sexta-feira, junho 22, 2018

GOLDING, BALMONT, STEINER, NORBERT ELIAS, MILTON NASCIMENTO, KIAROSTAMI & FRANÇOISE GILOT


TRÊS & UMA VIDA SÓ – Imagem: A Gordiuszi csomó III (2005), da pintora francesa Françoise Gilot. - Numa bela manhã de 1552, nascia Erik no meio de um parto complicado com a morte materna. Cresceu ouvindo as histórias dos Vikings. de Odin, Thor, Gladius e a batalha de Lena, Nokken, Tallemaja, Draug, Näcks, de muito fazer uso disso na sua formação adulta. Na busca pelo pai desconhecido, soube do excêntrico imperador Rodolfo de Habsburgo, colecionador de anões e gigantes em um regimento do seu exército. Não entendia nada de política e muito menos da Contrarreforma e do calendário gregoriano, das andanças por Praga, o fascínio por jogos e códigos, astrologia, alquimia e ciências ocultas. Achava muito estranho o que diziam de um certo pintor Arcimboldo, em meio as conversas das revoltas austríacas e húngaras, as questões dos otomanos na Áustria, Morávia e Hungria, as passagens por Boêmia e a Silésia. Tal como a majestade, ele também sofria de constantes ataques de melancolia e insanidade, principalmente quando pôde ver uma vez de longe o livro gigante do Codex Gigas, a deslumbrante oitava maravilha do mundo, escrita por um monge copista do mosteiro de Podlazice, dado por destruído durante as guerras religiosas do século anterior e seu autor condenado a ser emparedado vivo por crime grave e que, para salvar-se, pediu ajuda ao demo. Aos boticões, jamais esqueceu a decoração das tintas vermelhas, azuis, amarelas e douradas do volume, coisa que não lhe saía da cabeça, ambicionando roubá-lo e passando a sonhos constantes, aguçados por sua curiosidade em saber das fórmulas mágicas contidas naquela publicação imensa. Depois disso, pesadelos assustadores acometiam suas noites dias afora. Tantos tormentos entre trogloditas, dinossauros e guerreiros que povoavam suas desventuras oníricas, com perseguições, quedas dos precipícios, ataques de animais, crucificações, monstros mitológicos, guerras de caveiras e terrores diversos. As perseguições tanto ocorriam nos seus adormecimentos noturnos, como nos devaneios em dia claro, ouvindo vozes do além, ameaças de íncubos e súcubos ao derredor, bruxarias e premonições malsinadas, amedrontando seu pobre ser amargurado, identificando qualquer aproximação de alguém, como presença de terrível algoz para destruí-lo. Por conta disso, viveu pelas sombras da existência. Além do mais, outra paixão angustiava o peito entre ataques de sobrevivência e aluamentos: a filha bastarda do rei, Carlota, marquesa da Áustria, a ponto de arquitetar estratagemas para capturá-la e aprisioná-la para si. Essa paixão platônica o fez armar ardis engenhosos, rondando todos os locais onde supunha ela pudesse estar presente, isso até o dia que ela se casou com o príncipe de Cantecroix, deixando-o aos desastres da existência, ora resgatando furioso e completamente embriagado a exaltar a memória de Gustavo Vasa e assumindo o luteranismo evangélico, ora não menos ébrio se bandeando pela defesa da igreja romana católica. Quis estupra-la e nisso se determinou, dela não escapar, em pleno golpe, enlouqueceu na investida até sucumbir maldito em 1612, vítima de um ataque desconhecido no meio dos seus tantos pesadelos. Eis que numa tarde mormaçada de 1756, nascia uma criança entre os Palawah, nas inóspitas regiões australianas. Cresceu entre os aborígenes e os dingos, cangurus, emas, bumerangues, lanças, bastões, o cultivo da terra, caça, pesca e dialetos. Era silencioso e prestava atenção em tudo. Estava adolescente quando ouviu das sucessivas histórias contadas sobre os migrantes indianos e das ameaças dos portugueses que zanzaram pelas terras da Australis Incógnita, do navegador holandês Willem Janszoon e da Nova Holanda, das andanças de James Cook pela Nova Gales do Sul e a colônia penal, de Abel Tasman na Tasmânia, e da invasão britânica de 1788. Sabia apenas da noite e do dia, da fome e da caça, das coisas de sua tribo, matava pra não morrer, savanas, o Tempo dos Sonhos, o didgeridoo, a Mãe Serpente, os massacres dos colonos e a catequese, alijauaras, arandas, mundbaras, gurindjis, pitjantjaras, pintubis, ualparis, uarramungas, ualpiris, mardus, o Uluru. No meio disso teve o primeiro sonho estranho, em que vivia num mundo distante do seu, como se fosse um dos invasores em terras estrangeiras. Eram sonhos monstruosos que o perseguiram terrivelmente por toda vida, até sucumbir em 1816, vítima do genocídio contra os aborígenes no processo de colonização britânica. Foi então que na madrugada chuvosa de maio de 1960, nascia no nordeste brasileiro uma criança de pais pobres, vítimas das secas sertanejas. Brincava do muito no terreiro tórrido e ouvia histórias da Cumade Fulôsinha, Saci Pererê, bois e cavalos dumas matas perdidas na imaginação. Cresceu com o Sol de janeiro a janeiro, em plena ditadura militar, maria-vai-com-as-outras, a desconhecer da censura e repressão. Aos dez anos teve um sonho estarrecedor: que era um menino órfão galego no frio, perseguido por monstros e maldições. Ao amanhecer estava amedrontado com tudo embaixo da cama. Chamou aos pais, nada encontraram, e ele insistia tudo aquilo sonhado lá embaixo. No outro dia acordou com o pesadelo de ser uma criança de cor perseguida por invasores brancos barbudos que matavam os da sua tribo. Contou pros pais que disseram estar ele ouvindo muita Estória de Trancoso. Não era, noite após noite, e precipícios, feras, bruxarias, uma princesa linda que o levava para a morte, ataques de invasores, tiros, mortandade, terrores. Estava adolescente púbere e no seu mundo de devaneios macabros, para ele tanto faziam falar de Papai Noel, AI-5, a Mula sem cabeça, a Burrinha do Padre, Iêiê, O meu pé de laranja lima, Moral e Cívica, Brasília e FMI, Milagres, guerrilhas, Arena e MDB, tudo como se fosse Monteiro Lobato contando coisas pros jovens que podiam ser tratados por homens feitos. Misturava Araguaia com Homem Aranha, USTop com MR-8, Hippies e cristãos, Cuba com as calças Lee, TFP com a tricampeonato de futebol, desemprego com subversão, Guerra Fria com ligas camponesas, corrupção com levar vantagem em tudo, promulgação da Constituição Federal com papo de ETs, AIDS com a economia canavieira, dívida externa com papo furado, impeachment com a novela da Globo, Plano Real com a vinda de Jesus e por aí vai. Aos trinta e quatro anos era ufano tetracampeão, falando de Emerson, Piquet e Senna como se fossem os únicos heróis nacionais depois dos jogadores. Odiava coisas de estudo ou escola, terminara o segundo grau a pulso na escolinha do arruado e ali ficara como se fora o maior sabichão do planeta. Misturava lucro com apurado, metia o pau nos comunistas e votava de acordo com a amizade nas eleições. A partir dos trinta e cinco anos, os pesadelos horríveis passaram a ser recorrentes, sem poder distinguir o que era a vida e o que era sonhado, misturando-se por infernos dantescos e buscas de felicidade jamais alcançada, até o dia em que teve a nítida experiência de que era Erick e não sabia que a sua vida era assim porque tinha sido ele e reconhecera ser ele mesmo, ao passo que tudo se transformava em si e já o inominável australiano a fugir e guerrear contra os invasores intrépidos, e tudo inexplicável sem entender como podia ser quem era nisso tudo, um nordestino brasileiro, enquanto um branco escandinavo e um aborígene australiano eram nele uma coisa só e não sabia mais nada porque mergulhando na trindade esqueceu existir para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor e compositor Milton Nascimento: Planeta blue na terra do sol, Ângelus, Uma Travessia 50 Anos ao vivo & Pietá ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Três coisas condicionam o rumo de vida de um ser humano entre o nascimento e a morte; e com isto ele é triplicemente dependente de fatores situados aquém do nascimento e além da morte. O corpo está sujeito às leis da hereditariedade. A alma está sujeita ao destino criado pelo próprio ser humano; esse destino criado pelo homem é denominado com a antiga palavra carma. E o espírito obedece às leis da reencarnação, das repetidas vidas na Terra. Sendo assim, a relação entre corpo, alma e espírito pode ser expressa da seguinte maneira: o imperecível é o espírito; o nascimento e a morte imperam na corporalidade segundo as leis do mundo físico; a vida anímica, sujeita ao destino, serve para unir o espírito e a corporalidade durante uma vida terrena. Todos os demais conhecimentos sobre a natureza do homem pressupõem o conhecimento dos ‘três mundos’ a que ele pertence. [...]. Trecho extraído da obra Teosofia: introdução ao conhecimento supra-sensível do mundo e do destino humano (Antroposófica, 2002), do filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). Veja mais aqui.

SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS – [...] O controle comportamental desta ou daquela espécie existe sem dúvida em todas as sociedades humanas. Mas aqui, em muitas sociedades ocidentais, há vários séculos que esse controle é particularmente intensivo, complexo e difundido; e o controle social está mais ligado do que nunca ao autocontrole do indivíduo. Nas crianças, os impulsos instintivos, emocionais e mentais, assim como os movimentos musculares e os comportamentos a que tudo isso as impele, ainda são completamente inseparáveis. Elas agem como sentem. Falam como pensam. À medida que vão crescendo, os impulsos elementares e espontâneos, de um lado, e a descarga motora – os atos e comportamentos decorrentes desses impulsos –, de outro, separam-se cada vez mais. Impulsos contrários, formados com base nas experiências individuais, interpõem-se entre eles. [...] Uma trama delicadamente tecida de controles, que abarca de modo bastante uniforme, não apenas algumas, mas todas as áreas da existência humana, é instalada nos jovens desta ou daquela forma, e às vezes de formas contrárias, como uma espécie de imunização, através do exemplo, das palavras e atos dos adultos. E o que era, a princípio, um ditame social acaba por tornar-se, principalmente por intermédio de pais e professores, uma segunda natureza do indivíduo, conforme suas experiências particulares. [...] Considerados como corpos, os indivíduos inseridos por toda vida em comunidades de parentesco estreitamente unidas foram e são tão separados entre si quanto os membros das sociedades nacionais complexas. O que emerge nestas últimas são o isolamento e a encapsulação dos indivíduos em suas relações uns com os outros [...] à medida que prossegue essa mudança social, as pessoas são mais e mais instadas a esconder umas das outras, ou até de si mesmas, as funções corporais ou as manifestações e desejos instintivos antes livremente expressos, ou que só eram refreados por medo das outras pessoas, de tal maneira que normalmente se tornam inconscientes deles [...]. Trechos extraídos da obra A sociedade dos indivíduos (Jorge Zahar, 1994), do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Veja mais aqui.

O SENHOR DAS MOSCAS - [...] O fogo chegou nos coqueiros junto à praia e os devorou ruidosamente. Uma chama, aparentemente isolada, torceu-se como um acrobata e lambeu as frondes das palmeiras na plataforma. O céu estava negro. O oficial sorriu alegremente para Ralph. — Vimos sua fumaça. O que estavam fazendo? Uma guerra ou algo assim? Ralph assentiu. O oficial examinou o pequeno espantalho à sua frente. O menino precisava de um banho, de um corte de cabelo, de uma assoada de nariz e de uma boa quantidade de unguento. — Ninguém morreu, espero. Há algum cadáver? — Só dois. E sumiram. O oficial inclinou-se para baixo e olhou bem de perto para Ralph. — Dois? Assassinados? Ralph concordou com um gesto. Atrás dele, toda a ilha estremecia em chamas. O oficial sabia, por ofício, quando as pessoas falavam a verdade. [...] Por um instante, vislumbrou uma imagem fugaz do estranho encanto que outrora dominara as praias. Mas a ilha estava carbonizada como lenha usada... Simon morrera... e Jack havia... As lágrimas começaram a correr-lhe pelas faces e soluços sacudiram-no. Pela primeira vez, desde que chegara à ilha, entregou-se ao choro; grandes e convulsivos espasmos de tristeza pareciam torcer todo o seu corpo. Sua voz elevou-se sob a fumaça negra diante dos restos incendiados da ilha; contagiados por aquela emoção, os outros meninos começaram a tremer e a soluçar. No meio deles, com o corpo sujo, cabelo emaranhado e nariz escorrendo, Ralph chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano e pela queda no ar do verdadeiro e sábio amigo chamado Porquinho. O oficial, cercado por todo esse ruído, ficou emocionado e um pouco embaraçado. Virou-se para dar tempo a que se recuperassem. Esperou, deixando os olhos fixos no garboso cruzador a distância. Trechos extraídos do romance O senhor das moscas (Nova Fronteira, 2011), do escritor e dramaturgo William Golding (1911-1993).

DOIS POEMASI - Pode-se com os olhos fechados viver, / Não desejando nem mesmo a sorte / E para sempre adeus ao céu dizer. / E entender, que ao redor há apenas morte. / Pode-se viver, em silêncio esfriando, / Não contando os minutos passados, / Como vive a floresta de outono, afinando, / Como vivem os sonhos apagados. / Pode-se todo o amor renunciar, / Pode-se tudo para sempre deixar de benquerer. / Mas não pode para o passado esfriar, / Mas não pode sobre o passado esquecer! – VENTO – A natureza é um templo onde vivos pilares / Deixam filtrar não raro insólitos enredos; / O homem o cruza em meio a um bosque de segredos / Que ali o espreitam com seus olhos familiares. / Como ecos longos que à distância se matizam / Numa vertiginosa e lúgubre unidade, / Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade, / Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam. / Há aromas frescos como a carne dos infantes, / Doces como o oboé, verdes como a campina, / E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes, / Com a fluidez daquilo que jamais termina, / Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente, / Que a glória exaltam dos sentidos e da mente. / Viver do presente eu não posso, / Amo o turbamento dos meus sonhos. Poemas do poeta russo Konstantin Balmont (1867-1942).

O GOSTO DA CEREJA
O premiado filme O gosto de cereja (Palma de Ouro de Cannes, 1997), do também do premiado cineasta, poeta, roteirista, produtor e fotógrafo iraniano Abbas Kiarostami, conta a história de um homem de classe média que habita em Teerã e planeja um suicídio. Procura alguém para ajudá-lo a cavar um túmulo nas montanhas, todos se recusam e, apenas um velho taxidermista turco concorda em ajudá-lo. Porém, o contratado tenta convencê-lo a desistir da ideia, alegando que o sabor da cereja havia impedido que ele próprio cometesse um suicídio. Recomendo. Veja mais aqui.
O VI Seminário da Educação Brasileira & muito mais na Agenda aqui.
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A arte da pintora francesa Françoise Gilot.
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A Previdência Social é superavitária!, O socialismo de Bernard Shaw, Casablanca de Umberto Eco, a música do Quarteto Camargo Guarnieri, a arte de Judy Burgarella & Eneida Paes Lima aqui.
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A quadrilha da paixão, A era do vazio de Gilles Lipovetsky, o cinema de Fernando Arrabal, Anouk Ferjac & Mariangela Melato; o teatro de Samir Yazbek, a fotografia de Nair Benedicto, a arte de Roland Topor & Luciah Lopez aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

GRAMSCI, PIERRE CLASTRES, DENISE MILAN, WAYNE WANG & ALAGOINHANDUBA

ERA ASSIM MESMO EM ALAGOINHANDUBA - Quando o juiz Teje-Preso tomou o poder, o alvo era pegar Zé Peiúdo que não era besta nem nada de es...