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domingo, outubro 10, 2021

TRAPIELLO, KOI-GUERA, EDISCA & DORA ANDRADE, GILDA OSWALDO CRUZ, JOSÉ LUIZ PASSOS

 

 

TRÍPTICO DQP – A vida e o que será morto... - Ao som do álbum Meus caros pianistas - O piano de Claudio Santoro (Biscoito Fino, 2001), da pianista Gilda Oswaldo Cruz. - A vida e o trâmite entre a tarde quase noite, a solidão e eu sequer me dei conta de que estava à procura de algo que não sei. Sei, no de repente, ouvi Aristófanes: O amor é uma forma de procurar por nós mesmos. E isso para quem fora antes de tudo a soberba da completude de um rotundo autossuficiente, de quádruplas pernas, braços e orelhas, dupla faces e genitálias, desassossegado agora por não saber decifrar o mito da androginia e ter sido dividido ao meio pelos deuses e atormentado pelo pavor do envenenamento – ora, onde não a peçonha da destrutividade, se me via atravessado pelos horrores e a inanição, metido nos teoremas de Kurt Gödel: condenado à falta e à busca por reencontrar o que perdi, se é que não me desconstruí de vez na vida, se não me falta a capacidade constante de me refazer a cada instante. O que sei de mesmo, só nenhuma certeza e com tudo por terra. Ainda assim, lá vou eu incompleto e errante, a testemunhar Alcestis no Banquete de Fedro: morrer por amor para salvar o outro. Na verdade, era como se autodevorasse na milenar cerimônia totêmica, a perpetuar a eucaristia, o canibalismo, sim, a angústia do lobo e a perturbação da gula, outros tantos paradoxos. Coisa estranha isso de se pensar e entender. Ali mesmo presenciei o espetáculo da Edisca (1997). Eita! Logo a bailarina Dora Andrade apontou pro Koi-Guera, o genocídio dos Jangurussu de Caucaia. Sabia tratar-se do morticínio de todas as nações indígenas do meu país, ao mesmo tempo em que sentia, noutra instância desconhecida, a ressurreição dos meus caetés que vinham soturnos a mim para que entendesse o real abraço e o que a falta dada pelo outro no equívoco do acolhimento dos dagora. Ali como hoje senti meus pedaços se esfacelarem, tornando-se objetos estéticos, e minhas entranhas eram só a decomposição sinistra para satisfazer a quem não sei, mas que eram mesmo ready-mades de Duchamp pulsantes ainda apesar do meu dilaceramento. Eles, os meus, me viam e me mostrava isso e mais eviscerava ao ser descartado pela indiferença, e mais desmembrado a me derramar ao abandono do desdém na poeira do esquecimento. Eles comigo, não estava enfim só. Ao que me restava, logo a grata surpresa de não me esvair de vez, porque surgiu do nada o escritor José Luiz Passos a me saudar no meio da tragédia: ... para mim, a principal diferença é a mediação da distância.... A distância não é apenas um dado factual da minha situação... é parte de uma temática da minha ficção, que é sobre espaços ou tempos distantes que não são meus. Assim eu sabia o que não era eu nem meu, ele também, e sequer sabia lá o que devia dizer, ao que ele me contou da sua Catende que muitas vezes fui danado para lá folgar do lazer e ócio, das moças lindas que enamorei e tive quantas noites de dias ensolarados, e me contou das Ruínas de linhas puras, d’O sonâmbulo amador e do Nosso grão mais fino, e mais do Romance com pessoas, do Marechal de costas, da Antologia fantástica da República Brasileira e d’A órbita de King Kong, e a conversa era boa de se perder os ponteiros do relógio e qualquer ponto de chegada ou saída, até sermos surpreendidos pelo escritor espanhol Andrés Trapiello que nos instou dalgo que sequer imaginávamos: Seria um crime desaparecer porque ali, todos os domingos, acontece algo muito importante: a ressurreição de uma parte da cidade representada nos seus vestígios, que são ressuscitados através de um rito secular: a barganha, que se aperfeiçoou ao longo do séculos... O que para mim era o meu lugar e a vizinhança da Mata Sul pernambucana, para ele era a Madrid dele, cada qual a sua cidade e afetos. E eu ali jamais poderia sacar se a humanidade havia perdido a capacidade de amar, enquanto eu insistia ainda em não morrer entre o lixo e o letal, portas arrombadas e sucatas aos monturos. Eles se foram e fiquei só.

 


Em outras palavras... - Imagem: a arte da artista e escritora francesa Valentine Hugo (1887–1968). – Da minha parte sabia que aquilo tudo era só por um momento, tudo passaria, todos passarão, restaria sozinho e com os pensamentos vagando caleidoscópicas lembranças. Desacompanhado é o meu exercício diário, mesmo que muita gente transite ou mesmo orbite minha loucura, há de escapar inevitavelmente. De resto, não mais Lolita, agora outra como se fosse a Mademoiselle da Fala, memória (Alfaguara, 2014), de Nabokov: Ela gastara toda a sua vida em se sentir desgraçada; essa desgraça era seu elemento natural; suas flutuações, profundidades cambiantes, só isso dava a ela impressão de movimento e vida. O que me incomoda é que a uma sensação de desgraça, e mais nada, seja insuficiente para tornar uma alma imortal. Minha enorme e amorosa Mademoiselle está muito bem na terra, mas é impossível na eternidade... E me confidenciou enquanto conferia com o olhar toda a situação ao redor: Inicialmente, eu não tinha consciência de que o tempo, tão ilimitado à primeira vista, era uma prisão. Ao examinar minha infância (que é a coisa mais próxima do prazer de examinar a própria eternidade) vi o despertar da consciência como uma série de flashes espaçados, com intervalos entre eles diminuindo aos poucos até se formarem claros blocos de percepção, fornecendo à memoria um apoio escorregadio... Ora, tudo que me dissera parecia mais ler em minha mente, inteiramente confuso com os últimos acontecimentos, seguir adiante, vez que era tudo isso que me ocorria ali e em todo momento. Ah, não, apenas a memória, assim seguia.

 


Viver e a solidão, solitude... - Imagem: a arte da artista argentina Liliana Maresca (1951- 1994) – Um outro enredo a cada instante e as narrativas emergem, era eu agora solitário escriba Theodore no torpor das minhas emotivas cartas pessoais. Sempre gostei de escrever meus garranchos e eis-me agora enredado na trama de Her (2014) do Spike Jonze, curtindo as perdas e danos de quem estava de caras com o término de um devastador relacionamento amoroso. Ali eu me valia de uma desconhecida, que me encantou com as suas feições da atriz estadunidense Amy Adams: O amor é uma forma de insanidade socialmente aceitável. A vida é curta, e todos merecemos um pouco de felicidade. Longe de discordar eu assentia sabendo da cilada de Samantha que se passava pela Scarlett Johansson e sorria satírica e efusivamente com o futuro do pretérito de Fabos fanáticos do mico Coisonário, dando baixa com o extermínio dos meus vivos e mortos, e eu a me perguntar aflito quanto valia a vida na festa da escola de tiro, a pontaria de uma arma inexorável pelas queimadas pantaneiras, amazônicas, sertanejas e litorâneas, balas que cruzavam e eu doía a me desvencilhar disso tudo, quase sem escapatória e o terror era mais que real. Ela então me acolheu dentro de si, e guardou meu desamparo na sua amável deificação. Mais que grato, para ela cantei o Amor: maior a dívida do seu penhor porque o amor é mútua condecoração. E nela adormeci o prazer da vida. Até mais ver.

 

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domingo, outubro 04, 2015

RAJNEESH, PESSOA, GRACILIANO, ARISTÓFANES, BUSTER, LIÇÃO PRA SER FELIZ & BRINCARTE DO NITOLINO.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? LIÇÃO PRA SER FELIZ – Desde um tempo atrás que ouvi de Gonzaguinha que não dá pra ser feliz do jeito que a coisa vai, que minhas catracas do quengo anda questionando a respeito. Pudera, o que mais ouço hoje, é que todos querem a felicidade a qualquer preço e modo, simplesmente, porque todos nós merecemos, de uma forma ou de outra, sermos felizes. Vai e volta, esbarro em gente que quer achar essa tal felicidade. Onde ela está escondida? O que a gente faz pra tê-la pra gente? Eu mesmo digo pra elas: - Se acharem, me avisem; vamos socializar. Confesso que por mais de cinquenta anos, ou melhor, por toda minha vida, a minha busca era saber onde que droga se encontrava escondida essa felicidade que todo mundo fala e canta. Nas minhas investigações, ora, ouvi de tudo, desde conselhos e trilhas, até admoestações as mais severas. Teve quem dissesse que estava no Himalaia; outro com ar de autoridade e sabedor de tudo, disse que está no Kilimanjaro; um mais afoito não dispensou o seu que nada pra corrigir tudo e todos, afirmando categoricamente se encontrar no Fuji-Yama; e, no meio disso, não se esqueceram de mencionar que está no segredo guardado das múmias do Egito. E lá vai teitei. Não faltou quem apontasse pro colosso de Rodes, pras ruínas da acrópole de Partenon, pro pico do Aconcágua, até pros espelhos de Arquimedes. Alguns até ousaram recomendações de que para tal precisava saber alfa e ômega de tudo, ou dar um golpe do baú pra encontrar o Eldorado, ou achar o pote de ouro no fim do arco-íris, catar os líquens e musgos no vulcão de Erebus da Antártida, ou praticar autoflagelação num iglu dos esquimós, ou possuir um fragmento do bendengó ou a pedra Caaba de Meca ou mesmo o diamante de Cullinam ou uma grande pepita de ouro, pra ter toda divícia. Quer dizer, um bocado de gente sinalizava que só a riqueza traz felicidade. Outros, não descartando tudo isso, deram conta de que pra ter felicidade precisava ser benzido e curado pelo gênio Caruana do Amazonas, praticar a eugenia, ou livrar-se dos brasa-escondidas do mundo ababelado; afora isso, só lendo o Alcorão e os Vedas, com o Colliget de Averróis, as lições dos babalorixás, saber de cor a Bíblia, a Imitação de Cristo de Thomas de Kêmpis e os mandamentos de Alá, Javé, Buda ou Adonai; praticar necromancia, ler as mil e uma noites, desatar nó górdio, decifrar papiros e entender os oráculos. Outranos aumentavam a bula do sincretismo com afirmação de que só poderia encontrá-la quem tivesse coragem de correr todo arquipélago das Bermudas, ou ter a graça de ser abduzido por um Ovni e, quando voltar, conseguir entrar no Templo de Baal. Outrantos mais, além disso, direcionaram como fundamental uma vista pros templos de Calcutá, a determinada fuga de Abaçai, a cagada da posse de aerólitos, participar da água-de-oxalá, seguir os passos de Gandhi e desvendar os enigmas da Esfinge. Ah, não faltou quem ousasse a indicação da indispensável viagem pela Gulf-Stream lendo as profecias de Nostradamus até encontrar o perfume da beleza de Pentesileia, voltar para as bandas de Madagascar a dar sota e ás pra achar o elo perdido de Java. Não faltaram outrotantos pitacos pra dar em cima dos mistérios de Osíris visando descobrir a longevidade e dar um trato à bola pra saber o esconderijo das botijas de Montezuma e tralalá blablablá. E batiam pé e reafirmavam: só assim. Pelo jeito, tinha que dar uma volta ao mundo todo e, se fosse pouco, não seria nada demais dar um pulinho em Marte ou sair pinotando pros outros planetas da nossa galáxia, a fim de localizar o real paradeiro da felicidade. Isso me levaria a correr todas as altitudes e latitudes, até encontrar o armistício humano. Andejo como sou, seria uma andada que findaria acometido por abasia, acho. Preferi fazer ginástica nos neurônios e cutucar todo tipo de ideia possível e inimaginável. Pra meu desapontamento, só dei água em barrela e com os burros n’água. Resolvi descartar qualquer menção de posse, desejo ou obstinação. Foi aí que me ocorreu uma generosa intuição que me saltou de repente e do nada pra compreensão. Seguinte, por mais que se pense que a felicidade está em algum lugar do universo, só há um local onde ela pode ser encontrada de verdade: é dentro de mim mesmo. Esta foi a lição que aprendi: ela não está em nenhum lugar do mundo ou do universo, a felicidade está dentro de cada um. É só descobri-la e seja feliz. Sorria – e que o sorriso seja sua prática todo dia e o dia todo -, faça o teste e constate. Faça as pazes consigo. Aproveite, faça uma faxina e saiba que você é uma pessoa sortuda, pois foi escolhida entre os milhões de espermatozoides. Sofrimento? Encare as dívidas e os problemas como brincar de lição de casa. Não se leve tão a sério, faça como Rita Lee: brinque de ser sério e leve a sério a brincadeira. É difícil? Só depende de você. Invente, faça de você uma pessoa diferente e descubra que a felicidade verdadeira está dentro você. Sorria e vamos aprumar a conversa aqui

Imagem Allegro (1909), do pintor e compositor lituano Mikalojus Konstantinas Ciurlionis (1875-1911).


Curtindo o álbum Senhas (CBS/Columbia Records, 1992), da cantora e compositora Adriana Calcanhoto. Veja mais aqui.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino Especial do Dia Mundial da Natureza e dos Animais. Será a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação luxuosa da simpaticíssima Isis Corrêa Naves. Na programação para as crianças de todas as idades: Fagner, Robertinho do Recife, Vida Verde Viva, Leo & Gandhi, O leão cordeirinho, Anderson Freire, As Esquiletes, Manuel Sampaio, O lobo e os sete cabritinhos, Nita & o jacaré e a princesa, O lobisomem zonzo, Meimei Corrêa, Eliana, Patati & Patatá & muito mais brincadeiras, poesias, histórias e entretenimento. No blog dicas de Educação, Psicologia, Direito das Crianças e Adolescentes, Teatro, Literatura e Música Infantis. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

A SEMENTE DA MOSTARDA – No livro A semente da mostarda: discursos sobre as palavras de Jesus segundo o Evangelho de Tomé (Tao, 1979), do filósofo e místico, líder religioso hindu das tradições dármicas, mestre da arte da meditação e do despertar da consciência Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990), encontro o Décimo primeiro discurso, proferido em 31 de agosto de 1974, no qual destaco os trechos a seguir: Todo o problema humano consiste em escolher entre o momentâneo e o eterno. Quando você escolhe o momentâneo, está construindo sua casa na área – ela cairá. Quando escolher o eterno, então algo que dura para todo o sempre é alcançado. [...] A avestruz esconde a cabeça, fecha os olhos e imediatamente não tem mais medo porque o inimigo não pode ser visto. Mas o inimigo não acredita nessa lógica. Pelo contrário, você é um brinquedo em suas mãos quando fecha os olhos; está pedindo para ser a vítima. Você poderia fugir mas não o fez porque pensou que o inimigo não estivesse lá – não que ele não estivesse, você é que sentiu que ele não estava. É assim que você sente uma felicidade momentânea quando se torna inconsciente através de drogas - os problemas não existem, todos os inimigos desaparecem, não há ansiedade – porque para haver ansiedade, você tem de estar alerta, desperto. [...] Aconteceu certa vez que Thomas Edison foi convidado para um jantar onde se reuniam alguns amigos. Ele era um homem de poucas palavras e ficava sempre perturbado quando havia muita gente por perto. Ele era um trabalhador solitário em seu laboratório, era um pesquisador, um homem contemplativo; a presença dos outros era sempre uma perturbação para ele. E no jantar havia muitas pessoas, todas ocupadas em comer, tagarelar que Edison pensou: “Esse é o mento de escapar!” Então ele começou a procurar uma porta pela qual pudesse escapar – nesse momento foi apanhado. O anfitrião agarrou-o e perguntou: “Sr. Edison, no que o senhor está trabalhando atualmente?” Ele respondeu: “Na fuga!”. Mas todos estão trabalhando na fuga. Esteja alerta para isso! Por que você não consegue desfrutar da vida – que é um presente? Você não teve de ganha-la; é por isso que eu digo que é uma graça. Ela lhe foi dada pela existência – você pode chama-la de Deus – ela é simplesmente um presente, um puro presente. Você não fez nada para consegui-la, para ganha-la. Por que não consegue ser grato e desfrutá-la? Você deveria estar dançando de alegria, mas qual é o problema: porque para desfrutar da felicidade, é necessária uma consciência maior. Para sofrer uma angustia não há necessidade de estar alerta. Para sofrer uma angustia é necessário maior escuridão, menos consciência – é necessário a noite, não o dia. Mas para desfrutar a felicidade, é necessário mais consciência. Assim, se você encontrar um santo triste, saiba que ele não é santo. Porque a consciência dá felicidade plena, dá um profundo sorriso a todo o seu ser. A consciência lhe dá algo que o transforma em criança|: você pode correr atrás de uma borboleta, pode saborear uma comida simples, pode desfrutar das coisas simples da vida, a ponto de tudo se tornar um presente. Tudo se torna uma graça de Deus e você pode ser grato a cada momento – mesmo pelo ar que respira. Pode desfrutar até da sua própria respiração. Uma simples respiração! E o prazer é tão grande! Se encontrar um santo triste, saiba que algo está errado; ele ainda vive no vale, ainda não se moveu para o pico. Caso contrário ele estaria radiante, teria beleza, teria o prazer de uma criança: despreocupado, sem medo – estaria fortificado na sua consciência. Veja mais aqui e aqui.

A CACHORRA BALEIA – No livro Vidas secas (Martins, 1938), do escritor e jornalista Graciliano Ramos (1892-1953), encontro o trecho de Baleia o qual destaco: [...] A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caira-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de roscas, semelhantes a uma cauda de cascavel. Então Fabiano resolveu mata-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carrega-la bem para a cachorra não sofrer muito. Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: - Vão bulir com a Baleia? [...] Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis. – Ecô! Ecô! Em seguida entrou na sala, atravessou o corregor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé-de-turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, detevbe-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rost. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia que se pôs a latir desesperadamente. Ouvindo o tiro e os latidos, sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se. E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino aos pulos. Defronte do carro de bois faltou-se a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda. Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto ás pedras onde os meninos jogavam coisas mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pos-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornam-se quase imperceptíveis. Como o sol a encadeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra. Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se. Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás que pulavam e corriam em liberdade. [...] Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitoria tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes. [...] Veja mais aqui.

O PASTOR AMOROSO – No livro O eu profundos e os outros eus (Nova Fronteira, 1980), do poeta e filósofo português Fernando Pessoa (1888-1935), encontro a seção Fernando Pessoa, o outro – Ficções do interlúdio -, em que destaco o poema O Pastor Amoroso: Quando eu não te tinha / Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo... / Agora amo a Natureza / Como um monge calmo à Virgem Maria, / Religiosamente, a meu modo, como dantes, / Mas de outra maneira mais comovida e próxima... / Vejo melhor os rios quando vou contigo / Pelos campos até à beira dos rios; / Sentado a teu lado reparando nas nuvens / Reparo nelas melhor - / Tu não me tiraste a Natureza... / Tu mudaste a Natureza... / Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, / Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, / Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, / Por tu me escolheres para te ter e te amar, / Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente / Sobre todas as cousas. / Não me arrependo do que fui outrora / Porque ainda o sou. / Vai alta no céu a lua da Primavera. / Penso em ti e dentro de mim estou completo. / Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira. / Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz. / Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo, / E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores. / Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos, / Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores, / Isso será uma alegria e uma verdade para mim. / O amor é uma companhia. / Já não sei andar só pelos caminhos, / Porque já não posso andar só. / Um pensamento visível faz-me andar mais depressa / E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. / Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo. / E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. / Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. / Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. / Todo eu sou qualquer força que me abandona. / Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. / O pastor amoroso perdeu o cajado, / E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta, / E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar. / Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado. / Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas. / Ninguém o tinha amado, afinal. / Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo: / Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre, / As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento, / A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes. / (E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões) / E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito. / Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela, / E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela. / Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala, / E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança. / Amar é pensar. / E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. / Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. / Tenho uma grande distração animada. / Quando desejo encontrá-la / Quase que prefiro não a encontrar, / Para não ter que a deixar depois. / Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só / Pensar nela. / Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar. / Todos os dias acordo com alegria e pena. / Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava. / Tenho alegria e pena porque perco o que sonho / E posso estar na realidade onde está o que sonho. / Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações. / Não sei o que hei-de ser comigo sozinho. / Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A PAZ – A comédia A paz (421aC), do dramaturgo e representante da comédia grega Aristófanes (447-385aC), conta a história de Trigeum, um lavrador ateniense que vivia em um lugarejo da Ática do cultivo de suas vinhas, resolve subir ao céu, montado num escaravelho, para perguntar aos deuses a causa dos males que afligiam a Grécia, às voltas com interminável guerra fratricida entre os helenos. No Olimpo ele encontra apenas Hermes; os demais deuses haviam-se retirado para regiões ainda mais altas do firmamento, resolvidos a não mais presenciar a discórdia que levava os gregos ao extermínio. Hermes, a princípio relutante, resolve responder às perguntas de Trigeu, que explora a gula do deus remanescente; mostra-lhe a Guerra personificada, disposta a pulverizar as cidades gregas em um imenso pilão, enquanto a Paz permanece prisioneira no fundo de uma caverna, cuja entrada está obstruída por grandes pedras. Trigeu quer libertar a prisioneira a todo custo. Por isso convoca os trabalhadores de todas as regiões da Grécia, gente do campo, os mais sacrificados com a guerra. Depois de muitos esforços conseguem libertar a prisioneira e com ela voltam aos gregos a abundância e a alegria. Somente os fabricantes de armamentos não compartilham do contentamento geral, pois o fim da guerra os arruina. A peça termina com o casamento de Trigeu e da Abundância, companheira da Paz. Da obra destaco o trecho inicial: (Aristófanes) (À direita, a casa de Trigeu; no centro, a entrada de uma caverna fechada por grandes pedras; à esquerda, a morada de Zeus) PRIMEIRO ESCRAVO - Depressa! Depressa! Traga o bolo para o escaravelho! SEGUNDO ESCRAVO - Pronto. PRIMEIRO ESCRAVO - Dê o bolo a este inseto maldito! SEGUNDO ESCRAVO - Nunca mais vai ele vai comer outro bolo melhor. PRIMEIRO ESCRAVO - Dê mais um, feito de estrume de burro. SEGUNDO ESCRAVO - Está aqui outro. PRIMEIRO ESCRAVO - E onde está o que você tinha trazido agora mesmo? Será que ele já devorou? SEGUNDO ESCRAVO - Claro! Ele revirou o bolo com as patas e engoliu de uma vez. PRIMEIRO ESCRAVO - Então faça outros depressa, e bem amassados. SEGUNDO ESCRAVO - Pelo amor dos deuses, limpadores de latrinas! Me socorram se não quiserem que eu morra sufocado! PRIMEIRO ESCRAVO - Mais! Mais! Peça a um pederasta! O escaravelho disse que gosta bem espremido. SEGUNDO ESCRAVO - Pronto. Ao menos fico livre de suspeita de comer a massa do bolo enquanto preparo ele. PRIMEIRO ESCRAVO - Que fedor! Mais! Mais! Não pare de espremer! SEGUNDO ESCRAVO - Não posso mais! Já não consigo suportar esse fedor de latrina. PRIMEIRO ESCRAVO - Vou entrar e levo a latrina comigo. (O Primeiro Escravo entra com o escaravelho) SEGUNDO ESCRAVO - Leve ela para o inferno e vá com ela! (Dirigindo-se aos espectadores) Me diga, quem souber, onde eu posso comprar um nariz sem buracos. Não conheço trabalho mais horroroso que esse de espremer comida para um escaravelho. Um porco ou um cachorro engolem sem luxinhos os nossos excrementos, mas esse bicho aí se faz de dengoso e não quer comer a não ser que eu tenha passado o dia todo amassando os bocados, como se fosse uma mulherzinha muito delicada! Mas vamos ver se ele já parou de comer; vamos abrir a porta só um pouquinho para ele não notar a minha presença. (O Segundo Escravo entreabre a porta) Coma! Empanturre-se de comida até estourar! Com que gana esse bicho maldito devora a comida! Ele mexe o queixo sem parar, como um lutador mexe com os braços. Mexe as cabeças e as patas como um fabricante de cordas para barcos. Bicho feio, fedorento e guloso! A que deus ele é consagrado? Não tenho certeza, mas penso que não há de ser a Afrodite nem às Graças. PRIMEIRO ESCRAVO - A que deus, então? SEGUNDO ESCRAVO - Só se for a Zeus merdejante. PRIMEIRO ESCRAVO - Você ainda não ouviu algum espectador, algum rapazola convencido, perguntar: “Que negócio é esse? Para que esse escaravelho?” E um vizinho dele responde: “Se não me engano, aquele político sujo anda metido nisso; dizem que ele comia imundície”. Mas eu vou entrar para dar de beber ao escaravelho. SEGUNDO ESCRAVO - E eu vou explicar o caso às crianças, aos homenzinhos, aos homens feitos, aos homens desfeitos, aos que já viveram demais. Meu patrão está com uma mania esquisita. (Não é essa de vocês, não!) É outra mania, completamente nova. O dia todo, com os olhos erguidos para o céu, ele se queixa a Zeus e diz: “Ah! Zeus! Que é que você pretende fazer? Pare com essa vassoura! Não varra a Grécia da face da terra!” Atenção! Silêncio! Parece que estou ouvindo a voz dele! TRIGEU - (sem ser visto) Ah! Zeus! Que é que você pretende fazer com os atenienses? Você não se incomoda de estar despovoando nossas cidades? SEGUNDO ESCRAVO - É essa mania de que eu estava falando. Agora vocês tiveram uma amostra da loucura dele. Mas eu quero contar a vocês as coisas que ele disse no primeiro acesso da doença: “Por que é que eu não posso ir direto a Zeus?” Depois, fazendo pequenos degraus, subia por eles com os pés e as mãos, “para escalar os céus”; até que ele caiu no chão e quebrou a cabeça. Mas ontem ele foi não onde e voltou para casa com um escaravelho enorme, indócil como um cavalo da Sicília, e fez de mim o tratador de tal bicho. Ele acaricia o escaravelho com a mão, como se fosse um potro: “Meu Pegasozinho!” diz ele. “Generoso voador, me leva direto a Zeus de um arranco só!” Mas vamos olhar por esta fresta para ver o que ele está fazendo. (Olha) Ah! Infeliz! Socorro, vizinhos! Socorro! Meu patrão está subindo desabaladamente pelos ares, cavalgando um escaravelho! TRIGEU - (montado no escaravelho) Vamos devagar, não precisa exagerar no entusiasmo! Não comece voando tão depressa assim; espere esquentar e desembaraçar as juntas com o bater das asas. E faça o favor de não largar mau cheiro em mim; se for para isso é melhor você ficar em casa. SEGUNDO ESCRAVO - O senhor está delirando, patrão! TRIGEU - Silêncio!... Silêncio!... SEGUNDO ESCRAVO - Aonde o senhor vai? O senhor vai-se perder aí pelo céu. TRIGEU - (em tom solene) O interesse dos gregos orienta meu vôo e preside meus ousados planos! SEGUNDO ESCRAVO - Por que o senhor está voando? Que maluquice é essa? TRIGEU - Não diga palavras de mau agouro! Fale coisas otimistas e dê berros de alegria! Mande todo mundo se calar, cobrir as latrinas com telhas novas e arrolhar os intestinos. SEGUNDO ESCRAVO - Eu não me calo antes de o senhor dizer para onde está voando. TRIGEU - Para onde havia de ser? Para o céu, lá para onde está Zeus. SEGUNDO ESCRAVO - E para quê? TRIGEU - Para saber o que ele pretende fazer dos gregos todos. SEGUNDO ESCRAVO - E se ele não disser? TRIGEU - Eu vou mover uma ação contra ele por trair os gregos em benefício dos persas. SEGUNDO ESCRAVO - Essa não! O senhor não vai fazer isso enquanto eu estiver vivo! TRIGEU - Não pode ser de outra maneira. SEGUNDO ESCRAVO - (Dirigindo-se às filhas de Trigeu) Meninas! O pai de vocês está indo embora! Ele vai sozinho para o céu, de fininho! Tentem dar um jeito nele, coitadinhas! (Aparecem as filhas de Trigeu) [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

SETE OPORTUNIDADES – A comédia/romance Sete Oportunidades (Seven Chances, 1925), é um filme de David Belasco e dirigido pelo ator, realizador, roteirista e produtor de cinema estadunidense Buster Keaton (1895-1966), conta a história de sujeito que passando por muitas dificuldades financeiras, fica sabendo que seu avô lhe deixou uma herança de sete milhões de dólares. Mas, para receber o dinheiro, ele terá que se casar até as 19h do dia do seu 27º aniversário. Merece registro o fato de que a cena mais famosa desse filme aconteceu por acaso. Nas filmagens de uma cena de perseguição em uma ladeira íngreme, Buster Keaton sem querer desalojou algumas pedras que caíram e desceram a ladeira atrás dele como se o tivessem perseguindo. Para se esquivar, ele precisou correr das pedras e depois se esconder atrás delas. No pré-lançamento, ele viu que esse acidente arrancou as maiores gargalhadas da plateia. Aí ele decidiu regravar a cena com uma centena de "pedras" de papel machê em diversos tamanhos. A cena final é ele tendo que correr de uma avalanche de pedras. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Children's portrait in art and painting, do pintor francês Victor Gabriel Gilbert (1847-1933)

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico, a partir do meio dia, no blog do Projeto MCLAM, com a reprise de toda programação da semana e a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sábado, julho 25, 2015

BAUMAN, FLAUBERT, MALFATTI, BAUDELAIRE, RAMEAU, ARISTÓFANES, MESSALINA, ALAN MOORE, ZAMAZAL & DIA FORA DO TEMPO!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O DIA FORA DO TEMPO – Amanheceu. Era vinte e cinco de julho dos meus calendários tzolkin e haab. Naquele instante entoei vinte vezes o Hino de Akhenaton. Depois me sentei, ereto, mãos sobre as coxas, e contemplei os primeiros raios que emergiam da aurora rósea, o espetáculo dos primeiros sinais da manhã. E fechei os olhos para viver aquele momento. Logo percebi a aproximação dos invisíveis sábios que se formavam diante de mim e ao meu lado. Um deles empunhava o Popol-vuh, o Códice de Dresde e a lição de cinquenta e dois anos num gnômon que trazia a indicação do cômputo numerado do tempo no zero, uma data origem da última entre as quatro Criações do Mundo. Pude perceber um cenário que emergia por meio de figuras geométricas que se formavam como círculos, algarismos que sinalizam o tempo galáctico, cifras expressando ciclos lineares e aspectos multidimensionais, datas, lunações, eclipses, o ritmo das estações, ângulos cambiantes, triangulações, mensuração de sombras. Nessas imagens formadas, havia uma mensagem subjacente que pude interpretar nas ameias heliocoidais, trazendo as determinações de solstícios e equinócios, revelando o cumprimento de lavrar, semear, colher nos períodos propícios e favoráveis. Foi quando uma Luz Cósmica iluminou sobre o tempo e a existência humana. Ao lado surgiu a Lua Planetária Vermelha e ouvi uma voz inaudível num idioma insólito que me falava à compreensão: os dias são seres vivos e patrocinados por um deus de natureza dupla. Ao entender isso, logo vi a estrela do Pastor – a primeira a luzir, a última a se pagar. E era como se eu visse o tempo transportado para o futuro, por deuses que se revezavam e se substituíam uns aos outros por turnos no governo do mundo: o dia sucedendo a noite. E cada um deles, por sua vez, tomava às costas o fardo do tempo preso por uma cilha frontal. E ao final do turno cedia a outro deus noturno e assim por diante. Foi quando pude ver os treze deuses que reinam cada mês: a estela D de Copan com inscrições sobre baktuns, katuns, tuns, uinal, kines. Outra voz me explicava sobre pintun, kalabtun e kicliltun dos períodos venusianos. Eu não os ouvia, mas sabia o que falavam. Nesse momento tive a compreensão de que o Sol no inverno se posiciona mais ao sul; no verão, mais ao norte. Logo outra voz inaudita me alertava para os cinco dias epagômenos: o uayeb - dias que requerem abstinência. E de repente surgiu um painel numa cripta insculpida em alto-relevo com os nove Senhores das Trevas e da morte em volta de um sarcófago. Fiquei impressionado e fui puxado por um deles para um pequeno templo com estranhos tampões circulares de pedra e que estava encaixado entre ladrilhos triangulares, pelo qual me conduziram a um dintel com um deus surgindo da goela de uma serpente, ameaçando com seu dardo o suplicante acocorado diante dele. E fui conduzido para um vão no qual dei no primeiro degrau de uma escada íngreme que findava num salão com estatuetas coroplásticas de Jaina, monumentos de estelas de Quiriga e Copan, painéis e dintéis de Yaxchilan, Palenque e Piedras Negras e, no topo da pirâmide de E-VIII de Uaxactun, vinhetas dos códices empoleiradas sobre outras pirâmides que ficavam embaixo de um dossel protetor com dois bastões cruzados erguidos e ladeados por tubos ocos de jade. No centro, um ladrilho na cripta do grande halach uinic, onde um jovem jazia, de perfil, sentado sobre a enorme cabeça de um monstro, e do seu corpo brotava verticalmente uma árvore da vida, encimada por um pássaro quetzal de assas abertas. Era a lição: pela noite volta-se à terra para ressurgir um dia, como o grão de milho é enterrado para dar uma planta e um novo fruto. Aí surgiu o Arco-Íris da Terra. (O dia fora do tempo, Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.

Anita Malfatti (1889-1964).


Curtindo a ópera e héroique ballet Les Indes Galantes (O Amorous Índias, 1735), do compositor do período Barroco-Rococó e maior expressão do Classicismo musical francês Jean-Philippe Rameau (1683-1764), com libreto de Louis Fuzelier, original harpsichord transcritions performed by Kenneth Gilbert.

VIDA PARA CONSUMO – O livro Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias (Zahar, 2008), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, aborda temas como o segredo mais bem guardado da sociedade de consumidores, consumismo versus consumo, sociedade de consumidores, cultura consumista e baixas colaterais do consumismo, entre outros assuntos, traz trechos significativos para nossa reflexão: [...] Os adolescentes equipados com confessionários eletrônicos portáteis são apenas aprendizes treinando e treinados na arte de viver numa sociedade confessional – uma sociedade notória por eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, por transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever públicos, e por afastar da comunicação pública qualquer coisa que resista a ser reduzida a confidências privadas, assim como aqueles que se recusam a confidenciá-las. Como Jim Gamble, diretor de uma agência de monitoramento de rede, admitiu ao Guardian, “ela representa tudo aquilo que se vê no playground – a única diferença é que nesse playground não há professores, policiais ou moderadores que ficam de olho no que se passa”. [...] Os colegiais de ambos os sexos que expõem suas qualidades com avidez e entusiasmo na esperança de atrair a atenção para eles e, quem sabe, obter o reconhecimento e a aprovação exigidos para permanecer no jogo da sociabilidade; os clientes potenciais com necessidade de ampliar seus registros de gastos e limites de crédito para obter um serviço melhor; os pretensos imigrantes lutando para acumular pontuação, como prova da existência de uma demanda por seus serviços, para que seus requerimentos sejam levados em consideração – todas as três categorias de pessoas, aparentemente tão distintas, são aliciadas, estimuladas ou forçadas a promover uma mercadoria atraente e desejável. Para tanto, fazem o máximo possível e usam os melhores recursos que têm à disposição para aumentar o valor de mercado dos produtos que estão vendendo. E os produtos que são encorajadas a colocar no mercado, promover e vender são elas mesmas. São, ao mesmo tempo, os promotores das mercadorias e as mercadorias que promovem. São, simultaneamente, o produto e seus agentes de marketing, os bens e seus vendedores (e permitam-me acrescentar que qualquer acadêmico que já se inscreveu para um emprego como docente ou para receber fundos de pesquisa vai reconhecer suas próprias dificuldades nessa experiência). Seja lá qual for o nicho em que possam ser encaixados pelos construtores de tabelas estatísticas, todos habitam o mesmo espaço social conhecido como mercado. Não importa a rubrica sob a qual sejam classificados por arquivistas do governo ou jornalistas investigativos, a atividade em que todos estão engajados (por escolha, necessidade ou, o que é mais comum, ambas) é o marketing. O teste em que precisam passar para obter os prêmios sociais que ambicionam exige que remodelem a si mesmos como mercadorias, ou seja, como produtos que são capazes de obter atenção e atrair demanda e fregueses [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

SALAMBÔ – O romance histórico Salambô (1862 - Chardon, 1905), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), trata-se de uma vigem pura consagrada ao culto da deusa Tanit, filha do célebre conquistador cartaginês, Amícar Barca, que durante as primeiras Guerras Púnicas, recorreu à contratação de enormes contingentes de soldados mercenários que, ao final das batalhas, rebelaram-se atacando a colônia africana dos fenícios. Entre os mercenários, um deles Mâtho, se apaixona pela princesa e, movido pela paixão desenfreada, penetra ocultamente na cidade e rouba o Zaimph – o manto sagrado da deusa, o qual nenhuma mortal poderia tocar. Quando Amilcar retorna, tem-se inicio uma série de batalhas, entre as quais, Salambô seguiu com o intuito de recuperar o objeto divino, seguindo para a tenda do chefe revoltoso que desfalece ao estar diante da presença inusitada da amada. Ela retorna com o manto, se apaixonando pelo mercenário que é condenado à morte por lapidação durante os festejos de núpcias, levando-a também a falecer. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] Em redor do aposento estavam dispostos escabelos de ébano. Atrás de cada um, uma haste de bronze assente em três garras erguia um archote. Todas aquelas luzes se refletiam nos losangos de nácar que pavimentavam a sala. Esta era tão alta que a cor vermelha das paredes, subindo para a abóbada, se tornava negra e os olhos do ídolo surgiam lá no alto, como estrelas meio perdidas na noite. Os Anciãos, tendo deitado sobre a cabeça a cauda da túnica, sentaram-se nos escabelos de ébano. Permaneciam imóveis, com as sua mãos cruzadas dentro das largas mangas, e o lajedo de nácar parecia um rio luminoso que, do altar em direção à porta, lhes corria sob pés descalços. Os quatro pontífices estavam no meio, costas com costas, em quatro assentos de marfim que formavam uma cruz: o sumo sacerdote de Eschmun com uma toga cor de jacinto, o sumo sacerdote de Tanit com uma toga de linho branco, o sumo sacerdote de Khamon com uma toga de lã fulva e o sumo sacerdote de Moloch com uma cor púrpura. Amilcar avançou com o candelabro. Andou à volta dele observando os pavios que ardiam, e depois lançou sobre eles um pó perfumado; surgiram umas chamas violetas nas extremidades dos braços. Levantou-se então uma voz aguda, outra respondeu-lhe – e os cem Anciãos, os quatro pontífices, e Amilcar de pé, todos ao mesmo tempo entoaram um hino; e, sempre repetindo as mesmas sílabas e reforçando os sons, as suas vozes subiram, estilhaçaram-se, tornaram-se terríveis até que, de repente, se calaram.Esperaram algum tempo. Por fim, Amílcar tirou do peito uma pequena estatueta com três cabeças, azul como safira, e pousou-a à sua frente. Era a imagem da Verdade, o próprio génio da sua palavra. [...] A obra foi transformada em ópera, primeiro em 1890, pelo francês Ernest Reyer; segundo, em 1863, pelo compositor russo Modest Mussorgsky; e, por fim, em 1998, pelo contemporâneo Philippe Fénelon. Ganhou uma escultura em 1899, pelas mãos do escultor francês Desiré Maurice Ferrary (1852-1904). Teve, ainda, duas versões cinematográficas, a primeira em 1925, com direção do francês Pierre Marodon e estrelado por Jeanne de Balzac; e a segunda, em 1960, dirigido por Sérgio Grieco e estrelado por Jeanne Valérie. Também ganhou uma versão para os quadrinhos, em 1980, pela arte de Philippe Druillet, levando a história para ficção científica. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

HINO À BELEZA, UMA MALABARENSE & BERTA – No livro As flores do mal (1857), do poeta boêmio e teórico da arte francesa, Charles Baudelaire (1821-1867), encontro, primeiramente, o Hino à beleza: Vens tu do céu profundo ou sais do precipício, / Beleza? Teu olhar, divino mas daninho, / Confusamente verte o bem e o malefício, / E pode-se por isso comparar-te ao vinho. / Em teus olhos refletes toda a luz diuturna; / Lanças perfumes como a noite tempestuosa; / Teus beijos são um filtro e tua boca uma urna / Que torna o herói covarde e a criança corajosa. / Provéns do negro abismo ou da esfera infinita? / Como um cão te acompanha a Fortuna encantada; / Semeias ao acaso a alegria e a desdita / E altiva segues sem jamais responder nada. / Calcando mortos vais, Beleza, a escarnece-los; / Em teu escrínio o Horror é a jóia que cintila, / E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos, / Sobre teu ventre em amorosa dança oscila. / A mariposa voa ao teu encontro, ó vela, / Freme, inflama-se e diz: “Ó clarão abençoado!” / O arfante namorado aos pés de sua bela / Recorda um moribundo ao túmulo abraçado. / Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa, / Beleza! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo! / Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta / De um infinito que amo e que jamais desvendo? / De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia, / Que importa, se é quem fazes – fada de olhos suaves, / Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! – / Mais humano o universo e as horas menos graves? Também A uma malabarense: Teus pés são finos como as tuas mãos, e a anca / Roliça causa inveja à mais graciosa braca; / Teu corpo suave eterno o artista ao sonho impele; / Teus olhos negros são mais negros do que a pela. / No país quente a azul que te serviu de limbo, / Teu oficio é acender de teu amo o cachimbo, / Os cântaros prover de águas frescas e odores, / Do leito por em fuga insetos zumbidores, / E, mal a aurora põe o plátano a cantar, / Comprar bananas e ananáses no bazar. / Todos os dias, pés descalços, vais andando / E antigas árias nunca ouvidas murmurando; / E quando a tarde faz do céu uma fogueira, / Repousas docemente o corpo numa esteira, / Com sonhos a flutuar, cheios de colibris, / E sempre, como tu, floridos e gentis. / Porque, menina, queres ver a nossa / França, País rico de gente e pobre de esperança, / E, confiando a existência aos rudes marinheiros, / Dizer adeusa os teus sensuais tamarineiros? / Tu, seminua, envolta em musselina leve, / Toda trêmula além, sob o granizo e a neve, / Como lamentarias os teus ócios francos, / Se, o corpete brutal a constranger-te os flancos, / Fosses buscar o teu sustento em nossas lamas / E vender o perfume estranho que derramas, / O olhar absorto, perscrutando em meio aos miasmas, / Dos coqueirais ao longe os pálidos fantasmas! Por fim, o belíssimo Os olhos de Berta: Podeis bem desprezar os olhos mais famosos, / Olhos de meu amor, dos quais foge e se eleva / Não sei o quê de bom, de doce como atreva! / Verti vosso fascínio obscuro, olhos graciosos! / Olhos de meu amor, arcanos adorados, / Fazei-me recordar essas mágicas furnas / Em que, por trás de imóveis sombras taciturnas, / Cintilam vagamente escrínios ignorados! / Tem meu amor olhos tão negros quanto vastos, / Como os teus, Noite imensa, e, como os teus, preclaros! / Sonhos de Amor e Fé são seus lampejos raros, / Que fulguram ao fundo, orgiásticos ou castos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LISÍSTRATA – A comédia antiguerra Lisístrata (411aC), do dramaturgo e comediógrafo grego Aristófanes (447aC-385aC), conta a história dos atenienses invadidos por tripas espartanas numa lutra fratricida, pondo à mercê dos persas. A peça teatral critica severamente a guerra, envolvendo as mulheres das cidades gregas na Guerra do Peloponeso, lideradas pela ateniense Lisístrta que decidem instituir uma greve de sexo até que seus maridos parem de lutar e estabeleçam a paz. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] (Reaparece Lisístrata). 1.º VELHO – Salve a bravura em pessoa! Chegou a hora da senhora mostrar que é terrível e condescendente, malvada e boa, altiva e camarada, profunda conhecedora dos homens! Os gregos mais ilustres, conquistados por seus encantos, madame, abrem passagem e submetem suas querelas à decisão da senhora! LISÍSTRATA – Não haverá dificuldades, pois estou diante de homens que desejam o que há de mais natural. Vamos já experimentar. Onde está a Conciliação? (a Conciliação, personificada por uma mulher sumariamente vestida, aparece vestida, aparece trazida pelas outras mulheres. Lisístrata dirige-se a ela) Traga para cá primeiro os espartanos, não com severidade e arrogância, como se fazia antes, mas gentilmente, como convém às mulheres. Segure pela parte mais saliente os que não quiserem dar a mão. (a Conciliação traz os espartanos para onde está Lisístrata) Muito bem. Agora traga os atenienses, segurando-os por onde eles preferirem. (a Conciliação traz os atenienses) Espartanos, fiquem aqui perto de mim. Vocês, atenienses, fiquem deste lado. Ouçam todos o que vou dizer. Sou mulher, mas tenho cabeça para pensar. Além de ter minhas ideias ouvia as conversas de meu pai e de pessoas mais experimentadas. Por isso sei o que estou dizendo. Agora que vocês estão em minhas mãos quero dizer umas verdades e fazer umas censuras merecidas. Vocês têm de unir-se para não perecerem! 1.º VELHO – (olhando a Conciliação com ar de tarado) Já estou convencido só de “ver” os “argumentos” dela! LISÍSTRATA – Vocês, espartanos, têm sido muito injustos com os atenienses. Parecem até esquecidos de que são todos gregos e muitas vezes foram ajudados e até salvos por eles. MINISTRO – Isso mesmo, Lisístrata! Eles são de morte. Vivem atacando nosso litoral. EMBAIXADOR – (à parte e apontando para a Conciliação) Se eu pudesse, atacava agora mesmo as costas dela! Que beleza de “litoral”!... LISÍSTRATA – E vocês, atenienses, não se julguem melhores que os espartanos. Se vocês pensassem um pouco perceberiam que eles fizeram mais bem do que mal a vocês até hoje! EMBAIXADOR – Nunca vi uma mulher pegar as coisas tão bem! MINISTRO – (apontando para a Conciliação) E eu nunca vi uma coisa assim! LISÍSTRATA – Por que, então, vocês guerreiam? Por que vocês não acabam com essas divergências e se reconciliam de uma vez por todas? Vamos! Qual é a dificuldade? EMBAIXADOR – Se soubéssemos que a Conciliação era assim já estaríamos nos braços dela há muito tempo! MINISTRO – Nós também queremos a Conciliação! Primeiro nós! LISÍSTRATA – Calma! Calma! Ela será de todos! A Conciliação dará tudo que vocês querem quando as negociações de paz forem concluídas. Agora vão consultar todos os outros gregos. MINISTRO – Para quê? Quem não vai querer essa Conciliação? LISÍSTRATA – Então aprontem-se enquanto nós, mulheres, vamos fazer os preparativos lá na cidadela para recebê-los da melhor maneira possível e oferecer a vocês o que temos de mais gostoso. Durante a recepção acertaremos as coisas e trocaremos juramentos de paz. Depois cada um sairá com sua mulher. [...] Veja mais aqui e aqui.

MESSALINA - Valeria Messalina (22-48dC) era a filha mais nova e única menina do casal Marco Valério Messala Barbato e Domícia Lépida, a Jovem, prima de Nero, prima de segundo grau de Calígula e sobrinha-bisneta de Augusto. Ela, com catorze anos de idade, foi desposada por Claudius que, após o assassinato de Calígula, foi proclamado pela guarda pretoriana como o novo imperador e, por consequência, ela tornou-se sua imperatriz. Como terceira mulher de Cláudio, Messalina era o orgulho do imperador, jovem, aconselhadora, o senhor de 50 anos que se encantou com o doce pecado daquela adolescente, tendo com ela dois filhos. Ascendendo ao poder, ela entra para história com uma reputação de predadora implacável e insaciável sexualmente, tida como uma fêmea ninfomaníaca que se disfarçava de prostituta pelas ruas de Roma à cata de homem, até tornar-se a mulher mais poderosa de Roma e uma das mais cruéis mulheres da história. Entregue a uma vida licenciosa e totalmente dissoluta com grande desregramento, tronou-se alvo de severas críticas da sociedade do seu tempo. Serviu-se da sua posição social e influente para arruinar inúmeras figuras proeminentes em Roma, como sucedeu com Valério Asiático ou com Vinício. A sua vida promíscua tornou-a famosa em vida. Ela conseguiu convencer o marido de que eles deveriam não apenas dormir em camas separadas, mas morar em alas diferentes do palácio. Ele consentiu, e ela transformou sua ala em um bordel. Quando desejava um homem, convocava-o com as prerrogativas de imperatriz. Se algum dos convidados demonstrasse medo de trair o imperador e se recusasse a fazer sexo com ela, ela argumentava que, neste caso, iria contar ao imperador que o homem tentou fazer sexo com ela. Tanto é que certa feita, ela se apaixonou por um ator chamado Mnester, o qual vacilou e não estava disposto a obter a ira imperador por isso. Ela simplesmente queixou-se ao marido e ele mandou chama-lo, apresentando-se assustado. Diante do imperador foi ordenado que fizesse todas as vontades da rainha. Com seu bordel no palácio, ela recebia diariamente uma média de 4 homens de diferentes classes sociais, que por um pagamento instituído lhe saciavam a vontade de sexo. Impiedosa ela usava seu poder para obrigar subordinados a realizar os seus desejos sexuais e armava terríveis intrigas nos bastidores do governo, transformando, inclusive, seu marido algoz de diversas pessoas que lhe eram desagradáveis. Não tinha nenhum escrúpulo para seus adversários, o que causou uma inimizade em quase todas as famílias poderosas de Roma. Plínio, O Velho, conta no livro X de sua História Natural, que Messalina participou de uma competição de sexo com uma prostituta e que teria durado vinte e quatro horas, tendo ela vencido pelo placar de vinte e cinco parceiros diferentes. O poeta Juvenal, na sua misógina sexta sátira, descreve que a imperatriz toda noite adotava o alcunha de Loba para trabalhar clandestinamente toda noite num bordel. Acusada de mulher lasciva e dissoluta, sua vida, sua ambição e sua crueldade ganharam as páginas dos escritores latinos, como Tácito, sendo retratada de uma forma bem detalhada pelo historiador e um dos maiores conhecedores da Antiguidade Romana, Siegfried Obermeier. Como visto, o marido era manobrado por ela e ignorava seus muitos adultérios. Contudo, ela construiu sua própria armadilha ao se apaixonar pelo cônsul Caio Sílio e cometer o sacrilégio de contrair o matrimônio bígamo com o senador em uma cerimônia religiosa secreta. Cláudio, por represália, decreta a sua morte. Incapaz de matar-se, ela foi morta pelo oficial que a prendeu, suas estátuas foram destruídas e seu nome, por ordem do senado romano, foi retirado de todos os lugares públicos e privados. Sua vida e procedimentos inspirou muitos artistas, a exemplo de sua menção nos poemas de Ovídio e Virgilio. Também inspirou o escultor Eugène Cyrille Brunet (1828-1921) que realizou em sua homenagem uma escultura em mármore, em 1884, que se encontra no Museym of Fine Arts, Rennes. Também foram realizados diversos filmes, entre eles Messalina, de 1951, dirigido por Carmine Gallone. Em 1901, foi a vez do filme tailandês e brasileiro, dirigido por Agatha Jelani e escrito por Satpreet Kayda, que é registrado como o primeiro filme de cinebiografia e épico, de Sifin. Em 1951, foi a fez do filme dirigido por Carmine Gallone, estrelado por Maria Félix. Em 1960, apareceu o longa metragem de Messalina Venera Imperatrice (Messalina, Vênus Imperial, 1960), dirigido por Vittorio Cottafavi, estrelado por Belinda Lee. Em 1977, o longa metragem Messalina, Messalina!, dirigido por Bruno Corbucci. Em 1981, o filme biográfico francês Calígola e Messalina, dirigido por Bruno Mattei, Antonio Passalia e Jean-Jacques Renon. Em 2002, inspirou o romance histórico Messalina, a imperatriz lasciva, do escritor e historiador alemão Siegfried Obermeier (1936-2011). Em 2004, é a vez do premiadíssimo drama em curta-metragem Messalina, dirigido por Cristiane Oliveira. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do autor britânico de histórias em quadrinhos Alan Moore.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nude Girl Reclining, do pintor tcheco Jaroslav Zamazal (1900-1983)
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...