sábado, setembro 05, 2026

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto na área! Vasculhou-se de onde era que vinha aquela catinga horrível incomodando todos dali. Caçaram, pelejaram, vasculharam e só deram conta do sucedido quando avistaram uma tuia de urubu-de-cabeça-preta atrepado aos giros sobre uma casa, a última do arruado do Barão, só pessoas dele moravam naquela redondeza. E depois delas, temores quando anoitecia, a rodagem dava pro cemitério. Vixe! Mau agouro! Oxe, larga de ser frouxo! Quem mora aí? Ah, um que era tido por estranho mudo, há décadas perdidas na memória. Ninguém sabia o seu nome, nem parentes, nem conhecidos, apenas que era cheleléu do Barão. E que saía de casa antes do amanhecer e só retornava tarde da noite. Isso até a morte do influente poderoso – há uns 10 ou mais anos atrás. Depois do desencarne do onipotente, via-se ele toda noitinha, aboletado na cadeira à porta de casa. Não conversava com ninguém e só saía de casa para comprar mantimentos, logo retornava e se trancava novamente. Viam-no vez em quando na padaria, no açougue, no supermercado, ou pela beira do rio. E davam-no por álalo, porque ao ser saudado, apenas balançava a cabeça anuente com um sorriso receptivo. É aí mesmo a fetidez! E agora? Chutes e mãozadas botaram a porta abaixo: a inhaca tomou conta. Danou-se! Foi difícil adentrar, o corpo jazia no chão escuro, ao lado da cama, envolto por várias folhas de papel e outras espalhadas pelo chão. Era uma casa simples, sala, quarto, cozinha e banheiro, poucos utensílios: um fogão de duas bocas, acoplado a um diminuto botijão de gás, um prato, talher, uma garrafa térmica, uma cadeira de balanço e outra plástica, uma foto do barão na parede, um rádio de pilha e um amontoado de volumes, com encadernação artesanal, lendo-se na capa: Diário do Barão. Eram muitos tomos pelos cantos da sala, pelo quarto e empilhados na parede da cozinha, às centenas. Todos iguaizinhos e com a mesma inscrição na capa. Ao folheá-los, manuscritos com uma caligrafia bem desenhada, datas – dia, mês e ano - e narrativas registrando o dia-a-dia. Eita! Ninguém estava interessado em saber o que continha naqueles rabiscos. Saíram procurando por parentes ou conhecidos, vasculharam documentos, nada. Por fim, sacudiram-no numa cova rasa no canto do muro lá do cemitério. Pronto. E a casa dele? Deixa pra lá, os que ficaram para herdeiros do barão a qualquer momento vão arrumar um jeito. E a casa abandonada ali ficara. Um ou outro curioso surrupiava um exemplar para saber o que tinha. Logo o converseiro nasceu, a curiosidade aguçou. Rapaz, tu lesse aquele? É bronca! O barão era virado, hem? Oxe, meu pai contava muitas e boas dele! E em pouco tempo a coleção  sumiu. E a arenga: Quem tem um livro daquele? Quem sabe! Rapaz, é mesmo? Tudinho aos detalhes! Tá doido? Quero nem saber! Os anos se passaram e de boca em ouvido, dizem, toda a hestória das coisas tidas e idas em Alagoinhanduba. Valha-me!.. Até mais ver.

 

Georges Bataille: A necessidade de se desviar, de ser destruído, é uma verdade extremamente íntima, distante, apaixonada, turbulenta... Um beijo é o começo do canibalismo... Na verdade, temos apenas duas certezas neste mundo - que não somos tudo e que morreremos... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Heather Thomas: Aprendi a me ouvir, a prestar atenção ao que meu corpo dizia e a respirar conscientemente. Eu também estava lidando com uma doença crônica. Lutei para aceitar tudo o que fazia parte da minha vida, dentro e fora da narrativa oficial. Assim como eu, essa narrativa estava sempre em revisão, assumindo novas formas... Veja mais aqui & aqui.

Jared Diamond: É impressionante que os nativos do continente americano não tenham desenvolvido nenhuma doença epidêmica devastadora para transmitir aos europeus, em troca das muitas doenças epidêmicas devastadoras que receberam do Velho Mundo... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

OS USOS DA TRISTEZA - Uma vez, alguém que amei me deu \ uma caixa cheia de escuridão. \ Levei anos para entender \ que isso também era um dom.

EXCETO PELO CORPO - Com exceção do corpo \ de alguém que você ama, \ incluindo todas as suas expressões \ em privado e em público, \ As árvores, em minha opinião, \ são as \ formas mais belas da Terra. \ Embora, reconhecidamente, \ se isto fosse uma competição, \ as árvores ficariam em \ um distante segundo lugar.

Poemas da premiada poeta estadunidense Mary Oliver (Mary Jane Oliver – 1935-2019). Veja mais aqui.

 

RACISMO & RESILIÊNCIA - […] Atenção: este livro contém material que os leitores podem considerar perturbador e chocante, podendo causar tristeza, angústia ou desencadear memórias traumáticas, especialmente para os povos aborígenes e para aqueles que sobreviveram a abusos, violência ou traumas na infância. [...] Quando você apanha, isso te afeta profundamente. Tira sua autoestima, sua confiança, seu amor-próprio e sua autovalorização. Mas, mais importante ainda, tira sua voz. [...] Entrei para a polícia por vários motivos: primeiro, para ver se conseguia entrar, e mais importante, porque tinha visto como a polícia maltratava o meu povo e ingenuamente pensei que, se entrasse, conseguiria acabar com isso. [...] Quando entrei para a polícia, tinha a ideia de que poderia mudar a atitude da comunidade aborígine em relação à polícia. Mal sabia eu que só conseguiria fazer isso depois de mudar a atitude da polícia em relação aos aborígenes [...] A dor e o sofrimento das gerações roubadas são transmitidos de geração em geração. Minha avó viveu esse medo, meu pai experimentou o medo e eu temi a experiência. [...]. Trechos extraídos da obra Black and Blue: A Memoir of Racism and Resilience (Bolinda, 2022), da escritora aborígene australiana Veronica Gorrie (Veronica Heritage-Gorrie), autora de trabalhos como When Cops Are Criminals (2024) e Nullung (2021).

 

PÓS-HUMANO - […] O que é necessário é uma transformação radical, seguindo as bases do feminismo, do antirracismo e do antifascismo... [...] O conceito de ser humano hoje está em discussão. Aliás, não tenho certeza se existe um consenso sobre o que significa ser humano [...] Não acredito que o pós-humanismo seja algo que virá no futuro. Não é ficção científica. [...] E também não sou um transhumanista do Vale do Silício que acredita que somos capazes de fazer o upload da nossa consciência para um computador e nos transformarmos em super-humanos. Acredito que o pós-humanismo seja, na verdade, um índice para descrever o estágio em que nos encontramos agora. Nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão ligados a conceitos antigos do ser humano [...] Estamos repensando os parâmetros da nossa humanidade. Encontramo-nos numa fase de crítica ao antropocentrismo, à ideia de uma espécie central que controla todas as outras. Pós-humano não é um conceito excelente. Pessoalmente, não gosto dele, mas, no momento, não temos um termo melhor para designar todas as pesquisas e experiências realizadas em universidades e centros culturais que se concentram em novas formas de pensar sobre o que estamos nos tornando. Desenvolvemos novas possibilidades fascinantes, como, por exemplo, a manipulação genética, mas nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão atreladas a conceitos antigos do ser humano. Precisamos ser corajosos e discutir juntos, de forma democrática e crítica, o que queremos nos tornar. O que somos capazes de nos tornar. [...]. Trechos da entrevista (CCCBLab, 2019), concedida pela filósofa e teórica feminista italiana Rosi Braidotti, que no seu livro El conocimiento posthumano (GEDISA, 2019) aborda questões contextuais acerca do retorno virulento de atitudes patriarcais e supremacistas brancas, examinando as implicações da virada pós-humana para a teoria e a prática feministas. Ela define a virada pós-humana como uma convergência entre o pós-humanismo, por um lado, e o pós-antropocentrismo, por outro, e analisa sua complexa relação e impacto conjunto, afirmando que a produção acadêmica pós-humana dominante negligenciou a teoria feminista, quando, na verdade, o feminismo é um dos precursores da virada pós-humana, por meio de diversos movimentos sociais e tradições políticas. Ela é autora de obras como Posthuman Feminism (Polity Press, 2022), The Posthuman (2013) e  Nomadic Subjects (1994). Veja mais aqui & aqui.

 

CHACRINHA, O VELHO GUERREIRO

Cheguei, baixei, saravei! Eu vim para confundir, não para explicar!...

Sentença do saudoso comunicador e apresentador do rádio e da TV, Chacrinha (José Abelardo Barbosa de Medeiros, simplesmente Abelardo Barbosa – 1917-1988), que revelou inúmeros artistas como Roberto Carlos, Clara Nunes, Raul Seixas, entre outros. Ele depois de falsificar a data de nascimento, ingressou no Tiro de Guerra, em Recife, quando atuou como baterista e percussionista do grupo Bando Acadêmico. Cursou Medicina e, depois de uma malograda turnê por conta da 2ª guerra mundial, voltou para o Rio Janeiro, onde se tornou locutor da Rádio Tupi e daí foi para a televisão. Era chamado de “Velho Guerreiro”, por conta da homenagem feita a ele por Gilberto Gil, como também de Papa da Comunicação, alcunha dada pelo filósofo francês Edgar Morin. Ele iniciou sua carreira no rádio com o programa Rei Momo na Chacrinha, em 1943, e fez muito sucesso na televisão com os programas Buzina do Chacrinha, Cassino do Chacrinha e Discoteca do Chacrinha, até o final da década de 1980. Foi homenageado pela escola de samba Império Serrano no carnaval de 1987, com o enredo "Com a boca no mundo - Quem não se comunica, se trumbica", e pela escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, no carnaval de 2018, com o enredo “Vai para o trono ou não vai?”. Outra homenagem foi a música Roda e Avisa, de Jota Michiles e Edson Rodrigues, gravada por Alceu Valença. Ele participou de diversos filmes, entre eles Três Colegas de Batina (1962), A opinião pública (1967), Pobre Príncipe Encantado (1969), Já não se faz amor como antigamente (1976) e As Aventuras de um Paraíba (1982). Além destes, ele foi tema do documentário Alô, Alô, Terezinha! (2009), dirigido por Nelson Hoineff. Veja mais aqui.

 


A MÚSICA DE MOACIR SANTOS – Homenagem ao arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006), pela sua trajetória musical iniciada ainda menino órfão e que, durante décadas, finalmente perseguiu sua arte para alcançar aplausos no exterior. Confira aqui.

 


PAULO FREIRE – O educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997) é uma das mais importantes personalidades da educação planetária, tendo sua obra atravessado fronteiras e estudada nos mais diversos países. Sua proposta de educação dialógica e problematizadora tem sido relevante na construção de uma postura crítica ante a realidade. Veja a dimensão de sua filosofia aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – Por iniciativa das professoras Fátima Portela & Myrelly, os alunos do 9º ano da Escola Caic - José do Rego Maciel, de Palmares (PE), realizaram atividades que envolveram a elaboração e realização de xilogravuras, trava-língua, apresentações de cordel, embolada, dança de roda, parlendas, entre outras. Confira aqui.

 


BARÃO DE ALAGOINHANDUBA – (Imagem: Acervo ArtLAM) – A personagem do Barão de Alagoinhanduba é uma das mais relevantes no território de Alagoinhanduba e arredores regionais, não só pela sua preponderante participação no desenvolvimento da cidade, como o envolvimento com a política, a ordem, segurança e desenvolvimento, responsável pelos mais inusitados e extravagantes acontecimentos da localidade. Confira aqui.

 


CAOSMOSE & O POEMA NASCE NO VISINVISÍVEL...Série ArtLAM elaborada com pigmentos naturais, acrílica e lã de aço em papel Canson A4, para a exposição coletiva Gentamiga Ateliê, realizada entre os dias 21 a 30 de setembro, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, Palmares (PE), por ocasião de lançamento do livro-catálogo do Gentamiga Ateliê (CriaArt, 2026), com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau e Renata Sant’anna. A série reúne os trabalhos intitulados Pulsações caósmicas, Fluxo dos devires, Pulsações do efêmero, Ensaio de múltiplas dimensões, Trâmite dos simulacros & platitudes, Arrostar aporias, Celebração autopoiética e Limiar da loucura poética. Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do escultor Mestre Noza (Inocêncio Medeiros da Costa, Inocêncio da Costa Nick – 1897-1983).

Veja mais aqui.

 




MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...