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domingo, fevereiro 15, 2026

LEÏLA SLIMANI, JANICE REBIBO, NARGES MOHAMMADI & AGUINALDO SILVA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Piano Concerto In E Flat Major & Violin Concerto in G Minor, da compositora, pianista e violinista britânica Alma Deutscher (Alma Elizabeth Deutscher), com a Orchestra of St. Luke's, sob a regência da maestrina Jane Glover, no Carnegie Hall (2019).

 


 Amorarte de Sabicaná... – O cantador violeiro, Ze Canário, vivia de xotes e toadas, na companhia de sua inseparável cadela, Caralâmpia, sua exclusiva ouvinte e vocal de apoio – enquanto ele se esgoelava blem blem, ela uivava uhuuu -, formando um duodeceto diuturno com a Lua – sua inquestionável Selenita - e o coral dum punhado de estrelas refulgentes. Assim, como um príncipe de poa, ensaiava com fibra a sua cantata narrando hestórias de alertas aos gases tóxicos e baixos níveis de oxigênio, dos quais alguns não resistiam finando emborcados. Porém, naquela noite, a despedida: Vou ganhar o mundo! Terras por conhecer, paisagens por explorar. Saudava a todos com o forró da dupla Carvalho & Zapata: Não precisa de dinheiro \ Pra me ouvir cantar \Eu sou canário do reino \ E canto em qualquer lugar... Presentes ali os sobreviventes de sempre: o Mineiro, DuReino, o Belga, Guirá-nheengatu, Turuna, Mutuca, incluindo o Azul Rejeitado da Fábula de Ledo Ivo e o seu primo que veio do estrangeiro, Harzer Roller, trazendo notícias do parente Cinzento: escondia-se da gata que ameaçava devorá-lo, mas não teve sorte, infelizmente foi capturado e preso numa gaiola, sofrendo muito de adoecer e morreu. Valha-me! Lamentaram a alma perdida e, logo em seguida, foram embalados com sua cantoria às batidas, trinados e rolos alternados. Muitas palmas e folia folgada. Ao final da seresta confessou ser aquele da antiga lenda celta do The Torn Birds da Colleen McCullough: cantaria pela última vez, a única na vida. E taciturno: Vou procurar um espinheiro alvar onde houver, para me empalar no acúlio mais comprido e agudo, no qual vou lançar meu lamento superlativo entre os galhos selvagens e um espinho cravado no peito sublimando a agonia para descansar em paz. Assim, pagarei meu preço, o mundo inteiro me ouvirá a pulso e Deus sorrirá no céu, quitando minha existência. Efusiva salva de palmas aos abraços solidários e tão abatumados com o frio da madrugada. Antes do nascer do Sol, ele partiu saudando o dia como um passarinho do açúcar. O último aceno no terminal rodoviário e, decidido a seguir em frente, ele a viu: olhos dela nele e vice-versa, fixados. Cruzaram mútuos, fisgados às passadas, viraram-se convergentes, ambos voltaram, um ao outro, defrontaram-se espantados, um sorriso recíproco. A iniciativa dela: Conheço você de algum lugar... E ele: Você também me é familiar. De onde? Nenhuma exatidão, especulavam e nisso ficaram: Será que... Não era. Por acaso... Nem, também. Checavam, nenhuma constatação plausível, nada batia. Nela o útero se revolvia; nele, um frio na barriga subindo pela coluna vertebral assanhando ideias. Aí, um verso de cá, uma rima de lá, ele dali e ela dacolá às estrofes e quadras. Ela puxava o mote, ele glosava, perguntas e respostas, vírgulas e pontos. E nisso iam tentando conversar. Mas eis que chegara a hora dele ir e dela ficar. Ele: Tenho de ir; e ela: Preciso prosseguir. Ele antecipava a saudade: Sua presença me trouxe bons presságios, quero escutá-la mais vezes pra valer a primavera. Ela: Será que ainda nos veremos? Quem sabe! É, quem sabe... Lamentaram a sorte, cada qual seguiu seu caminho, a sua sina: ela reconstruindo o passado, ele errando mundo afora. E se foram. Ele cantarolando: Sabiá canta na mata, descansa no pau agreste, um amor longe do outro, não dorme sono que preste! E invocou Catulo da Paixão Cearense: Sabiá lá no alto, da ingazeira serena, chorava como se fosse, uma viola de pena... E dizia pra si que precisava aprender a comer pimenta que nem sabiá. Ele se foi com suas perspectivas pelos 4 cantos do mundo; ela revolvendo memórias, desenterrando raízes, outros rizomas. Cada qual muitas noites e dias solitários, pensamento um no outro, inarredável, arrastavam-se esticando lonjuras. Batia a saudade nele e era Tom&Chico: Eu hei de ouvir cantar uma sabiá... Mas quem era ela? Menina achegada às pimenteiras, agarrada aos enviuvados passos da mãe carpideira, adolesceu no coral da igreja, enturmou-se no canto orfeônico, cantora lírica no conservatório, Diva estrelando espetaculares palcos de plateias estrangeiras. Nossa! Prali retornara para rever vivências antigas esgarçadas no tempo, os que se foram e o que restaria de seus laços íntimos, revolvendo ossos nas catacumbas das lembranças de seus entes queridos, desenterrando monturos no afã dum piso firme para sustentar seu lastro combalido. Nos baques da vida, fora iludida por um enrolão abastado, escapando de um aborto. Assim, um ano se passou e, num piscar de olhos, uma ou quase duas décadas, já era 5 de outubro de novo, aniversário dela, surpreendida pela reunião presencial de parentes longínquas de sabe-se lá quanto mais tempo: a Ponga, a Cavalo, Coca, Barriga-vermelha, Guaçu, Laranjeira, Una, Piranga, Gongá, Sabiacica, Sabiapiri, Sabiapoca, Sabiaúna, a do Peito-Roxo e a Da-Praia, todas as Túrdidas, até a prima Tordo-zorzal que veio da Patagônia. Ali juntaram transbordantes lágrimas emotivas e restos mortais, revivendo tempos de plantio e colheita, num culto à fertilidade, em louvor da Deusa-Mãe. Ao amanhecer, o momento zorzal: invocaram as ancestrais deusas Zoryas, as servas de Dazbog. A Utrennyaya logo abriu os portões celestiais da alvorada, era a estrela da manhã protegendo o mundo do escatológico cão Simargl. E delataram confidências ao meio dia e revelaram escondidos segredos ao entardecer. Ao crepúsculo, Vechernyaya, a estrela da noite, fechou os portões com o sexteto de Julian Cochran, enclausurando-as em sua festa noturna. Logo soaram as doze badaladas noturnas e trouxeram Polunochnaya, a Estrela da Meia Noite de Neil Gaiman, anunciando o regresso do amado. Ele ali retornara com os versos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias: Minha terra tem palmeiras, onde canta a sabiá... Ela sorriu felizarda, estava coroado seu presente de aniversário. E se atraíram exultantes e foram embalados pelo júbilo de uma sonata triunfal, um ensaio à dança nupcial. Suas mãos pegaram-se, seus corpos ascenderam estreitados e, agarrados cúmplices, levitaram aos ventos, flutuaram às alturas de nuvens oníricas e se deitaram entre árvores de folhagens densas na Lua minguante, como se reunissem arbustos, gravetos, flores, capim e cachos de banana para o ninho. Assim amaram e renasceram desejando o mesmo de Philemon e Baucis, nas Metamorfoses de Ovídio: seriam assim um carvalho e uma pessegueira entrelaçados de pé no terreno pantanoso da convivência a dois, voluntariamente consentidos pelos devires. Até mais ver.

 

Rebecca Goldstein: O que é o amor? Quando você ama alguém, quero dizer, todos nós queremos que coisas boas aconteçam conosco e que as ruins fiquem longe. Quando você ama alguém, você quer isso tanto para essa pessoa, ou até mais, do que para si mesmo... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Helen Fielding: Está comprovado por pesquisas que a felicidade não vem do amor, da riqueza ou do poder, mas sim da busca por objetivos alcançáveis...Veja mais aqui, aqui & aqui.

Toni Morrison: Em algum momento da vida, a beleza do mundo se torna suficiente. Você não precisa fotografá-la, pintá-la ou mesmo se lembrar dela. Ela basta... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

PREPARANDO-ME PARA O ROSH HASHANÁ

Imagem: Acervo ArtLAM.

O que estou perdendo\ Uma porta de banheiro, \ um vidro \ na porta do box, \ um varão de cortina de chuveiro, \ a janela entre minha cozinha e a área de serviço, \ uma lâmpada fluorescente, \ painéis solares , \ um terço \ do trilho da porta de correr da varanda da frente, \ um apêndice e duas amígdalas – uma velha história \ (exame do útero) \ (e dois seios), \ um carinho , \ as crianças, \ dinheiro, \ um cartão de crédito… \ o enfeite da grade, \ minha antena, \ minha tampa de gasolina.

Poema da escritora israelense Janice Rebibo (1950-2015). Veja mais aqui.

 

SEXO & MENTIRAS - [...] Tornar-se mulher é uma jornada repleta de humilhações. Diante da polícia, do sistema judiciário e da esfera pública, ser mulher é uma desvantagem. [...] Um fardo pesado, de fato, para metade da população carregar. Idealizada e mitificada, a virgindade é claramente uma ferramenta de coerção concebida para manter as mulheres em casa e submetê-las à vigilância constante. É um objeto de preocupação coletiva, e não uma questão privada. Também se tornou uma dádiva econômica para aqueles que realizam dezenas de reconstruções de hímen todos os dias e para certos laboratórios que comercializam hímenes artificiais, supostamente projetados para sangrar durante a relação sexual. A miséria sexual, como veremos, é uma forma de capitalismo como qualquer outra. [...] Não se trata apenas de os direitos sexuais fazerem parte dos direitos humanos: sabemos que foi explorando a falta deles que os homens chegaram a dominar tantas civilizações. [...] Uma mulher cujo corpo é submetido a tal controle social não pode desempenhar plenamente seu papel como cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Sexe et mensonges: La vie sexuelle au Maroc (Les Arenes, 2021), da escritora e diplomata marroquina Leïla Slimani, que no seu livro Le parfum des fleurs la nuit (Stock, 2021), ela expressa que: […] Na minha opinião, nem o discurso que glorifica a riqueza da herança mista, nem aquele que se preocupa com ela, capta a complexidade de uma identidade dupla. Ela é, simultaneamente, um desconforto e uma liberdade, uma tristeza e uma fonte de exaltação. [...] As pessoas me perguntam de onde sou, e às vezes respondo que, não sendo nem um pedaço de carne nem uma garrafa de vinho, não tenho uma origem, mas uma nacionalidade, uma história, uma infância. Nunca exatamente daqui, nem exatamente de lá, por muito tempo me senti como se tivesse sido despojado de toda a minha identidade. Como um traidor, também, porque nunca consegui me integrar completamente ao mundo em que vivia. Eram sempre os outros que decidiam por mim quem eu era. [...] A dominação colonial —que acabou sendo entendida— não moldou apenas as mentes, mas também os coerpos, os constriñes e os encierra. O dominado não ousa mover-se, rebelar-se, ultrapassar os limites… ou os do seu bairro. Para expressar. [...]. Ela também é autora das obras La Baie de Dakhla: Itinérance Enchantée Entre Mer et Désert (Malika, 2013), Dans le jardin de l'ogre (Gallimard, 2014), Chanson Douce (Gallimard, 2016), Le diable est dans les détails (Éditions de l'Aube, 2016), Paroles d'honneur (Les Arènes, 2017) e Simone Veil, mon héroïne (Éditions de l'Aube, 2017). Veja mais aqui & aqui.

 

ATIVISMO CIVIL - Continuarei meus esforços até que alcancemos a paz, a tolerância à pluralidade de opiniões e os direitos humanos... Como ativista civil, sou uma das milhares de vítimas dessas torturas horríveis. Cheguei a esta conclusão: o objetivo do confinamento solitário é a lavagem cerebral, para que os prisioneiros, privados de condições normais de vida, percam suas características humanas únicas, seu raciocínio e suas ideias, e sua saúde física e psicológica. Tenho fé no caminho que escolhi, nas ações que tomei, assim como nas minhas crenças. Estou determinado a tornar os direitos humanos uma realidade e não me arrependo de nada. Se aqueles que dizem estar propagando a justiça são firmes em seu julgamento contra mim, eu também sou firme na minha fé e nas minhas crenças. Não vacilarei diante de punições tirânicas que limitam minha liberdade às quatro paredes de uma cela. Suportarei este encarceramento, mas jamais o aceitarei como legítimo, humano ou moral, e sempre me manifestarei contra esta injustiça. Não perdi a esperança, nem a motivação. Não podemos desistir. Ainda tenho esperança e acredito profundamente que os esforços incansáveis ​​dos nossos ativistas da sociedade civil acabarão por dar frutos... Pensamento da ativista iraniana Narges Mohammadi, Prêmio Nobel da Paz de 2023 e vice-presidente do Centro de Defensores dos Direitos Humanos (DHRC). Em 2016 ela foi condenada a 16 anos de prisão em Teerã, por sua campanha pela abolição da pena de morte, contra a opressão das mulheres no Irã e pela sua luta na promoção dos direitos humanos e a liberdade para todos. Foi libertada e novamente presa em meados de dezembro de 2025, durante uma cerimônia fúnebre em Mashhad, quando iniciou uma greve de fome em protesto contra a detenção, denunciando ter permanecido em isolamento absoluto e sem qualquer contato externo. Agora, em 2026, um tribunal do Irã condenou a mais sete anos e meio de prisão, ampliando a série de sentenças impostas à ativista desde 2021. A nova condenação ocorre em um contexto de repressão intensificada após protestos registrados no país entre dezembro e janeiro, desencadeados inicialmente pela desvalorização da moeda iraniana e que evoluíram para manifestações contra o regime. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE AGUINALDO SILVA

[...] Meus pais eram pobres. Meu pai trabalhava num posto de gasolina da cidade, onde vendia peças para carros. Era um homem de pouca cultura e educação, mas tinha uma preocupação muito grande com a minha educação [...] Quando nos mudamos para o Recife, no bairro Aflitos, ao lado de minha casa morava um senhor. A filha dele, uma moça chamada Gleice – eles tinham uma biblioteca enorme que era possível ver do meu quintal –, um dia me notou e perguntou se eu gostava de ler. Quando respondi que sim, ela disse que me emprestaria os livros do pai dela. Foi aí que li tudo que se possa imaginar, inclusive coisas que não eram para a minha idade. Daí comecei a escrever [...] Fui preso no dia 5 de novembro de 1969 e solto no dia 10 de fevereiro de 1970. Daí, voltei para O Globo e fui aceito como se nada tivesse acontecido. Fizeram até uma feijoada numa sexta-feira esperando que eu contasse alguma coisa, mas não contei merda nenhuma. Fiquei traumatizado durante muito tempo [...] Mas não tenho a ilusão de que influencio de alguma maneira o universo, de que estou ajudando a mudar o mundo. Não, não é nada disso. Faço o meu trabalho, sou um profissional e dou tudo de mim. Sempre! [...].

Trechos da entrevista Do brincar de escrever na infância ao sucesso na TV: 80 anos de Aguinaldo Silva (Itaú Cultural, 2023), concedida pelo dramaturgo, escritor, roteirista, jornalista, cineasta e telenovelista Aguinaldo Silva (Aguinaldo Ferreira da Silva), autor de obras como Redenção para Job (1960), Cristo partido ao meio (1965), Canção de sangue (1968), Geografia do ventre (1972), Primeira carta aos andróginos (1975), O crime antes da festa: a história de Ângela Diniz e seus amigos (1977), República dos assassinos (1979), A história de Lili Carabina (1983), Inimigo público (1984), 98 tiros de audiência (2006), Turno da noite: memórias de um ex repórter de polícia (2016) e Vendem-se corações despedaçados (2021), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

 

Osman Lins aqui.

Beth da Matta aqui.

Tunga aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marilourdes Ferraz aqui, aqui & aqui.

Paulo Cavalcanti aqui.

Maíra Erlich aqui.

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Juliana Cunha Barreto aqui.

Valdemar de Oliveira aqui.

Rebeca Gondim aqui.


 


quarta-feira, agosto 05, 2015

LURIA, OVÍDIO, FELLINI, CANDIDO DE CARVALHO, AIRTO & FLORA, TUNGA, WAIN & A SUBMERSÃO DOS SENTIDOS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A SUBMERSÃO DOS SENTIDOS – Meus filhos não sabem da guerra! E nos seus olhos perdidos arreviro de noite. E vou me esvaindo sozinho, olhos secos nas noites em adagas, enquanto sigo com as chagas abertas no sol. Meus filhos não sabem da guerra! E sigo sozinho desenterrando segredos. Aqueles segredos que não pude conter por muito mais tempo no meu vário silêncio. Segredos sem fechaduras, sem dentes, alicates, segredos de dor e da alma de ontem. Registros de cartas aviltadas de sombrias desventuras, de resignação. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. E seus olhos são velas acesas e eu no escuro com medo, em carne viva e beirando abismos menores que um triz. E eu afogado numa gota do escuro sem saber fugir, metido no medo da infância e da ruindade adulta. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. Não sabem que sozinho amanheço de noite. Meu mundo é miúdo menor que um aceno, resignado à comunhão do rio da minha vida, completamente vadio no fastio do mormaço, porque ainda sonho sozinho na minha arredia solidão e sorrio verdades na minha ingênua fadiga. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. Não sabem que sozinho amanheço de noite. Não sabem, meus filhos. Um que se foi, a outra que irá já tão tarde com a minha carne acesa no prisma da vida. (A submersão dos sentidos – Primeira Reunião. Bagaço: 1992). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 Imagem: A arte do escultor, desenhista e ator de performance artística Tunga - Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum The Colours of Life (In & Out Records, 1988), dos músicos Airto Moreira & Flora Purim.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, no horário das 10hs e das 15hs, no blog do projeto MCLAM, com a luxuosa apresentação de Ísis Corrêa Naves. No blog muitas dicas de Psicologia Infantil e Escolar, bem como outras divulgações das áreas de Literatura, Teatro, Música, Educação e Direito das Crianças e dos Adolescentes. Para conferir o programa online é só clicar aqui ou aqui.

DESENVOLVIMENTO COGNITIVO – O livro Desenvolvimento cognitivo: seus fundamentos culturais e sociais (Ícone, 1990), do neuropsicólogo e um dos fundadores da psicologia cultural-histórica, Alenxander Luria (1902-1977), trata de temas como a percepção, generalização e abstração, dedução e inferência, raciocínio e solução de problemas, imaginação, auto-análise e autoconsciência, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: Parece surpreendente que a ciência da psicologia tenha evitado a ideia de que muitos processos mentais sejam sócio-históricos em sua origem, ou de que manifestações importantes da consciência humana tenham sido diretamente formadas pelas práticas básicas da atividade humana e pelas formas da cultura existentes [...] Em um certo estágio de desenvolvimento social, a análise das próprias peculiaridades individuais frequentemente ceda lugar à análise do comportamento do grupo, e o eu individual era frequentemente substituído pelo nós coletivo, tomando a forma de uma avaliação do comportamento ou da eficiência do grupo ao qual o sujeito pertencia, (brigada, equipe, ou fazenda coletiva como um todo). Frequentemente as próprias qualidades (ou aquelas do grupo) eram avaliadas pela comparação do comportamento individual (ou grupal) com normas ou demandas sociais impostas ao individuo ou ao seu grupo. Apenas em estágios superiores – principalmente em pessoas jovens progressivamente envolvidas, de modo ativo, na vida social e com pelo menos alguma educação formal – poderíamos discernir um processo de escolha e avaliação das qualidades pessoais. Aqui, também, a análise permaneceu ligada, de muitas, à avaliação do sujeito sobre como tais qualidades individuais se relacionavam com as demandas da vida social. [...] [E particularmente importante o fato de que esse processo não se esgota numa mera mudança de conteúdo da consciência e uma abertura de novas esferas da vida para análise consciente (esferas da experiência social e das relações consigo mesmo, enquanto participante da vida social). Nós estamos lidando com mudanças muito mais fundamentais – a formação de novos sistemas psicológicos, capazes de refletir não apenas a realidade externa, mas também o mundo das relações sociais e, basicamente, o mundo interior da própria pessoa enquanto moldado em relação a outras pessoas. A formação de um novo mundo interior pode ser considerada uma das conquistas fundamentais do período tratado. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OLHA PARA O CÉU, FREDERICO! – O romance Olha para o céu, Frederico! -  Romance acontecido em Campos dos Goitacazes nos dias do gramofone (José Olympio, 1974), do escritor, advogado e jornalista José Cândido de Carvalho (1914-1989), retrata com humor os negócios e a decadência moral das famílias do setor sucroalcooleiro de Campos dos Goitacazes, do qual destaco os trechos a seguir: Estávamos chegando. O guia avisou que tínhamos entrado nas terras do São Martinho. Era o fim. E a tarde caindo feito uma agonia por cima do mundo. Tarde vazia, sem cigarras pelos troncos. Uma vida bonita de dez anos ia ficar para trás, enterrada em Quiçamã do Limão. Com mais uma andada estaríamos vendo a chaminé do São Martinho. Sentia que era o princípio do meu desterro. Podia botar velar na mão. Pensei em meu tio José Nabuco de Sá Meneses. Onde andaria a prima Nilze de bondade de anho? Agora me levavam para o cemitério do São Martinho. Ficaria por lá enterrado vivo. Tiraria meu tempo feito um condenado carregadinho de crimes. Por onde andaria minha prima Nilza? [...] Quem visse Frederico assim de fala mole, com miséria nas conversas, era capaz de acreditar num São Martinho encalhado, de rodas mortas, com ninho de rato nas fornalhas. Conheci e vi morrer meu tio com esses lamentos que só acabaram quando sua boca se fechou vazia de palavras [...] Era alto como vela de promessa. Tanta gentileza acabou por trazer Dona Lúcia para a cama de Frederico. Os parentes é que não viam nada. Só olhavam a velhice de meu tio, a plantação que podia nascer em sua testa. Agora, com um simples negócio de altar, os mourões do São Martinho ficavam sendo as pitangueiras da praia. [...] O raposão do meu tio não mostrava as unhas. Na varanda, de tarde, esparramado na cadeira de preguiça, lia os jornais. Vinha gente tirar prosa com ele. Conversinhas de calor, da miséria de fim de vida que andava solta pelo mundo. [...] Os barões, dependurados em pregos de parede, por trás das barbas, espiavam meus desmandos. [...]. Veja mais aqui e aqui.

AS METAMORFOSES – A obra poética As metamorfoses, a magnun opus do poeta matino Público Ovídio Naso (43aC-18aC), é um poema narrativo inconcluso mostrando a constante mutação do mundo e alguns aspectos da soberania e sua família. Da obra destaco o fragmento do Livro I, traduzido por Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (USP, 2010): Faz-me o estro dizer formas em novos corpos mudadas. Deuses, já que as mudastes também, inspirai-me a empresa e, da origem do mundo ao meu tempo, guiai este canto perpétuo. Antes do mar, da terra e céu que tudo cobre, a natureza tinha, em todo o orbe, um só rosto a que chamaram Caos, massa rude e indigesta; nada havia, a não ser o peso inerte e díspares sementes mal dispostas de coisas sem nexo. Inda nenhum Titã iluminava o mundo, nem Febe, no crescente, os chifres renovava, nem a terra pendia no ar circunfuso, suspensa no seu peso, nem, por longas margens, os seus braços havia espraiado Anfitrite.E como ali houvesse terra e mar e ar, instável era a terra, a onda inavegável e o ar sem luz; a nada aderia uma forma, e cada coisa obstava outras, pois num só corpo o frio combatia o quente, o seco o úmido, o mole o duro, e o peso o que não tinha peso. Deus ou douta natura esta luta sanou, pois do céu separou a terra, e desta as ondas, e do ar espesso um céu límpido discerniu. E depois que os tirou do disforme conjunto, cada qual num lugar ligou, em paz concorde. Do céu convexo, força ígnea e sem peso surgiu e se alocou no mais alto da abóbada; o ar, dela, se aproxima em leveza e lugar; mais densa, a terra atrai os elementos grandes e é premida por seu peso; a água circunfluída ocupou o restante e cercou o orbe sólido. Assim aquele deus, fosse qual fosse, a massa, primeiro, dividiu em lotes e ordenou, para que igual ficasse em toda a parte, dando à terra a aparência de um imenso orbe. Então o mar romper-se com os ventos rápidos mandou e circundar os litorais da terra. Reuniu pântanos, fontes e grandes lagoas, por entre sinuosas margens cingiu rios, que em parte se absorvem em vários locais, em parte vão ao mar, e acolhidos no campo de águas livres, em vez de margens, tocam praias. Mandou dilatar campos, vales abaixar, selvas cobrir de folha, erguer montes rochosos. E, como há no céu duas zonas à direita e outro tanto à esquerda e uma quinta mais tórrida, assim um deus zeloso o globo dividiu por igual, e outras tantas plagas tem a terra. Por causa do calor, não se habita a mediana, cobre duas a neve; entre ambas pôs as outras, que, misturando fogo ao frio, temperou. Cobre-as o ar, que tanto é mais leve que a terra e a água, quanto mais pesado do que o fogo. Lá as névoas, e lá as nuvens, pendurar mandou, também trovões que aterram mente humana e os ventos que, com raios, rabiscam relâmpagos. O criador do mundo, entanto, não lhes deu a posse do ar ao léu; a custo, agora, impede-os embora cada qual assopre em sua rota de o mundo varrer, pois grande é a rixa entre irmãos. Euro se foi à Aurora, aos reinos nabateus, à Pérsia e às montanhas sob luz matutina; Vésper e as praias, mornas pelo sol poente, de Zéfiro estão perto; a Cítia e o Setentrião Bóreas frio invadiu; a região contrária se umedece de chuva e assíduas nuvens de Austro. Em cima pôs o éter límpido e sem peso, que nenhuma impureza terrena contém. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DIDATICA DO TEATRO – O livro Didáctica do teatro – introdução (Almeida, 1979), do historiador português José Oliveira Barata, trata do quadro institucional e programas oficiais do jogo dramático português, as origens e o jogo como meio de conhecimento, jogo dramático e teatro, a leitura de um texto teatral, o teatro como linguagem, emissor e escritor/autor, emissor e o encenador, emissor e os acessórios não acessórios, o destinário e o público, a cidade e o Estado, texto e pretexto, os clássicos como modelo, os clássicos na escola, da teoria à prática, escrever e reescrever um texto, texto não dramático, representação de um texto não dramático, entre outos assuntos. Da obra destaco o trecho inicial: A utilização dos recursos e potencialidades do jogo dramático, postos ao serviço das modernas técnicas pedagógicas nos estabelecimentos pré-universitários desde há muito – mesmo muito antes de entre nós se começar a ouvir falar dessas perspectivas -, tem preocupado professores, pedagogos, sociólogos e, mesmo fora do âmbito estritamente escolar, homens de teatro, animadores culturais que vêem na escola um vastíssimo campo, particularmente receptivo, à iniciação teatral. [...] Vê-se que ele tem (ou pode ter) implicações diretas em todas as disciplinas – como forma especial de sensibilizar e captar a inteligência criadora e critica do jovem. Todavia, é particularmente relevante no domínio do Português e da Literatura Portuguesa. Será conveniente examinar o que é proposto nos programas, mas verificarmos se as boas intenções podem ser viabilizadas na prática. Não se esquecem as demais disciplinas e, sobretudo, a de Teatro, previsto como cadeira Vocacional no 9º ano de escolaridade obrigatória do Curso Secundário Unificado [...]. Veja mais aqui e aqui.


TOBY DAMMIT – No filme Histórias extraordinárias (1968) que reúne três cineastas para os contos do escritor, editor e crítico literário estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849), a parte dirigida pelo cineasta italiano Federico Felilini (1829-1993), é denominada Toby Dammit inspirado livremente no terceiro conto de Poe, contando a história do ator shakespeariano que afunda na carreira devido ao alcoolismo e para voltar ao sucesso faz um pacto com o diabo, perdendo a vida e a cabeça, num acidente com a Ferrari que ganhou como pagamento por seu último filme. Com este registro, fecha-se a divulgação da série Histórias Extraordinárias, filme que reúne além de Fellini, os cineastas Louis Malle e Roger Vadim, destacados em posts anteriores para registrar a criação cinematográfica baseada em contos de Poe. Este filme representa a reunião dos três maiores cineastas que, em conjunto, abordam a temática de forma criativa, inovadora e substancialmente representativa para o desenvolvimento da arte contemporânea. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Imagem: a arte do desenhista britânico Louis Wain (1860-1939),

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Quarta Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

sexta-feira, março 20, 2015

SCHOLASTIQUE MUKASONGA, BELOSLAVA DIMITROVA, GÓGOL & ÂNGELA DINIZ

 


ÂNGELA, A LINDA VÍTIMA VILÃ - Ela era uma linda mineira escorpiana e chamava atenção por onde passasse. Era cobiçada por todos, a ponto de, com apenas 17 anos de idade, casar-se e ter filhos. Desquitou-se 9 anos depois, perdendo os filhos em troca de uma mansão em Belo Horizonte e uma pensão mensal. Mantinha-se livre, mantendo relacionamentos esporádicos. Sua vida começou a virar um pandemônio quando o caseiro foi assassinado com um tiro cravado na face. Ela assumiu legítima defesa, acobertando um terceiro, na verdade: circunstâncias jamais esclarecidas. Por isso afastou-se de Minas Gerais e mudou-se pro Rio de Janeiro, quando conheceu o Pantera de Minas, um colunista social afamado. Pouco tempo depois, aproximava-se o natal e foi visitar os filhos em Belo Horizonte. No seu retorno trouxe a filha sem avisar a família do ex-marido: foi acusada de sequestro e condenada a 6 meses de prisão. Os tumultos voltaram à tona quando foi surpreendida por uma denúncia anônima: foi presa sob acusação de esconder maconha na sua residência, admitindo ser viciada em drogas. Badalações, festas e muito glamour na inda para Armação dos Búzios. Findou com três tiros de Beretta no rosto e um na nuca, assassinada em sua casa na Praia dos Ossos. Morta tornou-se a vilã da história. Coisas do Brasil: mata-se em nome de ciúmes e cabeça quente. Assim a história de Ângela Diniz (Ângela Maria Fernandes Diniz – 1944-1976). Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A literatura me salvou. Se eu não pudesse escrever teria enlouquecido... Não me resta nada a não ser a lancinante recriminação de estar viva em meio a todos os meus mortos.... Pensamento da escritora tutsi Scholastique Mukasonga, sobrevivente dos massacres ocorridos na década de 1990 em Ruanda. No seu livro La femme aux pieds nus (Gallimard, 2008), ela narra: [...] Eles queriam dizer a nós, mulheres tutsis: 'Não dê mais à luz porque você dá à luz ao dar à luz. Vocês não são mais portadores de vida, mas portadores de morte. [...]. No seu livro Our Lady of the Nile (Archipelago, 2014), ela expressa: [...] Então você ainda quer fazer o que disse? 'Mais do que nunca! Agora que sou uma heroína, e você também, dirão que é mais uma de nossas façanhas e, acredite, será. — Você sabe muito bem que tudo se baseia nas suas mentiras. 'Não são mentiras, é política. […]. E no seu livro Cockroaches (Archipelago, 2006), ela narra: [...] Nenhum memorial foi construído em Rebero. Nada para comemorar os caídos, exceto pedregulhos e pedras brancas e vermelho-ferrugem. Procuro sinais na colina, cavo o chão. O sol está bem alto. Esta é a hora das miragens. Afasto as pequenas pedras, arranho o chão. Encontro um pedaço de pano esfarrapado meio enterrado na terra. Tento me convencer de que vem da camisa de Antoine. Hesito, então deixo aquela falsa relíquia onde está. Pego uma pedra com uma ponta afiada. Em memória. [...].

 

ALGUÉM FALOU: Todos os dias me dou a chance de nascer de novo... Eu não fujo, prefiro deixar as coisas que não preciso. Não acredito na fuga como um ato... Tenho dentro de mim uma casa, um lugar de onde observo o mundo e onde me sinto confortável... Pensamento da poeta e jornalista búlgara Beloslava Dimitrova, autora do poema Uma pessoa: pois - \ estou a 2.130 metros acima do nível do mar, \ em outras palavras, estou sentado no fim do mundo, \tudo está coberto de vulcões e gêiseres \ expelindo vapor e água saturada de enxofre, \ lembro-me de perguntar novamente como chegamos aqui \ . rock over apontar \ você mostra a banheira cheia de bactérias \ quente e rasa o meio é idêntico \ Espero que desta vez permaneça inalterado \ sem complicações acúmulos modificações \ para finalmente fechar \ as nadadeiras do peixe \ para que eles não se transformará \ em membros \ para que os répteis não rastejem para fora \ e alguns não criem penas \ para que o milagre da evolução não aconteça \ e as pessoas não apareçam \ para que você não apareça de novo \ e muito menos eu. Dela também o poema Antidepressivos: tudo pode ser feito\ desde que você não esteja com\ as pernas cruzadas\ grudadas em mim\ o travesseiro enrolado\ como se fosse seu corpo\ abraçado com dois braços\ não penso e não sonho\ com o passado como prometi\ só recito os dos outros poesia\ cumpro todas as recomendações\ desejo opiniões comigo mesmo\ e não vou escrever\ esse poema\ para não te machucar.

 

DIA INTERNACIONAL DA FELICIDADE – A Organização das Nações Unidas (ONU) consagrou o dia de hoje como o Dia Internacional da Felicidade. A propósito, trago um trecho do livro Felicidade: diálogos sobre o bem-estar na civilização (Companhia das Letras, 2002), do economista, sociólogo e professor Eduardo Giannetti: [...] Discutir a felicidade significa refletir sobre o que é importante na vida. Significa ponderar os méritos relativos de diferentes caminhos e pôr em relevo a extensão do hiato que nos separa, individual e coletivamente, da melhor vida ao nosso alcance. O que havia de errado e o que permanece vivo no projeto iluminista de conquista da felicidade por meio do progresso científico e material? Até que ponto as nossas escolhas têm conduzido à criação de condições adequadas para vidas mais livres e dignas de serem vividas? Que lições tirar das conquistas e desacertos das nações que lideram o processo civilizatório? A civilização entristece o animal humano? Qual deveria ser o peso do prazer na busca da felicidade e qual deveria ser o ligar da felicidade na melhor vida? O conhecer modifica o conhecido, o viver modifica o vivido. As questões da filosofia estão sempre voltando ao ponto de partida. Elas nunca se rendem, elas jamais se esgotam; só o que acaba é o nosso fôlego e a nossa capacidade de enfrenta-las. A humanidade não se coloca apenas os problemas que é capaz de resolver. A fome não garante a existência do alimento capaz de saciá-la. Encaradas de um ponto de vista sóbrio, sob a luz fria e clinica da razão, nossas aspirações de realização e transcendência estão fadadas ao desapontamento. O tamanho da distância entre a mais alta felicidade e a mais funda infelicidade de um homem é produto da nossa fantasia. “A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver”. No fundo do coração humano, entretanto, algo surdo e obstinado resiste; algo indomado protesta a nos dizer que há alguma coisa indefinível pela qual existimos e aspiramos, algo por que vale a pena viver e sofrer. A imaginação selvagem que nos habita em segredo insinua esperanças e inspira sonhos que a razão desautoriza. Os dois lados do embate têm suas armas, têm o seu apelo, têm o seu direito. O grande equívoco é supor que um deles precise ou deva sair vitorioso. A qualidade da tensão é o essencial [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

DIANA/ÁRTEMIS - Imagem: Diana - marble (1776), do escultor francês Jean Antoine Houdon (1741-1828) – Gulbekian Foudation, Lisboa - Portugal. - Na mitologia romana, Diana é a deusa da lua, da caça e dos animais selvagens. Muito poderosa e forte, era considerada a deusa pura, filha de Júpiter e de Latona. A sua mais famosa aventura foi transformar o caçador Acteão em um cervo porque a viu nua durante o banho. Não quis se casar e manteve-se casta. É a triformis dea – a deusa das três formas, a Lua: Ártemis, Selene (lua) e Hécate (Trívia), ou seja, a trindade da Lua. A deusa grega Ártemis, filha de Zeus e Leto, é a divindade da caça que traz entre as mãos um arco dourado e um coldre de setas nos ombros, trajando uma túnica de tamanho curto, sendo considerada uma prostituta sagrada e uma virgem responsável pelos partos, associada, portanto, à dupla faceta feminina que, ao mesmo tempo, protege e destrói, concebe e mata. Era irmã gêmea de Apolo e seu desejo desde criança foi pedir a Zeus para circular livremente pelas matas, dispensada da obrigação de casar. As festas em sua homenagem eram dedicadas as danças sensuais em louvor da lua. Ela é o símbolo maior do feminino, da sua autonomia e liberdade. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

Ouvindo Brasileirança (Kuarup, 2002) do cantor, compositor e violeiro Xangai - Eugênio Avelino. Veja mais aqui e aqui.

AMORES & A ARS AMATÓRIA – O livro Amores & arte de amar (Companhia das Letras, 2011), do poeta e autor teatral romano Publius Ovidus Nasso, conhecido como Ovídio (42aC – 17aC), faz parte das três grandes coleções de poesias eróticas. Ele é considerado o mestre do dístico elegíaco e o último dos elegistas amorosos latinos canônicos, escrevendo sobre amor, sedução, exílio e mitologia. Dessa obra destaco o poema 3 do Livro , na tradução de Carlos Ascenso André: É justo o que peço: que a moça que ainda há pouco me cativou / ou tenha amor por mim ou faça com que tenha eu amor por ela. / Ah, foi demasiado o meu desejo! Que apenas consinta em ser amada, / e já Citereia terá ouvido todas as minhas súplicas. / Aceita quem há de servir-te por longos anos, / aceita quem saberá amar com candura e lealdade. / se não tenho a abonar-me grandes nomes de velhos / avós, se quem me deu o sangue é um cavaleiro / e meus campos não são revolvidos por arados sem conta, / se têm de poupar nas despesas ambos os meus pais, / ao menos, tenho a meu lado Febo e as suas nove companheiras / e o inventor da vinha; / ao menos, tenho aquele que a ti me entrega, o Amor; / ao menos, tenho fidelidade, que a nenhuma outra há de ceder, / e um caráter sem mácula / e uma simplicidade pura e um pudor que me faz corar; / não são mil as que me agradam, não sou um saltitante do amor. / Tu, se alguma fidelidade existe, hás de ter o meu cuidado para sempre; / contigo, quantos anos me concederem os fios tecidos pelas Irmãs, / esses me caiba em sorte vivê-los, e, perante a tua dor, morrer. / Mostra que és feliz por seres assunto de meus poemas, / e meus poemas hão de surgir, dignos de quem os inspirou; / é graças à poesia que têm nome Io, apavorada com seus chifres, / e aquela que um amante enganou, em forma de ave dos rios, / e aquela que sobre os mares foi trazida por um touro a fingir / e com mãos de donzela se agarrou aos chifres recurvos. / Também eu hei de ser cantado, do mesmo modo, no mundo inteiro, / e o meu nome para sempre ficará ligado ao teu. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

Ovide and Corine, his lover from the Amores, painted by Agostino Carracci (1557 - 1602). Veja mais aqui e aqui

TARAS BULBA – O romance histórico Taras Bulba (Alianza, 2010), do escritor ucraniano Nikolai Gógol (1809-1852) conta a história de um velho cossaco e seus dois filhos na guerra contra a Polônia. Ele mata um dos seus filhos: - Eu te dei a luz, eu te matarei!”. O seu outro filho é capturado pelos polacos e é executado: - Pai, estás a me ouvir? Taras, escondido dentro da multidão responde: Sim. E foge depois. Por fim, Taras é capturado em combate e queimado vivo. A história foi transformada em filme estadunidense, em 1962, pouquíssimo baseado na obra, dirigido J. Lee Thompson. Do livro destaco este trecho: [...] Os historiadores descreveram a contento essa campanha. Sabe-se que, na terra russa, a guerra é feita em nome da fé. Uma fé terrível, sem piedade, semelhante a um rochedo inabalável no meio de um mar sempre agitado. A massa rochosa eleva-se das profundezas do oceano, e desgraçado do navio que se chocar com ela! O seu casco será reduzido a pedaços, tudo voará pelos ares e os lamentos de terror dos infelizes marinheiros encherão os ares. A história conta como fugiam as guarnições polonesas das cidades que iam sendo libertadas, como foram enforcados os desalmados arrendatários judeus, a inferioridade revelada pelo oficial da coroa polonesa, Nikolai Pototski, e seu numeroso exercito, perante a cavalgada vitoriosa dos cossacos. Esse general foi completamente batido e metade de seu exercito afogado no rio. Encurralado na região de Poloniel pelos cossacos, Pototski jurou solenemente que faria conceder aos cossacos, da parte do rei e do governo da Polonia, todas as liberdades e restituir-lhes os antigos privilégios. Os cossacos, porém, conheciam o valor dessas promessas. Potorski não teria mais oportunidade de desfilar com seu cavalo puro-sangue na frente das damas, nem poderia mais oferecer festas suntuosas aos senadores da dieta, se o clero russo de Poloniel não o tivesse salvo. Quando todos os popes, com suas casulas bordadas a ouro, com ícones e cruzes nas mãos, e levando à frente seu bispo com mitra e báculo, saíram ao encontro do exército vencedor, os cossacos descobriram e inclinaram a cabeça. Nenhum poder humano, nem mesmo o rei, teria sido capaz de submetê-los, mas inclinavam-se perante os popes. O atamã resolveu com seus coronéis deixar partir Pototski, depois de esse ter jurado que as igrejas seriam respeitadas e que o exercito cossaco tomaria posse de seus antigos direitos. Só um coronel não concordou com aquela paz: Taras Bulba. Arrancando um punhado de cabelo da cabeça, gritou: - Ei, atamã, coronéis! Não façam esses arranjos de mulheres! Não creiam nos poloneses, pois eles nos trairão! E, quando o escrivão principal leu o texto do tratado e o comandante o assinou, Bulba ergueu seu sabre de aço damasquino e o quebrou pela metade, como quem quebra uma vara e, jogando longe os pedaços, exclamou: - Adeus! Assim como os dois pedaços deste sabre não voltarão a ser uma só arma, também nós, camaradas, não voltaremos a nos ver neste mundo [...]. Veja mais aqui, aquiaqui.



BLACK WIDOW – O suspense Black Widow (O mistério da viúva negra, 1987), dirigido por Bob Rafelson, conta a história de uma rica e bela mulher, Catherine Petersen que tem sua forma elevada cada vez que se casa e mata seus maridos ricos. Após receber a herança, ela desaparece e assume nova identidade para se preparar para um novo golpe. O destaque do filme vai para a linda atriz estadunidense Theresa Russel. Veja mais aqui.

 


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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