sábado, outubro 14, 2017

ÍTALO CALVINO, ARENDT, NIETZSCHE, CECÍLIA KERCHE, CUMMINGS, WOLF VOSTELL, RENATO JANINE, MAKABRESKU, O SOL & A LUA.

O SOL E A LUA - No tempo em que o Sol e a Lua eram gente, certo dia, o curumin caeté Fiietó brincava de caçar na mata, quando encontrou uma linda menina e se aproximou dela: Você está brincando de caçar? Tô não, tô perdida. Perdida? Sim, saí atrás de uma linda bobroleta e perdi o caminho de volta pra casa. Onde você mora? Não sei, estou perdida. Qual a sua tribo? Sou caingang. Nunca ouvi falar. Acho que corri demais atrás da borboleta de não perceber tão longe que fui. E você, é de qual tribo? Ah, sou caeté. Nunca ouvi falar, também. E agora? Não sei, estou perdida. Vamos brincar por ali pela lagoa, aí você, quem sabe, não encontra o caminho de de sua casa, hem? É, vamos. Como é seu nome? Iaravi. E o seu? Fiietô. Ah, tá, vamos pra lagoa? Vamos. E saíram os dois até chegarem à lagoa e ficaram brincando de mergulhar com os peixes. Pulavam, timbungavam, maior festa. Vamos ver de nós dois quem atira cipó mais longe dentro d’água? Nunca brinquei disso. Ah, porque você é menina, não sabe como é brincar coisa de menino. É, então vamos, quero aprender. E ficavam pegando gravetos e cipós no chão da mata e jogavam dentro d’água. Os peixes pulavam pra pegar as coisas jogadas no ar. Virou uma competição. Aí Fiietó gritou: Saiam, não é pra vocês pegarem, estamos apostando quem joga mais longe. Ah, os peixes nem deram conta, pulavam mesmo assim e interceptavam tudo no ar. Vocês estão atrapalhando nossa brincadeira! Ah, deixa, eles estão brincando com a gente, vamos nadar com eles? Então, vamos. E saíram nadando com os peixes e estes, para provocar os dois, ficavam apenas com o rabinho fora d’água só pra provocá-los a virem nadando atrás deles. Iaravi ia prum lado atrás dos que via, Fiietó ia pro outro com o mesmo objetivo. Tanto foram pra lados opostos que se distanciaram e, quando menos esperavam, esbarraram um no outro. Eita! Batemos com a cabeça. Foi. Estou cansada com esses peixes, eles me botaram para nadar muito. Eu também, vamos voltar pra margem? Vamos. E retornaram, ficaram olhando o brinquedo dos peixes pulando fora d’água e se riam muito com isso. Já estava escurecendo quando Iaravi ficou preocupada em voltar: E agora? Como volto pra casa? Ah, a gente se esqueceu de procurar o caminho, vamos ver se a gente encontra. Saíram, andaram, andaram, nada de Iaravi achar, quando Fêetó resolveu levá-la pra tribo dele. Lá chegando os dois se juntaram aos demais, cearam e foram dormir. No outro dia acordaram, tiraram o jejum e foram ver se achavam o caminho de volta pra casa dela. Foram pra mata e lá começaram a brincar de esconde-esconde, o que é que é, até que encontraram uns pica-paus e ele pediu um chapéu daquele cor de fogo feito os deles. Logo um dos pica-paus retirou um e deu pra ele, fazendo-o de leque. Bonito? Sim. E pra ela? Outro pica-pau deu um pra Iaravi. Eu estou bonita agora? Está. Vamos? Vamos. E ambos brincaram comos pássaros, de pula-pula e correr e voar. Lá pras tantas os pica-paus se despediram e foram embora, eles estavam felizes com os leques feitos chapéus cor de fogo na cabeça. Ah, agora você se faz de cega preu brincar de lhe guiar pela mata, tá bom. Nessa brincadeira ela muito tropicou nos galhos quebrados e secos, nas raízes e muitas pedras, a ponto de invocar-se e não querer mais brincar disso não. Ao abrir os olhos avistou uma casa de marimbondos. Vixe! Vamos embora, corre, olha ali uma casa de marimbondos. Era tarde, correram tanto que findaram mergulhados dentro da lagoa. Alguns peixes pularam e comeram alguns dos marimbondos que não resistiram e foram embora. Visse? Não fosem os peixes, a gente ia morrer afogado. Era mesmo, ainda me ferraram. E Fiietó realmente constatou inchaço nas faces e nas costas de Iaravi. Está doendo? Está. Vamos lá pra minha tribo cuidar disso. E voltaram. Chegaram lá, foram pro feiticeiro que passou uns ungüentos na pele de Iaravi e lhe deu um remédio para beber, demorou um pouquinho, a dor passou, mas continuava com a face e as costas inchadas. Ela então se deitou no chão da oca e ali adormeceu. Será que ela vai ficar boa? Vai, é só efeito do remédio que eu dei, logo ela acorda e volta a brincar com você. No outro dia Iaravi acordou e foram brincar de esconde-esconde de novo, ela tanto se escondeu que Fiietó não mais encontrou. Perdeu-se, sumiu-se. Caçou ele por tantos lugares e lonjuras, não mais encontrou Iaravi. Ele ficou muito triste, estava com saudades dela. Encostou-se numa pedra perto da lagoa e logo os peixes apareceram pulando na água. Ela desapareceu, não achei mais não. Queria era crescer, ficar grande, para encontrá-la. Quem sabe, ela esteja perdida na mata. Nessa hora um peixe deu um pulo maior e com um toque de barbatanas fez Fiietó crescer, agora um rapaz forte, bonito, guerreiro. Obrigado, amigos peixes, agora vou procurar Iaravi, se vocês encontrarem me avisem, viu? Vamos. E saiu morro acima, montanha abaixo, terras distantes nunca vistas. Bem distante dali, estava Iaravi soluçando na beira de um rio distante, quando os peixes pularam foram d’água. Ah, amigos peixinhos, que bom encontrar vocês por aqui. Viram Fiietó? E um dos peixes pulou, bateu a barbatana e Iaravi cresceu, tornando-se uma linda cunhã. Os peixinhos ficaram pulando como se a chamassem para nadar. Vocês sabem onde está Fiietó? Eles mais pulavan, ela entendeu que era pra segui-los. E ela nadou dias e noites. E Fiietó procurou por ela noites e dias. Cansavam, descansavam, tornavam a procurar um pelo outro, ao cabo de uma semana, quando ambos já haviam perdido as esperanças, sentaram cada qual na beira oposta de um grande rio, extenuados e sem mais esperanças. Estavam desapontados por não reencontrarem um ao outro. Ela olhava tudo ao redor, o céu, a terra, o mato, quando percebeu os peixes pulando de novo e não entendia. Vieram os pica-paus em bandos cantando, ah, os amiguinhos pica-paus, que vocês querem? Não entendia. Da mesma forma, na outra margem do grande rio, também os peixes e os pica-paus faziam o mesmo com Fiietó e ele não entendia. O que vocês querem? Os peixes mais pulavam e os pica-paus mais bicavam no ar, como se mandando ele a segui-los. E assim foi, ele mergulhou no grande rio e pôs-se a nadar acompanhando os peixes e os pássaros. Lá longe Iaravi avistava outros pica-paus voando aos pulos dos peixes na água, enquanto os que estavam com ela aumentavam no bater das asas e nos pulos na água. Demorou pra ela perceber umas braçadas firmes de gente na água, acompanhando os pulos dos peixes e o vôo dos pássaros, vindo em sua direção. Mais um pouco os braços se aproximavam e os pica-paus que vinham se encontravam com os outros que estavam com ela e, na água, aumentou em muito os pulos com muitos peixes até a chegada dele na beira do rio. Era Fiietó. Ela ficou feliz. Fiietó? Iaravi? Era o reencontro. E se abraçaram, se beijaram e juraram nunca mais se afastarem um do outro. Tanto é que passaram a tomar conta do mundo, ele de dia passou a ser o soberano Sol brilhando do amanhecer até o final das tardes, e ela, de noite, tornou-se a radiante Lua com suas fases para iluminar o caminho dos que se perdem. (Recriação a partir das lendas indígenas amazônicas recolhidas de Notícia dos Ofaié-Xavante (Revista Museu Paulista, 1951), de Darcy Ribeiro, e Os apinajé (Boletim do Museu Paraense Emiolio Goeldi, 1956), de Curt Nimuendaju). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor, regente orquestral, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): O anjo esquerdo da história, Alegres trópicos - um baile na mata atlântica & Qualquer música; a saudosa cantora Elis Regina (1945-1982) ao Vivo, em Montreaux & Trem azul; do multi-instrumentista, músico, compositor e ativista nigeriano Fela Kuti (1938-1997): Afordisiac, Go slow & Gentleman; e da cantora Irah Caldeira: Flor do dia, Quero ter você, A natureza das coisas, Sem segredo & Avoante com Santanna, o Cantador. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Houve também quem, embora literato da cabeça aos pés, não sentiu nenhum complexo de inferioridade diante da história, mas, antes, teve certeza de que foi ele a nutri-la e enriquecê-la com toda a sua fantasia e cultura. Trecho de Assunto encerrado (Companhia das Letras, 2009), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

TEMPOS SOMBRIOS - [...] Em nossa época, parece-me, nada é mais dúbio do que nossa atitude em relação ao mundo, nada menos assente que a concordância com o que aparece em público, imposta a nós pela homenagem, a qual confirma sua existência. Em nosso século, mesmo o gênio só pôde se desenvolver em conflito com o mundo e o âmbito público, embora, como sempre, encontre naturalmente sua concordância própria particular com sua platéia. Mas o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre as pessoas, e esse espaço intermediário — muito mais do que os homens, ou mesmo o homem (como geralmente se pensa) — é hoje o objeto de maior interesse e revolta de mais evidência em quase todos os países do planeta. Mesmo onde o mundo está, ou é mantido, mais ou menos em ordem, o âmbito público perdeu o poder iluminador que originalmente fazia parte de sua natureza. Um número cada vez maior de pessoas nos países do mundo ocidental, o qual encarou desde o declínio do mundo antigo a liberdade em relação à política como uma das liberdades básicas, utiliza tal liberdade e se retira do mundo e de suas obrigações junto a ele. Essa retirada do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; ele pode inclusive cultivar grandes talentos ao ponto da genialidade e assim, através de um rodeio, ser novamente útil ao mundo. Mas, a cada uma dessas retiradas, ocorre uma perda quase demonstrável para o mundo; o que se perde é o espaço intermediário específico e geralmente insubstituível que teria se formado entre esse indivíduo e seus companheiros homens. [...] Bem, a esse respeito, os últimos trinta anos dificilmente trouxeram algo que se pudesse chamar de novo. [...]. Trechos da obra Homens em tempos sombrios (Companhia das Letras, 2008), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS & A MORAL - [...] sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? E que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indícios de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro? [...] Já em princípio a palavra “bom” não é ligada necessariamente a ações “não egoístas”, como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que esta oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe mais à consciência humana. [...] Na origem, toda a educação e os cuidados do corpo, o casamento, a medicina, a agricultura, a guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os homens e as relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade: esta exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si mesmo como indivíduo. [...] Em toda a parte onde existe comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a ideia de que a punição pela violação dos costumes recai em primeiro lugar sobre a própria comunidade. [...] Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular, contar confiar – para isso, o quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! [...]. Trechos da obra Genealogia da moral: uma polêmica. (Companhia das Letras, 1998), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ENSINO & ESCOLHASVivemos uma enorme demanda de conhecimento qualificado, cientifico, acadêmico. Isso é ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. [...] O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é democrática, a oferta nem tanto. [...] Da cabeça aos pés, cada um de nós veste a ciência que não existia cinco anos atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo. [...] Num país preconceituoso com o conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num instante ouviria 101 machados retumbando!), isso é formidável. A universidade também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a sociedade – inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais ou não. Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa necessidade. [...]. Trecho do artigo A corrida do ensino: a crise da universidade e a voga dos cursos de extensão (Bravo, março 2005), do filósofo, escritor e professor da USP, Renato Janine Ribeiro.

A ARTE DE CECILIA KERCHE
A arte da bailarina Cecília Kerche.

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DOIS POEMAS DE E. E. CUMMINGS
I
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão….
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela….
o que é isso que o realejo toca
II
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
Recita
sobre a sua
carne
as pérolas
da chuva uma a uma murmurando.
Poemas extraídos da obra Livro de poemas (Assírio & Alvim, 1999), do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Tradução de Cecília Rego Pinheiro. (Imagens: arte da fotógrafa polonesa Laura Makabresku). Veja mais aqui.

A ARTE DE WOLF VOSTELL
A arte do pintor, videoartista e escultor suíço Wolf Vostell (1932-1998).
 

MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...