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domingo, dezembro 06, 2020

WILLA CATHER, THORNTON WILDE, NOAM CHOMSKY, CRISTINA FORNARELLI & NENÉU LIBERALQUINHO


  

TRÍPTICO DQC: ACONTECÊNCIAS DA SOLIDÃO - Curtindo o álbum Tom Waits: live at the Montreal Jazz Festival (1981) – A hora da noite seguia ao ritmo do contrabaixo pelas cenas caleidoscópicas desfocadas pela rotação das acontecências e a vida era o palco no meu quarto solitário, desarrumado pelo que foi dito e o silêncio quebrado pelo poeta das tripas coração com a poesia das ruas pelas escadas do itinerário entre o real e o imaginário, onde houvesse uma faísca de vida para pegar carona aos ventos e paredes. Quase nem sei mais como estou levado pelas batidas dos instrumentos e a voz rouca insiste um embriagado desencanto, tudo pela hora da morte e nem é possível que tudo tenha desabado lá fora porque em mim sobram apenas pedaços do que sou a serem levados pelas lufadas e varridas invisíveis. Quase tão só no ermo revisitado, Tom Waits chega e me fala: Eu me preocupo com muitas coisas, mas não me preocupo com conquistas. Eu me preocupo principalmente com a existência de boates no Céu. Eu admito que não sou nenhum anjo, admito que não sou santo - sou egoísta e sou cruel e sou cego. Se eu exorcizar meus demônios, bem meus anjos podem sair também. Quando eles saem eles são tão difíceis de encontrar! O tempo é apenas memória misturada com desejo. Ele toma um gole do copo, faz uma careta e, ao olhar para mim, sorri com o indicador da mão esquerda em sentido de alerta e aponta para o palco, estalando o polegar no anular e segue como quem diz que vai cantar o mais que puder e eu pronto para me deixar levar ao som noite afora.

 


ITINERÁRIO ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO – Imagem: a arte do artista visual e filósofo das ruas, Eduardo Marinho: A maioria não tem nada e vive tranquila! Como é que eu olho a minha volta e a classe abastada morre de medo de perder tudo? & ao som de Tempo de Maracatu (Citadela, 2016), do premiado violonista e compositor Marcus Llerena. – Eita, danou-se! Que foi? O Zé Fabo pegou coronga! Foi? Foi, arriou e se espremeu, tomou cloroquina, levou gás no rabo, cachete disso e daquilo, foi pros pés do bispo, correu pro pastor, baixou catimbó (catimbozeiro coisado? Tem! Vixe!), o escambau e nada. Que coisa! Enfim, foi pro médico: Quer morrer, desgraçado? Dia mais, dia menos, escapou fedendo: Ei, Zé, a ciência é a gota, hem? Nada, foi uma oração que o Sirvo Santo me deu do EdiReco-reco, dia e noite, morre-mas-num-morre, tou novinho em folha e pronto pra outra! Vixe! Tou cum Coisonário e num abro! Este o Fecamepa! Nessa hora Thornton Wilde se aproxima e me diz em tom de confidência: 99% das pessoas do mundo são tolas e o resto de nós está em grande perigo de contágio. Valei-me! Nem deu tempo de concatenar e já Noam Chomsky esclarecedor ao meu lado: Caso após caso, vemos que o conformismo é o caminho fácil, e a via rumo ao privilégio e ao prestigio; a dissidência traz custos pessoais. Não devemos procurar heróis, devemos procurar boas ideias. Logo me ignoraram numa conversa inelegível e o meu coração era um maracatu atônito alardeando a madrugada.

 


O IMAGINÁRIO & A POESIA DAS RUAS: A DANÇA DA VIDA – Imagem: a arte da artista visual italiana Cristina Fornarelli, ao som do Concerto Duplo 2 guitars and Orchestra, de Marlos Nobre, na interpretação dos violonistas Sergio & Odair Assad e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), sob a regência de John Neschling. – O meu sangue se esvai ao som do primeiro movimento e os violinos solam o concerto grosso, enquanto os violões ponteiam o meu desfalecimento. Respirar agora está cada vez mais difícil em meu país, há uma iminência tácita, prevejo. Sei que a madrugada extensa tardará o amanhã e eu perdido na escuridão do dedilhado pungente. Nenhuma esperança, ao menos ela, lábios adunco, pernas exaltadas, adentra lépida segundo movimento, cadenza & toccata concertante, mais que aliciante vestido solto de alça, decote agudo, coxas proeminentes expostas pela leveza da veste acetinada e lassa, afaga a face do meu desamparo, beija meus lábios apátridas, toca a minha pele desabrigada e me diz Willa Cather: O coração do outro é uma floresta escura, sempre, não importa quão perto esteja do seu. Onde existe grande amor, sempre há milagre. E se desnudou no terceiro movimento ao mundo escancarado, ária, scherzo, pouco importava a porta aberta, a loucura vigente e me tocava e abrasava e me envolvia e me extravasava para que fosse dela mais que o momento e a vida eterna por seus encantos e nobreza ofertada para minha restituição. Tateei sua pele, percorri seu corpo, demovi a cinta-liga e minha mão se intrometeu dentro da calcinha, a fonte viva e úmida, ela se alargava diluvial e eu vivo mais que o quarto movimento presto com fuoco alucinante a ignorar da vizinhança e de todos os guardiões e pudicos da ordem pública e me fiz nela mais que o dia amanhecendo na festa da vida. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE NENÉU LIBERALQUINO

A arte musical do violonista, professor de Harmonia Jazzística e Violão Popular e regente da Camerata de violões do Centro Experimental de Música do SESC – São Paulo e também regente de coro, Nenéu Liberalquinho (Manoel Teodoro Liberalquino Ferreira), atualmente é o regente titular e diretor artístico da Banda Sinfônica do Recife, e tem ministrado vários cursos nas áreas de arranjo, harmonia erudita e jazzística. Veja mais aqui e aqui.


 


terça-feira, fevereiro 18, 2020

NÍKOS KAZANTZÁKIS, JURGA IVANAUSKAITĖ, MAX KLINGER & SOM AO REDOR


O TEMPO PASSA E A GENTE NA MESMA DESDE NUM SEI QUANDO – UMA: AGORA É TARDE! ANTES DELA, OUTRA INÊS JÁ ERA MORTA – Todo mundo já ouviu: agora é tarde, Inês é morta! Pois é, isso porque lá pelo século 14, o primeiro D. Pedro estava enrolado com a dama de companhia Inês de Castro. Ele foi obrigado a casar com outra, a Constança, e assim, tornaram-se amantes. Como sempre ocorre aqui, ali e acolá, deu o maior escândalo. De repente, ela aparece degolada. Como? Quando? Onde? Quase como ainda hoje em dia, soube-se logo quem mandou e quem executou. Ele vingou-se dos assassinos, arrancando o coração deles com as mãos. Aí, só depois de morta, ela tornou-se rainha. É isso. Antes dela, porém, uma outra Inês, a Inês Visconti, senhora de Mântua e esposa do rei, teve sina semelhante. Foi assim: o pai dela era um déspota que vivia em guerra contra o papado. Por conta disso, foi deposto, aprisionado e morreu envenenado. Morreu, mas o prestígio ficou. Ela, aos 13 anos, casou-se com outro menino de 12, que era filho dum rei. Aí, um belo dia, casamento consumado, o marido armou uma trama: precisava romper a aliança com o pai dela por outra mais vantajosa e, por conta disso, acusou-a de traí-lo com um certo cavaleiro de nome Antonio da Scandiano. Pelo crime de adultério, os supostos amantes adúlteros, foram executados no dia 7 de fevereiro de 1391 e enterrados na Piazza Pallone. O impune se deu bem. Cá comigo: isso se repete todo dia até hoje, hem? DUAS: OUTRA BRABA - Não menos diferente foi o destino de Hypatia de Alexandria, lá pelos 4 séculos depois de Jesus. Isso porque, entre outras e tantas coisas, ela costumava dizer: Defenda seu direito de pensar, porque pensar de maneira errada é melhor do que não pensar. Foi o bastante para o cristianismo ceifar a vida dela. Ih, os tempos atuais não são muito diferentes desse tempo não. TRÊS: SERÁ QUE A GENTE PODE INVENTAR UMA NOVA FORMA DE VIVER? – Sei não, hem? Entre mentiras disfarçadas de verdades e verdades que se produzem encapadas dum bocado de equívocos interpretativos, valho-me de Clarice Lispector: Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] tão logo nascemos, principia o esforço de criar, de tramar, de fazer da matéria vida: a cada instante nascemos. Por isso muitos proclamaram: O escopo da vida efêmera é a imortalidade. Nos transitórios corpos vivos, lutam duas correntes: uma, a ascendente, rumo à síntese, à vida, à imortalidade; segunda, a descendente, rumo à dissolução, à matéria, à morte. [...] E as duas correntes se originam no imo da substância primeva. De começo, a vida surpreende; parece uma reação ilegítima, desnaturada e efêmera às trevas das fontes eternas; mas, quando nos aprofundamos, percebemos que a Vida é o próprio curso, sem princípio nem fim, do Universo. Se assim não fosse, de onde viria a força sobre-humana que nos lança do incriado ao criado e nos impele - plantas, animais, homens - à luta? As duas correntes antagônicas são pois sagradas. Cumpre-nos, então, aceder a uma visão que articule e harmonize estes dois prodigiosos impulsos sem princípio nem fim, e por ela regular o nosso pensamento e ação. [...] Entre todos os impulsos de Deus, qual o que o homem pode perceber? Somente este distinguimos: uma linha rubra sobre a terra, uma rubra linha de sangue que luta por ascender, da matéria inanimada às plantas, das plantas aos animais, dos animais ao homem. Esse indestrutível ritmo pré-humano é o único curso visível, sobre esta terra, do Invisível. Plantas, animais e homens são os degraus que Deus criou para poder pisar e ascender. Árdua, terrível, infinda ascensão. Nesse assalto, Deus vencerá ou será vencido? Existe vitória? Existe prêmio? Nosso corpo se arruinará, voltará ao seio da terra, mas Àquele que por um instante o atravessou, que acontecerá? [...] Não me importa que rosto deram outras épocas e outros povos à prodigiosa essência sem rosto. Encheram-na de virtudes humanas, de recompensas e punições, de certezas. Deram um rosto às suas próprias esperanças e temores, impuseram um ritmo à sua própria anarquia, encontraram uma justificação superior para viver e labutar. Cumpriram seu dever. [...] É, pelo contrário, homem e mulher a um só tempo, mortal e imortal, excremento e espírito. Concebe, fecunda e mata; amor e morte, conjuntamente, torna a conceber e matar - e em largos passos de dança vai além dos limites da lógica, onde não há lugar para antinomias. Meu Deus não é onipotente. Peleja, enfrenta o perigo a todo momento, treme, tropeça em cada ser vivo, grita. É incessantemente vencido, mas torna a erguer-se, sujo de sangue e terra, e recomeça a luta. [...] Meu Deus não é todo bondade. Está cheio de aspereza, de selvagem retidão, e é sem piedade alguma que escolhe sempre o melhor. Não se compadece, não se importa nem com seres humanos nem com animais, muito menos com virtudes ou ideias. Ama-os por um instante, esmaga-os para sempre e segue adiante. [...] Meu Deus não é onisciente. Seu cérebro é um novelo de luz e trevas que ele forceja por desembaraçar dentro do labirinto da carne. [...] Havia uma prisão; a prisão se rompeu, foram libertadas as forças terríveis ali encerradas e o ponto não existe mais! Esse grau último da ascese se chama Silêncio. Não porque seu conteúdo seja o supremo, inexprimível desespero ou a suprema, inexprimível alegria e esperança. Nem porque seja o supremo conhecimento que não se digna a falar, ou a suprema ignorância que não consegue falar. Silêncio quer dizer: Cada qual, após cumprir seu tempo de serviço como combatente, chega ao mais alto cimo do esforço - passados os combates, não luta mais, não grita mais: amadurece por inteiro, silenciosamente, indissoluvelmente, eternamente, com o Universo. [...] não existe doutrina, não existe Redentor para abrir caminho. Não existe tampouco caminho a ser aberto [...]. Trechos extraídos da obra Ascese: Os Salvadores de Deus. (Ática, 1997). do escritor e pensador grego Níkos Kazantzákis (1883-1957). Veja mais aqui & aqui.

NO AVIÃO – Aqueles sentados perto / a saída de emergência / deveria abandonar tudo / mas esperança. / Sem dúvida sem dúvida / bolsas e maletas / impedirá uma queda de cabeça / do forro que cai. / Envoltórios, mantas ou mantos / também não são necessários, / espíritos interespaciais famintos / pode ficar enredado neles. / As barbas dos poetas / são menos do que desejáveis, / o diabo os agarra / em primeiro lugar. / É aconselhável fazer a barba / até pêlos nas pernas, / quando eretos eles se tornam afiados / e pode rasgar as nuvens. / É necessário / tire todas as roupas / estar nu como recém-nascidos, / amantes ou cadáveres. / A nudez é inevitável / em momentos cruciais / como no Paraíso e no Inferno da Bosch / ou no Juízo Final de Memling. / Todo mundo caiu uma vez / já está fervilhando / com sorrisos cruéis / entre as asas da hélice. Poema da escritora, pintora e fotógrafa lituana Jurga Ivanauskaitė (1961-2007).

SOM AO REDOR
O premiado longa-metragem Som ao redor (2013), dirigido por Kléber Mendonça Filho, conta a história da chegada de uma milícia de rua no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife e a reação dos moradores com a sua atuação na segurança local. Na verdade, a vida dos residentes de uma rua de classe média de Recife toma um rumo inesperado quando uma empresa de segurança particular é contratada para trazer paz aos moradores. Para alguns deles, a presença dos guardas cria mais tensão do que alívio. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor, pintor e artista gráfico alemão Max Klinger (1857-1920). Veja mais aquiaqui & aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre aqui, aqui e aqui.
Educação como prática da liberdade de Paulo Freire (1921-1997) aqui.
A poesia de Jayme Griz aqui, aqui & aqui.
A arte de Maurício Silva aqui.
A sedutora da noite aqui.
O município de Quipapá aqui, aqui & aqui
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Oficinas ABI  aqui & aqui.
 

terça-feira, janeiro 14, 2020

FEYERABEND, EMILY GREENE BALCH, VIRGINIA BARATA MORAES, TATUAGEM, BELIATO & A ARTE PERNAMBUCANA


A PARTILHA DO BELIATO - Pois bem, passou o natal e, no outro dia, quando Beliato botou a cara na porta para encher a rua de pernas, deu de cara com um estranho: Bença, pai! Mal se virou, outro: Pai, porra, me dá 10 pilas aí, vai! Passou um pito e nem se avexou direito, esbarrou a venta noutro: Qualé, pai, vamos nessa? Ih! Um passo que desse lá vinha uma enfieira de supostos filhos: Pai, peraí! Passou sebo nas canelas, escondeu-se. Nada: E aí, pai! Vixe! Que é que é isso? Mais: Que foi, pai? Danou-se. Saiu arretado: Vão todos pra puta que os pariu! Eita! Dá não, véi, mãe tá esperando a grana da feira. Que porcaria é essa? Desenrola aí, meu, assim não dá, pai, ou dá ou desce! Fodeu! Foi aí que Beliato teve um troço e findou numa maca hospitalar. Quando abriu o olho, o enfermeiro: Pode ficar de boa, pai, deixei os outros todos lá fora, quarando no sol quente. Hem? Aí o médico: Esquente não, pai, dou um jeito neles. Agoniou-se e fingiu de morto. Adiantou nada, o pesadelo uma algaravia: Pai! Ô pai! Sai dessa, pai! Entrou em coma. Um zoadeiro danado lá dentro dele não lhe deixava em paz. E o capeta apareceu: Pai, agora é o acerto de contas! Como? Ué, tá esquecido é? Oxe! De repente, abriu os olhos e questionou-se: Será? Estou frito. Estava mesmo. O tinhoso lá: Vamos logo, pai! Arreda! Levantou-se meio amalucado, saiu da enfermaria e foi ganhando a rua, deparou-se com uma multidão: É pai! Calma lá! E deitou um papo para todos que um dia teve um sonho que na parede da casa onde morava havia uma botija. No outro dia, ele derrubou a parede e ela estava lá. Hoje tenho mais nada, estou pobre de Jó. Quem acredita? Essa a versão dele de como se aprumou na vida. Todo mundo sabia de outra coisa: um golpe numa ricaça. Dela, dois filhos: a filha, com ela no exterior; o filho, o mais velho, morava com ele: a menina dos seus olhos, o preferido dele. Pra ele: o único que deu certo. Nem era lá ouro dezoito. Ô pai, conta a história direito! Tenho mais nada não, estou liso. Segura a onda, véi! Verdade. Um urué botou lenha na fogueira: Ou divide tudo com a gente, ou a gente vai fazer tudo na marra! Segura a peneira, bedegueba! Tais pensando o quê? E a munheca rolou no pé do maluvido: uns contra os outros, todos contra todos. E Beliato lá se fingindo de morto. O velho morreu! Correram, socorreram. Segura a urupema na cabeça, véi! Lá estava ele de volta aos cuidados médicos e com o aloprado do lado: Adianta correr não, dessa você não escapa. Pronto. Lá fora a multidão no maior tiroteio entre a filharada, cada um dando por legítimo, todos se tratando por bastardos. E ele lá pulando fogueira, morre mas num morre. Anteciparam o velório, como não podiam fazer quarto ao defunto, ficaram de sentinela. Pensaram em matar uns bichos em oferenda à alma dele, com cânticos religiosos, excelências, glorificando seus feitos, velando. Lá pras tantas, se arretaram e começaram uma serração do véio: os bens, as posses, o que fosse, tudo serrado e partilhado igualmente entre eles. Beliato mais que morria: Tanta luta, meu Deus, para acabar nisso. Para quem era bem quisto por todos, a serração botou os podres dele para fora. Queimaram geral o filme dele. E isso juntou mais gente. O cafuçu no pé dele: Melhor se ajeitar comigo, pai! Ora, deixa disso! Você não tem saída. Isso é tudo um mal-entendido. Você que pensa. Aí ele arregou e deu uma de doido mesmo: saiu nu gritando umas coisas que ninguém entendia pela rua afora. Lá ia ele na frente e a multidão atrás. A cidade em peso viu aquele espetáculo e toda população espera até agora o retorno dele a qualquer momento. Pelo menos a mundiça em sua perseguição deixou todos em paz. Por enquanto. Que será mesmo de Beliato, hem? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Para os que examinam o rico material fornecido pela história e não têm a intenção de empobrecê-lo a fim de agradar a seus baixos instintos, a seu anseio por segurança intelectual na forma de clareza, precisão, “objetividade” e “verdade”, ficará claro que há apenas um princípio que pode ser defendido em todas as circunstâncias e em todos os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio de que tudo vale [...] Minha intenção não é substituir um conjunto de regras gerais por outro conjunto da mesma espécie: minha intenção, ao contrário, é convencer a leitora ou o leitor de que todas as metodologias, até mesmo as mais óbvias, têm seus limites. [...] O pluralismo de teorias e concepções metafísicas não é apenas importante para a metodologia; é, também, parte essencial de uma perspectiva humanitarista [...]. Trechos extraídos da obra Contra o método (UNESP, 2007), do filósofo e físico austríaco, Paul Feyerabend (1924-1994), considerando a partir da tese da incomensurabilidade que [...] Os professores que usam avaliações e o medo do fracasso moldam os cérebros dos jovens até que eles perdem toda a imaginação que algum dia poderiam ter. A minha intenção não é substituir um conjunto de regras gerais por outro conjunto semelhante. [...] O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale a pena. [...]. Veja mais aqui & aqui.

EMILY GREENE BALCH - Devemos aprender a conectar nossos ideais e deles, devemos aprender a trabalhem em conjunto com eles pela justiça, pelas condições humanas de vida, pela beleza e por verdade, não apenas liberdade formal. Clubes e aulas, bibliotecas e escolas, assentamentos e, sobretudo, movimentos em que diferentes classes de cidadãos se juntam para trazer melhorias específicas no governo ou nas condições de vida, são de valor infinito, pois conduzem a esse nível unidade, na qual podemos preservar toda diferença a que os homens se apegam com eles por justiça, por condições humanas de vida, por beleza e por verdade, não meramente liberdade formal. Uma proporção muito grande da paz a qualquer preço ou simpatizantes, indubitavelmente covardes físicos, e igualmente sem dúvida uma grande proporção de ultrapacifistas de hoje que defendem visões como as descritas no jornal, em defender a paz sem levar em conta à justiça, são realmente mais influenciados pela covardia física. Eles temem morte ou dor ou desconforto além de qualquer outra coisa e gostaria de esconder seu medo por trás palavras que soam altas. É natural tentar entender o tempo em que vivemos, encontrar e analisar as forças que o movem. A industrialização baseada em máquinas, como é referida como uma característica do nosso tempo, nada mais é do que um aspecto da revolução que está sendo forjada pela tecnologia. Na enumeração dessas tendências que formam um mundo novo, não devemos esquecer a evolução do pensamento religioso ou espiritual e o sentimento da humanidade, onde também sentimos uma forte tendência unificadora. Pensamento da socióloga, escritora, pacifista e sindicalista estadunidense Emily Greene Balch (1867-1961), que foi agraciada com o Nobel da Paz de 1946. Veja mais aqui.

TATUAGEM, DE HILTON LACERDA
As praxes do improvável, junto da epifania da desordem. Eles são iniciados pela insatisfação da domesticação do trabalho, do amor, e do capital simbólico.
TATUAGEM – O premiado drama Tatuagem (2013), com direção de Hilton Lacerda, conta uma história que se passa no ano de 1978, quando um grupo de artistas provoca a moral e os bons costumes pregado pela ditadura militar, ainda atuante mas demonstrando sinais de esgotamento. Num teatro/cabaré localizado entre duas cidades nordestinas, aconteciam os espetáculos da trupe, conhecida como Chão de Estrelas. A trupe apresenta os seus espetáculos de resistência politica com muito deboche, anarquia e subversão. É neste cenário que Paulete, a estrela do grupo, recebe a visita de seu cunhado militar, o jovem Fininha. É neste encontro de mundos, o militar com a ditadura, rigidez e atrocidades, e o mundo do cabaré e da arte do Chão de Estrelas, com sua subversão, alegria e homossexualidade, é no choque entre o encontro que cria uma marca que nos lança no futuro, como uma tatuagem. O filme serve para mostrar o quanto ainda persiste certa imaturidade intelectual nas discussões sociais e políticas travadas hoje em dia. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A Arte é a minha paixão
VIRGINIA BARATA MORAES – A arte da escultora, artesã, artista visual e restauradora de artes sacras, Maria Virginia Barata Moraes, reunindo seu acervo no seu espaço Art’Vivi Artes, Esculturas e Restauros, trabalhando com biscuit, cabaça, cestas, luminárias em PVC, oratórios, vasos, entre outras. Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A música de Marlos Nobre aqui, aqui & aqui.
A poesia de Joaquim Cardozo aqui, aqui & aqui.
A literatura de Gilvan Lemos aqui, aqui & aqui.
A arte de J. Borges aqui, aqui & aqui.
As amizades & Assuntos pernambucanos de Barbosa Lima Sobrinho aqui e aqui.
Memória da cena teatral pernambucana aqui.
A arte da artista plástica Irene Duarte aqui.
O canavial e as Ligas Camponesas aqui & aqui.


quinta-feira, fevereiro 08, 2018

WALT WHITMAN, RUBEM ALVES, HEISENBERG, RUBEM BRAGA, MARLOS NOBRE, MURILO MENDES, OPHÉLIE GAILLARD, LOLA ÁLVAREZ BRAVO, YOLANDA MOHALYI & BRUCE TIMM

ELUCUBRAÇÕES À TOA & MEROS DISLATES – Imagem: arte da pintora e desenhista húngara Yolanda Mohalyi (1909-1978). - UMA: O FLERTE & O FIM DO MUNDO – Olhela! Era ela, aquela que havia escolhido para ser a mãe dos seus filhos. Ela não sabia, por enquanto. E a perseguia aonde quer que fosse: corredores, classes, becos, esquinas, ruas. Saísse de casa, descobria pela destrava do trinco abrindo o portão, é ela, sabia, e era ela, perseguição dos olhos, afã da paixão. Subia galhos por cima do muro, era ela no quintal; pelas brechas dos combogós, era ela na intimidade do seu lar; pela fresta da porta, era ela à vontade na sala. Da classe olhava pra dela, esperava ela sair da sua, porta fechada. De repente lá ia pra toalete, riscava calcanhares e invadia o sanitário do outro lado e de uma fissura privativa na parede, dava pra vê-la ajeitar-se ao espelho. Ao sair, acompanhava seus passos elegantes dançando no coração. Fazia de tudo para cruzar-lhe o caminho, ou encontrá-la assim do nada vindo ou indo, ou sei lá, esbarrando numa esquina, tramava, provocava e esgueirava até nada de acontecer. Queria ao menos que ela o visse, que desse conta da sua existência, seu olhar sempre do lado oposto e isso o fazia sair feito louco de onde estava para ir ao encontro de sua visão do outro lado, ela desvirava e pra lá e pra cá, jamais coincidindo de estar frente a frente com ela. Quanta falta de sorte a dele. Viu, então, que não acertava, jamais, não dava certo, não era pra ser dele, infelizmente. Deixou de mão. E quando menos esperava, lá estava ela desolada no batente. Era a sua vez, e agora, não podia desperdiçar. Ou agora ou nunca! Tremia dos pés à cabeça, o que dizer e o que falar, fazer, não sabia, perdeu a noção de tudo, pouco importa, é pra ela que vai expressar a sua intuição. Vai ser agora e foi. Ao se aproximar, ao seu lado, nem levantou os olhos nem se virou pra vê-lo, ela lá, envolta em seus pensamentos. Aproximou-me silente, discreto, na ponta dos dedos. Ao se encostar à parede, pronto pro flerte num contato de sexto grau, respirou fundo, é agora, dobrou a perna, o pé na parede e o inesperado: Poim. Danou-se, disse ela. E fitou pela primeira vez, uma mão ao nariz, olhos arregalados e uma saída inexperada com uma fala anasalada: Peidão da porra, meu! E nunca mais ela apareceu na vida. DUAS: A PAIXÃO & A SEGUNDA TRAGÉDIA - Dinalva era linda, extremamente bonita: os olhos vivos, o riso encantador, a estatura idílica, o jeito apaixonante de ser. As flores, as rosas, os jardins eram mais coloridos e intensos quando ela passava; o Sol brilhava mais ameno, a Lua era o reflexo do seu brilho, tudo era mais vivo quando ela aparecia, porque tudo nela transpirava vividez exaltada. Um feitiço emanava dela, só podia ser, e eu mais que encantado no rol de sua plateia, maravilhado e irrequieto. O que me impressionava mais é que ela ouvia, ria e falava com todos, distribuindo sua simpatia a quem aparecesse, peito aberto pra quem chegasse. Dela eu queria mais, muito mais, impossível, era pra tudo e pra todos. Um ser como ela não servia pra tomar exclusividade, sempre livre, libertária. Eu seguia seus passos, a sua refulgente simpatia, a sua cativante serenidade. Hoje eu cheguei aqui, ela não estava. Será que viajou e não me disse? Procurei saber, nada disseram, um silêncio e gestos contidos. Ao perguntar os olhos me evitaram, ninguém respondia. Quanto mais perguntava, mais se eximiam, afastavam. O que houve? A ausência da coragem de todos me fez invadir todo recinto, assim fiquei sabendo. Isso não tem a menor graça. Dinalva se matou. TRÊS: ANTEMÃO E ATÉ JÁ - Gente feita, achava e não era, na verdade, mas caí no mundo, era eu diante da incompletude e meu próprio destino, a pele da palavra na surdez dos muros e paredes altas. Era como perder o mundo entre abraços avulsos e a solidão na doçura do tato. Vinham-me os apelos das lembranças aos gritos no impasse do tempo, medo de mergulhar no passado e nunca mais sair do escuro da existência, nunca mais voltar com os olhos acesos na noite. A rua passeava pela melancolia e eu sabia: as paixões tanto exaltam como devoram, são as escolhas que definem o futuro e o peito deserto na rua que é tanta, quantas páginas de duração, um tanto pra lá, outro pra cá, episódios em retalhos por corredores compridos e imensos, um túnel que desemboca em nada. Era pra saber que a loucura é uma caverna perdida, mas não, esqueci e sem saber a primeira lapada da vida doeu no osso do mucumbu. Doeu muito, nem sei se aprendi. É só recomeçar e da estaca zero fui em frente, a segunda lapada não demorou: caiu o retrato na parede. Não adiantava mudar de nome, só me restava pegar o alicate e espremer o dedo. E mais espremi, não devia, a dor não me ensinava, piorava, talvez não esteja de todo errado. Daí a pouco a terceira lapada veio com gosto de sangue na língua e, por isso, lembrei a primeira e a segunda, não havia mesmo aprendido, a vida por um fiapo, o gesto da natureza morta, a incompreensão do sem-fim e um inferno de presente. Queria saber quem tece a vida dos sobreviventes, pedras entre rastros, ecos de longínguos e a lâmina dos segredos. Quase adivinho: a vida é mentira pouca e nenhuma poesia: ontem se fez hoje, cominhos de sol e as mãos ao luar. Pernas pra que te quero, errâncias no meio, sou do que não valeu. Quais perdidos sonhos de outra vida, calafrio que fui dia na ponta dos dedos: tudo está no que nada se parece. Coração aceso na boca, toda memória no espelho e as mil faces secretas do silêncio. Ainda uma vez estou vivo ao amanhecer. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Yanomami for choir & guitar com o Coro Cervantes, Passaglia for Orchestra & Três Cantos de Yemanjá for cello & piano; a Sonata for cello & piano nº 1 op 38 de Brahms, Grand Tango de Astor Piazzolla, Água e Vinho de Egberto Gismonti & O canto do cisne negro de Villa-Lobos, da violoncelista francesa Ophélie Gaillard & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIASermões e lógica jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo em minha alma. Pensamento do poeta, ensaísta e jornalista estadunidense Walt Whitman (1819-1892). Veja mais aqui.

CIÊNCIA ATUAL - [...] A cisão cartesiana penetrou fundo na mente humana nos três séculos após Descartes, e leverá muito tempo para ser substituída por uma atitude diferente diante do problema da realidade. [...]. Trecho extraído da obra Física e filosofia (EdUnB, 1995), do físico e Prêmio Nobel de 1932, Werner Heisenberg (1901-1976), laureado pela criação da mecânica quântica, cujas aplicações levaram à descoberta, entre outras, das formas alotrópicas do hidrogênio. Veja mais aqui.

É ASSIM QUE ACONTECE A BONDADE - [...] A solidariedade é a forma visível do amor. Pela magia do sentimento de solidariedade, meu corpo passa a ser morada do outro. É assim que acontece a bondade. [...] Para isso as palavras do conhecimento são inúteis. Seria necessário fazer nascer ipês no meio de gelos e das areias! E eu só conheço uma palavra que tem esse poder: a palavra dos poetas. Ensinar solidariedade? Que se façam ouvir as palavras dos poetas nas igrejas, nas escolas, nas empresas, nas casas, na televisão, nos bares, nas reuniões políticas, e, principalmente na solidão... “O menino me olhou com olhos suplicantes. E, de repente, eu era um menino que olhaca com olhos suplicantes”. Extraído da obra As melhores crônicas (Papirus, 2008), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

O SENHOR ALBERTO, AMIGO DA NATUREZAO livro é impresso em Prudentópolis, no interior do Paraná, e se chama Manual do caçador ou Caçador brasileiro. Seu autor, é o sr. Alberto de Carvalho, que não tem prática de escrever, mas de caçar tem. Fala de cães, e como usá-los; e dos bichos do mato, e como mata-los. O sr. Carvalho nos avisa que os poetas têm falaod do mavioso canto do sabiá, mas não dizem nada de sua saborosa carne. Ele, o sr. Carvalho, come sabiá, de resto come tudo, inclusive macaco. Para caçar rolas, aconselha-nos fazer cevas com milho, quirera ou arroz. As rolinhas se acostumam a ir comer toda manhã, e uma bela manhã – pum! O sr. Carvalho conta, com exclamações deliciadas, que já viu um só tiro matar dezesseis rolas. Mais difícil é caçar papagaios, cuja carne, aliás, não presta. Mas assim mesmo vale a pena, porque “a chehada de um caçador carregado de papagaios é sempre aplaudida em conseuqneicta da beleza da plumagem”. (É um esteta, o sr. Carvalho). Falando-nos de tucanos ele não informa se a carne é boa ou má, mas a verdade é que fala bem dos tucanos. “Pela beleza da plumagem constituem um belo alvo”. Garante que é possível mestiçar uru com galinha garnisé, e que é mesmo infalível a receita de desentocar tatu com o auxilio de um pauxinho ou do dedo aplicado em certo lugar, convindo “segurá-lo fortemente com a outra mão pela cauda, porque do contrário ele espirrará pela porta afora com assombrosa agilidade”. Quanto aos veados, não há dificuldade: “Em geral eles têm seu lugar de morada ou paradouro, de onde não se afastam para longe, exceto quando corridos”. O sr. Carvalho ensina também como asfixiar cutias com fumaça, no oco do pau. Enfim, o sr. Carvalho é, como ele mesmo diz, um amante da Natureza! Extraído da obra As boas coisas da vida (Record, 2010), do escritor Rubem Braga (1913-1990). Veja mais aqui.

GRAFITO PARA IPÓLITA - 1 – A tarde consumada, Ipólita desponta. / Ipólita, a putain do fim da infância, / nascera em Juiz de Fora, a família em Ferrara, / seus passos ferminantes fundam o timbre. / Marcha, parece, ao som do gramofone. / A cebeleira-púbis, perturbante. / Os dedos prolongados em estiletes. / Os lábios escandindo a marselhesa / do sexo. Os dentes mordem a matéria. / Os olhos meduseu sacode o espaço. / O corpo transmitindo e recebendo / o desejo o chacal a praga o solferino. / Pudesse eu decifrar sua íntima praça! / Expulsa o sol-e-dó, a professora, o ícone. / Só de vê-la passar, meu sangue inobre / desata as rédeas ao cavalo interno. 2 – Quando tarde a revejo, rio usado, / já a morte lhe prepara a ferramenta / deixa o teatro, a matéria fecal. / Pudesse eu livertar seu corpo (Minha cruzada!) / Quem sabe, agora redescobre o viso / da sua primeira estrela, esquartejada. 3 – Por ela meus sentidos progrediram. / Por ela fui voyeur antes do tempo. 4 – O dia emagreceu. Ipólita desponta. Poema extraído da obra Melhores poemas (Global, 2000), do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui e aqui.

A FOTOGRAFIA DE LOLA ÁLVAREZ BRAVO
A arte da fotógrafa mexicana Lola Álvarez Bravo (1903-1993).

Veja mais:
No país da sabiduria, só sabido ganha jogo!, a literatura de Alfosno Hernández Catá, a fotografia de Sebastião Salgado, a escultura de Michael Malfano, a música de Zé Paulo Becker & o grafite de Pedro Sangeon aqui.
Cheiro da felicidade & Segunda feira do Trâmite da Solidão aqui.
Caboclinhos aqui.
O frevo aqui.
Martin Buber, Julio Verne, Rick Wakeman, Pier Paolo Pasolini, Abelardo & Heloisa, Vangelis, Gustave Courbert & Arriete Vilela aqui.
Empreendedorismo & o empreendedor aqui.
A fotografia de Sebastião Salgado aquiaqui.
Uma cachaçada e uma casa no meio da rua aqui.
O trânsito e a fubica do Doro aqui.
A varanda na noite do amor aqui.
A obra de Pedro Abelardo, Projeto Carmin & Cruor Arte Contemporânea aqui.
Recontando Caetano Veloso & Podres Poderes aqui.
&
Recitando Castro Alves & O Navio Negreiro aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do ilustrador, animador, escritor e produtor estadunidense Bruce Timm.
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, novembro 06, 2017

FLAUBERT, SOMERSET MAUGHAN, SOPHIA BREYNER, ELZA BARROSO, SONIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO, KENNETH BURKE, AMARAJI & ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE.

E ISSO É TUDO A VIDA TODA NO CAOS – Já vai longe o tempo em que eu me empolgava avexado na buraqueira, enfrentando os meus moinhos e dando azo à perseguição dos desejos. Ah, quanta coisa esdrúxula me era importante, já passou, não mais. Rio. Não era demais toda irrisão diante da minha conspícua investida na surpresa das inclementes quedas patéticas. Nada mais risível, avalie. Eu atraio estranhos afetos e coisas do outro mundo. Além do mais, vejo o imperceptível que é usualmente insignificante para todos: um desplante pra quem sempre foi tratado por disparatado. As surpresas ao final eram nada mais que previsíveis desastres. Batia, persistia, insistia e até perseverava na minha credulidade tola: jamais admitido em nada, estornado pelas costas ou por insultos tácitos. Precisei de muito até ser abatido pela ruína, às vezes me tornando cáustico, impertinente, metido em desregramentos, até obscenidades, esborrando revoltas que evanesciam ao primeiro sinal de chance proutras pelejas. Resignava insatisfeito, pudera. Cabeça a mil, aprendia, recomeçava do zero. Quando aprumava pro êxito, lamúrias alheias me faziam abdicar na horagá. Tanto renunciei que nem júbilos interessam mais, reduzi-me à existência enclausurada, apartada do mundo. Deixei para trás os arroubos, ambições, tudo esfacelado na dispersão do tempo: desapontamentos são lições valiosas. Deixei para trás coisas até hoje sem solução, acho. Pronde vou, sempre o rebanho humano em sentido contrário, uns atrás dos outros, aceno e me são indiferentes, seguem importunos pro cenário da libação das virtudes corrompidas, enquanto lívido e perplexo encaro os desafios dos conflitos de meu tempo. O que importa é que se deram bem, eu recomeço das cinzas, juntando pedaços que sobraram de mim mesmo, quase nada. Refaço silente e insistente, transgrido para padecer de dores por todo corpo, quando não sucumbo de vez entre a sístole e a diástole: não sou a primeira nem a última criatura entre o deleite e o desespero, desejos por satisfazer, sofrimentos por evitar. A despeito de mim mesmo, apesar de ignorado, parece que alguém me lê às escondidas, quase ninguém se atreve a me escrever, ninguém ousa interlocução. Os meus inimigos sempre estiveram dentro da minha casa, entre meus familiares, quando não ao redor e à espreita de qualquer bocejo meu. Nunca me importei com isso. Hoje desapressado – talvez sinal da minha precoce senectude -, ainda assim transgrido de mim mesmo reiterada e recorrente a duvidar do que penso ou de me ver equivocado com frases que possam ser particularmente felizes, ou não. Talvez acerte, quem sabe, aprendi o erro e persigo circunspecto pelos princípios imutáveis que governam as mudanças. E se vou longe, não sei, sirvo-me do horizonte para saber da infinitude que reluz oculta no meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Yanomami for choir & guitar com o Coro Cervantes, Passaglia for Orchestra & Três Cantos de Yemanjá for cello & piano; da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006): Symphony nº 2 & Poem nº 1; do compositor, regente, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): Alegres trópicos, um baile na Mata Atlântica, Piano solo & Saudades do Parque Balneário Hotel com a OSESP; e da pianista Miriam Ramos interpretando o compositor, regente e flautista Octavio Maul & o maestro e compositor Ricardo Tacuchian. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que me parece mais belo, o que eu mais gostaria de fazer, seria um livro acerca de nada, um livro sem nenhum vínculo exterior, mas sustentado pela força interna do estilo [...] um livro que quase não tivesse assunto, ou pelo menos, em que o assunto fosse quase invisível, se tal é possível. As obras mais belas são as de menos matéria [...] Acredito que o futuro da arte esteja em tais canais. [...]. do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CAMBÃO TORTO, AMARAJI - O povoamento de Amaraji teve inicio em 1868. Tomou vulto, pouco a pouco, devida a uma geira que ali se realizava, o que deu lugar à construção de casas comerciais e muitas outras, para residência de moradores vindos de partes mais distantes para dedicar-se ao pequeno comercio e aos misteres agrícolas. O povoamento teve rapico desenvolvimento, e os viandantes e moradores chamavam a nascente povoação pelo de Cambão Torto. Depois de algum tempo, essa denominação foi mudada para São José da Boa Esperança, que teve o predicamento de vila pela Lei munciipal 2137, de 09 de novembro de 1889. Foi desmembrada do município de Escada. A sua instalação ocorreu em 11 de outubro de 1890. Tomou, então, o nome de Amaraji. Foi elevada à categoria de cidade pela Lei estadual 991, de 1 de julho de 1909. Administrativamente, o município é formado pelo distrito-sede e pelo povoado de Demarcação. Atualmente, no dia 01 de julho, Amaraji comemora sua emancipação política. [...]. Extraído da Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986), Veja mais aqui.

A ARTE E O ARTISTA - [...] Toda a gente tem predicados de artista em criança, ainda mais verdade é que toda a gente tem índole de artista na adolescência [...]. De vez que a Arte, com tornar-se um fim em si mesma, se tornava um problema do indivíduo – ou, com tornar-se um problema do individuo, se tornava um fim em si mesma [...] A inteligência talvez seja um funcionamento inadequado dos instintos, ou os primórdios de instintos que ainda não se cristalizaram [...] em relação às estrelas, um homem não tem maior importância que um gafanhoto. [...] Um autor que vive a maior parte de sua vida mentalmente tem de cometer suas transgressões no papel. [...] A blasfêmia é um experimento sério, uma transgressão por via dos pecados alheios. Blasfemar é restabelecer os deuses perdidos renunciando a eles; a blasfêmia é a luta de uma natureza emotiva, um protesto contra o intelecto que tende a torná-lo estéril de êxtases religiosos. A blasfêmia é ímpia, mas não irreligiosa. [...] A verdade, em Arte, não é a descoberta dos fatos, não é um acréscimo ao conhecimento humano, no sentido científico do termo. É, antes, o exercício da propriedade humana, a formulação de símbolos que enrijecem nosso senso de equilíbrio e ritmo. A verdade artística é a exteriorização do gosto. [...]. Trechos extraídos da obra Teoria da forma literária (Cultrix, 1979), do filósofo e teórico da literatura estadunidense Kenneth Burke (1897-1993). Veja mais aqui.

FÉRIAS DE NATAL –[...] Dançar com uma moça inteiramente nua acima da cintura era para Charley uma sensação nova e emocionante. Ao pousar a mão naquele corpo e ao sentir aqueles seios nus colados a seu peito, perdeu o fôlego. A mão que segurava era pequena e macia. Charley, sendo um rapaz bem-educado, de boas maneiras, sentiu necessidade de entabular uma conversa polida. [...]. Trecho extraído da obra Férias de Natal (Globo, 2003), do escritor britânico William Somerset Maughan (1874-1965). Veja mais aquiaqui.

UM DIAUm dia, gastos, voltaremos / A viver livres como os animais / E mesmo tão cansados floriremos / Irmãos vivos do mar e dos pinhais. / O vento levará os mil cansaços / Dos gestos agitados irreais / E há-de voltar aos nosso membros lassos / A leve rapidez dos animais. / Só então poderemos caminhar / Através do mistério que se embala / No verde dos pinhais na voz do mar / E em nós germinará a sua fala.  Poema extraído da Antologia (Portugália, 1968), da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Veja mais aqui.

NEGRINHA, DE SÔNIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO
O olhar perde-se
infinidades de dúvidas
ondas em cirandas
cercando a infância
de sanhas insanas
decepastes as bonecas
em mares de indiferenças
mergulhei fundo, contive
em tuas entranhas, brincos
brincadeiras indescritíveis
arrastada às cozinhas abastadas
percorri impassível entre:
brilhos, bombril, resmungos,
choros da criança que sou
e que não era eu
O sol do meu sorriso
derrama-se em felicidades ingênuas
Irascível - a ira - derrama-se
incandescente em teu coração
Negrinha! Tiziu!Tição!
ressoam ventos adormecidos
em desertos de sal
Tu me atinges
O coração rios em chama
a margem - revolta
Torrentes tempestuosas
arremessam ao infinito
tua tentativa ingênua
de romper castelos, fadas
cirandas, infância.
Poema extraído dos Cadernos Negros (Autores, 1981), da escritora Sonia Fátima da Conceição. Veja mais aqui.

ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE
A coletânia Itinerário Musical do Nordeste (Massangana, 2011), lançado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) reúne 10 cds e um livro com sonoridades de cultos afros-brasileiros, tais como cerimônia de Obori, jurema, orixás, tambor de mina e Casa Nagô, além de bandas de pífanos, ciranda, tambor de crioula, maneiro-pau, coco de embolada, aboio, incelência, reisado, guerreiro, histórias e cantigas. Os CDs reúnem Orixás, Jurema/Obori, Tambor de Mina/Casa de Nagô, Ciranda/Tambor de Crioula, Banda de Pífanos, Repentistas, Reisado/Guerreiro, Maneiro-Pau/Coco de Embolada, Aboio/Incelência e Histórias/Cantigas. A pesquisa foi realizada pelo então sociólogo da Fundaj, Enemerson Muniz, juntamente com os pesquisadores José Jorge de Carvalho, Rita Segato e Cristina Machado, registrando sonoridades apuradas em expedição realizada de Alagoas ao Maranhão, em uma parceria com o Instituto de Etnomusicologia e Folclore de Caracas (Um presente da conterrâneamiga Graça Lins, obrigado).

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa e artista plástica Elza Barroso
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...