
DITOS & DESDITOS: [...] Quis distrair-me,
penetrar na conversa, tomar parte no assunto, não abandonar o amigo, prestar
atenção às suas frases e opiniões, apoiá-lo ou divergir, mas nada consegui.
Palavras que em qualquer outro momento me despertam e agitam – fome, miséria,
injustiça, opressão, liberdade, direito, saúde, alegria – naquele instante eram
fluidas, sem cor e ressonância. Minha vontade desaparecera ante a eloquência do
apelo dos pés. [...] Por que veio ela com seu sapatinho branco, todo branco e todo aberto,
criar nova personagem no espetáculo que meus olhos já começavam a definir e
classificar? Onde vai assim, leve, leve, como se voasse? [...] Por que delirava eu? Como caíra naquele
estranho mundo de pés? Começara manso e simples meu delírio, [...]. Mas crescera tanto [...], obrigava-me agora a adivinhar cada vez mais
[...] Quando cheguei à sala das mulheres,
no Pavilhão dos Primários, logo meus ouvidos se encheram do ruído dos pés.
[...]. E o ruído incessante: eram
tamancos, tamancos que andavam entre quatro pequeninos pedaços de chão.
[...] Considero-me uma mulher
profundamente feliz, sei o que sou porque cedo tomei posse de meu destino e
pela estrada escolhida caminho sem desfalecimentos [...]. Trechos de Apelos dos pés, extraídos da obra Aruanda/Banho de cheiro (Secult, 1989),
da escritora, jornalista, pesquisadora e militante política Eneida de Moraes (1904-1971), autora de
obras como Promessa em azul e branco (1957), História do carnaval carioca
(1958), entre outras.
GORJALA
É um gigante preto e feio, que habita as serras penhascosas. Sua
ferocidade lembra a de Polifeno, de Homero, do qual é um descendente criado na
imaginação sertaneja. Anda com suas passadas imensas pelas ravinas, escarpas e
grotões. Quando encontra um indivíduo qualquer, mete-o debaixo do braço e vai
comendo-o as dentadas! Outrora, quando um explorador desaparecia nos lugares
intransitáveis, desconhecidos, por ter tombado num despenhadeiro profundo ou
por ter sido devorado pelos índios, os seus companheiros afirmavam que o
Polifeno Gorjala o devorara a dentadas... Os seringueiros da Amazônia conhecem
o Gorjala sob a forma do gigante batalhador, encouraçado de casco de tartaruga,
chamado Mapinguari.
GORJALA – Lenda extraída da obra Ao som da Viola – folclore (Leite Ribeiro, 1921), do
advogado, professor, museólogo, folclorista e escritor cearense Gustavo Barroso (1888-1955). Veja mais
aqui e aqui.
MATA HARI, A DANÇARINA DOS SETE VÉUS
Minhas danças são pura espiritualidade.
MATA HARI – A arte da dançarina exótica holandesa Margaretha
Gertruida Zelle (1876-1917), conhecida como Mata Hari – que em malaio significa Olhos de Sol. Ela
foi acusada de espionagem e condenada à morte por fuzilamento, durante a
Primeira Guerra Mundial. Toda sua vida foi discutida e levada para as mais
diversas linguagens artísticas. No cinema, encontrou-se o drama filme mudo Mata Hari (1927), dirigido por Friedrich
Feher; o filme Mata Hari (1931),
dirigido por George Fitzmaurice, com Greta Garbo no papel
principal, descrevendo seus últimos dias de vida; o drama/romance Mata Hari – A Agente 21 (1964), dirigido
por Jean-Louis Trintignant e estrelado por Jeanne Moreau; a comédia Casino Royale (1967), em que James Bond
apaixona-se por ela tem uma filha, a Mata Bond; o drama/thriller Mata Hari (1985), dirigido por Curtis
Harrington, com a atriz holandesa Sylvia Kristel; o filme Mata Hari (2013), dirigido por David Carradine; e o musical Mata Hari (2016), dirigido por Jeff
Tudor. Em livro, encontra-se edições como The Unexpurgated Diary of Mata
Hari (Carroll & Graf Pub, 1984); o livro Mata Hari: The True Story (Hardcover,
1986), com a sua biografia contada por Russel Warren Howe; o livro Mata Hari: a amante fatal (Rosa dos
Tempos, 1997), de Julie Wheelwright; o livro Mata Hari: sa véritable histoire (2003), do historiador Philippe
Collas; o livro Femme fatale: love, lies, and the unknown life of mata hari (Harper
Perennial, 2008), de Pat Shipman; o livro Assinado, Mata
Hari (Record, 2011), de Yannick Murphy, revela facetas menos conhecidas da
suposta espiã do início do século XX; o livro Mata
Hari: the controversial life and legacy
of world war i’s most famous spy (CreateSpace, 2016), de Charles River; e o livro The Spy:
a novel of Mata Hari (Vintage,
2017), de Paulo Coelho. Também um artigo intitulado
The execution of Mata Hary - Eye Witness
to History – (International News Service, 1917/1987), do jornalista
britânico Henry Wales, detalhando o momento dramático do seu fuzilamento,
dramático momento, descrevendo a expressão de seu rosto, a maneira como caiu e
a disposição final de seu corpo no chão. Por fim, a mostra Mata
Hari: - o
mito e a donzela (2017), marcando o seu
centenário no Museu da Frísia, em Leeuwarden - (Holanda) -, sua
cidade natal. Todas as obras e estudos levam à sua inocência e que ela foi
vítima, por sua ambição e beleza, de uma armação das autoridades francesas. O
seu corpo não foi sepultado, foi dissecado e usado para as aulas de anatomia
dos alunos da Faculdade de Medicina Francesa. A sua cabeça foi embalsamada,
permaneceu no Museu de Criminosos da França até 1958, ano em que desapareceu,
supostamente roubada por um admirador. Veja mais aqui e aqui.
A OBRA DE LYGIA CLARK
O erótico vivido como profano e a arte vivida
como sagrada se fundem numa experiência única. Trata-se de misturar arte com
vida. Eis-me aí qual testemunho da minha obra já formulada, agora o testemunho
já não é ela, mas sim eu-obra-pessoa humana.