sexta-feira, outubro 04, 2019

GEORGETTE & MAGRITTE, ELIZABETH PEYTON, VALMIR JORDÃO, GUARDA DAS VIRGENS & AMIGOS DA BIBLIOTECA.


GEORGETTE, MEU AMOR - E o amor se fez, desde adolescente quando a vi na feira de Charleroi, ali me apaixonara e de repente, mas a guerra brutalmente interrompeu nosso idílio. Maldita guerra irracional e a minha dor maior quase década a fio e à flor da pele. Seis anos depois, quase a redenção ao reencontrá-la no jardim de Bruxelas. Ah, Georgette, a bela de Schaerbeeck tornou-se a minha Olympia, a minha Xerazade das minhas mil e uma paixões atônitas em seu corpo o andaime perfeito para que eu possa singrar a transcendência de tudo que existe e pulsa e atrai e vibra acima e abaixo do que sou, como se não fosse possível e a verdade desvelada fosse mentira ou escondesse o que deveras irreal e remoto dos inomináveis ocultos, dos anônimos irreconhecíveis e dos apócrifos convencionados como autênticos e reais. Não há nada em definitivo jamais se sou efêmero e ela ao piano surreal, o retrato três quartos do rosto, entre as nuvens do céu azul, no medalhão cercado de pombas, no copo e na bola, é nela, sim, em definitivo, que enlouqueço porque seus olhos são os enigmas do universo e a absurda escuridão da infinitude na sala de jantar eu via o pensamento, tudo imaginação: charadas de chapéus sem cabeça e o realismo mágico do torso feminino, castelos, rochas, janelas, homens bizarros e esquisitices terrenas, o insólito nos contrastes ilusionistas, paradoxalidades do meu espírito travesso e a minha mãe suicida: sempre tentando o impossível, a nova realidade. O sonho é a expressão da liberdade e da loucura: o dia no piso não reflete a noite no teto e tudo só tem razão de ser e estar porque ela é real na vida e à minha mão exposta e ela nua ubíqua e única no presente da memória que virá sem que nada se repita e torne diferente a cada vigília subterrânea nas propagações que sou nela e ela é como se hoje em dia fosse apenas lembrança da impermanência, como se identificasse o igual no diferente e ter a certidão apurada de que não é nada disso, enquanto o que se previa de futuro não era nada mais que o instante agora passado e deixasse de ser porque só existe na recordação, afora isso só o suposto e ela ali, comigo e minha na traição das imagens: não sou eu e nem é ela, o que somos, talvez. Eu também não sou isso ou aquilo, até nem sei e eu me pergunto se afora o que dela emana e o que ela é algo poderia ser real e não sei porque dela tudo me dispõe à criação, como se nela a premonição de tudo para mim a profecia do que ignoro tornar-se factível diante do inefetivo: a arte é a vida e o inútil que afaga para brincar de deus, porque assim nela me fiz, acaso não fosse dela abraços portuários, ventre pro meu embarque, corpo para minha sobrevivência, fonte inesgotável! Não há arte sem vida, Deus não é santo. É nela todas as paisagens, é dela toda criação, é ela a minha vida e arte para sempre, em Schaerbeek. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O monge José Maria possuía no seu arraial um grupo de caboclas para o serviço doméstico e íntimo caudilho, inspirador semi-religioso dos sertanejos do Contestado. Morto na luta de Irani, em 22 de outubro de 1912, em um encontro com a força militar do Paraná, nenhum dos seus adeptos deixou de aguardar seu regresso do céu, para guiar os fieis à vitória indiscutível. Esperava-se igualmente a ressurreição do primeiro monge, o São João Maria, tão diverso do segundo, que se dizia seu irmão. Na reorganização das tropas sertanejas rebeladas contra todos e contra tudo, especialmente depois da adesão total de Eusébio Ferreira dos Santos, reapareceu a guarda das virgens, não mais para o serviço doméstico, mas constituindo uma classe de videntes, interpretes das vozes e ordens do finado monge José Maria e às vezes do velho São João Maria. Os sertanejos obedeciam cegamente às determinadas vindas dos chefes [...] portadores das mensagens dos monges, por intermédio da guarda das virgens. Cada desses caudilhos tinha essas pitonisas encarregadas de por os supremos mentores desaparecidos em contato com o seu povo em armas. [...]. Trechos de Guarda das virgens, extraída da obra Messianismo e conflito social: a guerra sertaneja do Contestado, 1912-1916 (Ática, 1977), do jornalista, sociólogo e professor, Mauricio Vinhas de Queiroz (1921-1996), tratando sobre o monge José Maria, nome adotado pelo desertor Miguel Lucena da Boaventura, da força militar do Paraná, aventureiro afoito e valente, carregando a fama de ser irmão do monge João Maria, que pretendia cumprir o que ele não pudera realizar. Cercado de devotos entusiásticos, dominou extensa região do sertão do Paraná e Santa Catarina, fazendo orações, cantando benditos e tratando os doentes com ervas e a poderosa força sugestiva de suas pessoa inconfundível. Sobre o embate entre o monge e o coronel do exército, João Gualberto Gomes de Sá, tem-se o relato de que: [...] Logo ao primeiro embate, a polícia perdia 12 homens e outros tantos os fanáticos. Dado o entrevero, o monge atacou, armado de facão, o capitão Gualberto que, com dois tiros de revolver, o prostrou sem vida. Mas, por sua vez, caía o intrépido comandante da polícia paranaense, ferido de morte pelo golpe de facão que seu agressor lhe desfechara sobre a cabeça [...]. Por conta disso, deu-se então a Campanha do Contestado, a Guerra dos Sertanejos, obrigando os governos dos dois estados a sacrifícios cruéis que terminam com uma intervenção federal. A Guarda das Virgens era elemento preponderante, assim como o clima de entusiasmo fanático durante toda a ação, vez que o morto monge continuava a influenciar seu povo e tudo se fazia segundo sua inspiração semi-divina. O tema também se encontra registrado no Dicionário do folclore brasileiro (Global, 2001), de Luis da Câmara Cascudo.

QUATRO POEMAS DE VALMIR JORDÃO
MATER EDUCAÇÃO - Oh! Mãe Educação, irmã da Filosofia / Fêmea belíssima e fértil que ao / Parir a sabedoria, o conhecimento, as profissões, / A cidade e as revoluções, / És maltratada e punida por misóginos e mesquinhos políticos, / A serviço dos interesses obscuros e estúpidos que / Escravizam e violentam os teus princípios de / Desenvolvimento e liberdade. / Querem extirpar dos teus seios, o inefável leite do discernimento, das ciências e das artes. / Oh! Mãe educação, companheira da razão / Guia-nos pelas veredas da perseverança, do empenho, da firmeza e da resistência. / Que não deixemos jamais a barbárie retornar, sob pretexto nenhum, até a vitória...
AH, RECIFE - Dizem os bardos que uma cidade / é feita / de homens, / com várias mãos / e / o sentimento do mundo. / Assim Recife nasceu no cais / de um azul marinho e celestial, / onde suas artérias evocam: / Aurora, Saudade, Concórdia, / Soledade, / União, Prazeres, Alegria e Glória. / Mas nos deixa no chão, / atolados na lama / de sua indiferença aluviônica: / a ver navios com suas hordas / invasoras / e o Atlântico / como possibilidade / de saída...
DO DESCARTE - penso, / logo / desisto.
POEMURO – mundo / novo mundo/ mundo. / sub mundo / mundo, / in mundo!
VALMIR JORDÃO – Poemas do poeta, compositor, performer e oficineiro, Valmir Jordão, autor do recém lançado livro Poemas Recifenses (Escalafobética, 2019), além de Sobre Vivência (Pirata, 1982), Antípoda (Escalafobétoca, 1990), entre outros. Participou de diversos movimentos literários recifenses desde 1979, colaborou com fanzines como Balaio de Gato, Caos, Lítero Pessimista, Folha ao Vento, Proezicanteatroz, De Cara com A Poesia, Poesia Descalça, Samsara, OVNI, entre outros. Veja mais aqui.

A ARTE DE ELIZABETH PEYTON
Num certo sentido, pode ter-se muito maior intimidade com uma pessoa que não se conhece.
ELIZABETH PEYTON – A arte da artista visual estadunidense Elizabeth Peyton, que tem como foco o retrato em pequena escala, utilizando-se de tinta a óleo com esmaltes lavados, aquarelas, lápis, gravuras, litografias, monotipos, xilogravuras e fotografias. Veja mais aqui.

A OBRA DE MAGRITTE
A vida me obriga a fazer algo, então eu pinto.
A obra do pintor belga Rene Magritte (1898-1967) que teve a sua grande paixão na musa e modelo Georgette Berger (1901-1986). O amor entre ambos foi tema da música René e Georgette Magritte com seu cão depois da guerra, do compositor Paul Simon, no álbum Hearts and Bones (1983) e em diversos álbuns e coletâneas do autor. Veja aqui, aqui & aqui.

AMIGOS DA BIBLIOTECA
Realizou-se nesta quinta, reunião dos Amigos da Biblioteca, definindo-se sua comissão provisória: na presidência Luiz Alberto Machado; vice-presidência: Janilson Sales; Secretaria: Iolanda Dayo & Basílio Palmares; Tesouraria: Zé Ripe e professor Alexandre; Núcleo de Pesquisa: Rute Costa & Silvana Neves; Núcleo de Leitura: João Paulo Araújo; Núcleo de Reforço: Carlos Calheiros; Relações Públicas: Ricardo Cordel. Na ocasião definiu-se a realização de uma reunião vindoura para debates acerca da minuta estatutária. Veja mais aqui.


ELVIRA LINDO, ROBERTO BOLAÑO, MAIREAD MAGUIRE, DOUGLAS RUSHKOFF & NELLY BLY

    Ao som das obras Celebração (2006), Ciclo nº 1 para piano , Ponteio , Improviso , Dualismo II & Vales , da conceituada compositora...