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sábado, agosto 29, 2026

ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, aparando a testa dos seus 13 anos de idade, caniço de magro, à procura duma lavagem de roupa pra se sustentar em pé. Cabisbaixo arrastava a chinela, pra cima e pra baixo, a se distrair com as falas escandalosas da estridente aglomeração no vuque-vuque pelo centro da cidade. Era gente que só, pensava consigo: todos só queriam ganhar e gastar dinheiro, alvoroçados, e o que fazer mais se era esse o ânimo de todo mundo e, fora disso, a miséria encardida dele pela manhã todinha. Ah, porcaria! Já passava do meio dia e a fome apertava pra quem ainda se segurava no jejum. Numa lanchonete pediu emprego: Venha sábado, que é dia de feira. Então, me dê uma comida aí! Sai pra lá, mendigo! Austero, grosseiro, o dono do estabelecimento o defenestrava dali. A sua salvação foi um estranho que ofereceu pagar a refeição dele. Traçaram o rango juntos e, tapeado o bucho,  zanzaram a tarde toda. O céu àquela hora tinha a cor de quando vem chuva e ele se achando pelo mundo postiço, flagrando a torpeza espalhada entre fingimentos e desavenças pelos chuviscos. Só faltava essa! Os olhos amornados: caiu o maior pé d’água. Assuntou um tiquinho, coisa chocha mesmo. Ajeitava-se pelas beiradas, a água já pelo mocotó, fazia que aguentava aquilo tudo, as coisas todas de fora e as não vistas por aí. Desencosta dessa tristeza, chô! Hem? Segura a tampa. Ah, infame! Ele ali cheio das curiosidades, não conhecia bem Alagoinhanduba. Danou-se às perguntas, carregado de dúvidas. Desinvoca, vai! Falavam dum milagre que ele andava à cata: Onde? Quando? Nunca que sabia que tinha um santo Médici: Onde já se viu? Desincha as bochechas, vai! Às risadagens, com agora amigo Beto tagarela: Eu quero é botar meu bloco na rua! Como assim? Quero é atravessar a ponte Rio-Niterói! É longe? Se, ó. Queria era arrumar um emprego! Melhor fugir pela Transamazônica. Onde fica isso? Lá longe, depois de onde vira o beiço! E como chego lá? Vai andar um bocado. Logo vi, tudo é longe pra mim. Ih! Sorria, meu bem, sorria!... Chega dá vontade... Não bote força, vá no jeito. Aí, não deu sentença. E o amigo, numa cantiga de amor doido: Chorar pra quê?... Foi-se Bruce Lee. Era o dia dele. Gente é bicho de Deus. Ara. Fique atento, senão finda como o agente Laranja pedindo penico pra vietcongue, visse! Como? Você não entende nada! Palavreado loré esse seu. Oh, tapado: é aqui a Guerra do Vietnam, de verdade. Você fala umas coisas estranhas... Eu sou a Mosca na sopa! Queria ser como você... Anoiteceu, vamos cear pra gente assistir o Bem-amado. Onde? Ali na tevê da praça, não viu? Vamos, depois, a gente passa por lá. Engoliram o que deu pra comer no pavilhão de dona Zefinha e, depois, se arrancharam no jardim da praça pra ver a novela. Você vai dormir aonde? Não sei. Tem uma maloca no arruado da usina, a gente dorme por lá. Oba! No dia seguinte despertou sozinho, o amigo havia sumido. Oxe! Passou o dia todo pedindo emprego, a pança vazia. Já de noite de novo e tentou enganar a barriga roncadora assistindo ao capítulo teledramático, mas perdeu a paciência e foi-se, recolheu-se à tapera, tentando dormir. Amanheceu o sábado roxo de fome, correu pra lanchonete e, chegando lá, conseguiu ocupar-se. Já tomou café? Não como desde anteontem. Tome. Devorou um sanduíche de mortadela, deu pra enrolar as tripas. Bora trabalhar. Viu o patrão folheando um jornal com a foto daquele seu amigo desaparecido, o Beto. De soslaio: Conhece ele? Não. Era dia de feira, o povo e seus pedidos. Nem deu tempo para mal-entendidos. Desenrolou e, no final do expediente, comeu um pão com ovo, zarpou bêbado de sono. No outro dia, as moedas do bolso: O que ganhei mal dá pra comer. Foi pro trabalho, fechado, era domingo, ora, tinha de se virar: saiu catando o que fazer. Deu de cara com um estranho cantarolando o sucesso do rádio: “Vira, vira, vira, \ Vira, vira, vira homem, vira, vira \ Vira, vira lobisomem...” Era o receptivo coroinha Pedim do Padre: Que é que você tem? Tô com fome. Oxe, vamos pra igreja, você me ajuda a balançar o sino e a gente come na casa paroquial. Bora. Nunca tinha visto mesa farta, o padre Quiba deu as ordens: Quem é esse? É um morador de rua, estava com fome e veio me ajudar. Vamos logo! Os dois lá, blém, blém, pra missa da manhã domingueira. Terminada a liturgia, limparam tudo e saborearam farto repasto: era o almoço. Saíram juntos quando o agora amigo mostrou-lhe uma coleção de gibi. Coisa de ficar entretido. E brincavam já de tarde: De noite a gente vai no cemitério! Fazer o quê? Brechar as moças da vida se esfregando nos machos! E é! Pra frente, Brasil! À boquinha da noite lavaram a égua e foram pular o muro do sepulcrário. Hesitou, o terror das trevas, tudo nevoento. Atravessaram pelas catacumbas e se arrancharam numa touceira na parede esburacada. O que é aquilo? Safadeza. Viram dois machões esmurrando uma delas, aos gritos. Vieram outras, apanharam todas, chicotadas, desnudas. Eita, cada lamborada, hem? Gritaria. Lua espantou-se com o amigo onanista, em êxtase por vê-las seminuas, vestes rasgadas. Olha a caçola delas, meu! E o provocava para um cavalo-mago! Eita! Deixa de ser molenga! Estranhou vê-lo às aperturas, todo se desmilinguindo, os olhos virando. Sai pra lá! O enterro voltando: Lá vem os caras pra cá! Corre! Quedaram em desespero, acotovelaram-se. Pra que lado? Arquejavam, o chão tremia sob os pés. Tomou-lhe o pulso: Bora, porra! Deixaram tudo pra trás. Pularam o muro de volta e na primeira esquina: Vamos, já tá na hora da missa! Correram e ficaram lá, de joelhos, cara mais lisa, santinhos. Ao término, seguiam sob as vistas desconfiadas do pároco, chamando Pedim prum confidencial. Ouviu o zunzunzum e logo percebeu que não seria nada de bom. Um estrondo: só viu o baque! Eita! Pedim veio com uma cara enjoada. O vigário logo em seguida com cara de poucos amigos: Tem onde dormir? Tenho. Então pode ir, zarpa! Despediu-se do amigo, com uma promessa dele: Amanhã passa na Barraca Azul que eu descolo um lanche pra você. O da batina deu um beliscão no achegado e cagou raios nos bregues. Foi-se o que dera doce, socou-se na sua loca e, no outro dia, olhos remelentos, fatigado. Levantou-se e foi pro acertado: o amigo não estava lá, como prometido; o canto mais limpo. Disseram: Ele foi trabalhar em Itaipu! Vixe! Foi pra lanchonete e levou esporro porque chegou atrasado: Você é o Skylab é? Não, senhor. Se for, leve a bronca pra lá! Descolou um petisco e ficou por ali fazendo mandados. O patrão resmungava: Esse não vale o feijão que come! Ao lado, uma banca de revistas, não tirava o olho: Quanto é? Não tinha dinheiro para comprar aquela que soletrava: Char-lie, Charlie Moon. O chefe ralhando feio, brabeza nos olhos: Vai roubar não, tô de olho em você! O proprietário da banca arremedou: Esse num vale um conto de réis! Aí o superior castigou: Fique perto das minhas vistas, seu! Zé na defensiva, ficou meio de banda e levou no cangote maior esculacho: Menino, tome jeito, senão você acaba que nem Araceli, viu? Ou como Carlinhos... Ana Lídia... Ou o Beto, se assunte! Beto? Ficou com o coração na mão, o olho numa rapadura ali estirada no gosto. Serviu-se de uma boia e, às portas arreadas, procurou caminho de volta pro cantinho, pra se entocar. No meio do caminho: Foi ele! Pega! Correria, escondeu-se na primeira brecha. Onde ele se meteu? Pente fino, caça tudo! Clandestino, ficou na sua: Pra quem não tem um bem nem vintém, ué! Tapava o olho, mirava, aos sopapos, um toco de graveto, a futucar no traquejo, era o ponto pras más surpresas. Foi por uma banda, voltou pela outra. Segurou a carranca na sola do pé, foi a conta: riscou no ar. Mandou longe, tão desfeliz, segurou-se na cacunda, resignado: a boa lua que acudisse, asfixiado de medo. Coisa de cigano: sem saber pra onde metesse as ventas. Mas ia. A coragem no toitiço por uma peínha de nada, segurava nos beiços sua indignação. A vizinhança caçadora: Cadê-lo? E ele trepado na garupa doutro esconderijo, sua modorra. Ao rés do chão, puxou a tabica, faria o mesmo e se desviava papudo, pueril, afiava a munheca no parapeito. Aí a frustração: nada dava liga. Lembrou-se de Beto, Pedim, o emprego, dona Zefinha tão boa, tudo perdido. Assim por vários dias, semanas, meses, aos pinotes, a coisa nunca como sonhado e ele: Só deixo o meu Cariri no último pau de arara... Era uma vez e mais uma e outra mais... Até mais ver.

 

Emil Cioran: O homem recomeça todos os dias, apesar de tudo o que sabe, contra tudo o que sabe... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Egan: De certa forma, estou sempre tentando fazer algo que não estou qualificada para fazer. Por isso, sinto essa falta de qualificação. E tenho medo. E eu tenho uma tendência a pensar que as coisas podem e provavelmente não vão dar certo. Essa é a minha mentalidade básica... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ione Skye: Eu tenho essa teoria da convergência, de que coisas boas sempre acontecem junto com coisas ruins... Não seja cruel, isso também é difícil para mim... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

VÓRTICE QUEBRADO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Estou num vazio árido, escuro e desolado. \ Pendurei os kilims contra o vento. \ Aqui estou eu, \ num cochilo vespertino sobre os talos. \ O mundo está lá embaixo, as montanhas distantes. \ Sou tão ressentido quanto esta encosta, \ mas colorido, ao vento, kilims \ e o fim da colheita, folha cansada, lagarto fugitivo. \ Sou o lago sobre o qual a noite cai. \ Uma vez que criei uma memória por amor, \ não o farei novamente. \ Sou um pequeno grupo na vinha \ sobre a qual o outono passou e abandonou. \ Você é como um lago, \ você é como um lago? \ Você é como um lago, ei! \ Você está em um sonho, ei, você é o sonho. \ Em um poema aquático, \ você está falando alto. \ Os Países Baixos \ estão silenciosos agora. Sempre!

Poema da escritora, editora e socióloga turca Birhan Keskin, que foi editora adjunta da pequena revista Göçebe e é autora de livros como: Delilirikler (1991), Bakarsın Üzgün Dönerim (1994), Cinayet Kışı + İki Mektup (1996), Yirmi Lak Tablet + Yolcunun Siyah Bavulu (1999) e Yeryüzü Halleri (2002), Kim Bağışlayacak Beni (2005), Ba (2005), Y'ol (2006), Soğuk Kazı (2010) e Fakir Kene (2016).

 

ÍDOLO ARDENTE - [...] Da mesma forma que uma noite de sono amassava os lençóis, o simples fato de estar vivo cobrava seu preço. [...] Mas este mundo onde eu aparecia com minha persona meio inventada era um lugar mais gentil. [...] Eu não conseguia lidar com a vida da mesma forma que todos os outros pareciam fazer com facilidade, e lutava diariamente com as consequências complicadas. Mas impulsionar meu oshi era o centro da minha vida, algo natural, meu único ponto de clareza. Era mais do que um núcleo — era minha espinha dorsal. [...]. Trechos extraídos da obra Idol, Burning: A Psychological Debut About Celebrity Worship, Fame, and Devastating Scandal (HarperVia, 2022), da escritora japonesa Rin Usami.

 

A VIDA & VIVER - Eu exorto você a encontrar uma maneira de mergulhar plenamente na vida que lhe foi dada. Parar de fugir de tudo o que você está tentando escapar, e em vez disso para parar, virar, e enfrentar o que quer que seja… A razão pela qual todos nós somos tão miseráveis pode ser porque estamos trabalhando tão duro para evitar ser miseráveis... Pensamento da psiquiatra e professora estadunidense Anna Lembke. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE ANTÔNIO MARIA

(Escultura de Antônio Maria, na Rua Bom Jesus, centro histórico do Recife, do escultor Demétrio Albuquerque - Foto: Rubens Chaves)

Vi-a passar. Comecei a vê-la ao longe, quando despontou na rua. Conheci-lhe a blusa, mas achei diferente a maneira de caminhar. Aquele andar mole, de quem vai para lugar nenhum. Talvez não fosse o caso, no entanto. As pessoas quando não estão felizes, ou quando estão infelizes, por mais que andem, parece que não vão para lugar nenhum... De vez em quando eu tenho me surpreendido descansando de coisas que eu não fiz... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira...

Trechos extraídos de crônicas do escritor, jornalista e compositor Antônio Maria (Antônio Maria Araújo de Morais – 1921-1964), que compôs samba-canção, polcas, frevos, marchinhas de carnaval, valsas e sambas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,  aqui & aqui.

 

A ARTE DE YAYOI KUSAMA

Minha arte é uma expressão da minha vida, sobretudo da minha doença mental, originária das alucinações que eu posso ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me atormentam em esculturas e pinturas. Todos os meus trabalhos em pastel são os produtos da neurose obsessiva e, portanto, intrinsecamente ligados à minha doença. Eu crio peças, mesmo quando eu não vejo alucinações, no entanto. Com o tempo, passou a preencher pisos, paredes, telas, objetos e até pessoas com seus pontos...

Pensamento da escritora e artista plástica japonesa Yayoi Kusama (1929-2026), que se expressou por meio de uma diversidade artísticas, que vai das colagens, pinturas, esculturas, arte performática e instalações ambientais, tendo por característica a obsessão por pontos e bolas. A obra “Narcissus garden Inhotim” (2009) pode ser encontrada no Centro Cultural Inhotim, em Minas Gerais, dezenas de grandes esferas prateadas, que ficam na superfície da água e que podem ser movidas conforme a ação dos ventos, réplica/versão da escultura que fez em 1966, para participar da Bienal em Veneza, onde ela espalhou 1500 esferas espelhadas e as vendia por 2 dólares. Entre as bolas, havia placas com os dizeres “Seu narcisismo à venda”, uma forma que ela encontrou para criticar o sistema das artes. Ela era considerada louca e, na sua loucura e em seus desvarios, ela encontrou na arte a fuga e o tratamento da sua doença. Como ela mesma diz: Se não fosse sua arte, já teria me matado há muito tempo. No caso dela, além das alucinações, muitas vezes suicidas, ela ainda passou a ter TOC, ou seja, as bolinhas e pontos se tornaram uma verdadeira obsessão, que se reflete em tudo que venha da artista, não só em sua arte como também no seu visual, que chamou muita atenção. Veja mais aqui & aqui.

 


LEITURAS: JORGE LUÍS BORGES – (Imagem do pintor italiano Stefano Davidson) - Reunião de algumas das leituras de obras do escritor argentino Jorge Luís Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo – 1899-1986), por quem nutro profunda admiração, tornando-me compulsivo em devorar seus livros, incluindo-se aí releituras reiteradas e feitas até hoje. Confira aqui.

 


O TEATRO DE AUGUSTO BOAL – Homenagem ao dramaturgo, escritor e compositor Augusto Boal (Augusto Pinto Boal - 1931-2009), tendo em vista a sua indispensável importância na minha formação teatral, influenciando, evidentemente, a minha atuação na área, inclusive na escrita dos meus textos. Muito aprendizado que foram recolhidas de suas obras, notadamente Técnicas Latino-Americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário (Hucitec, 1975), 200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro (Civilização Brasileira, 1983), além de Teatro do oprimido e outras poéticas políticas (Civilização Brasileira. 1975), entre outras. Tenho em os livros de minha predileção o seu Teatro Completo (Hucitec, 1986, 2 volumes). Confira aqui.

 


SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – Reunião de temáticas que abordam a diversidade dos debates na sociedade contemporânea, envolvendo desde a questão do futuro da humanidade, a arqui-violência, o cristofascismo, o capitalismo, o racismo, agrotóxicos, a responsabilização política, as tecnologias e as neurociências, entre outros, refletidas pelos mais diversos pensadores, neurocientistas, filósofos, psicólogos & outros profissionais estudiosos dos mais diversos campos do saber. Confira aqui.

 


O CAMINHO DOS VENTOS - Este é o terceiro episódio das aventuras do Nitolino no Valuna, em que os protagonistas chegam no toré xukuru e são levados ao sabor dos ventos. Confira aqui.

 


GENTAMIGA ATELIÊ – Livro-catálogo & exposição que ocorrerá neste mês de setembro, reunindo as obras dos artistas integrantes do Gentamiga Ateliê, formado por Rubens da Cunha Lima, Cibele Sarkis, Ricardo Aidar, Márcia Gebara.  A coletânea conta com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau & Renata Sant'Anna. Confira aqui

 

ISTO É PERNAMBUCO

Arte do Mestre Vitalino. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



segunda-feira, abril 01, 2024

CECILIA VICUÑA, MELBA ESCOBAR, FREDRIC JAMESON, UMBILINA & AUTOGESTÃO DA MEMÓRIA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Pure (Decca Records, 2003), do DVD Live from New Zealand (Decca Records, 2004) e Pie Jesu – Vietnam no National Memorial Day Concert in Washington (2011), da soprano neozelandesa Hayley Westenra.

 

UMA QUASE CANÇÃO DE AUTOEXÍLIO... - Já morri duas vezes: a primeira aos 10 anos de idade; a outra, aos 23 – afora outras tantas passageiras no meu dia-a-dia. Como a morte se abestalhava, escapulia. Mas antes de anteontem ela reapareceu. Quem não desespera com a presença dela por perto? Ao contrário dos estereótipos todos, ela era fascinantemente sedutora. Achegou-se com elegância, aboletou-se ao meu lado e não perdeu tempo: E a vida, hem? Apesar dos pesares, muito bonita: É bom viver! Além de linda, sabia, era inarredavelmente poderosíssima! Ela, então, estalou os dedos e um caleidoscópio instantâneo fez-se filme com todo inventário humano: guerras, fome, injustiças, misérias. Isso é bom? Não. A quem você quer enganar? Tudo era impressionante e insistia em meus olhos não aceitar nada daquilo: uma flor desabrochava, uma criança estendia a mão, um gesto de solidariedade na esquina... Pode sonhar! Só acontece mesmo na sua cabeça de tolo. Não acredito. Quer subestimar minha inteligência? E disse-me Dorothy Eden: O perigo, claro, residia na sua curiosidade, na sua inteligência e nos seus olhos obstinadamente observadores... Sempre prestei atenção a tudo no mundo e na vida. Lendo-me os pensamentos sussurrou: Memento mori... Ao invés de mim isto deveria ser pronunciado pros que se acham donos do mundo e das coisas, surpreendendo os valentões, os ricaços de todos os mandos e os fanáticos da fé. Fitou-me grave e, novamente, os seus dedos agitaram no ar apontando para um salão que surgiu de repente e, no bico da quina do adeus, lá estava: a rainha neandertal ressuscitara mais agnotológica que antes, com suas muitas formas ageótipas de se mostrar tão bela e metida com seus bruxedos medievais - carecia de espiar direito ali os seus zis e ardilosos disfarces. Estava a dita ressurreta ali envolvida com uma romaria escatológica e um coro tóxico aos berros cantantes: A humanidade fracassou! Glória, Jesus! O além-humano morreu! Aleluia! Era uma louca Babel e tudo girava em delírio, como se o come-cu (STSS) devorasse silenciosa e mortalmente as suas entranhas. Uma cena deprimente aquela, mais uma. E o pior era a constatação de que a arte, a filosofia, as ciências, todas sucumbiram àquele ato, ali enterradas definitivamente. E logo vi todos se aprontarem para possante marcha sob os supostos auspícios do todo-poderoso deles. Oh! Era um sinal de rasga-mortalha: o mundo vai acabar! Arrodeavam o cerimonial de uma cova dantesca com enorme pedra sobre. Se era aterrorizante, o medo a favor. Muito desesperador. Enquanto presenciava tudo aquilo, a atraente parca visitante roubava a cena cochichando ao meu ouvido Cressida Cowell: As ações têm consequências e um preço deve ser pago; há coisas que não podem ser desfeitas... Era um alerta e me fez sofrer tanto de ficar com o juízo meio mole. Coisa boa aquilo não era, a insônia de Cioran. Sim, eu me sentia bipolar: uma montanha russa no escuro, cético, niilista. Tal Mark Twain diante de um urso polar, com minha amnésia infantil - cada um com a sua loucura: incompleto, finito e o inesperado esmagador. A senhora libitina percebeu o quanto tudo aquilo calou fundo dentro de mim: mais uma das minhas tantas quedas num poço sem fundo da já inexistente Alagoinhanduba. Socorreu-me remediável com a presença do Eduardo Marinho que aparecera alheio a tudo e pude levar um lero feito o emancipador conversável do Agostinho da Silva. Toda reunião desconfortável desaparecera. E a madame do exício sorriu com o meu pronto restabelecimento puxando-me a um canto secreto e beijou-me: Vá! Apressei o passo cada vez mais longe, ao deus dará! Sentia-me uma andorinha enfrentando sozinha todos os predadores algozes. Escapei fedendo, a alma quase se perdendo de desencarnar de vez pelo barro batido do caminho estreito e mais não tivesse a esperança inútil, o coração esmagado - a morte só poderia ser vida: o passado e tudo que já foi agora é dela. Ao meu ouvido sua voz ecoava Bella Akhmadulina: Quem sabe - a eternidade ou um momento \ Eu tenho que vagar pelo mundo. \ para este momento ou esta eternidade \ Agradeço também ao mundo... Sobrevivi aos seus múltiplos encantos e estou aqui, pela terceira vez, pronto pra contar hestória. Até mais ver.

 

A CIGANA ADORMECIDA

(Um leão cuida de seu livro de sonhos)

Imagem: Acervo ArtLAM.

La Gitana escreve há anos um trabalho secreto \ que ninguém nunca saberá, \ mas já começou \ para ser realizado na vida real. \ Enquanto ela continua a sonhar \ Seus sonhos compõem o mundo. \ O leão, porém, não posso dormir. \ Se você parar de observá-la, \ ela poderia acordar e nós desaparecemos imediatamente.

Poema da poeta e artista chilena Cecilia Vicuña. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

LA CASA DE LA BELLEZA - [...] A verdade é necessária quando há justiça. Mas a verdade sem reparação envenena a alma [...] Desde que me lembro, tivemos que cuidar de nossa segurança. Eu sou loira, olhos azuis, 1,75 de altura, algo cada vez menos exótico no interior, mas na minha infância tudo um ás na manga para ganhar o carinho das freiras e o tratamento preferencial dos meus colegas, bem como um foco de atenção que no caso do meu pai se tornou paranóia de um sequestro que felizmente nunca aconteceu na família, riqueza e traços Os anglo-saxões contribuíram para o meu isolamento. [...] Sua mãe, apenas dezesseis anos mais velha que ela, já foi a rainha do bairro, então Ela pensou que iria acabar pobre, mas acabou grávida de uma loira que falava pouco espanhol e que ele presumiu ser um marinheiro. Dessa visita furtiva de amor, a mulata que Ela compartilhou com a mãe não apenas seu sobrenome, mas também sua beleza e escassez. [...] Entre os apitos dos carros ele avançou saltando por poças de água até chegar à corrida 11, onde Ele embarcou em um ônibus em ruínas […] Um menino de cerca de onze anos entrou para vender balas. Ele disse que foi deslocado de Tolima. Ele disse que tinha quatro irmãos. Ele disse que era o “chefe da família”. Karen Ele enfiou a mão na bolsa e entregou-lhe quinhentos pesos antes de ligar para o ponto. [...] Ao cruzar a centena, ficou atordoada com as buzinas, a fumaça do escapamento, os ônibus verdes e tão antiga quanto a fome de quem pede esmola […] Algumas mulheres, quase sempre negras ou indígenas, com os filhos pendurados no peito ou nas costas, seguravam a criatura em um mão, o papelão na outra, o pote para receber moedas debaixo do braço, numa lamentável equilíbrio sempre atento à mudança de luz. Ao ficar vermelho, mendigos, deslocados, bandidos, viciados em drogas, aleijados, charlatões, desempregados, analfabetos, Abusadas, mutiladas, crianças e mulheres grávidas assaltam veículos em espetáculo diário tão repetitivo e previsível que já não surpreende ninguém. [...] Minha mãe morreu quando eu tinha onze anos. Sempre fui bastante feio. Em todo caso, nenhuma beleza. Eu sabia pouco sobre homens e relacionamentos, sabia principalmente por meio de livros. Decidi ser psiquiatra porque cresci ouvindo meu pai comentar casos e parecia o mais natural. [...] Ainda me lembro daquela vez em que ele me chamou de “mamãe”. Eu estava distraído olhando o jornal, Perguntei uma coisa para ele, se ele tinha marcado consulta no urologista, alguma coisa assim, e sem levantar O chefe do jornal me disse: “Não, mamãe”, aí ele ficou vermelho de vergonha e o que ele me disse Isso me deu um ataque de riso. [...] A verdade é que Karen Marcela Ardila, por ter nome do meio, era O sorriso permaneceu desde que ela ganhou o prêmio Colombian Girl, aos oito anos. anos. Sua persistência no gesto era tanta que quase não conseguia mais controlá-lo. Ele sorria o tempo todo momento, mesmo quando a situação era triste ou dramática, outra razão pela qual Jamais poderia apresentar algo diferente do segmento de entretenimento. [...] Karen sabia, sua mãe lhe dissera, que o maior infortúnio de sua mãe fora dar à luz uma mulher porque "os homens fazem o que querem, enquanto as mulheres "Fazemos o que temos que fazer." Karen lembra que tinha treze anos quando a ouviu dizer isso. De Então ele se perguntou, com cada mulher que conheceu, se ele realmente fazia o que queria ou o que queria. essa foi a vez dele. [...] Suas conversas com ele estavam se tornando cada vez mais um ritual dominical e ela temia que com a passagem Com o tempo ela se tornou uma daquelas mães que um dia foi trabalhar no capital, com quem aos poucos o tema da conversa se perdia nas ligações todas as vezes mais curto e mais esporádico [...] “Quando você vem, mãe?”, ele disse finalmente. Já fazia tanto tempo Eu não liguei para a mãe dela. Ao ouvir aquela palavra ele se sentiu distante. [...] Aquele cheiro de terra do mar, de água do mar [...] tirando uma soneca na cadeira de balanço e a mãe preparando bolinhas de tamarindo na varanda de casa, e dizendo “menina, não me procure”. porque você vai me encontrar", porque ninguém mais a chama de menina, ninguém mais a procura, muito menos ela. encontra, ela não se encontra mais, muito menos sabe onde está, cada vez mais perdida, cada novamente aqui e ali ao mesmo tempo e ainda em lugar nenhum ao mesmo tempo. [...]. Trechos extraídos da obra La Casa de la Belleza (Planeta, 2017), da escritora e jornalista colombiana Melba Escobar. Veja mais aqui.

 

ANTINOMIAS DO REALISMO - [...] Observei um desenvolvimento curioso que sempre parece definir quando tentamos manter o fenômeno do realismo firmemente em o olho da nossa mente. É como se o objeto da nossa meditação começasse a oscilar, e a atenção para ele se afastar insensivelmente em dois direções opostas, de modo que finalmente descobrimos que estamos pensando, não sobre o realismo, mas sobre o seu surgimento; não sobre a coisa em si, mas sobre sua dissolução. [...] Também perde o grande jogo do narrador onisciente, que é conhecer segredos que nenhum dos personagens envolvidos jamais aprenderá, ironicamente levando para o túmulo sua infeliz ignorância. [...] Esta sinédoque, em que a escaramuça representa a batalha, como recomendou Balzac, é um ataque muito mais directo e enérgico ao problema impossível da representação colectiva do que qualquer coisa na Esquerda, que é reduzida a manifestações e marchas, e cujos dilemas são vividamente dramatizado pelo facto de terem participado nas filmagens de Outubro de Eisenstein mais actores e figurantes do que o número de participantes reais na própria revolução bolchevique. [...] Provavelmente todo o modernismo desperta isso não necessariamente impulso admirável que muitas vezes assimilamos à Interpretação como tal; mas aqui, pelo menos, podemos nos perguntar se o interesse está no conteúdo de tais temas simbólicos e interconexões ou no sentido ontológico primeiro plano do próprio processo. [...]. Trechos extraídos da obra The Antinomies of Realism (Verso, 2013), do crítico literário estadunidense Fredric Jameson, no qual trata a respeito das tinomeias do realismo, das fontes gêmeas e impulso narrativo, do afeto ou o presente do corpo; Zola, ou a Codificação do Afeto; Tolstoi, ou, Distração; Pérez Galdós, ou, o declínio da protagonicidade; George Eliot e Mauvaise Foi; a dissolução do gênero, a Terceira Pessoa Inchada, ou Realismo após Realismo, Coda: Kluge, ou Realismo após Afeto, a lógica do material, as experiências do Tempo: Providência e Realismo, Guerra e Representação, Vou ser o romance histórico hoje, ou ainda é possível, entre outros assuntois. Em seus estudos ainda expressou: Alguém disse uma vez que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo. Podemos agora rever isso e testemunhar a tentativa de imaginar o capitalismo através da imaginação do fim do mundo. Se tudo fosse transparente, não existiriam ideologias... Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

UMBILINA...

[...] todos os seres da terra são instrumentos de um mistério: tudo começa porque tem que acabar [...] concluiu que nada vale a pena – nem sofrer, nem ser feliz. Viver não é uma coisa nem outra, viver é cíclico. [...].

Trechos extraídos da obra Umbilina e sua grande rival (Autor, 2013), do escritor, dramaturgo e jornalista Cícero Belmar.

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terça-feira, agosto 21, 2018

CÉLINE, IVAN JUNQUEIRA, CIORAN, COUNT BASIE, KAPROW, PATRÍCIA FURLONG, VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER & LABATUT


LABATUT, ZÉ CRAVO & MARIA ROSA – Imagem: Arte da artista visual Patrícia Furlong. - Zé Cravo, como sempre, aquele purgante: um chato de galocha. Basta ver Maria Rosa toda faceira laralilará, arrodeada de festejantes e inofensivos bichos ruminantes e outros avoadores, passarinhos fiu-fiu, saparia foi-não-foi-foi, cães au-au, gatos miau-au-au, guizos de cobras, encantos e faceirices, peitinhos acesos na blusinha de alça, sainhas nos ares rodando bambolê, a brisa do festejo. E ele se roendo todo, cagando raio, querendo estragar tudo. Logo dela se aproxima: Ei, Rosa, vamos brincar de olhos fechados? Vamos. Ele apronta: Mas você só fechou um olho, Rosa! Ah, com você é um olho na missa, outro no padre. Não dá pra brincar com você, menina. Muito menos com você, seu tratante. Você quer namorar comigo? Hem? Você só tem essa bicharada pra brincar? São meus amiguinhos. Assim não dá. E ficou assobiando. Ela, então, disse: Isso chama o tropel de Labatut. Como? Assobiar chama o monstro carniceiro, o Labatut. E eu sou menino pra acreditar numa história dessa! E saiu assobiando, fazendo pouco dela. Ao anoitecer, ela começou a contar sobre a ventania gemedora que traz o rugido dele saindo da lua e devorando tudo com suas entranhas insaciáveis e cheias de fogo. O que é isso? Eu num disse, é o Labatut, vou-me embora que eu não quero ser comida de bicho feio. Oxe, já vai, medrosa? Vou, vamos meus amiguinhos, o Labatut já está vindo. Eu não tenho medo dessas invencionices, aparecer aqui, eu pego ele e destroço todo. Escurecia na redondeza, chegava a noite e Zé Cravo sentado num tronco assobiando, nem nem. Bafejava o vento, relâmpagos e trovões de longe davam sinal do sinistro, as portas e janelas fechadas às pressas, as ruas desertas e, de longe, ouvia-se o trote do faminto Labatut que vinha do fim do mundo. O monstro ciclópico ameaçava a todos com suas presas de elefante, cabelos longos desgrenhados, corpo cabeludo, mãos compridas e pés redondos. A tudo ouve escondido no vento com seus passos largos para abocanhar qualquer alma vivente que lhe atravesse o caminho. Com a zoada ninguém toma pé da bulha que o acompanha, sempre surpreendendo a presa com seus olhos acesos na escuridão. Zé Cravo nem aí. De repente, um turbilhão com um rugido assustador. Ele ficou com os olhos esbugalhados prontos para pularem fora, deu-se a gritar, mas foi engasgado pelo medo. Totalmente arrepiado, não conseguia nem se mover. O monstro rugia na sua frente e ao atacá-lo, logo apareceu Maria Rosa com seus amigos afugentando o malfeitor que não conseguia enfrentar tantos bichos ao mesmo tempo, sendo afugentado dali, na marra. Rosa, então, aproximou-se do vitimado que estava em estado de choque, transido e sem conseguir balbuciar a mínima palavra. Tragam água com açúcar, façam-lhe sustos e alguns choques, ele precisa se restabelecer. Depois de muitos puxavanques e estapeados, ele voltou ao normal. O que era aquilo? Agora acredita, seu Zé Cravo? O que era aquilo? Aquilo era o Labatut que desce da lua para morar no fim do mundo e comer os teimosos como você. Deus me livre. Não fossem meus amigos, você agora estaria no bucho dele, seu mal-agradecido. Eu não, hem? Destá, um dia você aprende, seu chato. E ele nem aí. Dizem todos que essas desavenças entre Zé Cravo e Maria Rosa é sinal de casamento futuro, no fundo, todos admitem, não se odeiam, se amam. PS: Recriação da lenda O monstro Labatut, extraído da obra Histórias do sertão (Irmãos Pongetti, 1856), de José Martins de Vasconcelos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, compositor e bandleader de jazz estradunidense, Count Basie (1904-1984): Show of the week, Live in Paris, Chairman of the board & Jazz a Lincoln Center & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aquiaqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A tragédia do homem como animal desintegrado da vida consiste no fato de ele não poder encontrar satisfação nos dados e nos valores da vida. Qualquer criatura, como parte da existência, pode viver, pois, para ela, a existência da qual participa tem caráter absoluto. Para o homem a vida não é absoluto. Por isso nenhum homem, por não ser apenas animal, encontra satisfação no ato de viver. [...] Afirma-se equivocadamente que alguém se torna pessimista em razão de uma debilidade orgânica. Na verdade, ninguém se tornaria pessimista se não houvesse tido anteriormente tanto elã a ponto de ter desejado a vida com um ardor apaixonado, mesmo se esse ardor não tenha entrado em sua consciência. [...]. Trechos extraídos da obra Nos cumes do desespero (Hedra, 2012), do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995), que em outra obra, Entretiens (Gallimard, 1995), expressa que: [...] Em todo homem dorme um profeta, e quando ele acorda há um pouco mais de mal no mundo... a vida em comum torna-se intolerável e a vida consigo mesmo mais intolerável ainda. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEGADO – [...] Objetos de todos os tipos são materiais para a nova arte: tinta, cadeiras, comida, luzes elétricas e néon, fumaça, água, meias velhas, um cachorro, filmes, mil outras coisas que serão descobertas pela geração atual de artistas. Esses corajosos criadores não só vão nos mostrar, como que pela primeira vez, o mundo que sempre tivemos em torno de nós mas ignoramos, como também vão descortinar acontecimentos e eventos inteiramente inauditos, encontrados em latas de lixo, arquivos policiais e saguões de hotel; vistos em vitrines de lojas ou nas ruas; e percebidos em sonhos e acidentes horríveis. Um odor de morangos amassados, uma carta de um amigo ou um cartaz anunciando a venda de Drano; três batidas na porta da frente, um arranhão, um suspiro, ou uma voz lendo infinitamente, um flash ofuscante em staccato, um chapéu de jogador de boliche - tudo vai se tornar material para essa nova arte concreta. Jovens artistas de hoje precisam mais dizer “Eu sou um pintor” ou “um poeta” ou “um dançarino”. Eles são simplesmente “artistas”. Tudo na vida estará aberto para eles. Descobrirão, a partir das coisas ordinárias, o sentido de ser ordinário. Não tentarão torna-las extraordinárias, mas vão somente exprimir o seu significado real. No entanto, a partir do nada, vão inventar o extraordinário e então talvez também inventem o nada. As pessoas ficarão deliciadas ou horrorizadas, os críticos ficarão confusos ou entretidos, mas esses serão, tenho certeza, os alquimistas [...]. Trecho de O legado de Jackson Pollock (Zahar, 2006), do artista visual e assemblagista estadunidense Allan Kaprow (1927-2006).

VIAGEM AO FIM DA NOITE – [...] O pior é que a gente fica pensando como que no dia seguinte vai encontrar força suficiente para continuar a fazer o que fizemos na véspera e já há tanto tempo, onde é que encontramos força para essas providências imbecis, esses mil projetos que não levam a nada, essas tentativas para sair da opressiva necessidade, tentativas que sempre abortam, e todas elas para que a gente se convença mais uma vez que o destino é invencível, que é preciso cair bem embaixo da muralha, toda noite, com a angústia desse dia seguinte, sempre mais precário, mais sórdido. [...] É triste as pessoas se deitando, a gente percebe muito bem que não ligam a mínima se as coisas não andam como gostariam, a gente vê muito bem que não tentam compreender o porquê de estarmos aqui. Para elas tanto faz como tanto fez. Dormem de qualquer jeito, são umas descaradas, umas bestas quadradas, umas insensíveis, americanas ou não. Sempre têm a consciência tranquila. [...] Quanto ao resto, por mais que se faça escorregamos, derrapamos, recaímos no álcool que conserva os vivos e os mortos, não chegamos a nada. Está mais do que provado. E há tantos séculos que podemos olhar nossos animais nascerem, sofrerem e morrerem diante de nós sem que nunca lhes tenha acontecido a eles tampouco nada de extraordinário a não ser recomeçarem sem parar a mesma insípida falência no ponto onde tantos outros animais deixaram! Deveríamos entretanto ter compreendido o que acontecia. Vagas incessantes de seres inúteis vêm do fundo das eras morrer permanentemente diante de nós, e no entanto ficamos ali, a esperar coisas... Nem mesmo para pensar a morte a gente presta. [...] O grande cansaço da existência talvez seja apenas, em suma, esse enorme esforço que fazemos para mantermos vinte anos, quarenta anos, mais, o bom senso, para não sermos simplesmente, profundamente nós mesmos, quer dizer, abjetos, atrozes, absurdos. [...] Vi alguém chegar de longe, andando pelo caminho. Não fiquei muito tempo na dúvida. Mal chegou à ponte eu já o havia reconhecido. Era o meu Robinson, ele mesmo. Não havia erro possível. "Ele vem aqui para me procurar!", pensei na mesma hora... "O padre deve ter lhe passado meu endereço!... Tenho que me livrar dele correndo!" Na hora, achei-o abominável por me incomodar bem no momento em que eu começava a reconstruir meu bom pequeno egoísmo. [...]. Trechos extraídos da obra Viagem ao fim da noite (1932 - Companhia das Letras, 2009), do escritor maldito francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS - E SE EU DISSER – E se eu disser que te amo - assim, de cara, / sem mais delonga ou tímidos rodeios, / sem nem saber se a confissão te enfara / ou se te apraz o emprego de tais meios? / E se eu disser que sonho com teus seios, / teu ventre, tuas coxas, tua clara / maneira de sorrir, os lábios cheios / da luz que escorre de uma estrela rara? / E se eu disser que à noite não consigo / sequer adormecer porque me agarro / à imagem que de ti em vão persigo? / Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro / em tua ausência - essa lâmina exata / que me penetra e fere e sangra e mata. PALIMPSESTO – Eu vi um sábio numa esfera, / os olhos postos sobre os dédalos / de um hermético palimpsesto, / tatear as letras e as hipérboles / de um antiquíssimo alfabeto. / Sob a grafia seca e austera /algo aflorava, mais secreto, / por entre grifos e quimeras, / como se um código babélico / em suas runas contivesse / tudo o que ali, durante séculos, / houvesse escrito a mão terrestre. / Sabia o sábio que o mistério / jamais emerge à flor da pele; / por isso, aos poucos, a epiderme / daquele códice amarelo / ia arrancando como pétalas / e, por debaixo, outros arquétipos / se articulavam, claras vértebras / de um esqueleto mais completo. / Sabia mais: que o que se escreve, / com a sinistra ou com a destra, / uma outra mão o faz na véspera, / e que o artista, em sua inépcia, / somente o crê quando o reescreve. / Depois tangeu, em tom profético: / "Nunca busqueis nessa odisséia / senão o anzol daquele nexo / que fisga o presente e o pretérito / entre os corais do palimpsesto."/ E para espanto de um intérprete / que lhe bebia o mel do verbo, / pôs-se a brincar, dentro da esfera, / com duendes, górgonas e insetos. Poemas do poeta, jornalista e crítico literário Ivan Junqueira (1934-2014).

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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