sexta-feira, novembro 29, 2019

ÉRICO VERÍSSIMO, NOELIA RIBEIRO, ANASOR ED SEAROM & STEFAN ZWEIG












DEPOIMEPÍSTOLA DE NOVEMBROUTUBROUTRO –
O que deveria ter dito e não disse – impasses e flores na primavera quente do meu coração. Outra é a sensação: passos síncronos e recíprocos se arrastam lá fora, talvez seja eu mesmo na minha exequível vontade de sair por aí e não mais voltar. Sobraram metástases enquanto à cabeça outras sinapses conjugadas enlouqueciam a palavra e me mantenho de pé quanto posso, quase nada. Não tenho mais idade, duro há tempos como se rondasse a relva do túmulo. O que me disse de formidável era verbo encravado, se eu só tinha a voz rouca, uma pedra rasgando o peito e os dias incertos nas mãos – a canção é pouca e se vale da esperança para romper paredes que roubaram calçadas na doidice ambulante do consumo. De que me servem os telhados madrugadores da solidão fria, se nem mesmo um aceno eu recolho do que pudesse ser vivo nas altas horas das dores de uma quase morte súbita. Valho-me dos trapos de sonhos da mata espessa para poder viver meus lêmures fugidios dos alvoreceres no chão coberto de folhas, andrajos e lixo nos lodaçais. Sou eu mesmo e faça o favor, se eu vivo erro semáforos e portas, de quantas janelas ouso inventar com nenhuma evasiva fatigante a mourejar dias e noites. Quisera eu não fosse apenas ribanceira abaixo, se só me erguia unhas e dentes ao topo que sumiu sem mais nem menos no meio das nuvens de sonhos que esvoaçaram noite afora. Punhos livres, sou epístolas que dizem de mim e mais nada nem ninguém. Vou por aí. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: Ali estão eles, esperando silenciosos. Estão calados, encostados na parede. Parecem dormir, no entanto seus títulos parecem olhares que nos fitam. O olhar, as mãos passam por eles, mas eles não clamam suplicantes, não se anunciam. Nada exigem. Esperando até serem abertos, só então eles se oferecem. Primeiro: silêncio em torno de nós, silêncio dentro de nós. Estamos então preparados para eles. Uma noite, ao voltarmos cansados de um passeio, uma tarde quando fatigados dos homens, uma manhã despertando atordoados por um pesadelo. Podemos ter um diálogo e, contudo, querer ficar sós. Aproximamos-nos da estante com o agradável pressentimento de uma doce sensação: cem olhos, cem nomes, nos olham, pacientes e mudos, à procura do olhar indagador – como escravas de um harém para o amo –, aguardando humildes o chamado e ainda felizes de serem úteis, se forem escolhidos. Depois o dedo como que tateia sobre o teclado para encontrar o som da melodia que vibra intimamente: curva-se na mão o ser alvo e surdo, como violino guardado no qual dormem as vozes de Deus. Abrimos um deles, lemos uma linha, um verso. No momento, porém, não soa claro. Desiludidos, quase brutais, repomos o livro na estante. Nova busca, até que encontramos o exato, aquele próprio para o momento. De repente somos abraçados, sentimos uma respiração estranha, como se ao lado, prostrado pelo calor, estivesse o corpo de uma mulher. E como o levamos para debaixo de uma lâmpada, o livro, o feliz escolhido, brilha por igual com luz interior. A magia se produz, da nuvem delicada dos sonhos ascende a fantasmagoria. As estradas se alargam e a distância acolhe os teus sentimentos apagados. Em qualquer lugar bate um relógio. Este, porém, não urge nesse tempo que foge. As horas aqui passam de outro modo. Ali há livros que andaram muitos séculos antes que suas palavras chegassem aos nossos lábios. Ali estão outros, jovens, nascidos ontem, gerados na confusão e necessidade de moços imberbes: falam, porém, uma língua mágica. E uns e outros agitam e aceleram a nossa respiração. Se nos irritam, também nos consolam; se nos enganam, acalmam ao mesmo tempo nossos sentidos abertos. E à medida que mergulhamos neles encontramos em sua melodia, calma e contemplação, abandonado enlevo, um mundo do outro lado do mundo. Como agradecer a vós, livros, os mais fiéis e silenciosos dos companheiros, os momentos puros passados longe do tumulto dos dias? Como agradecer a constante solicitude, eterna elevação e a infinita calma da vossa presença? O que vos acontece nos dias sombrios de solidão, nos hospitais e campos de batalha, nas prisões e nos leitos de dor! Sentinelas constantes em toda parte oferecestes sonhos aos homens e mãos cheias de calma na inquietação e no martírio! Podeis sempre, doces ímãs divinos, atrair as almas diariamente soterradas. Trazes em vós mesmos um céu íntimo que estendeis sobre nós, sempre nos momentos mais sombrios. Pequenos átomos do incomensurável, ficais ocultos em nossas casas, enfileirados em uma singela parede. Todavia, a mão os liberta e se o coração vos toca, então saltais invisivelmente do lugar de todos os dias e vossas palavras nos elevam como numa carruagem de fogo, da estreiteza para a eternidade. Texto Gratidão aos livros, extraído da obra Stefan Zweig: Pensamentos & Perfis –Excertos (Rio de Janeiro, 2006), do escritor, dramaturgo, jornalista e biografo austríaco Stefan Zweig (1881-1942), organizado por Salomão Rovedo e Izabela Maria Furtado Kestler. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE NOELIA RIBEIRO
CLIMA ETÉREO - Todo minimalista,/ ele entrou no íntimo / (de Eurídice) / sem deixar pista, / estancando / o sangue natural, / o desejo do gozo / e o mais ínfimo / detalhe vital / de feminice. / Febril, / secou cabelos / lábios, pele, pelos, / atingindo, / em tom levemente senil, / o óleo da vagina, / sagrado elixir de menina. / Calado e repentino, / fez soar o sino, / acelerando o tempo etéreo / por horas e horas, / em 40 graus de quentura, / para depois, / nem tão sério / nem tão apressado, / ensejar / naquela senhora, / em vez de amargura, / um olhar womanizado.
NADA EM TI ME SURPREENDE - Nada em ti me surpreende / Conheço teu contorno / teu sotaque / teu afeto / Sei do calor / de tuas mãos / conchas onde guardo / meu segredo / Deitada à sombra / de teu corpo / sou nascituro cego / incompleto / Nada em ti é cedo.
DEEP IN MY MIND - Deep in my mind, / rola um filme de segunda / com close no peito e na bunda / e beijo fake pra começar. / Tem dedos que brincam, / línguas que dançam jingles / in the dark / sem hora pra terminar. / Tudo free, sem o olhar severo / de quem quer que seja. / Inside of me é assim, baby. / Outside, porém, é outro lance: / Meu amor nada sabe / da minha sandice. / Não beija quente / nem fala inglês. / Toca-me com doçura / e ama minha nudez / de moça pura.
NOELIA RIBEIRO - Poemas da poeta Noelia Ribeiro que é graduada em Letras pela UnB e é autora de obras como Expectativa (1982), Atarantada (Verbis, 2009) e Escalafobética (Vidráguas, 2015). Recebeu da Secretaria de Cultura do Distrito Federal o Prêmio FAC 2017 – Igualdade de Gêneros na Cultura. Veja mais aqui.

A ARTE DE ANASOR ED SEAROM
Se eu tivesse parado de produzir ao escutar os primeiros repúdios moralistas à minha estética e temática, não seria artista. Tivemos as reações contra os impressionistas, o conceito nazista de arte degenerada, repúdios no nosso próprio modernismo e, mais recentemente, a destruição de patrimônios históricos da humanidade por extremistas religiosos no Oriente. Dessa forma, podemos refletir que a intolerância não gera conhecimento, e tão somente destrói, deforma e aprisiona as mentalidades.
ANASOR ED SEAROM – Arte da artista plástica e ilustradora Anasor ed Searom, pseudônimo de Rosana Moraes, que possui obras que já foram expostas em acervos públicos e privados de todo o Brasil e de outros países. Ela desenvolve uma obra intrigante e provocadora, questionando e reinterpretando o conceito do que é belo, por meio de pesquisas sobre fragmentos de obras consagradas, inserindo uma intervenção própria por meio de técnicas antigas para evidenciar um olhar pós-moderno. Veja mais aqui.

A OBRA DE ÉRICO VERÍSSIMO
A gente foge da solidão quando tem medo dos próprios pensamentos.
A obra do escritor Érico Veríssimo (1905-1975) aqui, aqui, aquiaqui e aqui.


quinta-feira, novembro 28, 2019

WILLIAM BLAKE, TEATRO ATIVIDÁRIO, ANÉE LINS, PIERRE MOLINIER & OUTRA CARTA DE NOVEMBRO


OUTRA CARTA DE NOVEMBRO – O mistério do secreto: é no esotérico que a vida se desvela - longe da ilusão dos sentidos algo acontece de verdade. Tenho a lição de Trismegistus, a vida e o mundo no que penso: o Universo sou eu e tudo o mais. Do Oriente, o Sol nasce todos os dias. Aqui, quereres entre o que faz falta. E um botão liga ou desliga – átomos, mônadas, oxímoros, metáforas e simulacros -, há muito mais. Desde o advento do Homo sapiens, parece, pouco ou quase nada evoluiu. De lá para cá, que o digam os filhos de Caim: guerras, fome, bombas e miséria. De fato: o Ocidente é só mal-estar, já foi dito: histerias, neuroses, convenções e infelicidade. Civilizados com senhas, vestes, códigos, excludências e outros senões. Afora o calendário e as horas passam depressa entre o passado e o esquecimento com tantos desacertos, recaídas, expectativas, idealizações, paredes, tetos, muros e cercas. Onde a felicidade, tudo tão efêmero e diferente do que realmente sou. O que temer se o tempo passa, sempre um pé atrás: desconfia-se até da sombra, teme-se dos mortos, quem sabe, o que podem pensar os outros e dizem, entrou na roda, satisfações disso e daquilo, o interdito, a lógica da honra e a moral do que deve ser feito, ou não, a necessidade de ser feliz. O que se poderia dizer da sorte, benditos que não sei, outras são maledicências. O que se dizer das intrigas, o calor da amizade, outras seriam blasfêmias ou infâmias. Defende-se um deus entre escolhidos no reino da prótese: a ciência pra razão, a arte pra emoção - cada coisa no seu lugar, um milagre às vezes cai do céu. Quando um é ganhador, alguém perdeu. Se um sorri, outro chora. O que vale, tudo sob controle: convicções, lições aprendidas com o que passou e a retaguarda. Até que um recado expresso com versos em revoada de pássaros, oriundo da volúpia emergente das vísceras da Terra, com seus pelotões de candura, batalhões de beijos e desejos, frotas navais e aéreas no estado de graça das taças tilintando ao brinde do que se aspira, como um vinho depois do prazer. O que fazer diante do amor: seguir o desconhecido, quantas perguntas. E o sentimento impera: será que dá certo – entrar em campo pra ver o resultado. Enquanto a prudência dita a passada, seguir adiante ou voltar para casa onde o deserto fez morada na solidão. O que fazer, a cautela e a dúvida, respostas requeridas, ou se danem todos os juízos e fruir, para quê sentido, ah, nenhum e haurir antes de se arrepender. E o que fazer diante dos empecilhos aos tantos, ninguém sabe, o acaso não existe e a semente brota em campo propício, seja charco, asfalto ou inferno. Quem mandou ou por que será, ah, outras escolhas, amar com posse e servidão, afinal, das avenças alguém sempre sai arranhado ou aos prantos, coisas de prever o paradoxal, qual contraditório. Ah, o amor de ontem não é mais, o de amanhã nunca se sabe. O que se aprendeu é pura farsa, aprende-se mesmo a cada dia. Quando se tem um, há sempre mais um e outro e lá se vão dois que são três ou quatro, tantos e muitos tão infinitos e eu aqui na minha finitude diante do inexplicável. Eu mesmo não sei se ontem sou hoje ou serei o mesmo amanhã. Da minha parte, o paladar só distingue quatro de zis sabores, a audição só algumas de tantas frequências acima ou abaixo, só tocamos o que está ao nosso alcance, só vemos a dimensão dos olhos, ignoramos as costas e tudo o mais. Desaprendemos do invisível, do inefável, do inodoro, insípido ou incolor. Ver o visinvisível, são outros quinhentos: sentir o inexprimível, a noção da ubiquidade inacessível, beijar o que não se sabe, gozar do insensato e indescritível, jogar-se ao abismo. Sou o destino nas mãos: recrio meu mundo, reinvento viver. O que dizer depois do amor, assim o caos e todos nós. Então, fecho os olhos e vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Quando o viu sentado na mesa de sempre, o coração bateu forte, estava muito feliz. Conversaram rapidamente algumas vezes durante a noite. Ele a esperaria, queria levá-la em casa e percebeu a face da jovem iluminada mesmo na penumbra da boate. No final da noite ele estava lá, esperando-a. Foram em silêncio, não sabiam o que falar. Queriam se tocar, o desejo ardia. [...] Ao chegar, ela foi se despedir com um beijo na face, porém os lábios se tocaram e o beijo foi inevitável. O calor subiu pelos corpos intensamente. As mãos dele começaram a deslizar vagarosamente, precisava ver até onde poderia ir. Não pode conter o desejo. [...] Ele continuou percorrendo todos os caminhos com voracidade. Ela estava paralisada, trêmula, arrepiada e incandescente. Queria-o. Todos os sentidos trabalhando de uma só vez, dirigindo-se para um mesmo local. Era a primeira vez que era tocada daquela maneira. Que se permitiu o prazer do toque. Que sentiu a necessidade desesperada de alguém dentro de si. Queria aproveitar cada instante. [...] O cheiro do sexo exalava como perfume de rosa. Ele conheceu o desejo dela como nunca havia visto em outra mulher. [...]. Trechos da obra O livro de Valentina: contos íntimos (Autor, 2019), de Anée Lins, com contos eróticos escritos por uma mulher e endereçados para mulheres adultas. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

TEATRO ATIVIDÁRIO
A culpa é dos gregos. Não da crise do euro, não do suposto culto de um apurado sentido de irresponsabilidade, nem sequer por apresentarem a conta com caracteres alemães e um atraso de algumas décadas. A verdadeira culpa dos gregos é o terem criado “muitas das palavras e conceitos que ainda hoje usamos para chamar os bodes pelos nomes, a começar por Theatron, “lugar de onde se vê”, e drama, que significa “fazer acontecer”.” Ou seja, são culpados dos sete costados pela invenção do Teatro, considerada a quinta das artes maiores.
TEATRO ATIVIDÁRIO – Teatro Atividário (Pato Lógico, 2015) é uma obra temática abecedário com atividades, que reúne textos do escritor e editor português, Ricardo Henriques e ilustrações de André Letria, com referências artísticas, históricas, científicas ou filosóficas, acrescidas com comédias, dramas e tragédias e que propõe atividades práticas para fazer na escola ou em casa. Veja mais aqui.

A ARTE PIERRE MOLINIER
A arte do fotógrafo, pintor e criador surrealista francês Pierre Molinier (1900-1976). A maior de suas fotografias e fotomontagens são autorretratos sendo, por isso, incluído por André Breton entre os surrealistas, por sua obra influenciar artistas do mundo inteiro. Veja mais aqui.

A OBRA DE WILLIAM BLAKE
Antes não se imaginava o que agora é provado.
A obra do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827) aqui.


quarta-feira, novembro 27, 2019

JACK LONDON, DUÍLIA DE MELLO, ISADORA DUNCAN & MINEHAHA MULHER DO BÚFALO


OS SEIOS DE ISADORA - A vida não é um sonho. Como se fosse, assim se fez para a caçula do banqueiro que faliu e se foi, da professora de música numa casa onde só o amor à arte e sonhos, mais nada, frio e fome a cada dia. O incêndio a desapropriou: a vida na rua, à beira da indigência. A escola sufocava o fogo ardente de sua meninice maltrapilha, nem um centavo no bolso. Os sonhos continuavam sonhos, selvagem de nascença, geminiana jamais domesticada, o lema sem limites. Até que seu corpo as ondas do mar, a água, o vento, as plantas: a nudez grega, a vitalidade desinibida e avassaladora, nenhuma ninfa ou fada, música e poesia na rebeldia descalça de seios à mostra na túnica transparente, cabelos soltos, corpo livre aos improvisos irreverentes, decididamente escandalosa, desnudada, aplaudida, exaltada. Fez-se raposa comunista e os horrores dos fuzilados do czar pelo pão da miséria, engasgada pelas lágrimas indignadas: cortejo interminável dos infelizes, aos ombros seus mártires mortos e era só uma menina dançando num jardim, a dança futura pela causa da humanidade, impulsiva, imprevidente. Até na morte dos filhos no rio Sena, a tristeza com os nervos em frangalhos. Os sonhos continuavam sonhos e descia do Olimpo, os seios à mostra com seu inesquecível fascínio, sua dissimulação a girar cabeças coroadas e casacudas, sempre ardente, às breves e arrasadoras aventuras amorosas, generosa e maternal com seus recursos secretos e imprevisíveis A alma se desprendia do corpo e os seios à mostra: o amor fraternal: o sonho do adeus ao brutal velho mundo. Incorrigível perdulária a ruminar, era assim que era: revolucionária e espontânea. O rosto devastado pelo ocaso: álcool e dívidas, a autobiografia. Os sonhos continuavam sonhos, seios à mostra e a echarpe no Bugatti conversível vermelho, a despedida para o amor insólito e o estrangulamento. O estopim decadente. Não mais sonhos para dormir o pesadelo de nunca mais nos seios floridos e finalmente escondidos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Estamos passando por um momento muito difícil, de descrédito. As pessoas acham que ciência é religião, que se acredita ou não se acredita. Não é assim. Ciência é baseada em fatos, não precisa de crença. O fato existe, a gente interpreta o fato com método científico. É com muita tristeza que vejo esse passo que a humanidade está dando. Tenho impressão que isso é passageiro, que é só uma regressão que estamos vivendo porque houve um certo descuido, principalmente, dos cientistas que precisam comunicar a ciência todos os dias ao público, e precisa educar o jovem para a ciência. Os cientistas no mundo todo acharam que a escola estava educando o suficiente e demonstrando a importância da ciência. Espero que todos os cientistas acordem, porque passou da hora de comunicar a ciência. É uma coisa muito difícil, não é todo mundo que tem talento de passar conhecimentos difíceis para uma linguagem simples. [...]. Trecho da entrevista Estamos no caminho errado (Agência Brasil-EBC, 2019), da astrônoma e professora de Física e Astronomia da University Washington, pesquisadora do Goddard Space Flight Center – NASA, e autora do livro Vivendo com as Estrelas (PandaBooks, 2009), Duília de Mello, falando sobre pesquisa espacial e divulgação científica, concedida ao jornalista Gilberto Costa. Veja mais aqui.

MINEHAHA, A MULHER DO BÚFALO
[...] É uma lenda básica da tribo Blackfoot que originou seu ritual da dança dos búfalos onde eles invocam a cooperação dos animais no jogo da vida. Se você levar em conta o tamanho de algumas dessas tribos percebe que para alimentá-los era preciso muita carne. E uma forma de ter carne para o inverno era fazer estourar uma manada de búfalos e fazê-los cair do alto de um rochedo. Essa história se passa com a tribo Blackfoot muito tempo atrás. Eles não conseguiam fazer os búfalos cair do penhasco; os animais se aproximavam e se desviavam. Eles não iam conseguir carne para o inverno. Certa manhã uma mocinha de uma das cabanas vai buscar água no poço para a família. E ela diz: "Ah, se vocês caíssem eu me casaria com um de vocês". E para sua surpresa eles todos vêm e começam a despencar. Essa foi a primeira surpresa. A segunda surpresa foi quando um dos búfalos velhos, o feiticeiro do rebanho, diz: "Tudo bem, você vem comigo". Ela diz: "Ah, não!" Ele diz: "Sim, você prometeu. Nós cumprimos a nossa parte, minha família está morta lá embaixo. Agora você virá comigo". De manhã, a família dela acorda e cadê a Minehaha? O pai procura e diz: "Ela fugiu com um búfalo". Ele percebe pelas pegadas. Então diz: "Vou busca-la". Calça seus mocassins, seu arco e flecha e vai para a planície. Depois de caminhar bastante fica com vontade de descansar e chega a um lugar chamado Charco dos Búfalos, onde os animais gostam de vir rolar na lama para se refrescar e se livrar dos piolhos. Ali começa a pensar no que fazer quando chega uma pega; é um pássaro de plumagem vistosa que tem dons especiais qualidades mágicas. Sim, mágicas. E o homem lhe diz: "Oh, belo pássaro, minha filha fugiu com um búfalo. Você a viu? Poderia encontrá-la nessa planície?" Ele responde: "Vi uma linda garota junto com os búfalos perto daqui". E o homem diz: "Você poderia ir até lá e dizer a ela que seu pai está aqui?" O pássaro voa até a garota no meio dos búfalos que estão dormindo. Não sei o que ela estava fazendo, tricô ou algo assim. O pássaro chega e diz: "Seu pai está lá no charco esperando por você". Diz ela: "Isso é terrível; é muito perigoso! Esses búfalos podem nos matar. Diga a ele que me espere, vou dar um jeito". Então seu marido búfalo acorda, tira um dos chifres e lhe diz: "Vá até o charco buscar água para mim". Ela pega o chifre, vai até o charco e lá está seu pai. Ele lhe diz: "Venha". Ela diz: "Não, é muito perigoso. O rebanho inteiro vai nos perseguir. Acharei um jeito; agora me deixe voltar". Ela apanha água e volta. Seu marido búfalo diz: "Fi, fá, fo sinto um cheiro de índio!". Ela diz: "Nada disso!". E ele diz: "Sim, com certeza". Ele dá um mugido de búfalo, todos se levantam e fazem uma dança lenta, com os rabos levantados. Vão até o charco e pisoteiam o pobre homem até ele desaparecer; ficar em pedacinhos. A garota chora e seu marido búfalo diz "Você está chorando?". "Esse é o meu pai", diz ela. "Ah é? E nós? Ali estão nossos filhos, mulheres, pais; todos mortos. E você aqui chorando pelo seu pai!", diz ele. Mas parece que ele era bonzinho; fica com pena e diz: "Se você conseguir trazer seu pai de volta à vida, eu a deixo ir embora". Então ela diz ao pássaro: "Procure pelo chão e veja se encontra um pedacinho do meu pai". O pássaro vai ciscando e acaba trazendo um ossinho. E a garota diz: "Isso já basta. Vamos colocar isso aqui no chão"; ela coloca o cobertor sobre o ossinho e canta uma canção mágica, de grande poder. E veja só, um homem debaixo do cobertor. Ela olha, é seu pai, mas ainda não está respirando. Ela continua cantando; ele fica de pé e os búfalos ficam espantadíssimos. Dizem: "Por que você não faz isso por nós? Nós ensinaremos vossa dança e depois que vocês matarem nossas famílias, você dança, canta essa canção e nós voltaremos à vida". Esta é a ideia básica: que através do ritual se alcança a dimensão que transcende a temporalidade, a dimensão de onde vem a vida e para onde volta. [...]
MINEHAHA, A MULHER DO BÚFALO – Extraída da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do mitologista, escritor e professor estadunidense Joseph Campbell (1904-1987), com edição de Bill Moyers e organizado por Betty Sue Flowers, fruto de uma série de conversas mantidas entre o autor e o jornalista editor, numa combinação de sabedoria e humor, tratando sobre o casamento, os nascimentos virginais, a trajetória do herói, o sacrifício ritual, entre outras. Veja mais aqui.

A ARTE DE ISADORA DUNCAN
A arte não é, de modo nenhum, necessária. Tudo o que é preciso para tornarmos o mundo mais habitável é o amor. O corpo do bailarino é simplesmente a manifestação luminosa da alma.
Não me lembro de nenhum sofrimento que tivera por causa da pobreza de minha casa. Essa pobreza nos parecia muito natural. Eu sofria somente na escola. Para uma criança sensível e orgulhosa, o sistema da escola pública era tão humilhante como o cárcere. Eu estava sempre em rebeldia.
ISADORA DUNCAN – A arte da coreógrafa e bailarina estadunidense Isadora Duncan (1877-1927), considerada a precursora da dança moderna, aclamada por suas apresentações em todo o planeta. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE JACK LONDON
Eu não vivo para o que o mundo pensa de mim, mas para o que eu penso de mim mesmo.
A obra do escritor, jornalista e ativista estadunidense Jack London (1876-1916) aqui e aqui.


terça-feira, novembro 26, 2019

PÉREZ ESQUIVEL, DÓRIS MONTEIRO, LORD BYRON & ÁLVAREZ CUBERO


ÚLTIMA CARTA PARA TERESA – Minha querida Teresa, tremo aqui enquanto escrevo. Você minha condessa G romanhola, com seus olhos grandes atônitos de Ravenna, a que passou a ser a lourinha da Gôndola do meu coração para sempre. Não sei o que será de mim nessa distância grega, sem o seu cativante frescor, nua e bela como a madrugada, quente como o meio dia. Não sei o que será de mim sem o seu olhar de submissão na entrega, plácida, luminosa, doce, sempre apaixonada. Tenho em mim todos os seus dotes, esses que me fazem viver: face, pele, coxas, ventre, tudo que amo. Não sei o que será de mim sem a sua boca gulosa, desenhada como um arco de Cupido, a me tomar por inteiro completamente ensandecido. Amor mio, você é a minha existência aqui e no futuro, como sinto a falta dos seus beijos, seu doce jeito de em mim se aninhar e me fazer inteiro, maior que o reinado de qualquer poder. Minha amadorada, eu amo você e você me ama, endeusado por sua divina compleição. Mas eu mais do que lhe amo, e não posso deixar de lhe amar, porque meu derradeiro amor, minha última esperança – o amor nunca é feliz. Tudo se sacrifica, é o amor. E logo para mim que sempre fui de muitas mulheres, agora, só você no meu coração: meu tesouradorado. Tremo e serei sempre aquele que a ama. Só você exorciza meus fantasmas, sempre só com os deuses domésticos agitando ao meu redor e afastado do convívio dos vivos. Só você, meu amor, me completa. Sempre fui uma inútil cabeça encaracolada, travesso desde que nasci com o pé coxo, deformado. Desde meus oito anos de idade que sofro de amor. Sempre amei demais e logo fiquei farto da minha terra que fazia frases e matava homens. Tornei-me indesejado: um poeta por distração, um pirata por profissão: sou das blandícias do amor e dos apelos das desventuras. Sou um redemoinho de paixões, não posso domar minha natureza, o espírito da liberdade é o que conta. E você é a minha liberdade. Aqui, longe de você eu quero apenas, no campo de batalha, um túmulo como soldado. Adeus, meu grande amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Nenhuma Democracia, nem governo eleito, é perfeita. Porém, não podemos permitir que grupos conspiradores violem a Constituição em nome de sua defesa. Toda Democracia é perfectível, caso conte com a participação social. Hoje, a democracia representativa está em questionamento, na qual o povo vota, fica por quatro anos em estado de indefensibilidade, e os governantes fazem o que querem e não o que devem. O desafio atual é passar à democracia participativa, onde a sociedade decida sobre os grandes problemas que afetam o país, ao invés dos grandes núcleos de poder econômico internos e externos. Aos povos de Nossa América resta a resistência social, cultural e política, para defender os direitos de todos, incluídas as nossas democracias. [...]. Trecho extraído de Democracias golpe a golpe (Instituto Humanas Unisinos, 2016), do arquiteto e ativista argentino, Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel.

A ARTE DE DÓRIS MONTEIRO
Eu gostava muito de fazer cinema, muito mesmo. E várias pessoas me disseram que era melhor atriz que cantora. Tem pessoas que diziam que era uma pena eu ter largado o cinema porque eu era excelente atriz. Eu gostava muito de fazer cinema, era muito divertido, porque você estava sempre ali no set com os amigos, sempre saía uma piada, uma brincadeira, você estava com um grupo grande, você está muito mais cercada do que quando canta. Porque quando você canta é você e o trio, que também é muito bom, mas não é aquela alegria do dia-a-dia. Porque você sabe, você faz um show, depois vai embora para casa, os músicos também vão, e acabou. Ali não, parecia uma família. E aí você estava sempre se divertindo.
DÓRIS MONTEIRO – A arte da cantora e atriz Dóris Monteiro, que além de musa e grande cantora, também atuou no cinema, como no longa-metragem ficção Agulha no palheiro (1953), que contava a história de uma jovem simples do interior, à procura de um noivo carioca, que lhe dera um endereço em Copacabana, cujo nome era José da Silva e estava grávida. Também participou do documentário Assim era a Atlântida (1974), reunindo os principais filmes que sobreviveram a um incêndio nos estúdios da empresa, em 1952, e a uma inundação em seus depósitos, em 1971. Também do drama Sol sobre a lama (1963), que conta a história de uma comunidade que habita a região da feira de Água dos Meninos, em Salvador, luta para defender a área da sanha dos especuladores imobiliários. Além destes e outros, o Copacabana Palace, o filme (1962), em que participa ao lado de João Gilberto, Tom Jobim, Norma Benguel, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE JOSÉ ÁLVAREZ CUBERO
A arte do escultor espanhol José Álvarez de Pereira y Cubero (1768-1827). Veja mais aqui.

A OBRA DE LORD BYRON
Os espinhos que colhi, são da árvore que plantei.
LORD BYRON – O poeta britânico Lord Byron (George Gordon Byron – 1788-1824), autor de obras como Dom Juan, Manfredo, Horas do Ócio, Peregrinação de Childe Harold, O Corsário e Lara, entre outras, se envolveu em extensa rede amores até o final de sua vida. Aos oito anos de idade, ele estava violentamente apaixonado por uma jovem chamada Mary Duff. Aos dez anos, sua prima, Margaret Parker, excitou nele uma paixão estranha e não infantil. Aos quinze, veio uma das maiores crises de sua vida, quando ele se apaixonou por Mary Chaworth, cujo avô havia sido morto em um duelo pelo tio-avô de Byron. Jovem como ele era, ele teria se casado com ela imediatamente; mas a senhorita Chaworth era dois anos mais velha que ele e absolutamente se recusava a levar a sério a devoção de um menino de escola. Em Atenas, escreveu o belo poema para a "criada de Atenas" - Miss Theresa Macri, filha do vice-cônsul britânico. Voltou a Londres para se tornar de um salto o poeta mais admirado da época e o maior favorito social. Cercado por mulheres: desde as empregadas mais humildes até damas de alta patente, ele só tinha que jogar seu lenço para conquistar. Algumas mulheres nem esperaram que o lenço fosse jogado. A ligação que mais atraiu a atenção naquele momento foi aquela entre Byron e Lady Caroline Lamb. Byron foi muito responsabilizado por sua parte; mas há muito a ser dito do outro lado. Lady Caroline foi casada com o William Lamb, posteriormente Lord Melbourne, e destinado a ser o primeiro primeiro ministro da rainha Victoria. Quando conheceu Byron, ela gritou: “Esse rosto pálido é o meu destino!” E depois acrescentou: “Louco, ruim e perigoso de se conhecer!” Mais tarde, ela ofereceu seus favores a qualquer um que o matasse. Teresa Guiccioli (1800–1873) foi o seu amor final. Quando se conheceram em Veneza, por volta de 1818, ela era casada com um nobre italiano quarenta anos mais velho. Byron acabou saindo da Itália para apoiar a campanha pela independência da Grécia, mas adoeceu antes que ele pudesse pegar em armas. Ela escreveu o relato biográfico Vida de Lord ByronMy recollections of Lord Byran and those of eye-witnesses of his life. Alexandre Dumas a incluiu como personagem menor em seu romance O Conde de Monte Cristo, usando o nome disfarçado de "Condessa G -". Lord Byron também usou esse nome abreviado em seus diários. Há também um volume tratando Das famosas cartas de amor (From Famous Love Letters - The Reader's Digest Association, Inc., 1995), organizado por Ronald Tamplin. Veja mais aqui.


segunda-feira, novembro 25, 2019

ARUNDHATI ROY, MICHÈLE PETIT, ALEXANDRA WHITIGHAM, GEÓRGIA CREIMER, AMANDA LEAR & CARTA AO MEU PAI


CARTA AO MEU PAI – Conversamos muito e era pouco um ou dois dias corridos quase insones, diuturnos. Contamos estrelas, soltamos lorotas e nos embriagamos de ver o Sol nascer ou lembrar os cochilos nas urnas funerárias de Bilaro, a mesa grande e lá tia Arlinda, Nadeje, Lourdes, Conça e a outra que esqueci o nome (ah, lembrei, Angelita! Não podia esquecer os Gilsons...), de uma rua perto da casa de vovó, a bodega de Água Preta. Aprendi muitas e úteis lições, a velhice é sábia, eu sei, vô Arlindo era ele. A gente sempre teve uma relação de igual para igual. Na infância, o meu herói. Eu era o brinquedo de Emanoel, Paulo e Carlos, parceiro de Zito. Também premiado por Pai Lula e Carma, outra mesa enorme para minhas folganças, apreços muitos. Ainda menino, atendeu meu pedido para a responsabilidade laboral e me entregou, aos dez anos, para que eu vivesse sobre o bigodinho ralo como David de Dickens nas mãos do meu Uriah Heep. Foi tudo muito difícil, irrespirável. Fiz o que pude, inescapável. Tanto que no auge da adolescência, escolhas irreversíveis: saí do berço e da asa, assumi a vida e fui pro mundo, carregando o seu jeito no canto do lábio: a reprovação. Diferentemente de Kafka, eu o temia e perdi o medo: era como eu, talqualmente, cara a cara. Coisas que abomino, o fez. Ele lá, eu cá, Gonzagão & Gonzaguinha. Nas horas mais prementes, me dizia: seja o que for, se não tiver coragem, me chame que vou na frente. Não, era a disputa e eu queria ser tão quanto ele: não sou o filho, sou eu – assumia e fiz meu destino, outras escolhas. Perdi a pele, só agora tenho o que contar: tive que mentir e muito para sobreviver às bocarras inexoráveis. Quantas máscaras, todas, eu mesmo: o alter ego. Desde menino permeável às coisas do mundo, curiosíssimo. Não era eu o primogênito – uma irmã outra, antes, morrera eletrocutada. Outras três vieram depois de mim. A chatura da adolescência nos afastou. Só nos reencontramos maduros e aos poucos – afetos além da conta. Eu vivi a parte boa, minhas irmãs que tiveram paciência para aguentar a senilidade: Aninha, empoderada e de beiço virado: o meu apego, efígie, o outro lado que sou; Anginha, na viuvez, a companhia e o meu gesto infantil; e Georgia, a caçula, da mesma idade da minha filha, outra era e minha. Na estrada, desaprendi a família – quase para mim como o visto por Foucault ou as feridas e ausência presente da selva interior de Trevisan, me reduzi à solidão: o espermatozoide e o perdão interior. Só mais de vinte anos depois, nos reencontramos e fui, confesso, a contragosto. Para meu espanto, o ídolo do menino e o amigo se incorporaram e eu plantei minhas raízes perdidas: a vez de renovada interlocução, a verdadeira. Apartados, íntimos. Hoje meu pai se foi com meu filho morto, fiquei só e não seria a primeira vez. É a vida: um dia a gente ri; outro, chora; seguimos nesse tobogã. Abdiquei de títulos e homenagens, nem comemoro aniversário. Todos têm ou tiveram um pai, eu não: o meu pai era meu filho desamparado, telúrico, confirmava a minha predileção pela mãe. Mais conversamos e viramos outras tantas e enluaradas ou chuvosas noites, até me deixar como o Pê de pai de Isabel Martins, o Adios nonino de Piazzolla. O que comove é que esta carta nunca será entregue. Talvez seja covardia, sei que não; nem acerto de contas, não deixei nada sem lhe dizer: nos dissemos tudo e muito mais. Talvez este seja o texto mais frágil do que proponho, é possível, admito. A minha voz é a coragem de amar, me destruam ou não. Não tenho defuntos, vivo com os vivos e todos que se foram também vivem em mim. Morreu menino o meu pai, eu o sou eternamente vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um "espaço em crise". Uma crise se estabelece de fato quando transformações de caráter brutal — mesmo se preparadas há tempos —, ou ainda uma violência permanente e generalizada, tornam extensamente inoperantes os modos de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, a extensão das migrações alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças, de maneira obviamente bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afetivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem. Para boa parte deles, no entanto, tais crises se manifestam em transtornos semelhantes. [...] Em tais contextos, crianças, adolescentes e adultos poderiam redescobrir o papel dessa atividade na reconstrução de si mesmos e, além disso, a contribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica. Para a vida, em suma. A hipótese parecerá paradoxal em uma época de mutações tecnológicas na qual é a eventual diminuição da prática da leitura o que preocupa. Parecerá mais audaciosa, até mesmo incoerente, visto que o gosto pela leitura e a sua prática são, em grande medida, socialmente construídos [...] Se chegaram a ler, foi sempre graças a mediações específicas, ao acompanhamento afetuoso e discreto de um mediador com gosto pelos livros, que fez com que a apropriação deles fosse almejada. [...]. Trechos de Qual o poder da leitura nestes tempos difíceis?, extraído da obra Arte de Ler ou como resistir a adversidade (34, 2009), da antropóloga francesa Michèle Petit. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE ALEXANDRA WHITIGHAM
Comecei a tocar quando tinha 7 anos, apenas fazendo barulhos aleatórios no violão. Eu estava tocando músicas de rock e pop que eu gostava (e ainda estou!). Algumas pessoas se aproximaram de mim para tocar em shows depois de ver alguns dos vídeos. Ao longo de tudo isso, realizar shows solo e de câmara e continuar gravando e gravando vídeos está no topo da minha lista de prioridades.
ALEXANDRA WHITIGHAM – A arte da premiada violonista britânica Alexandra Whitigham, que depois de estudar violão clássico, piano, jazz e composição na Escola de Música de Chetham, estudou na Royal Academy of Music em Londres.
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AS MÚLTIPLAS FACES DE AMANDA LEAR
Eu sou uma mulher como outra qualquer.
AMANDA LEAR – A arte da cantora, compositora, pintora, atriz e escritora francesa, Amanda Lear, que começou sua carreira como modelo de moda nos anos 1960 e tornou-se a musa de Salvador Dalí. Uma curiosidade a seu respeito é encontrada no livro, Odyssey, de April Ashley, em que ela se lembra de um homem chamado Alain Tapp, cujo nome artístico foi Peki d'Oslo, e que possivelmente mais tarde se tornou Amanda Lear. Veja mais aqui.

A ARTE DE GEÓRGIA CREIMER
A arte da artista Geórgia Creimer, que hoje vive na Áustria e atua com esculturas, objetos, pinturas e fotografias. Veja mais aqui.

A OBRA DE ARUNDHATI ROY
Eu acho que fui uma criança bastante crescida e tenho sido um adulto muito infantil.
A obra da escritora e ativista indiana Arundhati Roy. Veja mais aqui & aqui.
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A POESIA DE RUBEM DE LIMA MACHADO
Nota de falecimento, por Marcos Alexandre Martins Palmeira.
RUBEM DE LIMA MACHADO (1936-2019) - Com sentimentos de tristeza, pesar e solidariedade ao amigo, poeta e escritor Luiz Alberto Machado, bem como aos familiares, informamos o falecimento do seu pai, o senhor Rubem, mais conhecido como Rubinho do Cartório, ocorrido nesta sexta-feira. Nem sempre os verdadeiros irmãos moram abaixo do mesmo teto, Lula dos Palmares, professor numa sociedade de poetas mortos (Robin Williams). Lula, um grande amigo que me presenteou o hino da minha mãe Manguaba Lagoa. O senhor Rubinho à distância abraçou os amigos e irmãos de seu filho. "O velho", assim chamava o poeta Lula, velho esse que, moldado numa sociedade cão e na poeira chão, precisou seguir sem tempo de chorar a dor do irmão que partiu. O homem e o tempo no tempo de um interior, seguiu a vida mergulhado numa política de coronelistas no ranço dos engenhos de açúcar na cana moeda, no lombo dos burros e na chibata dos açoites, que caracterizam os burros racionais e irracionais. Rubinho desassombrado para o tempo no templo do Grande Arquiteto do Universo, foi estigmatizado pelos homens das casacas pretas numa trilogia: Liberdade, igualdade e fraternidade. Anos após, sua cria Lula escreveu nas Alagoas "O bode" rejeitado numa situação acontecida na maçonaria com decretos internos que foram aos Tribunais da Justiça das Alagoas. Rubinho, meu irmão maçom que aprendemos na ordem a entender a morte do mestre Hiran Abif e andar de luto todo dia e o dia todo. Choro como eterno aprendiz a morte do mestre Rubinho, pai do poeta Lula do Quilombo de meus momentos com essa turma de Lula no meu Pernambuco de outrora. Tive a oportunidade de andar com Luiz nas madrugadas de Palmares, além da companhia de músicos, intelectuais, poetas e essa turma de Lula de Rubinho. Hoje, choro a dor do meu mestre Professor Luiz Alberto Machado. Lula meu irmão... Ao nosso companheiro e grande amigo, transmito sentimentos de solidariedade e que Deus conforte e dê força a você e toda a família nesse momento difícil que deixará saudades eternas. Veja mais aqui e aqui.


sexta-feira, novembro 22, 2019

ALDOUS HUXLEY, FARADAY, LEJEUNE, ANA ELISA RIBEIRO & LAURA LIMA


ÚLTIMA CARTA PARA SALLY – Ah, Sally querida, desde aquela primeira em que maldizia da noção de amor, eu sei, como bem disse seu pai que filósofos tornam-se tolos ao amar, e eu a amei, graças aos céus, ao seguir sua fuga para Ramsgate e declarar-me para a sua decisão. Graças, mil graças à vida: tudo sou em você, minha Sally, minha querida. Não fosse a sua mão companheira de todos os dias, não teria eu vencido tantos degraus nos íngremes aclives das descobertas e desânimos. Não fosse o seu riso compreensivo de todas as horas, não teria eu vencido batalhas tão ferrenhas, constantes e indesejáveis. Não fosse o seu abraçabrigo materno de todos os meus choros inconsoláveis, não teria eu vitalidade e afinco para enfrentar tantos giros na roda da fortuna, nem triunfado sobre os mais repetidos sortilégios infames e procelosos percalços. Não tivesse a firmeza dos seus passos seguindo os meus e os meus os seus, não teria eu sido além de um entregador de jornais ou encadernador dos livros do patrão, a inventar uma gaiola protetora para o futuro e tantas outras coisas que brotavam da minha imaginação para confirmação louca da experiência. Não tivesse o seu jeito amável de me cuidar nas quedas e dores, não teria eu, filho de gente simples que queria ser simplesmente eu mesmo e nada mais até o fim, com instrução rudimentar, autodidata, a observar o pôr do Sol e dele apreender os mistérios da Natureza. Não fosse o seu afago nos meus desesperos, não teria eu me libertado da professora cruel e opressora do colégio e que sem ter para onde ir fui buscar a sorte nas calçadas de ouro da cidade da magia e dos prodígios, só com esperança e migalhas de pão – um pão apenas por semana, repartido entre os dias para quase não me deixar morrer de fome. Não fosse a sua volúpia nos meus desencantos, não teria eu evoluído da Filosofia Natural para aceitar o reflexo da vida e o esplendor do ocaso e a ressurreição na crisálida da noite para compreender a urdidura da Natureza. Não fosse as suas pernas apaziguadoras nas minhas aflições noturnas, não teria eu nada além de canhenhos, enquanto o mestre se ressentia porque para mim a vida dos mineiros era mais importante que a sua gloria e quantas inimizades para ser tratado por lacaio no cúmulo da mesquinhez, enquanto eu vivia solitário e fora das disputas frívolas, apenas para o saber e você. Não fosse o seu ventre quente acasalador nas minhas insônias ébrias de desenganos, não teria eu lido melhor os manuscritos de Deus, não passando de um ajudante zelador para assessor, enquanto lutava desesperadamente para vencer sem contar com a vitória, nenhuma vitória. Não fosse o seu desapego material nos meus esbanjamentos extravagantes, o seu nuto carinhoso nas minhas inconsequentes loucuras, a sua calma apaziguadora nas horas mais periclitantes, a sua entrega mais que providente quando das minhas insanas agonias deserdadas, eu não seria nem teria nada, absolutamente nada. Mais que isso: e se não fosse você o travesseiro para minha mente eu não poderia morrer em paz, minha querida, jamais. Por tudo isso, eu posso ir, já vou embora, Sally, minha querida, até sempre, meu amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] o autobiógrafo deve executar esse projeto de uma sinceridade impossível, servindo-se de todos os instrumentos habituais da ficção. Ele deve crer que há uma diferença fundamental entre a autobiografia e a ficção, ainda que, na verdade, para dizer a verdade sobre si mesmo, ele empregue todos os procedimentos de seu tempo [...] o pacto autobiográfico pode ser, no plano explícito, um pacto moral de 'sinceridade': mas isso muitas vezes se traduz por um pacto implícito do autor com o leitor: o engajamento de não se distanciar demais de um tipo de relato 'verossímil' [...] Interrogar-se sobre o sentido, os meios e o alcance de seu gesto, eis o primeiro ato da autobiografia: frequentemente o texto começa, não pelo ato de nascimento do autor (nasci no dia...) mas por um tipo de ato de nascimento do discurso, o “pacto autobiográfico”. Nisso, a autobiografia não inventa: as memórias começam ritualmente por um ato desse gênero: exposição da intenção, das circunstâncias nas quais se escreve, refutação de objetivos ou de críticas. [...] Logo, a autobiografia interroga a si mesma; ela inventa a sua problemática e a propõe ao leitor. Esse “comportamento” manifesto, essa interrogação sobre o que se faz, não cessam uma vez o pacto autobiográfico terminado: ao longo da obra, a presença explícita (por vezes mesmo indiscreta) do narrador permanece. É aqui que se distingue a narração autobiográfica das outras formas de narração em primeira pessoa: uma relação constante é estabelecida entre o passado e o presente, e a escritura é colocada em cena. [...] é o próprio autobiógrafo que criou e desenvolveu a problemática do gênero. [...] O pacto autobiográficos e alimentadas refutações que ele provocou. Seu objetivo é paralisar a crítica, ultrapassando-a: compreende-se que nesse jogo interessa mostrar-se tão ágil quanto ela [...]. Trechos da obra O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet (EdUFMG, 2008), do professor e ensaísta francês Philippe Lejeune que, conforme a professora e pesquisadora Ana Amelia Barros Coelho Pace, em seu estudo Aspectos do pacto autobiográfico em “L'autobiographie en France” (Darandina- FFLCH-USP, 2013), assinala que: [...] A construção de um discurso de verdade individual implica na observância de regras e convenções, mesmo que seja para colocá-las em xeque–tensão que reverbera no discurso crítico. Mesmo assim, nessa sobreposição de textos, leituras e releituras (seja mas de Lejeune, que faz de seus próprios textos, seja da minha), devemos considerar que a busca em esclarecer e redefinir o pacto é uma tarefa inacabável, sempre a recomeçar. E talvez aí resida o funcionamento do pacto, em seu poder incessante de mover leituras e escritas. [...].

A POESIA DE ANA ELISA RIBEIRO
PRENHEZ - estava grávida / naquela foto / o filho / não chegou / a nascer / a foto / nos mantém / à sua espera
ORAÇÃO DO OLVIDO - oxalá eu esqueça / os poemas que lavrei / em arquivos e em livros; / os poemas que inscrevi / em concursos perdidos; / os poemas que se arrependeram / em linhas inconclusas; / e todos esses que / apaguei das telas de computador; / e os que anotei em blocos / e jamais foram transcritos / em páginas aflitivas; / oxalá eu esqueça / os poemas que escrevi; / e que os que escreverei / não me venham; / e que os poemas / que quase foram escritos / sejam leais a sua / admirável quasidade.
INSTANTÂNEO #5 - Só mesmo uma foto / para nos flagrar / no auge / de um quase
O PRÍNCIPE E A MEGERA - Um príncipe / com casa, carro, filho & pensão / relógio de pulso / perfume importado / quarentão / bem-arranjado / até grisalho / fosse eu / e tudo isso / seria / defeito
TRÁGICA - meu galego / não conhecia minha ira / era dono do meu corpo / meu espírito de porco / sabia minha ginga / minha pletora, minha míngua / conhecia cada fresta / cada trinca, cada aresta / cada vinco, furo, fissura, / mau humor, amargura / mas da minha ira / condenada ira / ira da maldita / ira de mulher / fêmea exata / ana saliente / uterina, enfezada / ele não sabia nada / (meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado)
ANA ELISA RIBEIRO – A poesia da poeta e professora Ana Elisa Ribeiro, autora de livros de crônica, conto e poesia, além de infanto-juvenis, entre eles Xadrez (Scroptum, 2015), Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013), Fresta por onde olhar (2008), Álbum (Relicário, 2018) e Dicionário de imprecisões (Impressões de Minas, 2019). Veja mais aqui.

A ARTE DE LAURA LIMA
A arte da premiada artista Laura Lima. Veja mais aqui.

A OBRA DE ALDOUS HUXLEY
O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura. Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.
A obra do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) aqui e aqui
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A OBRA DE MICHAEL FARADAY
Nada é tão maravilhoso que não possa existir, se admitido pelas leis da Natureza. As cinco essenciais habilidades empreendedoras para o sucesso são concentração, discernimento, organização, inovação e comunicação.
MICHAEL FARADAY – A obra do físico e químico inglês Michael Faraday (1791-1867), que conviveu por longos anos com Sally (Sarah Barnard, posteriormente, Faraday – 1800-1879), e é considerado um dos cientistas mais influentes de todos os tempos, por suas contribuições com relação aos fenômenos da eletricidade, eletroquímica e do magnetismo, além de diversas outras nas áreas da física e da química. Veja aqui.


MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...