quinta-feira, outubro 17, 2019

O AMOR DE GARAUDY, HORTENSE & CÉZANNE, EUGENE O’NEILL & DOONA BAE


MADAME HORTENSE - Ah, Hortense, era eu muito jovem quando meu pai me presenteou uma caixa de tintas, comprada de um mascate. Ao ver-me dedicado à arte, tentou dissuadir-me a pensar no futuro: com gênio você morre; com dinheiro se vive. Ele manteve-se inflexível e não admitia amizades ociosas nem sonhos. E admoestava como eu poderia aperfeiçoar o que a natureza já havia feito tão divinamente, a me chamar de estúpido, muito estúpido. Para mim, a natureza não se incomodava com o banco do meu pai. No balcão eu somava cifras, carimbos e cédulas, e eu distribuindo moedas ao acaso, esbanjava. Eu tinha um propósito e a ele me dediquei: ultrapassar a natureza na magia das cores. No mais, não servia para um descuidado, desenfreado, irascível, a burocracia do mundo. Eu derramava baldes de cores sobre o vazio, a vida era um mundo de sonho gigantesco: um sonho além do meu alcance. Lamentava comigo que as grandes visões eram para aqueles que viam, eu nunca tive esses olhos. Já tinha a cor, faltava-me a forma. E eu copiava os que eram melhores do que a natureza! Sabia que tudo era um cilindro ou um cubo isolado, a solidez da cor. A compoteira e o lampejo da eternidade, as casas, os rios, montanhas, árvores, relvas, gente! Enfim, tudo que vivemos. No meu isolamento, o meu desespero e pesadelo cruel. Fui muito injuriado, poucos me toleravam. Surgiu, então, você, a linda moça de Saligney que um dia conheci na Académie Suisse. Era tempo de eclosão da guerra franco-prussiana. Fomos para o sul, para L’Estaque, para nos esconder de meu pai. Ah, linda encadernadora de Paris que posava para vários artistas. Vivemos da mesada mínima que meu pai mandava e a minha família não existia: meu pai me queria advogado e ameaçava cortar a mesada acaso soubesse de nós. Essa nossa farsa quase duas décadas. Só o meu papagaio que me reverenciava! Este sim, o meu crítico de arte. Aos demais, um pote de merda para os professores de artifícios, os artistas da moda só se enfeitavam como uma cambada de advogados, não valiam um tostão. Eu violava todos os princípios e proporções femininas das banhistas nuas e todos se escandalizavam. Minha visão imperfeita era o universo de Aix-em-Provence onde nasci e eu ocultava o que jamais conseguia alcançar. Tive que abandonar minhas obras nos campos, acaso alguém quisesse. Uma porção de idiotas que as tomavam e as escondiam nos sótãos, comida para ratos. No porão da minha casa, elas estavam estragadas junto com uma gaiola quebrada, um urinol rachado e uma velha seringa. Aos diabos os que me glorificaram e injuriavam, não era a fama. Estou farto, não me importa a opinião dos outros. Todos me perseguem com suas garras. Asnos e velhotas estúpidas, cuspo todos, até meus antigos mestres. Para todos, assoou o nariz e saio. Tenho apenas meus instintos, malgrado as palavras amargas que ecoa de todos. Para mim me basta que todos fiquem como uma maçã. Sou um desgraçado, penosamente insatisfeito, incapaz de expressar a intensidade que palpita dentro de mim, não possuo o poder de ver. Sempre fui o retrato vivo do fracasso. Até o meu melhor amigo me tratava por defunto, tornou-se um idiota inchado de dinheiro. E você, a minha modelo, todos os seus momentos em desenhos, aquarelas e uma infinidade de pinturas e os nossos dias míticos, o meu ponto de vista rotativo - apesar de você só gostar da Suíça e limonada. A sua cabeça era como uma porta a quem meus amigos chamavam La Boule. A você, minha reverência. Não sei se triunfei, sei que sou o que consegui ver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O amor nos diz a mesma coisa que a morte... somos convidados pelo amor a sairmos de nós mesmo, a ultrapassarmos nossas próprias forças, a darmos esta coisa em nós que nós não conhecemos. Ele é o contrário do ciúme, corolário da posse, do ter. essa possessão ciumenta é o contrário do amor, pois que tende a reduzir nosso parceiro a nossas próprias dimensões; tende a destruir nele o que é irredutivelmente diferente de nós. Enquanto o amor é abertura ao outro, aposta sobre as suas possibilidades sem fim de metamorfose e de criação. [...] A poesia e o amor são, com efeito, as formas mais imediatamente apreensíveis da transcendência do ser. [...] Se o porvir não pertence senão aos que são capazes de ter fé no amor, é que a experiência do amor é experiência do absoluto: a que nos faz, conjuntamente, tomar consciência de nossos limites e de nosso poder de os transpor. [...]. Trechos de O amor, extraído da obra Palavra de homem (Difel, 1975), do filósofo francês Roger Garaudy (1913-2012). Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO DE EUGENE O’NEILL
A solidão do homem é o seu medo da vida. A vida é uma cela solitária cujas paredes são espelhos. Não existe presente ou futuro - apenas o passado, que acontece vezes sem conta - agora. Os fatos não significam nada, não é? O que tu queres acreditar, essa é a única verdade. O amor nunca tem razões e a falta de amor também não. Tudo é milagre. A curiosidade matou o gato, mas a satisfação trouxe-o de volta. Qualquer tolo sabe que trabalhar no duro nalguma coisa que quer concretizar é a única forma de ser feliz. Somente no mar somos realmente livres
EUGENE O’NEILL - O pensamento do premiadíssimo escritor e dramaturgo estadunidense Eugene O’Neill (1888-1053), Prêmio Nobel de 1936, autor de peças teatrais como Além do horizonte (1920), Desejo sob ulmeiros (1925), A fonte (1923), A juventude não é tudo (1933), Dias sem fim (1933), Longa viagem noite adentro (1941), entre outras. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE DOONA BAE
A arte da fotógrafa e atriz sul-coreana Doona Bae. Veja mais aqui.

A OBRA DE PAUL CÉZANNE
Torno-me mais lúcido confrontado com a natureza: é na cor que o universo se encontra conosco. Quando eu preciso julgar uma arte, eu levo minhas pinturas e as deixo próximas a um objeto feito por Deus, como uma árvore ou uma flor. Se os dois lados combatem, elas não são arte. A arte é uma harmonia paralela à natureza. Não se trata de pintar a vida, trata-se de fazer viva a pintura. Na arte sou como louco.
PAUL CÉZANNE - A arte do pintor francês Paul Cézanne (1839-1906), na expressão de sua obra, Madame Cézanne, da sua esposa, a modelo francesa Marie-Hortense Fiquet Cézanne (1850-1922). Veja mais aqui.
 

EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...