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domingo, dezembro 05, 2021

CHRISTINA ROSSETI, SUSAN WENDELL, AFANASY FET, ANN HAMILTON & RONALDO CORREIA DE BRITO

 

 

TRÍPTICO DQP – Umestória puxoutra... - Ao som do álbum Em família (EMI, 1981), de Egberto Gismonti. - No meio de tantontens, lembrançadvenas, uma: primeiro peixes pulavam fora d’água e morriam à beira do rio. No começo aquilo era o espetáculo de todos os dias na cidade. Depois, com o acúmulo deles, tudo dançava até as plantas secarem, as árvores, e o chão se abriu. Um buraco espetacular dos olhos pularem quase fora. Tornou-se uma cratera e, na borda dela, juntavam-se gatos, depois cachorros, galos e galinhas, bodes e cabras, bezerros, vacas e bois, cavalos e éguas, pássaros e répteis, todos os bichos da redondeza ali se amontoavam numa dança estranha. Em seguida todos despencavam como se fossem engolidos pela cova que mais se agigantava. As coisas andavam realmente bizarras por ali e, com o passar do tempo, perdia o fascínio nem mais engraçado. Mais dias e as crianças lá chegavam aos passos e gestos extravagantes. Não pode ser! Também moças e rapazes, senhores com suas senhoras, anciões de mãos dadas com suas consortes anciãs, todos num bailado excêntrico, para, em seguida, como se fosse ritual macabro, jogavam-se voluntários para serem consumidos pelo insaciável algar. Outros temiam a ponto de não se aproximarem dali, nem arredarem o pé de casa. Só crescendo o perau. Os que fugiam, nunca voltavam, nem que fosse na marra, pois cismavam de cabelo em pé e, aos tombos, para recorrerem atônitos às autoridades. Rondava a alegação de que aquilo era pior que o Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Mesmo? Nada a ver. Muito maior! E diziam disso e daquilo. Amedrontados, não sabiam o que fazer: rezavam de joelhos e de mãos dadas continuamente. Como não surtia efeito, vagavam para todos os lados, buscando providência que desse cabo do inusitado. Muque, munheca, caixa dos peitos, insuficientes. Revolver, espingarda, fuzil, canhão, reles brinquedos perto do estrupício. Aquilo, afinal, o que seria? Apareceu uma tuia de pesquisador, jornalistas, curiosos e boateiros, tudo para saber do ocorrido, até um bocado deles desaparecer na tragédia. Minha nossa! Alguns mais precavidos logo assimilavam ter sido o mesmo que ocorrera na primeira tragédia de Alagoinhanduba. Como é? Teve até quem relacionasse a ocorrência com o desastre do Minamata e, por coincidência, foi justo na hora em que fui abordado pela atriz japonesa Minami Bages. Epa! Logo me confundiu com um fotógrafo desconhecido e tudo já se parecia com o enredo de Andrew Levitas. Endoidou geral, para mim. Ela se ria de tudo, contando-me os mínimos detalhes do ocorrido por lá. Fui levado a acreditar porque o cogitado sequer foi descartado. O pior foi que à boca da noite só se via uma movimentação nos ares, como se fossem os defuntos do Cerro do Pasco de Scorza: um bocado de fantasmas atiçando a todos para uma revolução! Oxe! Pernas pra que te quero, ora! Escondido numa sala dum prédio enorme, ela ali, arfante, olhou-me severa e me disse como se fosse a poeta britânica Christina Rosseti (1830-1894): É melhor esquecer e sorrir do que recordar e entristecer-se... O silêncio é mais musical do que qualquer canção... Era o maior vexame e ela como se nada acontecesse por ali. Como pode? Lá fora maior azáfama. Cá dentro, ela deitou a cabeça sobre minha coxa e adormeceu...

 


Vida de trovador... – Imagem: arte da artista visual estadunidense Ann Hamilton. - Ao despertar, não sei se o dia era outro ou o mesmo, entendia nada, se sonho ou real. Só sentia indisposição para me levantar. Logo percebi ao meu colo um volume aberto e com a inscrição: Eu, Miquel de la Tour, escrevo, faço-vos saber... Danou-se! Mais que curioso folheei e tomei ciência quais damas eram cortejadas pelos menestréis lá por volta dum século lá da Idade Média, coisa parecida com o que havia lido n’A Arte da Poesia de Pound. Reli para me certificar e contava: O monge Gaubertz de Poicebot era um de estirpe; era do bispado de Limousin, filho do castelão de Poicebot. Fizeram-no monge quando criança, num monastério chamado Sai Leonar. E conhecia bem as letras e sabia cantar e trobar. E por desejo de mulher, ele saiu do monastério. E dali foi à procura do homem a quem buscavam todos aqueles que, por cortesania, ambicionavam honras e grandes feitos – Savaric de Mauleon – e esse homem lhe deu o arnês de um jogral, um cavalo e roupas; e ele então percorreu as cortes, compôs e fez belas canzos. E entregou o coração a uma bela e gentil donzela, pelo que Savaric o fez cavalheiro, concedendo-lhe que ele conseguisse tomá-la  por esposa. E ele contou a Savaric de que maneira o recusara aquela donzela, pelo que Savaric, concedeu-lhe terras e as rendas delas. E ele desposou a donzela e a honrou sobremaneira. E aconteceu que ele foi para a Espanha, deixando-a. E um cavalheiro vindo de Inglaterra a desejou; e tanto o fez e tanto disse que a levou consigo e a teve muito tempo por amante e depois a deixou na sarjeta. E Gaubertz voltou da Espanha, e hospedou-se certa noite na cidade onde ela estava. E desejando uma mulher, saiu e entrou no alberc de uma pobre mulher, pois tinham-lhe dito haver ali uma bela mulher. E ele encontrou a esposa. E quando a viu, e ela a ele, grande foi a tristeza e maior a vergonha entre ambos. E ele esteve aquela noite com ela, e pela manhã foram para um convento onde ele a fez entrar. E, de tristeza, deixou de cantar e compor. Ah, esse relato era o mesmo citado, agora sim, me certificara. Voltei à leitura e fui interrompido por ela que ali adentrara para dizer que íamos fugir naquela noite. Como assim? Respondeu-me ironicamente com o Autorretrato de Joel Silveira: Sou um homem que faz perguntas – nunca fui mais na vida. E assim serei, certamente, até o último dia, que também será o dia da última pergunta. E me sorriu lindamente como quem possuía a urgência no olhar, trêmula dentro do hábito, porque o asteroide Kamo’oalewa se aproximara perigosamente da Terra. Era uma urgência desmedida: havia um grande contingente de cegos e surdos, outros apresentando fraqueza e distúrbios sensoriais nos pés e mãos, alguns tantos chegaram a ficar paralíticos e muitos outros morreram. Não brinca! Verdade, arrume-se! Para onde? E num misto entre angelical e ansiosa, recitou-me o poeta russo Afanasy Fet (1820-1892): Compartilhe comigo seus sonhos de viver, / Dirija-se diretamente à minha alma; / O que não pode ser expresso apenas em palavras - / Ventile minha alma na forma de som. Depois, aproximou-se mais e senti sua alma tomando a minha. Éramos um: olhos nos olhos, sua respiração rente às minhas faces, sua vibrante carne: uma sinapse na minha. Beijou-me e saiu como se fosse nunca mais.

 


A sina da caçula... – Imagem: a arte da escultora, fotógrafa e artista visual britânica Helen Chadwick (1953-1996). – Décadas passaram e, um dia lá, ao reencontrá-la, a vida parecia não ter sido tão madrasta assim: estava mais linda que nunca. Depois de muita conversa, contou-me a sua história - talqualzinha aquela contada pelo escritor, médico e dramaturgo, Ronaldo Correia de Brito, numa das edições da Continente Multicultural: era caçula de três irmãs e o pai, que era podre de rico, enviuvara de repente. Macambúzio com seu luto, resolveu reunir uma em outra, às confidências. Da conversa, a mais velha saiu cantarolando, havia recebido um quinhão polpudo por herança. Era a vez da do meio que saiu mais feliz que nunca, bailando a partilha vantajosa. Era a vez dela. Ao término da conversa, o pai ficou calado. Ela esperando. Nenhuma reação dele. Então ele se levantou, ficou mudo em pé na janela pro mundo, por um longo tempo. Lá pras tantas, voltou-se pra ela cheio de ira e deu-lhe o castigo: de casa para a rua! Estava deserdada. Por quê? Deve ter sido pelos namoricos ou por gostar de artes, ou por ser a saidinha nada obediente, ou coisa parecida, tudo que ele reprovava demais. As irmãs nem intercederam e, nem bem amanheceu, caiu estrada afora. Mais vinte anos e, de repente, à sua porta, alguém pedia socorro. Era um senhor de idade e, mesmo que quisesse, não havia como negar abrigo. Afinal, o solicitante estava em petição de miséria – a situação dela nada diferente em privação. Acolheu e cuidou por semanas. Ao se restabelecer, o ancião contou-lhe a história. Ela chorou muito: era o seu pai. E as irmãs premiadas haviam fechado a porta. Da mesma forma que ela não soube a razão pela qual foi expulsa de casa, ocultou quem era. E mesmo assim cuidou dele até o dia em que ele, à morte, atendeu o pedido dele e revelou seu segredo. Não havia mais tempo: ele só ouviu, apertou-lhe uma das mãos e deu o último suspiro. Tudo muito triste. Diante da minha expressão interrogativa, respondeu-me como se lesse para mim um trecho da obra The Rejected Body: Feminist Philosophical Reflections on Disability (Routledge, 1996 ), da professora e editora estadunidense Susan Wendell: Se as pessoas com deficiência fossem realmente ouvidas, ocorreria uma explosão de conhecimento do corpo humano e da psique... Compreendi em parte, evidentemente. E havia muito mais para contar: ela fora acometida por uma enfermidade que a deixou inválida por dois longos anos, até se recuperar quase sem esperança. Perguntei: Então é você? Sim sou eu. A vida somos todos nós. Até mais ver.

 

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sexta-feira, novembro 29, 2019

ÉRICO VERÍSSIMO, NOELIA RIBEIRO, ANASOR ED SEAROM & STEFAN ZWEIG












DEPOIMEPÍSTOLA DE NOVEMBROUTUBROUTRO –
O que deveria ter dito e não disse – impasses e flores na primavera quente do meu coração. Outra é a sensação: passos síncronos e recíprocos se arrastam lá fora, talvez seja eu mesmo na minha exequível vontade de sair por aí e não mais voltar. Sobraram metástases enquanto à cabeça outras sinapses conjugadas enlouqueciam a palavra e me mantenho de pé quanto posso, quase nada. Não tenho mais idade, duro há tempos como se rondasse a relva do túmulo. O que me disse de formidável era verbo encravado, se eu só tinha a voz rouca, uma pedra rasgando o peito e os dias incertos nas mãos – a canção é pouca e se vale da esperança para romper paredes que roubaram calçadas na doidice ambulante do consumo. De que me servem os telhados madrugadores da solidão fria, se nem mesmo um aceno eu recolho do que pudesse ser vivo nas altas horas das dores de uma quase morte súbita. Valho-me dos trapos de sonhos da mata espessa para poder viver meus lêmures fugidios dos alvoreceres no chão coberto de folhas, andrajos e lixo nos lodaçais. Sou eu mesmo e faça o favor, se eu vivo erro semáforos e portas, de quantas janelas ouso inventar com nenhuma evasiva fatigante a mourejar dias e noites. Quisera eu não fosse apenas ribanceira abaixo, se só me erguia unhas e dentes ao topo que sumiu sem mais nem menos no meio das nuvens de sonhos que esvoaçaram noite afora. Punhos livres, sou epístolas que dizem de mim e mais nada nem ninguém. Vou por aí. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: Ali estão eles, esperando silenciosos. Estão calados, encostados na parede. Parecem dormir, no entanto seus títulos parecem olhares que nos fitam. O olhar, as mãos passam por eles, mas eles não clamam suplicantes, não se anunciam. Nada exigem. Esperando até serem abertos, só então eles se oferecem. Primeiro: silêncio em torno de nós, silêncio dentro de nós. Estamos então preparados para eles. Uma noite, ao voltarmos cansados de um passeio, uma tarde quando fatigados dos homens, uma manhã despertando atordoados por um pesadelo. Podemos ter um diálogo e, contudo, querer ficar sós. Aproximamos-nos da estante com o agradável pressentimento de uma doce sensação: cem olhos, cem nomes, nos olham, pacientes e mudos, à procura do olhar indagador – como escravas de um harém para o amo –, aguardando humildes o chamado e ainda felizes de serem úteis, se forem escolhidos. Depois o dedo como que tateia sobre o teclado para encontrar o som da melodia que vibra intimamente: curva-se na mão o ser alvo e surdo, como violino guardado no qual dormem as vozes de Deus. Abrimos um deles, lemos uma linha, um verso. No momento, porém, não soa claro. Desiludidos, quase brutais, repomos o livro na estante. Nova busca, até que encontramos o exato, aquele próprio para o momento. De repente somos abraçados, sentimos uma respiração estranha, como se ao lado, prostrado pelo calor, estivesse o corpo de uma mulher. E como o levamos para debaixo de uma lâmpada, o livro, o feliz escolhido, brilha por igual com luz interior. A magia se produz, da nuvem delicada dos sonhos ascende a fantasmagoria. As estradas se alargam e a distância acolhe os teus sentimentos apagados. Em qualquer lugar bate um relógio. Este, porém, não urge nesse tempo que foge. As horas aqui passam de outro modo. Ali há livros que andaram muitos séculos antes que suas palavras chegassem aos nossos lábios. Ali estão outros, jovens, nascidos ontem, gerados na confusão e necessidade de moços imberbes: falam, porém, uma língua mágica. E uns e outros agitam e aceleram a nossa respiração. Se nos irritam, também nos consolam; se nos enganam, acalmam ao mesmo tempo nossos sentidos abertos. E à medida que mergulhamos neles encontramos em sua melodia, calma e contemplação, abandonado enlevo, um mundo do outro lado do mundo. Como agradecer a vós, livros, os mais fiéis e silenciosos dos companheiros, os momentos puros passados longe do tumulto dos dias? Como agradecer a constante solicitude, eterna elevação e a infinita calma da vossa presença? O que vos acontece nos dias sombrios de solidão, nos hospitais e campos de batalha, nas prisões e nos leitos de dor! Sentinelas constantes em toda parte oferecestes sonhos aos homens e mãos cheias de calma na inquietação e no martírio! Podeis sempre, doces ímãs divinos, atrair as almas diariamente soterradas. Trazes em vós mesmos um céu íntimo que estendeis sobre nós, sempre nos momentos mais sombrios. Pequenos átomos do incomensurável, ficais ocultos em nossas casas, enfileirados em uma singela parede. Todavia, a mão os liberta e se o coração vos toca, então saltais invisivelmente do lugar de todos os dias e vossas palavras nos elevam como numa carruagem de fogo, da estreiteza para a eternidade. Texto Gratidão aos livros, extraído da obra Stefan Zweig: Pensamentos & Perfis –Excertos (Rio de Janeiro, 2006), do escritor, dramaturgo, jornalista e biografo austríaco Stefan Zweig (1881-1942), organizado por Salomão Rovedo e Izabela Maria Furtado Kestler. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE NOELIA RIBEIRO
CLIMA ETÉREO - Todo minimalista,/ ele entrou no íntimo / (de Eurídice) / sem deixar pista, / estancando / o sangue natural, / o desejo do gozo / e o mais ínfimo / detalhe vital / de feminice. / Febril, / secou cabelos / lábios, pele, pelos, / atingindo, / em tom levemente senil, / o óleo da vagina, / sagrado elixir de menina. / Calado e repentino, / fez soar o sino, / acelerando o tempo etéreo / por horas e horas, / em 40 graus de quentura, / para depois, / nem tão sério / nem tão apressado, / ensejar / naquela senhora, / em vez de amargura, / um olhar womanizado.
NADA EM TI ME SURPREENDE - Nada em ti me surpreende / Conheço teu contorno / teu sotaque / teu afeto / Sei do calor / de tuas mãos / conchas onde guardo / meu segredo / Deitada à sombra / de teu corpo / sou nascituro cego / incompleto / Nada em ti é cedo.
DEEP IN MY MIND - Deep in my mind, / rola um filme de segunda / com close no peito e na bunda / e beijo fake pra começar. / Tem dedos que brincam, / línguas que dançam jingles / in the dark / sem hora pra terminar. / Tudo free, sem o olhar severo / de quem quer que seja. / Inside of me é assim, baby. / Outside, porém, é outro lance: / Meu amor nada sabe / da minha sandice. / Não beija quente / nem fala inglês. / Toca-me com doçura / e ama minha nudez / de moça pura.
NOELIA RIBEIRO - Poemas da poeta Noelia Ribeiro que é graduada em Letras pela UnB e é autora de obras como Expectativa (1982), Atarantada (Verbis, 2009) e Escalafobética (Vidráguas, 2015). Recebeu da Secretaria de Cultura do Distrito Federal o Prêmio FAC 2017 – Igualdade de Gêneros na Cultura. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Se eu tivesse parado de produzir ao escutar os primeiros repúdios moralistas à minha estética e temática, não seria artista. Tivemos as reações contra os impressionistas, o conceito nazista de arte degenerada, repúdios no nosso próprio modernismo e, mais recentemente, a destruição de patrimônios históricos da humanidade por extremistas religiosos no Oriente. Dessa forma, podemos refletir que a intolerância não gera conhecimento, e tão somente destrói, deforma e aprisiona as mentalidades.
ANASOR ED SEAROM – Arte da artista plástica e ilustradora Anasor ed Searom, pseudônimo de Rosana Moraes, que possui obras que já foram expostas em acervos públicos e privados de todo o Brasil e de outros países. Ela desenvolve uma obra intrigante e provocadora, questionando e reinterpretando o conceito do que é belo, por meio de pesquisas sobre fragmentos de obras consagradas, inserindo uma intervenção própria por meio de técnicas antigas para evidenciar um olhar pós-moderno. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE ÉRICO VERÍSSIMO
A gente foge da solidão quando tem medo dos próprios pensamentos.
A obra do escritor Érico Veríssimo (1905-1975) aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


sexta-feira, setembro 28, 2018

FLORBELA ESPANCA, ÉRICO VERÍSSIMO, CAPRA, ŽIŽEK, AL JARREAU & KARIN LAMBRECHT


NEGÓCIO FECHADO - Imagem: arte da pintora, desenhista, gravadora e escultora Karin Lambrecht. - Quem na terrinha boa de Alagoianhanduba não conheceu Dudé Costa, aquele que recebeu de batismo o nome de Dermmevaldito Constantinácio Costa, figura do rol dos comerciantes de abastança, de longas eras, gordo para mais de duzentos quilos, numa estatura prá lá de disforme? O dito cujo era tido por todos como pirangueiro, espirituoso, mulherengo e de um senso de humor mordaz, capaz de desequilibrar qualquer sujeitinho metido a besta e de nariz empinado, dissolvendo com sua astúcia peculiar qualquer pronúncia doctilóquia da empáfia pedante alheia, deixando o interlocutor mais rasteiro que sombra de cobra. Sim, este era o Dudé Costa, homem de muitas loas e embustes jocosos, não dispensando de seu astuto tirocínio, uma resposta afiada bem no cachaço da inquirição atrevida, desbancando idiota, imbecil, retardado ou quejando que seja. Brincasse com ele não, o inclemente boi lambido saía de pavio apagado, diziam e com veemência para não se ter dúvida alguma. Lembro-me de tantas contadas, narradas, assoletradas, inventadas, relatadas e mangadas por amigos, inimigos, simpatizantes e prejudicados do ar intrépido do bonachão que, ao longo dos anos, de serem repetidas às bocas e ouvidos nas mais impróprias ocasiões, viraram folclore do lugar, tornando figura tão impar no seio de uma sociedade em formação e com o seu maldizente jeitão de desmoralizar qualquer folgado do tipo diferencial de Rural ou que só boca de sino. Assim era. O distinto obeso era um daqueles típicos personagens da província, de extrema riqueza lendária, possuidor de uma paranóia de que estava sendo roubado e ao redor de toda mendacidade universal, atribuindo-lhes acontecidos nunca dantes possíveis no trâmite da sua vida tão recheada de lorianismos quanto de esperteza. Mais que isto, Dudé Costa virou fonte do anedotário local como referência de austeridade, pirangagem, vivacidade e sabedoria: Enrolão comigo é na base do tacão!, repetia ele na maior gozação. Apesar de comerciante era um homem de bem, incapaz de ofender um pinto, principalmente se fosse dele. Mantinha ele um enorme armazém na praça principal da cidade, que era, ao mesmo tempo, um depósito entupido de produtos e mantimentos de toda espécie, armazenados do piso ao teto, de frente aos fundos, vendendo de tudo que se imaginasse existir. Se se quisesse alguma coisa, fosse lá que tinha o peso e o preço exato. Precisava-se disso, ele tinha; necessitava-se daquilo, prontinho na hora. O que mais? Isso, aquilo, daqueloutro, agora mesmo! Daquele ali, naqueloutro, mais desse, nesse, esse, tudo arrumado, embrulhado, empacotado, embalado, ajeitado em conformidade com o pedido referenciado. Fosse o que fosse, na hora! Pronto, exato. Medido e contado: pague-se. Ninguém sabia o verdadeiro nome da loja, diziam apenas do Armazém do Dudé. Sabiam apenas que aquele estabelecimento se estendia por quatro portas estreitas de frente, em cor desbotada entre paredes esburacadas que iam dar numa marquise que segurava uma placa com algumas palavras já indecifráveis no tempo. Eram quarenta metros de frente por uns duzentos de fundos, tudo dividido apenas por um balcão comprido, de um lado a outro, no interior do pavimento, para recepcionar os fregueses assíduos, requerentes das coisas mais inusitadas. E o resto? Tudo amontoado no interior do vão, numa desordem indescritível, não obstante encontrado à primeira procura, visto já saber onde se encontravam todas as encomendas requeridas. Verdade! Adivinhava mesmo o fi'o da peste. Decifrou-se depois de muito malabarismo intelectual que a inscrição grotesca da placa na sacada da loja, misturada a mofo, poeira e tinta velha, seria o nome jurídico da empresa em questão: Dermmevaldito Constantinácio Costa & Filhos & Cia. Ltda., nome este escolhido por ele próprio, com o objetivo de se inscrever no Cadastro Geral do Contribuinte do Ministério da Fazenda. Era a razão social esta escolhida depois de insistentes visitas de fiscais fazendários e, muitas e muitas noites de sono, dedicadas pelo contador Tabosa, encarregado da escrita daquele empreendimento comercial. Inclusive, quando se definiu tudo, Tabosa tirou três meses numas férias das boas, vez que se encontrava estressado com tanto puxa-e-encolhe do bonachão. Na placa ainda se via, apesar da dificuldade legítima imposta pelo desgaste, a figura de um jacaré, responsável pelo patrocínio do negócio e, ao mesmo tempo, representando o maior símbolo de prosperidade turística do município. É que na praça central, a prefeitura fez construir um tanque de proporções agigantadas para abiscoitar os munícipes, onde se mantinha a criação de um aligatorídeos. Era um jacaré-de-óculos, afeição maior das crianças e da população em geral, que possuía uma aresta transcendental, unindo, pela parte dianteira, as duas margens salientes das órbitas oculares, parecendo-se o aspecto de estar usando um piscinez. Apresentava o réptil fluvial uma cor escura no dorso meia que esverdeada com manchas amareladas e, apesar de manso, o crocolídeo, vez por outra, aprontava das suas, a exemplo do fato de jantar o braço de João Noé, o pé do filho de Abinadab dos bichos, o dedo de Natálicia Dulcemena, a caçola de Cremildita-fudedora, a vergonha de Terêncio, o escapulário da beata Prazeres do Céu, um disco de Taiguara do Jabão Campos, o velocípede de Nininhozinho, filho do tabelião do cartório único de notas, Osvaldinito, entre outros transtornos de somenos importância. O emidossário era o centro das atenções e todos os dias o povinho corria vexado, arrudiando o tanque o dia e a noite inteiros. Peiticavam o tempo todo em busca de um bote certeiro no atrevimento dos curiosos. E olhe que de vez em quando, o bicho abocanhava tudo e, algumas vezes, vomitava o indigesto longe. O nó cego todo é que ele gostava mesmo era de mastigar dureza, deixando um buliçoso aos prantos para felicidade geral da populaça. O espetáculo só era completo, quando ele atiçado tascava o revestrés respondendo com um fatídico susto de torar aço em destemidos que incomodavam. Tal movimentação na praça fazia com que o armazém do Dudé também prosperasse, já que alguns desavisados perdiam ou tinham por perdido alguma coisa e precisavam recorrer a ele objetivando fazer retornar o perdido, adquirindo algo similar. O próprio comerciante mantinha o réptil onicarnívoro de tudo com uma boa alimentação regada a carne de mamíferos, aves e insetos. Essa atitude do avarento era o símbolo da sua gratidão para com o animal, principalmente pelo lucro constante nos negócios. Um dia, o jacaré sumiu. Remexeram tudo, os cafundós de Judas, as entranhas das grutas, os deltas do rio, as botijas perdidas, os bolsos dos ricos, os arquivos da justiça, as curvas dos ventos, os limites dos mares, os pólos norte e sul, e nada. Ninguém sabia, ninguém viu; apenas arribou. Desaparecera. Mesmo assim, curiosamente, Dudé vendia de tudo; de agulha do que se pensasse à bomba do que se imaginasse. Tudo ali. Era só chegar, pedir ao proprietário que vivia sentado em frente a uma máquina registradora que repousava sobre um birôzinho pequeno do tamanho dela e de onde jamais se afastava, logo atendido exatamente nos conformes da solicitação. Uma coisa curiosa: nada de fiado, era imperiosa a necessidade de pagamento certo e líquido, a vista em papel ou moeda corrente no país, no exato momento da recepção do pedido. Cheque, nem vê, - num é dinheiro, dizia. Fiado! Ninguém nunca usara dessa modalidade de prestação, parcela, valsa, crediário ou consignações ao mão-de-figa. Esta atitude rendeu-lhe a chacota de judeu, de turco, de Tio Patinhas e de outras nominações que representassem o repúdio à sua sovinice, além de insinuações de que o desaparecimento do jacaré devia-se ao fato dele criar o sequestrado a modos pessoais, embaixo da sua cama. Rumor ainda hoje suspeitável. Porém, certa feita recebera Dudé o requerimento de um conterrâneo de infância, o Rudinaldo Veloso, por cartuchos de espingarda, um punhado de pólvora, uma faca peixeira de doze polegadas e vinte balas de revólver calibre trinta e oito, visto que o mesmo tencionava caçar por mata virgem, cabendo precaução, ao que foi atendido com exatidão, na ponta do lápis conferido, tirado a prova dos nove, e tudo certo. Ambos eram figuras de uma infância passada e de uma intimidade que não se reduzia aos limites da convivência. Durante o atendimento zombaram um do outro, trocaram insultos visando menosprezar as virtudes imodestas de cada um, pabulagens fúteis de dois aprontadores das maiores arteirices juvenis, quando, tantantantan, somado número por número em algarismos graúdos duma caligrafia esmerada num papel grosso de enrolar carne de boi, checado com o material já embrulhado, o proprietário, após o somatório competente, exibiu a conta e cobrou do requerente, a quantia exata de trinta e seis cruzeiros e cinquenta e quatro centavos. O visitante se fazendo por dissimulado requereu descontos o que levou negativa peremptória na lata. Com a posição determinada, teve então de sacar dos bolsos, isso depois de muita lengalenga, trinta e cinco cruzeiros que os fez jogar no balcão recolhendo o embrulho de suas compras, quando recebeu a recusa do gordão, dando início a mais inflamada das discussões. Faltava, portanto, para concluir a transação, o correspondente a um cruzeiro e cinquenta e quatro centavos, o que permitia a apreensão da mercadoria requisitada. Rudinaldo que era amigo de muitos anos do lojista, exigiu os descontos convenientes recebendo mais uma negativa veemente nas fuças: Se quer descontos, vá comprar na puta que o pariu!  Estranhou, de propósito, a avareza dele. Desde crianças, segundo relatos deles mesmos por mim presenciado, que investiram muita dedada no cheira-peido deles mesmos, muito cavalo-mago trocado, muita bronha coletiva pelos mesmos fundilhos da piniqueira alheia, avistado muitas bundas-ricas de beatas, das donas dos casarões, além de esbofeteado um bocado de puta na coréia, armadores que eram das maiores estripulias e agora, estavam ali, trocando ofensas. Conversa vai, conversa vem, Dudé cobrando o devido senão a mercadoria não arredaria dali um só centímetro. E a nossa amizade por quantia tão irrisória? Irrisória é a cabeça da minha rudia! Rudinaldo com o intuito de enrolar voltou a contar histórias da época de maloqueiros quando estupraram uma mocinha no escurinho atrás da prefeitura e ambos caíram às gargalhadas. Foram assacadas piadas, situações jocosas, soltas e faltava um cruzeiro e cinquenta e quatro centavos. O devedor abufelou-se e jogou, com raiva, no balcão, a cédula de um cruzeiro e já ía tomando o pacote, quando foi interpelado para depositar, às vistas do mão-fechada, as moedas equivalentes aos centavos devidos, senão sustaria a entrega da mercadoria: Sem isso, o embrulho não sai nem com ordem judicial! Parecia uma quebra-de-braços das ineivadas, os dois segurando o invólucro, um puxava do lado, o outro arrastava para dentro e, nesse vai-e-vem, o comprador exaltou-se, meteu dois dedos na algibeira, expondo as moedas relativas àquela quizília, contados e conferidos ali mesmo, alegando, aos esporros, que situação era aquela em que não poderia mais se dar ao luxo de uma amizade sadia onde alguns centavos determinavam a irredutibilidade numa transação o que, o gorducho, sentenciou que dali só sairia alguma coisa dele com pagamento certo e fim de papo: Vá cortar cu-de-cobra, Zé Bostinha! -, arremedou Dudé. Brigas como esta eram constantes e registradas nos anais da gaiatice popular. Pois assim era Dudé, extravagante no peso, exagerado em tudo e quando se falava de dinheiro perto dele, necas, nada de gastar! Até os filhos eram tratados na lei do cão. Para se ter idéia, com os empregados, somente meninos de dez anos de idade, ou até isso. Segundo ele, depois dos dez anos, os maloqueirinhos ficam sabidos e, menino sabido, é um perigo para qualquer negócio. Dos onze filhos apenas um gozava da simpatia dele. Dos outros, tudo para a puta-que-os-pariu, no relho, cabresto justo. Mas não dava folga para nenhum, tudo regrado na avareza. Sizenandilson, não, este era o único que Dudé botava pra ele simplesmente simpatia e nada de dinheiro. Isso porque Sizenandilson era obediente, fazia tudo o que o pai queria, pau-mandado mesmo. Numa certa tarde de sexta-feira, em meados de outubro, um representante comercial de certa multinacional, aportara no balcão do estabelecimento, objetivando uma entrevista com o possuidor daquela loja, Levado pela apresentação de produtos da mais nova extensão tecnológica, lançados, recentemente, no mercado, o visitante queria fechar negócios promissores para atender sua meta. Dudé que se encontrava tomando sua bicadinha de cachaça de cabeça, raiz de pau das boas, trazida do longínquo engenho Tumberado, aperitivo do bom, segundo o gosto dele, pois é só derramar a bicha no chão, bastando um risco de fósforo, para a danada pegar fogo, álcool puro. Inflamável. Isso era toda sexta-feira, bicadinha na mão, lorotas e peidos ao vento e muita pacutia. Chegasse quem chegasse depois do meio dia, Dudé só se interessava em atender a freguesia e mais ninguém. Nem Jesus Cristo descendo da cruz era atendido se quisesse conversar pela sua salvação. No meio de um gole, fora cientificado pelo filho da presença do profissional de vendas nas dependências do seu compartimento o que, de pronto, na ponta da língua, emitiu a resposta de que ele não queria ser incomodado, nem ver porra nenhuma de vendedor lhe amolando o saco para comprar merda nenhuma. O jovem teve de explicar ao genitor que, por educação, deveria recepcionar o visitador porque ele poderia apresentar algum objeto do interesse dele para venda no depósito, o que ele insistiu em não receber porque aquela não era hora nem dia de se comprar nada: Sexta-feira é dia da bicada e do raparigal, mais nada, porra! E o rapaz voltou a dizer pacientemente que não ficaria bem o distinto voltar sem ser recebido justo porque se tratava de uma negociação que poderia ser lucrativa com os possíveis dividendos em curto prazo e dinheiro não se despreza, nem um bom negócio: Ih! Nisso aí, tem cu no meio! - reclamou rejeitando a insistência. De colhão inchado, Dudé estalou, falasse em dinheiro seus olhos brilhavam. E já dava para notar os cifrões mexendo com a sua sensibilidade. Sizenandilson futucava o coração dele, sabia arrancar-lhe a compreensão. E já irado por ter de ceder aos argumentos do filho, vociferou que não tinha saco para tratar nada com ninguém naquela hora e que fosse ele, o representante para a casa do cacete voador, que não queria nada e parasse de atanazá-lo e se quisesse comprar que comprasse, e tomasse no cu do jeito que quisesse e vá prá porra! Depois de muita amolação e enchessão de saco, Dudé, enfim, mais a contragosto que compreensivo, concordou em levar um dedinho de prosa com o esconjurado intrometido que aparecia numa hora daquela para inflar seus colhões. Já no interior do armazém, o indistinto apresentou-se perfilado militarmente, com uma cotinência exagerada e abrindo o verbo, isso ao mesmo tempo em que expunha um catálogo por cima da máquina registradora, ficando em pé mesmo porque ali não existia cadeira ou acento para que os empregados não ficassem ociosos, e explicando o funcionamento e particularidades, vantagens e proveitos de cada máquina, motor, bomba, extrator, soldador, cantoneira, betoneira, diafragma, compressor, vergalhão, bigorna, propulsor e exaustor. Dudé sequer olhou para os catálogos, só com desdém no semblante do condenado. E eram catálogos, folders, prospectos, releases, instruções, lay out, bula, atlas, cartografias, plantas, revistas, gibis, alternativos, informativos, tomos, atas, opúsculos, livretos, traslados, certidões, termos, formulários, minutas, nada. Dudé nem-seu-silva-de-dar-bola. E tome pedras preciosas, cristalografias, cosméticos, perfumarias, boticários, esoterismos, bagulhos, bugigangas, dedais, agulhas, alfinetes, refrigeradores, condicionadores de ar, fogões, panelas, pitisqueiras, utensílios, abajús, lampiões, candeeiros, nada. E Dudé nem aí para quem pintou porca. Mas, instigado pela ironia, largou escárnio certeiro: Esse cabra parece mais o gênio de Aladim, vai ter coisa assim no raio que o parta! A certa altura da exposição incansável dele, Dudé interrompeu as amostras, sugerindo, ao intrometido, ingerir alguma bebida alcóolica, o que com a expressão de espanto, um riso largo no rosto, respondeu espalhafatosamente de forma afirmativa. Enquanto vasculhava os copos e a bebida, ele ainda asseverou na munganga: Eu queria era ver você trazer isso tudinho que me mostrou nas suas costas ôcas, desgraçado. Queria ver esse carregamento na cacunda de um corno! Héhéhé, que é isso seu Dudé? Todo castigo para corno é pouco! Dois copinhos miúdos na frente, encardidos, duas lapadinhas para se animar a conversa, ou seja, o monólogo e veio o ritual; ofereceu uma pro santo, benzeu-se e ingeriram juntos o queimor absoluto da aguardente. Tá cá gôta, essa arrepia até o retrato!, bafejou o estranho. Caretas, doses, o palavrório teve reinicio com explicações detalhadas sobre o funcionamento de bombas hidráulicas e da margem de lucro oferecida pelo produto, da rentabilidade prosperando no comércio, da exclusividade de exposição com uma expositora bem boazuda de shortinho persuadindo o infeliz do cliente a comprá-la já, uma promotora de merchandising escolhida a dedo por ele proprietário, quando o tinhoso arregalou os olhos e pensou: Mulher? Ah! Mulher, mulher sim, teve boceta no meio eu gosto! -, e conversa vai, conversa vem, já se falava de fossas, lajes, ripas, caibros, tijolos, telhas, cimento, areia, o homem se ingicando com tanta coisa do insistente, nada: Ô, seu home-da-cobra, quando é que vai voltá o conversê de boceta de novo, hem? Vamo, fale do que é bom, seu cabra! O sujeito ficou desconcertado com essa enquanto Dudé amolegava a pêia imaginando uma gostosa no seu colo: Tô já cumendo o cu desse veado besta! Cu de bêbo num tem dono, aviso logo! Duas novas lapadinhas e talagadas certeiras goela adentro, seguidas de novas explicações, fuxicos, miolo de pote, disparates, mentiras, arrazoados, imposturas, petas, potocas, fraudes, nada: Num tem foto de mulher nua nisso não? O inarredável vendedor sacou lá do fundo do baú um calendariozinho com aquelas maravilhosas pin-ups, do nego velho ficar zarolho com uma mulher arreganhada na foto. O inchado agarrou-se ao presente, deu uns beijos demorados nos arreganhos da fotografada, fazendo juras de amor. Quase que o visitante perde a cabeça com aquela baboseira. Mais duas talagadas, respirou fundo e tome explicações e mais tubos de PVC, satélites, sivam, corrupções, inox, chaleiras, alumínio, corda, ferro, tralhas, grampos, jamps, miséria, impeachment, juros, correções, siderurgia, leilões, metalurgia, privatizações, CPIs, ônibus, mixórdia, interesses, manchetes, dentifrícios, shoppings, pão, circo, eletrodomésticos, inflação, eletroeletrônicos, sonegações, sequestro, violência, baixaria, hipocrisia, revelações, notícias, calúnias, colmeias, latifúndios, desterrados, expatriados, cidadania, fome, solidariedade, utopias, liminares, injustiças, sentenças, reparações, desaparecidos, indenizações, cobranças, delinquências, inadimplências, crimes, impunidades, sequelas, aids, vitrines, vibriões, cauções, esbravejamentos, liquidações, intervenções, greves, mobilizações, gols, torturas, cacetes, modernidade, progresso, democracia e caralho a quatro, nada. Dudé só embromando, virando os olhos com as boazudas das folhas. Suor caindo no rosto, pescoço enxaguado, gravata afrouxada, cansaço nas pernas, duas lapadas, meio mundo de portfólios explicativos, nada. Dudé arremedando a leseira dele, cafungando com as páginas de suas gostosas, insinuando punhetar-se. Quando então aparece um cliente, o pesadão se levanta, derruba tudo e deixando o outro a falar sozinho. Tudo no chão, espalhado, agonia para arrumar tudo. Freguês atendido, mais duas doses da tirana, novas colocações persuadindo o velho, nenhuma resposta, nenhum sinal de interesse, todas as máquinas, assinaturas, pedidos, bíblias, santinhos, tipografias, cordões, relógios, securitários, consórcios, capitalizações, carnês, artesanatos, planos, orçamentos, previsões, planilhas, posições, relatórios, borderôs, listagens, projetos, procurações, autorizações, contratos, formulários, nada. Dudé sapecando enrolação. Já cansado e tentando empolgar o impassível comerciante, o ousado recebeu mais duas bicadinhas, ocasião que solicitou, delicadamente, da existência de qualquer tiragostinho para melhor digerir a quente, o que, riso cheio, vencedor e feliz, Dudé, ritualísticamente, pôs uma das mãos num dos seus bolsos longos joelho abaixo, remexeu, saculejou, trazendo, da empreitada, dois confeitinhos de mel de abelha no meio de um riso reprovador para satisfazer o desejo do corajoso: Taí, seu merda! O cara teve um troço, foi levado às pressas para uma emergência e nunca mais deu as caras por ali. Num disse! Demorasse mais, eu envergava o gogó desse fresco! Ora se. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do saudoso cantor estadunidense Al Jarreau (1940-2017): Live in Italy, Newport Jazz Festival, Live at Montreux Jazz Festival & Leverkusener Jazztage & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] até mesmo a defesa neoconservadora de valores tradicionais aparece sob nova luz: como uma reação contrária ao desaparecimento de uma normatividade legal e ética, gradualmente substituída por regulações pragmáticas que coordenam os interesses particulares de grupos diferentes. Esta tese pode parecer paradoxal: não vivemos nós na era dos direitos humanos universais. [...] não vivemos nós na era dos direitos humanos universais, que se afirmam até mesmo contra a soberania estatal? O bombardeio da Iugoslávia pela OTAN não foi o primeiro caso de intervenção militar realizada em decorrência de pura preocupação normativa (ou, pelo menos, apresentando-se como assim realizada), sem referência a qualquer interesse político-econômico “patológico”. Essa nova normatividade emergente para os ‘direitos humanos’ é, entretanto, a forma em que aparece seu exato oposto. [...]. Trechos extraídos de Direitos humanos e ética perversa (Folha de S. Paulo, 1º/jul./2001), do filósofo, professor, teórico crítico e cientista social esloveno Slavoj Žižek. Veja mais aqui.

PERTENCENDO AO UNIVERSO - [...] No velho paradigma, acreditava-se que em qualquer sistema complexo a dinâmica do todo poderia ser compreendida a partir das propriedades das partes. No novo paradigma, a relação entre as partes e o todo é invertida. As propriedades das partes só podem ser entendidas a partir da dinâmica do todo. Em última análise, não há partes, em absoluto. Aquilo que chamamos de parte é meramente um padrão numa teia inseparável de relações. [...] No velho paradigma, acreditava-se que a soma total dos dogmas (todos, basicamente, de igual importância) acrescentava-se à verdade revelada. No novo paradigma, a relação entre as partes e o todo é invertida. O significado de cada dogma só pode ser entendido a partir da dinâmica das revelações como um todo. Em última análise, a revelação como processo constitui-se num bloco único. Os dogmas focalizam momentos particulares da auto manifestação de Deus na natureza, na história e na experiência humana. [...] No velho paradigma, pensava-se que havia estruturas fundamentais, e também que havia forças, e mecanismos por cujo intermédio estas interagiam, dando, dessa forma, nascimento ao processo. No novo paradigma, cada estrutura é vista como a manifestação de um processo subjacente. Toda a teia de relações é intrinsecamente dinâmica. No velho paradigma, pensava-se que havia um conjunto estático de verdades sobrenaturais que Deus pretendia nos revelar, mas o processo histórico pelo qual Deus as revelou foi visto como contingente e, portanto, de pouca importância. No novo paradigma, o processo dinâmico da história da salvação é, ele próprio, a grande verdade da auto manifestação de Deus. A revelação, como tal, é intrinsecamente dinâmica. No velho paradigma científico, acreditava-se que as descrições eram objetivas, isto é, independentes do observador humano e do processo de conhecimento. No novo paradigma, acredita-se que a epistemologia - a compreensão do processo de conhecimento - deve ser incluída explicitamente na descrição dos fenômenos naturais. A esta altura, não há consenso a respeito do que seria uma epistemologia adequada, mas há um consenso emergente de que a epistemologia terá de ser parte integrante de cada teoria científica. No velho paradigma teológico, presumia-se que os enunciados eram objetivos, isto é, independentes da pessoa que crê e do processo de conhecimento. No novo paradigma, sustenta-se que a reflexão sobre modos não-conceituais de conhecimento - intuitivos, afetivos, místicos - deve ser incluída explicitamente no discurso teológico. A esta altura, não há consenso quanto à proporção em que os modos de conhecimento conceituais e não-conceituais contribuem para o discurso teológico, mas há um consenso emergente de que modos de conhecimento não-conceituais constituem parte integrante essencial da teologia. A metáfora do conhecimento como construção - leis fundamentais, princípios fundamentais, blocos de construção fundamentais, etc. - tem sido usada na ciência e na filosofia ocidentais por milênios. Durante as mudanças de paradigma, sentiu-se que os alicerces do conhecimento estavam se desagregando. No novo paradigma, essa metáfora está sendo substituída pela metáfora da rede. Na medida em que percebemos a realidade como uma rede de relações, nossas descrições formam, igualmente, uma rede interconexa representando os fenômenos observados. Nessa rede, não haverá hierarquias nem alicerces. A mudança de construção para rede também implica o abandono da idéia de que a física é o ideal por cujo intermédio todas as outras ciências são modeladas e julgadas, e a principal fonte de metáforas para descrições científicas. A metáfora do conhecimento como construção - leis fundamentais, princípios fundamentais, blocos de construção fundamentais, etc. - tem sido usada em teologia por muitos séculos. Durante as mudanças de paradigma, sentiu-se que os alicerces da doutrina estavam si desagregando. No novo paradigma, essa metáfora está sendo substituída pela metáfora da rede. Na medida em que percebemos a realidade como uma rede de relações, nossos enunciados teológicos formam, igualmente, uma rede interconexa de diferentes perspectivas sobre a realidade transcendente. Nessa rede, cada perspectiva poderá produzir introspecções válidas e únicas no âmbito da verdade. A mudança de construção para rede também implica o abandono da idéia de um sistema monolítico de teologia como sendo aquilo que constitui a ligação para todos os que crêem e como fonte única para a doutrina autêntica. [...] No novo paradigma, se reconhece que todos os conceitos, todas as teorias e todas as descobertas são limitadas e aproximadas. A ciência nunca poderá fornecer uma compreensão completa e definitiva da realidade. Os cientistas não lidam com a verdade (no sentido de correspondência exata entre a descrição e os fenômenos descritos); eles lidam com descrições limitadas e aproximadas da realidade. [...]. Trechos extraídos da obra Pertencendo ao universo: explorações nas fronteiras da ciência e da espiritualidade (Cultrix, 1991), do físico e escritor Fritjof Capra. Veja mais aqui.

A NOITE – [...] Ele observava a mulher com um misto de admiração e inveja, enquanto ela, com um copo na mão, andava dum lado para outro, de grupo em grupo, soltando risadas, como se a dona da casa a tivesse encarregado de animar a festa. Com que facilidade fazia amigos, com que envolvente encanto tratava a todos! Era indiscutivelmente a pessoa mais popular do grupo. Ele, entretanto, não podia deixar de sentir um mal-estar quando a via cercada de homens. Sim, porque a consciência de suas falhas como marido o havia levado implacavelmente à conclusão, à certeza de que mais tarde ou mais cedo ela acabaria tendo um amante. Era evidente que os homens a admiravam e desejavam. Até mesmo os amigos mais íntimos do casal a cortejavam. Era natural que a considerassem presa fácil, pois decerto interpretabam mal sua fraqueza, sua alegria, sua familiaridade... Não poderia ela ser menos expansiva? Não tinha idade suficiente para saber que as pessoas são perversas, maliciam tudo? E que mania irritante, aquela de tocar sempre o interlocutor! Lá estava ela a dar palmadinhas na mão dum homem... [...] A música parou. Ela correu para o garçom que passava com uma bandeja, apanhou um copo e bebeu um gole largo. Três homens a cercaram. A orquestra rompeu uma rumba. Todos pareciam querer dançar com ela. disputavam-na. Um segurou-lhe o braço, outro enlaçou-lhe a cintura, o terceiro pôs-se a dançar na frente dela, rebolando despudoradamente as ancas. (Do fundo do casarão três velhas secas viam tudo e comentavam: “Bem como uma cadelinha cercada de cachorros”). [...]. Trechos extraídos da obra A noite (Globo, 1995), do escritor Érico Veríssimo (1905-1975). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS – EU - Eu sou a que no mundo anda perdida, / Eu sou a que na vida não tem norte, / Sou a irmã do Sonho, e desta sorte / Sou a crucificada ... a dolorida ... / Sombra de névoa ténue e esvaecida, / E que o destino amargo, triste e forte, / Impele brutalmente para a morte! / Alma de luto sempre incompreendida! ... / Sou aquela que passa e ninguém vê ... / Sou a que chamam triste sem o ser ... / Sou a que chora sem saber porquê ... / Sou talvez a visão que Alguém sonhou, / Alguém que veio ao mundo pra me ver / E que nunca na vida me encontrou! DESEJO - Quero-te ao pé de mim na hora de morrer. / Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade, / Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver / Amortalhado sempre à luz duma saudade! / Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco / Se ungir da palidez sinistra do não ser, / E quero ainda, amor, no meu supremo arranco / Sentir junto ao meu seio teu coração bater! / Que seja a tua mão tão branda como a neve / Que feche o meu olhar numa carícia leve / Em doce perpassar de pétala de lis.../ Que seja a tua boca rubra como o sangue / Que feche a minha boca, a minha boca exangue!... / Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!... Poemas da poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, desenhista, gravadora e escultora Karin Lambrecht. 
Veja mais aqui.

AGENDA
Lídia Baís Arte Postal & muito mais na Agenda aqui.
&
Quem anda de noite que vê muita coisa, também cala a boca, Robert Louis Stevenson, Celso Furtado, J. Borges, Oswaldo Goeldi, Bóris Trindade, Amaro Matias Silva, Meio Ambiente & Educação, Beto Guedes, Miriam Ramos, Álvaro Henrique & Cris Braun aqui.
&
Lingua falou, cu pagou!, Thiago de Mello, Hans Bellmer, Sérgio Augusto, Mario Sette, Ronildo Maia Leite, Sidney Wanderley, Ivan Lins, Viviane Hagner, Nando Lauria & Julya Cristal aqui.
&
A segunda do Padre Cícero, Ralf Waldo Emerson, Monteiro Lobato, Sérgio Valle Duarte, Paulo Caldas, Generino Batista, Paulo Santos & Genésio Cavalcanti, Elomar Figueira de Mello, Tomoko Mukaiyama, Ricardo Silveira & Ná Ozzetti aqui.


sexta-feira, dezembro 09, 2016

ÉRICO VERÍSSIMO, JORGE DREXLER, LUCIAH LOPEZ & O FULGOR DO AMOR

O FULGOR DO AMOR - Imagem: Trapiche na Praia de Brasília – Ilha do Mel – Paranaguá (PR), foto da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. - Tudo começa com um beijo e eu mais que premiado nos cálidos lábios dela, provo do bom e do melhor de tudo que os ventos levam e trazem na brisa dos dias que se vão pelas noites no que a existência possa proporcionar a quem só soube os destrambelhos da trajetória. Sou conquistador vitorioso nessa gloriosa festa e vencido com o prazer de súdito da grandiosa realeza dela. Não há nada maior que a sensação de recolher na sua boca toda luz da alma comungada, mão na mão, pele, afagos, atrações. Tudo é tão perto como se a distância do longe fosse do abissal à flor d’água para o mergulho das profundidades mais guardadas no fundo do mar que sou eu perdido na sua sedução. É o desvelamento dos mistérios iniciáticos da entrega na sua plena completude e sou inteiro a compartilhar da inteireza de suas expressões, concavidades, convexidades, entre as quais sou feliz em me perder e me achar quando de nada espero além de viver. E o prêmio reluz magistral quando o riso dela é a minha vida grata por ser de seu o que é meu e dela sou mais do que a mim mesmo na sua mais que verdadeira emanação. Sou-lhe mais que grato e sempre na sua carne as minhas pegadas nas travessias refratárias do que sou de mim pra ela e dela pra mim nos moldes exatos dos encaixes que nos faz unos e inteiros no fulgor do amor. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui & aqui. 

 Curtindo os álbuns Eco (Dro Atlantic, 2004 – Warner, 2005), do cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler.

Veja mais sobre:
Alô, alô Recife, tô chegando, Aníbal Machado, Chico Buarque, Pedra de Roseta, Otto Maria Carpeaux, António Pedro, Maura de Senna Pereira, Teatro Grego, Todd Solondz, Selma Blair, Viva a diferença & o Brasil contra a corrupção aqui.

E mais:
Formação docente na Educação Especial, Literatura de Cordel & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
O professor & a Inclusão, Pedro Onofre, Simone Moura Mendes, Sandra Magalhães Salgado, Justiça à Poesia & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Educação & Cidadania, Cidinha Madeiro, Mácleim, Íbys Maceioh, Carlito Lima, Naldinho Freire, Lucciana Fonseca, Fagner Dubrown, Aline Romariz & o Portal do Poeta Brasileiro, Teco Seade, Demis Santana, Rogério Dias & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Educação Especial & Inclusão, Ronaldo Freire & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Inclusão Escolar, Arriete Vilela, Demis Santana, Jorge Calheiros, Ricardo Cabús, Geraldo Câmara, Maria Luísa Russo, Chico de Assis & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Leitura, Aprendizagem & Prática Pedagógica, Maria Teresa Pereira & Proler, Queridina & Macambira, Carolina Leopardi, Isvânia Marques, Jorge Calheiros & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Leitura, Celso Sisto, Aline Romariz & Portal do Poeta Brasileiro, Simone Cavalcante, Ricardo Cabús & Instituto Lumieiro, Gal Monteiro, Fátima Maia, Rogerio Dias, Cida Lima & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Lêdo Ivo, Brincar & Aprender, Cidadania & Direitos Políticos, Aline Romariz, Simone Moura Mendes & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Educação, Interdisciplinaridade & Transversalidade, Orientação Sexual, Turma da Carochinha & Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Educação & Temas Transversais, Maria Luísa Russo, Marcia Sarmento & Turma da Carochinha, Bienal do Livro de Alagoas aqui.
Falando de Sexo, Simone de Beauvoir, Eduardo Galeano, Erik Erikson, Wilhelm Reich, Rudolf Peyer, Ana Maria Fonseca Zampieri, Jurema Furlani, & Zine Tataritaritaritatá aqui.
Habermas, República & Civilização Brasileira, Inclusão & Doro aqui.
Cento e oitenta e sete horas de amor aqui.
Princípio da Afetividade, Palavra Mínima & Fátima Maia aqui.
Michael Moore & Capitalism, a love story aqui.
Doro Presidente aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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DESTAQUE: ÉRICO VERÍSSIMO
[...] Neste dia gris de duas dimensões, nem os livros têm sentido. [...] Parece que tudo se imobiliza num silêncio polar. Procurou um romance tropical. Encontrou nele um sol de gelo, uma vegetação de cinza e criaturas que diziam palavras brancas de sentido. Abriu cinco livros para fechá-los logo em seguida. [...] Por fim ficou sentado, de olhos fechados, caçando recordações. [...]
Trechos extraídos da obra Caminhos cruzados (Globo, 1978), do escritor Érico Veríssimo (1905-1975). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Depois da meia noite de que me vale o sono, se você não vem? Asgaard é logo ali, num canto do quintal onde a lua faz carícias na copa do arvoredo desenhanho crivos pelo chão. O meu corpo está deserto e as feras do meu medo, rondam pela sombra, soltando rugidos e lambendo os meus pés desnudos. As feras de mim mesma! O que é a noite sem os teus beijos acendedores que são, das minhas estrelas?! O que posso desejar da noite, se não, a concha da tua mão onde repousar meu seio?! De que me vale a noite, se eu sou escuridão sem a tua luz?
Reflexão – poemas & imagens da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...