Mostrando postagens com marcador Janilson Sales. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Janilson Sales. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, maio 26, 2023

YULEISY LEZCANO, MOHAMED MBOUGAR, FOROUGH FARROKHZAD, ARIANO SUASSUNA & LITERATURA DE CORDEL

 

 Imagem: Eu & outro eu, Acervo ArtLAM.

Ao som do premiado álbum Xaxados & perdidos (Independente, 2012), da pianista, atriz, cantora, regente e compositora Simone Rasslan.

 

SUTRAS & KOANS, VARIAÇÕES DE UM MESMO TEMA - Os meus passos singravam a margem do rio amanhecido. De repente duma janela a vitrola dionisíaca esgoelava o vetusto repenteado das Aventuras do Maluco Raul Bezela Seixas: Tá rebocado meu compadre \ como os donos do mundo piraram \ eles já são carrascos e vítimas \ do próprio mecanismo que criaram... Sabia de cor os versos das estrofes seguintes e eles trovejavam quilômetros percorridos pelas minhas pisadas. Já bem longe e absorto, ao estímulo virei pro outro lado e lá estava ela tal Shákti, a Devi. Olhei de novo e era Parvati. A cada piscada era outra: Lakshmi ou Sarasvati, todas a me surpreender. Quando não, uma neandertal assustadora ou mesmo Maria Magdalena a me ensinar do poço de salmoura no Mar Vermelho, a empatia gravitando de sua aura a citar Lao-Tsé: O depois segue o antes... E mais: trouxe a fantasia da Nebulosa da Roseta para me envolver com o DNA flutuante, mais um presente do Homo naledi trazido do sul-africano povo Nama, e a chuva perene do meu dia para me instruir acerca da quididade à sombra da Árvore de Bodhi. Recitou naquela manhã as Quatro Verdades Nobres, depois de explicar sobre a meta-solução e anti-sacadas, ao me levar pelo Parque dos Cervos, em Benares, para desfrute da alegria em tempos desumanos. Era como se me dissesse: Você não precisa morrer para conseguir o que quer. Lembrou dos estóicos: o impermanente e o transitório nos empreitam. Passava e muito do meio dia quando ela me iniciou na sua xenoglossia apontando para a estrela Betelgeuse, como se me desvelasse os Véus de Ísis, desvendasse palimpsestos cabalísticos e me explicasse o Manuscrito Voynich. Eu me alimentava dela anoitecida enquanto brincávamos à sujeição memento excadescere e às versificações OuLiPo, como se eu fosse Perec. Folguei madrugada adentro com um tanto de sutras & koans, afora um tanto de hexagramas de arte sem arte, que ela me deu pro satori: nenhuma escritura, só o espontâneo. Tudo esclarecido: tomo parte das coisas contidianas e sorrio do presente. Sabia: as palavras jamais comportarão a verdade última. Por isso, minhas perguntas prescindem de respostas: danço sem propósitos - a vida é uma festa! Dela, uma fruta madura e tudo está dito e nem preciso nada mais dizer. Nela sou, até mais ver.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

O folheto-de-cordel e alguns espetáculos populares como o "auto-de-guerreiros" ou o "cavalo-marinho" são fontes preciosas para os artistas que sonham se unir a uma linhagem mais apegada às raízes da cultura brasileira. É que, em seu conjunto, tudo aquilo forma um espaço cultural criado por nosso próprio povo e no qual, por isso mesmo, ele se expressa sem maiores imposições e deformações que lhe viessem de fora ou de cima...

Trecho extraído do artigo A literatura de cordel (Folha de São Paulo, 01/06/1999), do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014). Veja mais aqui e aqui.

 

LITERATURA DE CORDEL – O professor Ulpiano Bezerra de Meneses, em um parecer que consta da Ata da 89ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, intitulado A literatura de cordel como patrimônio cultural (IPHAN, 2018/IEB, 2019), expressou que: [...] O cordel é um mundo de extraordinária fluidez e extensibilidade, que não pode ser apreendido por nenhum campo disciplinar autônomo: antropologia, história, literatura, linguística, comunicação, artes visuais, psicologia, economia, geografia, pedagogia, etc. etc. [...] Quando se fala de cordel, uma das sensações mais correntes é a de sua força como meio de comunicação. [...] O cordel é testemunha de que o cotidiano é fonte inesgotável de estética [...] É nesses termos que reconheço a “Literatura de cordel”, entendida como arte da palavra poética (principalmente como um extraordinário tradutor de mundos outros), e por ter deixado há mais de um século em continuidade marcas de vária e relevante natureza nas comunidades envolvidas e na vida nacional em geral, e por atuar no presente e prometer futuro, tendo preenchido todos os requisitos para ser admitida, pelo registro, como patrimônio cultural brasileiro [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ESTUDOS: CORDEL NA ESCOLA – Ao longo dos últimos quarenta anos tenho estudado, pesquisado e defendido a adoção da Literatura de Cordel como ferramenta pedagógica fundamental para ampliação dos recursos contribuintes ao processo de ensino-aprendizagem. Entre as pesquisas me deparei com diversos estudos, entre eles o artigo Literatura de cordel e suas contribuições para o ensino (Tropos, dez/2017), resultantes das pesquisas realizadas por Maria das Dores Melo de Souza, Célia Mª Barbosa de Moraes Lima e Gisela Maria de Lima Braga Penha, no qual expressaram: [...] Promover a leitura na escola é uma necessidade inadiável, pois é um instrumento de conhecimento que pode contribuir com o amadurecimento do leitor a fim de interagir socialmente com mais competência. [...] o cordel pode ser visto como uma porta de entrada para textos mais complexos, não só do ponto de vista temático, mas estrutural. [...] O trabalho com a literatura de cordel indica um caminho que pode proporcionar ao aluno uma experiência muito proveitosa, considerando a riqueza da poesia presente nos escritos cordelistas. Traçar estratégias que potencializem a proficiência leitora do alunado, aproximando-os das raízes de nosso povo. [...] resgatar não só o trabalho adequado com o texto literário, mas também uma característica fundamental que se perdeu ao longo do processo de escolarização da literatura: o conhecimento do homem e do mundo, seu poder de refletir acerca do que nos torna humanos, de nós, seres humanos. [...]. Também o estudo Literatura de cordel: Um recurso pedagógico (Fasete, 2018), da mestranda Luana Rafaela dos Santos de Souza que, por sua vez, assinala que: [...] a literatura de cordel deve ocupar espaço nas escolas, por contribuir para a formação de sujeitos que refletem sobre o seu papel no mundo e na construção de uma sociedade mais crítica e humana. [...] As experiências culturais de grandes obras artísticas como o cordel – seu valor não está apenas nisto – estão praticamente esquecidas e a escola pode ser um espaço de divulgação destas experiências. Assim sendo, a escola deve proporcionar as experiências de trabalho com a Literatura de Cordel, mostrando o que nelas há de vivo, de efervescente, como ela vem sobrevivendo e adaptando-se aos novos contextos socioculturais. Como elas têm resistido em meio ao rolo compressor da cultura de massa. Nesse sentido, a importância literatura de cordel nos oferece diferentes formas de aprendizagem e ensinamentos, trazendo para a escola toda a riqueza da experiência de diferentes formas de compreender e interpretar o real, a vida e a condição humana. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

“A POESIA É A ALMA DO PENSAMENTO”.

Imagem: Acervo ArtLAM.

INDIFERENÇA - As estrelas não me olham, \ o homem por acaso pensa que \ já não vale a consciência \ nas estepes do esquecimento, \ anjo das pétalas caídas.

AMOR DE MÃE - Sinto-me um ponto de terra \ agora que uma flor \ segue seu longo caminho \ de pupilas adormecidas. \ Dentro de mim, a vida, \ dos oceanos profundos \ está me chamando, \ chamando \ de todos os cantos do meu corpo, \ em todas as páginas que falam \ do nascimento. Eu sinto isso, \ eu sinto isso. \ e quero responder \ «vem, filho do amor, \ filho inesperado, \ punhado de ouro fundido, \ mostrar-te-ei o caminho \ que escuta o rumor das asas, \ ensinar-te-ei o mistério do voo \ neste céu que desce até ti. \ Eu vou te contar sobre o tempo que corre \ esperando para te ver, \ para beijar sua alma pura, \ com amor maternal e ternura.

Poemas da premiada poeta, bióloga e enfermeira cubana Yuleisy Cruz Lezcano, autora de obras poéticas Tristano e Isotta. La storia si ripete (2018) e Demamah: il signore del deserto (2019), entre outros títulos publicados.

 

DEPOIMENTO - Toda a minha existência é um verso sombrio... Estou pensando que... de repente eu poderia abrir minhas asas, voar para fora desta prisão silenciosa, rir na cara do meu carcereiro e, junto com você, começar a viver de novo... Pensamento da poeta e cineasta iraniana Forough Farrokhzad (1934-1967). Veja mais aqui.

 

A MEMÓRIA SECRETA DOS HOMENS – [...] De um escritor e da sua obra podemos pelo menos saber isto: ambos caminham juntos no mais perfeito labirinto que se possa imaginar, uma longa estrada circular, onde o seu destino se confunde com a sua origem: solidão [...] Tornar-se adulto é sempre uma infidelidade que fazemos aos nossos tenros anos. Mas aí reside toda a beleza da infância: ela existe para ser traída, e essa traição é o nascimento da saudade, o único sentimento que permite, um dia talvez, no fim da vida, reencontrar a pureza da juventude. [...] Só assim, dissemos, dois jovens escritores, que se tornaram amigos e estavam prestes a lançar-se ao desconhecido, poderiam despedir-se devidamente. [...] Era a época em que as meninas flertavam com quadras, memorizadas ou compostas. [...] Um dos personagens explicou que para seduzir mulheres, muitas vezes mais espertas do que elas, os homens se beneficiariam em ser insignificantes em vez de se esgotarem, ridicularizando-se por quererem ser brilhantes a todo custo. [...] Ela publicou dois romances eróticos: L'ogive Sainte, título tirado de uma frase de Le Con d'Irène, e Journal d'une pygophile, que li com uma mão e amei com toda a minha alma. Beatrice é uma católica devota. Uma vez ela me disse que sua posição sexual favorita era o anjo cubista, e que um dia tentaríamos. Toda a minha pesquisa sobre esta posição não levou a nada. Existe de fato uma escultura de Dali que leva esse título, mas sua postura é sexualmente implausível. Talvez Béatrice o tenha inventado? O anjo cubista é um blefe? Mistério. [...] Há tantos supostos escritores que se revelam melhores comentando a literatura do que escrevendo de fato, tantos poetas que escondem a pobreza de sua criação atrás de glosas literárias eruditas, referências, citações agudas, erudição vazia... [...]. Trechos extraídos da obra La Plus Secrète Mémoire des hommes (Philippe Rey, 2021), do escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr.

 

PELEJAS EM REDE: FAZ BEM LER...

Eu digo qual é o mote...

Extraído da obra Pelejas em rede: vamos ver quem pode mais (Zanzar, 2019), publicação resultante da tese de doutoramento da pesquisadora Alice Amorim, ilustrando a exposição literária Faz bem ler, do professor e poeta Janilson Sales. Veja mais aqui, aqui e aqui.



 


quinta-feira, outubro 03, 2019

LAURA DE PETRARCA, RŪMĪ, ROUGEMONT, ANNIE LEIBOVITZ, PLÍNIO MARCOS & AMIGOS DA BIBLIOTECA


LAURA DE PETRARCA - Nem sempre sincero, escrevo com sinceridade: esta mulher eu amei mais que o desespero. Quando a vi naquela manhã de abril, sexta-feira santa na catedral de Avinhão, cabelos aos ventos e a aura do amor, entre a epidemia da peste e a minha temporada solitária, era o oásis, refrigério do meu viver. Nela nenhum dia nem nenhuma noite era igual. O desejo de toda a gente e de todo o lugar, era a mulher dos meus sonhos real e viva entre portas abertas, trilhas desbravadas, todas as formas e cores do amor: o verde da Natureza, a chuva de flores, o murmúrio das águas, a sua serenidade de céu maior que a expressão dos raios solares, mais fascinante que as profundezas oceânicas, mais tentadora que os mistérios ocultos de tudo, maior que a grandeza infinita das galáxias. Era ela, a madonna Laura com seus jovens olhos resplandecentes, casta, modesta, gentil, láurea. Olhava nos meus olhos e eu todo deserto incendiado, insubmisso a me revirar pela ânsia de tomar sua mão, tocar-lhe as faces, ouvir a doçura de sua voz, afetos que me eram e são de uma alegria indescritível e toda derramada nos meus versos exclamatórios, minha prosa incontida, meu testamento antecipado, o meu desejo de glória: possuí-la e tê-la entre os meus braços e cantá-la por trezentos e dezessete sonetos inventados, vinte e nove canções com toda minha inquietude, dissabores, crises espirituais - o amor a queimar perene no Rerum vulgarium fragmenta, Il Canzoniere, e celebrada nas Rime sparse, tudo fiz para ela. Nem mesmo a coroação no Capitólio podia aplacar esse amor, a minha desgraça e as ruinas do mundo. Eu me retirei da vida e na clausura de Vaucluse, galguei até o Mont Ventoux e a paisagem alpina era ela amada e rodeada de primavera, a passear pelas ruas da cidade encarcerada, como se distribuísse felicidade, restituísse a longínqua pátria e apaziguasse a distância do tempo entre os que chegaram e os que partiram para nunca mais. Era ela e sempre o alento para meu coração asceta, vencedor e vencido, prisioneiro do passado, pioneiro do futuro, até me esquecia da corrosão do tempo, da contingência da morte, tudo ao mesmo tempo, nas lamentações de todas as vicissitudes do amor. Nada humano me era, então, mais estranho. E tudo isso perto dela podia e nem quer dizer nada, nem representar nada e eu revia pela milésima vez a cor do seu sorriso sobrevoado por toda maravilha vital, estonteante na minha fé inabalável e a maldição da descrença no reino dos vivos. Era a sua luz difusa que suavizava as tentações do meu coração atormentado, o que me fazia valer de todo entusiasmo amoroso entre o gozo de tê-la e o sofrimento de perdê-la, oh, obra-prima do Universo, me refugiava nessa Mulher sem véus, linda e assimétrica escultura viva, Vênus da carne pecaminosa do meu prazer, a alma da minha comunhão, que despertava desejos simultâneos e poderosos, maiores que a mim mesmo, irrefreáveis, indomáveis. E mais eu deveria louvar perseguindo suas pegadas no pântano do meu peito e ela era aquilo que será e sugeria coisas de outras coisas, sabe-se lá, o que possui e o que esconde por trás daquela formosura, a transpor plagas e eu que a vi, jamais esqueci e permanece na memória com a mesma vitalidade do primeiro dia, rara e bela enquanto se penteia à janela, para I Trionfi, tudo para ela, o Lamento do Mago e o meu apelo de paz diante de um mundo de aventureiros, a minha dor desse mundo no ser reluzente da amada, que traduzia os ruídos dissonantes de que a verdade não se encontra por aí, mas na profundeza da alma. Não tenho a capacidade de esquecer, vivi e vivo desde então o drama do grande amor: vivo nela e para ela na minha solidão com todos os seus fantasmas e sombras, titubeante diante do simulacro da realidade, enamorado eterno da mulher amada que habita viva todo meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A paixão é essa forma de amor que recusa o imediato, foge do próximo, quer a distância e inventa-a de acordo com as necessidades, para melhor se ressentir e exaltar. Esta definição abrange a maior parte dos verdadeiros romances, embora eu não aceite de modo nenhum as melhores obras que foi estabelecido incluir neste género literário, pois, independentemente da sua qualidade enquanto arte, da sua notoriedade ou do seu alcance humano, incluo apenas obras onde transparece, dominador, o arquétipo medieval de Tristão. [...]. Trecho extraído da obra Os mitos do amor (Horizonte, 2001), do escritor e ambientalista suíço Denis de Rougemont (1906-1985). Veja mais aqui.

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA – [...] II ATO (Pano abre, vão entrando Tonho e Paco. O primeiro traz um par de sapatos na mão nos bolsos, as bugigangas roubadas. Está bastante nervoso. Paco traz um porrete na mão e está alegre.) PACO— Belo serviço. TONHO— Você é um miserável! PACO— Não começa a encher o saco. TONHO — Não precisava bater no cara. PACO — Bati e pronto. TONHO — Agora a polícia vai pegar no teu pé. PACO — Os tiras não sabem quem foi. TONHO — O sujeito que levou a porrada sabe. PACO — Ele está estarrado. TONHO — Vai sarar e te entrega. PACO — Que nada! Aquele se acabou de vez. TONHO — Deus queira que não. PACO — Poxa, meu! Naquele nem Deus dá jeito. Mandei o desgraçado direto pras picas. TONHO — E a mulher? Esqueceu da mulher? PACO — Que tem ela? TONHO — Ela também viu seu focinho. PAGO — E daí? Eu também vi o dela. TONHO — Ela te entrega pros tiras. PACO — Eu quero que ela se dane. Ela não sabe onde eu moro. TONHO — Ela descreve o seu tipo e a polícia te acha. PACO — Poxa, tira não é bidu. Não acham ninguém. TONHO — Não, é? Quero ver quando eles te pegarem. PACO — Não me aporrinha, seu! A mulher tinha cara de fuinha, deve ser uma burrona. De corpo ainda quebrava um galho. Mas de cara era um bofe. Não vai descrever ninguém. TONHO — O único sabido é você. PACO — Eu sou mesmo. TONHO — Espera pra ver. Vai em cana direto. PACO — Se eu for em cana, quem se estrepa é você. TONHO — Quem dernibou o cara é que se dana. PACO — E foi legal pra chuchu. Poff... E o cara caiu que nem um balão apagado. TONHO — Podia ser muito fácil. Não precisava bancar o valente. PACO — Bancar o valente, o cacete! Dei pra valer. Sou mau paca. Pra mim, não tem bom. Você viu no parque. O cara se fez de besta, tomou o dele. TONHO — O cara não fez nada. Tomamos o que queríamos, era só vir embora. Não precisava bater. PACO — Bati. E daí? Vai se doer por ele? TONHO — Eu, não. Mas a polícia vai. PACO — Você me torra o saco com essa história de polícia. TONHO — Natural. PACO — Natural o quê? Você está é cagado de medo. TONHO — Claro. Eu não quero ser preso. PACO — Cadeia foi feita pra homem. TONHO — Não pra mim. PACO — Você é rôelhor que os outros? TONHO — Eu estudei. PACO — Bela merda! Pra levar a vida que você leva, tanto faz estar preso ou solto. (Pausa.)E tem um negócio: Se um cara fresco como você vai em cana, está perdido e mal pago. A turma se serve às tuas custas. Logo vira a Boneca de todos. Mas disso acho que você vai até gostar, porque é bicha mesmo. TONHO — Tomara que a polícia te pegue logo. PAGO — Já te falei que se me pegarem o azar é seu. TONHO — O meu negócio é leve. Uns três meses. Agora você fica apodrecendo lá. PACO — Não sei por que eu vou ficar mais tempo que você. TONHO — Eu sei. Você usou violência. É perigoso. Fica guardado. PACO — Você é o chefe. TONHO — Quem tem chefe é índio. PACO — No assalto do parque você era o chefe. TONHO — Não era chefe de coisa nenhuma. PACO — Claro que era, poxa! Você ficou aí berrando um cacetão de tempo: (Imita Tonho.) Eu é que mando! Eu é que mando! Na minha terra quem manda é o chefe. T0NHO — Canalha! PACO — É a mãe. TONHO — Nojento. PACO — Nojento é você, que quer tirar o ló da seringa. (Pausa.) TONHO — Deus queira que você não tenha machucado muito o cara. PACO — Não fica secando. Aquele morreu e fim. TONHO — Você quer que o cara morra? PACO — Claro, poxa! A porrada que dei foi pra matar. TONHO — Você é um animal. PACO — Vá à merda! [...]. Trecho do segundo ato da peça teatral Dois perdidos numa noite suja (Global, 2003), do dramaturgo, ator, escritor e jornalista brasileiro Plínio Marcos (1935-1999), escrita em 1966 e adaptada para o cinema por duas vezes, a primeira em 1970, dirigida por Braz Chediak, e, a segunda, dirigida por José Joffily, em 2002. O texto é inspirado no conto O terror de Roma, do escritor italiano Alberto Moravia. Veja mais detalhes aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O que você vê nas minhas fotos é que eu não tinha medo de me apaixonar por essas pessoas. Deve haver confiança no que se acredita. Se você se divide e tenta agradar a todos, é impossível. Não acredito na ideia de que você captura as pessoas quando as fotografa. O que faço é tirar um pedacinho delas. Se não tivesse a minha câmera para me lembrar constantemente que estou aqui para fazer isto, teria descarrilado, penso eu. Teria esquecido a minha razão de existir.
ANNIE LEIBOVITZ - A arte da fotógrafa estadunidense Annie Leibovitz, companheira da escritora Susan Sontag que se notabilizou por realizar retratos cuja marca é a colaboração íntima entre a retratista e retratado. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE RUMI
Nossa maior grandeza está na suavidade e ternura de nosso coração...
A do poeta, jurista e teólogo sufi persa Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (1207-1273) aqui e aqui.
&
LAURA DE PETRARCA
Bendito seja o dia, o mês, o ano,
A sazão, o lugar, a hora, o momento,
E o país de meu doce encantamento
Aos seus olhos de lume soberano.
E bendito o primeiro doce afano
Que tive ao ter de Amor conhecimento
E o arco e a seta a que devo o ferimento,
Aberta a chaga em fraco peito humano.
Bendito seja o mísero lamento
Que pela terra em vão hei dispersado
E o desejo e o suspiro e o sofrimento.
Bendito seja o canto sublimado
Que a celebra e também meu pensamento
Que na terra não tem outro cuidado.
LAURA NOVES – A bela e jovem condessa Laura Noves (1310-1348), foi o grande amor da vida do poeta italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Para ela, ele inventou o soneto e escreveu mais de três centenas deles e mais de duas dúzias de canções, reunidos nas suas obras Canzoniere e Trionfi. Veja mais aqui, aqui & aqui.

AMIGOS DA BIBLIOTECA
Nesta quarta teve realização mais uma reunião de andamento do grupo associativo Amigos da Biblioteca. Desta feita, debateram o professor e poeta Janilson Sales com o diretor da Biblioteca Fenelon Barreto, João Paulo Araújo, acerca da criação da comissão provisória que comandará o processo instituidor para constituição estatutária. Veja mais aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, outubro 05, 2017

FERNANDO PESSOA, BAUMAN, GEORGE ORWELL, PABLO PALAZUELO & JANILSON SALES

MUITAS & TANTAS VEZES - Imagem: arte do pintor e escultor espanhol Pablo Palazuelo (1916-2007) - Muitas e tantas vezes ajustei o relógio e esqueci, perdi a hora, passei do ponto. Ô cabeça oca essa minha. Não era desfaçatez, nem desconsideração, parecia mais que eu vivia no mundo da lua, tantas coisas remoendo no quengo de transbordar as ideias e não acertar uma sequer. Vai ser doido assim por aí, ora. Outras, saía com rumo certo e me perdia no caminho, via-me tonto, fazer o quê, juízo nos pés, até. Não era indolência nem má-vontade, pensamentos muitos revirando tudo, perdia a noção. Não conto das vezes em que sorri para não chorar, das tripas coração, pacientemente: queriam, teimavam, mesmo aos desnivelados pelo contra, enxergavam prós, condescendia, torcendo pelo êxito diante do fracasso, só arrependimentos dos temperamentais. Mesmo que depois restasse a covardia, a impostura, a insolência, isso no meio de um monte de adversidades, gestão de conflitos, só em palpos da aranha, procurando um buraco no chão pra me esconder, evadir de nunca mais voltar. Como é que fui me meter nessa, hem? Não entendia como o que era de bom alvitre, podia causar tanto desentendimento, muito menos o que na maior boa vontade podia chegar a ressentimentos irreconciliáveis. Não sei quantas fiz o que não queria prevendo o retrocesso, e mesmo sob protestos de minha parte, insistências além da conta, só para me ver livre do peditório, tudo certo. Por isso disse infinitamente não e por diversas e justas razões, tendo de aquiescer ao final. Depois, depois. Num disse? Era tarde, remediar, mais nada. Nenhuma culpa. Nenhuma certeza, contudo, sabia: cada qual, seus caprichos, seus percalços. Ah, a incompreensão, quanta gente menor que o próprio tamanho, tolerava, relevava. Pensava em ajudar, nem pediam, já mandavam ver e depois com o desacerto, aí eu era convocado para resolver o que sequer sabia feito, pelas minhas costas, o que é pior. Superei, sorri até, nada como o dever cumprido e a satisfação da solidariedade. A vida passa e o melhor é viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Milton Nascimento: Planeta blue na estrada do sol, Crooner ao vivo & Quem sabe isso quer dizer amor; da violinista russa Viktoria Mullova interpretando Tico tico de Zequinha de Abreu, Brasileirinho & Concert Violin Prokofiev; do guitarrista estadunidense Joe Satriani: The extremist & Surfing Wind the alien; e da excelente cantora, atriz, jornalista e produtora Marianna Leporace: Valsa brasileira, Paraíso, Fazer a mala, Perdido no meio das ondas, If, O velho e o mar & Dia a dia. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – Duplipensar: guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força, do romance distópico clássico 1984 (Nineteen eighty-four 1949, Companhia Editora Nacional, 1979), do escritor e jornalista britânico George Orwell (Eric Arthur Blair – 1903-1950), do qual destaco o trecho: [...] A voz da teletela estava ainda falando de prisioneiros, presa e matança, mas lá foraa gritaria diminuíra um pouco. Os garçons tinham voltado ao trabalho. Um deles aproximou-se com a garrafa de gin. Winston, imerso num sonho bem aventurado, não reparou quando lhe encheram o copo, Já não corria nem dava vivas. Estava de volta ao Ministério do Amor, tudo perdoado, a alma branca de neve. Estava na tribuna dos réus, confessando tudo, implicando todos. Ia andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol, acompanhado por um guarda armado. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão esperada. Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh mal-entendido cruel e desnecessário! Oh teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gin escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograda a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão. Veja mais aqui e aqui.

O PASSADO DE ONTEM PARA AGORA – Vivemos num mundo estranho. Mundo em que o editor da importante Harper’s Magazine aparece na CNN afirmando que a imprensa americana conspirou com o governo Bush, na construção de uma farsa – a farsa da ameaça iminente das armas de destruição em massa do Iraque, justificativa para a tomada de poder naquele país. Um mundo em que precisamos de alguém como Michael Moore e seu jornalismo humorístico para derrubar a linguagem oficialesca da imprensa e das salas de relações públicas e expor o grotesco por trás das decisões políticas e corporativas (agora mais do que nunca, com o acúmulo dos meios de comunicação nas mãos de poucos). Mundo em que o assento do poder parece ditar a política do Estado, e não as ideologias ou os votos do eleitorado. Estranho mundo em que há uma guerra eterna contra um inimigo invisível. [...]. A tendencia para o autoritarismo (de esquerda ou de direita) persiste em nosso mundo orwelliano de latifúndios midiáticos e de pressão para novos alinhamentos, agora em torno da guerra eterna contra o inimigo invisível do terrorismo. O grito de George Orwell para que nos acautelemos continua válido. Trechos extraídos do artigo As distopias de George Orwell (Cult, Ano VI, nº 71, 2003), do escritor Roberto Sousa Causo.

FRACASSO HUMANO –[...] Este século é muito diferente do século 20. Se compararmos o que eu vivenciei quando jovem, cheio de esperanças e expectativas, com o que vivencio agora, em retrospecto, comparando, revisando expectativas e esperanças, eu diria que estamos num estado de interregno. Esse é o termo que gosto de usar. No “interregno”, não somos uma coisa nem outra. No estado de interregno, as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando. Não temos ainda uma visão de longo prazo, e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão, uma é substituída por outra, as manchetes de hoje amanhã já caducam, e as próximas manchetes apagam as antigas da memória, portanto, desordem, desordem. [...] Trecho da entrevista concedida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), ao jornalista Marcelo Lins, do programa Milênio, da GloboNews. Veja mais aqui.

PECADO ORIGINAL
Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito à mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Poema extraído das Poesias de Álvaro de Campos – Fernando Pessoa (Ática, 1993). Veja mais aqui.

Veja mais:
A música de Milton Nascimento aqui e aqui.
A arte musical de Viktoria Mullova aqui.
A arte musical de Marianna Leporace aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A ARTE & ENTREVISTA DE JANILSON SALES
[...]
O que podemos esperar da vida?
Nada além de uma colheita do que semeamos.
Trecho do poema Semear, extraído da obra Viver Livre (Autor, 2013), do poeta e professor Janilson Sales. Veja a entrevista dele aqui e mais dele aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, agosto 25, 2017

PAULO MENDES CAMPOS, DEBUSSY, JESSIER, ELISEU PEREIRA, MULHER RURAL, JANILSON SALES & CÍCERO SANTOS

Livros, teatro & música infantis aqui.

DE POEMAS & ÓPERAS – (Imagem Loja Maçônica Fraternidade Palmarense, do artista Cícero Santos). - Numa certa manhã de um dia qualquer, tinha lá eu por volta dos meus 12 ou 13 anos de idade, entretido curiosamente com a audição na vitrola, de um álbum duplo com a antiópera Pelléas et Mélisande, do compositor francês Claude Debussy (1962-1918), indicação do meu primo-guru Afonso Paulo Lins, quando percebi a presença de um certo senhor na sala da minha casa. Voltei pra ele e disse: - Sim? Ao que ele insinuou: - Isso é...?!? – Debussy. -, respondi-lhe. – Sim. Você gosta de Debussy? Sim, gosto da música dele – falei com certa empáfia peculiar aos da minha idade -, mas não conhecia esta obra, nem sabia que ele compunha óperas. Já tinha ouvido outras de outros autores, como Wagner, Mozart, Berlioz, Verdi, Bizet, mas essa não. Aí ele me disse: - Vou ali conversar com seu pai e volto já. Você gostaria de ouvir algumas óperas? Tenho algumas comigo e gostaria de dividir com você, pode ser? – Sim -, disse-lhe, voltando à audição. Meia hora, mais ou menos, depois, ele retornou: - Já conversei com seu pai e acertei com ele que lhe pegaria depois no cartório pra gente fazer umas audições, está certo? Respondi positivamente e me despedi dele com um aperto de mão. Nem sabia quem era, recorri ao meu pai: - É o professor Eliseu, advogado amigo meu, cantor lírico, poeta, professor do Senai e de outras escolas daqui. Sim, sim. Tempos depois folheando a antologia organizada pelo poeta Juareiz Correya, Poetas dos Palmares, de 1973, vi dois dos seus poemas e fiquei sabendo que ele escrevia e publicava no jornal local A Notícia. Uma manhã, dias depois, ele chegava ao cartório, falando com meu pai: - Rubinho, permita que eu leve seu filho para umas audições? Sim, claro, professor. Ele, então, me levou até o carro e me conduziu para a Fazenda Cachoeira Dantas, na vizinha cidade Água Preta, enquanto me falava a respeito de uma ópera que rolava no toca-fitas do veículo. Chegando ao local, chamou-me e adentramos na casa grande da fazenda, até uma sala em que um certo senhor de idade ouvia atentamente uma ópera que eu não conhecia. Silêncio absoluto, só a música reinava até o final. Foi aí que o professor me apresentou ao deputado Joaquim Coutinho, que me olhou com surpresa com as palavras que me davam como ouvinte de ópera. – Tão jovem! -, disse ele. E entabulou uma conversa até chegar a hora do almoço, quando nos reunimos à mesa com perguntas sobre os meus compositores preferidos, ao que falei que gostava de boa música, sim, nomes, Beethoven, Mozart, Haydn, Häendel, muitos. O inquérito prosseguiu e eu tive que falar de obras pianísticas, sinfonias, mas não só, apreciando bossa-nova, xote, armorial, baião, rock, jazz, enfim, desde tenra idade eu sempre tive o ouvido colado no rádio e apreciava música de todo tipo. – Eclético -, disse o deputado pro professor, enquanto solfejavam um pro outro alguns trechos de valsas, concertos, sinfonias, algumas até eu já tinha ouvido. Depois do almoço nos despedimos e o professor me levou de volta pro expediente no trabalho. Isso se repetiu uma vez por mês ou a cada chegada do deputado à fazenda, mandando me chamar pelo professor para novas audições. Foi com isso que estreitei amizade com o professor Eliseu, com quem, tive o prazer de aprimorar meu conhecimento musical, vez que ele era integrante do elenco do Teatro de Ópera de Pernambuco, bem como dos mais diversos assuntos comprovando a sua erudição. Lembro bem da notícia do seu falecimento em 1979, fato que muito lamentei e que me trouxe à memória os últimos 6 anos, entre os quais, os momentos dos nossos encontros mensais regados à música e literatura. Lembro-me bem, certa vez, quando ele sacou um volume de folhas e recitou-me vários de seus poemas, entre eles Gênesis e Pelagia. Gostava da sua companhia, da impostação da voz ao recitar, nos solfejos e cantos à capela de trechos belíssimos de óperas, das instruções na introdução da teoria musical e, sobretudo, das brincadeiras eruditas – muitas que eu nem entendia direito o que queria dizer -, mas que me levavam às gargalhadas com o seu jeitão afetado de enfatizar determinadas palavras com o rigor prosódico que ele sabia imprimir, abrindo os olhos para flagrar o meu espanto e riso no final. Soube, durante as vezes que retornava dos nossos encontros, que ele era envolvido com política, assunto que jamais rondou nossas conversas, sempre levadas pelos prazeres da música e poesia, tão somente. Saudades de sua alegre pessoa e do seu tom professoral dedicado de instruir e esclarecer dúvidas que porventura rondassem meu olhar intrigado sobre qualquer coisa no andamento musical ou num verso, ou mesmo numa afirmação filosófica que fizesse. Saudades do professor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

PROJETO MUSEU DO HOMEM DO CAMPO

O Projeto Museu do Homem do Campo 2017, realiza exposição a partir de hoje na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, Palmares – PE. O projeto foi classificado no prêmio Educador Nota 10 e divulgado na revista Nova Escola (247-Nov, 2014), realizando exposições desde o ano da sua criação em 2013, na cidade de Xexéu – PE, com o objetivo de desenvolver pesquisas sobre fontes histórias da área, organizado pelo professor, psicopedagogo e poeta Janilson Sales, autor do cordel O dia em que choveu na terra dos poetas e dos livros de poesia Famosos Pés e Viver Livre.

A MULHER RURAL - A abordagem sobre a condição da mulher na sociedade envolve um vasto leque de questões e possibilidades. [...] a característica praticamente universal da desigualdade entre homens e mulheres, que se manifesta com maior ou menor intensidade segundo as condições históricas. [...] As circunstâncias que marcaram a organização das relações sociais, como a exclusão da mulher da linha de sucessão e de gestão do patrimônio da família, e as limitações impostas na área da educação, criaram condições para que as relações entre homens e mulheres fossem hierarquizadas. [...] A expansão do capitalismo no campo, particularmente na Zona da Mata, contribuiu para reduzir a agricultura familiar e as oportunidades de trabalho nesse âmbito. Em decorrência, cresce a luta pelo trabalho e se expandem as reivindicações pelos direitos sociais naquele meio, desde que o tipo de modernização adotado excluía pequenos produtores e estimulava a concentração fundiária. [...] Ao colocar-se no seio da luta pelo acesso à terra, a mulher adquire senso critico para rever princípios de vida que guiaram sua visão de mundo e dessa forma ameaçar a hegemonia da relação de gênero. [...] a luta movida para ocupar a terra tem profundo reflexo na questão de gênero. É possível introduzir mudanças nos espaços de dominação, começando pelos valores. A mulher (re)constrói a identidade de gênero no movimento de luta pelo acesso à terra. As mulheres do acampamento estão investindo na mudança de cultura e, através de sua história, estão construindo outra história de mulheres. Trechos extraídos da obra O protagonismo da mulher rural no contexto da dominação (Massangana, 2006), da pesquisadora Isaura Rufino Fischer. Veja mais aqui e aqui.

CORPO & CONSUMO -- O mundo começou sem o homem e provavelmente desaparecerá sem ele. Resultado de processos naturais, o homem é uma das manifestações do mundo. Faz parte, portanto, da natureza. Mas o homem não pode apreender o mundo tal qual ele é em sua objetividade: a percepção humana está limitada à sua humanidade, restringe-se às dimensões e ao alcance do olhar, do paladar, tato, olfato humanos... A percepção que o homem tem do mundo é irremediavelmente parcial: indissoluvelmente antropocêntrica, como é bovinocêntrica a apreensão do mundo por parte desses animais. [...] Cada cultura “modela” ou “fabrica” à sua maneira um corpo humano. Toda sociedade se preocupa em imprimir no corpo, fisicamente, determinadas transformações, mediante as quais o cultural se inscreve e se grava sobre o biológico. Arranhando, rasgando, perfurando, queimando a pele, opõem-se nos corpos cicatrizes-signos, que são formas artísticas ou indicadores rituais de posição social: mutilações do pavilhão auricular, corte ou distensão do lóbulo, perfuração do septo, dos lábios, das faces, decepamento das falanges, amputação das unhas, alongamento do pescoço, incrustações, apontamento dos dentes, extração dos mesmos, deformação cefálica, atrofiamento dos membros, musculação, obesidade ou magreza obrigatória, bronzeamento ou clareamento da pele, barbeamentos, cortes de cabelo, penteados, pinturas, tatuagens... Em suma, um sem-fim de práticas que se explicam por razões sempre sociais, de ordem ritual ou estética [...] Enfim, o meu corpo – sem que o possessivo contenha pleonasmo. Finalmente, todos com seus corpos: eis a utopia maior. Cada um com a sua originalidade, genuinidade, especialidade; cada um, então, com sua individualidade, com seus próprios limites, seu território à parte, que deve ser preservado. O direito de cada um começa onde termina o do outro: é por isso que, nas línguas das sociedades industrialmente desenvolvidas, devemos pedir desculpas ao interlocutor desconhecido, quando lhe dirigimos a palavra, quando tocamos involuntariamente em seu corpo ou em algo seu. É preciso não misturar e confundir as identidades individuais: no final do processo, não mais todos com seus corpos e suas sepulturas, mas com seus xampus, seus vestimentos, seus apartamentos, seus grilos, seus direitos, seus para-brisas, seus pneus, seus inconscientes, seus amores, seus tempos, seus, seus, seus... Enfim, o corpo meu, individual. Mas também o corpo banal, medíocre, corriqueiro, comum. O corpo “original”, da sociedade em que a originalidade, procurada por todos, banalizou-se. O corpo “extraordinário”, do mundo em que a excepcionalidade, buscada por cada um, se transformou em regra geral. O corpo “individual”, de um contexto em que a coisa mais comum e coletiva é exatamente o individualismo. [...] Trecho da obra Corpo e consumo: roteiro de estudos e pesquisas (PUC-Rio, 2012), de Everardo Rocha e José Carlos Rodrigues, destacando o pensamento do Dr. D. Hacket, acerca da saúde nos anos de 1925: [...] A saúde dos trabalhadores deve ser mantida e melhorada enquanto meio de produção... Frangos, cavalos de corrida, macacos de circo são alimentados, alojados, treinados e mantidos no mais alto nível de força física para assegurar um rendimento máximo em suas funções respectivas. O mesmo princípio se aplica aos seres humanos. Um aumento da produção só pode ser esperado dos trabalhadores se se atribuir uma grande atenção a seu ambiente físico e às suas necessidades.

CONTINHO – Era uma vez um menino triste, magro e barrigudinho, do sertão de Pernambuco. Na soalheira danada de meio-dia, ele estava sentado na poeira do caminho, imaginando bobagem, quando passou um gordo vigário a cavalo: - Você aí, menino, para onde vai essa estrada? – Ela não vai não: nós é que vamos nela. – Engraçadinho duma figa! Como você se chama? – Eu não me chamo não, os outros é que me chamam de Zé. Conto extraído da obra Crônica (Ática, 2002), do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991). Veja mais aqui.

GARANTO QUE FOI POR ELA QUE O MEU JUMENTO RINCHOU - Jumentinha viajada / de andar esquipador / melhor que égua baixeira / ou de andar andador / de trote baixo ou xotão / pelo rudado ou cardão / parece ruça na cor / é jumentinha donzela... / garanto que foi ela / que meu jumento rinchou! Poema extraído da obra Agruras da lata d’água (Bagaço, 2012), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino, autor de excelentes livros como Paisagem do interior (1998), Além de Paisagem do Interior (1998), Prosa Morena (2001), Política de Pé de Muro (2002), Bandeira Nordestina (2006), Berro Novo (2010), Papel de Bodega (2013), além dos infantis Chapéu Mau e Lobinho Vermelho e Miudinha, entre outros CDs e DVDs, acompanhado dos filhos que são os músicos Vitor Quirino (no violão) e Matheus Quirino (percussão).

Veja mais sobre:
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

DOIS POEMAS DE ELISEU PEREIRA DE MELO
GÊNESIS
Crise de paroxismos de luz / ofuscando seres vivos e inermes / cegando brilhos eternos de estrelas candentes, / espargindo reflexos de prata fundente. / Tudo é luz que se liberta de prisões hélias; / tudo é luz que fecunda coisas e gentes; / tudo é luz que germina óvulos dormentes; tudo é luz que amplia células viventes. / Uma vez te vi no clarão ofuscante / e eras uma intenção sem brilho e cor. / Toquei de leve o teu seio. / E foste envolvida pelas luzes ; de todos os arco-íris das regiões conhecidas e ignotas / e mais um mundo foi criado.
PELAGIA
Quando te conheci foi diante do mar. / A água no vai e vem da maré vazante / beijou os nossos pés nus aprovando o nosso amor / e retirou-se para observar e suspirar conosco. / Uma gaivota solitária passou sobre nossas cabeças / e grasnou desaprovando o nosso idílio / - por inveja ou ciúme talvez - / compreendi que fora traído por amor. / Depois o mar voltou em revolta / pois lá já não estávamos; / restava somente a forma do teu corpo sobre a areia. / Em fúria apagou a lembrança da tua presença / e voltou ao seu leito para repousar, / enquanto minha alma absorvia todo o seu desespero.
Poemas extraídos da antologia Poetas de Palmares (Palmares, 1973), organizada por pelo poeta e editor Juareiz Correya. Veja mais aqui.

A ARTE DE CÍCERO SANTOS
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...