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domingo, outubro 10, 2021

TRAPIELLO, KOI-GUERA, EDISCA & DORA ANDRADE, GILDA OSWALDO CRUZ, JOSÉ LUIZ PASSOS

 

 

TRÍPTICO DQP – A vida e o que será morto... - Ao som do álbum Meus caros pianistas - O piano de Claudio Santoro (Biscoito Fino, 2001), da pianista Gilda Oswaldo Cruz. - A vida e o trâmite entre a tarde quase noite, a solidão e eu sequer me dei conta de que estava à procura de algo que não sei. Sei, no de repente, ouvi Aristófanes: O amor é uma forma de procurar por nós mesmos. E isso para quem fora antes de tudo a soberba da completude de um rotundo autossuficiente, de quádruplas pernas, braços e orelhas, dupla faces e genitálias, desassossegado agora por não saber decifrar o mito da androginia e ter sido dividido ao meio pelos deuses e atormentado pelo pavor do envenenamento – ora, onde não a peçonha da destrutividade, se me via atravessado pelos horrores e a inanição, metido nos teoremas de Kurt Gödel: condenado à falta e à busca por reencontrar o que perdi, se é que não me desconstruí de vez na vida, se não me falta a capacidade constante de me refazer a cada instante. O que sei de mesmo, só nenhuma certeza e com tudo por terra. Ainda assim, lá vou eu incompleto e errante, a testemunhar Alcestis no Banquete de Fedro: morrer por amor para salvar o outro. Na verdade, era como se autodevorasse na milenar cerimônia totêmica, a perpetuar a eucaristia, o canibalismo, sim, a angústia do lobo e a perturbação da gula, outros tantos paradoxos. Coisa estranha isso de se pensar e entender. Ali mesmo presenciei o espetáculo da Edisca (1997). Eita! Logo a bailarina Dora Andrade apontou pro Koi-Guera, o genocídio dos Jangurussu de Caucaia. Sabia tratar-se do morticínio de todas as nações indígenas do meu país, ao mesmo tempo em que sentia, noutra instância desconhecida, a ressurreição dos meus caetés que vinham soturnos a mim para que entendesse o real abraço e o que a falta dada pelo outro no equívoco do acolhimento dos dagora. Ali como hoje senti meus pedaços se esfacelarem, tornando-se objetos estéticos, e minhas entranhas eram só a decomposição sinistra para satisfazer a quem não sei, mas que eram mesmo ready-mades de Duchamp pulsantes ainda apesar do meu dilaceramento. Eles, os meus, me viam e me mostrava isso e mais eviscerava ao ser descartado pela indiferença, e mais desmembrado a me derramar ao abandono do desdém na poeira do esquecimento. Eles comigo, não estava enfim só. Ao que me restava, logo a grata surpresa de não me esvair de vez, porque surgiu do nada o escritor José Luiz Passos a me saudar no meio da tragédia: ... para mim, a principal diferença é a mediação da distância.... A distância não é apenas um dado factual da minha situação... é parte de uma temática da minha ficção, que é sobre espaços ou tempos distantes que não são meus. Assim eu sabia o que não era eu nem meu, ele também, e sequer sabia lá o que devia dizer, ao que ele me contou da sua Catende que muitas vezes fui danado para lá folgar do lazer e ócio, das moças lindas que enamorei e tive quantas noites de dias ensolarados, e me contou das Ruínas de linhas puras, d’O sonâmbulo amador e do Nosso grão mais fino, e mais do Romance com pessoas, do Marechal de costas, da Antologia fantástica da República Brasileira e d’A órbita de King Kong, e a conversa era boa de se perder os ponteiros do relógio e qualquer ponto de chegada ou saída, até sermos surpreendidos pelo escritor espanhol Andrés Trapiello que nos instou dalgo que sequer imaginávamos: Seria um crime desaparecer porque ali, todos os domingos, acontece algo muito importante: a ressurreição de uma parte da cidade representada nos seus vestígios, que são ressuscitados através de um rito secular: a barganha, que se aperfeiçoou ao longo do séculos... O que para mim era o meu lugar e a vizinhança da Mata Sul pernambucana, para ele era a Madrid dele, cada qual a sua cidade e afetos. E eu ali jamais poderia sacar se a humanidade havia perdido a capacidade de amar, enquanto eu insistia ainda em não morrer entre o lixo e o letal, portas arrombadas e sucatas aos monturos. Eles se foram e fiquei só.

 


Em outras palavras... - Imagem: a arte da artista e escritora francesa Valentine Hugo (1887–1968). – Da minha parte sabia que aquilo tudo era só por um momento, tudo passaria, todos passarão, restaria sozinho e com os pensamentos vagando caleidoscópicas lembranças. Desacompanhado é o meu exercício diário, mesmo que muita gente transite ou mesmo orbite minha loucura, há de escapar inevitavelmente. De resto, não mais Lolita, agora outra como se fosse a Mademoiselle da Fala, memória (Alfaguara, 2014), de Nabokov: Ela gastara toda a sua vida em se sentir desgraçada; essa desgraça era seu elemento natural; suas flutuações, profundidades cambiantes, só isso dava a ela impressão de movimento e vida. O que me incomoda é que a uma sensação de desgraça, e mais nada, seja insuficiente para tornar uma alma imortal. Minha enorme e amorosa Mademoiselle está muito bem na terra, mas é impossível na eternidade... E me confidenciou enquanto conferia com o olhar toda a situação ao redor: Inicialmente, eu não tinha consciência de que o tempo, tão ilimitado à primeira vista, era uma prisão. Ao examinar minha infância (que é a coisa mais próxima do prazer de examinar a própria eternidade) vi o despertar da consciência como uma série de flashes espaçados, com intervalos entre eles diminuindo aos poucos até se formarem claros blocos de percepção, fornecendo à memoria um apoio escorregadio... Ora, tudo que me dissera parecia mais ler em minha mente, inteiramente confuso com os últimos acontecimentos, seguir adiante, vez que era tudo isso que me ocorria ali e em todo momento. Ah, não, apenas a memória, assim seguia.

 


Viver e a solidão, solitude... - Imagem: a arte da artista argentina Liliana Maresca (1951- 1994) – Um outro enredo a cada instante e as narrativas emergem, era eu agora solitário escriba Theodore no torpor das minhas emotivas cartas pessoais. Sempre gostei de escrever meus garranchos e eis-me agora enredado na trama de Her (2014) do Spike Jonze, curtindo as perdas e danos de quem estava de caras com o término de um devastador relacionamento amoroso. Ali eu me valia de uma desconhecida, que me encantou com as suas feições da atriz estadunidense Amy Adams: O amor é uma forma de insanidade socialmente aceitável. A vida é curta, e todos merecemos um pouco de felicidade. Longe de discordar eu assentia sabendo da cilada de Samantha que se passava pela Scarlett Johansson e sorria satírica e efusivamente com o futuro do pretérito de Fabos fanáticos do mico Coisonário, dando baixa com o extermínio dos meus vivos e mortos, e eu a me perguntar aflito quanto valia a vida na festa da escola de tiro, a pontaria de uma arma inexorável pelas queimadas pantaneiras, amazônicas, sertanejas e litorâneas, balas que cruzavam e eu doía a me desvencilhar disso tudo, quase sem escapatória e o terror era mais que real. Ela então me acolheu dentro de si, e guardou meu desamparo na sua amável deificação. Mais que grato, para ela cantei o Amor: maior a dívida do seu penhor porque o amor é mútua condecoração. E nela adormeci o prazer da vida. Até mais ver.

 

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terça-feira, junho 22, 2021

ANNE MORROW LINDBERGH, NORBERT ELIAS, EMMANUELLE SEIGNER, ZÉ DO CARMO, CÂMARA DE ESPELHOS & CATENDE

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma vez mais vou danado de novo pra Catende... - Ao som de Vou danado pra Catende, no álbum Molhado de suor (Som Livre, 1974), de Alceu Valença - Ao travesseiro, bastou-me deitar a cabeça e lá estava eu nas paradisíacas paragens da Serra da Prata, aquela mesma que me deu a ideia do Bacuna pra me levar de novo danado pra Catende, nos versos de Ascenso pelo açude de Santa Rita, até a bica de Monte Alegre. De lá passar pelo casarão de Curupaiti no Roçadinho, depois a casa grande Tabaiaré, chegar nas águas dos rios Panelas ou Pirangi, timbungar o dia todo e comer uma pituzada na festa de Santana pra poder participar do concurso de Batida, Licores e Doces, ao som da pipocada estrondosa dos bacamarteiros de Miguel do Pirajá, lá na frente do Tiro de Guerra. Não era pouco, se eu caia solto, lá vinha o bumba-meu-boi do Matadouro, enquanto ouvia dos alto-falantes da Voz de Catende a sessão que ia passar no cinema Diamante. Enquanto isso, eu me maravilhava com as talhas de Zé Fernandes, a arte de Nelson José e Gabriel, a pintura de Jether Peixoto, Socó, Adgerton e José Adir; ao som da música de Tarcisio Accioli, Deo do Baião, Marcelo Montenegro e Zé Ripe. Era como se eu vivesse inteirinho nas páginas do romance Outro sol se levanta (Autor, 2007), do escritor Pelópidas Soares: As pessoas pelas calçadas, portas e janelas, achavam graça dos bêbados... A inveja e os delatores estão em toda a parte... E eu escapando ou saindo da estação para frevar no meio dos blocos da Filopança, Ferro e Fogo puxado pela Maria Fumaça, ou na Mulher da Sombrinha do saudoso amigo Marcos Catende, que me foi trazido à memória com os versos do poema recolhido do romance de Carlos Gaiza: Na calçada da igreja / fica ela a esperar / um homem da usina / que por lá vai passar... Eu não era da usina, mas era doido pra me travar com ela no meio dos versos de Bartyra, como quem recitasse nos braços da mulher amada dali, e despertar agoniado porque não passava de sonho e fizesse minhas as palavras do trecho de Mel de engenho, de Luiz Maia, extraído da obra Memória histórica de Catende (Autor, 2014), de Eduardo Menezes: Hoje, distante daqueles faustos e áureos anos sessenta, mais que nunca a saudade daquela cidade e de sua gente me faz morada, deixando-me uma dor no peito por saber que nada daquilo, absolutamente nada, mais existe... Pois é, eu escapulia dos sonhos para mandar ver na vida.

 


Dois pinotes diante do espelho... - Agoniado, levantei-me às pressas e nem deu tempo saber que horas seriam ou onde é que eu estava, porque era Déa Ferraz, câmara e luzes e ação, numa rua do Recife, a me perguntar a respeito das mulheres na Câmara de Espelhos. Vôte! Como é que pode, hem? Sabia lá como responder porque fui pego de surpresa. Além do mais, apareceu de repente Emmanuelle Seigner que me sorriu e disse: Tudo na vida, bom ou bom, faz você mudar e crescer - felizmente, porque se não mudasse, seríamos máquinas. Coisas muito piores acontecem às pessoas: câncer, doença, elas perdem um filho. Você pode encontrar uma força inesperada ou pode desmoronar. Eu não sou do tipo que desmorona. Nem eu que perdi meu filho e a vida me levou passarinho até agora sem saber o que fazer de tudo que vivi. Mas a estonteante lindeza dela me dava outro fôlego, aquele que jamais tivera. Estava embevecido, ela ali e mais seria, não fosse a intervenção de Anne Morrow Lindbergh: Se você se render completamente aos momentos que passam, enriquece a sua vida. Pessoas demais, requisitos demais, muito a fazer; pessoas competentes, ocupadas, apressadas - isso não é viver. Só o amor pode ser dividido infinitamente e ainda assim não diminuir. Sim, mas eu nunca caí, ou fiz que não, levei o tombo como se fosse empurrão e assim era porque o tanto era só viver. Aliás, cá comigo: quem me salva do espelho, eu não sei.

 


Três anjos cangaceiros...- Se não estava no céu, era perto: de primeira parecia bonecos de barro. Mas, não. E se eram anjos, não sei o que mais seriam. Na verdae, eram como se fossem. Foi aí que dei de cara com o Mestre Zé do Carmo (José do Carmo Souza – 1933-2019), que mangava de mim por ser mais um a ignorar os seus anjos cangaceiros. Aí ele me contou que Dom Hélder havia encomendado uma imagem do papa e ele prontamente atendeu; contudo, sua arte não foi aparovada pela autoridade eclesiástica: onde já se viu um papa com cara de cangaceiro? Caímos na gaitada, hehehehehe. Enquanto estourávamos de rir, apareceu Norbert Elias apareceu que me deu um toque esclarecedor: O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos. Mas, para os íntimos que se vão, um gesto de afeição é talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam podem proporcionar. Fiquei sério na hora, queria entender. Mas o quê? Ele também se ria e eu fui na dele. Afinal, de sério mesmo quero distância. Até mais ver.

 

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segunda-feira, dezembro 17, 2018

ESTAÇÃO CATENDE, BENEDITO NUNES, ISAAR FRANÇA & ARTE DE TODO JEITO


FUI DANADO PRA CATENDE... - Fui danado pra Catende glosando o mote de Ascenso para saudar Pelópidas e seu caudal, Maurício e todos os Melos tataritaritatá, Davi e Ideais, Marcos agora em Maceió e a Mulher da Sombrinha, a Serra da Prata e os operários da usina e fogo morto, e de quem nem lembro mais do Leão XIII e Catende Clube, o cine Diamante e a Árvore da Vida. Fui danado pra Catende outra vez e cheguei perto da Estação a cantar Nunca chore por mim – a balada de quem vai embora, e encontrei os passageiros de ontens e os desabrigados moradores de rua de hoje inventando seu abrigo com os fantasmas da locomotiva primeva, as vítimas do preconceito, os malvistos de qualquer esquina, os anjos caídos, os doidos e fogueteiros, os que se escondiam para queimar suas fogueiras, os invisíveis das noites e dias entre guenzos e bichanos famintos. Fui danado pra Catende e vou de novo porque havia uma festa de todas as tribos, porque o imaginauta supercultor Gugha - Ghustavo Távora – urdia o bem pintando o sete com todas as cores criatinovadoras no espaço que era a secretaria de Jadson França para a biblioteca da cultura catendense, e Aprisco riscava o grafite que HenriqueTeixeira recitava no baque do DJ Passarinho e nas mandalas de Henrique Bem, porque de Caruaru Zé Galdino embolava as cores do Vale do Una de Profeta e Durán y Durán, os bonecos de Epifânio, as artes de Cicinho e o passeio teatral da Paula Menezes aplaudidas pelos de Fenelon, João Paulo e Mary que viam da Cyane os traços dos desenhos no meio das performances de todas as utopias subversivas dos que ali dançavam com frases do papo cabeça e de quantos passavam para vários encontros e vastos desencontros, tantos vivos e outros mortos no que foi estação de antanho e isso e aquilo, entre chiques e chocantes até a rebeldia bocomoca dos que se recusam a viver aquela ousadia de festa pra seguirem as regras sociais que são suas verdades e nem sabem de qual das mentiras virou sectária dum dogmatismo, porque tudo era apenas um pedaço da história que os olhos não compram por levarem pra depois o que foi e o que está lá e me fez chegar bem danado em Catende sem vontade até de voltar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Com o animal, as relações são, sobretudo, transversais, ou seja, o animal é considerado o oposto do homem mas ao mesmo tempo uma espécie de simbolização do próprio homem. Na acepção comum, simboliza o que o homem teria de mais baixo, de mais instintivo, de mais rústico ou rude na sua existência. Por isso mesmo o animal para nós é o grande outro da nossa cultura, e essa relação é muito interessante como tópico de reflexão[...] dos mais nobres esforços da ala heterodoxa da filosofia moderna, de Schopenhauer até hoje, secundada pela poesia lato sensu, é aquela que tende a reconquistar a proximidade perdida desde a Antiguidade entre homem e animal. Ambos sofrem, ambos estão sujeitos à dor — este é o ponto principal. E embora um filósofo como Heidegger nos diga que o animal, ao contrário do homem, é pobre de mundo (Weltarm) por mais que seja rico de ambiente, continuamos ouvindo a réplica que lhe dá o grande pensamento poético de Rainer Maria Rilke. O animal vive no seio da natureza — como diz na sua “Oitava elegia”, em Elegias de Duíno — “enquanto nós os trepidantes sofremos do mundo que nos punge e empobrece”. Quer dizer, colhido no ventre da mãe natura, o animal vê os homens com aquele olhar não-humano que a ficção de uma das melhores autoras da nossa literatura, Clarice Lispector, insuperavelmente descreveu no conto “O touro”, de Laços de família: aí o olhar animal é um olhar que tem conexão com os sentimentos mais violentos do homem. O animal continua sendo o grande Outro, o maior alienado da nossa cultura, “exceto que essa cultura, aumentando o nosso conhecimento, talvez possa algum dia restabelecer os estreitos laços que a ele nos unia nos tempos mitológicos, mas quando isso acontecer — comenta Elias Canetti — já quase não mais haverá animais entre nós”. [...] Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça, embora, na verdade, guerra e caça sejam a mesma coisa [...] Em geral não se matam os prisioneiros de guerra, que são feitos escravos. Nossos rebanhos são populações escravas. O trabalho deles é se reproduzirem para nós. Até seu sexo transforma-se em uma forma de trabalho. [...] Melhor seria, então, admitir dois modos de ciência: aquele que está mais próximo do real, por intermédio da imaginação; e outro que está um pouco mais distante do real, pelo raciocínio, pelos conceitos abstratos. Os dois modos de ciência se complementam e não podemos deixar de admiti-los, um mais próximo da realidade imediata apreendida pelos sentidos e outro mais distante, conduzido pelo pensamento e pelos conceitos. [...].
Trechos do ensaio O animal e o primitivo: os Outros de nossa cultura
(História, Ciência, Saúde – Manguinhos, dez-2007), do filósofo, professor, escritor e crítico literário Benedito Nunes (1929-2011).

A ARTE DA ESTAÇÃO DO BEM – CATENDE - PE
Eu fui danado pra Catende... e quase não quis voltar
O artista visual e imaginauta Ghustavo Távora. Veja mais aqui e aqui.
Estação do Bem na Secretaria de Cultura de Catende.
Biblioteca Municipal de Catende – PE – Sandra Lobo, Rejane Maria & Jovelina Maria.
A arte do artista Aprisco (Rogério Bosco da Silva).
A arte do artista e graduando em Gestão da Informação na UFPE, Henrique Teixeira, integrante da Flor Rasteira e Seres da Mata.
DJ Passarinho (Alex) & Henrique Bem.
A arte do gravurista, artesão e artista Zé Galdino, de Caruaru – PE.
Instituto Vale do Una, o poeta e artista Paulo Profeta, o artista e poeta José Durán y Duran, a artista e escritora Cyane Pacheco & Nalva Pedrosa.
A arte do artesão, pirogravurista, designer e artista Cicinho (Advaldo Cerqueira).
O artesão e instrumentista Epifânio Bezerra.
Biblioteca Fenelon Barreto, João Paulo Araújo, Mary Filha & Éricka.
A atriz Paula Mendes.
&
As crianças na Estação do Bem.

AGENDA:
Instituto de Belas Artes Vale do Una & muito mais na Agenda aqui.
&
O que sei do que aprendi, Manuel Bandeira, Josué Montello, Viveiros de Castro, Henri-Frédric Amiel, Viveiros de Castro, Wassily Kandinsky, Minami Keizi, Caetés, Fabio de Carvalho & Zé Ripe, Gal Costa & Beto Guedes aqui.
&
Criatividade & inovação na prática educativa, Paulo Freire, Lewis Carroll, Silvio Romero, A crise da educação de Philip Hall Coomb, Victor Brecheret, Arantes Gomes do Nascimento & Fábio de Carvalho, Guiomar Novaes & Sebastião Tapajós aqui.
&
Agrestina, Djavan & Lauryn Hill aqui.
&
Livros pras Crianças & Cantarau Tataritaritatá aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora e instrumentista Isaar França: Azul Claro, Copo de Espuma, Todo Calor & Ensaio & muito mais nos mais de 2 milhões & 980 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, dezembro 13, 2018

GEORGE SAND, DELACROIX, WAGNERT TISO & ESTAÇÃO DO BEM CATENDE


QUEM O AMOR DE TANTOS AMORES – Imagem: George Sand, do pintor do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863) – Amandine nasceu como o dia e era Aurore, e podia ser Lucille com seus encantos, ou mesmo Dupin pelas ruas, ou: uma menina de muitos nomes e tantas aventuras. Ainda criança, uma queda do cavalo e o pai perde a vida às travessuras de infância com Hippolyte, sob os cuidados da avó atenta. E ao brincar, passa da conta, levada para um convento, se apaixona pelo silêncio e introspecção das paredes de pedra: diversões de espírito independente para música e teatro. Com a morte da avó, um novo sofrimento, o que seria dela sem mais ninguém. E para herdar Nohant, uma crise mística e um casamento com François: dois filhos e um divórcio por conta de tantas coisas e pela paixão repentina dela por Jules: uma frenética atividade e parceria no Le Figaro e Rose et Blanche. Para valer na vida, a menina tinha de ser menino – senão não haveria como realizar seus sonhos, havia de ser entre outros. E ganha do amor o pseudônimo, George: adota o vestuário masculino – um redingote-guérite, chapéu, calças, botas, gravata, o andar firme pelas ruas de fumante que causa escândalos, tudo para publicar Indiana e folhetins nos jornais. Vestida assim, não temia nada e dava volta ao mundo a qualquer hora da noite. No seu disfarce advogava o direito da mulher em dirigir sua própria vida e ter um amor sincero. Amiga entre eles, dela a amizade da atriz Marie e a acusação de lesbianismo e ninfomania. Que dissessem, nem dava conta nos braços de Prosper; mais falassem, envolveu-se num poema de Alfred com um convite na carta para a cela de uma reclusa: uma grande paixão arrebatada pelo vale do Rhône na companhia de Stendhal e ciúmes mútuos em Veneza, por conta da presença de certo médico Pagello. O amor, então, ruiu e ela logo se viu panfletária na companhia do advogado Michel: ideias republicanas e socialistas na defesa dos direitos da mulher e nas discussões com Flaubert, o desapontamento com a Revolução de 1848. Vieram então os prelúdios de Frédéric depois de uma festa com Liszt & Marie de Agoult. Ganhou dele a Polonesa Heróica e em retribuição, Lucrezia Floriani, a tradução do seu amor embalado por quase dez anos. Enquanto ele escutava, improvisava; quantos fantasmas rondavam, dele ir embora para nunca mais. Duma só vez a derrocada da paixão, a morte da neta e o amigo do filho aparece para ser seu secretário, ah, Alexandre, em seus braços para a Itália e, depois, Consuelo mais suas preocupações sociais e o Companheiro da viagem pela França, a inquietação viandante e deambulações de uma incansável que amava a vida e as pessoas. Outra amizade, a de Balzac, fez dela Seraphita: a androginia da ilustre hermafrodita, e vestida de homem era uma mulher que fazia carreira sozinha, sedutora feminina, desencadeando paixões avassaladoras enquanto melómana se encantava com tudo e pintava aquarelas dendritages para ganhar a vida e ser amante do teatro. E ela, a mulher se mostrava homem e tornava a ser mulher na intimidade, nunca se deixou vencer por contrariedades, a sonhar no amor fraterno unindo as classes sociais. Fez das suas memórias a história da sua vida: O romance não precisa ser necessariamente a representação da realidade. E viveu suas extremas paixões nas diversas formas de amar, como aclamada baronesa Dudevant ou afamado George, era ela, em Nohant da infância e da saudosa avó, da vida para a eternidade das páginas com todas as cenas do seu otimismo e ingenuidade. Dela, Victor Hugo: Eu choro uma morte e saúdo uma imortal. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Pois sua esposa tinha dezenove anos [...] se vocês a tivessem visto toda franzina, pálida, triste, o cotovelo apoiado sobre o joelho, ela tão jovem em meio a esse lar, ao lado de seu velho marido, parecia uma flor plantada ontem em um vaso gótico. Vocês teriam lamentado junto da esposa do coronel Delmare, e talvez o coronel mais ainda que sua esposa [...] Se ele a tivesse amado verdadeiramente, ele teria podido, sacrificando seu futuro, sua família e sua reputação, encontrar ainda a felicidade com ela, e, por consequência, fazê-la feliz; pois o amor é um contrato como o casamento. Mas desanimado como ele se encontrava então, qual futuro poderia dar a essa mulher? A desposaria para mostrar cada dia um rosto triste, um coração magoado, um interior desolado? A desposaria para torná-la odiosa para sua família, desprezível diante dos seus pares, ridícula diante dos criados, para correr o risco em uma sociedade onde ela se sentiria deslocada, onde a humilhação a mataria [...] Era uma dessa mulheres que atravessaram épocas muito diferentes, que seu espírito tomou toda a surpresa de seu destino, que foi enriquecido pela experiência da infelicidade, escapou das forcas de 93, dos vícios do Diretório, da vaidade do Império, dos rancores da restauração; mulheres raras, cuja espécie está perdida [...] Esposando Delmare, ela apenas trocou de dono, vindo morar em Lagny, apenas trocou de prisão e de solidão. Ela não amava seu marido, pela única razão talvez que fazia amá-lo um dever e resistir mentalmente a toda espécie de limitação social havia se tornado para ela uma segunda natureza, um princípio de conduta, uma lei do consciente. Não haviam procurado prescrever a ela outra coisa a não ser a obediência cega [...] Educada no deserto, negligenciada por seu pai, vivendo em meio aos escravos, ela não tinha outro socorro, outra consolação que sua compaixão e lágrimas, ela estava habituada a dizer: “Um dia virá em que tudo será mudado em minha vida, quando eu farei bem aos outros, um dia em que me amarão, e eu darei todo meu coração àquele que me der o seu; esperando, sofremos; calemo-nos, e guardemos nosso amor por recompensa a quem me libertará.” Esse libertador, esse messias não veio [...] Ignorante como uma verdadeira criola, Madame Delmare não havia até lá pesado os graves interesses que agora eram discutidos diante dela. Ela havia sido ensinada por sir Ralph, que tinha uma opinião medíocre da inteligência e do raciocínio das mulheres, e se limitava a lhe dar alguns conhecimentos positivos e de uso imediato [...] Eu não o quero mais, respondeu ela. Eu o queria ontem, era minha vontade; não é mais essa manhã. Você usou de violência me trancando em meu quarto; eu saí pela janela para lhe provar que você não pode reinar sobre a vontade de uma mulher, é exercer um império irrisório. Eu passei algumas horas fora da sua dominação; eu fui respirar o ar da liberdade para lhe mostrar que você não é moralmente meu senhor e que eu dependo apenas de mim sobre a terra. Passeando, refleti que eu, por dever e por consciência, tinha que voltar a me colocar sob seu patrocínio; eu o fiz de minha plena vontade [...] Assim, senhor, não perca seu tempo a discutir com minha convicção; você nunca me influenciará, perdeu o direito desde que o quis fazer pela força. Ocupe-se da nossa partida; estou pronta a ajudar e segui-lo, não porque essa é a sua vontade, mas porque essa é a minha intenção. Você pode me condenar, mas nunca obedecerei ninguém além de mim mesma [...] Para ela, a vida era um cálculo estóico, e a felicidade uma ilusão pueril da qual é necessário se defender como de uma febre e do ridículo [...] Madame Delmare não tentava lutar contra um destino traçado, contra uma vida quebrada e se deixou corroer pela fome, pela febre e pela dor, sem proferir uma queixa, sem derramar uma lágrima, sem tentar um esforço para morrer uma hora mais tarde, por sofrer uma hora a menos. Ela foi encontrada no chão, no dia seguinte ao segundo dia, endurecida pelo frio, os dentes serrados, os lábios pálidos, os olhos apagados; no entanto, ela não estava morta [...]
Trechos da obra Indiana (Omnibus, 1991), da escritora francesa George Sand (1804-1876).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863). Veja mais aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

AGENDA:
Estação do Bem – Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
Uma coisa dentro da outra, Carl Gustav Jung, Mário Quintana, Zygmunt Bauman, João Cabral de Melo Neto, Dorothy Iannone, Escada, Gonzagão & Gonzaguinha aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso: Trem Mineiro, Preto e Branco, Trio ao vivo & Música Viva com Paulo Moura & muito mais nos mais de 2 milhões & 980 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


quarta-feira, dezembro 12, 2018

ROSA LUXEMBURG, NÁ OZZETTI, ANNA GOGOLEVA & ESTAÇÃO DO BEM CATENDE.


AS PAIXÕES DE ROSA – Imagem: Rosa de Luxemburg, da artista visual italiana Anna Gogoleva. - Três décimos e tudo poderia ser diferente para Rozalia, a menina que crescia jogada sem concessões na embriaguez da vida. Três segundos e nada nela bastaria para não reprimir a alegria nem o desejo de ser feliz. Três horas e a migrante Róza de Zamosé com dores nos ossos do quadril, vivia a coxear como se dançasse rebelde para que lhe fosse negada pela inveja e discriminação a medalha de ouro do ginasial, escapando da prisão pela greve geral e tomasse rumo à Suíça sob a coação de novo encarceramento e ali conhecer Leo em Zurique e se ocupar do desenvolvimento industrial da Polônia. Três dias e o que falta e enerva da desordem, o sonho da casa aprazível independente da circulação da Bandeira Vermelha. Três semanas e o combate à rotina, o grande erro do levante espartaquista de janeiro, pacifista e escarnecida sob as ameaças truculentas e intoleráveis da obscuridade. Três anos e um grande amor nas cartas entre ela e Leo, as intrigas, os ciúmes, os tremores, não haverá de levar em conta o que circunda, mesmo que irrite, enlouqueça ou desnorteie, somente que se mantivesse o amor numa frequente correspondência, embora tivesse que se casar com Gustav em Berlim, por conveniência da cidadania alemã. Ao divorciar-se, às grades por rebeldia recorrente até a iminência de pena de morte. Apátrida, proscrita, condenada, sentia no peito o choro do búfalo ensanguentado pela violência do soldado, a dor terrível na cara preta de uma criança que sofria calada a fraqueza e a saudade. Três décadas e nada terá importância para indicar os novos caminhos sem direito à vida privada, com o condinome de sangrenta por sua agitação republicana apaixonada, incitando à desobediência civil no punho antimilitarista, para ser julgada e condenada em outra masmorra. Libertada, não havia mais para onde fugir, sentia apenas o coração de Paul e enfrentar a vida com coragem até ser capturada insurreta e espancada pelas milícias veteranas da Guerra, e ser fuzilada e jogada agonizante num curso de água gelada de janeiro no Landwehrkanal. Mesmo que seu corpo boiasse com o epitáfio de Brecht, nela a dedicação de forjar um futuro melhor para a humanidade: o ser humano foi criado para ser feliz como um pássaro para voar. E ela desde então ressuscita todos os dias para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Habitualmente nossa sociedade, como um todo, parece bastante próspera; ela preza a honestidade, a ordem e os bons costumes. Certamente existem lacunas e imperfeições no edifício e na vida do Estado. Mas o sol não tem também as suas manchas? E será que existe alguma coisa perfeita neste mundo? Os próprios trabalhadores, sobretudo os mais bem colocados, os organizados, acreditam de bom grado que no final das contas a existência e a luta do proletariado decorrem nos limites da honestidade e da prosperidade. A “pauperização” não é uma triste teoria há muito refutada? Todos sabem que existem albergues, mendigos, prostitutas, polícia secreta, criminosos e “elementos desonestos”. Mas habitualmente tudo isso é sentido como algo distante e estranho, situado em algum lugar fora da sociedade propriamente dita. Entre os trabalhadores honrados e esses excluídos existe um muro, e raramente se pensa na miséria que se arrasta na lama do outro lado do muro. [...] De tempos em tempos, vem uma crise, semanas e meses de desemprego, de luta desesperada contra a fome. E novamente o trabalhador consegue subir um degrau da engrenagem, feliz por poder novamente empregar seus músculos e nervos a serviço do capital.  Mas, progressivamente, as forças começam a faltar. Um período mais longo de desemprego, um acidente, a velhice que se aproxima – este, depois aquele, precisam agarrar o primeiro emprego que aparece, abandonam a profissão e deslizam irresistivelmente para baixo. Os períodos de desemprego tornam-se cada vez maiores; os empregos, cada vez mais irregulares. Em pouco tempo, o acaso domina a existência do proletário, a infelicidade o persegue, a carestia toca-o mais duramente que os outros. A energia perpetuamente tensa na luta por um pedaço de pão relaxa-se, por fim; a autoestima diminui – e lá está ele à porta do albergue dos sem-teto, ou à porta da prisão. Assim, a cada ano, milhares de existências proletárias afastam-se das condições de classe normais da classe trabalhadora para cair na escuridão da miséria. Eles caem silenciosamente como um sedimento que se deposita no fundo da sociedade, elementos usados, inúteis, dos quais o capital não pode retirar mais nenhuma seiva, lixo humano que é varrido com vassoura de ferro: contra eles ergue-se o braço da lei, da fome e do frio. E por fim a sociedade burguesa estende aos seus proscritos o copo de veneno. [...].
Trechos de No albergue, da filósofa e economista polaco-germana, Rosa Luxemburg (1871-1919), extraído da obra Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade  (Fundação Rosa Luxemburgo, 2015), de Jörn Schütrumpf. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual italiana Anna Gogoleva.
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