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domingo, outubro 10, 2021

TRAPIELLO, KOI-GUERA, EDISCA & DORA ANDRADE, GILDA OSWALDO CRUZ, JOSÉ LUIZ PASSOS

 

 

TRÍPTICO DQP – A vida e o que será morto... - Ao som do álbum Meus caros pianistas - O piano de Claudio Santoro (Biscoito Fino, 2001), da pianista Gilda Oswaldo Cruz. - A vida e o trâmite entre a tarde quase noite, a solidão e eu sequer me dei conta de que estava à procura de algo que não sei. Sei, no de repente, ouvi Aristófanes: O amor é uma forma de procurar por nós mesmos. E isso para quem fora antes de tudo a soberba da completude de um rotundo autossuficiente, de quádruplas pernas, braços e orelhas, dupla faces e genitálias, desassossegado agora por não saber decifrar o mito da androginia e ter sido dividido ao meio pelos deuses e atormentado pelo pavor do envenenamento – ora, onde não a peçonha da destrutividade, se me via atravessado pelos horrores e a inanição, metido nos teoremas de Kurt Gödel: condenado à falta e à busca por reencontrar o que perdi, se é que não me desconstruí de vez na vida, se não me falta a capacidade constante de me refazer a cada instante. O que sei de mesmo, só nenhuma certeza e com tudo por terra. Ainda assim, lá vou eu incompleto e errante, a testemunhar Alcestis no Banquete de Fedro: morrer por amor para salvar o outro. Na verdade, era como se autodevorasse na milenar cerimônia totêmica, a perpetuar a eucaristia, o canibalismo, sim, a angústia do lobo e a perturbação da gula, outros tantos paradoxos. Coisa estranha isso de se pensar e entender. Ali mesmo presenciei o espetáculo da Edisca (1997). Eita! Logo a bailarina Dora Andrade apontou pro Koi-Guera, o genocídio dos Jangurussu de Caucaia. Sabia tratar-se do morticínio de todas as nações indígenas do meu país, ao mesmo tempo em que sentia, noutra instância desconhecida, a ressurreição dos meus caetés que vinham soturnos a mim para que entendesse o real abraço e o que a falta dada pelo outro no equívoco do acolhimento dos dagora. Ali como hoje senti meus pedaços se esfacelarem, tornando-se objetos estéticos, e minhas entranhas eram só a decomposição sinistra para satisfazer a quem não sei, mas que eram mesmo ready-mades de Duchamp pulsantes ainda apesar do meu dilaceramento. Eles, os meus, me viam e me mostrava isso e mais eviscerava ao ser descartado pela indiferença, e mais desmembrado a me derramar ao abandono do desdém na poeira do esquecimento. Eles comigo, não estava enfim só. Ao que me restava, logo a grata surpresa de não me esvair de vez, porque surgiu do nada o escritor José Luiz Passos a me saudar no meio da tragédia: ... para mim, a principal diferença é a mediação da distância.... A distância não é apenas um dado factual da minha situação... é parte de uma temática da minha ficção, que é sobre espaços ou tempos distantes que não são meus. Assim eu sabia o que não era eu nem meu, ele também, e sequer sabia lá o que devia dizer, ao que ele me contou da sua Catende que muitas vezes fui danado para lá folgar do lazer e ócio, das moças lindas que enamorei e tive quantas noites de dias ensolarados, e me contou das Ruínas de linhas puras, d’O sonâmbulo amador e do Nosso grão mais fino, e mais do Romance com pessoas, do Marechal de costas, da Antologia fantástica da República Brasileira e d’A órbita de King Kong, e a conversa era boa de se perder os ponteiros do relógio e qualquer ponto de chegada ou saída, até sermos surpreendidos pelo escritor espanhol Andrés Trapiello que nos instou dalgo que sequer imaginávamos: Seria um crime desaparecer porque ali, todos os domingos, acontece algo muito importante: a ressurreição de uma parte da cidade representada nos seus vestígios, que são ressuscitados através de um rito secular: a barganha, que se aperfeiçoou ao longo do séculos... O que para mim era o meu lugar e a vizinhança da Mata Sul pernambucana, para ele era a Madrid dele, cada qual a sua cidade e afetos. E eu ali jamais poderia sacar se a humanidade havia perdido a capacidade de amar, enquanto eu insistia ainda em não morrer entre o lixo e o letal, portas arrombadas e sucatas aos monturos. Eles se foram e fiquei só.

 


Em outras palavras... - Imagem: a arte da artista e escritora francesa Valentine Hugo (1887–1968). – Da minha parte sabia que aquilo tudo era só por um momento, tudo passaria, todos passarão, restaria sozinho e com os pensamentos vagando caleidoscópicas lembranças. Desacompanhado é o meu exercício diário, mesmo que muita gente transite ou mesmo orbite minha loucura, há de escapar inevitavelmente. De resto, não mais Lolita, agora outra como se fosse a Mademoiselle da Fala, memória (Alfaguara, 2014), de Nabokov: Ela gastara toda a sua vida em se sentir desgraçada; essa desgraça era seu elemento natural; suas flutuações, profundidades cambiantes, só isso dava a ela impressão de movimento e vida. O que me incomoda é que a uma sensação de desgraça, e mais nada, seja insuficiente para tornar uma alma imortal. Minha enorme e amorosa Mademoiselle está muito bem na terra, mas é impossível na eternidade... E me confidenciou enquanto conferia com o olhar toda a situação ao redor: Inicialmente, eu não tinha consciência de que o tempo, tão ilimitado à primeira vista, era uma prisão. Ao examinar minha infância (que é a coisa mais próxima do prazer de examinar a própria eternidade) vi o despertar da consciência como uma série de flashes espaçados, com intervalos entre eles diminuindo aos poucos até se formarem claros blocos de percepção, fornecendo à memoria um apoio escorregadio... Ora, tudo que me dissera parecia mais ler em minha mente, inteiramente confuso com os últimos acontecimentos, seguir adiante, vez que era tudo isso que me ocorria ali e em todo momento. Ah, não, apenas a memória, assim seguia.

 


Viver e a solidão, solitude... - Imagem: a arte da artista argentina Liliana Maresca (1951- 1994) – Um outro enredo a cada instante e as narrativas emergem, era eu agora solitário escriba Theodore no torpor das minhas emotivas cartas pessoais. Sempre gostei de escrever meus garranchos e eis-me agora enredado na trama de Her (2014) do Spike Jonze, curtindo as perdas e danos de quem estava de caras com o término de um devastador relacionamento amoroso. Ali eu me valia de uma desconhecida, que me encantou com as suas feições da atriz estadunidense Amy Adams: O amor é uma forma de insanidade socialmente aceitável. A vida é curta, e todos merecemos um pouco de felicidade. Longe de discordar eu assentia sabendo da cilada de Samantha que se passava pela Scarlett Johansson e sorria satírica e efusivamente com o futuro do pretérito de Fabos fanáticos do mico Coisonário, dando baixa com o extermínio dos meus vivos e mortos, e eu a me perguntar aflito quanto valia a vida na festa da escola de tiro, a pontaria de uma arma inexorável pelas queimadas pantaneiras, amazônicas, sertanejas e litorâneas, balas que cruzavam e eu doía a me desvencilhar disso tudo, quase sem escapatória e o terror era mais que real. Ela então me acolheu dentro de si, e guardou meu desamparo na sua amável deificação. Mais que grato, para ela cantei o Amor: maior a dívida do seu penhor porque o amor é mútua condecoração. E nela adormeci o prazer da vida. Até mais ver.

 

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domingo, março 07, 2021

MARISA REZENDE, TERESA NAZAR, JUANA DE IBARBOROU, JEFFREY EUGENIDES & CLÓVIS PEREIRA

 

 

TRÍPTICO DQC: SOS Brasil! - Ao som do álbum Amazônia (Carmo, 1990), de Egberto Gismonti. - Salve toda gente de Pindorama! Os dias não estão tão simpáticos assim, não mesmo. É que aqui a coisa vai de mal a pior já faz um bom tempo. Pudera, já se vão uns cinco anos desandando e empiorando a cada amanhecer. Nunca me passou pela cabeça que a gente, depois de tanta luta de décadas pela plenitude democrática, de uma hora para outra, ao invés de seguir adiante, o Brasil deu marcha à ré de ficar só nisso: dirigindo pelo retrovisor. Ainda me pergunto como é que pode na última eleição, entre tantos candidatos, o pior foi escolhido. Isso sem contar com golpes, um atrás do outro: roubaram nossos sonhos. Como é que pode? Pois foi, para completar o Kid Coisonário com a sua tresloucada trupe sentou-se em Brasília, patrocinado pela elite infame dos seculares sátrapas do nepotismo oligarca, imprensa vendida e salafrários trampolineiros da mão invisível a serviço da opressiva dominação das transnacionais corporações e lá tome voto regido a mentiras e orações. Queria mais? Sabia eu lá que haveria tantos Fabos, Cafos & similares ilegíveis do Mobral onipresente e do bestiário da Planolândia daqui (tão tóxicos e corrosivos da peçonha e as suas nada brilhantes inteligências que precisam de tratamento psiquiátrico por seus desequilíbrios mentais e estupidez à flor da pele, nenhum inimputável, diga-se de passagem), e aboletados com suas tronchuras tão levianas quanto ressentidas na Operação da Praga Duradoura e que se multiplicaram a cada ninhada, dando cria aos montes, não havendo direito qualquer perspectiva de erradicá-los no moribundo Brasil que virou o Corcunda Recalcitrante das Mil e Uma Noites: quem não suspeito? De quem a culpa, ora essa, tantas vidas perdidas e todo mundo ligado no Big Shit Bôbras, voyeurs e ególatras umbigocentristas, que não tem quem seja capaz de dar um breque na desabalada descida: Êêêêêê, boi do cu-cagado! Fico cá comigo pensando quem poderá sobreviver aos bregues detratores e aos esbarrões das ameaças furiosas das cabeçadas e patrioteiras carteiradas deles, como se isso fosse possível, digo logo, longe disso, são desumanos porque indiferentes, o que já é meio caminho andado para a barbárie. Meio caminho nada, já é. Quem conseguiria persistir humano se tudo virou como se fosse aqueles suntuosos casarões de outrora demolidos pela especulação imobiliária, o que me dá a impressão de pegar no sono e, de um dia pro outro, o país deixar de existir de tão esturricado no abismo e tragado pelo sensacionalismo do noticiário. Eita, pau! Já dizia acertadamente Sérgio Augusto: Nesta terra em que se corrompendo tudo dá! Parece mesmo um nó cego, senão insolúvel. Pois é, eu mesmo fico com a cara daquele escritor britânico, Kenneth Grahame (1859-1932): É o meu mundo e não desejo nenhum outro. Sim, mas ele alerta no seu The Reluctant Dragon (Egmont, 2008): A fera terrível deve ser exterminada, o interior deve ser libertado dessa praga, desse terror, desse flagelo destruidor. Mas são muitos e tantos, um exército de acéfalos com as fileiras engrossadas não sei como. Otimista por natureza, lá vou enfrentando a destruição como posso e não é nada, a desgraça com efeito em cadeia parece indestrutível, valha-me! Como sair do Fecamepa, SOS Brasil! Salve-se quem puder!

 


DOIS: Escapar da tirada de fino e bala perdida - Imagem: a arte da artista visual, escritora e professora Teresinha Soares, ao som do Canticum Naturale, per soprano e orchestra (1972), de Edino Krieger, com a soprano Evi Zeller & Philharmonisches Orchester Südwestfalen. – Por conta disso, lembrei-me que minha vó dizia insistentemente que a mãe havia jogado meu umbigo no rio, coisa que me levou a me afeiçoar tanto por água. Lá no quintal dos meus avós havia um brejo e eu menino só vivia pela beirada. E ela: Menino sai daí, tu ainda morre afogado, desgraçado! Um bocado de década se passou e nem morri de mesmo, exceto duas ou três vezes que fui do outro lado e voltei mais compenetrado que nunca, não me passando por aquele do Dente quebrado, do escritor venezuelano Pedro Emílio Coll (1972-1947), nem me aventurando por rios caudalosos ou mares tempestuosos. Ao contrário, me peguei muitas vezes naquela do escritor estadunidense Michael Hart (1947-2011): Muitas vezes foi dito que se Jesus voltasse à terra, ele ficaria chocado com muitas das coisas que foram feitas em seu nome e horrorizado com as lutas sangrentas entre diferentes seitas de pessoas que se dizem seus seguidores. Aí sim: quantos não vejo em nome dele tramar falcatruas, enrolar fieis e mandar na ver ajeitado no pé do cipa, pois é. Nem polícia, nem Justiça nem ninguém dá cabo deles: estão todos enrolados até o pescoço e em nome de Jesus, cruz-credo! Bem, olho pros lados e vejo: verdadeira perdição. Então, pensei na minha vó: de que poderia mesmo eu morrer, com tantos meteoros passando e tirando fino, tantos satélites pendurados, aeronaves para cima e para baixo, afora outras tantas ameaças, sobretudo do monstro invisível com a morte rondando aqui e acolá, ora, ora. Bem, dum sopapo da vida ou duma disfuncionalidade orgânica qualquer, não sei, vou escapando: passam triscando por mim, alguns arranhões e rugas, apenas. No mais, ileso e resiliente.

 


TRÊS: A VÊNUS DO QUINTAL - Imagens: arte da artista multimídia argentina Teresa Nazar (1936-2001), ao som de Cismas para trio de cordas, contrabaixo e piano (1997), da compositora Marisa Rezende, na interpretação da pianista Thais Nicolau & Quarteto Radamés Gnattali, no Festival de Música Contemporânea Brasileira (2018) – Ah, sim, pois foi exatamente pelo periodo em que era eu menino lá da beira do brejo, que se deu a descoberta duma estátua enterrada no quintal. Foi isso mesmo, verdade. Uma estátua enorme de Vênus, acho. Fiquei tão excitado com aquilo de querer ficar ao seu lado o tempo todo – ora, desde menino eu conversava com plantas, paredes e amigos invisíveis, ela seria real e em tamanho natural, muito melhor. Não deu, logo me tomaram e esconderam não sei onde, a ponto de, com o passar do tempo, esquecê-la, não antes chorar de sonhar dias, meses, anos. Pois bem, agora, depois de todos mortos, lá vou eu com questões de inventário, formais de partilha e me deparo com o quarto dos pertences dos meus antepassados. Nunca que poderia adivinhar que a família pudesse guardar tanta tranqueira. Tudo amontoado num dependência duma casa que sequer sabia existir. Pois bem, lá fui eu ver o que sobrara do espólio: meio mundo de coisa empoeirada e coberta por teias de aranha, nada mais. Um verdadeiro monturo. Quase desisti da conferência, não fosse na mínima vasculhada rápida, lá escondida estava ela, tal e qual a La Vénus d'Ille (1837), de Prosper Merimée: Apenas devemos fazer as tolices que nos agradam. E, talqualmente aquela do poeta francês Jules Barbier (1825-1901): E afinal era só uma boneca de olhos de esmalte. Isso mesmo quando se repetia no intervalo entre o primeiro e o segundo ato do seu texto operístico Les contes d'Hoffmann (1881), musicado por Jacques Offenbach: É ridículo: ninguém se apaixona por uma boneca! Tudo baseado na história da boneca de Hoffmann, que até virou filme dirigido por Michael Powell e Emeric Pressburger: Olympia não passava de uma enorme boneca mecânica. Pois sim, depois de remover todas as catrevagens, quase tudo direto pro lixo de imprestável, exceto a estátua que guardei no meu quarto. Ficou lá, encardida mas limpinha, como se fosse um troféu. Dia vai, dia vem, eu chegava, olhava para ela e ali ficava por horas até adormecer. Um dia lá, cheguei tão cansado que só deu tempo de me banhar e me recolher, nem olhei para ela, nem nada, tratei de dormir, mas o sono foi interrompido, ouvi alguém falar Juana de Ibarborou: O amor é fragrante como um ramo de rosas. Amoroso, todas as fontes são possuídas. A minha surpresa? Era ela, a Vênus Galateia do meu quintal, viva nudez no meu quarto. Como pode? Disse-me Jeffrey Eugenides: Essa obrigação de ser feliz paradoxalmente nos deixa cada vez mais infelizes. No final, não foi a morte que a surpreendeu, mas a teimosia da vida. Como é? Não entendi! Ela fitou-me firme e decididamente, abraçou-me deitando-se em minha cama como se fosse Maria Bonita governando Lampião, afinal, todo dia é Dia da Mulher e eu atravessasse com ela toda primavera. Era verão quando ela saiu e não mais voltou, nem disse adeus. Hibernei, só voltarei ao final do outono. Até mais ver.

 

A ARTE DE CLÓVIS PEREIRA



A arte do compositor, arranjador, pianista e regente Clóvis Pereira, autor de frevos, caboclinhos, maracatus e obras para coro e orquestra e de peças sinfônicas. Em sua homenagem a obra Clóvis Pereira: no reino da pedra verde (Cepe, 2016), do jornalista, pesquisador e crítico musical Carlos Eduardo Amaral, abordando a vida e uma coletânea importante para a música erudita pernambucana, além de informações sobre o lançamento das composições, formação instrumental, bem como iconografia e dados coletados com o próprio músico. Na primeira parte da obra é contada a trajetória do garoto pobre de Caruaru, apaixonado por música e cinema, ao respeitado professor universitário, com cursos na Berklee College of Music, em Boston, Massachussets, nos EUA, hoje gozando de uma confortável aposentadoria, e finalmente podendo conviver no dia a dia com a família, mulher, filhos, netos. A segunda parte é um catálogo da sua obra, envolvendo uma listagem e classificação das partituras e discos; consultas presenciais e online a bibliotecas do Recife, do Rio de Janeiro e de João Pessoa; entrevistas com músicos que interpretaram peças do compositor ou tiveram peças arranjadas por ele; e redação final. Veja mais aqui e aqui.


 


quinta-feira, novembro 12, 2020

FRANCA RAME, BUKOVSKI, IONESCO, ELIZABETH GASKELL, EIKOH HOSOE & MARGARIDA CARDOSO


  

TRÍPTICO DQC: QUANDONDE, AGORA!... - É noite e ouço movimento de passadas. Aguço a audição: são pisadas firmes. Inacreditável, mas sinto o inevitável: as pessoas estão se transformando em algo descomunal. Um vulto se aproxima e o reconheço com a proximidade. É Bukovski: Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo. Sim, eu compreendo. Para mim também está muito difícil. Todos, os descontentes agora conservadores, os hipócritas com a verdadeira face, a geração rivotril levada pelo vazio, enfim, o apogeu daqueles que tornaram a estupidez numa moda! Uma verdadeira manada de Fabos & Cafos: conformismo, submissão, fanatismo, alienação! Um Fecamepa! Todos com sua coleção de comprimidos, drágeas e cápsulas das mais diversas tarjas, mascarando enfermidades no conluio industrial de médicos e laboratório farmacêuticos, afinal têm remédio para tudo e uma infinidade de drogarias em cada rua -, e eu incomodado comigo, inconformado com tudo. Procurei por ele e não mais ali, era Niels Bohr: Ainda bem que chegamos a um paradoxo. Agora, há esperança de conseguirmos algum progresso. Esperança? Jogou-me na cara um provérbio chinês: Não importa quantos passos você deu para trás, o importante é quantos passos agora você vai dar pra frente. É verdade, só não sei se o que vai, realmente, segue mesmo adiante ou retroage, se evolui ou regressa, ou se qualquer movimentação para tanto, chega a algum lugar além da imobilidade, afora o certo e o errado. Ouço o Buda: Só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora. Não sei mais o que passou, não importa; nem o que virá, nem quandonde, só sei o que é o agora e nada mais.

 


DA MONSTRUOSIDADE QUASE FERA - Lá fora o barulho aumentava, como se um monstro provocasse o alarido. Não era: as pessoas se tornaram quase feras e digladiavam delimitando seus territórios. Ou quase isso do período eleitoral. Há quem diga ser esse enfrentamento, aquele referido pelo Martin Esslin: o sentido do sem sentido da condição humana. O implacável horror, o absurdo. E duas pessoas invadiram o meu espaço. Não os identifiquei logo, mas ouvi uma parte diálogo: Psicose coletiva, senhor Dudard, psicose coletiva é o que isso é! É como a religião que é o ópio dos povos! Pelo que ouvi, reproduziam o que foi levado para cena nos palcos até hoje, desde 1959. Não restava dúvidas tratar-se de Botard e Dudard, a certidão me veio quando um deles disse mais adiante: Peço, desculpas, chefe, mas o senhor não pode negar que o racismo é um dos grandes erros deste século. Sim, sem dúvidas. Saíram e logo me apareceu mais alguém: Quem? Nunca vi mais gordo! Logo me disse: Devia ter seguido todos eles, enquanto era tempo. Agora é tarde demais! Infelizmente, eu sou um monstro, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar para a minha cara. Tenho vergonha! (Vira as costas ao espelho) Como eu sou feio! Infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! (Tem um sobressalto brusco) Muito bem! Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! Minha carabina, minha carabina! (Volta-se de frente para a parede do fundo onde estão as cabeças dos rinocerontes, sempre gritando) Contra todo o mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo! Ah, era o monólogo final de Bérenger para uma Daisy oculta. Presenciei tudo até cair o pano da noite na sátira mordaz de Ionesco. A solidão e a monstruosidade humana.

 


A PELE DA MAÇÃ – Imagem: arte do fotógrafo e cineasta japonês Eikoh Hosoe. – Tarde da noite e o escarcéu iluminava a cidade. Nem havia percebido que ela chegara nua para encenar Chame-me a bruxa, ou Ligue-me Witch, da atriz, escritora, dramaturga e ativista política italiana, Franca Rame (1929-2013): Não importa o que somos. Não importa o que você é ou quem você é. Você pode me chamar de bruxa. Por qualquer maneira minha natureza é essa. Desde sempre, desde o primeiro preguiçoso, ou a primeira vida, ou o primeiro tiro do mundo. Eu sou uma daquelas mulheres que têm alma, eu sou uma daquelas mulheres que têm visão e audição de um gato, eu sou uma daquelas mulheres que falam com árvores e formas, eu sou uma daquelas mulheres que têm o cérebro de Hipácia, Artemísia, Madame Curie. E eu sou linda. Tenho a beleza da luz, tenho a beleza da harmonia, tenho a beleza do mar tempestuoso, tenho a beleza de um tigre, tenho a beleza de dois girassóis, tenho lavanda e também tenho grama. É por isso que sou Bruxa. Sou Bruxa porque sou diferente, sou única, sou outra, sou igual, é pelas fileiras, é por dois esquemas, sou normal... sou! Eu sou uma Bruxa porque tenho orgulho de ser uma mulher-animal-cigana-artista e... engenheira maluca da minha vida. Sou Bruxa porque uso na cabeça, porque sempre digo ou penso, porque não tenho uma palavra maldosa e pruriginosa, dá uma palavra poderosa e poderosa. Sou Bruxa porque muitas vezes você odeia as Santas Inquisições deste milênio estranho, como Idade Media de tribunos da mídia apáticos. Eu sou uma Bruxa porque como ainda existem fogueiras e eu - mais cedo ou mais tarde - posso terminar dentro. E se fechou em copas. E não disse mais nada, cabeça baixa, braços espremendo os seios, mãos trêmulas cruzadas sobre o sexo túmido. Fui até ela com abraço solidário. Deitou a cabeça sobre meu ombro esquerdo e disse estudar noites a fio o texto A maçã de Eva, parceria da dramaturga com o marido, Dario Fo, e o filho, Jacopo. Alisei seus cabelos quando mencionou Elizabeth Cady Stanton: No momento em que começamos a temer as opiniões dos outros e hesitamos em dizer a verdade que está em nós, e por motivos de política ficamos em silêncio quando deveríamos falar, as inundações divinas de luz e vida já não fluem em nossas almas. E, um tanto hesitante, citou a escritora britânica Elizabeth Gaskell (1865-1810): Como é fácil julgar corretamente após vermos o mal que vem de julgar de forma errada. Sim, a vida é trânsito, vai e volta e torna a dar voltas sem parar. A gente não sabe o que diz, só resta viver e agora mais do que nunca! Até mais ver.

 

A ARTE DE MARGARIDA CARDOSO

A arte da atriz Margarida Cardoso (1916-1989), que tornou-se conhecida pela atuação em Song of The Sea (1953), Seara Vermelha (1964), Menino de Engenho (1965) e O Salário da Morte (1971) ela foi professora do antigo Departamento de Artes e Comunicação (DAC), que transformou-se em Departamento de Comunicação (Decom), da UFPB, tendo, também atuado no teatro ao lado de grandes nomes teatrais pernambucanos. Veja mais aqui e aqui.

 



segunda-feira, outubro 05, 2020

BACHELARD, MAGDA SZABÓ, ÉTIENNE DE LA BOÉTIE, NORA GERMAIN, ROCHELLE COSTI & CAPIBA


  

TRÍPTICO DGF – AQUELA DE... ENTRE CATERVA DE ALDRABICES - A vida passa pelas ruas da pandemia. Nas calçadas e ambívios, néscios apressam passos na crença dos investidos por antídotos divinos e apascentadores placebos, enquanto a cacunda carregada de ressentimentos e quantas culpas e atos dolosos recônditos, reclamam pela injusta compulsoriedade de uma máscara preventiva. Sim, exaltados porque não conseguem sustentá-la já que as múltiplas faces do semblante ocasional - e substituídas durante as sacralizações dos textos bíblicos de um Jesus irreconhecível, criado pelo estupro de tacanhos missionários avarentos - não permitem. São caras demais para qualquer uma. Em cada esquina eles se cruzam aguerridos aos seus templos emergentes, sombras de valhacoutos monstruosos nas algaravias dos seus alto-falantes furiosos e a suputação de ofertas promocionais de transações mercantis de uma fé gazopa dissimulada e inexorável. Deles emergem turbas de súcias para digladiarem entre si, cada qual se passando por exclusiva possuidora da verdade absoluta, sufragistas da danação geral. Que lugar é esse eu sei de cor e é o meu e de todos os que foram pegos de surpresa por uma onda inescapável. Assaltaram o meu país, o mundo e a vida com suas fanáticas exacerbações. Lembrei o filósofo humanista francês Étienne de La Boétie (1530-1563): Pobres, miseráveis e estúpidos povos, nações determinadas por sua própria desgraça e cegas para o seu próprio bem! Vocês se privam, diante de seus próprios olhos, da melhor parte de suas receitas; seus campos são saqueados, suas casas roubadas, sua herança de família tirada. Você vive de tal maneira que não pode reivindicar uma única coisa como sua; e parece que você se considera sortudo por ter emprestado sua propriedade, suas famílias e suas próprias vidas. Ele mesmo adverte sobre o que é recorrente com os detentores do poder até hoje: O que geralmente acontece é tudo fazerem para transmitirem aos filhos o poder que o povo lhes concedeu. E, tão depressa tomam essa decisão, por estranho que pareça, ultrapassam em vício e até em crueldade os outros tiranos; para conservarem a nova tirania, não acham melhor meio do que aumentar a servidão e afastar tanto dos súditos a ideia de liberdade que eles, tendo embora a memória fresca, começam a esquecer-se dela. O preço da tirania é o isolamento. Que lugar é este, eu sei, o Fecamepa com seus coisominions Fabos&Cafos.

 


DOIS TONS & A MÚSICA DA URSA MENOR: UMA FLOR, O MUNDO MARAVILHOSO! - Imagem: a arte da premiada violinista, cantora, escritora e compositora estadunidente Nora Germain - Para fugir das forças reativas e moral escrava, saltei no vazio e, em queda livre, só a música do abismo. Ao ouvi-la, a certa altura do baque, o encanto sonoro me fez folha solta ao vento e a levitar na liberdade de quem não sabe a fundura nem onde pousar. Embalado, cada paisagem era como páginas folheadas num recital de Magda Szabó: Os livros formaram a base do meu mundo, a minha unidade de medida era a palavra impressa. Não a via atrás da porta do tempo e espaço, sabia o violino de Nora na pele de Erika Marozsán, a me contar do que é amar e crescer e cair como não se tivesse mais como levantar a vida rente ao chão na perspectiva do voo e Bachelard anunciasse: Não há uma verdade fundamental, apenas há erros fundamentais. E eu errâncias nos devires.

 


TRÊS NA CASA DA ILHA: RESÍDUO DO TEMPO, PASSATEMPO – Imagem: arte da premiada fotógrafa e artista multimídia Rochelle Costi - Ah, a música & a vida, era Euterpe a me levar mãos na sua pela escada palavra, em que um pimentário era o envio a um minicine, melhor, cinemagético ex-passado, com as margens do tombo, negócios à parte e a reforma do centro novo na didática do silêncio e do resíduo, o tempo todo lugar comum de margens para ser um. Ah, mas eu queria a salvação, precisava nunca mais cair. E ela, tal Epicuro: É estupidez pedir aos deuses aquilo que se pode conseguir sozinho. Queres ser rico? Pois não te preocupes em aumentar os teus bens, mas sim em diminuir a tua cobiça. Não se pode não ter medo quando se inspira o medo. Ah, os talhos sangram, doem e saram de nem sequer lembrar depois. Pois é. Fiz do passado, não mais; fui à vida. Até mais ver.

 

AÊ, CAPIBA!!!

Quem quiser me ver / Me procure aqui mesmo / Quando chega o carnaval / Seja noite ou dia / Aqui tudo é alegria / E alegria não faz mal / É aqui que eu danço / Aqui é que eu canto / Aqui é que eu faço / Com desembaraço / Misérias no passo! / Na quarta-feira, / quando tudo terminar! / Eu espero mais um ano, / até o frevo voltar!

É hora de frevo, letra da música do compositor e músico Capiba - Lourenço da Fonseca Barbosa (1904-1997), autor de mais de 200 canções entre frevo, samba, música erudita, guarânias, maracatus, valsas, entre outros gêneros musicais. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 



segunda-feira, março 30, 2020

MELANIE KLEIN, SABINE MEYER, OLGA GRIGORIEVA-KLIMOVA, MONIQUE ARAGÃO, ALCINEIA MARCUCCI & RAIZA FIGUERÊDO


O REINO DA PATAFÍSICA NÃO SERIA O DO FECAMEPA DE SEMPRE? - Desdantes De Gaule, quantos de quem no meio de tantas pragas seculares? Talqualmente hoje do Fecamepa, em que não só Fabos & Cafos digladiam, outras trepeças parasitárias que mais parecem viróticas pestilências emergem na desgraça dobrada, coisa do tipo clones da porra que são coisominions & coisonárias que se travestem em funcrivãns (homúnculos fundamentalistas evangélicos, os fun-funs de puns e caracus, os que têm grana e nenhum cérebro, e ainda tem os et cétera – desculpe, não deu para catalogar todo tipo de doideira) e outras criaturas horrorosas com suas feiuras e blocos do eu sozinho e outras porras mais, não bastando os estranhíssimos peixe geada da Nova Zelândia, o chupacabra de Rosário, o ET de Cerro Azul do Panamá, o feio canadense e a lampreia-marinha-vampira de Ohio, o gremlim Aye-aye, o Gobi Jerboa, o saiga tatarica do Gobi, o vampírico Elaphodus cephalophus, o Hemicentetes semispinosus de Madagascar, o ocapi do Congo, o diabo espinhoso da Austrália, o peixe papagaio azul, o narval do Ártico, o do batom-vermelho de Galápagos, o pênis anfíbio Atretochoana eiselti, o dumbo pokémon Grimpoteuthis, o porco do mar, a lesma azul, o isópode gigante e outros que nasceram dum sêmen de punheta fecundado no esterco dum pangaré cruzando com vira-lata e por ai afora vai, haja pandemônio. E com um detalhe: tudo aqui! Eita, o negócio é mais que sério, ou não? Peraí! Deu o créu: o Brasil deixou de ser o paraíso - El Dorado, Canaã, éden terrestre dos antiquíssimos – para ser a verdadeira Boceta de Pandora, foi? Desde quando? Acabei de crer: a felicidade de um energúmeno é dar de cara com outro de braços dados pro churrasco. Era e é. Vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O impulso de controlar outras pessoas é, como sabemos, um elemento essencial na neurose obsessiva. A necessidade de controlar outras pessoas pode até certo ponto ser explicada por um impulso defletido de controlar partes do self. Quando essas partes foram excessivamente projetadas para dentro de uma outra pessoa, elas só podem ser controladas através do controlar a outra pessoa. Uma raiz dos mecanismos obsessivos pode, então, ser encontrada no tipo particular de identificação que advém dos processos projetivos infantis. Essa conexão pode também lançar alguma luz sobre o elemento obsessivo que tantas vezes entra na tendência à reparação. Pois o sujeito é levado a reparar ou restaurar não apenas um objeto em relação ao qual ele vivencia a culpa, mas também a reparar ou restaurar partes do self. [...] Trechos de Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, extraídos das Obras completas de Melanie Klein (Imago, 1946-1997), da psicanalística austríaca Melanie Klein (1882-1960). Veja mais aqui.

A INSEGURANÇA – Águas vêm e vão / O vento passa / O tempo apressado / Tudo leva! / Num efeito dominó / Tudo vira pó! / A dor, / A ambição de domínio, / O ego dos nobres, / A migalha dos pobres. / Só não leve tão afoito / O sorriso do menino / A esperança de dias melhores / Embalada no balanço / De um parque qualquer! / Não leve a semente / Que pairou de repente / Num ventre de mulher! / Os idosos inocentes / Que andam lentamente / Descalços de pressa! / Que no labirinto da vida / O amor encontre a paz / Derrubando muros e fronteiras / E as falsas promessas! / Que os sinônimos do bem / Se espalhem pelos continentes / Na mesma sintonia / Das crianças que não mais acreditam / Em "felizes para sempre" / Mas em dias melhores e diferentes / Sem tanta fome, pandemia e guerra / Para o futuro que as espera / Diante da agitação violenta / Da atmosfera! / Que no futuro o vírus que mais se propague seja o amor! Poema da professora de arte Alcineia Marcucci, que edita o blog Confissões de uma alma e se assim se apresenta: Sou um tiro no escuro das latarias novas ou velhas, variando conforme a lua, despida, coberta ou crua, embaralhada entre os ponteiros que giram na contra mão das linhas do meu destino. Sou o esqueleto que vive e pinta, a alma que se mistura nas tintas liquidificada nas faces que derramo nas telas pálidas que famintas de cores devoram minhas faces e fases num ritmo desenfreado, num vulcão com sede de algo que me dê a ilusão de estar viva. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE SABINE MEYER
Curtindo a arte da clarinetista clássica alemã Sabine Meyer. Veja mais aqui & aqui.
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MONIQUE ARAGÃO
A arte da pianista, compositora e escritora Monique Aragão, professora de música formada pela UFRJ, e que já lançou os álbuns Suíte do Rio (2004), Marcas da Expressão (1999), Os Olhos de Cristal (1997), Ventos do Brasil (1995), Canoas (1993) e Monique Aragão (1991). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora russa da Crimeia, Olga Grigorieva-Klimova. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
Eu sou aquela que escreve poesia, mas também há um impulso de cronista em mim. Fui rabiscando histórias na cidade onde nasci, Salgueiro, sertão de Pernambuco, e depois em Recife, onde vim correr atrás de sonhos. Na adolescência, fiz diários, poesias e ganhei um concurso de redação. Minhas turmas do colégio e da faculdade sempre me pediam para escrever mensagens de formatura. Na família, eu também sou aquela que diz umas palavras nos aniversários. Habitam em mim muitos eus: escritora, professora, cientista ('escrevedora' de tese de doutorado), psicóloga e quiçá mais alguns que pretendo desenvolver aqui na Terra. Estou cultivando o gosto por trabalhos manuais e sentir a brisa no meu rosto, andando de bicicleta me traz paz. Viagens, são para mim, experiências de encantamento com paisagens e autoconhecimento. Sou afeiçoada às montanhas, às plantas, aos pássaros e às coisas velhas (discos, livros, objetos, cadernetas, roupas...). Preciso das palavras para estar no mundo.
A poesia da psicóloga, arteterapeuta e escritora Raiza Figuerêdo.
A literatura do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978) aqui, aqui, aqui & aqui.
A arte de Romero de Fugueiredo aqui.
A xilogravura de Airt0n Marinho aqui.
Galo da Madrugada, Carnaval & Frevo aqui & aqui.
Pirangi aqui.
Barra de Guabiraba aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, março 19, 2020

MERLEAU-PONTY, ALDA ESPÍRITO SANTO, HERMILO & PATTIE BOYD


ORA, QUANDO NÃO VAI DUM JEITO, VAI DOUTRO - UMA: OUTRA DE FABOS & CAFOS - Entre 1988-2010, a coisa parecia que ia mesmo dessa vez no Brasil. Parecia, só. Na verdade se arrastava e empancava, ia e vinha, seguia rebocada assim meio de banda, aos empurrões, lerda e quase na má vontade. Mas, ia. Bastou virar a curva da última década, a força das verdinhas dos interesses estadunidenses mandaram ver com suas manguinhas de fora e a vaca foi pro brejo ultimamente - como naquela década 1954-64, dois anos a mais, apenas. Foi. Em nome de uma sede de “justiça”, passaram grandes empresas, corruptores e corrompidos num lava jato de num sobrar nem os farelos delas nem de mais nada do que restava de uma meio fajuta democracia. Foi pinote como a praga! É que queriam passar a limpo, mas tudo findou naquela do Fecamepa: o dia que o país resolveu ser levado a sério. Vazou o jato. Não foi dessa vez. Quase acreditei que seria, um pé lá e outro cá, claro. Muito estardalhaço pra findar na maior melecada. Havia uma catinga de golpe no ar e teve gente que se enganou e está até hoje fraudado pela cor da chita. Pois a enrolada espremeu tudo, menos uns tantos achegados saltitantes. Pois foi, era a vez da manobra: defenestraram a governante e pegaram o suposto vilão pelos colhões, pronto, tudo resolvido, agora era só inventar história. As abrobrinhas reinaram em cadeia nacional e horário nobre, de tão repetidas pareciam na vera. Teve até quem rezasse genuflexo embaixo da maior trovoada! Amém. E deu certo: Drácula ressuscitou no VladTemer que impune abocanhou o que queria com seus acoloiados vampiros, armou o circo pro Coisonário que empestou metade do país com a trupe de coisominions, e o desdobramento foi despachar a vertigem agora na guerra com o Covid-19. Nossa! Pois foi mesmo. E agora? Fico com a do Marcelo Gleiser: Há algo de muito patológico numa espécie que se diz inteligente, mas só é capaz de garantir sua sobrevivência pelo acúmulo de armas. Tá vendo? Mesmo que a gente esteja careca de saber sobre o lamentável expediente da guerra, nessa, acho, que todos nos ferramos do primeiro ao quinto, com centena e milhar. DUAS: UM DOMINGO DESSE AÍ - Ia passando uma malta aguerrida – na verdade, uns gatos pingados em marcha de Cafos -, com palavras de ordem em apoio ao Coisonario. Na calçada apreciando a paisagem, uma distinta senhora muito bem aquinhoada de gestos e modos, nem prestava atenção direito ao que ocorria. Logo, um repórter de uma dessas tevês chapa branca, aproximou-se dela, indagando o que achava do evento. Ela respondeu simplesmente: Nada. Como assim? E coisa e tal. Diante da insistência do profissional por chamar-lhe a atenção, ela dispensou à la Mae West: Ama o teu próximo – e, se ele for alto, moreno e bonitão, será muito fácil. O beijo do homem é a sua assinatura. O cara espantou-se: O que tem a ver uma coisa com outra? E ela charmosamente e sob a mesma rubrica da diva, arrematou: Quando sou boa, sou ótima. Mas, quando sou má, sou muito melhor! Viva ela! TRÊS: AH, SOBRE COPERNICANISMO AO CONTRÁRIO. DE NOVO? Falei outro dia aqui do copernicanismo ao contrário. Hem? Aliás, vez em quando menciono aqui. Como? Isso mesmo. E toda vez que faço menção, há sempre aquelas pestanas inquiridoras pra minha banda. Que droga é nove, meu? Tá, explico usando o autor da ideia, Augusto Boal: é quando os povos descobrem que são o sujeito da história, o motor da sociedade, o centro do nosso universo: não mais satélites. O que? Adiantou nada, as sobrancelhas cerradas continuam na mesma, não tem quem entenda assim de chapa, quem sabe um dia. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] enquanto habito um “mundo físico”, em que “estímulos” constantes e situações típicas se reencontram – e não apenas o mundo histórico em que as situações nunca são comparáveis –, minha vida comporta ritmos que não têm sua razão naquilo que escolhi ser, mas sua condição no meio banal que me circunda. Assim, em torno de nossa existência pessoal aparece uma margem de existência quase impessoal, que é por assim dizer evidente, e a qual eu reporto o zelo de manter-me em vida, em torno do mundo humano que cada um de nós faz, aparece um mundo em geral ao qual é preciso pertencer em primeiro lugar para poder encerrar-se no ambiente particular de um amor ou uma ambição. [...]. Trecho extraído da obra Fenomenologia da percepção (Martins Fontes, 1999), do filósofo fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Veja mais aqui.

AS MULHERES DA MINHA TERRA - Irmãs, do meu torrão pequeno / Que passais pela estrada do meu país de África / É para vós, irmãs, a minha alma toda inteira / — Há em mim uma lacuna amarga — / Eu queria falar convosco no nosso crioulo cantante / Queria levar até vós, a mensagem das nossas vidas / Na língua maternal, bebida com o leite dos nossos primeiros dias / Mas irmãs, vou buscar um idioma emprestado / Para mostrar-vos a nossa terra / O nosso grande continente, / Duma ponta a outra. / Queria descer convosco às nossas praias / Onde arrastais as gibas da beira-mar / Sentar-me, na esteira das nossas casas, / Contar convosco os dez mil réis / Do caroço vendido / Na loja mais próxima, / Do vinho de palma / Regateado pelos caminhos, / Do andim vendido à pinha, / Às primeiras horas do dia. / Queria também / Conversar com as lavadeiras dos nossos rios / Sobre a roupa de cada dia / Sobre a saúde dos nossos filhos / Roídos pela febre / Calcurreando léguas a caminho da escola. / Irmã, a nossa conversa é longa. / É longa a nossa conversa. / Através destes séculos / De servidão e miséria... / É longa a estrada do nosso penar. / Nossos pés descalços / Estão cansados de tanta labuta... / O dinheiro não chega / Para vencer a nossa fome / Dos nossos filhos / Sem trabalho / Engolindo a banana sem peixe / De muitos dias de penúria. / Não vamos mais fazer “nozados” longos / Nem lançar ao mar / Nas festas de Santos sem nome / A saúde das nossas belas crianças, / A esperança da nossa terra. / Uma conversa longa, irmãs. / Vamos juntar as nossas mãos / Calosas de partir caroço / Sujas de banana / “Fermentada” no “macucu” / Na nossa cozinha / De “vá plegá”... / A nossa terra é linda, amigas / E nós queremos / Que ela seja grande... / Ao longo dos tempos!... / Mas é preciso, Irmãs / Conquistar as Ilhas inteiras / De lés a lés. / Amigas, as nossas mãos juntas, / As nossas mãos negras / Prendendo os nossos sonhos estéreis / Varrendo com fúria / Com a fúria das nossas “palayês” / Das nossas feiras, / As coisas más da nossa vida. / Mas é preciso conversar / Ao longo dos caminhos. / Tu e eu minha irmã. / É preciso entender o nosso falar / Juntas de mãos dadas, / Vamos fazer a nossa festa...! / A festa descerá / Ao longo de todas as vilas / Agitará as palmeiras mais gigantes / E terá uma força grande / Pois estaremos juntas irmãs / Juntas na vida / Da nossa terra / Mas é preciso conhecer / A razão das nossas secretas angústias. / Procurar vencer Irmãs / A fúria do rio / Em dias de tornado / Saber a razão / Encontrar a razão de tudo... / “Os nossos filhos / O nosso filho morreu / Roído pela febre”... / Muitos pequeninos / Morrem todos os dias / Vencidos pela febre / Vencidos pela vida... / Não gritaremos mais / os nossos cânticos dolorosos / Prenhes de eterna resignação... / Outro canto se elevará Irmãs, / Por cima das nossas cabeças. / Vamos procurar a razão. / A hora das nossas razões vencidas / Se avizinha. / A hora da nossa conversa / Vai ser longa. / De roda do caroço / De roda das cartas / escritas por outrém, / Porque a fome é grande / E nós não sabemos ler. / Não sabemos ler, irmãs / Mas vamos vencer o medo. / Vamos vencer nosso medo / De sermos sós na terra imensa. / Jamais estaremos solitárias... / Porque a nossa força há-de crescer. / E então conquistaremos / para nós / para os filhos gerados no nosso ventre, / Nas nossas horas de Angústia / — Para nós — / A nossa bela terra / No dia que se avizinha / Saindo das nossas bocas, / Uma palavra bela / Bela e silenciosa / A palavra mais bela / Ciciada no nosso crioulo, / A palavra sem nome / Entoada no silêncio / Num coro gigante / Correndo ao longo das nossas cascatas, / Das cachoeiras mais distantes, / O canto do silêncio, Irmãs / Há-de soar / Quando chegar a Gravana. / E por hoje, Irmãs / Aguardemos a gravana / Ao longo das nossas conversas / No serão das nossas casas / sem nome. Poema extraído da obra É nosso o solo sagrado da terra (Ulmeiro, 1978), da poeta são-tomense Alda Espírito Santo (1926-2010).

ESPETÁCULOS POPULARES DO NORDESTE
[...] fornecer aos leigos um resumo fiel dos espetáculos do povo do Nordeste; [...] preservar a arte popular e fornecer elementos aos artistas eruditos que descubram o verdadeiro caminho do teatro brasileiro.
ESPETÁCULOS POPULARES DO NORDESTE - A obra Espetáculos populares do Nordeste (Massangana, 2007), do advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-1976), trata sobre o bumba-meu-boi, fandango, mamulengo e pastoril, com uma bibliografia e cronologia. Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Não posso reescrever a história. Sempre estará ligada a Beatles, George e Eric.
PATTIE BOYD – A arte da fotógrafa, atriz e ex-modelo britânica Pattie Boyd, que foi musa e casada com George Harrison e Eric Clapton. Foi modelo de sucesso internacional durante as décadas de 1960-70, tornando-se fotógrafa profissional com exposições em galerias ao redor do mundo. Ela escreveu um livro de memórias, Wonderful tonight: George Harrison, Eric Clapton and me. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
CONVERSA DE CAMARIM
A obra Conversa de camarim: o teatro no Recife na década de 1960 (SC/FCCR, 2007), do dramaturgo, filósofo, jornalista, professor, poeta, diretor, encenador e crítico de teatro, Benjamim Santos, aqui.
A obra do poeta, contista, cronista, dicionarista e jornalista, Artur Griz aqui & aqui.
Cais Companhia de Dança & Dielson Pessoa aqui.
Célia Labanca & Das coisas da minha terra aqui.
Asas do tempo, do escritor Fernando Nascimento Barreto aqui.
A música do poeta e multiartista Fábio de Carbalho aqui, aquiaqui.
A arte de Mabelle Batista aqui.
O mamulengo de Glória do Goitá aqui.
A fúria dos inocentes aqui.
O município de Bezerros aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...