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sábado, setembro 12, 2026

SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou por baixo da ponte. Enxurrada braba, foi: chega o rio estava apressado e sem margens, pra todo lado. Despencou dos céus o maior temporal, deslizamentos, inundações: a Terra se desmanchava. Quem escapuliu, subiu no telhado que deu pra se salvar, um aguaceiro de danar a paciência: assim também já é demais, né? É mesmo! Até a saparia atônita arregou com súplicas de clemência! Fodeu! De repente, ao cabo de meses, quase ano, estiou de vez e esturricou. A temperatura subiu e, em alta voltagem, o termômetro derreteu: bombas de guerras no gozo das BT&DC, vulcões em erupção, terremotos, tornados, maremotos, tsunamis, lixo & a barbárie cristonazifascistada, poluição geral. Eita! É pouco? E, não muito longe dali, os anfíbios resignados e espremidos na beira do que restou duma poça chocha, croc, croc, o que era de ribeirão, córregos, lagoa e brejo, ih, só aluviãozinho, poin, poin, tudo por uma peínha de nada, foi, foi. Vamos pra lá! Pra onde, ora? Pra qualquer corredeira! Vá você: quem quer se perder, é só mergulhar, mas só se for no chão. Ah, não! O Sol amadurecia e, aos psalmos, só bufotoxina no ar: S’ajeite na beldroega, prefiro taioba. O calorão tá de lascar. Será que chove? Lá vem ela! Isso não é chuva é cabelo de jia, chuvisquinho besta! Vamos apelar pra Amana-manha: Ô Amanhamanha! Essa rã não vai mais nos atender! E ela veio cantando, ajuntou todos e começou a bactromancia, catando varinhas, gravetos e bastões: Se caírem duas vezes seguidas mostrando o lado da casca, é mau presságio! Valha-me! Não deu outra. Foi nada! Ah, se... E Frineia desconsolada lançou-se nua às águas, a heterófila anadiômena, para servir Afrodite nas festas de poseidonia, em Eleusis. Eita, danou-se tudo! Aí o Dardo-verde-e-preto chamou o Amazônico-listrado, que puxou o Arlequim-escarlate e veio o Fantasmagórico: Larga de ser palerma! Sai pra lá, papudo! Ora, tiborna! Aí o Dardo-granular-da-flecha-granulada: Vamos timbungar no Paraopeba! O Dardo-morango: Menos esse tanto, Ludugero! O Dardo-azul: An-ham! O Dourado-da-Costa-Rica: Nem existe mais, bestões! E o que não era regra dele, levou a Dardo-dourada irritada: Coisa mais fora de hora! O Janelo-titicaca, todo posudo falando difícil: O inabitual! A de Schuencas-Romeu-&-Julieta, segredou: Areja, véi! E os pândegos Harlequins, só folia, nem sabiam que estavam fazendo ali. Era pra ser reunião séria: Como é que é? A coisa enfeiou! Para espanto de todos chegou o gigante Tiddalik australiano, riu-se de soluçar, verteu toda água, um santo adjutório pra crise. Pronto, resolvido. Está melhorando, só! Evaporou, deu pra nada. Depois o Tsathoggua de Cthulhu, doutra galáxia, em socorro! Coisa de outro mundo é? Só sendo, na causa. E hibernou. Ah, agora é tarde! Veio Ōgama do Japão, com mais de mil anos como yōkai! Vixe! E foi crescendo, aumentando, até ficar feito uma montanha, a língua longa de fora, o hálito de arco-íris. Que danado é isso? É o fim do mundo! Olha a Pipa Pipa! A Aru, pé-de-pato-surinã! Pra quê? Ah, meu, chama logo o garçom Luzantonho pra servir a gente! Ô Pula-pula vem cá! Minchou, meu! Qual é a bronca? Inesperadamente, deu-se um eclipse e a Ch'an-chu devorou a Lua! Valha-me! E depois o Sol! Maior escuridão. Ouviu-se trovejar: O rei está mal! Como assim? Indagorinha ele estava bonzinho da silva! Gente, o rei tá morrendo! Óóóóóóóó! E todos se renderam plangentes, contando disso e daquilo das façanhas do governante. Alguém lamentava: Logo ele que resgatou a bola de ouro da princesa, em troca de promessas de companhia, ela, a rainha; e, ele, o sapo-rei, agora velho, à beira da morte! Como é que pode? Ouviu-se logo - Como gostais, Shakespeare: Doces são os frutos da adversidade; \ que, como o sapo, feio e venenoso, \ carrega, no entanto, uma joia preciosa na cabeça... É vero, um aviso: só querem a crapaudine. É, a bufonita feita amuleto pros outros, desgraça da gente. Isso mesmo, dizem: a batracita cura de venenos, qualquer picada, a forma perfeita que enriquece a joalheria. E tome anel, talismã. Só quem nos pegar vivos poderá extraí-la, senão a pedra apodrecia sem valor. É. Viu aquele sobre um pano vermelho pra vomitá-la? Esse ainda se banha, eu mesmo fui colocado em um pote perfurado em cima de um formigueiro, quer pior? Servi de graça pro Medici seduzir a Graciosa, filha do Baltazar de Cabell. E quem não foi pra joia mágica da Deltora Quest da Rodda? E quantos pras joias da Catedral de Aachen? E eficaz contra os sortilégios e poderosa contra os venenos, por que malvadam tanto com a gente, hem? Nisso, a tarde recuava na boquinha da noite, quando deu as caras, do trapézio dos dias, Aderbal! Esse veio de encomenda: chorou na barriga da mãe! Vinha de Pasárgada, malas arrumadas de saudades - de caçarola a penico, de gargalo a pinguelo, das ouças aos focinhos, os de casa e os de fora, ije! Que é que tá pegando? O rei está esticando as pernas, tá todo mundo borocochô! Ah, não é segredo de abelha! Meu, mesmo não! -, disse o Flecha-abelha-faixa-amarela. Quer semear sisânia, é? Aqui num vale, só: Sapientis est mutare consilium! Não adianta nada xingar com nome feio! Tem que desentocar a causa disso tudo! Ah e não sabia? Tagarela de sempre, o seu fraco era puxar conversa e, arrebatado pela emoção do reencontro, esfriou: Ah, por isso que tá todo mundo agora aqui, né? Foi então que a perereca Kambô trouxe a vacina. Curou? Oxe, o cabra teve náusea, vômito, diarreia, rejeitou o laxativo. Vá na onda de sapeiro, viu! Deixe de marmota! Ora, é revigorante, estimulante! Taís pensando que é a aquela Pimenta que encaipora é? Ah, vou pro buraco da Gia, Fortaleza. Eita, fandango! Vamos pro sarrabalho, dancê a serra-baile! E o que era falta de jeito e fealdade, às interjeições com as façanhas glosadas. Alguém arengou: Vá lá pro jieiro Tito, o homem da jia. Ah, o ladrão! E o Sapo-boi mugiu: Sapo de fora não chia! A Rã-Golias se armou: Quem vai na garupa, não mexe na rédea! E o que era anuro virou Mirão, o outro Espião, que trouxe Xagueta, Ferreiro e Martelo: Sapo não lava o pé, taí o chulé! E o De-vidro, translúcido, venenoso: Quando se ama, parece amar-se a Lua. Aí o De-chifre, ô pacman, o folha: O óleo perfura a pedra! Eita, Moché! Moxé! Uma tuia de girino e era Pingo-de-ouro, De-rabo e Ponta-de-flecha! E pulou o que estava no ombro da bruxa, vestido de veludo escuro, chamou na grande: A coisa é séria, gente, rezem todos pra chamar chuva! Mais? Quase tudo morre afogado instantinho atrás. Bora. Aderbal, tome jeito, folgado! Aí a Rã-chorona: Olha só, minha gente, o rei foi acometido de enfermidade letal e, por causa disso, todos vamos morrer! Nossa, batráquios! Como assim? Tão culpando a comadre Unha Africano. Hum? Sim, um patógeno. Que é isso? O fungo critídio. Deixe de falar grego, esclareça! Um tal de maligno DB, até as salamandras, cecílias, tritões, axolotes, perigam todos extintos, incluindo nós aqui. É mesmo? Até a cobra-cega? Infelizmente, pandemia. A desconsolação bateu geral: Cadê meus girinos? E a vacina? Não tem. A desesperação caía cada vez mais perto. Vão apostar no pior? As perdas ensinam. E já era noite sem Lua. E Aderbal: Mãe Natura endoideceu, Jayme? Que pinoia é essa, hem? Aderbal, Aderbal, toma tino! Vão desertar? Pronde tu vai, abestado? Ué, escapulir, sou lá de esperar tempo ruim! Pra onde, fulustreco? Ah, fuga, babau... Fui! Até mais ver.

 

Luis Cernuda: Não anseie por um destino mais fácil... Contarei como nasceram os prazeres proibidos, como um desejo nasce sobre torres de terror... Tudo que é belo tem seu momento e depois desaparece... Veja mais aqui, aqui & aqui.

William Golding: O que um homem faz o contamina, não o que os outros fazem... Estive em muitos países e neles encontrei pessoas examinando seu próprio amor pela vida, seu senso de perigo e seu próprio bom senso. A única coisa que elas não conseguem entender é por que esse mesmo amor pela vida, esse mesmo senso de perigo e, sobretudo, esse bom senso, não são invariavelmente compartilhados por seus líderes e governantes... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ursula Karven: Envelhecer é uma jornada empolgante que leva a ainda mais independência e liberdade... Nenhuma tempestade dura para sempre... É exatamente nesses momentos que reside a força na paz e na serenidade... Veja mais aqui & aqui.

 

NAUFRÁGIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Quero soltar a âncora e velejar nesse mapa desconhecido, \ e se o mar ficar bravo, \ assobiarei aos céus para negociar a rota direta à lua, \ e se os ventos forem fortes, \ aguentarei firme nas coordenadas dessa viagem da vida.

Poema da premiada poeta e artista visual maçambicana Sónia Sultuane, autora do livro Walking Words (2021), entre outros. Veja mais aqui.

 

PALAVRAS HERMÉTICAS ENAUSEADAS - [...] Em um tempo no qual a intimidade é perpassada por todos os códigos de IA, a maneira de se proteger é simular uma linguagem hermenêutica, que não o é. Antes, é náusea que brota incontivelmente, com o mínimo de filtros e revisões. Vai do ato incontrolável da escrita relaxada à publicação não revisada num ato contínuo que desconsidera a liturgia que segrega o sagrado do profano. [...] Não entender nada pode ser tomado como uma tradução ao ato de discordância radical de quem prefere rotular de nonsense a fala alheia, bárbara, evitando a possibilidade de diálogo. Mas se há a possibilidade de diálogo, a concordância se dá como ponto de fuga, isto é, busca-se o entendimento como repulsa ao monólogo, da linguagem unidirecional. Decidimos concordar sobre a disposição de nos lançar ao diálogo, mormente com quem discordamos radicalmente. [...] Tudo que escrevo em textos resultante da náusea é um transbordo deste tempo em que os limites do diálogo são rompidos e a violência e a mentira tomam o lugar da discordância. [...] De fato, apelo a uma linguagem estranha, na qual há o apelo para que o lobo e o cordeiro vivam juntos (a despeito dos sábios). Mas como, se o leão amando o cordeiro faz dele sua refeição? Isto é um mistério. [...]. Trechos extraído do texto Palavras herméticas enauseadas (2025), do escritor samarinês Marco Nicolini, autor de Sottacqua (Aiep, 2020).

 

RACISMO - Não se pode olhar para uma pessoa e julgá-la pela cor da sua pele... O racismo é uma doença de adultos, e devemos parar de usar nossas crianças para propagá-lo... O racismo é uma forma de ódio. Nós o transmitimos aos nossos jovens. Quando fazemos isso, estamos roubando a inocência das crianças... As escolas precisam ser diversas se quisermos superar as diferenças raciais... Acredito que odiar não te faz bem nenhum... Talvez não sejamos todos igualmente culpados. Mas todos somos igualmente responsáveis por construir uma sociedade decente e justa... Pensamento da ativista estadunidense Ruby Bridges (Ruby Nell Bridges Hall), que é autora da obra Through My Eyes (Scholastic Press, 1999) e presidente da Fundação Ruby Bridges, criada em 1999, para promover "os valores da tolerância, do respeito e valorização de todas as diferenças."

 

A ARTE DE JOÃO FALCÃO

[...] Eu vi que o teatro era fácil, era só juntar algumas pessoas e ter uma boa ideia [...] Trabalhei com monstros consagrados, mas também com muita gente iniciante [...] O Asdrúbal me despertou o fascínio pelo trabalho de grupo e pela temática contemporânea. Quando vi Macunaíma, descobri a figura do diretor, inventei que queria fazer aquilo [...].

Trechos extraídos da entrevista João Falcão: De mansinho, a consagração - Como a carreira do diretor foi construída sobre percalços que se confundem com os dos personagens de sua peça 'Clandestinos' (Continente, 2010), do roteirista, diretor e compositor musical, João Falcão (João Barreto Falcão Neto), que atua no teatro com quase quatro décadas de trajetória e dezenas de peças encenadas, criador da famosa peça A Máquina (1999), que revelou atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, e que transformada em filme em 2004.. Também dirigiu sucessos como Gonzagão – a Lenda e Clandestinos, com também participou de produções de grande destaque na Rede Globo, como A Comédia da Vida Privada, Sexo Frágil e Clandestinos. No cinema, colaborou nos roteiros de filmes como O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. Começou sua trajetória como ator na peça Morte e vida Severina (1980), de João Cabral, e em Toda Nudez será castigada (1980). Dirigiu Flicts, a cor, de Ziraldo e Aderbal Freire Filho. É autor das peças Muito pelo contrário (1981), Xilique Peba Piriquito Xique (1983), Cara Metade (1983), O Pequenino Grão de Areia (1983), Esse Estranho desejo (1984), A ver estrelas (1985), Palmas pra que te quero (1986), Criadas da Glória (1986), Mamãe não pode saber (1993), A História do Homem (1996), A Dona da História (1998), Uma noite na lua (1999), Marilyn, Marilyn (2000), As aventuras de Zé Jack e seu Pandeiro... (2005), Dhrama (2007), Clandestinos (2008), Gonzagão, a Lenda (2012), Dorinha, meu amor (2017), Que Deus sou eu (2020) e Ensina-me a Viver (2022). Atuou com roteirista e diretor em diversos audiovisuais da TV Globo, entre participações na direção e roteiro de filmes, shows e especiais. Veja mais aqui & aqui.

 


A MÚSICA DE MILTON NASCIMENTO - Perfil & trajetória, com toda discografia e participações cinematográficas, do cantor, compositor, ator e multi-instrumentista Milton Nascimento (Milton Silva Campos do Nascimento, 1942), que aos 4 anos ganhou uma sanfona de 2 baixos e, aos 13, cantava no conjunto Continental de Duilio Riso Cougo, um grupo de baile. Com a música Travessia, parceria com Fernando Brant, ocupou o 2º lugar no Festival Internacional da Canção, em 1967, gravou 34 álbuns registrando as suas mais diversas parcerias, hoje, com 84 anos, os aplausos para este cidadão do mundo. Confira aqui.

 


A ARTE DE GUITA CHARIFKER – Destaque para a arte da pintora, desenhista, gravurista e escultora, Guita Charifker (1936-2017), pela relevância de sua trajetória no cenário das pinturas, aquarelas e desenhos desta grande artista. Veja a homenagem aqui.

 


MUNDO DA DIVERSIDADE – Reunião de temas que caracterizam a diversidade de ideias da contemporaneidade, tratando sobre cultura, sexualidade, racismo, gênero, identidade, inclusão, relacionamento, entre outros, fazem parte das discussões na reflexão ampla de pensadores da atualidade. Confira aqui.

 


TORÉ XUKURU – Trata-se do 4º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna. Desta feita, a garotada se depara com o Toré Xukuru, em Pesqueira, terra do doce e da renda renascença, a terra da amizade. Confira aqui.

 


CANTARAU TATARITARITATÁ – Registro de realização do cantarau Tataritaritatá, um projeto iniciado em 2002 como como zine impresso, depois transformou-se em zineblog, programa radiofônico, folheto de cordel, show poético-musical e, agora, em livro. Dá-se aqui a reunião de informações do portfólio, repertório, playlist de vídeos e fotos do projeto, a exemplo da apresentação no Sopa de Letrinhas do Clube Caiubi, em São Paulo. Veja detalhes aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do escultor, artesão, mamulengueiro, dançarino, escritor e artista Mestre Saúba (Antônio Elias da Silva), apelidado por conta de uma façanha da juventude: conseguiu retirar um relógio de dentro de um formigueiro. Veja mais aqui.

 


sexta-feira, outubro 26, 2018

ALDOUS HUXLEY, MILTON NASCIMENTO, DI CAVALCANTI & PINTANDO NA PRAÇA


O FUTURO É AGORA - Imagem O Beijo (1923), do pintor e caricaturista brasileiro Di Cavalcanti (1897-1976). - Dei por conta de mim: olhei pra trás e tudo era infinitamente distante, como se um filme de desagradáveis e tortuosas cenas tivessem que repassar constantemente como um caleidoscópio, na minha travessia entre meus vivos indiferentes e os mortos que sequer esqueci, de tão vivos se parecerem nos meus horrores e risadas. Lá na frente tudo o que não sei, vou sempre adiante, mesmo que não saiba se é mesmo adiante ou se estou andando em círculos ou me perdendo entre esquinas, curvas e acenos. Ao meu lado não há ninguém, isso eu sei há tempos, é que nunca segui procissões nem fui pra plateia dos palcos da prestidigitação, das promoções do mercado, do glamour da moda e da perda de tempo que é seguir porque outros seguem por puro prazer. É que me dei conta da fração de segundos entre o que é a vida e o que é a morte, e do meu tamanho ínfimo perante o universo. Há tempos deixei de esperar e mesmo que malogre porque nada é pra já, faço acontecer ao meu modo, já quantas aflições pelos segundos que duraram uma eternidade quando precisava e era de imediato, sobrevivendo sob o truque da imaturidade: o medo de tudo, a ameaça constante. Tantas vivências de expectativa pelo amanhã: tudo podia acontecer da espera à agonia pra ansiedade: o que será, nunca se sabia. O tempo parecia parar naquela hora, como sempre tudo passava e o que se desejava nem aparecia na esquina nem lá longe, nem adiantava apurar a vista ou ficar pra lá e pra cá, tonto de requerência. Inquietações assomavam e a balança aparentemente equilibrada não deixava visualizar se ia ou não, quem merece. A lentidão levava ao afobamento corroendo vísceras e unhas e por que não, se estava prestes a ser feliz e o que era a felicidade dava as costas escorrendo pelas minhas mãos e sumindo no triz da primeira piscada de olhos. Uma escolha e quantas consequências: o peso da resolução. Ao decidir eu construía o meu caminho. O que sou hoje é resultado de tudo que fiz e fui ontem. E eu havia me esquecido disso. Cada passo, cada sim, nãos, acenos, dobradas de esquina, relutâncias, teimosias, atalhos e subterfúgios, cansaço, aperreios, suspenses e arrepios. Hoje sou porque sinto: já deplorei minguando na solidão noites intermináveis e sofri pelo que não tinha, e morri pelo que até nem mesmo merecia. Tive que cuidar dos meus sentimentos, torná-los melhores para não quedar desamparado. Hoje sou porque penso: já sucumbi pelo mergulho de mirabolantes ideias, elegendo algozes e enfrentando os meus próprios moinhos de vento. Eu sequer me compreendia, só sentia e pensava. Tive que cuidar dos meus pensamentos e meus sonhos se tornaram factíveis sem que precisassem ser naquele instante porque são reais demais para serem ansiados ou preteridos conforme o capricho do querer. Hoje sou porque percebo: quão sutis são as coisas verdadeiras e nem precisei dos olhos bem abertos para tanto, bastou cerrar as pálpebras e hoje sinto, penso e percebo porque sei que não há destino, porque o passado construiu o meu presente e o futuro é agora. Tomei tento. Há uma razão para tudo, o acaso não existe. Faço agora porque sei amanhã: o futuro às minhas mãos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A porta do helicóptero abriu-se, saindo um rapaz louro de rosto vermelho; depois com um calção de belbutina verde, uma blusa branca e, na cabeça, um boné de jóquei, apareceu uma moça. À vista da jovem, o Selvagem estremeceu, recuou, empalideceu. A moça ficou de pé, sorrindo para ele - um sorriso hesitante, púplice, quase abjeto. Passaram-se alguns segundos. Seus lábios moveram-se - ela dizia qualquer coisa; mas sua voz foi abafada pelo estribilho forte e repetido dos curiosos; "Nós-queremos-o-chicote! Nós-queremos-o-chicote!" A jovem apoiou as duas mãos no coração, e no seu rosto corado como um pêssego, lindo como o de uma boneca, apareceu uma expressão estranhamente incôngrua de aflição anelante. Seus olhos azuis pareceram dilatar-se, tornar-se mais brilhantes; e, subitamente, duas lágrimas rolaram-lhe pelas faces. Em voz inaudível, falou outra vez; depois, com um gesto vivo e apaixonado, estendeu os braços para o Selvagem e deu um passo à frente. "Nós-queremos-o-chicote! Nós-queremos..." E, de repente, eles tiveram o que pediam. - Cortesã! - O Selvagem avançou para ela como um louco. - Fuinha! – Como um louco, pôs-se a vergastá-la com seu chicotede cordas finas. Aterrorizada, ela virou-se para fugir, tropeçou e caiu no meio das urzes. - Henry! Henry! - gritou. Mas seu rubicundo companheiro correra a abrigar-se do perigo atrás do helicóptero. Com um bramido de excitacão deliciada, a linha rompeu-se. Houve uma corrida convergente para aquele centro de atração magnética. A dor era um horror que fascinava. - Ferve, luxúria, ferve! - Com frenesi, o Selvagem vergastou-a outra vez. Avidamente os curiosos os rodearam, empurrando-se e atropelando-se como porcos em redor do cocho. - Oh! A carne!, - O Selvagem rangeu os dentes. Dessa vez foi sobre seus próprios ombros que se abateu o chicote. - Mata! Mata! Atraídos pela fascinação do horror do sofrimento e, interiormente, impelidos pelo hábito da ação em comum, pelo desejo de unanimidade e comunhão, que o condicionamento neles implantara de forma tão indelével, os curiosos puseram-se a imitar o frenesi dos gestos do Selvagem, batendo uns nos outros, enquanto ele fustigava sua própria carne rebelde, ou aquela encarnação roliça da torpeza que se contorcia nas urzes a seus pés. - Mata, mata, mata... - continuava gritando o Selvagem. Depois, subitamente, alguém começou a cantar: "Orgião-espadão!" Num instante, todos repetiram o estribilho, e, cantando, puseram-se a dançar. Orgião-espadão, girando, girando, girando em círculo, batendo uns nos outros, em compasso de seis-oito. Orgião-espadão... Passava da meia-noite quando o último helicóptero levantou vôo. Entorpecido pelo soma e esgotado por um prolongado frenesi de sensualidade, o Selvagem jazia adormecido sobre as urzes. O sol já ia alto no céu quando ele acordou. Ficou imóvel um momento, os olhos piscando à luz, numa incompreensão de mocho; depois, repentinamente, lembrou-se de tudo. -Oh! Meu Deus, meu Deus! - cobriu os olhos com as mãos. Naquela tarde, o enxame de helicópteros que vinham zumbindo por sobre a crista de Hog's Back era uma nuvem escura de dez quilômetros de comprimento. A descrição da orgia de comunhão da noite anterior fora publicada em todos os jornais. - Selvagem! - gritaram os primeiros a chegar, enquanto desciam dos aparelhos. - Sr. Selvagem! Não tiveram resposta. A porta do farol estava entreaberta. Empurraram-na e entraram numa penumbra de janelas fechadas. Por um arco na outra extremidade da peça viam-se os primeiros degraus da escada que levava aos andares superiores. Exatamente sob o fecho do arco pendiam dois pés. - Sr. Selvagem! Lentamente, muito lentamente, como duas agulhas de bússola sem pressa, os pés voltaram-se para a direita: norte, nordeste, leste, sudeste, sul, sul-sudoeste; depois detiveram-se e, passados alguns segundos, recomeçaram a girar, com a mesma lentidão, para a esquerda. Sul-sudoeste, sul, sudeste, leste...
Trecho extraído do capítulo final da obra Admirável mundo novo (Globo, 1979), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e caricaturista brasileiro Di Cavalcanti (1897-1976). Veja mais aqui, aqui e aqui.

AGENDA
Projeto Pintando na Praça & muito mais na Agenda aqui.
&
Pintando na Praça & Insituto de Belas Artes Vale do Una aqui, aqui e aqui.
&
Mandando ver no canto, Geoffrey Chaucer & Pier Paolo Pasolini, Maryse Condé, Altinho & Nelson Barbalho, Exaltação de Albertina Bertha, Fernando Lúcio, Mostra de Cinema & Direitos Humano do IFPE-Palmares, Chick Corea, Joyce Moreno, Edson Cordeiro & Teodora Dimitrova aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Eu sou atlantica dor plantada no lado do sul
de um planeta que vê e que é visto azul
Mas essa primeira impressão, esse planeta blue
não é a visão mais real além de cor, 'blue' é também muito triste
pode ser o lado nu, o lado pra lá de cru, o lado escuro do azul
Eu sou um homem comum, eu sou um homem do sol
eu sou um 'african man' um 'south american man'
A fome continental miséria que o norte traz
a fome que a morte vem, a fome não vem da paz
O ódio que o ódio tem se espalha bem mais veloz
que a água que a chuva traz que o grito da nossa voz
Eu sou um homem qualquer estou querendo saber
se dá pra gente viver, se dá pra sobreviver
Quero saber de coração se nossa humanidade
e este planeta vão poder prosseguir
Quem sabe a terra segue o seu destino
bola de menino pra sempre azul
Quem sabe o homem mata o lobo homem
e olha o olhar do homem que é seu igual
Quem sabe a festa chega à floresta
e o homem aceita a mata e o animal
Quem sabe a riqueza? E toda a beleza estará nas mesas da terra do sul
Eu sou atlantica dor plantada no lado do sul
(Planeta blue, música de Milton Nascimento & Fernando Brant)
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do cantor e compositor Milton Nascimento: Uma travessia 50 anos ao vivo, Pietá ao vivo, Crooner ao vivo & Milagre dos Peixes ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.
 

sexta-feira, junho 22, 2018

GOLDING, BALMONT, STEINER, NORBERT ELIAS, MILTON NASCIMENTO, KIAROSTAMI & FRANÇOISE GILOT


TRÊS & UMA VIDA SÓ – Imagem: A Gordiuszi csomó III (2005), da pintora francesa Françoise Gilot. - Numa bela manhã de 1552, nascia Erik no meio de um parto complicado com a morte materna. Cresceu ouvindo as histórias dos Vikings. de Odin, Thor, Gladius e a batalha de Lena, Nokken, Tallemaja, Draug, Näcks, de muito fazer uso disso na sua formação adulta. Na busca pelo pai desconhecido, soube do excêntrico imperador Rodolfo de Habsburgo, colecionador de anões e gigantes em um regimento do seu exército. Não entendia nada de política e muito menos da Contrarreforma e do calendário gregoriano, das andanças por Praga, o fascínio por jogos e códigos, astrologia, alquimia e ciências ocultas. Achava muito estranho o que diziam de um certo pintor Arcimboldo, em meio as conversas das revoltas austríacas e húngaras, as questões dos otomanos na Áustria, Morávia e Hungria, as passagens por Boêmia e a Silésia. Tal como a majestade, ele também sofria de constantes ataques de melancolia e insanidade, principalmente quando pôde ver uma vez de longe o livro gigante do Codex Gigas, a deslumbrante oitava maravilha do mundo, escrita por um monge copista do mosteiro de Podlazice, dado por destruído durante as guerras religiosas do século anterior e seu autor condenado a ser emparedado vivo por crime grave e que, para salvar-se, pediu ajuda ao demo. Aos boticões, jamais esqueceu a decoração das tintas vermelhas, azuis, amarelas e douradas do volume, coisa que não lhe saía da cabeça, ambicionando roubá-lo e passando a sonhos constantes, aguçados por sua curiosidade em saber das fórmulas mágicas contidas naquela publicação imensa. Depois disso, pesadelos assustadores acometiam suas noites dias afora. Tantos tormentos entre trogloditas, dinossauros e guerreiros que povoavam suas desventuras oníricas, com perseguições, quedas dos precipícios, ataques de animais, crucificações, monstros mitológicos, guerras de caveiras e terrores diversos. As perseguições tanto ocorriam nos seus adormecimentos noturnos, como nos devaneios em dia claro, ouvindo vozes do além, ameaças de íncubos e súcubos ao derredor, bruxarias e premonições malsinadas, amedrontando seu pobre ser amargurado, identificando qualquer aproximação de alguém, como presença de terrível algoz para destruí-lo. Por conta disso, viveu pelas sombras da existência. Além do mais, outra paixão angustiava o peito entre ataques de sobrevivência e aluamentos: a filha bastarda do rei, Carlota, marquesa da Áustria, a ponto de arquitetar estratagemas para capturá-la e aprisioná-la para si. Essa paixão platônica o fez armar ardis engenhosos, rondando todos os locais onde supunha ela pudesse estar presente, isso até o dia que ela se casou com o príncipe de Cantecroix, deixando-o aos desastres da existência, ora resgatando furioso e completamente embriagado a exaltar a memória de Gustavo Vasa e assumindo o luteranismo evangélico, ora não menos ébrio se bandeando pela defesa da igreja romana católica. Quis estupra-la e nisso se determinou, dela não escapar, em pleno golpe, enlouqueceu na investida até sucumbir maldito em 1612, vítima de um ataque desconhecido no meio dos seus tantos pesadelos. Eis que numa tarde mormaçada de 1756, nascia uma criança entre os Palawah, nas inóspitas regiões australianas. Cresceu entre os aborígenes e os dingos, cangurus, emas, bumerangues, lanças, bastões, o cultivo da terra, caça, pesca e dialetos. Era silencioso e prestava atenção em tudo. Estava adolescente quando ouviu das sucessivas histórias contadas sobre os migrantes indianos e das ameaças dos portugueses que zanzaram pelas terras da Australis Incógnita, do navegador holandês Willem Janszoon e da Nova Holanda, das andanças de James Cook pela Nova Gales do Sul e a colônia penal, de Abel Tasman na Tasmânia, e da invasão britânica de 1788. Sabia apenas da noite e do dia, da fome e da caça, das coisas de sua tribo, matava pra não morrer, savanas, o Tempo dos Sonhos, o didgeridoo, a Mãe Serpente, os massacres dos colonos e a catequese, alijauaras, arandas, mundbaras, gurindjis, pitjantjaras, pintubis, ualparis, uarramungas, ualpiris, mardus, o Uluru. No meio disso teve o primeiro sonho estranho, em que vivia num mundo distante do seu, como se fosse um dos invasores em terras estrangeiras. Eram sonhos monstruosos que o perseguiram terrivelmente por toda vida, até sucumbir em 1816, vítima do genocídio contra os aborígenes no processo de colonização britânica. Foi então que na madrugada chuvosa de maio de 1960, nascia no nordeste brasileiro uma criança de pais pobres, vítimas das secas sertanejas. Brincava do muito no terreiro tórrido e ouvia histórias da Cumade Fulôsinha, Saci Pererê, bois e cavalos dumas matas perdidas na imaginação. Cresceu com o Sol de janeiro a janeiro, em plena ditadura militar, maria-vai-com-as-outras, a desconhecer da censura e repressão. Aos dez anos teve um sonho estarrecedor: que era um menino órfão galego no frio, perseguido por monstros e maldições. Ao amanhecer estava amedrontado com tudo embaixo da cama. Chamou aos pais, nada encontraram, e ele insistia tudo aquilo sonhado lá embaixo. No outro dia acordou com o pesadelo de ser uma criança de cor perseguida por invasores brancos barbudos que matavam os da sua tribo. Contou pros pais que disseram estar ele ouvindo muita Estória de Trancoso. Não era, noite após noite, e precipícios, feras, bruxarias, uma princesa linda que o levava para a morte, ataques de invasores, tiros, mortandade, terrores. Estava adolescente púbere e no seu mundo de devaneios macabros, para ele tanto faziam falar de Papai Noel, AI-5, a Mula sem cabeça, a Burrinha do Padre, Iêiê, O meu pé de laranja lima, Moral e Cívica, Brasília e FMI, Milagres, guerrilhas, Arena e MDB, tudo como se fosse Monteiro Lobato contando coisas pros jovens que podiam ser tratados por homens feitos. Misturava Araguaia com Homem Aranha, USTop com MR-8, Hippies e cristãos, Cuba com as calças Lee, TFP com a tricampeonato de futebol, desemprego com subversão, Guerra Fria com ligas camponesas, corrupção com levar vantagem em tudo, promulgação da Constituição Federal com papo de ETs, AIDS com a economia canavieira, dívida externa com papo furado, impeachment com a novela da Globo, Plano Real com a vinda de Jesus e por aí vai. Aos trinta e quatro anos era ufano tetracampeão, falando de Emerson, Piquet e Senna como se fossem os únicos heróis nacionais depois dos jogadores. Odiava coisas de estudo ou escola, terminara o segundo grau a pulso na escolinha do arruado e ali ficara como se fora o maior sabichão do planeta. Misturava lucro com apurado, metia o pau nos comunistas e votava de acordo com a amizade nas eleições. A partir dos trinta e cinco anos, os pesadelos horríveis passaram a ser recorrentes, sem poder distinguir o que era a vida e o que era sonhado, misturando-se por infernos dantescos e buscas de felicidade jamais alcançada, até o dia em que teve a nítida experiência de que era Erick e não sabia que a sua vida era assim porque tinha sido ele e reconhecera ser ele mesmo, ao passo que tudo se transformava em si e já o inominável australiano a fugir e guerrear contra os invasores intrépidos, e tudo inexplicável sem entender como podia ser quem era nisso tudo, um nordestino brasileiro, enquanto um branco escandinavo e um aborígene australiano eram nele uma coisa só e não sabia mais nada porque mergulhando na trindade esqueceu existir para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor e compositor Milton Nascimento: Planeta blue na terra do sol, Ângelus, Uma Travessia 50 Anos ao vivo & Pietá ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Três coisas condicionam o rumo de vida de um ser humano entre o nascimento e a morte; e com isto ele é triplicemente dependente de fatores situados aquém do nascimento e além da morte. O corpo está sujeito às leis da hereditariedade. A alma está sujeita ao destino criado pelo próprio ser humano; esse destino criado pelo homem é denominado com a antiga palavra carma. E o espírito obedece às leis da reencarnação, das repetidas vidas na Terra. Sendo assim, a relação entre corpo, alma e espírito pode ser expressa da seguinte maneira: o imperecível é o espírito; o nascimento e a morte imperam na corporalidade segundo as leis do mundo físico; a vida anímica, sujeita ao destino, serve para unir o espírito e a corporalidade durante uma vida terrena. Todos os demais conhecimentos sobre a natureza do homem pressupõem o conhecimento dos ‘três mundos’ a que ele pertence. [...]. Trecho extraído da obra Teosofia: introdução ao conhecimento supra-sensível do mundo e do destino humano (Antroposófica, 2002), do filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). Veja mais aqui.

SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS – [...] O controle comportamental desta ou daquela espécie existe sem dúvida em todas as sociedades humanas. Mas aqui, em muitas sociedades ocidentais, há vários séculos que esse controle é particularmente intensivo, complexo e difundido; e o controle social está mais ligado do que nunca ao autocontrole do indivíduo. Nas crianças, os impulsos instintivos, emocionais e mentais, assim como os movimentos musculares e os comportamentos a que tudo isso as impele, ainda são completamente inseparáveis. Elas agem como sentem. Falam como pensam. À medida que vão crescendo, os impulsos elementares e espontâneos, de um lado, e a descarga motora – os atos e comportamentos decorrentes desses impulsos –, de outro, separam-se cada vez mais. Impulsos contrários, formados com base nas experiências individuais, interpõem-se entre eles. [...] Uma trama delicadamente tecida de controles, que abarca de modo bastante uniforme, não apenas algumas, mas todas as áreas da existência humana, é instalada nos jovens desta ou daquela forma, e às vezes de formas contrárias, como uma espécie de imunização, através do exemplo, das palavras e atos dos adultos. E o que era, a princípio, um ditame social acaba por tornar-se, principalmente por intermédio de pais e professores, uma segunda natureza do indivíduo, conforme suas experiências particulares. [...] Considerados como corpos, os indivíduos inseridos por toda vida em comunidades de parentesco estreitamente unidas foram e são tão separados entre si quanto os membros das sociedades nacionais complexas. O que emerge nestas últimas são o isolamento e a encapsulação dos indivíduos em suas relações uns com os outros [...] à medida que prossegue essa mudança social, as pessoas são mais e mais instadas a esconder umas das outras, ou até de si mesmas, as funções corporais ou as manifestações e desejos instintivos antes livremente expressos, ou que só eram refreados por medo das outras pessoas, de tal maneira que normalmente se tornam inconscientes deles [...]. Trechos extraídos da obra A sociedade dos indivíduos (Jorge Zahar, 1994), do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Veja mais aqui.

O SENHOR DAS MOSCAS - [...] O fogo chegou nos coqueiros junto à praia e os devorou ruidosamente. Uma chama, aparentemente isolada, torceu-se como um acrobata e lambeu as frondes das palmeiras na plataforma. O céu estava negro. O oficial sorriu alegremente para Ralph. — Vimos sua fumaça. O que estavam fazendo? Uma guerra ou algo assim? Ralph assentiu. O oficial examinou o pequeno espantalho à sua frente. O menino precisava de um banho, de um corte de cabelo, de uma assoada de nariz e de uma boa quantidade de unguento. — Ninguém morreu, espero. Há algum cadáver? — Só dois. E sumiram. O oficial inclinou-se para baixo e olhou bem de perto para Ralph. — Dois? Assassinados? Ralph concordou com um gesto. Atrás dele, toda a ilha estremecia em chamas. O oficial sabia, por ofício, quando as pessoas falavam a verdade. [...] Por um instante, vislumbrou uma imagem fugaz do estranho encanto que outrora dominara as praias. Mas a ilha estava carbonizada como lenha usada... Simon morrera... e Jack havia... As lágrimas começaram a correr-lhe pelas faces e soluços sacudiram-no. Pela primeira vez, desde que chegara à ilha, entregou-se ao choro; grandes e convulsivos espasmos de tristeza pareciam torcer todo o seu corpo. Sua voz elevou-se sob a fumaça negra diante dos restos incendiados da ilha; contagiados por aquela emoção, os outros meninos começaram a tremer e a soluçar. No meio deles, com o corpo sujo, cabelo emaranhado e nariz escorrendo, Ralph chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano e pela queda no ar do verdadeiro e sábio amigo chamado Porquinho. O oficial, cercado por todo esse ruído, ficou emocionado e um pouco embaraçado. Virou-se para dar tempo a que se recuperassem. Esperou, deixando os olhos fixos no garboso cruzador a distância. Trechos extraídos do romance O senhor das moscas (Nova Fronteira, 2011), do escritor e dramaturgo William Golding (1911-1993).

DOIS POEMAS – I - Pode-se com os olhos fechados viver, / Não desejando nem mesmo a sorte / E para sempre adeus ao céu dizer. / E entender, que ao redor há apenas morte. / Pode-se viver, em silêncio esfriando, / Não contando os minutos passados, / Como vive a floresta de outono, afinando, / Como vivem os sonhos apagados. / Pode-se todo o amor renunciar, / Pode-se tudo para sempre deixar de benquerer. / Mas não pode para o passado esfriar, / Mas não pode sobre o passado esquecer! – VENTO – A natureza é um templo onde vivos pilares / Deixam filtrar não raro insólitos enredos; / O homem o cruza em meio a um bosque de segredos / Que ali o espreitam com seus olhos familiares. / Como ecos longos que à distância se matizam / Numa vertiginosa e lúgubre unidade, / Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade, / Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam. / Há aromas frescos como a carne dos infantes, / Doces como o oboé, verdes como a campina, / E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes, / Com a fluidez daquilo que jamais termina, / Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente, / Que a glória exaltam dos sentidos e da mente. / Viver do presente eu não posso, / Amo o turbamento dos meus sonhos. Poemas do poeta russo Konstantin Balmont (1867-1942).

O GOSTO DA CEREJA
O premiado filme O gosto de cereja (Palma de Ouro de Cannes, 1997), do também do premiado cineasta, poeta, roteirista, produtor e fotógrafo iraniano Abbas Kiarostami, conta a história de um homem de classe média que habita em Teerã e planeja um suicídio. Procura alguém para ajudá-lo a cavar um túmulo nas montanhas, todos se recusam e, apenas um velho taxidermista turco concorda em ajudá-lo. Porém, o contratado tenta convencê-lo a desistir da ideia, alegando que o sabor da cereja havia impedido que ele próprio cometesse um suicídio. Recomendo. Veja mais aqui.
O VI Seminário da Educação Brasileira & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora francesa Françoise Gilot. 
Veja mais aqui.
&
A Previdência Social é superavitária!, O socialismo de Bernard Shaw, Casablanca de Umberto Eco, a música do Quarteto Camargo Guarnieri, a arte de Judy Burgarella & Eneida Paes Lima aqui.
&
A quadrilha da paixão, A era do vazio de Gilles Lipovetsky, o cinema de Fernando Arrabal, Anouk Ferjac & Mariangela Melato; o teatro de Samir Yazbek, a fotografia de Nair Benedicto, a arte de Roland Topor & Luciah Lopez aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

quinta-feira, outubro 05, 2017

FERNANDO PESSOA, BAUMAN, GEORGE ORWELL, PABLO PALAZUELO & JANILSON SALES

MUITAS & TANTAS VEZES - Imagem: arte do pintor e escultor espanhol Pablo Palazuelo (1916-2007) - Muitas e tantas vezes ajustei o relógio e esqueci, perdi a hora, passei do ponto. Ô cabeça oca essa minha. Não era desfaçatez, nem desconsideração, parecia mais que eu vivia no mundo da lua, tantas coisas remoendo no quengo de transbordar as ideias e não acertar uma sequer. Vai ser doido assim por aí, ora. Outras, saía com rumo certo e me perdia no caminho, via-me tonto, fazer o quê, juízo nos pés, até. Não era indolência nem má-vontade, pensamentos muitos revirando tudo, perdia a noção. Não conto das vezes em que sorri para não chorar, das tripas coração, pacientemente: queriam, teimavam, mesmo aos desnivelados pelo contra, enxergavam prós, condescendia, torcendo pelo êxito diante do fracasso, só arrependimentos dos temperamentais. Mesmo que depois restasse a covardia, a impostura, a insolência, isso no meio de um monte de adversidades, gestão de conflitos, só em palpos da aranha, procurando um buraco no chão pra me esconder, evadir de nunca mais voltar. Como é que fui me meter nessa, hem? Não entendia como o que era de bom alvitre, podia causar tanto desentendimento, muito menos o que na maior boa vontade podia chegar a ressentimentos irreconciliáveis. Não sei quantas fiz o que não queria prevendo o retrocesso, e mesmo sob protestos de minha parte, insistências além da conta, só para me ver livre do peditório, tudo certo. Por isso disse infinitamente não e por diversas e justas razões, tendo de aquiescer ao final. Depois, depois. Num disse? Era tarde, remediar, mais nada. Nenhuma culpa. Nenhuma certeza, contudo, sabia: cada qual, seus caprichos, seus percalços. Ah, a incompreensão, quanta gente menor que o próprio tamanho, tolerava, relevava. Pensava em ajudar, nem pediam, já mandavam ver e depois com o desacerto, aí eu era convocado para resolver o que sequer sabia feito, pelas minhas costas, o que é pior. Superei, sorri até, nada como o dever cumprido e a satisfação da solidariedade. A vida passa e o melhor é viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Milton Nascimento: Planeta blue na estrada do sol, Crooner ao vivo & Quem sabe isso quer dizer amor; da violinista russa Viktoria Mullova interpretando Tico tico de Zequinha de Abreu, Brasileirinho & Concert Violin Prokofiev; do guitarrista estadunidense Joe Satriani: The extremist & Surfing Wind the alien; e da excelente cantora, atriz, jornalista e produtora Marianna Leporace: Valsa brasileira, Paraíso, Fazer a mala, Perdido no meio das ondas, If, O velho e o mar & Dia a dia. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – Duplipensar: guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força, do romance distópico clássico 1984 (Nineteen eighty-four 1949, Companhia Editora Nacional, 1979), do escritor e jornalista britânico George Orwell (Eric Arthur Blair – 1903-1950), do qual destaco o trecho: [...] A voz da teletela estava ainda falando de prisioneiros, presa e matança, mas lá foraa gritaria diminuíra um pouco. Os garçons tinham voltado ao trabalho. Um deles aproximou-se com a garrafa de gin. Winston, imerso num sonho bem aventurado, não reparou quando lhe encheram o copo, Já não corria nem dava vivas. Estava de volta ao Ministério do Amor, tudo perdoado, a alma branca de neve. Estava na tribuna dos réus, confessando tudo, implicando todos. Ia andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol, acompanhado por um guarda armado. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão esperada. Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh mal-entendido cruel e desnecessário! Oh teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gin escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograda a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão. Veja mais aqui e aqui.

O PASSADO DE ONTEM PARA AGORA – Vivemos num mundo estranho. Mundo em que o editor da importante Harper’s Magazine aparece na CNN afirmando que a imprensa americana conspirou com o governo Bush, na construção de uma farsa – a farsa da ameaça iminente das armas de destruição em massa do Iraque, justificativa para a tomada de poder naquele país. Um mundo em que precisamos de alguém como Michael Moore e seu jornalismo humorístico para derrubar a linguagem oficialesca da imprensa e das salas de relações públicas e expor o grotesco por trás das decisões políticas e corporativas (agora mais do que nunca, com o acúmulo dos meios de comunicação nas mãos de poucos). Mundo em que o assento do poder parece ditar a política do Estado, e não as ideologias ou os votos do eleitorado. Estranho mundo em que há uma guerra eterna contra um inimigo invisível. [...]. A tendencia para o autoritarismo (de esquerda ou de direita) persiste em nosso mundo orwelliano de latifúndios midiáticos e de pressão para novos alinhamentos, agora em torno da guerra eterna contra o inimigo invisível do terrorismo. O grito de George Orwell para que nos acautelemos continua válido. Trechos extraídos do artigo As distopias de George Orwell (Cult, Ano VI, nº 71, 2003), do escritor Roberto Sousa Causo.

FRACASSO HUMANO –[...] Este século é muito diferente do século 20. Se compararmos o que eu vivenciei quando jovem, cheio de esperanças e expectativas, com o que vivencio agora, em retrospecto, comparando, revisando expectativas e esperanças, eu diria que estamos num estado de interregno. Esse é o termo que gosto de usar. No “interregno”, não somos uma coisa nem outra. No estado de interregno, as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando. Não temos ainda uma visão de longo prazo, e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão, uma é substituída por outra, as manchetes de hoje amanhã já caducam, e as próximas manchetes apagam as antigas da memória, portanto, desordem, desordem. [...] Trecho da entrevista concedida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), ao jornalista Marcelo Lins, do programa Milênio, da GloboNews. Veja mais aqui.

PECADO ORIGINAL
Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito à mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Poema extraído das Poesias de Álvaro de Campos – Fernando Pessoa (Ática, 1993). Veja mais aqui.

Veja mais:
A música de Milton Nascimento aqui e aqui.
A arte musical de Viktoria Mullova aqui.
A arte musical de Marianna Leporace aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A ARTE & ENTREVISTA DE JANILSON SALES
[...]
O que podemos esperar da vida?
Nada além de uma colheita do que semeamos.
Trecho do poema Semear, extraído da obra Viver Livre (Autor, 2013), do poeta e professor Janilson Sales. Veja a entrevista dele aqui e mais dele aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...