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terça-feira, março 24, 2020

REICH, ANAHÍ BERNERI, EDMONIA LEWIS, TABITHA KING & LADJANE BANDEIRA


ENTRE TOPADAS E DOIDICES A GENTE VAI MANDANDO VER – UMA: COMO É QUE SÃO AS COISAS NA VIDA - Estava pensando na vida, ao me dar conta que rolava a Bachianinha nº 5, do Villa-Lobos. Parei de divagar e me liguei na música. Ah, eu matava a saudade da inesquecível soprano Bidú Sayão, que, por sinal, teve uma história muito interessante. Certa vez li um relato dela dizendo: Eu não tinha voz alguma quando comecei. Os professores me disseram que eu era muito nova ainda, que minha família ia gastar dinheiro à toa. Mas eu insisti, chorei muito, garanti que não me importava com bailes, namorados, festas. E comecei a cantar. Pois é. E tornou-se a inesquecível e célebre cantora lírica, aplausos. Uma lição inestimável: talento só não basta, precisa de renúncias e muita coragem. Conheço muita gente talentosa que jamais acreditou em si própria, ou desistiu, ou ficou pelo caminho. DUAS: CORRE MUITO SANGUE EM MINHAS VEIAS – Nunca consegui a imparcialidade exigida pela academia e ciências, nunca soube alguém imparcial a tal ponto de frieza. Disciplina, tirocínio e senso de justiça, isso sim, a busca por certa isenção, sem interferir no resultado. Ah, isso sim. Logo eu que, lá pelos meus 10 ou 11 anos de idade, ganhei do meu pai uma coleção do Graciliano Ramos e, ao ler cada volume, copiei de um deles a seguinte frase: Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões. Afinal, nem só de carne e osso, muito sangue corre em minhas veias. É isso aí. TRÊS: MAIS OUTRA PARA FECHAR A CONTA – Mas esse mundão é muito cheio de nove horas. Quando passo a limpo as leituras da história da humanidade, muita doidice é registrada, afora um tanto de desatinos chega dá pra pensar o tamanho da estupidez. Nessa eu vou de Akira Kurosawa: Neste mundo louco, só os loucos são sãos. E num é que é mesmo, ora! Vamos aprumar a conversa gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Não ousou olhar para cima para ver se tinha rosto. Não tinha aprendido nas aulas da igreja que a visão do rosto de Deus era reservada para o Juízo Final? E nem mesmo a forte possibilidade de uma piada cuja vítima fosse a raça humana, em que Deus era tal qual a pintura de uma mulher, apagava a certeza de que, no Juízo Final, todos nós estaríamos mortos. [...]. Trecho extraído da obra Pequenas realidades (Darkside, 2019), da escritora estadunidense Tabitha King, carregada de sutilezas, bizarrices e ferocidade, com uma trama que envolve relações familiares problemáticas e o mundo estranho e obsessivo das miniaturas, uma história grotesca e disfuncional.

COMO É QUE É, HEM? – O homem moderno é estranho à sua própria natureza. A carga organótica dos tecidos celulares do sangue determina o grau de suscetibilidade para infecção ou disposição para doenças. Na verdade fiz uma única descoberta: a função das convulsões orgásticas do plasma... E foi muito mais difícil que a observação, comparativamente simples, dos bions ou o fato igualmente e simples e evidente de que a biopatia do câncer, baseia-se no encolhimento e na decomposição geral do organismo vivo. O homem não encouraçado mantem contato com a natureza dentro e fora de si. A verdade é perigosa quando diz respeito a você. Se lhe for dada a escolha entre uma biblioteca e uma luta, sem dúvida você irá à luta. Só se fantasia o que não se pode ter na realidade. Pensamento do médico, psicanalista e cientista natural Wilhelm Reich (1897-1957). Veja mais aqui.

ANAHÍ BERNERI
Sim, gosto de trabalhar no corpo, feminino e masculino, e se você vê uma presença maior do feminino, é porque sou mulher e me sinto mais à vontade trabalhando nas histórias femininas. Também porque acho que estão faltando! Faltam personagens femininas no cinema e em qualquer lugar.
ANAHÍ BERNERI – A arte da cineasta e roteirista argentina Anahí Berneri, que teve suas obras exibidas em vários festivais de cinema do planeta. Entre suas obras encontram-se A year without love (2005), Encarnación (2007), It’s yout fault (2010), Aire libre (2014) e Alanis (2017). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Até os doze anos de idade, eu levava essa vida errante, pescando e nadando... e fazendo mocassins. Fui então enviada para a escola por três anos, mas fui declarada selvagem - eles não podiam fazer nada comigo.
EDMONIA LEWIS – A arte da escultura estadunidense Edmonia Lewis (Fogo Selvagem - 1844-1907), a primeira afrodescendente a conquistar fama internacional e reconhecimento como escultora e artista. Quando estudava na universidade, ela foi agredida por desconhecidos, espancada e abandonada na estrada, sendo posteriormente acusada de envenenar duas colegas, além de ser acusada de roubar material da faculdade, sendo inocentada pelo tribunal, sendo, em seguida, proibida de se matricular, perseguida pelo isolamento e preconceito. Daí mudou-se para Roma, defendendo a causa da abolição da escravatura em um círculo de artistas expatriados. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
LADJANE BANDEIRA
A arte da escritora e artista plástica Ladjane Bandeira (1927-1999).
Estrela em trânsito, da poeta Bartyra Soares aqui.
A poesia de Generino Batista aqui.
O violeiro, cordel de Luiz Viola aqui.
As práticas pedagógicas de Arantes Gomes do Nascimento aqui.
A música de Fulô Rasteira aqui.
A arte de Rivail Azevedo aqui.
O município de Belém de Maria aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

quarta-feira, março 20, 2019

GRACILIANO, BATESON, LENDA AFRICANA, CANTOCHÃO, CIRANDA & LIA DE ITAMARACÁ


CANTOCHÃO – Um diácono palestrava sobre o cantochão para uma plateia atenta. Falava das origens e transformações dos cantos moçárabe, ambrosiano ou gregoriano, desenvolvidos pelos monges reginaldinos, lá nos primórdios medievais. Empolgado em sua exposição, alguém da plateia fez sinal e ficou com a mão levantada, até interrompê-lo. Pois, não? O solicitante mencionou ao orador haver nas imediações da rodovia, uma placa com a inscrição cantochão no acostamento. O conferencista admirou-se da informação, alegando a possibilidade de um sinal de algum mosteiro existente nas proximidades o que, para ele, seria salutar se pudessem depois levá-lo até lá. O discurso prossegue e, ao término da conferência, um volumoso grupo se ofereceu de levá-lo ao local indicado, vez que todos mais ou menos sabiam onde era tal localização, muito embora desconhecessem a presença de monges pela redondeza. Isso não era problema, pois, providenciaram uma condução e na noite seguinte se dirigiram pela rodovia até a placa indicadora. Lá chegando, entraram na rodagem e deram num casarão aparentemente suspeito, com uma luz vermelha e, ao que parece, segundo comentário de um dos ocupantes, mariposas famélicas seminuas na entrada. Aqui não, com certeza. Realmente, não pode ser. Vamos adiante. Limítrofe ao suspicaz ambiente, havia uma outra edificação que dava ideia de uma mansão abandonada e em ruínas, que poderia ser sinal da austeridade dos monges que ali podiam viver, imaginavam. É, pode ser. Estacionaram o veículo e um deles desceu até a porteira e logo avistaram uma anciã inquieta de um lado a outro da janela, como se brincando de lá e cá, observando-os. É aqui a casa de Jesus? Hem? Um deles falou e ela não ouvia, como também não ouviam o que ela dizia. Quando mais ou menos entenderam: Aquele safado é ladrão, me roubou aqui e se vierem pra me matar, eu atiro em vocês. Estranharam o linguajar dela e dois outros desceram, o que fez com que a senhora da janela ficasse mais inquieta. Minha senhora, estamos falando de Jesus? O José? Jesus! Ah, o salafrário tá aí no cantochão com as safadas da laia dele. E apontava para o local que haviam passado. Jesus? Sim, esse safado mesmo, vão lá, ele tá lá e vejam! Entreolharam-se, essa velha deve ser louca. E ela repetia: Está aí mesmo, o safado tá aí, vão lá! E foram poque notaram que a macróbia já assustada empunhava uma espingarda. Entraram todos no veículo às pressas, fizeram a volta rapidamente e foram até a área duvidosa mencionada, onde, segundo a doidona, Jesus estava. Aproximaram-se desconfiados e logo avistaram lá dentro a placa “Cantochão”, manuscrita no interior do salão numa rústica placa de madeira. Será que estão com algum ritual que desconhecemos lá dentro? Estacionaram e logo três das aparentes vulgívagas seminuas se aproximaram, recepcionando a comitiva. Cantochão? Sim, aqui mesmo, podem entrar, a função acontece lá dentro e Monge aparece já já. Ah, tudo bem! É aqui mesmo, vamos conhecer o monge. Uma das madames dirigiu-se a uma delas: E vocês quem são? Somos as Vestais de Monge. Ah, tá. Virou-se para outra madame e sussurrou: Deve ser de algum ritual antigo mesmo, são vestais, por isso essa vestimenta estranha. A outra sorriu e nem entendeu direito, nem perceberam os demais quando uma delas gritou lá pra dentro: Organiza o puteiro aí que chegou uns casacudos com umas granfinas no pedaço, mundiça! Estavam os visitantes completamente exultantes, quando uma das fiéis perguntou para outra delas: E a senhora aí do lado? Ah, ela é a velha doida, é tia de Monge, ela tem mania de que é roubada, piração total. Nem ligue pra ela. Ah, tá. Então todos desembarcaram, ajeitaram suas vestes, esticaram as canelas e subiram calmamente e com certa algazarra a escadaria que dava para um amplo salão com uma luz vermelha ao centro. Quase nem dava direito para ver o que havia ali de tão escuro. As anfitriãs encaminharam todos para os assentos ao lado, perguntando se queriam beber alguma coisa. Vinho! É pra já. Enquanto eram servidos, relaxavam e brindavam. Nem deu tempo do vinho queimar as orelhas dos presentes, o levita impaciente cochichou no ouvido de um que estava ao seu lado: Parecem mais marafonas essas vestais, não acha? Hem? Mais parecem pécoras! Hem? Rascoas, não acha? Hem? Putas, ouviu? Gritou e todos ouviram. Era a senha, eles não sabiam. Imediatamente um holofote se acendeu e apareceu uma ruma de dançarinas sensuais ao som estridente de uma radiola de ficha com o maior jogo de luz, e o fuá comeu no centro. As odaliscas faziam mesuras para todos, sentavam nos colos dos homens, ou puxavam as mulheres para desatacá-las blusas e vestidos dos seios à mostra, fazendo-as remexer os quadris de forma sensualmente deliberada. Os homens pareciam uns donzelões de primeira vez e com a língua de fora. As mulheres nunca se viram tão exaltadas, a ponto de dançarem com as saias na cabeça, um espetáculo. O que o vinho não faz a um cristão, isso depois de umas duas ou três garrafas esvaziadas, avalie. A coisa arrepiou. Um dos convivas virou-se pro eclesiástico: Isso é que é mosteiro, homem, um paraíso! O céu existe! Foi aí que adentrou ao recinto o Monge, isso embaixo do maior zoadeiro: Quem é o chefe da comitiva? Hem? Que é o chefe? Eu! Como é que é: vai comer as que trouxe ou vai torar as minhas? Hem? Que horas começa a suruba, porra? Bem moderninho esse monge, diz cada coisa! Monge virou-se e chamou um dos capangas: Fica aí de olho nesse povinho embecado, organiza essa putaria e se saírem da linha, já viu né? Sim, senhor. A orgia soltou-se de virar a madrugada, o dia já amanhecia. Aos olhos cristãos deles, na vera, nem deram fé que o céu poderia ser um inferninho. Hem? Quem diria. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Nada – aquilo que não é – pode ser uma causa... Lembre que zero é diferente de um e porque zero é diferente de um, zero pode ser uma c a usa no mundo psicológico, o mundo da comunicação. A carta que você não escreve pode receber uma resposta zangada e o imposto de renda que você não declara pode iniciar uma ação energética dos técnicos da Receita Federal, porque eles também tomam seu café da manhã, comem seu almoço, chá e jantam e podem reagir com a energia que deriva de seu metabolismo. [...] É compreensível que, em uma civilização que separa mente e corpo, nós deveríamos tentar esquecer a morte ou fazer mitologias a respeito da sobrevivência da mente transcendental. Mas se a mente é intrínseca não apenas naqueles caminhos da informação que estão localizados dentro do corpo, mas também em caminhos externos, então morte toma um aspecto diferente. O nexo do indivíduo de caminhos que eu chamo “mim” não é mais tão precioso, porque este nexo é somente parte de uma mente maior. As idéias que pareciam ser podem também se tornar intrínsecas em você. Elas podem sobreviver – se for verdade. [...].
Trechos extraídos da obra Passos para uma ecologia da mente (Steps to na ecology of mind. Ballantine,1972), do biólogo, pensador sistêmico, epistemólogo da comunicação e antropólogo inglês Gregory Bateson (1904 – 1980). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Estava na beira da praia
Ouvindo as pancadas das águas do mar
Esta ciranda quem me deu foi Lia
Que mora na ilha de Itamaracá
A ciranda é uma dança típica das praias do litoral pernambucano e que surgiu simultaneamente no interior da Zona da Mata, pois neste estado é uma dança de roda comunitária que conta com a participação das mais diversas faixas etárias, os quais são denominados de cirandeiros. Entre os participantes também contam o mestre, o contra-mestre e os músicos, utilizando instrumentos como bombo ou zabumba, mineiro ou ganzá, maracá, caracaxá ou chocalho, a caixa ou tarol, cuíca, pandeiro, sanfona e algum instrumento de sopro. A origem do nome é atribuído ao vocábulo espanhol zaranda, que significa instrumento de peneirar farinha, uma evolução da palavra árabe çarand. O mestre “tira as cantigas”, improvisa versos, toca o ganzá e preside a brincadeira, utilizando um apito pendurado no pescoço para organizar as funções. Os passos mais difundidos são a onda, o sacudidinho e o machucadinho, afora criação de passos e movimentos de corpo obedecendo a marcação. Uma das cirandeiras mais famosas é a dançarina, cantora e compositora Lia de Itamaracá (Maria Madalena Correia do Nascimento) que, em seu aniversário, 12 de janeiro, por força da Lei Municipal 1.213/2012, passou a ser comemorado o Dia Municipal da Ciranda e a ilha a Capital da Ciranda. Extraído do estudo Ciranda (Fundaj, 2004), de Lúcia Gaspar. 
Veja mais aquiaqui, aqui & aqui.

A CIDADE ONDE NINGUÉM PODE DORMIR
Uma mulher tinha duas filhas. Uma delas desposou um homem que vivia numa cidade onde não era permitido dormir; a outra casou com um de uma cidade onde ninguém podia cuspir. Um dia a mulher preparou um prato de doce para levar à filha que vivia na cidade onde não era permitido dormir. [...] a filha saiu, a mãe, durante algum tempo, conseguiu reavivar o fogo, mas por fim, vencida pela sonolência, deitou-se e adormeceu profundamente. Justamente nesse instante, uma vizinha veio pedir um pouco de fogo e, quando viu a mulher adormecida, exclamou: - Ai de mim! A sogra de fulano-de-tal está morta. Então chamaram os tocadores de tambor, e em breve toda a cidade se juntou diante da casa e abriram uma cova. [...] E, quando chegou a casa, sacudiu a mãe e disse: - Acorda, acorda! – Então a mãe acordou de sobressalto e todos ficaram aterrados, mas logo viram que não tinham de que ter medo, e toda cidade começou a aprender como se dormia. [...].
Trecho extraído das Lendas africanas: o reino do homem (Cultrix, 1967), organizadas por Fernado Correia da Silva. Veja mais aqui e aqui.
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A obra do escritor e jornalista Graciliano Ramos (1892-1953) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, janeiro 21, 2019

GRACILIANO RAMOS, TEREZA COSTA REGO, FLAIRA FERRO, PEDRA, OURO & CORAÇÃO


PEDRA, OURO & CORAÇÃO - A pedra bruta, pedaço de rocha oriundo do choque térmico do magma com a superfície. Lá estava ela de anos ou talvez de sempre exposta à erosão, feiosa e suja, um ita. Reles como qualquer outra, simples, disforme, deformada pela duração, fragmento rijo ao desgaste, ao desbotamento, dura e sólida. Quem diria que ela fosse objeto de estudo dos petrólogos, um pedregulho, ou coisa que valha, seixo, calhau, cascalho, burgau, rebo, pedra-pome, basalto, cristal, seja no deserto, no pico da montanha, no fundo do poço ou como cálculo renal. Uma mera pedra. Ao pegá-la, parece coisa qualquer, desimportante, diferentemente se nas mãos de um artesão – esse sou eu ou você, qualquer um. Pegá-la, esfregá-la, limpá-la, o desbaste, a remoção da sujeira, aparentemente uma coisa feia que, assim mesmo, a gente segura e espreme – como artesão – lava, bem lavada de ficar lisa, aquinhoada, exposta ao cuidado como se fosse uma preciosa ou do Sol ou da Lua ou Estrela num castelo abandonado. Afinal, pode ser avultada, quem sabe, lápis-lazúli ou pérola ou rubi sob o colchão na cama dos mortos; safira ou selenita ou turquesa amarela dentro da cabine de um barco afundado no mar; zebra stone ou unaquita ou rodocrosita, ou mesmo água marinha sob os escombros duma casa assombrada; madrepérola ou malaquita ou crisocola sob as ferragens de automóvel num ferro velho; ou berilo ou dolomita ou jade sob o lixão das periferias famintas; ou kunzita ou amazonita ou cianita sob os restos mortais de insepultos amaldiçoados; ou esmeralda ou granada ou magnetita perdidas nos esgotos urbanos; ou rodonita, peridoto ou bronzonita nas imundícies das margens dos rios; ou pirita, âmbar ou quiastolita no estômago de uma égua morta à beira de um riacho longe; ou hematita, serpentinita ou ametista num gruta perdida entre muitas por aí; nuumita, citrino ou leopardita no chão de um ermo distante; ametrino, cornalina ou fluorita na beira das rodagens desse mundo de meu Deus; sodalita, apatita ou coral nas locas das cobras vigilantes; labradorita, azurita ou madeira fossilizada aos pés de um morro ignoto; morganita, turmalina negra ou melancia ou verde no meio do nada de um vale desconhecido, ou mesmo ágata azul ou fogo ou dentrita ou lilás ou rosa ou verde escondida nas matas ínvias quase inexistentes; calcita azul ou laranja ou verde na curva fechada do matagal; cristal fumê ou rutilado, ou mesmo howlita azul ou branca ou rosa na pedraria dos deltas fluviais; jaspe amuleto ou estrelado ou indiano ou oceânico ou pardo ou rajado ou vermelho ou zebra rosa ou precioso nos rebentões dos ventos perdidos; obsidiana negra ou maragony, olho de falcão ou de gato ou de tigre nas correntezas que dão pro mar; ônix verde ou azul ou vermelho nos vales inóspitos das terras de ninguém; opala andina ou de fogo, ou quartzo azul ou bordô ou ros ou sodalític ou verde nas margens dos brejos de terras sem nome; topázio azul ou imperial ou o tesouro e a descoberta, o desvelo do ouro da colisão das estrelas de nêutrons e que à primeira vista reluz denso, dúctil, maleável pepita exposta à brisa mormaçada, ao tempo e temporais, intempéries, e tida e guardada num canto qualquer, esquecida, abandonada, o pó, a poeira, sujeiras, quase irreconhecível na tumba da rainha Zer. Como qualquer outra será preciso sempre limpar, tratar, manusear, lapidar, lavrar, o carinho da quase cobiça. Assim também as coisas primeiras, como a semente e a raiz, os filhotes, o esmero e a dedicação, o fruto que saboreia quando se remove a casca, o que se esconde embaixo da crosta, da pele, da terra. Inestimável ou não, pode se tornar qualquer uma na mais linda do universo. É só querer. Um grão pode ser uma fortuna, ou equivalente. O valor é seu, faça-a a mais bonita e cara, embora tudo isso seja passageiro, relativo, que seja bela e impagável pra você, pois o bonito e o valioso que é pra você, pode não ser para outro e outros. O que importa é a evidenciação, como se coração pulsando. Há quem seja ou saiba, qualquer coisa vibra, pulsa. Quase ninguém sabe: a pedra bruta e feia que pode ser ouro, coração. Ou melhor, assim também um coração, qualquer um. Assim, tudo na vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Marina entrou no banheiro e esteve uns minutos em silêncio despindo-se com lentidão. Os movimentos dela eram tão vagarosos que eu os percebia a custo. Era preciso adivinhá-los. Assou-se e lavou as mãos na torneira. – Virgem Nossa Senhora! E a punha-se a cuspir. Aquela queixa mostrava um desengano enorme. Pareceu-me que o mundo tinha despovoado e Marina estava completamente só. [...] Aí o pranto de Marina rebentou novamente, enrolado, com palavras ásperas que não entendi. [...] - Coitadinha! Não via, não sabia. Tão inocente! Agora já sabe. Pois é. Escangalhada, com um filho na barriga. Não faça essa carinha de santa não. É o que lhe digo. Estou mentindo? Arrombada, com um moleque no bucho. Não quer ouvir não? Tape os ouvidos. - Cale a boca, Marina, gaguejou d. Adélia, tremendo. Me respeite, Marina. Esta ordem bamba pareceu-me ridícula e despropositada, mas produziu um efeito que me espantou: Marina deitou água na fervura. Virei d. Adélia por todos os lados e não achei que ela fosse digna de respeito. Nem de respeito nem de ódio. [...] Marina continuava a chorar. D. Adélia queixava-se baixinho. É estranho que elas não houvessem aludido uma única vez a Julião Tavares. Nenhuma referência àquele patife. Era o que me espantava quando saí do banheiro, já muito tarde. Nesse dia faltei ao ponto. [...].
Trecho do romance Angústia (Martins, 1969), do escritor e jornalista Graciliano Ramos (1892-1953). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
[...] Eu acho que sou mesmo temerária. E foi assim, fui deserdada, minha família inteira me rejeitou. Eu saí aqui sem lenço e sem documento mesmo, como a canção da época de 68. Fui para São Paulo, fiquei clandestina. A minha vida eu posso dividir em três pedaços. Eu acho que eu tive três nomes: fui Terezinha, fui Joana, e fui Tereza. Fui Terezinha, a menina rica, bonita, que usava vestidos de costureiras, importados, depois me divorciei e aí passei a ser Joanna, quando eu era clandestina, é uma coisa muito... Eu ainda fico meio engasgada, quando eu falo nisso. É uma coisa muito complicada, você morar numa casa enorme com chofer, eu tinha 11 empregados no dia em que eu saí de casa. Aí você vai para um apartamento desse tamanho, você começa a se despojar de todos os seus valores, tá? Eu fiz Universidade em São Paulo, e vivi clandestina, eu era Joana. [...]
Relato da artista Tereza Costa Rego, recolhido de Entre Terezinha, Joana e Tereza: as múltiplas faces de uma artista plástica, da professora Elizabet Soares de Souza. Imagens recolhidas do catálogo da exposição Diário das frutas (Correios/MinC/Relicário, 2013). 
Veja mais aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

A MÚSICA DE FLAIRA FERRO
Hoje na Rádio Tataritaritatá a música da pesquisadora, dançarina, atriz, cantora e professora de danças populares do Instituto Brincante (SP), Flaira Ferro. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.
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Crônica de amor por ela aqui
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quinta-feira, janeiro 21, 2016

SULINA, GRACILIANO, HORÁCIO, UMA, WANDA, RONALDO BASTOS, THAÍS MOTTA & MUITO MAIS!!!!



TODO DIA É DIA DA MULHER: SULINA, A OPULÊNCIA DA BELDADE - Nasceu Sulina da família dos Cabongos, menina sapeca dos olhos agateados e de saia na cabeça. Foi crescendo, tomando corpo e espichando o pixaim, de estreitar convivência no espelho. Na adolescência foi-se distinguindo por sua esguia e assimétrica distribuição corporal, a ponto de crescer quase dois metros, afora os saltos altos que lhe realçavam ainda mais as pernas torneadas. Daí pra diante, aquela formosura de nariz adunco e empinado: sabia onde tinha as ventas, não bastando a sua compleição valorizando as formas sedutoras: as ancas proeminentes, cinturinha de pilão, seios salientes e tentadores, coxas volumosas, rebolado estonteante. Não houve marmanjo que não virasse a cabeça perdendo o juízo por sua espetacular presença em qualquer recinto: brilhava por luz própria. Muitos investiram mundos e fundos, findaram na bancarrota. E ela nem, nem. Até que apareceu Tudílio, um pé-rapado novo rico, estibado e destamaínho de mal chegar um pouquinho acima do umbigo, servindo pra ela mesmo de muleta: granjeou-lhe a simpatia, montando casa e negócio. De cobiçada bandoleira sonsa, tornou-se empresária de tino e de gabarito no ramo de peças femininas. Até as invejosas vítimas de maridos do queixo caído, se fizeram freguesas para que pudessem ser poupadas do seu charme pro bico deles. Prosperou de virar a Tieta da província. Ele, casado que era, sustentava a família e os caprichos grã-finos da amante amada. Não deu outra: baqueou, quebrou na junta. E ela? Nem aí, inexorável aos prantos dele. Menos de mês depois, um disparo desfez a maquiagem de ficar irreconhecível a sua fisionomia. Virou manchete de jornal, chororô dos Cabongos enlutados. E ele passional vingado e de peito lavado, num aguentou os prantos até dois dias depois da missa de sétimo dia: foi fulminado por um ataque cardíaco. (Luiz Alberto Machado).

Veja mais:
SAMIRA, A RUIVINHA SARDENTA 

PICADINHO
Imagem: Female nude, do pintor francês André Derain (1880-1954). Veja mais aqui.


Curtindo o álbum Cais (Dubas, 1989), reunindo parcerias do compositor Ronaldo Bastos, nas vozes de Tom Jobim, Chico Buarque, Gal Costa, Simone, entre outros nomes da música brasileira.

EPÍGRAFE – Est modus in rebus: sunt certi denique finis, quae ultra citraque nequit consistere rectum, recolhido de um verso das Sátiras (Ediouro, 1964), do filósofo e poeta lírico e satírico romano Quinto Horácio Flaco (65-8aC), no qual o autor não escondeu o seu propósito de dar à literatura de Roma uma posição igual aos clássicos atenienses e, concentrando seus esforços no lirismo, o poeta trouxe para o acervo literário de Roma toda a variedade de metros líricos gregos. A tradução do verso: Há uma medida em todas as coisas, e esses limites não os podemos ultrapassar, nem ficar aquém deles. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MULTIPLICIDADE E HIBRIDIZAÇÃO MIDIÁTICA NA CULTURA - No livro A cultura da mídia (Edusc, 2001) do educador Douglas Kellner, encontro que: Na economia, as sedutoras formas culturais modelam a demanda dos consumidores, produzem necessidades e moldam um eu-mercadoria com valores consumistas. Na esfera politica, as imagens da mídia têm produzido uma nova espécie de política de frases de impacto descontextualizadas, o que lhe confere posição central na vida política. Em nossas interações sociais, as imagens produzidas para a massa orientam nossa apresentação do eu na vida diária, nossa maneira de nos relacionar com os outros e a criação de nossos valores e objetivos sociais. [...]. Veja mais aqui.

POBRE POVO SOFREDOR – No livro de crônicas Viventes da Alagoas (Martins, 1962), do escritor e jornalista Graciliano Ramos (1892-1953), encontro a pequeníssima crônica Pobre povo sofredor: É uma interessante classe de contribuintes, módica em número, mas bastante forte. Pertencem a ela negociantes, proprietários, industriais, agiotas que esfolam o próximo com juros de judeu. Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolar, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão. Como ninguém ignora que se não obtém de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ALITERAÇÃO – No livro Rede de arame (1986) da poeta, jornalista e professora Wanda Cristina da Cunha, destaco o poema Aliteração: Eu quero dançar contigo / dentro do poesia, / como dança o povo dentro do Estado. / Eu quero rebolar contigo em cada rima, / como rebola o povo dentro do salário. / Eu escolho uma aliteração / para a nossa vida: / filhos, felicidade, família, feijão, farinha... / como o povo, em fé, faz folia, forra a fome com futebol e fantasia. Veja mais aqui.

PROMISCUIDADE – Tive oportunidade de assistir em 1997, no Porão do Centro Cultural, em São Paulo, à montagem da pela Promiscuidade, de Pedro Vicente, com direção de Marcia Abujamra. A peça teatral conta a história de um rapaz e duas moças que vivem um triângulo amoroso. Contudo, a promiscuidade sugerida pelo título não se refere à vida sexual deles, mas ao caos gerado pelo cruzamento incessante de informações no mundo atual. Insatisfeito, o trio planeja transformar o mundo por meio de terrorismo, como a explosão de shopping centers durante a madrugada. No elenco, destaque para Lavinia Pannunzio e Regina França ao lado de Fernando Alves Pinto. Veja mais aqui.

GATTACA – O filme de ficção científica Gattaca (Experiência genética, 1997), dirigido pelo neozelandês radicado na Inglaterra, Andrew Niccol, trata das preocupações sobre as tecnologias reprodutivas que facilitam a eugenia e as possíveis consequências de tais desenvolvimentos tecnológicos para a sociedade, observando que chegará no futuro a situação de que os seres humanos serão escolhidos geneticamente em laboratórios e as pessoas concebidas biologicamente são consideradas inválidas. O destaque do filme vai para a belíssima e premiada atriz estadunidense Uma Thurman. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagens da fotógrafa estadunidense Cindy Sherman.

DEDICATÓRIA
A edição é dedicada à cantora e compositora Thaís Motta.

Veja aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...