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sábado, agosto 29, 2026

ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, aparando a testa dos seus 13 anos de idade, caniço de magro, à procura duma lavagem de roupa pra se sustentar em pé. Cabisbaixo arrastava a chinela, pra cima e pra baixo, a se distrair com as falas escandalosas da estridente aglomeração no vuque-vuque pelo centro da cidade. Era gente que só, pensava consigo: todos só queriam ganhar e gastar dinheiro, alvoroçados, e o que fazer mais se era esse o ânimo de todo mundo e, fora disso, a miséria encardida dele pela manhã todinha. Ah, porcaria! Já passava do meio dia e a fome apertava pra quem ainda se segurava no jejum. Numa lanchonete pediu emprego: Venha sábado, que é dia de feira. Então, me dê uma comida aí! Sai pra lá, mendigo! Austero, grosseiro, o dono do estabelecimento o defenestrava dali. A sua salvação foi um estranho que ofereceu pagar a refeição dele. Traçaram o rango juntos e, tapeado o bucho,  zanzaram a tarde toda. O céu àquela hora tinha a cor de quando vem chuva e ele se achando pelo mundo postiço, flagrando a torpeza espalhada entre fingimentos e desavenças pelos chuviscos. Só faltava essa! Os olhos amornados: caiu o maior pé d’água. Assuntou um tiquinho, coisa chocha mesmo. Ajeitava-se pelas beiradas, a água já pelo mocotó, fazia que aguentava aquilo tudo, as coisas todas de fora e as não vistas por aí. Desencosta dessa tristeza, chô! Hem? Segura a tampa. Ah, infame! Ele ali cheio das curiosidades, não conhecia bem Alagoinhanduba. Danou-se às perguntas, carregado de dúvidas. Desinvoca, vai! Falavam dum milagre que ele andava à cata: Onde? Quando? Nunca que sabia que tinha um santo Médici: Onde já se viu? Desincha as bochechas, vai! Às risadagens, com agora amigo Beto tagarela: Eu quero é botar meu bloco na rua! Como assim? Quero é atravessar a ponte Rio-Niterói! É longe? Se, ó. Queria era arrumar um emprego! Melhor fugir pela Transamazônica. Onde fica isso? Lá longe, depois de onde vira o beiço! E como chego lá? Vai andar um bocado. Logo vi, tudo é longe pra mim. Ih! Sorria, meu bem, sorria!... Chega dá vontade... Não bote força, vá no jeito. Aí, não deu sentença. E o amigo, numa cantiga de amor doido: Chorar pra quê?... Foi-se Bruce Lee. Era o dia dele. Gente é bicho de Deus. Ara. Fique atento, senão finda como o agente Laranja pedindo penico pra vietcongue, visse! Como? Você não entende nada! Palavreado loré esse seu. Oh, tapado: é aqui a Guerra do Vietnam, de verdade. Você fala umas coisas estranhas... Eu sou a Mosca na sopa! Queria ser como você... Anoiteceu, vamos cear pra gente assistir o Bem-amado. Onde? Ali na tevê da praça, não viu? Vamos, depois, a gente passa por lá. Engoliram o que deu pra comer no pavilhão de dona Zefinha e, depois, se arrancharam no jardim da praça pra ver a novela. Você vai dormir aonde? Não sei. Tem uma maloca no arruado da usina, a gente dorme por lá. Oba! No dia seguinte despertou sozinho, o amigo havia sumido. Oxe! Passou o dia todo pedindo emprego, a pança vazia. Já de noite de novo e tentou enganar a barriga roncadora assistindo ao capítulo teledramático, mas perdeu a paciência e foi-se, recolheu-se à tapera, tentando dormir. Amanheceu o sábado roxo de fome, correu pra lanchonete e, chegando lá, conseguiu ocupar-se. Já tomou café? Não como desde anteontem. Tome. Devorou um sanduíche de mortadela, deu pra enrolar as tripas. Bora trabalhar. Viu o patrão folheando um jornal com a foto daquele seu amigo desaparecido, o Beto. De soslaio: Conhece ele? Não. Era dia de feira, o povo e seus pedidos. Nem deu tempo para mal-entendidos. Desenrolou e, no final do expediente, comeu um pão com ovo, zarpou bêbado de sono. No outro dia, as moedas do bolso: O que ganhei mal dá pra comer. Foi pro trabalho, fechado, era domingo, ora, tinha de se virar: saiu catando o que fazer. Deu de cara com um estranho cantarolando o sucesso do rádio: “Vira, vira, vira, \ Vira, vira, vira homem, vira, vira \ Vira, vira lobisomem...” Era o receptivo coroinha Pedim do Padre: Que é que você tem? Tô com fome. Oxe, vamos pra igreja, você me ajuda a balançar o sino e a gente come na casa paroquial. Bora. Nunca tinha visto mesa farta, o padre Quiba deu as ordens: Quem é esse? É um morador de rua, estava com fome e veio me ajudar. Vamos logo! Os dois lá, blém, blém, pra missa da manhã domingueira. Terminada a liturgia, limparam tudo e saborearam farto repasto: era o almoço. Saíram juntos quando o agora amigo mostrou-lhe uma coleção de gibi. Coisa de ficar entretido. E brincavam já de tarde: De noite a gente vai no cemitério! Fazer o quê? Brechar as moças da vida se esfregando nos machos! E é! Pra frente, Brasil! À boquinha da noite lavaram a égua e foram pular o muro do sepulcrário. Hesitou, o terror das trevas, tudo nevoento. Atravessaram pelas catacumbas e se arrancharam numa touceira na parede esburacada. O que é aquilo? Safadeza. Viram dois machões esmurrando uma delas, aos gritos. Vieram outras, apanharam todas, chicotadas, desnudas. Eita, cada lamborada, hem? Gritaria. Lua espantou-se com o amigo onanista, em êxtase por vê-las seminuas, vestes rasgadas. Olha a caçola delas, meu! E o provocava para um cavalo-mago! Eita! Deixa de ser molenga! Estranhou vê-lo às aperturas, todo se desmilinguindo, os olhos virando. Sai pra lá! O enterro voltando: Lá vem os caras pra cá! Corre! Quedaram em desespero, acotovelaram-se. Pra que lado? Arquejavam, o chão tremia sob os pés. Tomou-lhe o pulso: Bora, porra! Deixaram tudo pra trás. Pularam o muro de volta e na primeira esquina: Vamos, já tá na hora da missa! Correram e ficaram lá, de joelhos, cara mais lisa, santinhos. Ao término, seguiam sob as vistas desconfiadas do pároco, chamando Pedim prum confidencial. Ouviu o zunzunzum e logo percebeu que não seria nada de bom. Um estrondo: só viu o baque! Eita! Pedim veio com uma cara enjoada. O vigário logo em seguida com cara de poucos amigos: Tem onde dormir? Tenho. Então pode ir, zarpa! Despediu-se do amigo, com uma promessa dele: Amanhã passa na Barraca Azul que eu descolo um lanche pra você. O da batina deu um beliscão no achegado e cagou raios nos bregues. Foi-se o que dera doce, socou-se na sua loca e, no outro dia, olhos remelentos, fatigado. Levantou-se e foi pro acertado: o amigo não estava lá, como prometido; o canto mais limpo. Disseram: Ele foi trabalhar em Itaipu! Vixe! Foi pra lanchonete e levou esporro porque chegou atrasado: Você é o Skylab é? Não, senhor. Se for, leve a bronca pra lá! Descolou um petisco e ficou por ali fazendo mandados. O patrão resmungava: Esse não vale o feijão que come! Ao lado, uma banca de revistas, não tirava o olho: Quanto é? Não tinha dinheiro para comprar aquela que soletrava: Char-lie, Charlie Moon. O chefe ralhando feio, brabeza nos olhos: Vai roubar não, tô de olho em você! O proprietário da banca arremedou: Esse num vale um conto de réis! Aí o superior castigou: Fique perto das minhas vistas, seu! Zé na defensiva, ficou meio de banda e levou no cangote maior esculacho: Menino, tome jeito, senão você acaba que nem Araceli, viu? Ou como Carlinhos... Ana Lídia... Ou o Beto, se assunte! Beto? Ficou com o coração na mão, o olho numa rapadura ali estirada no gosto. Serviu-se de uma boia e, às portas arreadas, procurou caminho de volta pro cantinho, pra se entocar. No meio do caminho: Foi ele! Pega! Correria, escondeu-se na primeira brecha. Onde ele se meteu? Pente fino, caça tudo! Clandestino, ficou na sua: Pra quem não tem um bem nem vintém, ué! Tapava o olho, mirava, aos sopapos, um toco de graveto, a futucar no traquejo, era o ponto pras más surpresas. Foi por uma banda, voltou pela outra. Segurou a carranca na sola do pé, foi a conta: riscou no ar. Mandou longe, tão desfeliz, segurou-se na cacunda, resignado: a boa lua que acudisse, asfixiado de medo. Coisa de cigano: sem saber pra onde metesse as ventas. Mas ia. A coragem no toitiço por uma peínha de nada, segurava nos beiços sua indignação. A vizinhança caçadora: Cadê-lo? E ele trepado na garupa doutro esconderijo, sua modorra. Ao rés do chão, puxou a tabica, faria o mesmo e se desviava papudo, pueril, afiava a munheca no parapeito. Aí a frustração: nada dava liga. Lembrou-se de Beto, Pedim, o emprego, dona Zefinha tão boa, tudo perdido. Assim por vários dias, semanas, meses, aos pinotes, a coisa nunca como sonhado e ele: Só deixo o meu Cariri no último pau de arara... Era uma vez e mais uma e outra mais... Até mais ver.

 

Emil Cioran: O homem recomeça todos os dias, apesar de tudo o que sabe, contra tudo o que sabe... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Egan: De certa forma, estou sempre tentando fazer algo que não estou qualificada para fazer. Por isso, sinto essa falta de qualificação. E tenho medo. E eu tenho uma tendência a pensar que as coisas podem e provavelmente não vão dar certo. Essa é a minha mentalidade básica... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ione Skye: Eu tenho essa teoria da convergência, de que coisas boas sempre acontecem junto com coisas ruins... Não seja cruel, isso também é difícil para mim... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

VÓRTICE QUEBRADO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Estou num vazio árido, escuro e desolado. \ Pendurei os kilims contra o vento. \ Aqui estou eu, \ num cochilo vespertino sobre os talos. \ O mundo está lá embaixo, as montanhas distantes. \ Sou tão ressentido quanto esta encosta, \ mas colorido, ao vento, kilims \ e o fim da colheita, folha cansada, lagarto fugitivo. \ Sou o lago sobre o qual a noite cai. \ Uma vez que criei uma memória por amor, \ não o farei novamente. \ Sou um pequeno grupo na vinha \ sobre a qual o outono passou e abandonou. \ Você é como um lago, \ você é como um lago? \ Você é como um lago, ei! \ Você está em um sonho, ei, você é o sonho. \ Em um poema aquático, \ você está falando alto. \ Os Países Baixos \ estão silenciosos agora. Sempre!

Poema da escritora, editora e socióloga turca Birhan Keskin, que foi editora adjunta da pequena revista Göçebe e é autora de livros como: Delilirikler (1991), Bakarsın Üzgün Dönerim (1994), Cinayet Kışı + İki Mektup (1996), Yirmi Lak Tablet + Yolcunun Siyah Bavulu (1999) e Yeryüzü Halleri (2002), Kim Bağışlayacak Beni (2005), Ba (2005), Y'ol (2006), Soğuk Kazı (2010) e Fakir Kene (2016).

 

ÍDOLO ARDENTE - [...] Da mesma forma que uma noite de sono amassava os lençóis, o simples fato de estar vivo cobrava seu preço. [...] Mas este mundo onde eu aparecia com minha persona meio inventada era um lugar mais gentil. [...] Eu não conseguia lidar com a vida da mesma forma que todos os outros pareciam fazer com facilidade, e lutava diariamente com as consequências complicadas. Mas impulsionar meu oshi era o centro da minha vida, algo natural, meu único ponto de clareza. Era mais do que um núcleo — era minha espinha dorsal. [...]. Trechos extraídos da obra Idol, Burning: A Psychological Debut About Celebrity Worship, Fame, and Devastating Scandal (HarperVia, 2022), da escritora japonesa Rin Usami.

 

A VIDA & VIVER - Eu exorto você a encontrar uma maneira de mergulhar plenamente na vida que lhe foi dada. Parar de fugir de tudo o que você está tentando escapar, e em vez disso para parar, virar, e enfrentar o que quer que seja… A razão pela qual todos nós somos tão miseráveis pode ser porque estamos trabalhando tão duro para evitar ser miseráveis... Pensamento da psiquiatra e professora estadunidense Anna Lembke. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE ANTÔNIO MARIA

(Escultura de Antônio Maria, na Rua Bom Jesus, centro histórico do Recife, do escultor Demétrio Albuquerque - Foto: Rubens Chaves)

Vi-a passar. Comecei a vê-la ao longe, quando despontou na rua. Conheci-lhe a blusa, mas achei diferente a maneira de caminhar. Aquele andar mole, de quem vai para lugar nenhum. Talvez não fosse o caso, no entanto. As pessoas quando não estão felizes, ou quando estão infelizes, por mais que andem, parece que não vão para lugar nenhum... De vez em quando eu tenho me surpreendido descansando de coisas que eu não fiz... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira...

Trechos extraídos de crônicas do escritor, jornalista e compositor Antônio Maria (Antônio Maria Araújo de Morais – 1921-1964), que compôs samba-canção, polcas, frevos, marchinhas de carnaval, valsas e sambas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,  aqui & aqui.

 

A ARTE DE YAYOI KUSAMA

Minha arte é uma expressão da minha vida, sobretudo da minha doença mental, originária das alucinações que eu posso ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me atormentam em esculturas e pinturas. Todos os meus trabalhos em pastel são os produtos da neurose obsessiva e, portanto, intrinsecamente ligados à minha doença. Eu crio peças, mesmo quando eu não vejo alucinações, no entanto. Com o tempo, passou a preencher pisos, paredes, telas, objetos e até pessoas com seus pontos...

Pensamento da escritora e artista plástica japonesa Yayoi Kusama (1929-2026), que se expressou por meio de uma diversidade artísticas, que vai das colagens, pinturas, esculturas, arte performática e instalações ambientais, tendo por característica a obsessão por pontos e bolas. A obra “Narcissus garden Inhotim” (2009) pode ser encontrada no Centro Cultural Inhotim, em Minas Gerais, dezenas de grandes esferas prateadas, que ficam na superfície da água e que podem ser movidas conforme a ação dos ventos, réplica/versão da escultura que fez em 1966, para participar da Bienal em Veneza, onde ela espalhou 1500 esferas espelhadas e as vendia por 2 dólares. Entre as bolas, havia placas com os dizeres “Seu narcisismo à venda”, uma forma que ela encontrou para criticar o sistema das artes. Ela era considerada louca e, na sua loucura e em seus desvarios, ela encontrou na arte a fuga e o tratamento da sua doença. Como ela mesma diz: Se não fosse sua arte, já teria me matado há muito tempo. No caso dela, além das alucinações, muitas vezes suicidas, ela ainda passou a ter TOC, ou seja, as bolinhas e pontos se tornaram uma verdadeira obsessão, que se reflete em tudo que venha da artista, não só em sua arte como também no seu visual, que chamou muita atenção. Veja mais aqui & aqui.

 


LEITURAS: JORGE LUÍS BORGES – (Imagem do pintor italiano Stefano Davidson) - Reunião de algumas das leituras de obras do escritor argentino Jorge Luís Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo – 1899-1986), por quem nutro profunda admiração, tornando-me compulsivo em devorar seus livros, incluindo-se aí releituras reiteradas e feitas até hoje. Confira aqui.

 


O TEATRO DE AUGUSTO BOAL – Homenagem ao dramaturgo, escritor e compositor Augusto Boal (Augusto Pinto Boal - 1931-2009), tendo em vista a sua indispensável importância na minha formação teatral, influenciando, evidentemente, a minha atuação na área, inclusive na escrita dos meus textos. Muito aprendizado que foram recolhidas de suas obras, notadamente Técnicas Latino-Americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário (Hucitec, 1975), 200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro (Civilização Brasileira, 1983), além de Teatro do oprimido e outras poéticas políticas (Civilização Brasileira. 1975), entre outras. Tenho em os livros de minha predileção o seu Teatro Completo (Hucitec, 1986, 2 volumes). Confira aqui.

 


SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – Reunião de temáticas que abordam a diversidade dos debates na sociedade contemporânea, envolvendo desde a questão do futuro da humanidade, a arqui-violência, o cristofascismo, o capitalismo, o racismo, agrotóxicos, a responsabilização política, as tecnologias e as neurociências, entre outros, refletidas pelos mais diversos pensadores, neurocientistas, filósofos, psicólogos & outros profissionais estudiosos dos mais diversos campos do saber. Confira aqui.

 


O CAMINHO DOS VENTOS - Este é o terceiro episódio das aventuras do Nitolino no Valuna, em que os protagonistas chegam no toré xukuru e são levados ao sabor dos ventos. Confira aqui.

 


GENTAMIGA ATELIÊ – Livro-catálogo & exposição que ocorrerá neste mês de setembro, reunindo as obras dos artistas integrantes do Gentamiga Ateliê, formado por Rubens da Cunha Lima, Cibele Sarkis, Ricardo Aidar, Márcia Gebara.  A coletânea conta com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau & Renata Sant'Anna. Confira aqui. 

 

ISTO É PERNAMBUCO

Arte do Mestre Vitalino. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



quinta-feira, março 19, 2020

MERLEAU-PONTY, ALDA ESPÍRITO SANTO, HERMILO & PATTIE BOYD


ORA, QUANDO NÃO VAI DUM JEITO, VAI DOUTRO - UMA: OUTRA DE FABOS & CAFOS - Entre 1988-2010, a coisa parecia que ia mesmo dessa vez no Brasil. Parecia, só. Na verdade se arrastava e empancava, ia e vinha, seguia rebocada assim meio de banda, aos empurrões, lerda e quase na má vontade. Mas, ia. Bastou virar a curva da última década, a força das verdinhas dos interesses estadunidenses mandaram ver com suas manguinhas de fora e a vaca foi pro brejo ultimamente - como naquela década 1954-64, dois anos a mais, apenas. Foi. Em nome de uma sede de “justiça”, passaram grandes empresas, corruptores e corrompidos num lava jato de num sobrar nem os farelos delas nem de mais nada do que restava de uma meio fajuta democracia. Foi pinote como a praga! É que queriam passar a limpo, mas tudo findou naquela do Fecamepa: o dia que o país resolveu ser levado a sério. Vazou o jato. Não foi dessa vez. Quase acreditei que seria, um pé lá e outro cá, claro. Muito estardalhaço pra findar na maior melecada. Havia uma catinga de golpe no ar e teve gente que se enganou e está até hoje fraudado pela cor da chita. Pois a enrolada espremeu tudo, menos uns tantos achegados saltitantes. Pois foi, era a vez da manobra: defenestraram a governante e pegaram o suposto vilão pelos colhões, pronto, tudo resolvido, agora era só inventar história. As abrobrinhas reinaram em cadeia nacional e horário nobre, de tão repetidas pareciam na vera. Teve até quem rezasse genuflexo embaixo da maior trovoada! Amém. E deu certo: Drácula ressuscitou no VladTemer que impune abocanhou o que queria com seus acoloiados vampiros, armou o circo pro Coisonário que empestou metade do país com a trupe de coisominions, e o desdobramento foi despachar a vertigem agora na guerra com o Covid-19. Nossa! Pois foi mesmo. E agora? Fico com a do Marcelo Gleiser: Há algo de muito patológico numa espécie que se diz inteligente, mas só é capaz de garantir sua sobrevivência pelo acúmulo de armas. Tá vendo? Mesmo que a gente esteja careca de saber sobre o lamentável expediente da guerra, nessa, acho, que todos nos ferramos do primeiro ao quinto, com centena e milhar. DUAS: UM DOMINGO DESSE AÍ - Ia passando uma malta aguerrida – na verdade, uns gatos pingados em marcha de Cafos -, com palavras de ordem em apoio ao Coisonario. Na calçada apreciando a paisagem, uma distinta senhora muito bem aquinhoada de gestos e modos, nem prestava atenção direito ao que ocorria. Logo, um repórter de uma dessas tevês chapa branca, aproximou-se dela, indagando o que achava do evento. Ela respondeu simplesmente: Nada. Como assim? E coisa e tal. Diante da insistência do profissional por chamar-lhe a atenção, ela dispensou à la Mae West: Ama o teu próximo – e, se ele for alto, moreno e bonitão, será muito fácil. O beijo do homem é a sua assinatura. O cara espantou-se: O que tem a ver uma coisa com outra? E ela charmosamente e sob a mesma rubrica da diva, arrematou: Quando sou boa, sou ótima. Mas, quando sou má, sou muito melhor! Viva ela! TRÊS: AH, SOBRE COPERNICANISMO AO CONTRÁRIO. DE NOVO? Falei outro dia aqui do copernicanismo ao contrário. Hem? Aliás, vez em quando menciono aqui. Como? Isso mesmo. E toda vez que faço menção, há sempre aquelas pestanas inquiridoras pra minha banda. Que droga é nove, meu? Tá, explico usando o autor da ideia, Augusto Boal: é quando os povos descobrem que são o sujeito da história, o motor da sociedade, o centro do nosso universo: não mais satélites. O que? Adiantou nada, as sobrancelhas cerradas continuam na mesma, não tem quem entenda assim de chapa, quem sabe um dia. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] enquanto habito um “mundo físico”, em que “estímulos” constantes e situações típicas se reencontram – e não apenas o mundo histórico em que as situações nunca são comparáveis –, minha vida comporta ritmos que não têm sua razão naquilo que escolhi ser, mas sua condição no meio banal que me circunda. Assim, em torno de nossa existência pessoal aparece uma margem de existência quase impessoal, que é por assim dizer evidente, e a qual eu reporto o zelo de manter-me em vida, em torno do mundo humano que cada um de nós faz, aparece um mundo em geral ao qual é preciso pertencer em primeiro lugar para poder encerrar-se no ambiente particular de um amor ou uma ambição. [...]. Trecho extraído da obra Fenomenologia da percepção (Martins Fontes, 1999), do filósofo fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Veja mais aqui.

AS MULHERES DA MINHA TERRA - Irmãs, do meu torrão pequeno / Que passais pela estrada do meu país de África / É para vós, irmãs, a minha alma toda inteira / — Há em mim uma lacuna amarga — / Eu queria falar convosco no nosso crioulo cantante / Queria levar até vós, a mensagem das nossas vidas / Na língua maternal, bebida com o leite dos nossos primeiros dias / Mas irmãs, vou buscar um idioma emprestado / Para mostrar-vos a nossa terra / O nosso grande continente, / Duma ponta a outra. / Queria descer convosco às nossas praias / Onde arrastais as gibas da beira-mar / Sentar-me, na esteira das nossas casas, / Contar convosco os dez mil réis / Do caroço vendido / Na loja mais próxima, / Do vinho de palma / Regateado pelos caminhos, / Do andim vendido à pinha, / Às primeiras horas do dia. / Queria também / Conversar com as lavadeiras dos nossos rios / Sobre a roupa de cada dia / Sobre a saúde dos nossos filhos / Roídos pela febre / Calcurreando léguas a caminho da escola. / Irmã, a nossa conversa é longa. / É longa a nossa conversa. / Através destes séculos / De servidão e miséria... / É longa a estrada do nosso penar. / Nossos pés descalços / Estão cansados de tanta labuta... / O dinheiro não chega / Para vencer a nossa fome / Dos nossos filhos / Sem trabalho / Engolindo a banana sem peixe / De muitos dias de penúria. / Não vamos mais fazer “nozados” longos / Nem lançar ao mar / Nas festas de Santos sem nome / A saúde das nossas belas crianças, / A esperança da nossa terra. / Uma conversa longa, irmãs. / Vamos juntar as nossas mãos / Calosas de partir caroço / Sujas de banana / “Fermentada” no “macucu” / Na nossa cozinha / De “vá plegá”... / A nossa terra é linda, amigas / E nós queremos / Que ela seja grande... / Ao longo dos tempos!... / Mas é preciso, Irmãs / Conquistar as Ilhas inteiras / De lés a lés. / Amigas, as nossas mãos juntas, / As nossas mãos negras / Prendendo os nossos sonhos estéreis / Varrendo com fúria / Com a fúria das nossas “palayês” / Das nossas feiras, / As coisas más da nossa vida. / Mas é preciso conversar / Ao longo dos caminhos. / Tu e eu minha irmã. / É preciso entender o nosso falar / Juntas de mãos dadas, / Vamos fazer a nossa festa...! / A festa descerá / Ao longo de todas as vilas / Agitará as palmeiras mais gigantes / E terá uma força grande / Pois estaremos juntas irmãs / Juntas na vida / Da nossa terra / Mas é preciso conhecer / A razão das nossas secretas angústias. / Procurar vencer Irmãs / A fúria do rio / Em dias de tornado / Saber a razão / Encontrar a razão de tudo... / “Os nossos filhos / O nosso filho morreu / Roído pela febre”... / Muitos pequeninos / Morrem todos os dias / Vencidos pela febre / Vencidos pela vida... / Não gritaremos mais / os nossos cânticos dolorosos / Prenhes de eterna resignação... / Outro canto se elevará Irmãs, / Por cima das nossas cabeças. / Vamos procurar a razão. / A hora das nossas razões vencidas / Se avizinha. / A hora da nossa conversa / Vai ser longa. / De roda do caroço / De roda das cartas / escritas por outrém, / Porque a fome é grande / E nós não sabemos ler. / Não sabemos ler, irmãs / Mas vamos vencer o medo. / Vamos vencer nosso medo / De sermos sós na terra imensa. / Jamais estaremos solitárias... / Porque a nossa força há-de crescer. / E então conquistaremos / para nós / para os filhos gerados no nosso ventre, / Nas nossas horas de Angústia / — Para nós — / A nossa bela terra / No dia que se avizinha / Saindo das nossas bocas, / Uma palavra bela / Bela e silenciosa / A palavra mais bela / Ciciada no nosso crioulo, / A palavra sem nome / Entoada no silêncio / Num coro gigante / Correndo ao longo das nossas cascatas, / Das cachoeiras mais distantes, / O canto do silêncio, Irmãs / Há-de soar / Quando chegar a Gravana. / E por hoje, Irmãs / Aguardemos a gravana / Ao longo das nossas conversas / No serão das nossas casas / sem nome. Poema extraído da obra É nosso o solo sagrado da terra (Ulmeiro, 1978), da poeta são-tomense Alda Espírito Santo (1926-2010).

ESPETÁCULOS POPULARES DO NORDESTE
[...] fornecer aos leigos um resumo fiel dos espetáculos do povo do Nordeste; [...] preservar a arte popular e fornecer elementos aos artistas eruditos que descubram o verdadeiro caminho do teatro brasileiro.
ESPETÁCULOS POPULARES DO NORDESTE - A obra Espetáculos populares do Nordeste (Massangana, 2007), do advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-1976), trata sobre o bumba-meu-boi, fandango, mamulengo e pastoril, com uma bibliografia e cronologia. Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Não posso reescrever a história. Sempre estará ligada a Beatles, George e Eric.
PATTIE BOYD – A arte da fotógrafa, atriz e ex-modelo britânica Pattie Boyd, que foi musa e casada com George Harrison e Eric Clapton. Foi modelo de sucesso internacional durante as décadas de 1960-70, tornando-se fotógrafa profissional com exposições em galerias ao redor do mundo. Ela escreveu um livro de memórias, Wonderful tonight: George Harrison, Eric Clapton and me. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
CONVERSA DE CAMARIM
A obra Conversa de camarim: o teatro no Recife na década de 1960 (SC/FCCR, 2007), do dramaturgo, filósofo, jornalista, professor, poeta, diretor, encenador e crítico de teatro, Benjamim Santos, aqui.
A obra do poeta, contista, cronista, dicionarista e jornalista, Artur Griz aqui & aqui.
Cais Companhia de Dança & Dielson Pessoa aqui.
Célia Labanca & Das coisas da minha terra aqui.
Asas do tempo, do escritor Fernando Nascimento Barreto aqui.
A música do poeta e multiartista Fábio de Carbalho aqui, aqui & aqui.
A arte de Mabelle Batista aqui.
O mamulengo de Glória do Goitá aqui.
A fúria dos inocentes aqui.
O município de Bezerros aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

quarta-feira, maio 02, 2018

PAULO FREIRE, NOVALIS, BOAL, JOSEPH CONRAD, CAROLEE SCHNEEMANN, VITAL CORRÊA DE ARAÚJO, ANTÔNIO NÓBREGA & LUISA SPLETT

CADA DIA UMA ESQUINA & MUITAS OUTRAS – Imagem: arte da artista visual estadunidense Carolee Schneemann. - Ao virar a esquina, a cada dia, peito aberto, não previa, nunca, o que poderia ocorrer. Sempre assim, a expectativa do imprevisível e inevitável. Podia ser o dia de ontem ou outros que passaram quando feliz por nada ou desolado de esperanças, sem poder pedir ajuda, as escolhas sempre foram minhas e todos fugiam pros seus compromissos, sabia, eu mesmo tenho de dar bom termo para tudo, ou não, cair e pagar o pato, assim seja como for. Podia ser o Galo da Madrugada com zilhões de foliões às fantasias loucas e meio mundo de gente colorida aos pulos pelo embalo da festa carnavalesca fora de hora, só pra dizer que a basta a liberdade de se esbaldar pra ser feliz como puder. Ou um touro bravo desgovernado arrepiando a ocasião e eu paralisado de pânico, sem tempo nem pra olhar pros lados e escapulir por um buraco milagroso aberto na calçada da agonia e eu sumisse daquele aperreio, enquanto uma boiada imensa seguia aterradora pra barca de Noé estacionada não sei onde. Ou um disco voador na caça de me abduzir assim do nada, sem mais nem menos, com tanta gente dando mole, logo eu o escolhido na maior fuga, de nada adiantando, que coisa! E agora? Ou podia ser a Lua que despencou do céu rolando solta e inclemente a esmagar desavisado que aparecer pela frente, como tacada na caçapa. Ou a passeata dos milhões de deserdados,  mulheres, meninos, anciões, toda gente das periferias e centros e adjacências, esfomeados de justiça aos gritos e choros de todas as dores desse Brasilzão arrevirado de porteira escancarada. Ou uma enchente disfarçada de tsunami lavando culpas, ardis e promessas no batismo de toda santidade roubada nas horas mais difíceis. Ou até mesmo Jesus escorraçado pela fúria dos cristãos por preferi-lo crucificado para doer e salvá-los de todos os seus pecados. Ou ainda a Terra rodando ao contrário desgovernada com a fúria dos que revidam toda sorte de exploração. Ou mesmo a morte com cara de raiva pronta para prestar contas comigo. Sem saber o que fazer, desfalecia sem ter mais o que fazer. Ah, nada disso, é o meu pesadelo de olhos abertos, acordei no susto. A vida é minha e vou com todos pra descoberta do que não sei. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do artista e músico Antônio Nóbrega: Madeira que cupim não roi, Pernambuco falando para o mundo & Lunário perpétuo; da pianista suíça Luisa Splett: Sonata nº 5 Scriabin, Vallée d’Obeberman Liszt & Sonata Reminiscenza Nikolai Medtner; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] é preciso que a educação esteja – em seu conteúdo, em seus programas e em seus métodos – adaptada ao fim que se persegue: permitir ao homem chegar a ser sujeito, construir-se como pessoa, transformar o mundo, estabelecer com os outros homens relações de reciprocidade, fazer a cultura e a história. [...]. Trecho extraído da obra Conscientização: teoria e prática da libertação – uma introdução ao pensamento de Paulo Freire (Moraes, 1980), reunindo o pensamento do sociólogo e pedagogo Paulo Freire (1921-1997), que na sua obra Pedagogia do oprimido (Paz e Terra, 2001), observa que: [...] a questão fundamental, neste caso, está em que, faltando aos homens uma compreensão crítica da totalidade em que estão, captando-a em pedaços nos quais não reconhecem a interação constituinte da mesma totalidade, não podem conhecê-la. E não o podem porque, para conhecê-la, seria necessário partir do ponto inverso. Isto é, lhes seria indispensável ter antes a visão totalizada do contexto para, em seguida, separarem ou isolarem os elementos ou as parcialidades do contexto, através de cuja cisão voltariam com mais claridade à totalidade analisada [...], bem como na sua obra Pedagogia da indignação (Unesp, 2000), acrescenta que: [...] Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes [...]. Veja mais aqui.

O TEATRO & O PENSAMENTO ESTÉTICO – [...] O pensamento estético, que produz arte e cultura, é essencial para a libertação dos oprimidos, amplia e aprofunda sua capacidade de conhecer. Só com cidadãos que, por todos os meios simbólicos (palavras) e sensíveis (som e imagem), se tornam conscientes da realidade em que vivem e das formas possíveis de transformá-la. [...] Trecho extraído da obra A estética do oprimido. (Garamond, 2009), do dramaturgo, ensaísta e escritor brasileiro Augusto Boal (1931-2009). Veja mais aqui.

A JUVENTUDE & A VIDA - [...] tenho apenas 20 anos – e aqui estou, sobrevivendo a isto tanto quanto qualquer um destes homens, e mantendo meus camaradas inteiros. Eu estava satisfeito. Não abandonaria a experiência por nada neste mundo – ou de outros. Eu tinha momentos de exultação. Toda vez que a velha e esfarrapada embarcação atirava-se pesadamente em direção ao céu, ela parecia me arremessar, como um apelo, um desafio, um grito às nuvens sem piedade. As palavras escrita na popa: Judeia, Londres. Faça ou morra. Ah, juventude! Sua força, sua fé, sua imaginação. Para mim, ela não era um velho traste carregando pelo mundo um monte de carvão como carga – para mim, ela era a empreitada, a prova, o teste da vida. Penso nela com prazer, com afeição, com pesar – como pensaria de alguém morto que um dia amara. Eu nunca a esquecerei... Passe a garrafa. [...]. Trecho extraído da obra Juventude: uma narrativa (Paz e Terra, 2003), do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924).

OS HINOS À NOITE – I - Diante do espetáculo maravilhoso do espaço aberto à sua volta, que existência viva, sensível, não ama a deliciosa luz, com suas cores, raios e ondulações, sua onipresença gentil na forma do alvorecer? O mundo gigantesco das constelações despertas inala o dia como a mais profunda alma da vida, e flutua dançando em sua torrente azulada; a pedra tranqüilamente faiscante, a pesarosa planta, o mundo selvagem, ardente e multiforme dos animais o inala; porém, mais que elas, o nobre estrangeiro com olhos brilhantes, andar altivo, lábios melodiosos e cerrados. Como um rei que comanda a natureza mundana, ele invoca os poderes para transformações incontáveis, ata e desata inúmeras alianças, sustenta sob forma celestial cada substância terrena. Sua presença por si só revela o esplendor maravilhoso dos reinos do mundo. E eu me volto para a Noite misteriosa, sagrada e indescritível. Ao longe repousa o mundo, em sepulcro profundo; um lugar solitário e arruinado. Nas cordas do peito golpeia uma tristeza profunda. Estou pronto para mergulhar nas gotas do orvalho, e misturar-me às cinzas. - A distância da memória, os desejos da juventude, os sonhos da infância, as breves alegrias e aspirações vãs de uma vida longa, surgem com uma veste acinzentada, como o vapor da tarde antes do pôr do sol. Em outras plagas a luz assentou suas tendas felizes: e se eu nunca mais retornar para suas crianças, que me esperam com a fé da inocência? O que renova todos os pressentimentos de meu coração, e acalma o ar suave da tristeza? Negra Noite, não terás uma afinidade conosco? O que seguras sob teu manto, cujos poderes ocultos afetam minh'alma? O bálsamo precioso goteja do ramo de papoulas, em tuas mãos. Tu retiras os cravos de aço da alma. De modo obscuro e indescritível, somos tocados: estarrecido de prazer contemplo a face grave que, suavemente e em prece, inclina-se sobre mim, e, em meio a olhares confusos, revela o amor jovial da Mãe. Como a luz parece agora algo pobre e infantil! como é agradável e bem-vinda a partida do dia! - Não é apenas porque a noite arrebata de ti seus servos, e lança aos abismos do espaço teus globos faiscantes, que proclamas, nos momentos de ausência, sua onipotência, e desejas seu retorno? Temos olhos que a noite abriu em nosso interior, mais divinos que aquelas estrelas brilhantes. Sua visão alcança além dos incontáveis hóspedes mais pálidos da noite. Sem auxílio da luz eles penetram as profundezas que abrangem as regiões elevadas com inefável delícia. Glória à rainha do mundo, à grande profetisa dos mundos mais sagrados, à mãe cuidadosa do delicioso amor! ela mandou-te a mim, tu a mais suavemente amada, sol gracioso da Noite. Agora desperto, pois sou teu e meu. Fizeste-me conhecer a Noite, entregaste-a a mim para que se tornasse minha vida; tu fizestes de mim um homem. Consumas meu corpo com o ardor de minh'alma, de modo que eu, tornado ar purificado, possa misturar-me completamente contigo, e assim, nossa noite de núpcias durará eternamente. Poema do poeta alemão Novalis (Georg Philipp Friedrich von Hardenberg – 1772-1801).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual estadunidense Carolee Schneemann. 
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Gesta Pernambucana de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
Quem abre os braços sou eu, a poesia de Virgilio, a escultura de Edward Onslow Ford & a música de Belchior aqui.

sexta-feira, março 16, 2018

HEIDENSTAM, BOAL, HEIDEGGER, HÉLIO DELMIRO, MASI, CAPDEVILLE, JUAREZ MACHADO, DUBUFFET, MARCUS ACCIOLY & VIOLINOS DE PALMARES

A TAPA & O INFARTO – Imagem: arte do escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo, ator e artista plástico Juarez Machado. - Manhã de sol, quentura escorrendo pelos poros naquela sexta. Ali, no estabelecimento comercial, era maior o calor, enquanto recolhia a assinatura dos sócios. Eis que entra um distinto sujeito, muito bem apessoado, uma finura no trato, foi logo atendido por um dos irmãos do empreendimento, identificando-se como vendedor de uma empresa multinacional, na oferta de produtos do interesse empresarial. A conversa corria nos conformes e, a certa altura, o sócio largou uma piada que, apesar de picante e pejorativa, havia sido bem digerida pelo profissional de vendas que continuou demonstrando por meio de cartazes e folders os inúmeros recursos e avanços tecnológicos de seus produtos. O sócio insatisfeito repetiu a dose com nova pilheria pesada, não conseguindo, mesmo assim, transtornar ou causar nenhum desconforto ao visitante a se manter sóbrio e indiferente às indiretas alfinetadas. Insistente, o sócio ironizava procurando desconcertá-lo, desviando o assunto para desconcentrar o expositor, utilizando de todas as formas possíveis para derrubar-lhe a sobriedade. Até então, tudo ainda mantido socialmente, quando o recalcitrante inquiriu em pé de guerra: Ué, você tem sangue de barata, rapaz? Não entendi, senhor. Estou aqui o tempo todo espinafrando você e suas engenhocas e você não desce dos tamancos, qual que é, você não tem amor-próprio? Ah, meu senhor, sou um profissional de vendas e tenho apreciado suas brincadeiras, o senhor tem muito bom humor. Bom humor, uma porra! Você é covarde ou incapaz de encarar uma briga boa? Ah, meu senhor, sou de paz e estou aqui apenas para satisfazer suas necessidades, apresentando-lhe produtos da mais revolucionária tecnologia. Ah, acho que você é mesmo um cagalhão, um filho da puta qualquer! O senhor realmente tem uma dose alta de bom humor! Não é bom humor não, seu porra! É que estou cheio da sua cara! Pronto. Nessa hora, o sócio partiu para cima com uma tapa bem dada na face do vendedor. Ao estapear, afastou-se e ficou esperando a reação da vítima. Simplesmente, face serena, tranquilo, do mesmo jeito como desde que chegara, expôs a outra face e disse: Dê outra aqui. O sócio enfureceu-se e não só deu uma tapa na outra face como o esmurrou, depois se afastou e se preparou para o revide. Não foi dessa vez. Tranquilo, sereno, sem alterar a voz nem a fisionomia, simplesmente o vendedor arrumou a papelada, reuniu tudo e colocou dentro da sua valise, dirigindo-se ao algoz como se nada tivesse acontecido: Muito obrigado, passe bem. E estendeu a mão para ser apertada, recebendo a negativa e xingamentos: Ora, vá tomar no cu, fresco! Despediu-se dos demais desejando um bom dia para todos e saiu. O ambiente estava tenso e como meu trabalho havia sido concluído ali, finalmente, acompanhei toda a cena e me despedi, saindo logo em seguida. O clima estava tenso entre os familiares. Ainda ouvi quando um dos irmãos censurou o outro por atitude tão descabida: O que foi que ele fez? Nada, ora. E por que agiu daquele jeito? Ah, queria esquentar a mão no maluvido dele, só! Isso não se faz. Por que não? Porque ele não fez nada. Ah, não preciso de nada para fazer alguma, faço porque me deu vontade, está feito e fim de papo. Isso não é certo! Ah, ele não revidou, não quis revidar, saiu apanhado e pronto, fiz e faço, ele não é rei nem melhor que ninguém! Você ainda vai se dá mal com esse seu pavio curto! Destá! Ainda deu pra ouvir os desentendimentos entre os irmãos, mas não quis tomar conhecimento de mais nada. Apenas soube que o ofensor, no dia seguinte, estava acamado com dores por todo corpo. E, horas depois, dera entrada na emergência hospitalar. Já era tarde da noite quando soube do seu falecimento, acometido de infarto agudo do miocárdio. Que coisa! Ainda ontem vi o vendedor saudável e feliz saudando a todos, apresentando seus produtos com a cordialidade e profissionalismo de sempre. É a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A ARTE DE JUAREZ MACHADO
A arte do escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo, ator e artista plástico Juarez Machado. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e guitarrista de jazz Hélio Delmiro: Emotiva, Compassos & Repertório Popular; a compositora, pianista e percussionista portuguesa Constança Capdeville (1937-1992): Libera-me, Momento & Renaissance Portuguese; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O papel do artista é justamente embaralhar as categorias habituais, deslocá-las, e, desse modo,. Restituir à visão e ao espírito sua ingenuidade, seu frescor. [...]. Pensamento do pintor e escultor francês Jean Dubuffet (1901-1985). Veja mais aqui e aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] um mundo não é a simples reunião das coisas existentes, contáveis ou incontáveis, conhecidas ou desconhecidas [...] Mundo nunca é um objeto, que está ante nós e que pode ser intuído. O mundo é o sempre inobjectal a que estamos submetidos enquanto os caminhos do nascimento e da morte, da benção e da maldição nos mantiverem lançados no Ser. [...]. Trecho extraído da obra Ser e tempo (Vozes, 1998), do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O TRABALHO & OS TEMPOS ATUAIS - [...] A humanidade espera com volúpia novas descobertas: substâncias para debelar definitivamente a dor, sistemas para acabar com o lixo radioativo transformado em matéiras inócias, para eliminar o barulho e a fome e reabsorver a população. Paralelamente, nunca tivemos tantas ferramentas para eliminar as quatro escravidões da escassez, da tradição, do autoritarismo e do cansaço físico. [...] Para nós, homens pós-industriais, há uma terceira alternativa. Sísifo vai construir um mecanismo eletrônico ao qual delegará a canseira do transporte inútil e banal e se sentará no alto do morro para contemplar o seu robô em função, saboreando enfim a felicidade do ócio prazeroso. [...]. Trecho extraído de Em busca do ócio, do sociólogo italiano Domenico de Masi, autor da obra O Ócio Criativo (Sexante, 2000), na qual defende o conceito de viver do ócio através da interseção entre três elementos, vendas, faculdade e raciocínio lógico: Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o tempo livre […] Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo. [...]. Veja mais aqui.

OS CAROLINOS – [...] Longe, nunca casa que fica à esquina da rua do Padre, em Estocolmo, uma velha senhora solitária segurava o seu livro de sermões; ela esperava e escutava, aguardando  que lhe enfiassem uma carta por baixo da porta, ou se um invalido não subia a escada, trazendo-lhe alguma mensagem dos desertos; perguntava a si mesma se eu não retornaria mais, se eu não estaria morto, meu cadáver entregue à corrupção. Todas as noites eu rezava por ela. Pensara nela no meio do tumulto da guerra, entre as padiolas e os gemidos. Mas, naquele instante, dela não me lembrei. Só via e escutava Feodosova. E contudo torcia-me e lutava contra algo pesado, que me esmagava o coração e que a princípio não pude afastar; mas, pouco a pouco, tive forças para compreender. Inclinei-me para Feodosova, a fim de lhe beijar a mão; ela, porém, murmurou: - S mão do czar; a mão do czar! – Não quero trair minha fé, nem o meu real senhor – disse0lhe com brandura. A face do czar novamente se enrugou e os anões, aterrorizados, puxaram a zaporoga do canto onde ele estava, para que o seu aspecto ridículo fizesse rir o czar. [...] Todos, inclusive os bêbedos, começaram a tremer e a escapulir para as portas. Assustadíssimo, um dos boiardos gritou: - Tragam a mulher! Tragam-na perto! Logo que ele vê a cara bonita e o corpo de uma mulher, acalma-se. Agarraram Feodosova, rasgaram-lhe o corpete desbrindo o seio e, gemendo baixinho, ela foi empurrado passo a passo até o czar. Tudo se escureceu ante mim e, recuando, saí da sala. Parei na rua, sob as estrelas; ouvi que o barulho cessava e que os anões recomeçavam a cantar. Apertei as mãos e lembrei-me da promessa que fizera no campo de batalha [...]. Trechos extraídos da obra Os carolinos: crônica de Carlos XII (Delta, 1963), do escritor sueco Verner von Heidenstam (1859-1940), Prêmio Nobel de Literatura de 1916.

POEMA XXII – Vaidade das vaidades (Sísifo / escuta o pregador) tudo é vaidade / que proveito de todo o seu trabalho / tem o homem debaixo deste sol? / (a eterna mesmice) a geração / vai e vem mas a terra permanece / levanta-se o sol e põe-se o sol / e volta ao seu lugar de onde nasceu / o vento vai ao sul e faz seuy giro / para o norte e retorna aos seus circuitos / todos os rios correm para o mar / e o mar nunca se enche com os rios / todas as coisas são canseiras tais / que o homem não as explica com palavras. Poema extraído da obra Sísifo (Quíron/MEC, 1876), do poeta Marcus Accioly (1943-2017). Veja mais aqui e aqui.

AUGUSTO BOAL
[...] Sonhar é humano e não realizar o sonho não é um problema em si. Sonhar é humano. Árvores não sonham. Pedras também não sonham. E mortos já sonharam [...].Que cada um diga o que fez, a que veio e por que ficou. E que cada um tenha a coragem de, não sabendo por que permanece, retirar-se [...].
Homenagem ao dramaturgo, ensaísta e escritor brasileiro Augusto Boal (1931-2009). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Workshop Violinistas de Palmares & muito mais na Agenda aqui.
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O que esperar do amanhã, a literatura de José Joaquim da Silva, a música de Montserrat Figueras, a fotografia de Araki Nobuyoshi, a poesia de Angel Popovitz, a arte de Rajkumar Sthabathy & Gerda Wegener aqui.
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Na calçada da tarde, a poesia de Antonio Botto, a escultura de Rosa Bonheu, a música de Yara Bernette, As narrativas memorialísticas de Patricia de Cassia Porto, a arte de Maria Lynch & William-Adolphe Bouguereau aqui.
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O mergulho das manhãs e noites nas águas profundas do amor, a música de Constança Capdeville, o cinema de Luchino Visconti, a Escola Estadual Joaquim Fernando Paes de Barros Neto, a arte de Aubrey Beardsley & Luciah Lopez aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...