Cambalhotas
& as coisas nunca davam certas... - Zé Lua
vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, aparando a testa dos seus 13
anos de idade, caniço de magro, à procura duma lavagem de roupa pra se
sustentar em pé. Cabisbaixo arrastava a chinela, pra cima e pra baixo, a se
distrair com as falas escandalosas da estridente aglomeração no vuque-vuque
pelo centro da cidade. Era gente que só, pensava consigo: todos só queriam ganhar e gastar
dinheiro, alvoroçados, e o que fazer mais se era esse o ânimo de todo mundo e,
fora disso, a miséria encardida dele pela manhã todinha. Ah, porcaria! Já
passava do meio dia e a fome apertava pra quem ainda se segurava no jejum. Numa
lanchonete pediu emprego: Venha sábado, que é dia de feira. Então, me dê uma
comida aí! Sai pra lá, mendigo! Austero, grosseiro, o dono do estabelecimento o
defenestrava dali. A sua salvação foi um estranho que ofereceu pagar a refeição dele. Traçaram o rango juntos e, tapeado o bucho, zanzaram a tarde toda. O céu àquela hora
tinha a cor de quando vem chuva e ele se achando pelo mundo postiço, flagrando
a torpeza espalhada entre fingimentos e desavenças pelos chuviscos. Só faltava essa! Os olhos
amornados: caiu o maior pé d’água. Assuntou um tiquinho, coisa chocha mesmo.
Ajeitava-se pelas beiradas, a água já pelo mocotó, fazia que aguentava aquilo
tudo, as coisas todas de fora e as não vistas por aí. Desencosta dessa tristeza, chô! Hem? Segura a tampa. Ah, infame! Ele ali cheio das curiosidades, não conhecia
bem Alagoinhanduba. Danou-se às perguntas, carregado de dúvidas.
Desinvoca, vai! Falavam dum milagre que ele andava à cata: Onde? Quando? Nunca
que sabia que tinha um santo Médici: Onde já se viu? Desincha as bochechas,
vai! Às risadagens, com agora amigo Beto tagarela: Eu quero é botar meu bloco na rua!
Como assim? Quero é atravessar a ponte Rio-Niterói! É longe? Se, ó. Queria era
arrumar um emprego! Melhor fugir pela Transamazônica. Onde fica isso? Lá longe,
depois de onde vira o beiço! E como chego lá? Vai andar um bocado. Logo vi,
tudo é longe pra mim. Ih! Sorria, meu bem, sorria!... Chega dá vontade... Não
bote força, vá no jeito. Aí, não deu sentença. E o amigo, numa cantiga de amor
doido: Chorar pra quê?... Foi-se Bruce Lee. Era o dia dele. Gente é bicho de
Deus. Ara. Fique atento, senão finda como o agente Laranja pedindo penico pra
vietcongue, visse! Como? Você não entende nada! Palavreado loré esse seu. Oh, tapado:
é aqui a Guerra do Vietnam, de verdade. Você fala umas coisas estranhas... Eu
sou a Mosca na sopa! Queria ser como você... Anoiteceu, vamos cear pra gente
assistir o Bem-amado. Onde? Ali na tevê da praça, não viu? Vamos, depois, a
gente passa por lá. Engoliram o que deu pra comer no pavilhão de dona Zefinha e, depois, se
arrancharam no jardim da praça pra ver a novela. Você vai dormir aonde? Não
sei. Tem uma maloca no arruado da usina, a gente dorme por lá. Oba! No dia
seguinte despertou sozinho, o amigo havia sumido. Oxe! Passou o dia todo
pedindo emprego, a pança vazia. Já de noite de novo e tentou enganar a barriga roncadora assistindo ao capítulo teledramático, mas perdeu a paciência e foi-se,
recolheu-se à tapera, tentando dormir. Amanheceu o sábado roxo de fome, correu
pra lanchonete e, chegando lá, conseguiu ocupar-se. Já tomou café? Não como
desde anteontem. Tome. Devorou um sanduíche de mortadela, deu pra enrolar as tripas. Bora
trabalhar. Viu o patrão folheando um jornal com a foto daquele seu amigo
desaparecido, o Beto. De soslaio: Conhece ele? Não. Era dia de feira, o povo e
seus pedidos. Nem deu tempo para mal-entendidos. Desenrolou e, no final do
expediente, comeu um pão com ovo, zarpou bêbado de sono. No outro dia, as
moedas do bolso: O que ganhei mal dá pra comer. Foi pro trabalho, fechado, era
domingo, ora, tinha de se virar: saiu catando o que fazer. Deu de cara com um
estranho cantarolando o sucesso do rádio: “Vira, vira, vira, \ Vira, vira, vira
homem, vira, vira \ Vira, vira lobisomem...” Era o receptivo coroinha Pedim do Padre: Que é que você tem? Tô com fome. Oxe, vamos pra igreja, você me
ajuda a balançar o sino e a gente come na casa paroquial. Bora. Nunca tinha
visto mesa farta, o padre Quiba deu as ordens: Quem é esse? É um morador
de rua, estava com fome e veio me ajudar. Vamos logo! Os dois lá, blém,
blém, pra missa da manhã domingueira. Terminada a liturgia, limparam tudo e
saborearam farto repasto: era o almoço. Saíram juntos quando o agora amigo
mostrou-lhe uma coleção de gibi. Coisa de ficar entretido. E brincavam já de
tarde: De noite a gente vai no cemitério! Fazer o quê? Brechar as moças da vida
se esfregando nos machos! E é! Pra frente, Brasil! À boquinha da noite lavaram
a égua e foram pular o muro do sepulcrário. Hesitou, o terror das trevas, tudo
nevoento. Atravessaram pelas catacumbas e se arrancharam numa touceira na
parede esburacada. O que é aquilo? Safadeza. Viram dois machões esmurrando uma
delas, aos gritos. Vieram outras, apanharam todas, chicotadas, desnudas. Eita,
cada lamborada, hem? Gritaria. Lua espantou-se com o amigo onanista, em êxtase
por vê-las seminuas, vestes rasgadas. Olha a caçola delas, meu! E o provocava
para um cavalo-mago! Eita! Deixa de ser molenga! Estranhou vê-lo às aperturas,
todo se desmilinguindo, os olhos virando. Sai pra lá! O enterro voltando: Lá
vem os caras pra cá! Corre! Quedaram em desespero, acotovelaram-se. Pra que
lado? Arquejavam, o chão tremia sob os pés. Tomou-lhe o pulso: Bora, porra!
Deixaram tudo pra trás. Pularam o muro de volta e na primeira esquina: Vamos,
já tá na hora da missa! Correram e ficaram lá, de joelhos, cara mais lisa,
santinhos. Ao término, seguiam sob as vistas desconfiadas do pároco, chamando Pedim prum confidencial. Ouviu o zunzunzum e logo percebeu que não seria nada de
bom. Um estrondo: só viu o baque! Eita! Pedim veio com uma cara enjoada. O
vigário logo em seguida com cara de poucos amigos: Tem onde dormir? Tenho.
Então pode ir, zarpa! Despediu-se do amigo, com uma promessa dele: Amanhã passa na Barraca Azul que eu
descolo um lanche pra você. O da batina deu um beliscão no achegado e cagou raios nos
bregues. Foi-se o que dera doce, socou-se na sua loca e, no outro dia, olhos
remelentos, fatigado. Levantou-se e foi pro acertado: o amigo não estava lá,
como prometido; o canto mais limpo. Disseram: Ele foi trabalhar em Itaipu!
Vixe! Foi pra lanchonete e levou esporro porque chegou atrasado: Você é o
Skylab é? Não, senhor. Se for, leve a bronca pra lá! Descolou um petisco e ficou
por ali fazendo mandados. O patrão resmungava: Esse não vale o feijão que come!
Ao lado, uma banca de revistas, não tirava o olho: Quanto é? Não tinha dinheiro
para comprar aquela que soletrava: Char-lie, Charlie Moon. O chefe ralhando
feio, brabeza nos olhos: Vai roubar não, tô de olho em você! O proprietário da banca
arremedou: Esse num vale um conto de réis! Aí o superior castigou: Fique perto
das minhas vistas, seu! Zé na defensiva, ficou meio de banda e levou no cangote
maior esculacho: Menino, tome jeito, senão você acaba que nem Araceli, viu? Ou
como Carlinhos... Ana Lídia... Ou o Beto, se assunte! Beto? Ficou com o coração
na mão, o olho numa rapadura ali estirada no gosto. Serviu-se de uma boia e, às
portas arreadas, procurou caminho de volta pro cantinho, pra se entocar. No
meio do caminho: Foi ele! Pega! Correria, escondeu-se na primeira brecha. Onde
ele se meteu? Pente fino, caça tudo! Clandestino, ficou na sua: Pra quem não tem
um bem nem vintém, ué! Tapava o olho, mirava, aos sopapos, um toco de graveto, a
futucar no traquejo, era o ponto pras más surpresas. Foi por uma banda, voltou
pela outra. Segurou a carranca na sola do pé, foi a conta: riscou no ar. Mandou
longe, tão desfeliz, segurou-se na cacunda, resignado: a boa lua que acudisse,
asfixiado de medo. Coisa de cigano: sem saber pra onde metesse as ventas. Mas
ia. A coragem no toitiço por uma peínha de nada, segurava nos beiços sua
indignação. A vizinhança caçadora: Cadê-lo? E ele trepado na garupa doutro
esconderijo, sua modorra. Ao rés do chão, puxou a tabica, faria o mesmo e se
desviava papudo, pueril, afiava a munheca no parapeito. Aí a frustração: nada
dava liga. Lembrou-se de Beto, Pedim, o emprego, dona Zefinha tão boa, tudo
perdido. Assim por vários dias, semanas, meses, aos pinotes, a coisa nunca como
sonhado e ele: Só deixo o meu Cariri no último pau de arara... Era uma vez e
mais uma e outra mais... Até mais ver.
Emil Cioran: O homem recomeça todos os dias, apesar de tudo o que sabe, contra tudo o que sabe... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Jennifer Egan: De
certa forma, estou sempre tentando fazer algo que não estou qualificada para
fazer. Por isso, sinto essa falta de qualificação. E tenho medo. E eu tenho uma
tendência a pensar que as coisas podem e provavelmente não vão dar certo. Essa
é a minha mentalidade básica... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui
& aqui.
Ione Skye: Eu tenho essa teoria da
convergência, de que coisas boas sempre acontecem junto com coisas ruins... Não
seja cruel, isso também é difícil para mim... Veja mais aqui, aqui & aqui.
VÓRTICE QUEBRADO
Imagem: Acervo ArtLAM.
Estou num vazio árido, escuro e desolado. \ Pendurei os
kilims contra o vento. \ Aqui estou eu, \ num cochilo vespertino sobre os
talos. \ O mundo está lá embaixo, as montanhas distantes. \ Sou tão ressentido
quanto esta encosta, \ mas colorido, ao vento, kilims \ e o fim da colheita,
folha cansada, lagarto fugitivo. \ Sou o lago sobre o qual a noite cai. \ Uma
vez que criei uma memória por amor, \ não o farei novamente. \ Sou um pequeno
grupo na vinha \ sobre a qual o outono passou e abandonou. \ Você é como um
lago, \ você é como um lago? \ Você é como um lago, ei! \ Você está em um
sonho, ei, você é o sonho. \ Em um poema aquático, \ você está falando alto. \ Os
Países Baixos \ estão silenciosos agora. Sempre!
Poema da escritora, editora e socióloga turca Birhan
Keskin, que foi editora adjunta da pequena revista Göçebe e é autora
de livros como: Delilirikler (1991), Bakarsın Üzgün Dönerim (1994), Cinayet
Kışı + İki Mektup (1996), Yirmi Lak Tablet + Yolcunun Siyah Bavulu
(1999) e Yeryüzü Halleri (2002), Kim Bağışlayacak Beni (2005), Ba
(2005), Y'ol (2006), Soğuk Kazı (2010) e Fakir Kene
(2016).
ÍDOLO ARDENTE - [...] Da mesma forma que uma noite de sono amassava os lençóis,
o simples fato de estar vivo cobrava seu preço.
[...] Mas este mundo onde
eu aparecia com minha persona meio inventada era um lugar mais gentil. [...] Eu
não conseguia lidar com a vida da mesma forma que todos os outros pareciam
fazer com facilidade, e lutava diariamente com as consequências complicadas.
Mas impulsionar meu oshi era o centro da minha vida, algo natural, meu único
ponto de clareza. Era mais do que um núcleo — era minha espinha dorsal. [...]. Trechos extraídos da obra Idol,
Burning: A Psychological Debut About Celebrity Worship, Fame, and Devastating
Scandal (HarperVia,
2022), da escritora japonesa Rin Usami.
A VIDA
& VIVER - Eu exorto você a encontrar uma maneira
de mergulhar plenamente na vida que lhe foi dada. Parar de fugir de tudo o que
você está tentando escapar, e em vez disso para parar, virar, e enfrentar o que
quer que seja… A razão pela qual todos nós somos tão miseráveis pode ser porque
estamos trabalhando tão duro para evitar ser miseráveis... Pensamento da
psiquiatra e professora estadunidense Anna Lembke. Veja mais aqui, aqui
& aqui.
A ARTE DE ANTÔNIO MARIA
(Escultura de Antônio Maria, na Rua Bom Jesus, centro
histórico do Recife, do escultor Demétrio Albuquerque - Foto: Rubens
Chaves)
Vi-a passar. Comecei a vê-la ao longe, quando despontou
na rua. Conheci-lhe a blusa, mas achei diferente a maneira de caminhar. Aquele
andar mole, de quem vai para lugar nenhum. Talvez não fosse o caso, no entanto.
As pessoas quando não estão felizes, ou quando estão infelizes, por mais que
andem, parece que não vão para lugar nenhum... De vez em quando eu tenho me
surpreendido descansando de coisas que eu não fiz... O homem só tem duas
missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar
com a vida inteira...
Trechos extraídos de crônicas do escritor, jornalista e
compositor Antônio
Maria (Antônio Maria Araújo de Morais – 1921-1964), que compôs samba-canção,
polcas, frevos, marchinhas de carnaval, valsas e sambas. Veja mais aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A ARTE DE YAYOI KUSAMA
Pensamento da
escritora e artista plástica japonesa Yayoi Kusama (1929-2026), que se
expressou por meio de uma diversidade artísticas, que vai das colagens,
pinturas, esculturas, arte performática e instalações ambientais, tendo por característica
a obsessão por pontos e bolas. A obra “Narcissus garden Inhotim” (2009) pode
ser encontrada no Centro Cultural Inhotim, em Minas Gerais, dezenas de grandes
esferas prateadas, que ficam na superfície da água e que podem ser movidas
conforme a ação dos ventos, réplica/versão da escultura que fez em 1966, para
participar da Bienal em Veneza, onde ela espalhou 1500 esferas espelhadas e as
vendia por 2 dólares. Entre as bolas, havia placas com os dizeres “Seu
narcisismo à venda”, uma forma que ela encontrou para criticar o sistema das
artes. Ela era considerada louca e, na sua loucura e em seus desvarios, ela
encontrou na arte a fuga e o tratamento da sua doença. Como ela mesma diz: Se
não fosse sua arte, já teria me matado há muito tempo. No caso dela, além
das alucinações, muitas vezes suicidas, ela ainda passou a ter TOC, ou seja, as
bolinhas e pontos se tornaram uma verdadeira obsessão, que se reflete em tudo
que venha da artista, não só em sua arte como também no seu visual, que chamou
muita atenção. Veja mais aqui & aqui.
LEITURAS:
JORGE LUÍS BORGES – (Imagem do pintor italiano
Stefano Davidson) - Reunião de algumas das leituras de obras do escritor
argentino Jorge Luís Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo
– 1899-1986), por quem nutro profunda admiração, tornando-me compulsivo em
devorar seus livros, incluindo-se aí releituras reiteradas e feitas até hoje.
Confira aqui.
O TEATRO
DE AUGUSTO BOAL – Homenagem ao dramaturgo,
escritor e compositor Augusto Boal (Augusto Pinto Boal - 1931-2009), tendo
em vista a sua indispensável importância na minha formação teatral,
influenciando, evidentemente, a minha atuação na área, inclusive na escrita dos
meus textos. Muito aprendizado que foram recolhidas de suas obras, notadamente Técnicas
Latino-Americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário
(Hucitec, 1975), 200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade
de dizer algo através do teatro (Civilização Brasileira, 1983), além de Teatro
do oprimido e outras poéticas políticas (Civilização Brasileira. 1975),
entre outras. Tenho em os livros de minha predileção o seu Teatro Completo
(Hucitec, 1986, 2 volumes). Confira aqui.
SOCIEDADE
CONTEMPORÂNEA – Reunião de temáticas que
abordam a diversidade dos debates na sociedade contemporânea, envolvendo
desde a questão do futuro da humanidade, a arqui-violência, o cristofascismo, o
capitalismo, o racismo, agrotóxicos, a responsabilização política, as
tecnologias e as neurociências, entre outros, refletidas pelos mais diversos
pensadores, neurocientistas, filósofos, psicólogos & outros profissionais
estudiosos dos mais diversos campos do saber. Confira aqui.
O CAMINHO
DOS VENTOS - Este é o terceiro episódio das aventuras
do Nitolino no Valuna, em que os protagonistas chegam no toré xukuru e
são levados ao sabor dos ventos. Confira aqui.
GENTAMIGA
ATELIÊ – Livro-catálogo & exposição que
ocorrerá neste mês de setembro, reunindo as obras dos artistas integrantes do
Gentamiga Ateliê, formado por Rubens da Cunha Lima, Cibele Sarkis, Ricardo
Aidar, Márcia Gebara. A coletânea conta com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau & Renata Sant'Anna. Confira aqui.
ISTO É PERNAMBUCO
Arte do Mestre
Vitalino. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.











