filho marinho das ondas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O pensamento expansivo é aquele que corre ruidosamente e simultaneamente em todas as direções onde pode abrir caminho, que irá constantemente e irregularmente adiante sem parar um momento para contemplar com um olhar o terreno percorrido, e sem tentar construir um monumento doutrinário... Pensamento da filósofa francesa Hélène Metzger (1889–1944), que no seu estudo La méthode philosophique en histoire des sciences: Textes 1914–1939 (Fayard, 1987), expressou que: [...] penetrar com maior certeza e simpatia mais ativa o pensamento criativo do passado no qual ele infunde nova vida, que ele revive por um momento. Além disso, há um fator pessoal, subjetivo … que é impossível eliminar completamente; é melhor admiti-lo honestamente do que negá-lo a priori . Os historiadores, como todos os filósofos, como todos os cientistas e como todos os humanos, têm tendências inatas, modos de pensar individuais, mas imperceptíveis, que ainda não são opiniões ou mesmo sistemas de pensamento, mas que podem engendram tais opiniões e sistemas. [...]. Ela também é autora dos estudos La genèse de la science des cristaux (1918), Les doctrines chimiques en France du début du XVIIe à la fin du XVIIIe siècle (1923), Les Concepts scientifiques (1926), Newton, Stahl, Boerhaave et la doctrine chimique (1930), La chimie (1930), La Philosophie de la matière chez Lavoisier (1935), Attraction universelle et religion naturelle chez quelques commentateurs anglais de Newton (1938), La Science, l'appel de la religion et la volonté humaine (1954), La Méthode philosophique en histoire des sciences(1987), entre outros.

 

ONTEM – [...] Eu tinha apenas um desejo: ir embora, andar, morrer, tanto faz. Eu queria fugir, nunca mais voltar, desaparecer, derreter na floresta, nas nuvens, não ter mais memórias, esquecer, esquecer. [...]. Trecho extraído da obra Yesterday (Random House, 1997), da escritora húngara Ágota Kristof, que no seu livro Le grand cahier (Points, 1995) expressou que: [...] Para decidir se é “Bom” ou “Não Bom”, temos uma regra muito simples: a composição deve ser verdadeira. Devemos descrever o que é, o que vemos, o que ouvimos, o que fazemos. [...] Já no livro La prevue (Points, 1995), expressou que: [...] A dor diminui, as memórias desaparecem. O insone olha para Lucas: — Para diminuir, para esmaecer, eu disse, sim, mas para não desaparecer. [...]. Por fim, no seu livro Claus y Lucas (Booket, 2014), expressou que: [...] Tenho convicção que todo ser humano nasce para escrever um livro, só para isso. Um grande livro ou um livro medíocre, não importa, mas quem não escreve nada é um ser arruinado, que passou pela terra sem deixar vestígios. [...]. Veja mais aqui.

 

DOIS POEMASABISMO - Às vezes você vê gesso \ caindo das cabeças. \ A fachada da razão se desfazendo. \ História novamente. \ Por que voltar a isso, \ já que tudo está à nossa frente de qualquer maneira. \ Está feito. Não pode ser desfeito. \ Sento-me sob qualquer céu antigo \ e ouço o que a mediocridade tem a dizer. \ Nos livros de orações, \ um marcador anunciando \ aves anti-rugas. \ De todas as nações vocês sabem que \ Assassinos podem ser eliminados. ESTUDE A MORTE - Estude a morte. Aprenda de cor. \ Seguindo as regras de ortografia \ de palavras mortas. \ Soletre-os juntos \ como comunidade ou linho. \ Não divida \ entre os mortos. \ Você é o escolhido dos deuses. \ Estude a morte cedo. \ O amor ao país \ também pode ser mortal. \ Estude a morte \ no amor. \ Estude a morte não apenas \ para matar o tempo. \ O tempo pode ser suicida \ e ficar pendurado em uma árvore por horas. \ Teste você mesmo. \ Um verdadeiro teste ao vivo. Poema da poeta polonesa Ewa Lipska. Veja mais aqui.

 

SACADOUTRAS

 

NADJA – O escritor francês André Breton (1886-1966) que em 1924 lançou o Manifesto do Surrealismo pregando a liberdade total da imaginação como base para a liberdade total do ser humano. Líder do movimento surrealista, ele pretendeu que se gire em torno de três ideias básicas: o amor, a liberdade e a poesia. É no livro Nadja (1928) que ele apresenta mencionado que: Se, ao longo deste livro, o simples ato de escrever, para não mencionar o de publicar qualquer espécie de livro,já era classificado na categoria das vaidades, que seria de pensar da complacência do autor em querer, tantos anos depois, melhorar pelo menos um pouco a sua forma! Contudo convém distinguir, para o bem ou para o mal neste caso, entre o que se refere ao registro afetivo e se prende exclusivamente a ele - o que é, sem dúvida, o essencial -, e o que representa, no dia-a-dia, tão impessoal quanto possível, a inter-relação dos mínimos acontecimentos numa forma determinada (Feuille de charmille, de Lequier, sempre voltamos a ti!). Se é inevitável que a tentativa de retocar à distância a expressão de um estado emocional sem que se possa revivê-lo no presente, resulte em dissonância e frustração (Já o vimos bastante em Valéry, quando um insaciável anseio de rigor o levou a rever seus "versos antigos"), talvez não seja interdito querer obter um pouco mais de adequação de termos e também de fluidez. [...] Subjetividade e objetividade travam, ao longo de uma vida humana, uma série de combates, nos quais a primeira costuma sair-se inteiramente mal. Ao cabo de trinta e cinco anos (a fuligem não é brincadeira), os leves cuidados com que resolvo cercar a segunda testemunham apenas certa preocupação quanto à melhor forma de expressar, que só a esta dizem respeito, de vez que o maior valor da outra - que continua a me importar muito mais - reside precisamente na carta de amor crivada de erros e nos "livros eróticos sem ortografia".Veja mais aqui.

Imagem: Danae with Shower of Gold, do pintor sueco Adolf Ulrik Wertmüller (1751-1811)

Ouvindo Yanomami, op 47 (1980), do compositor erudito Marlos Nobre com o Coro Cervantes de Londres, condução de Carlos Fernandes Aransay, violão Fabio Zanon e o tenor Julian Stocker. Veja mais aqui.

DA ODISSEIA E DA ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO – O escritor grego Nikos Kazantzákis (1883-1957) é autor de umas das mais obras que se encontram no panteão da literatura universal. Tive a oportunidade de ler seus livros Zorba, o grego, Cristo recrucificado e A última tentação de Cristo, este último que virou filme homônimo dirigido pelo cineasta Martin Scorcese, em 1988. Numa antologia da poesia moderna da Grécia, o escritor José Paulo Paes alguns fragmentos do poema Da Odisseia, dos quais destaco o IX: “Minha mente, eu a deixo livre para anelar em segredo, desejar o que não tem mais, querer aquilo que perdeu; digo-te que seguro as rédeas, firme, com as duas mãos, mas meu cavalo solto sem temor nas pastagens do sonho. Eu te agradeço, Deus[...] o insaciável coração que me deste: ele festeja tudo sobre a terra e não se apega a nada”. Veja mais aqui, aquiaqui.

DO APRENDIZADO DO AR – O poeta, critico literário e letrista carioca Tanussi Cardoso já foi destacado Poeta do Mês no meu Guia de Poesia, ocasião que me concedeu uma entrevista quando do lançamento da antologia Rios. Entre os seus muitos poemas, destaco Do aprendizado do ar: imaginemos o ar solto na atmosfera / o ar inexistente à luz dos olhos / imaginemos o ar sem senti-lo / sem o sufocante cheiro de abelhas e zinabre / o ar sem cortes e fronteiras / o ar sem o céu / o ar de esquecimentos / imaginemos fotografá-lo / fantasma sem textura / moldura inerte / quadro de sugestões e aparências / imaginemos o ar / paisagem branca sem o poema / vácuo impregnado de Deus / o ar que só os cegos vêem / o ar silêncio de Bach / imaginemos o amor / assim como o ar. Veja mais dele aqui.

JAZZ – O livro Jazz (Companhia das Letras, 2009), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison narra uma história instigante. Para se ter ideia, ela começa o livro assim: Xi, eu conheço essa mulher. Ela morava com um bando de pássaros na avenida Lenox. Conheço o marido dela também. Ele ficou caído por uma garota de dezoito anos, um daqueles amores de espantar, lá do fundo, que fez ele ficar tão triste e feliz que matou a moça para o sentimento continuar. Quando a mulher, o nome dela é Violet, foi ao velório para ver a moça e cortar a cara dela, foi jogada no chão e para fora da igreja. Ela correu, então, no meio de toda aquela neve, e quando voltou para o apartamento tirou todos os passarinhos de dentro das gaiolas e botou na janela para eles congelarem ou voarem para longe, inclusive o papagaio que dizia “eu te amo”. Vale a pena ler. Confira mais aqui, aquiaqui.


SOMBRAS DE GOYA – Dos maravilhosos filmes que assisti do premiadíssimo cineasta tcheco Milos Forman, entre eles Um estranho no Ninho (1975), Hair (1979), Amadeus (1984), entre outros tantos, um deles me chamou mais ainda a atenção: Goya´s Ghost (Sombras de Goya, 2006), no qual destaco a atuação da belíssima atriz Natalie Portman, já destacada aqui pela sua sempre marcante atuação em diversos filmes. Veja detalhes desse filme aqui.
 


Veja mais sobre:
Educação no Brasil aqui.

E mais:
A educação por água abaixo pra farra dos mal-educados, o cenário escolar, Friedrich Nietzsche, Gilles Deleuze & Félix Guattari, Santiago Nazarian, Pierre Salvadori, Henri Cartier-Bresson, George Segal, P com P de Teatro, Eulalia Valldosera, Roger de La Fresnaye, Jussara Silveira, Crânio & Quando ciuço pacaru embarcou no maior revestrés aqui.
Educação & formação do professor, Psicologia Ambiental & a arte na educação e direitos das comunidades, Probidade Administrativa & outras coisitas mais aqui.
O umbigo no cultuo da avareza, Denise Levertov, Johan Huizinga, Philippe Ariés, Camargo Guarnieri, Lauri Blank, Emil Nolde & Kim Thomson aqui.
O sonho de Orungan, James Joyce, Ayn Rand, Lenine, Elisa Lucinda, Enrique Simonet, Alina Zenon, Ekaterina Krysanova & Paula Burlamaqui aqui.
A obra de Darcy Ribeiro aqui.
Maceió, uma elegia para os que ousam sonhar, Luis da Câmara Cascudo & a burrinha de padre, Máximo Gorki, Mario Vargas Llosa, Autran Dourado, Sarah Vaughan, Suzana Amaral,Carl Barks & Dianne Wiest aqui.
Aos quatro cantos e ventos minha vida, Jacob Boehme, Esther Scliar, Jo Ansell, Tamara de Lempicka, Jonathan Charles & Dene Ramos aqui.
Solilóquio na viagem noturna do sol, Sêneca, Educação, Maria Esther Pallares, Paula Águas, Terry Miura & Amenaide Lima aqui.
A lição de cada amanhecer, A lenda da origem do Solimões, Anne Schneider, Alice Soares, Lorenzo Quinn, O Lobisomem Zonzo & Edla Fonseca aqui.
O cordão dos a favor & os do contra, Água, Jorge Ben Jor, Hélio Oiticica, Vampirella & Forrest J. Ackerman, Eliane Queiroz Auer & Lia Kosta aqui.
O certo & o errado no reino das ideologias, Nobuo Uematsu, Hélio Pellegrino, Mat Collishaw, Raoul Dufy & Danicleci Matias Souza aqui.
Mnemônicas anedotas, Gonzaguinha, Adolphe William Bouguereau & Bruno Steinbach aqui.
Direito de Família, Psicologia Escolar & Compromisso Social, Pedofilia, Psicose Puerperal & A liderança na organização contemporânea aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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domingo, novembro 02, 2008

KAZANTZÁKIS, NAOMI KLEIN, ORIDES FONTELA, ESTHER GROSSI, RUTH ESCOBAR, TEÓCRITO DE CORINTO & LITERATURA DE CORDEL


 
A arte da atriz e produtora cultural Ruth Escobar. Veja mais aqui.

O UNIVERSO LITERÁRIO DE KAZANTZÁKIS - Já tive oportunidade de ler e reler várias das obras do escritor e pensador grego Níkos Kazantzákis (1883-1957), entre elas O Cristo recrucificado – lido na adolescência quando eu queria encenar o tema e relido por tantas outras vezes -, a Ascese: os salvadores de Deus, enfim da odisseia à última tentação, o seu pensamento sobre educação, e alguns dos seus poemas. Das que me chamaram atenção e que ainda trarei trechos e resumos, Zorba, o grego, Liberdade ou morte e Os irmãos inimigos, já lidos e carecendo de releituras. Da sua biografia, ele estudou Direito e Filosofia, influenciado por Bergson e Nietzsche, atuando como tradutor e viajando pelo mundo. Um trecho extraído da obra Testamento para El Greco, sintetiza bem quem o autor: Um homem de verdade é aquele que resiste, que luta e que não tem medo de dizer não, nem mesmo a Deus, quando necessário. Foi vitimado pela leucemia e, por ter sido excomungado, não recebeu autorização para ser sepultado em Creta. Por conta disso, foi cremado fora das muralhas da sua cidade: Eu espero por nada. Não tenho medo de nada. eu estou livre. Veja mais abaixo.


DITOS & DESDITOS - A ninguém, nem aos deuses nem aos demônios, nem às tiranias da terra nem às tiranias do céu, foi dado o poder de impedir aos homens o exercício daquele que é o primeiro e o maior de seus atributos: — o exercício do pensamento. Podem amarrar as mãos de um homem, impedindo-lhe o gesto. Podem atar-lhe os pés, impedindo-lhe o andar. Podem vazar-lhe os olhos, impedindo a vista. Podem cortar-lhe a língua, impedindo a fala. O direito de pensar, o poder de pensar, porém, estão acima de todas as violências e de todas as repressões, que nada podem contra seu exercício. Se assim o quiserem os deuses, se assim o quer a própria natureza humana, parece claro que não há abuso mais abominável que o de tentar impor limitações ao pensamento de qualquer pessoa. Pretender suprimir o pensamento de quem quer que seja é o maior dos crimes. Pois não é apenas um crime contra uma pessoa, mas contra a própria espécie humana, uma vez que é o pensamento o atributo que distingue o ser humano dos demais seres criados sobre a face da terra. É certo que é um crime que não se consuma, pois fica sempre o terreno da tentativa, como se alguém quisesse violar o inviolável. O fato, porém, de não se consumar um crime, não quer dizer que não se caracterize o criminoso. Pois, na verdade, só ao se supor capaz de sufocar o pensamento de seu semelhante, o autor dessa suposição cometeu um crime estupendo, contra todos e contra si mesmo, porque se depravou na intenção de roubar o que não pode ser roubado, de matar o que não pode morrer. Os pérfidos juízes de Atenas tiraram a Sócrates o direito de educar os jovens e o direito de viver. Mas foram impotentes para tirar-lhe o direito de pensar, exercido por ele até o último hálito da existência. O ser humano existe enquanto pensa. Quando deixa de pensar, deixa de existir. Alguns sofistas andaram ensinando que o homem deixa de pensar quando deixa de existir. Mas o homem não pensa porque existe, mas existe porque pode pensar. No dia em que deixar de pensar, foge-lhe a existência. Pelo menos a existência como ser humano, pois não se pode dizer que um demente tenha uma existência de ser humano. O homem pode pensar bem ou pensar mal, pensar pouco ou pensar muito. Não há, porém, uma diferença qualitativa, mas há apenas uma diferença quantitativa no exercício do pensamento de cada pessoa. Pois, sendo um atributo essencial do homem, todos exercem com esse atributo uma função qualitativa igual. Assim como o olho do homem é feito para ver todas as coisas, também a mente é feita para pensar todas as coisas, assim também uns pensam menos coisas do que os outros. Mas a qualidade de ver é a mesma em todas as pessoas, embora varie de uma para a outra a quantidade da coisa vista. Ai dos homens que não usam, em toda a sua plenitude, o direito e o atributo de pensar! Se um pássaro em pleno vôo parasse subitamente de usar suas asas, o poder de voar que lhe foi dado, o atributo do equilibrar-se no ar e viajar as distâncias etéreas, cairia miseravelmente no chão. Se um homem pára de pensar, por preguiça ou por estultícia, todos os desastres lhe podem acontecer. Se seu pensamento não responde ao que vêem seus olhos, pode jogar-se no fogo e na água, e perecer queimado ou afogado. Na vida na cidade, se um homem neutraliza dentro de si o direito de pensar, a cidade pode ser tomada e dominada pela ferocidade de um tirano, cujo despotismo levará o povo à morte pela fome, pela crueldade ou por outras formas de injustiça e prepotência. E se não o povo todo, pelo menos uma parte do povo, certamente, será arrastada à opressão, à tortura, ao cárcere ou a qualquer outra forma de perdição. Os tiranos não gostam que as pessoas pensem. Fazem um grande esforço para que o pensamento seja deformado, isto é, perca a sua forma original, isto é, a forma que lhe dá cada um, tentando estabelecer uma espécie de fábrica de pensamento pela própria mente, passem a pensar pela mente do despotismo dominador. Isto aconteceu algumas vezes na Grécia. Mas sempre que o povo se dispõe a exercer com todo o vigor o seu direito e o seu atributo de pensar, os tiranos foram destronados, levados ao ostracismo e os despotismos derrubados. Pensamento do filósofo neoplatônico Teócrito de Corinto.

ALGUÉM FALOU: O fato de que a gente aprende com os outros e com o nosso Outro, porque nós somos geneticamente sociais. Pensamento da educadora Esther Pillar Grossi, mestre o doutora pela Sorbonne, em Paris, autora das obras Didática do Nível Alfabético (3 volumes – Paz e Terra, 1990).

DOUTRINA DE CHOQUE – [...] A doutrina do choque como todas as doutrinas é uma filosofia de poder. É uma filosofia sobre como conseguir seus próprios objetivos políticos e econômicos. É uma filosofia que sustenta que a melhor maneira, a melhor oportunidade para impor as idéias radicais do livre-mercado é no período subseqüente ao de um grande choque. Esse choque poder ser uma catástrofe econômica. Pode ser um desastre natural. Pode ser um ataque terrorista. Pode ser uma guerra. Mas a idéia é que essas crises, esses desastres, esses choques abrandam a sociedades inteiras. Deslocam-nas. Desorientam as pessoas. E abre-se uma ‘janela’ e a partir dessa janela se pode introduzir o que os economistas chamam de ‘terapia do choque econômico’. [...] É uma espécie de extrema cirurgia de países inteiros. E tudo de uma vez. Não se trata de um reforma aqui, outra por ali, mas sim uma mudança de caráter radical como o que vimos acontecer na Rússia nos anos noventa, o que Paul Bremer procurou impor no Iraque depois da invasão. De modo que é isso a doutrina do choque. E não significa que apenas os direitistas em determinada época tenham sido os únicos que exploraram essa oportunidade com as crises, porque essa idéia de explorar uma crise não é exclusividade de uma ideologia em particular. Os fascistas também se aproveitaram disso, os comunistas também o fizeram. [...]. Trechos de A doutrina do choque (IHU, 2007), da escritora e ativista estadunidense Naomi Klein. Veja mais aqui.

TRÊS POEMASODE: Neste tudo / tudo falta / (neblina) / e nesta / falta: eis / tudo. FALA: Falo de agrestes / pássaros de sóis / que não se apagam / de inamovíveis / pedras / de sangue / vivo de estrelas / que não cessam. / Falo do que impede / o sono. INICIAÇÃO: Se vens a uma terra estranha / curva-te / se este lugar é esquisito / curva-te / se o dia é todo estranheza / submete-te /— és infinitamente mais estranho. Poemas da poeta Orides Fontela (1940-1998). Veja mais aqui.

CRISTO RECRUCIFICADO – [...] Dos que vieram hoje à peregrinação, quantos são cristãos? São cristãos todos os que crêem no outro mundo. Que quer dizer crer no outro mundo? Isso quer dizer que todos os nossos atos aqui embaixo vão ser pesados num outro mundo, que os maus serão punidos e os bons recompensados. O que faz a caridade a seus irmãos aqui em baixo, nessa vida passageira, vai ter como recompensa a vida eterna. Então, velho Ladas, mais vale esperar que guardar. [...]. Trecho da obra O Cristo Recrucificado (Abril, 1971), do escritor grego Níkos Kazantzákis (1883-1957), contando a história das tentativas de uma comunidade fictícia da aldeia grega nas profundezas da Anatólia, em 1921, de encenar uma peça de paixão - que, como o título sugere, acaba com a reencenação dos eventos do julgamento, sofrimento e morte de Jesus.

ÚLTIMA TENTAÇÃO – [...] — Não me calo — disse o jovem, inflamado — agora já falei, não me calo! Sou mentiroso, hipócrita, fraco. Nunca digo a verdade, não tenho coragem. Vejo uma mulher passar, enrubesço e abaixo a cabeça, mas meus olhos se enchem de devassidão. Não estendo a mão para roubar, espancar, matar, não porque não deseje, e sim porque tenho medo. [...] Quanto mais fortes a alma e o corpo, mais frutífero será o combate e mais ampla a harmonia final. Deus não ama as almas fracas e as carnes flácidas. O Espírito quer enfrentar uma carne forte e que lhe ofereça resistência. É ave carnívora, dotada de fome insaciável; ela devora a carne e, ao assimilá-la, faz com que desapareça. [...]. Trecho da obra A Última Tentação de Cristo (Rocco, 1988), do escritor grego Níkos Kazantzákis (1883-1957).


A MULHER DE ANTIGAMENTE E A MULHER DE HOJE EM DIA

Manoel Monteiro

No passado Zé Pacheco
Um mestre da poesia
Escreveu sobre a mulher
Com arte e com maestria
Eu vou tentar descrever
A mulher de hoje em dia

Deus após formar o mundo
Achou que era preciso
Povoá-lo, fez Adão.
Mas fez Eva sem juízo
E deixou os dois flertando
No pomar do Paraíso...

Quando foi criar o homem
Ficou sobrando um pedaço
Ele deixou assim mesmo
E seguiu sem embaraço
Mas quando fez a mulher
Deixou aberto um espaço

Adão ficou perturbado
Vendo um defeito daquele,
Pois o que faltava nela
Estava sobrando nele
Para tapar o buraco
Meteu o pedaço dele.

Eu acho que a Bíblia fala
Em sentido figurado
Porque deixar Adão nu
Com Eva nua a seu lado
Tinha que dar no que deu
Foi Caim pra todo lado!

Você já imaginou
Eva dengosa e faceira
Tendo só por vestimenta
Uma folha de parreira?
Não precisava nem cão
Para Adão fazer besteira

Mas no começo do mundo
Tudo era diferente
Trabalhar não precisava
Adão vivia contente
Só arrumou ao juntar-se
Eva, a maçã e a serpente

Porque Deus disse a Adão
Coma de tudo, porém
Não coma a maçã de Eva
Adão lhe disse: Está bem!
Mas veio a peste da cobra
Para estragar o xerém.

Contra as ordens do Divino
A cobra se levantou.
Tentou o primeiro homem
E Adão se abestalhou
“comeu” a maçã de Eva
Aí o bicho pegou!

O homem foi enganado
Por Eva e por Lúcifer
Mas ele em sua bondade
Dá tanta corda à mulher
Que ela pensa que pode
Fazer o que bem quiser.

Elas estão todo dia
Tomando o nosso lugar
Se continuarem assim
Só o que vai nos sobrar
É o tanque de lavar roupa
E o ferro de engomar

Em toda repartição
Tem uma mulher mandando
Elas estão assumindo
Todos os postos de mando
E enquanto isso no lar
Tem uma mulher faltando.

A mulher hoje é igual
A um homem destemido
Lavar prato e lavar pano
Acha que é tempo perdido
Mas se vê uma barata
Grita chamando o marido.

Com certeza, brevemente
Vamos ser o rei do Lar
Com um pequeno problema
Difícil de consertar
É que além da mamadeira
Vamos ter que amamentar

Trocar fraldas de menino
Eu mesmo já tenho feito.
Dar banho, limpar cocô
Eu faço e faço direito.
Agora dar de mamar...
Já tentei, mas não tem jeito!

Eu espero que as mulheres
Não nos obriguem parir
Porque eu mesmo não sei
Por onde os filhos vão vir
Se não tem por onde entrar
E nem por onde sair.

Quando a mulher é honesta
Leva vida recatada.
Não vive de porta em porta
Nem gosta de cachorrada
Ao passar na rua, as outras
Dizem: - lá vai a pirada!

Antigamente a mulher
Pelo seu instinto nato
O serviço que fazia
Era “ver” lenha no mato,
Catar pulgas no cachorro
E limpar bosta de gato.

Naquele tempo a mulher
Era um ser quase divino
Vivia para o marido
E para fazer menino.
Mulher não falava grosso
Homem não falava fino.

Houve um tempo que a mulher
Era bicho conhecido
Usava saia godê
Blusa de manga ou vestido
Anágua, friso e marrafa
Cabelo sempre comprido

Touca, espartilho, ampoleta
Moda ousada era coco
Se o rapaz pedisse um beijo
Ficava falando só
Sem casar, só via mesmo
Mão, pescoço e mocotó.

Não raspava sobrancelha
Nem sovaco, nem pentelho
Para usar rouge ou batom
Tinha que pedir conselho
Califon de meio corpo,
Calçola até o joelho.

A mulher andava livre
Do terreiro pra cozinha.
No resto era proibida
Na sala a mulher só vinha
Se fosse pra trazer água
Ou para tanger galinha.

Mulher só ficava nua
No dia do nascimento
Ou quando tomava banho
Mas fora desse momento
Eu acredito que só
Na noite do casamento.

Se o marido descobrisse
Na hora da “inspeção”
Que antes dele outro homem
Havia passado a “mão”
Tinha o direito de
Fazer a devolução.

Se algum “cabra safado”
Tivesse comido o fruto
O marido corneado
Fosse da praça ou matuto
Já estava autorizado
A devolver o produto.

Hoje a coisa é diferente
A mulher tem liberdade
Ganha pra trabalhar fora
É uma temeridade
Se continuar assim
É o fim da humanidade.

Em algumas profissões
A mulher dava primeira
Ninguém ganhava pra elas
Nas artes de rezadeira
Fazer panela de barro
Tecer balaio e esteira.

Pavio de candeeiro?
Faziam como ninguém!
Capar pinto, bater pano
Pilar milho pra xerém
São coisas que as mulheres
Faziam e faziam bem.

Hoje elas são folgadas
Escolhem até profissão
Querem se igualar a nós
Só falam em liberação
Umas já dirigem trem
Outras pilotam avião.

A mulher como empregada
É uma calamidade:
Tem quatro meses de folga
Se for pra maternidade
Seu mês só tem vinte dias
Mas falta mais da metade.

Tem trinta dias de férias
Quinze dias pra casar
Tirando a hora do almoço
E a hora de amamentar
Somando tudo não sobra
Horário pra trabalhar.

Já tem umas no Senado
Só falta uma Presidente
Sou forçado a admitir
Que tem mulher competente
Mas elas mandando em tudo
Que diabos sobra pra gente?

Onde tem homem com “H”
Uma lei s”estabelece
A mulher diz: - Sim, senhor!
Porque sábia reconhece
Que manda quem tem a força
Quem tem juízo obedece.

Desde os tempos da caverna
É por todos conhecido
O destino da mulher
Decser um voto vencido
Submissa ao bisavô
Ao avô, pai e marido.

Lá em casa, pelo menos
A mulher não ignora.
A última palavra é minha
Quem achar ruim, vá embora
A mulher diz: - cala a boca!
Eu respondo: - Sim, senhora!

Mulheres do meu Brasil
Desculpem este meu falar
Tudo isso é brincadeira
Do poeta popular
Se não houvesse mulher
Era preciso inventar.

M – eu poema homenageia
A – o cordelista inspirado
N- osso bardo Zé Pacheco
O – mestre mais consagrado
E – já que gastei papel
L- eiam o livro de MANOEL,
M- ONTEIRO, este seu criado.

MANOEL MONTEIRO – 0 poeta popular e cordelista paraibano, radicado em Campina Grande, Manoel Monteiro é um divulgador do cordel com sua banca nos eventos, ele quer fundar um Monumento- Memorial ao poeta popular nordestino.



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