domingo, fevereiro 15, 2026

LEÏLA SLIMANI, JANICE REBIBO, NARGES MOHAMMADI & AGUINALDO SILVA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Piano Concerto In E Flat Major & Violin Concerto in G Minor, da compositora, pianista e violinista britânica Alma Deutscher (Alma Elizabeth Deutscher), com a Orchestra of St. Luke's, sob a regência da maestrina Jane Glover, no Carnegie Hall (2019).

 


 Amorarte de Sabicaná... – O cantador violeiro, Ze Canário, vivia de xotes e toadas, na companhia de sua inseparável cadela, Caralâmpia, sua exclusiva ouvinte e vocal de apoio – enquanto ele se esgoelava blem blem, ela uivava uhuuu -, formando um duodeceto diuturno com a Lua – sua inquestionável Selenita - e o coral dum punhado de estrelas refulgentes. Assim, como um príncipe de poa, ensaiava com fibra a sua cantata narrando hestórias de alertas aos gases tóxicos e baixos níveis de oxigênio, dos quais alguns não resistiam finando emborcados. Porém, naquela noite, a despedida: Vou ganhar o mundo! Terras por conhecer, paisagens por explorar. Saudava a todos com o forró da dupla Carvalho & Zapata: Não precisa de dinheiro \ Pra me ouvir cantar \Eu sou canário do reino \ E canto em qualquer lugar... Presentes ali os sobreviventes de sempre: o Mineiro, DuReino, o Belga, Guirá-nheengatu, Turuna, Mutuca, incluindo o Azul Rejeitado da Fábula de Ledo Ivo e o seu primo que veio do estrangeiro, Harzer Roller, trazendo notícias do parente Cinzento: escondia-se da gata que ameaçava devorá-lo, mas não teve sorte, infelizmente foi capturado e preso numa gaiola, sofrendo muito de adoecer e morreu. Valha-me! Lamentaram a alma perdida e, logo em seguida, foram embalados com sua cantoria às batidas, trinados e rolos alternados. Muitas palmas e folia folgada. Ao final da seresta confessou ser aquele da antiga lenda celta do The Torn Birds da Colleen McCullough: cantaria pela última vez, a única na vida. E taciturno: Vou procurar um espinheiro alvar onde houver, para me empalar no acúlio mais comprido e agudo, no qual vou lançar meu lamento superlativo entre os galhos selvagens e um espinho cravado no peito sublimando a agonia para descansar em paz. Assim, pagarei meu preço, o mundo inteiro me ouvirá a pulso e Deus sorrirá no céu, quitando minha existência. Efusiva salva de palmas aos abraços solidários e tão abatumados com o frio da madrugada. Antes do nascer do Sol, ele partiu saudando o dia como um passarinho do açúcar. O último aceno no terminal rodoviário e, decidido a seguir em frente, ele a viu: olhos dela nele e vice-versa, fixados. Cruzaram mútuos, fisgados às passadas, viraram-se convergentes, ambos voltaram, um ao outro, defrontaram-se espantados, um sorriso recíproco. A iniciativa dela: Conheço você de algum lugar... E ele: Você também me é familiar. De onde? Nenhuma exatidão, especulavam e nisso ficaram: Será que... Não era. Por acaso... Nem, também. Checavam, nenhuma constatação plausível, nada batia. Nela o útero se revolvia; nele, um frio na barriga subindo pela coluna vertebral assanhando ideias. Aí, um verso de cá, uma rima de lá, ele dali e ela dacolá às estrofes e quadras. Ela puxava o mote, ele glosava, perguntas e respostas, vírgulas e pontos. E nisso iam tentando conversar. Mas eis que chegara a hora dele ir e dela ficar. Ele: Tenho de ir; e ela: Preciso prosseguir. Ele antecipava a saudade: Sua presença me trouxe bons presságios, quero escutá-la mais vezes pra valer a primavera. Ela: Será que ainda nos veremos? Quem sabe! É, quem sabe... Lamentaram a sorte, cada qual seguiu seu caminho, a sua sina: ela reconstruindo o passado, ele errando mundo afora. E se foram. Ele cantarolando: Sabiá canta na mata, descansa no pau agreste, um amor longe do outro, não dorme sono que preste! E invocou Catulo da Paixão Cearense: Sabiá lá no alto, da ingazeira serena, chorava como se fosse, uma viola de pena... E dizia pra si que precisava aprender a comer pimenta que nem sabiá. Ele se foi com suas perspectivas pelos 4 cantos do mundo; ela revolvendo memórias, desenterrando raízes, outros rizomas. Cada qual muitas noites e dias solitários, pensamento um no outro, inarredável, arrastavam-se esticando lonjuras. Batia a saudade nele e era Tom&Chico: Eu hei de ouvir cantar uma sabiá... Mas quem era ela? Menina achegada às pimenteiras, agarrada aos enviuvados passos da mãe carpideira, adolesceu no coral da igreja, enturmou-se no canto orfeônico, cantora lírica no conservatório, Diva estrelando espetaculares palcos de plateias estrangeiras. Nossa! Prali retornara para rever vivências antigas esgarçadas no tempo, os que se foram e o que restaria de seus laços íntimos, revolvendo ossos nas catacumbas das lembranças de seus entes queridos, desenterrando monturos no afã dum piso firme para sustentar seu lastro combalido. Nos baques da vida, fora iludida por um enrolão abastado, escapando de um aborto. Assim, um ano se passou e, num piscar de olhos, uma ou quase duas décadas, já era 5 de outubro de novo, aniversário dela, surpreendida pela reunião presencial de parentes longínquas de sabe-se lá quanto mais tempo: a Ponga, a Cavalo, Coca, Barriga-vermelha, Guaçu, Laranjeira, Una, Piranga, Gongá, Sabiacica, Sabiapiri, Sabiapoca, Sabiaúna, a do Peito-Roxo e a Da-Praia, todas as Túrdidas, até a prima Tordo-zorzal que veio da Patagônia. Ali juntaram transbordantes lágrimas emotivas e restos mortais, revivendo tempos de plantio e colheita, num culto à fertilidade, em louvor da Deusa-Mãe. Ao amanhecer, o momento zorzal: invocaram as ancestrais deusas Zoryas, as servas de Dazbog. A Utrennyaya logo abriu os portões celestiais da alvorada, era a estrela da manhã protegendo o mundo do escatológico cão Simargl. E delataram confidências ao meio dia e revelaram escondidos segredos ao entardecer. Ao crepúsculo, Vechernyaya, a estrela da noite, fechou os portões com o sexteto de Julian Cochran, enclausurando-as em sua festa noturna. Logo soaram as doze badaladas noturnas e trouxeram Polunochnaya, a Estrela da Meia Noite de Neil Gaiman, anunciando o regresso do amado. Ele ali retornara com os versos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias: Minha terra tem palmeiras, onde canta a sabiá... Ela sorriu felizarda, estava coroado seu presente de aniversário. E se atraíram exultantes e foram embalados pelo júbilo de uma sonata triunfal, um ensaio à dança nupcial. Suas mãos pegaram-se, seus corpos ascenderam estreitados e, agarrados cúmplices, levitaram aos ventos, flutuaram às alturas de nuvens oníricas e se deitaram entre árvores de folhagens densas na Lua minguante, como se reunissem arbustos, gravetos, flores, capim e cachos de banana para o ninho. Assim amaram e renasceram desejando o mesmo de Philemon e Baucis, nas Metamorfoses de Ovídio: seriam assim um carvalho e uma pessegueira entrelaçados de pé no terreno pantanoso da convivência a dois, voluntariamente consentidos pelos devires. Até mais ver.

 

Rebecca Goldstein: O que é o amor? Quando você ama alguém, quero dizer, todos nós queremos que coisas boas aconteçam conosco e que as ruins fiquem longe. Quando você ama alguém, você quer isso tanto para essa pessoa, ou até mais, do que para si mesmo... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Helen Fielding: Está comprovado por pesquisas que a felicidade não vem do amor, da riqueza ou do poder, mas sim da busca por objetivos alcançáveis...Veja mais aqui, aqui & aqui.

Toni Morrison: Em algum momento da vida, a beleza do mundo se torna suficiente. Você não precisa fotografá-la, pintá-la ou mesmo se lembrar dela. Ela basta... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

PREPARANDO-ME PARA O ROSH HASHANÁ

Imagem: Acervo ArtLAM.

O que estou perdendo\ Uma porta de banheiro, \ um vidro \ na porta do box, \ um varão de cortina de chuveiro, \ a janela entre minha cozinha e a área de serviço, \ uma lâmpada fluorescente, \ painéis solares , \ um terço \ do trilho da porta de correr da varanda da frente, \ um apêndice e duas amígdalas – uma velha história \ (exame do útero) \ (e dois seios), \ um carinho , \ as crianças, \ dinheiro, \ um cartão de crédito… \ o enfeite da grade, \ minha antena, \ minha tampa de gasolina.

Poema da escritora israelense Janice Rebibo (1950-2015). Veja mais aqui.

 

SEXO & MENTIRAS - [...] Tornar-se mulher é uma jornada repleta de humilhações. Diante da polícia, do sistema judiciário e da esfera pública, ser mulher é uma desvantagem. [...] Um fardo pesado, de fato, para metade da população carregar. Idealizada e mitificada, a virgindade é claramente uma ferramenta de coerção concebida para manter as mulheres em casa e submetê-las à vigilância constante. É um objeto de preocupação coletiva, e não uma questão privada. Também se tornou uma dádiva econômica para aqueles que realizam dezenas de reconstruções de hímen todos os dias e para certos laboratórios que comercializam hímenes artificiais, supostamente projetados para sangrar durante a relação sexual. A miséria sexual, como veremos, é uma forma de capitalismo como qualquer outra. [...] Não se trata apenas de os direitos sexuais fazerem parte dos direitos humanos: sabemos que foi explorando a falta deles que os homens chegaram a dominar tantas civilizações. [...] Uma mulher cujo corpo é submetido a tal controle social não pode desempenhar plenamente seu papel como cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Sexe et mensonges: La vie sexuelle au Maroc (Les Arenes, 2021), da escritora e diplomata marroquina Leïla Slimani, que no seu livro Le parfum des fleurs la nuit (Stock, 2021), ela expressa que: […] Na minha opinião, nem o discurso que glorifica a riqueza da herança mista, nem aquele que se preocupa com ela, capta a complexidade de uma identidade dupla. Ela é, simultaneamente, um desconforto e uma liberdade, uma tristeza e uma fonte de exaltação. [...] As pessoas me perguntam de onde sou, e às vezes respondo que, não sendo nem um pedaço de carne nem uma garrafa de vinho, não tenho uma origem, mas uma nacionalidade, uma história, uma infância. Nunca exatamente daqui, nem exatamente de lá, por muito tempo me senti como se tivesse sido despojado de toda a minha identidade. Como um traidor, também, porque nunca consegui me integrar completamente ao mundo em que vivia. Eram sempre os outros que decidiam por mim quem eu era. [...] A dominação colonial —que acabou sendo entendida— não moldou apenas as mentes, mas também os coerpos, os constriñes e os encierra. O dominado não ousa mover-se, rebelar-se, ultrapassar os limites… ou os do seu bairro. Para expressar. [...]. Ela também é autora das obras La Baie de Dakhla: Itinérance Enchantée Entre Mer et Désert (Malika, 2013), Dans le jardin de l'ogre (Gallimard, 2014), Chanson Douce (Gallimard, 2016), Le diable est dans les détails (Éditions de l'Aube, 2016), Paroles d'honneur (Les Arènes, 2017) e Simone Veil, mon héroïne (Éditions de l'Aube, 2017). Veja mais aqui & aqui.

 

ATIVISMO CIVIL - Continuarei meus esforços até que alcancemos a paz, a tolerância à pluralidade de opiniões e os direitos humanos... Como ativista civil, sou uma das milhares de vítimas dessas torturas horríveis. Cheguei a esta conclusão: o objetivo do confinamento solitário é a lavagem cerebral, para que os prisioneiros, privados de condições normais de vida, percam suas características humanas únicas, seu raciocínio e suas ideias, e sua saúde física e psicológica. Tenho fé no caminho que escolhi, nas ações que tomei, assim como nas minhas crenças. Estou determinado a tornar os direitos humanos uma realidade e não me arrependo de nada. Se aqueles que dizem estar propagando a justiça são firmes em seu julgamento contra mim, eu também sou firme na minha fé e nas minhas crenças. Não vacilarei diante de punições tirânicas que limitam minha liberdade às quatro paredes de uma cela. Suportarei este encarceramento, mas jamais o aceitarei como legítimo, humano ou moral, e sempre me manifestarei contra esta injustiça. Não perdi a esperança, nem a motivação. Não podemos desistir. Ainda tenho esperança e acredito profundamente que os esforços incansáveis ​​dos nossos ativistas da sociedade civil acabarão por dar frutos... Pensamento da ativista iraniana Narges Mohammadi, Prêmio Nobel da Paz de 2023 e vice-presidente do Centro de Defensores dos Direitos Humanos (DHRC). Em 2016 ela foi condenada a 16 anos de prisão em Teerã, por sua campanha pela abolição da pena de morte, contra a opressão das mulheres no Irã e pela sua luta na promoção dos direitos humanos e a liberdade para todos. Foi libertada e novamente presa em meados de dezembro de 2025, durante uma cerimônia fúnebre em Mashhad, quando iniciou uma greve de fome em protesto contra a detenção, denunciando ter permanecido em isolamento absoluto e sem qualquer contato externo. Agora, em 2026, um tribunal do Irã condenou a mais sete anos e meio de prisão, ampliando a série de sentenças impostas à ativista desde 2021. A nova condenação ocorre em um contexto de repressão intensificada após protestos registrados no país entre dezembro e janeiro, desencadeados inicialmente pela desvalorização da moeda iraniana e que evoluíram para manifestações contra o regime. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE AGUINALDO SILVA

[...] Meus pais eram pobres. Meu pai trabalhava num posto de gasolina da cidade, onde vendia peças para carros. Era um homem de pouca cultura e educação, mas tinha uma preocupação muito grande com a minha educação [...] Quando nos mudamos para o Recife, no bairro Aflitos, ao lado de minha casa morava um senhor. A filha dele, uma moça chamada Gleice – eles tinham uma biblioteca enorme que era possível ver do meu quintal –, um dia me notou e perguntou se eu gostava de ler. Quando respondi que sim, ela disse que me emprestaria os livros do pai dela. Foi aí que li tudo que se possa imaginar, inclusive coisas que não eram para a minha idade. Daí comecei a escrever [...] Fui preso no dia 5 de novembro de 1969 e solto no dia 10 de fevereiro de 1970. Daí, voltei para O Globo e fui aceito como se nada tivesse acontecido. Fizeram até uma feijoada numa sexta-feira esperando que eu contasse alguma coisa, mas não contei merda nenhuma. Fiquei traumatizado durante muito tempo [...] Mas não tenho a ilusão de que influencio de alguma maneira o universo, de que estou ajudando a mudar o mundo. Não, não é nada disso. Faço o meu trabalho, sou um profissional e dou tudo de mim. Sempre! [...].

Trechos da entrevista Do brincar de escrever na infância ao sucesso na TV: 80 anos de Aguinaldo Silva (Itaú Cultural, 2023), concedida pelo dramaturgo, escritor, roteirista, jornalista, cineasta e telenovelista Aguinaldo Silva (Aguinaldo Ferreira da Silva), autor de obras como Redenção para Job (1960), Cristo partido ao meio (1965), Canção de sangue (1968), Geografia do ventre (1972), Primeira carta aos andróginos (1975), O crime antes da festa: a história de Ângela Diniz e seus amigos (1977), República dos assassinos (1979), A história de Lili Carabina (1983), Inimigo público (1984), 98 tiros de audiência (2006), Turno da noite: memórias de um ex repórter de polícia (2016) e Vendem-se corações despedaçados (2021), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

 

Osman Lins aqui.

Beth da Matta aqui.

Tunga aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marilourdes Ferraz aqui, aqui & aqui.

Paulo Cavalcanti aqui.

Maíra Erlich aqui.

Maestro Duda aqui.

Juliana Cunha Barreto aqui.

Valdemar de Oliveira aqui.

Rebeca Gondim aqui.


 


LEÏLA SLIMANI, JANICE REBIBO, NARGES MOHAMMADI & AGUINALDO SILVA

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do Piano Concerto In E Flat Major & Violin Concerto in G Minor , da compositora, pianista e violinis...