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segunda-feira, setembro 30, 2024

MARIA RAKHMANINOVA, ELENA DE ROO, TATIANA LEVY, ABELARDO DA HORA & ABYA YALA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Triphase (2008), Empreintes (2010), Yôkaï (2012), Circles (2016), Fables of Shwedagon (2018), Bright Shadows (2019), Sama (2020), Circles Live (2021) e S.H.A.M.A.N.E.S (2022), da baterista e compositora francesa Anne Paceo.

 

Poema das estrelas noite afora... – Sou a inquietude das águas e recolho a poesia sorridente das estrelas na boca da noite. Tudo é tão diferente ao meu redor: agora persistem séculos esquecidos e quase desconheço a festa pelo alarido da tragédia. Tudo é tão distante e quase não há outro lado depois da descoberta. Prossigo, quem sabe onde possa respirar tranquilo, com meu cambalear claudicante às passadas nos ponteiros de relógios invisíveis e a marcação da vitalidade à decadência dos dias pela dança das ruínas do futuro, pelos escombros do passado, porque o presente tornou-se um gatilho imprevisível. As mensagens da má notícia propagam o tiro no alvo da sorte: o sangue escorreu no Barro Branco. O que são crianças pedintes e adultos estirados pelos semáforos da hora... Nenhuma violência se justifica: o lamentável expediente da guerra! Onde há ganância, a vida estrangulada. A zoada dos que querem chamar toda atenção, só aleivosia e escárnio; e nada é mais importante que a grana acumulando posses e sonhos nos meios suntuosos da soberba: o coração vive apenas do decote e o servilismo pro abuso, todos querem a vida do outro pra si. Meus olhos se foram com as lágrimas; minhas mãos, com o que perdi; meus pés, no que andei; e meu coração não tinha para onde ir porque meu corpo sacrificado sequer soube se haveria depois. O amor não se explica e escuto os sussurros da alma de todos que sou. Outros clamores ecoam insones: estão tão longe e os sinto ainda aqui bem perto. Um só segundo vale a vida inteira: apenas uma vírgula antes do silêncio. Até mais ver.

 

Malika Mokeddem: Eu acho que não há nada verdadeiro além de misturas. Todo o resto é hipocrisia e ignorância... Veja mais aqui.

Annie Leibovitz: Todos nós pegamos o que nos é dado e usamos as partes de nós mesmos que alimentam o trabalho... É um passaporte para pessoas, lugares e possibilidades... Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Stella Stevens: Fiz o melhor que pude com as ferramentas que tinha e as oportunidades que me foram dadas... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

MEU TIPO DE DIA: Eu gosto de um dia com um apito ventoso \ que arranca suas palavras uma rajada tempestuosa \ de um dia que golpeia, \ empurra e grita em seu rosto \ Um com uma explosão gelada para chicotear e picar \ suas bochechas que derruba, \ tropeça e trapaceia empurrando você \ para trás como um scrum de rúgbi \ Então grita por trás rugindo um vendaval \ chamando seu nome enquanto você corre, corre, corre \ com um mergulho para a linha.

PALAVRAS: Algumas palavras são simplesmente agradáveis \ como manteiga de maçã verde e gelo de limão azul \ ou travesseiros macios e musgosos \ por salgueiros sussurrantes e árvores de tamarindo \ em uma brisa quente de verão \ elas cantam na sua língua \ sem razão para ser algumas palavras \ apenas zumbem como o gato no seu joelho.

Poemas da premiada escritora neozelandesa Elena de Roo.

 

VISTA CHINESA - [...] A parte que tinha morrido era o meu corpo, e o meu corpo era o que estava mais vivo, gritando com a boca escancarada, os dentes à mostra. [...] Naquele momento em que quase morri, eu morri. [...] É desesperador quando a palavra não cola na imagem. Toda fenda é exasperante, mas esta dói no corpo. Eu tenho vontade de sair gritando, por favor, me deem a palavra certa, aí alguém diz, não existe, as palavras certas nunca existem, mas eu não acredito nisso, eu acho que para toda coisa existe uma palavra certa e se a gente falar falar falar uma hora a gente encontra. [...] Eu precisava tanto da presença das pessoas como da ausência delas. [...] Nunca vamos saber o que a vida teria sido se não fosse o que é. [...] Ouvi o silêncio, o deles e o meu. A certeza de que, por mais que eu falasse, nunca conseguiria expressar o turbilhão que havia dentro de mim, me trouxe também a certeza da solidão. A certeza de que somos sozinhos, não só eu, todos nós. [...] A loucura chega de uma vez ou vai chegando aos poucos?, isso é uma coisa que eu nunca entendi, se o louco nasce louco, se vira louco de um dia para outro ou se vai aos poucos virando louco, e quando é que a gente percebe que está ficando louca, ou que está quase lá, ou será que a gente nunca percebe, se a gente pergunta é porque ainda não é louca, eu me pergunto todos os dias se enlouqueci ou se estou enlouquecendo. [...]. Trechos extraídos da obra Vista Chinesa (Todavia, 2021), da escritora portuguesa Tatiana Salem Levy.

 

DENÚNCIA DA TRADIÇÃO ANTIGA - [...] Na manhã de 24 de fevereiro, o dia em que a guerra começou, fui trabalhar como de costume. Naquele dia, eu deveria dar uma palestra sobre estética. Entrei no auditório e percebi que simplesmente não conseguia respirar. Não conseguia dar uma aula — pela primeira vez em 15 anos. Ficou claro que nenhum dos estudantes sabia de nada ainda. A maioria deles, infelizmente, não lê mídia independente. Eu me dirigi ao público: 'Caros colegas, infelizmente, hoje é um dia terrível.' Eu disse a eles em termos gerais o que eu sabia. As quatro primeiras fileiras da plateia choraram. Aquela palestra acabou sendo meu canto do cisne, mas eu não percebi isso na época. [...] A universidade lentamente, mas seguramente, pisou no caminho da propaganda e do apoio a cada movimento do regime. Logo, os alunos começaram a ser tirados da sala de aula para aulas de propaganda política, censurados e verificados quanto à lealdade. [...] Percebi que não podia mais trabalhar em tal ambiente e não queria. Decidi pedir demissão. No entanto, a lei exigia que eu trabalhasse mais duas semanas. Os alunos me disseram que os líderes estudantis foram solicitados a relatar como eu estava usando mal minha posição. [...] Ultimamente, minhas pinturas me mantiveram ativa: sou formada em arte e posso vender minhas obras. Mas trabalhar em instituições de arte contemporânea como artista agora também é difícil por causa da censura. [...] Às vezes eu lavo o chão. As pessoas me provocam sobre isso, mas nunca fiquei envergonhada por isso. Quando eu estava escrevendo minha tese de doutorado, fiz muita limpeza, já que gastei todo meu salário em impressões. Eu poderia ter conseguido alguma ajuda financeira, mas sempre que eu me inscrevia, os superiores me faziam escrever "não" na pergunta "Você está escrevendo uma tese de doutorado?" Eles simplesmente não acreditavam que eu escreveria minha dissertação e a defenderia. Nenhum acadêmico está separado do que está acontecendo no país. [...] A sociedade está derrotada, esmagada e dividida. Ela continuará morrendo e perdendo seu povo. Mas talvez algumas pessoas tenham uma nova experiência de ativismo social por meio dessa experiência de pesar, e um novo underground se formará. Mas duvido que isso seja possível sob o poderoso regime atual. Com tudo tão sem esperança, é claro que estou pensando em ir embora. Mas então de novo: se alguém tomou conta da minha casa, por que eu deveria ser a única a ir embora? [...]. Trechos do artigo Uma antiga tradição soviética está de volta: a denúncia (RAAM, 2022), da filósofa e cientista social russa Maria Rakhmaninova, que passou a ser abominada por seu posicionamento contra a invasão russa à Ucrânia, que foi demitida da universidade, reacendendo uma antiga prática: a denúncia de pessoas que não são politicamente confiáveis.

 

CENTENÁRIO DE ABELARDO DA HORA

[...] Eu fui preso mais de 70 vezes. Inclusive fui preso no golpe militar, que eu fui Secretário de Educação de 5 prefeitos do Recife… Eu era da direção do Partido Comunista, quando lançamos a candidatura de Arraes a prefeito do Recife. [...] A minha arte, desde o começo, é feita de amor e solidariedade. A solidariedade eu dedico inteiramente ao povo sofredor, e à sua capacidade criativa. A capacidade criativa do povo, não é? E o amor eu dedico às mulheres. Eu faço uma série de mulheres em várias posições, dedicando à mulher grande parte da minha obra, e o meu amor é todo dedicado à mulher, através das minhas esculturas. A solidariedade que eu faço em defesa do povo, influenciado pelo povo e pela criação popular, e pela vida popular. [...].

Trecho da entrevista Diálogo literário: Abelardo da Hora, Abelardo de toda a gente (Vermelho, 2010), concedida pelo escultor, desenhista, gravurista, pintor, ceramista, professor e poeta Abelardo da Hora (1924-2014), ao jornalista e escritor Urariano Mota. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

&

ESCUELA LIVRE ABYA YALA – CURSOS

A Escuela Livre Abya Yala está com inscrições abertas para diversos cursos destinados aos indígenas de todo continente. Os cursos são: Visão Indígena – Produção de vídeo, ministrado por Yala Payayá e Nazareno Presentado; Os diferentes gêneros literários & formas diferentes de amar, por Luiz Alberto Machado e Mariela Tulián; Ilustração – memórias de amor para o futuro, por Horopakó Desana e Haylly Wichí; Diagramação de projeto, por Horacio Montes de Oca Ayala e Kadu Tapuya; e Comunicação com identidade, por Nazareno Presentado e Yala Payayá. Realização: Thidêwá & Red Abya Yala. Maiores informações aqui.

 

UM OFERECIMENTO:

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SANTOS MELO LICITAÇÕES

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Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

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Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

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VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

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Crônica de amor por ela aqui.


 


quinta-feira, outubro 03, 2019

LAURA DE PETRARCA, RŪMĪ, ROUGEMONT, ANNIE LEIBOVITZ, PLÍNIO MARCOS & AMIGOS DA BIBLIOTECA


LAURA DE PETRARCA - Nem sempre sincero, escrevo com sinceridade: esta mulher eu amei mais que o desespero. Quando a vi naquela manhã de abril, sexta-feira santa na catedral de Avinhão, cabelos aos ventos e a aura do amor, entre a epidemia da peste e a minha temporada solitária, era o oásis, refrigério do meu viver. Nela nenhum dia nem nenhuma noite era igual. O desejo de toda a gente e de todo o lugar, era a mulher dos meus sonhos real e viva entre portas abertas, trilhas desbravadas, todas as formas e cores do amor: o verde da Natureza, a chuva de flores, o murmúrio das águas, a sua serenidade de céu maior que a expressão dos raios solares, mais fascinante que as profundezas oceânicas, mais tentadora que os mistérios ocultos de tudo, maior que a grandeza infinita das galáxias. Era ela, a madonna Laura com seus jovens olhos resplandecentes, casta, modesta, gentil, láurea. Olhava nos meus olhos e eu todo deserto incendiado, insubmisso a me revirar pela ânsia de tomar sua mão, tocar-lhe as faces, ouvir a doçura de sua voz, afetos que me eram e são de uma alegria indescritível e toda derramada nos meus versos exclamatórios, minha prosa incontida, meu testamento antecipado, o meu desejo de glória: possuí-la e tê-la entre os meus braços e cantá-la por trezentos e dezessete sonetos inventados, vinte e nove canções com toda minha inquietude, dissabores, crises espirituais - o amor a queimar perene no Rerum vulgarium fragmenta, Il Canzoniere, e celebrada nas Rime sparse, tudo fiz para ela. Nem mesmo a coroação no Capitólio podia aplacar esse amor, a minha desgraça e as ruinas do mundo. Eu me retirei da vida e na clausura de Vaucluse, galguei até o Mont Ventoux e a paisagem alpina era ela amada e rodeada de primavera, a passear pelas ruas da cidade encarcerada, como se distribuísse felicidade, restituísse a longínqua pátria e apaziguasse a distância do tempo entre os que chegaram e os que partiram para nunca mais. Era ela e sempre o alento para meu coração asceta, vencedor e vencido, prisioneiro do passado, pioneiro do futuro, até me esquecia da corrosão do tempo, da contingência da morte, tudo ao mesmo tempo, nas lamentações de todas as vicissitudes do amor. Nada humano me era, então, mais estranho. E tudo isso perto dela podia e nem quer dizer nada, nem representar nada e eu revia pela milésima vez a cor do seu sorriso sobrevoado por toda maravilha vital, estonteante na minha fé inabalável e a maldição da descrença no reino dos vivos. Era a sua luz difusa que suavizava as tentações do meu coração atormentado, o que me fazia valer de todo entusiasmo amoroso entre o gozo de tê-la e o sofrimento de perdê-la, oh, obra-prima do Universo, me refugiava nessa Mulher sem véus, linda e assimétrica escultura viva, Vênus da carne pecaminosa do meu prazer, a alma da minha comunhão, que despertava desejos simultâneos e poderosos, maiores que a mim mesmo, irrefreáveis, indomáveis. E mais eu deveria louvar perseguindo suas pegadas no pântano do meu peito e ela era aquilo que será e sugeria coisas de outras coisas, sabe-se lá, o que possui e o que esconde por trás daquela formosura, a transpor plagas e eu que a vi, jamais esqueci e permanece na memória com a mesma vitalidade do primeiro dia, rara e bela enquanto se penteia à janela, para I Trionfi, tudo para ela, o Lamento do Mago e o meu apelo de paz diante de um mundo de aventureiros, a minha dor desse mundo no ser reluzente da amada, que traduzia os ruídos dissonantes de que a verdade não se encontra por aí, mas na profundeza da alma. Não tenho a capacidade de esquecer, vivi e vivo desde então o drama do grande amor: vivo nela e para ela na minha solidão com todos os seus fantasmas e sombras, titubeante diante do simulacro da realidade, enamorado eterno da mulher amada que habita viva todo meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A paixão é essa forma de amor que recusa o imediato, foge do próximo, quer a distância e inventa-a de acordo com as necessidades, para melhor se ressentir e exaltar. Esta definição abrange a maior parte dos verdadeiros romances, embora eu não aceite de modo nenhum as melhores obras que foi estabelecido incluir neste género literário, pois, independentemente da sua qualidade enquanto arte, da sua notoriedade ou do seu alcance humano, incluo apenas obras onde transparece, dominador, o arquétipo medieval de Tristão. [...]. Trecho extraído da obra Os mitos do amor (Horizonte, 2001), do escritor e ambientalista suíço Denis de Rougemont (1906-1985). Veja mais aqui.

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA – [...] II ATO (Pano abre, vão entrando Tonho e Paco. O primeiro traz um par de sapatos na mão nos bolsos, as bugigangas roubadas. Está bastante nervoso. Paco traz um porrete na mão e está alegre.) PACO— Belo serviço. TONHO— Você é um miserável! PACO— Não começa a encher o saco. TONHO — Não precisava bater no cara. PACO — Bati e pronto. TONHO — Agora a polícia vai pegar no teu pé. PACO — Os tiras não sabem quem foi. TONHO — O sujeito que levou a porrada sabe. PACO — Ele está estarrado. TONHO — Vai sarar e te entrega. PACO — Que nada! Aquele se acabou de vez. TONHO — Deus queira que não. PACO — Poxa, meu! Naquele nem Deus dá jeito. Mandei o desgraçado direto pras picas. TONHO — E a mulher? Esqueceu da mulher? PACO — Que tem ela? TONHO — Ela também viu seu focinho. PAGO — E daí? Eu também vi o dela. TONHO — Ela te entrega pros tiras. PACO — Eu quero que ela se dane. Ela não sabe onde eu moro. TONHO — Ela descreve o seu tipo e a polícia te acha. PACO — Poxa, tira não é bidu. Não acham ninguém. TONHO — Não, é? Quero ver quando eles te pegarem. PACO — Não me aporrinha, seu! A mulher tinha cara de fuinha, deve ser uma burrona. De corpo ainda quebrava um galho. Mas de cara era um bofe. Não vai descrever ninguém. TONHO — O único sabido é você. PACO — Eu sou mesmo. TONHO — Espera pra ver. Vai em cana direto. PACO — Se eu for em cana, quem se estrepa é você. TONHO — Quem dernibou o cara é que se dana. PACO — E foi legal pra chuchu. Poff... E o cara caiu que nem um balão apagado. TONHO — Podia ser muito fácil. Não precisava bancar o valente. PACO — Bancar o valente, o cacete! Dei pra valer. Sou mau paca. Pra mim, não tem bom. Você viu no parque. O cara se fez de besta, tomou o dele. TONHO — O cara não fez nada. Tomamos o que queríamos, era só vir embora. Não precisava bater. PACO — Bati. E daí? Vai se doer por ele? TONHO — Eu, não. Mas a polícia vai. PACO — Você me torra o saco com essa história de polícia. TONHO — Natural. PACO — Natural o quê? Você está é cagado de medo. TONHO — Claro. Eu não quero ser preso. PACO — Cadeia foi feita pra homem. TONHO — Não pra mim. PACO — Você é rôelhor que os outros? TONHO — Eu estudei. PACO — Bela merda! Pra levar a vida que você leva, tanto faz estar preso ou solto. (Pausa.)E tem um negócio: Se um cara fresco como você vai em cana, está perdido e mal pago. A turma se serve às tuas custas. Logo vira a Boneca de todos. Mas disso acho que você vai até gostar, porque é bicha mesmo. TONHO — Tomara que a polícia te pegue logo. PAGO — Já te falei que se me pegarem o azar é seu. TONHO — O meu negócio é leve. Uns três meses. Agora você fica apodrecendo lá. PACO — Não sei por que eu vou ficar mais tempo que você. TONHO — Eu sei. Você usou violência. É perigoso. Fica guardado. PACO — Você é o chefe. TONHO — Quem tem chefe é índio. PACO — No assalto do parque você era o chefe. TONHO — Não era chefe de coisa nenhuma. PACO — Claro que era, poxa! Você ficou aí berrando um cacetão de tempo: (Imita Tonho.) Eu é que mando! Eu é que mando! Na minha terra quem manda é o chefe. T0NHO — Canalha! PACO — É a mãe. TONHO — Nojento. PACO — Nojento é você, que quer tirar o ló da seringa. (Pausa.) TONHO — Deus queira que você não tenha machucado muito o cara. PACO — Não fica secando. Aquele morreu e fim. TONHO — Você quer que o cara morra? PACO — Claro, poxa! A porrada que dei foi pra matar. TONHO — Você é um animal. PACO — Vá à merda! [...]. Trecho do segundo ato da peça teatral Dois perdidos numa noite suja (Global, 2003), do dramaturgo, ator, escritor e jornalista brasileiro Plínio Marcos (1935-1999), escrita em 1966 e adaptada para o cinema por duas vezes, a primeira em 1970, dirigida por Braz Chediak, e, a segunda, dirigida por José Joffily, em 2002. O texto é inspirado no conto O terror de Roma, do escritor italiano Alberto Moravia. Veja mais detalhes aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O que você vê nas minhas fotos é que eu não tinha medo de me apaixonar por essas pessoas. Deve haver confiança no que se acredita. Se você se divide e tenta agradar a todos, é impossível. Não acredito na ideia de que você captura as pessoas quando as fotografa. O que faço é tirar um pedacinho delas. Se não tivesse a minha câmera para me lembrar constantemente que estou aqui para fazer isto, teria descarrilado, penso eu. Teria esquecido a minha razão de existir.
ANNIE LEIBOVITZ - A arte da fotógrafa estadunidense Annie Leibovitz, companheira da escritora Susan Sontag que se notabilizou por realizar retratos cuja marca é a colaboração íntima entre a retratista e retratado. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE RUMI
Nossa maior grandeza está na suavidade e ternura de nosso coração...
A do poeta, jurista e teólogo sufi persa Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (1207-1273) aqui e aqui.
&
LAURA DE PETRARCA
Bendito seja o dia, o mês, o ano,
A sazão, o lugar, a hora, o momento,
E o país de meu doce encantamento
Aos seus olhos de lume soberano.
E bendito o primeiro doce afano
Que tive ao ter de Amor conhecimento
E o arco e a seta a que devo o ferimento,
Aberta a chaga em fraco peito humano.
Bendito seja o mísero lamento
Que pela terra em vão hei dispersado
E o desejo e o suspiro e o sofrimento.
Bendito seja o canto sublimado
Que a celebra e também meu pensamento
Que na terra não tem outro cuidado.
LAURA NOVES – A bela e jovem condessa Laura Noves (1310-1348), foi o grande amor da vida do poeta italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Para ela, ele inventou o soneto e escreveu mais de três centenas deles e mais de duas dúzias de canções, reunidos nas suas obras Canzoniere e Trionfi. Veja mais aqui, aqui & aqui.

AMIGOS DA BIBLIOTECA
Nesta quarta teve realização mais uma reunião de andamento do grupo associativo Amigos da Biblioteca. Desta feita, debateram o professor e poeta Janilson Sales com o diretor da Biblioteca Fenelon Barreto, João Paulo Araújo, acerca da criação da comissão provisória que comandará o processo instituidor para constituição estatutária. Veja mais aqui, aqui e aqui.


quarta-feira, outubro 03, 2018

OSMAN LINS, JEUDY, RAFAEL ALBERTI, UNAMUNO, ANNIE LEIBOVITZ, CAMILLA CABELLO & MARACATU REAL DA VÁRZEA


SÓ FALTAVA ESSA! - Imagem: arte da fotógrafa estadunidense Annie Leibovitz. - Entre coisas acontecidas e inventadas, já vi muitas coincidências nesse mundo de meu Deus por aí afora e valha-me tudo quanto é de doidice e arrepios. Já ouvi de tudo quanto é de coisa sobrenatural, de ficar de orelha em pé com incidências que dão trabalho com acrobacias mentais para justificar como é que pode aquilo ter acontecido, as mais disparatadas razões sequer davam para imaginar o que deveras sucedeu. No meio disso, há quem tenha visto, não acredita em nenhuma delas, mas afirma que há, inclusive sortilégios, ou mesmo pretexto para uma boa pinoia ou deixar o temeroso insone. Por conta disso, há quem recorra a todo tipo de crendice para se ver livre dos desfortunios, tem quem adivinhe antes da hora, como quem não arrede o pé dos horóscopos, saque das ocultidões da astrologia, coisas do tipo inexplicáveis, impossíveis ou de outro mundo, coisas assim do inusitado, mesmo que não tenham sido lá essas coisas, alguma até são, outras nem tanto, só que foram e ainda espalham brasa entre incautos e desconfiados. Explicações existem, quase nem sempre aceitáveis, mas vá lá, tipo esconjuro, déjà vu, cilada, ou aquela de que Deus protege os bêbados, as crianças e os doidos; ou mesmo daqueles que tiram fino na morte, escapam incólume e não aprendem a lição. Na verdade, o que tem de gente descrente que chama na grande no ver pra crer e, ao mesmo tempo, cultua o apocalipse da besta fera dos religiosos e outras pragas, não tendo cabimento nenhum motejo, pois, eu mesmo sei de gente condenada à morte por doença terminal asseverada por médico gabaritado com todos os equipamentos disponíveis da ciência, que só garantia no máximo seis meses de vida pro aniquilado, e até hoje ele zanza por aí sorridente pra cima e pra baixo, de se dizer boquiaberto: ué, curou-se como? Mistério. Quantas com mais de um século de existência de aprontar no fumo e na bebida, sequer baixaram emergências a vida toda, somente sorrindo e não levando nada a sério, de só se ouvir: como é que pode, hem? Ontem mesmo um atleta parrudo, saudável, abstêmio e antitabagista, passou, acenou e saiu sorridente, teve um piripaque, caiu, morreu na flor da idade. Que coisa!?! Afora aquelas mais cavernosas que custam mesmo acreditar e que vem logo com a falação de praxe: acredite, se quiser. Na verdade, o que há de mesmo é que o barulho lá de fora é enorme e atrapalha os meus pensamentos, rouba minha concentração, me tira do sério, me deixa neurótico ou virado na porra, pronto pra desaforar por aí que tem muito parasita que se passa por gente bem vestida e educada, muares diplomados, chatos de galocha peritos em dar toque de arrodeio e ganhar dinheiro, armados da maior picaretagem de tão inescrupuloso, pronto para desancar reputações e sair na maior depois de picar a mula para lugar incerto e não sabido, pra voltar com a cara mais lisa como se nada tivesse acontecido e começar tudo de novo, no fuxico, na trama e danação, isso sim, isso custa acreditar, como se não aprendesse a lição ou jamais tenha lição alguma pra ser aprendida, o que passou, passou, e nada mais resta que seguir adiante à espera de um milagre que cairá do céu e tudo será resolvido, só assim, Deus na causa e valha-nos todos nós. Dramas e comédias, de amigos que se foram assim do nada, duns estropiados que ressuscitaram na hora do enterro, casos que pairam dúvidas, outros intrigantes, afinal o estrupício é que incomoda, ou como diz Leon Eliachar: “nem sempre dramas, nem sempre comédias, mas irremediavelmente humanos – qualquer semelhança, portanto, é aquilo que todos nós sabemos”. Ora, ora, só faltava essa do misterioso, ah, nunca! Tudo é tão natural na vida. Então, vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e compositora estadunidense de origem cubana, Camilla Cabello: Live Isle of Wight Festival, Live from Lollapalooza Argentina, Camila & Greatest Hits & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] As variações da ciência dependem das variações das necessidades humanas, e os homens de ciência costumam trabalhar, quer queiram, quer não, consciente ou inconscientemente, a serviço dos poderosos ou do povo, que lhes pedem confirmação de suas aspirações. [...] O conhecimento está a serviço da necessidade de viver... E essa necessidade criou no homem os órgãos do conhecimento... O homem vê, ouve, apalpa, saboreia e cheira aquilo que precisa ver, ouvir, apalpar, saborear ou cheirar ... Os parasitas que, nas entranhas dos outros animais, vivem dos sucos nutritivos por estes preparados, como não precisam de ouvir ou ver, não ouvem nem vêem ... Para estes parasitas não deve existir nem o mundo visual nem o mundo sonoro. [...]. Extraído da obra O sentimento trágico da vida (Educação Nacional, 1953), do filósofo, escritor e dramaturgo espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936). Veja mais aqui.

A SOCIEDADE TRANSBORDANTE – [...] A ética, o direito, a história são coordenadores e depositários de sentido que sustentam modelos de representação do mundo e de interpretação dos acontecimentos. Todavia, as relações com o mundo, com os outros, os modos de apreensão do espaço e dos objetos não parecem concordar com tal enquadramento simbólico. O desvio entre os discursos que dão sentido ao mundo ou à existência e a materialidade das coisas não cessa de crescer. [...] No processo generalizado de consumo, deixa de haver alma, sombra, duplo e imagem, no sentido especular. Já não existe contradição do ser, nem problemática do ser e da aparência. Dá-se apenas a emissão e a recepção de signos, abolindo-se o ser individual no interior desta combinatória e deste cálculo de signos [...] a atual sociedade não é, por conseguinte, transbordante de sentido porque dá em espectáculo a realidade, mas porque se situa além da espectacularização, porque neutraliza a oposição entre a realidade e os seus simulacros mediáticos. É por isso que a crítica da sociedade do espectáculo, a partir do desfasamento em relação a uma suposta realidade exterior que lhe servisse de referente, se tornou obsoleta e ingênua, visto ter passado a estar integrada no próprio sistema mediático e a servir de alimento ao próprio funcionamento das redes da informação. Os discursos sobre o “vazio”, sobre o “efémero”, sobre a “desrealização do mundo”, acabam por produzir uma negação estereotipada das angústias, das cóleras, das emoções, das tentativas de violência crítica…- como se o indivíduo não tivesse senão que assistir à sua própria desrealização. Pouco importa se é mera ilusão ou ficção. Cada um sabe que a ilusão permanece fundamental, existencial e que, neste sentido, perde praticamente o seu estatuto de ilusão tornando a emoção sempre possível [...]. Trechos extraídos da obra A sociedade transbordante (Século XXI, 1995), do filósofo, sociólogo e escritor francês Henri-Pierre Jeudy.

GUERRA SEM TESTEMUNHAS – [...] Hoje, porém, se ainda estou incerto quanto ao processo a seguir em minha exposição – ou em minha procura? – ocorre-me de súbito o ardil de confessar esta inatividade e referir ao mesmo tempo os fins da obra projetada. O que era obstáculo transforma-se em pretexto para agir; converte-se em literatura o que me impedia de escrever. Dêste modo, sem o fazer deliberadamente, ilustro o postulado gideano segundo o qual o escritor, longe de evitar ou ignorar suas dificuldades, nelas deve se apoiar. [...]. Trecho extraído da obra Guerra sem testemunhas (Ática, 1974), do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui

EQUIVOCOU-SE A POMBAEquivocou-se a pomba. / Equivocava-se. / Por ir ao norte, foi ao sul. / Acreditou que o trigo era água. / Equivocava-se. / Acreditou que o mar era o céu; / que a noite a manhã. / Equivocava-se. / Que as estrelas orvalho; / que o calor, a nevasca. / Equivocava-se. / Que tua saia era tua blusa; / que teu coração, sua casa. / Equivocava-se. / (Ela dormiu na beira / tu, no topo de um ramo). Poema do poeta espanhol Rafael Alberti (1902-1999).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa estadunidense Annie Leibovitz. 
Veja mais aquiaqui e aqui.

AGENDA
Maracatu Real da Várzea – 21 anos, 15/dez, 14hs, Praça Pinto Dâmaso – Av. Afonso Olindense, Recife – PE & muito mais na Agenda aqui.
&
De repente a crise, Carlos Eduardo Novaes, Nicandro Nunes da Costa, David Harvey, David Salle, O Trabalho & Ricardo Antunes, Desigualdade & Direitos & Elaine Rossetti Behring & Silvana Mara de Morais dos Santos, Antonio Carlos Nóbrega, Caroline Dale, Lee Ritenour & Rosana Simpson aqui.


segunda-feira, outubro 03, 2016

MONICA ALI, NIETZSCHE, JARDS MACALÉ, STIEGLER, MCLUHAN, SARAH GAVRON, ANGELA DE CASTRO GOMES, SILVANA GARCIA, KAR-WAI & MAGGIE CHEUNG, KURTZMAN & WILL, LEIBOVITZ, ARTUR BARRIO, DIMAGALHÃES, TEATRO NA RUA & QWIKI



INEDITORIAL: É PRECISO RESPEITAR AS DIFERENÇAS! - Salve, salve, gentamiga! Como ontem foi o Dia Internacional da Não Violência – coincidentemente, a gente teve votar pela escolha do governante municipal e os componentes das Câmara de Vereadores – e, por isso, passou em branco, mas, justamente por isso mesmo, trago, de cara, um trecho da minha Crença:  É preciso respeitar as diferenças e não se equiparar ao que é hostil das desavenças, lutar contra a mantença desigual que forja o algoz na força do poder irracional! Recado dado, ontem, também, foi dia do anjo da guarda – para alguns, está de férias; o meu, não, em dia e de plantão, acredito, apesar dos pesares já escapei de muitas, continuo escapando, graças! Já hoje é o Dia Mundial do Dentista, aquele que ganha com o nosso sofrimento por causa da nossa gulodice e da nossa indiscriminada forma de se alimentar – respeitando-se a higiene bucal, vixe, longe dos daquela bafo horroroso de anteontem! Contudo, vamos, então pras novidades: na edição de hoje o público e o privado na política brasileira pela historiadora Angela de Castro Gomes, a reflexão sobre a cidade de Marshal McLuhan, o pensamento do filósofo Bernard Stiegler, a música de Jards Macalé, a arte de Artur Barrio, a literatura de Monica Ali, a fotografia de Luiz Filho e Annie Leibovitz, o teatro de rua de Silvana Garcia, o cinema de Wong Kar-Wai, a Gaia Ciência de Nietzsche, as ilustrações de Harvey Kurtzman & Will Elder, a arte de Di Magalhães, a enciclopédia audiovisual Qwiki, Outubro Rosa & a croniqueta Paródia de mim mesmo. No mais, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá. Veja mais aqui.

Veja mais sobre
Por um novo dia, Daniel Goleman, Max Ehrmann, Yes, Truman Capote, Eugène Delacroix, Annie Leibovitz, Literatura Infantil, Patrícia França & A filha do rei do céu aqui.

E mais:
Riacho Salgadinho, Dee Brown, Pablo Neruda, Nelson Rodrigues, Tatiana Parra, Philippe de Broca, Jean-François Millet, Françoise Dorléac, Harvey Kurtzman, Literatura Infantil, Direito Ambiental & Recursos Hídricos aqui.
Manoel Bentevi, Sinhô, Marshal McLuhan, Andrea Camileri, Marcelo Pereira, Mario Martone, Giulia Gam, Anna Bonaiuto Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério! & Parafilias aqui.
A poesia de Bocage aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o Balde Tá Entupido, a Topada Leva a Merda Pro Ventilador aqui.
Ralf Waldo Emerson, Spencer Johnson, Monty Alexander, Gabriele Muccino, Nicolletta Tomas, Felipe Cerquize, História do Teatro, Nicoletta Romanoff, A escola, a sociedade e a formação humana, Onde há fumaça, há fogo & Folia Tataritaritatá aqui.
Fecamepa: o Brasil holandês aqui.

DESTAQUE: O PÚBLICO E O PRIVADO NA POLÍTICA BRASILEIRA
[...] valores atribuídos ao público e ao privado em nossa história. Sem dúvida, continua tendo curso o diagnóstico, há muito compartilhado, de que “sobra poder privado e falta poder público” no Brasil, uma sociedade domina por arranjos clientelistas e personalistas que datariam do “período colonial”. Porém, tais arranjos não se manifestariam apenas pelo “mandonismo local”, expresso nos “currais eleitorais dos coronéis” do interior e pelos viciados partidos de “notáveis”. Essa face “tradicional-privada” de nossa vida política estaria igualmente presente na atuação de um sistema partidário nacional e de massas, enraizado nos grandes centros urbanos mas considerado fraco e incapaz de representação legítima, sendo presa fácil dos sempre existentes “políticos profissionais”. Continuidades e descontinuidades, todavia sem maiores alterações no que diz respeito à fraqueza organizacional da sociedade civil, de um lado, e à sua força privatista e desagregadora, de outro. O que passa a se associar a essas postulações, tornando-as complexas mas não eliminando sua presença e trânsito, é um outro tipo de diagnóstico que inverte os termos da equação. Ele acusa os excessos do poder público, também localizados em nosso passado colonial e ibérico, de ser a raiz de nossas mais políticos. Tais “excessos de público” estariam se atualizando de forma poderosa na força e autonomia da nova tecnoburocracia, bem como na tutela estatal sobre os sindicados, entre outros exemplos. [...].
Trecho extraído de A política brasileira em busca da modernidade: na fronteira entre o público e o privado, da historiadora Angela de Castro Gomes, da obra História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea (Companhia das Letras, 1998), organizado por Lilia Moritz Schwarcz e aglutinando intelectuais de diferentes campos de conhecimento por meio de relações interdisicplinares, ampliando a ressonância de pesquisas isoladas e propiciando um diálogo para investigar os contornos que o Brasil adquiriu a partir da década de 1930. Veja mais aqui.

CANTO PARÓDIA DE MIM - Há já algum tempo eu canto veias abertas, vísceras expostas, como quem morre eletrocutado por minhas emoções exaltadas, língua afiada no que não acontece por falta de inventividade na precariedade de iniciativa ou por submissão à realidade degradante da existência, quando só as repetições abundam e se misturam aos estalos dos desabamentos do que não existe mais. De algum modo eu canto como quem corta os pulsos da incompletude que me impede de virar a página do presente, investindo todas as fichas como quem morre a cada segundo e me molho na chuva torrencial sobre as terras das remembranças, como águas que esborraram o dique, como fogaréu na madeira de todas as fachadas com seus tapumes embelezados que balançam ao vento para esconder os escombros que reproduzem o patético sonho perdido. Os rumores chegam no som que trepida e canto como quem se entope do veneno da indiferença e sou alheio a tudo das caras fechadas como se fossem canhões prontos para disparar as ausências preenchidas com o que me parece algo de inquietante no ódio recolhido contra a insignificância do meu silêncio. Pelas terras de ninguém meu ritual de passagem, viajante por muitas estradas, todas, eu enveredo pelas catracas dos sisudos e pelas próteses dos que fabricam suas falhas e eu canto visionário com meus olhos de águia como quem se enforca com seus próprios versos acumulados que se avolumam para me estrangular com a arrogância dos janotas e a me degolar com as bobagens pantagruélicas dos proselitistas rasteiros metidos a besta em seus pedestais de vento e a me afogar como uma plataforma afundada com todos os sonhos que teimam ao desamparo do logro umbrático, tentando a pulso chegar à superfície. Eis que retornei antes que chegassem as surpresas e eu canto como quem prende a respiração para entoar a minha canção no barulho da insônia, como se condenado em posição de sentido carregasse minhas olheiras sobre a destruição estimulada pela tirania das horas, sem ter o direito de decidir o que me chega aos olhos ou aos ouvidos, espremido entre as aversivas antipatias e o volapuque dos afetos pisoteados. Talvez fosse melhor nem cantasse, mas eu canto assim mesmo como quem fosse atropelado pela avalanche de tudo que se dizima quando amanhece um dia maio, um dia de feira nas cinzas, pouco importando se vivo ou morro, se houvesse um mínimo sensatez seria eu abrigo pra mim mesmo e a quem chegasse abraço largo para o refrão que agora faço da canção como quem se joga pela janela para ganhar a liberdade do outro que não encontro mão amiga e ninguém presta atenção ao desfecho da tragédia negligente. E se me ignoram sigo adiante, o meu canto à viola, o meu refúgio na poesia do visinvisível e do que aprendi com meus erros e sou reincidente. Não resisto à tentação, faço, desfaço, refaço e se me ignoram, salvo engano, é porque só estamos juntos nos desapontamentos, indiferente que sou ao frenesi do consumo. E eu canto e ninguém entende muito bem o que é, como acontece com tudo de desimportante na vida. Alguma surpresa do improvável que voa como borboleta ou pica como uma abelha, a sonhar para triunfar sobre a vida – um sonho a mais, nada demais; e cantar para triunfar sobre o tempo – um canto qualquer, um canto de paz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

UMA MÚSICA: 
Curtindo o box Jards Macalé anos 70, reunindo os quatro cds lançados na década de 1970, pelo cantor, compositor e ator Jards Macalé. Veja mais aqui, aquiaqui

 
Imagem: Ópera do Arame, do artista plástico DiMagalhães.

UMA REFLEXÃO SOBRE A CIDADE: [...] A cidade, em si mesma, é tradicionalmente uma arma militar, um escudo ou armadura coletiva, uma extensão do castelo de nossa própria pele. Antes do amontoamento urbano, tivemos a base do caçador à cata de comida; agora, na era da eletricidade, o homem volta, psíquica e socialmente, ao estado nômade. Só que agora a fase se caracteriza pela cata de informações e pelo processamento de dados. É um estado global, que ignora e substitui a forma da cidade – que tende a se tornar obsoleta. Com a tecnologia elétrica instantânea, o próprio globo não passará de uma aldeia e a própria natureza da cidade, enquanto forma de grandes dimensões, deve inevitavelmente dissolver-se como numa fusão cinematográfica. [...] A cidade, como o navio, é uma extensão coletiva do castelo de nossa pele como a roupa é uma extensão de nossa pele individual. [...]. Trecho extraído da obra Os meios de comunicação como extensões do homem (Cultrix, 1964), do educador, filósofo e teórico da comunicação canadense Marshal McLuhan (1911-1980). Veja mais aqui e aqui.


Imagem: a enciclopédia audiovisual Qwiki.

PERNSAMENTO DO DIA: [...] a tendência não vem simplesmente de uma força organizadora que seria o homem [...] ela opera por seleção de formas numa relação do ser viver humano com a matéria que ele organiza e pela qual ele se organiza, onde nenhum dos termos desta relação tem o segredo do outro [...]. Trecho extraído da obra La technique et le temps (Galilée, 1994), do filósofo francês Bernard Stiegler.


Imagens: a arte do performático artista plástico luso-brasileiro Artur Barrio.

UMA LEITURA: UM LUGAR CHAMADO BRICK LANE – O romance Um lugar chamado Brick Lane (Rocco, 2004), da escritora britânica nascida em Bangladesh, Monica Ali, conta história de uma jovem que se muda de Bangladesh para Londres, devido casamento arranjando e que, por conta disso, inicia uma correspondência sobre a descoberta de diferentes culturas com a sua irmã no local de origem. Da obra destaco o trecho: Ela ajudou a despir-se. Sentiu que não havia nada que ela não fosse capaz de fazer. Ela o puxou para dentro de si, não com paixão mas com ferocidade como se fosse possível perder e ganhar tudo naquele único ato. Ele pôs a mão sobre a garganta dela e ela quis tudo [...] sentir a mão dele apertá-la e extingui-la, ouvir Chanu entrar e ver o que era, a esposa dele. [...]. A obra foi adaptada para o cinema em 2007, com direção de Sarah Gavron. Veja mais aqui.


Imagem: Roda de teatro de rua no Recife, do fotógrafo Luiz Filho, no IX Festival de Teatro de Rua do Recife.

TEATRO NA RUA – [...] produzir um teatro atraente que correspondesse à realidade dessas populações. Esse teatro, portanto, deveria ser popular, no sentido de uma linguagem acessível e de conteúdos que "falassem de perto" ao homem da periferia. Essa vinculação com o social descartaria o teatro como mero entretenimento e determinaria um compromisso de solidariedade do produtor com os problemas e necessidades dessas populações periféricas (compostas, de um modo geral, por operários, pequenos comerciantes, empregados do setor do comércio e do setor bancário, funcionários sem qualificação e empregadas domésticas, muitos dos quais moradores de favelas). [...] Itinerando pelos bairros, movidos pelo desejo de alcançar uma comunicação eficiente com esse público de periferia, levavam espetáculos, na maioria, precários de produção e de qualidade artística. Teatro pobre strictu sensu, apresentavam-se onde fosse possível, nas condições deficientes que a comunidade pudesse oferecer - salões adaptados, pátios de escolas, ao rés-do-chão em qualquer espaço consentido. [...] Por outro lado, vemos atualmente ressurgir o movimento de teatro universitário e uma nova modalidade de produção artística, que poderíamos chamar de "teatro comunitário": um trabalho realizado no seio de uma comunidade (bairro, quadra, casa de cultura municipal), envolvendo-a como um todo, com uma orientação mais próxima de uma proposta pedagógica de arte-na-educação do que qualquer intenção político-militante. [...]. Trecho extraído do artigo Estética e política no teatro paulista doas anos 70-80,  da professora, pesquisadora, dramaturga e escritora Silvana Garcia, autora do livro Teatro da militância (Perspectiva, 1990). 

 AMOR À FLOR DA PELE – O premiado filme Amor à flor da pele (Fa Yeung Nin Wa, 2000), dirigido e escrito por Wong Kar-Wai, é baseado numa canção de Zhou Xuan e conta a história que se passa nos anos 1960, em Hong Kong, quando um jornalista se muda com a esposa para um novo prédio, onde conhece uma bela secretária, a qual ele se aproxima depois que ambos descobrem que seus cônjuges vivem um romance. O destaque fica por conta da atuação da belíssima atriz chinesa Maggie Cheung.


Imagem: Little Annie Fanny, arte do cartunista Harvey Kurtzman (1924-1993) e do ilustrador Will Elder (1921-2008).

AGENDA: COLÓQUIO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA E EDUCAÇÃO – Acontece de hoje até o próximo dia 07 de outubro, no Rio de Janeiro, o Oitavo Colóquio Internacional de Filosofia e Educação, desdobrado pelo Núcleo de Estudo de Filosofias e Infâncias (NEFI-UERJ), com a proposta de discutir a temática Mundos que se tecem entre nosotros: o ato de educar em uma língua ainda por ser escrita. Veja mais aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] no tocante à receita de todos esses médicos de almas e sua recomendação de uma cura dura, radical, é permitido perguntar: é esta nossa vida efetivamente dolorosa e pesada o bastante, para trocá-la com vantagem por um modo de viver e uma petrificação estóicos? Não estamos passando mal o bastante para termos de passar mal à maneira estóica.
Os médicos de almas e a dor, trecho extraído do Livro IV, da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: a comediante Amy Schummer na arte da fotógrafa  estadunidense Annie Leibovitz.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...