
RÁDIO
TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio
Tataritaritatá
especiais com a música do compositor,
regente orquestral, professor e jornalista Gilberto
Mendes (1922-2016): O
anjo esquerdo da história, Alegres trópicos - um baile na mata atlântica &
Qualquer música; a saudosa cantora Elis
Regina
(1945-1982) ao Vivo, em Montreaux & Trem azul; do multi-instrumentista,
músico, compositor e ativista nigeriano Fela
Kuti (1938-1997): Afordisiac, Go slow & Gentleman; e da cantora Irah Caldeira: Flor do dia, Quero ter
você, A natureza das coisas, Sem segredo & Avoante com Santanna, o
Cantador. Para
conferir é só ligar o som e curtir.
PENSAMENTO DO DIA - Houve
também quem, embora literato da cabeça aos pés, não sentiu nenhum complexo de
inferioridade diante da história, mas, antes, teve certeza de que foi ele a
nutri-la e enriquecê-la com toda a sua fantasia e cultura. Trecho de Assunto encerrado (Companhia das Letras,
2009), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.
TEMPOS SOMBRIOS - [...] Em nossa época,
parece-me, nada é mais dúbio do que nossa atitude em relação ao mundo, nada
menos assente que a concordância com o que aparece em público, imposta a nós
pela homenagem, a qual confirma sua existência. Em nosso século, mesmo o gênio só
pôde se desenvolver em conflito com o mundo e o âmbito público, embora, como sempre,
encontre naturalmente sua concordância própria particular com sua platéia. Mas
o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre
as pessoas, e esse espaço intermediário — muito mais do que os homens, ou mesmo
o homem (como geralmente se pensa) — é hoje o objeto de maior interesse e
revolta de mais evidência em quase todos os países do planeta. Mesmo onde o
mundo está, ou é mantido, mais ou menos em ordem, o âmbito público perdeu o
poder iluminador que originalmente fazia parte de sua natureza. Um número cada
vez maior de pessoas nos países do mundo ocidental, o qual encarou desde o
declínio do mundo antigo a liberdade em relação à política como uma das
liberdades básicas, utiliza tal liberdade e se retira do mundo e de suas
obrigações junto a ele. Essa retirada do mundo não prejudica necessariamente o
indivíduo; ele pode inclusive cultivar grandes talentos ao ponto da genialidade
e assim, através de um rodeio, ser novamente útil ao mundo. Mas, a cada uma
dessas retiradas, ocorre uma perda quase demonstrável para o mundo; o que se
perde é o espaço intermediário específico e geralmente insubstituível que teria
se formado entre esse indivíduo e seus companheiros homens. [...] Bem, a esse respeito, os últimos trinta anos
dificilmente trouxeram algo que se pudesse chamar de novo. [...]. Trechos
da obra Homens em tempos sombrios (Companhia
das Letras, 2008), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah
Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e
aqui.
OS HOMENS & A MORAL - [...] sob
que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? E que
valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São
indícios de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário,
revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua
certeza, seu futuro? [...] Já em
princípio a palavra “bom” não é ligada necessariamente a ações “não egoístas”,
como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um
declínio dos juízos de valor aristocráticos que esta oposição “egoísta” e “não
egoísta” se impõe mais à consciência humana. [...] Na origem, toda a educação e os cuidados do corpo, o casamento, a
medicina, a agricultura, a guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os
homens e as relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade: esta
exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si mesmo como indivíduo.
[...] Em toda a parte onde existe
comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a ideia de que a
punição pela violação dos costumes recai em primeiro lugar sobre a própria
comunidade. [...] Para poder dispor
de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento
casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa
distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para
o fim, a calcular, contar confiar – para isso, o quanto não precisou antes tornar-se
ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação,
para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! [...].
Trechos da obra Genealogia da moral: uma
polêmica. (Companhia das Letras, 1998), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja
mais aqui, aqui, aqui e aqui.
ENSINO & ESCOLHAS –Vivemos
uma enorme demanda de conhecimento qualificado, cientifico, acadêmico. Isso é
ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam
mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. [...] O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é
democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é
democrática, a oferta nem tanto. [...] Da
cabeça aos pés, cada um de nós veste a ciência que não existia cinco anos
atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo.
[...] Num país preconceituoso com o
conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem
fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num
instante ouviria 101 machados retumbando!), isso é formidável. A universidade
também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a
sociedade – inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua
estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais
ou não. Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa
necessidade. [...]. Trecho do artigo A
corrida do ensino: a crise da universidade e a voga dos cursos de extensão
(Bravo, março 2005), do filósofo, escritor e professor da USP,
Renato Janine Ribeiro.
A ARTE DE CECILIA KERCHE
A arte da bailarina
Cecília Kerche.
Veja mais:
&
DOIS POEMAS DE E. E. CUMMINGS
I
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão….
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam
subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso
dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela….
o que é isso que o realejo toca
II
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
Recita
sobre a sua
carne
as pérolas
sobre a sua
carne
as pérolas
da chuva uma a uma murmurando.
Poemas extraídos da obra Livro de poemas (Assírio
& Alvim, 1999), do poeta estadunidense Edward
Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Tradução de Cecília Rego
Pinheiro. (Imagens: arte da fotógrafa polonesa Laura Makabresku). Veja mais aqui.
A ARTE DE WOLF VOSTELL
A arte do pintor, videoartista e escultor suíço
Wolf Vostell (1932-1998).