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sábado, outubro 14, 2017

ÍTALO CALVINO, ARENDT, NIETZSCHE, CECÍLIA KERCHE, CUMMINGS, WOLF VOSTELL, RENATO JANINE, MAKABRESKU, O SOL & A LUA.

O SOL E A LUA - No tempo em que o Sol e a Lua eram gente, certo dia, o curumin caeté Fiietó brincava de caçar na mata, quando encontrou uma linda menina e se aproximou dela: Você está brincando de caçar? Tô não, tô perdida. Perdida? Sim, saí atrás de uma linda bobroleta e perdi o caminho de volta pra casa. Onde você mora? Não sei, estou perdida. Qual a sua tribo? Sou caingang. Nunca ouvi falar. Acho que corri demais atrás da borboleta de não perceber tão longe que fui. E você, é de qual tribo? Ah, sou caeté. Nunca ouvi falar, também. E agora? Não sei, estou perdida. Vamos brincar por ali pela lagoa, aí você, quem sabe, não encontra o caminho de de sua casa, hem? É, vamos. Como é seu nome? Iaravi. E o seu? Fiietô. Ah, tá, vamos pra lagoa? Vamos. E saíram os dois até chegarem à lagoa e ficaram brincando de mergulhar com os peixes. Pulavam, timbungavam, maior festa. Vamos ver de nós dois quem atira cipó mais longe dentro d’água? Nunca brinquei disso. Ah, porque você é menina, não sabe como é brincar coisa de menino. É, então vamos, quero aprender. E ficavam pegando gravetos e cipós no chão da mata e jogavam dentro d’água. Os peixes pulavam pra pegar as coisas jogadas no ar. Virou uma competição. Aí Fiietó gritou: Saiam, não é pra vocês pegarem, estamos apostando quem joga mais longe. Ah, os peixes nem deram conta, pulavam mesmo assim e interceptavam tudo no ar. Vocês estão atrapalhando nossa brincadeira! Ah, deixa, eles estão brincando com a gente, vamos nadar com eles? Então, vamos. E saíram nadando com os peixes e estes, para provocar os dois, ficavam apenas com o rabinho fora d’água só pra provocá-los a virem nadando atrás deles. Iaravi ia prum lado atrás dos que via, Fiietó ia pro outro com o mesmo objetivo. Tanto foram pra lados opostos que se distanciaram e, quando menos esperavam, esbarraram um no outro. Eita! Batemos com a cabeça. Foi. Estou cansada com esses peixes, eles me botaram para nadar muito. Eu também, vamos voltar pra margem? Vamos. E retornaram, ficaram olhando o brinquedo dos peixes pulando fora d’água e se riam muito com isso. Já estava escurecendo quando Iaravi ficou preocupada em voltar: E agora? Como volto pra casa? Ah, a gente se esqueceu de procurar o caminho, vamos ver se a gente encontra. Saíram, andaram, andaram, nada de Iaravi achar, quando Fêetó resolveu levá-la pra tribo dele. Lá chegando os dois se juntaram aos demais, cearam e foram dormir. No outro dia acordaram, tiraram o jejum e foram ver se achavam o caminho de volta pra casa dela. Foram pra mata e lá começaram a brincar de esconde-esconde, o que é que é, até que encontraram uns pica-paus e ele pediu um chapéu daquele cor de fogo feito os deles. Logo um dos pica-paus retirou um e deu pra ele, fazendo-o de leque. Bonito? Sim. E pra ela? Outro pica-pau deu um pra Iaravi. Eu estou bonita agora? Está. Vamos? Vamos. E ambos brincaram comos pássaros, de pula-pula e correr e voar. Lá pras tantas os pica-paus se despediram e foram embora, eles estavam felizes com os leques feitos chapéus cor de fogo na cabeça. Ah, agora você se faz de cega preu brincar de lhe guiar pela mata, tá bom. Nessa brincadeira ela muito tropicou nos galhos quebrados e secos, nas raízes e muitas pedras, a ponto de invocar-se e não querer mais brincar disso não. Ao abrir os olhos avistou uma casa de marimbondos. Vixe! Vamos embora, corre, olha ali uma casa de marimbondos. Era tarde, correram tanto que findaram mergulhados dentro da lagoa. Alguns peixes pularam e comeram alguns dos marimbondos que não resistiram e foram embora. Visse? Não fosem os peixes, a gente ia morrer afogado. Era mesmo, ainda me ferraram. E Fiietó realmente constatou inchaço nas faces e nas costas de Iaravi. Está doendo? Está. Vamos lá pra minha tribo cuidar disso. E voltaram. Chegaram lá, foram pro feiticeiro que passou uns ungüentos na pele de Iaravi e lhe deu um remédio para beber, demorou um pouquinho, a dor passou, mas continuava com a face e as costas inchadas. Ela então se deitou no chão da oca e ali adormeceu. Será que ela vai ficar boa? Vai, é só efeito do remédio que eu dei, logo ela acorda e volta a brincar com você. No outro dia Iaravi acordou e foram brincar de esconde-esconde de novo, ela tanto se escondeu que Fiietó não mais encontrou. Perdeu-se, sumiu-se. Caçou ele por tantos lugares e lonjuras, não mais encontrou Iaravi. Ele ficou muito triste, estava com saudades dela. Encostou-se numa pedra perto da lagoa e logo os peixes apareceram pulando na água. Ela desapareceu, não achei mais não. Queria era crescer, ficar grande, para encontrá-la. Quem sabe, ela esteja perdida na mata. Nessa hora um peixe deu um pulo maior e com um toque de barbatanas fez Fiietó crescer, agora um rapaz forte, bonito, guerreiro. Obrigado, amigos peixes, agora vou procurar Iaravi, se vocês encontrarem me avisem, viu? Vamos. E saiu morro acima, montanha abaixo, terras distantes nunca vistas. Bem distante dali, estava Iaravi soluçando na beira de um rio distante, quando os peixes pularam foram d’água. Ah, amigos peixinhos, que bom encontrar vocês por aqui. Viram Fiietó? E um dos peixes pulou, bateu a barbatana e Iaravi cresceu, tornando-se uma linda cunhã. Os peixinhos ficaram pulando como se a chamassem para nadar. Vocês sabem onde está Fiietó? Eles mais pulavan, ela entendeu que era pra segui-los. E ela nadou dias e noites. E Fiietó procurou por ela noites e dias. Cansavam, descansavam, tornavam a procurar um pelo outro, ao cabo de uma semana, quando ambos já haviam perdido as esperanças, sentaram cada qual na beira oposta de um grande rio, extenuados e sem mais esperanças. Estavam desapontados por não reencontrarem um ao outro. Ela olhava tudo ao redor, o céu, a terra, o mato, quando percebeu os peixes pulando de novo e não entendia. Vieram os pica-paus em bandos cantando, ah, os amiguinhos pica-paus, que vocês querem? Não entendia. Da mesma forma, na outra margem do grande rio, também os peixes e os pica-paus faziam o mesmo com Fiietó e ele não entendia. O que vocês querem? Os peixes mais pulavam e os pica-paus mais bicavam no ar, como se mandando ele a segui-los. E assim foi, ele mergulhou no grande rio e pôs-se a nadar acompanhando os peixes e os pássaros. Lá longe Iaravi avistava outros pica-paus voando aos pulos dos peixes na água, enquanto os que estavam com ela aumentavam no bater das asas e nos pulos na água. Demorou pra ela perceber umas braçadas firmes de gente na água, acompanhando os pulos dos peixes e o vôo dos pássaros, vindo em sua direção. Mais um pouco os braços se aproximavam e os pica-paus que vinham se encontravam com os outros que estavam com ela e, na água, aumentou em muito os pulos com muitos peixes até a chegada dele na beira do rio. Era Fiietó. Ela ficou feliz. Fiietó? Iaravi? Era o reencontro. E se abraçaram, se beijaram e juraram nunca mais se afastarem um do outro. Tanto é que passaram a tomar conta do mundo, ele de dia passou a ser o soberano Sol brilhando do amanhecer até o final das tardes, e ela, de noite, tornou-se a radiante Lua com suas fases para iluminar o caminho dos que se perdem. (Recriação a partir das lendas indígenas amazônicas recolhidas de Notícia dos Ofaié-Xavante (Revista Museu Paulista, 1951), de Darcy Ribeiro, e Os apinajé (Boletim do Museu Paraense Emiolio Goeldi, 1956), de Curt Nimuendaju). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor, regente orquestral, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): O anjo esquerdo da história, Alegres trópicos - um baile na mata atlântica & Qualquer música; a saudosa cantora Elis Regina (1945-1982) ao Vivo, em Montreaux & Trem azul; do multi-instrumentista, músico, compositor e ativista nigeriano Fela Kuti (1938-1997): Afordisiac, Go slow & Gentleman; e da cantora Irah Caldeira: Flor do dia, Quero ter você, A natureza das coisas, Sem segredo & Avoante com Santanna, o Cantador. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Houve também quem, embora literato da cabeça aos pés, não sentiu nenhum complexo de inferioridade diante da história, mas, antes, teve certeza de que foi ele a nutri-la e enriquecê-la com toda a sua fantasia e cultura. Trecho de Assunto encerrado (Companhia das Letras, 2009), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

TEMPOS SOMBRIOS - [...] Em nossa época, parece-me, nada é mais dúbio do que nossa atitude em relação ao mundo, nada menos assente que a concordância com o que aparece em público, imposta a nós pela homenagem, a qual confirma sua existência. Em nosso século, mesmo o gênio só pôde se desenvolver em conflito com o mundo e o âmbito público, embora, como sempre, encontre naturalmente sua concordância própria particular com sua platéia. Mas o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre as pessoas, e esse espaço intermediário — muito mais do que os homens, ou mesmo o homem (como geralmente se pensa) — é hoje o objeto de maior interesse e revolta de mais evidência em quase todos os países do planeta. Mesmo onde o mundo está, ou é mantido, mais ou menos em ordem, o âmbito público perdeu o poder iluminador que originalmente fazia parte de sua natureza. Um número cada vez maior de pessoas nos países do mundo ocidental, o qual encarou desde o declínio do mundo antigo a liberdade em relação à política como uma das liberdades básicas, utiliza tal liberdade e se retira do mundo e de suas obrigações junto a ele. Essa retirada do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; ele pode inclusive cultivar grandes talentos ao ponto da genialidade e assim, através de um rodeio, ser novamente útil ao mundo. Mas, a cada uma dessas retiradas, ocorre uma perda quase demonstrável para o mundo; o que se perde é o espaço intermediário específico e geralmente insubstituível que teria se formado entre esse indivíduo e seus companheiros homens. [...] Bem, a esse respeito, os últimos trinta anos dificilmente trouxeram algo que se pudesse chamar de novo. [...]. Trechos da obra Homens em tempos sombrios (Companhia das Letras, 2008), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS & A MORAL - [...] sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? E que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indícios de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro? [...] Já em princípio a palavra “bom” não é ligada necessariamente a ações “não egoístas”, como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que esta oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe mais à consciência humana. [...] Na origem, toda a educação e os cuidados do corpo, o casamento, a medicina, a agricultura, a guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os homens e as relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade: esta exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si mesmo como indivíduo. [...] Em toda a parte onde existe comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a ideia de que a punição pela violação dos costumes recai em primeiro lugar sobre a própria comunidade. [...] Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular, contar confiar – para isso, o quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! [...]. Trechos da obra Genealogia da moral: uma polêmica. (Companhia das Letras, 1998), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ENSINO & ESCOLHAS –Vivemos uma enorme demanda de conhecimento qualificado, cientifico, acadêmico. Isso é ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. [...] O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é democrática, a oferta nem tanto. [...] Da cabeça aos pés, cada um de nós veste a ciência que não existia cinco anos atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo. [...] Num país preconceituoso com o conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num instante ouviria 101 machados retumbando!), isso é formidável. A universidade também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a sociedade – inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais ou não. Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa necessidade. [...]. Trecho do artigo A corrida do ensino: a crise da universidade e a voga dos cursos de extensão (Bravo, março 2005), do filósofo, escritor e professor da USP, Renato Janine Ribeiro.

A ARTE DE CECILIA KERCHE
A arte da bailarina Cecília Kerche.

Veja mais:
Fiietó & Iaravi aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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DOIS POEMAS DE E. E. CUMMINGS
I
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão….
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela….
o que é isso que o realejo toca
II
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
Recita
sobre a sua
carne
as pérolas
da chuva uma a uma murmurando.
Poemas extraídos da obra Livro de poemas (Assírio & Alvim, 1999), do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Tradução de Cecília Rego Pinheiro. (Imagens: arte da fotógrafa polonesa Laura Makabresku). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, videoartista e escultor suíço Wolf Vostell (1932-1998).
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, outubro 15, 2015

NIETZSCHE, PESSOA, FOUCAULT, FELA KUTI, DENISE FRAGA, JULIE DELPY, VANDERLYN, AS TRÊS GRAÇAS & DIA DO PROFESSOR.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O DORO NO DIA DO PROFESSOR - Doro chegou carregado de interrogações e, como sempre, de chofre, descarregou de forma enfática: - Quaiquié procê a prefissão mais importante do prâneta e do universo? Do inopinado, respondi-lhe: - A profissão, não, mas uma das mais importantes, pra mim, é a do professor. Ele franziu o cenho, coçou o queixo e largou um hummmmmmmmmm: - Hummm, prefessor! Isso mermo, prefessor! E vou ser um dele dagora indiante! E saiu enumerando com ar de sua peculiar mania de grandeza cada uma das suas autossuficiências! No maior blá blá blá lá foi ele demonstrando que fazer, asas à imaginação: - A-há! Vou insiná cuma s’insina! Vou discarregá minha sabedoria com fúria, eu sou tranchan! Quero vê aluno porqueira num virá doutô da noite pro dia! Vou pegá no pé e mostrá quem qui é o dono da verdade! Verão do que sou capaz, senão será a cega Dedé! -, e lá estava ele reproduzindo a ideia de professor que eu vi demais na sala de aula e não gostaria de vê-lo nunca mais. Ele, no esbanjamento de suas aptidões nem tão valorosas assim, estava sendo o protótipo de todas as resistências, de todas as acomodações pautadas tradicionalmente, os velhos hábitos do depósito pra fabricar gente de verdade! Eu que estive dos dois lados da corda, nem bom aluno e muito menos razoável professor, descobri naqueles que se encaixaram bem na minha afeição, por sua forma de ministrar as aulas e de angariar a simpatia das turmas, o exemplo digno de ser seguido. Adorava aqueles - e que foram poucos - os que ao invés de punir ou castigar, ofereciam uma opção de escolha, uma oportunidade, ajudando a como eu poderia melhorar e ser melhor, promovendo e valorizando a criatividade, sinalizando o caminho das pedras na resolução de problemas. Idolatrei até, confesso, aqueles que me encaminharam a ter o prazer do conhecimento e da descoberta do saber, ensinando a como aprendar a pensar, a imaginar, a criar e, ao mesmo, oportunizado o aprendizado de melhor me expressar, a apreciar a beleza, a aprender a me relacionar comigo mesmo e com os outros, a lidar com as minhas emoções e a dos outros, e a discernir sobre os meus direitos e os direitos humanos. Descobri quando estava do outro lado, que professor é aquele que trabalha sem apoio algum mas apoiando, que amanhece recheado de esperanças e vai adormecer entediado de sobrecarga, porém, pelos que devotam a profissão de ser e não estar nela, são sempre persistentes, resiliente, sempre desrotulando e desmitologizando, tornando-se familiar e envolvendo a família, mostrando o lugar do outro, exercitando a poesia como uma prática pedagógica do equilíbrio e do lúdico no valor do choro (o estar no mundo) e do riso (o triunfo da vida). Esses saíram e me ensinaram a sair da prisão da igualdade para a liberdade da compreensão e da cooperação, corroborando com um outro olhar capaz de contemplar a aceitação, o reconhecimento e o respeito pelo outro e seus sentimentos, se importando comigo e com todos, realizando uma verdadeira comunhão. A esses, a minha eterna homenagem de gratidão. Sim, mas e o Doro? Ih, quase esqueci. Mergulhado nos meus pensamentos, logo ele me trouxe de volta pro agora com uma barulhada macha. Ah, ele roubou meus pensamentos dizendo que ia ser professor de inglês e castigou com veemência: - Vamo aprendê ingrêis que purtuguêis nós já sabe! E foi-se! Vamos aprumar a conversa? Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui. 

 Imagem: Die schlafende Ariadne auf Naxos (1808-1812), do pintor estadunidense John Vanderlyn (1775-1852).


Curtindo o álbum Underground System (1992), do compositor & multi-instrumentista nigeriano, Fela Kuti (1938-1997), o pioneiro da Afrobeat, ativista política e dos diretos humanos.


ANTES DO NASCER DO SOL – No livro Assim falava Zaratustra (Companhia das Letras, 1993), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), destaco o trecho Antes do nascer do sol: Ó! céu desenrolado sobre mim! Céu claro e profundo! Abismo de luz! Ao contemplar-te estremeço de divinos desejos! Elevar-me à minha altura: eis a tua profundidade! Cobrir-me com a tua pureza: eis a minha inocência! O deus oculto na sua beleza: assim ocultas as tuas estrelas. Não falas: assim me anuncias a tua sabedoria. Mudo surgiste para mim sobre o fervente mar: o teu amor e o teu pudor revelam-se à minha alma fervente. Belo, vieste a mim, velado na tua beleza; mudo, falas-te-me, revelando-te na tua sabedoria: ó! como pude eu não adivinhar todos os pudores da tua alma! Antes do sol vir até a mim, o mais solitário. Somos amigos de sempre: as nossas penas são o fundo dos nossos seres, são-nos comuns; até o sol é comum. Não falamos porque sabemos demasiadas coisas: calamo-nos e entendemo-nos por sorrisos. Não és tu a luz do meu fogo? Não és tu a alma irmã da minha inteligência? Tudo aprendemos juntos; juntos aprendemos a elevar-nos sobre nós, e a sorrir, sem nuvens, para baixo, com límpidos olhos, desde remotas paragens, quando a nossos pés se desvanecem, como névoa vaporosa, a imposição, o fim e o erro. E quando eu caminhava só, de que tinha a minha alma fome durante as noites e nos caminhos do erro? E quando eu escalava montes, a quem procurava nos píncaros senão a ti? E todas as minhas viagens e todas minhas ascensões não passavam de um expediente e recurso da inércia. O que a minha vontade toda quer é voar, voar para ti! E que odiava eu mais do que as nuvens e tudo o que te empana? E odiava até o meu próprio ódio porque te empanava! Tenho aversão às nuvens, a esses gatos monteses que se arrastam: tiram-nos a ti e a mim o que nos é comum: a imensa e infinita afirmação das coisas. Nós outros temos aversão às rasteiras nuvens, a esses seres de meio termo e de composições, a esses seres mistos que não sabem nem bendizer nem maldizer com todo o seu coração. Preferia estar metido num túnel ou num abismo sem ver o céu, a ver-te a ti, céu de luz, empanado pelas nuvens que passam! E muitas vezes tenho sentido desejos de as trespassar com fulgurantes fios de ouro e rufar como trovão na sua pança de caldeira: rufar de cólera, visto que me roubam a mim a tua afirmação - céu puro! céu sereno! abismo de luz! - e roubam-te a ti em mim. Que eu prefiro o ruído e o troar e as execrações do mau tempo a essa calma medida e duvidosa de gatos. E "quem não sabe bendizer deve aprender a maldizer!" De um luminoso céu me caiu, esta máxima luminosa: - até nas escuras noites brilha esta estrela no meu céu. Eu, porém, bendigo e afirmo sempre, contanto que me rodeies, céu sereno, abismo de luz! A todos os abismos, pois, levo a minha benfeitora afirmação. Eu cheguei a ser o que bendiz e afirma; tenho sido um lutador a fim de um dia ter as mãos livres para abençoar. E a minha bênção consiste em estar por cima de cada coisa com o seu próprio céu, a sua redonda abóbada, a sua abóbada cerúlea e sua eterna serenidade: e bem aventurado daquele que assim abençoa! Que todas as coisas são batizadas na fonte da eternidade e além do bem e do mal; mas o bem e o mal mesmo não são mais do que sombras interpostas, úmidas aflições e nuvens passageiras. Há bênção certamente, e não maldição quando eu predico: "Sobre todas as coisas se encontra o céu Azar, o céu Inocência, o céu Acaso e o céu Ufania." "Por azar" é esta a mais antiga nobreza do mundo; eu a restituí a todas as coisas; eu as livrei da servidão do fim. Essa liberdade e essa serenidade celeste coloquei-as como abóbadas cerúleas sobre todas as coisas, ao ensinar que acima delas, e por elas, nenhuma "vontade eterna" queria. Eu pus, em vez desta vontade, essa petulância, essa loucura quando ensinei: Há uma coisa impossível em qualquer parte, e essa coisa é a racionalidade. Um pouco de razão, um grão de sensatez, disperso de estrela em estrela, é a levadura indubitavelmente misturada a todas as coisas: por causa da loucura se acha a sensatez misturada a todas as coisas! Um pouco de sensatez é possível: mas eu encontrei em todas as coisas esta benfeitora certeza: preferem bailar sobre os pés do acaso. Ó! céu puro e excelso! A tua pureza para mim consiste agora em que não haja nenhuma aranha, nem teia de aranha eterna da razão: em seres um salão de baile para os azares divinos, uma mesa divina para os divinos dados e jogadores de dados. Mas, sorris-te? Disse coisas indizíveis? Maldisse-te querendo abençoar-te? O que te faz sorrir é a vergonha de ser dois. Mandas-me retirar e calar, porque chega agora o dia? O mundo é profundo, e mais profundo do que jamais pensou o dia. Nem tudo pode falar diante do dia. Mas chega o dia. Separemo-nos então! Ó! céu desenrolado sobre mim, céu pudico e incendido! Ó! felicidade antecedente à saída do sol! Chega o dia. Separemo-nos!. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


O USO DOS PRAZERES – No livro História da sexualidade 2 – o uso dos prazeres (Graal, 1984), do filósofo, historiador, filólogo, teórico social e crítico literário francês Michel Foucault (1926-1984), destaco os trechos seguintes: Para compreender de que maneira o uso dos aphrodisia é problematizado na reflexão sobre o amor pelos rapazes é preciso lembrar um princípio que, sem dúvida, não é próprio da cultura grega, mas que ali teve uma importância considerável e exerceu, nas apreciações morais, um poder determinante. Trata-se do princípio de isomorfismo entre relação sexual e relação social. Deve-se entender por esse princípio que a relação sexual - sempre pensada a partir do ato modelo da penetra­ção e de uma polaridade que opõe atividade e passividade - é percebi­da como do mesmo tipo que a relação entre superior e inferior, aquele que domina e aquele que é dominado, o que submete-e o que é sub­metido, o que vence e o que é vencido. As práticas de prazer são refle­tidas através das mesmas categorias que o campo das rivalidades e das hierarquias sociais: analogias na estrutura agonística, nas oposições e diferenciações, nos valores atribuídos aos respectivos papéis dos par­ceiros. E pode-se compreender, a partir daí, que há, no comportamen­to sexual, um papel que é intrinsecamente honroso e que é valorizado de pleno direito: é o que consiste em ser ativo, em dominar, em pene­trar e em exercer, assim, a sua superioridade.Daí as várias consequências a respeito do estatuto daqueles que devem ser os parceiros passivos dessa atividade. Os escravos, evidente­mente, estão à disposição do senhor: sua condição faz com que sejam objetos sexuais a respeito dos quais não há nada a questionar; a tal ponto que acontecia de se achar surpreendente que a mesma lei proi­bisse o estupro dos escravos e o das crianças; para explicar essa estranheza, Ésquines diz que se quis mostrar, ao proibi-la até mesmo com relação aos escravos, o quanto era grave a violência quando ela se dirgia às crianças de boa origem. No que diz respeito à passividade da mulher, ela marca muito bem uma inferioridade de natureza" e de con­dição; mas ela não deve ser reprovada como conduta posto que é, pre­cisamente, conforme ao que a natureza quis e ao que o status impõe. Em compensação, tudo aquilo que no comportamento sexual poderia acarretar para um homem livre - e ainda mais para um homem que, por sua origem, fortuna, prestígio, ocupa ou deveria ocupar posições privilegiadas entre os demais - as marcas da inferioridade, da domina­ção sofrida, da servidão aceita, só poderia ser considerado como ver­gonhoso: e vergonha ainda maior se ele se presta a ser objeto compla­cente dó prazer do outro. Ora, num jogo de valores regulado segundo tais princípios, a po­sição do rapaz - do rapaz de origem livre - é difícil. É evidente que ele está ainda numa posição “inferior” , no sentido em que está longe de se beneficiar dos direitos e dos poderes que serão seus quando tiver ad­quirido a plenitude de seu status. Não obstante, seu lugar não se super­põe ao de um escravo, evidentemente, nem ao de uma mulher. Isso já é verdade no contexto da casa e da família. Uma passagem de Aristóte­les na Política o diz claramente. Ao tratar das relações de autoridade e das formas de governo próprias à família, Aristóteles define, em rela­ção ao chefe de família, a posição do escravo, a da mulher e a do filho (homem). Governar escravos, diz Aristóteles, não é governar seres livres; governar uma mulher é exercer um poder “político” no qual as relações são de permanente desigualdade; o governo dos filhos, em troca, pode ser dito “real” porque ele repousa “sobre a afeição e a su­perioridade da idade” .60 De fato, a faculdade de deliberação falta no escravo; ela está presente na mulher, mas não exerce nesta a função de decisão; no menino, a falta diz respeito somente ao grau de desenvolvi­mento que ainda não atingiu seu termo. E se a educação moral das mulheres é importante posto que elas constituem a metade da popula­ção livre, a dos filhos homens o é ainda mais; pois ela concerne aos fu­turos cidadãos que participarão no governo da cidade.61 Vê-se bem: o caráter próprio da posição de um rapaz, a forma particular de sua de­pendência, e a maneira pela qual se deve tratá-lo, mesmo no espaço onde se exerce o poder considerável do pai de família, encontram-se marcados pelo status que será o seu no futuro. O mesmo ocorre, até certo ponto, no jogo das relações sexuais. Dentre os diversos “objetos” que são legitimados, o rapaz ocupa uma posição particular. Certamente ele não é um objeto proibido; em Atenas, certas leis protegem as crianças livres (contra os adultos que du­rante um certo tempo, pelo menos, não terão o direito de entrar nas escolas, contra os escravos que fícam sujeitos à morte se procuram cor- rompê-las, contra pais ou tutores que são punidos se as prostituem);“ mas nada impede nem proíbe que um adolescente seja aos olhos de to­dos o parceiro sexual de um homem. Não obstante, existe como que uma dificuldade intrínseca nesse papel: algo que ao mesmo tempo impede de definir claramente e de bem precisar em que consiste esse papel na relação sexual e que, contudo, atrai a atenção sobre esse ponto e faz com que se atrjbua uma grande importância e muito valor ao que. deve ou não se passar nessa relação. Existe nisso tudo, ao mesmo tempo, como que um ponto cego e um ponto de supervalorização. O papel do rapaz é um elemento para o qual converge muita incerteza e um interesse intenso. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui .

TABACARIA – No livro O eu profundo e os outros eus (Nova Fronteira, 1980), encontro o poema Tabacaria, do engenheiro e poeta português Álvaro de Campos, um dos heterônimos criados por Fernando Pessoa (1888-1935): Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. / Janelas do meu quarto, / Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é / (E se soubessem quem é, o que saberiam?), / Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, / Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, / Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, / Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, / Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, / Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. / Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. / Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, / E não tivesse mais irmandade com as coisas / Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua / A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada / De dentro da minha cabeça, / E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. / Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. / Estou hoje dividido entre a lealdade que devo / À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, / E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. / Falhei em tudo. / Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. / A aprendizagem que me deram, / Desci dela pela janela das traseiras da casa. / Fui até ao campo com grandes propósitos. / Mas lá encontrei só ervas e árvores, / E quando havia gente era igual à outra. / Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar? / Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? / Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! / E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! / Gênio? Neste momento / Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, / E a história não marcará, quem sabe?, nem um, / Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. / Não, não creio em mim. / Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! / Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? / Não, nem em mim... / Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo / Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando? / Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - / Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, / E quem sabe se realizáveis, / Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? / O mundo é para quem nasce para o conquistar / E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. / Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. / Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, / Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. / Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, / Ainda que não more nela; / Serei sempre o que não nasceu para isso; / Serei sempre só o que tinha qualidades; / Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, / E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, / E ouviu a voz de Deus num poço tapado. / Crer em mim? Não, nem em nada. / Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente / O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo, / E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. / Escravos cardíacos das estrelas, / Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; / Mas acordamos e ele é opaco, / Levantamo-nos e ele é alheio, / Saímos de casa e ele é a terra inteira, / Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. / (Come chocolates, pequena; / Come chocolates! / Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. / Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. / Come, pequena suja, come! / Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! / Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, / Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) / Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei / A caligrafia rápida destes versos, / Pórtico partido para o Impossível. / Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, / Nobre ao menos no gesto largo com que atiro / A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas, / E fico em casa sem camisa. / (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas, /Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, / Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, / Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, / Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, / Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, / Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê - / Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! / Meu coração é um balde despejado. / Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco / A mim mesmo e não encontro nada. / Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. / Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, / Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, / Vejo os cães que também existem, / E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, / E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) / Vivi, estudei, amei e até cri, / E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. / Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, / E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses / (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); / Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo / E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente / Fiz de mim o que não soube / E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. / Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi ao espelho, / Já tinha envelhecido. /Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. / Deitei fora a máscara e dormi no vestiário / Como um cão tolerado pela gerência / Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime. / Essência musical dos meus versos inúteis, / Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse, / E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, / Calcando aos pés a consciência de estar existindo, / Como um tapete em que um bêbado tropeça / Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. / Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. / Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada / E com o desconforto da alma mal-entendendo. / Ele morrerá e eu morrerei. / Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. / A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. / Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, / E a língua em que foram escritos os versos. / Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. / Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente / Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, / Sempre uma coisa defronte da outra, / Sempre uma coisa tão inútil como a outra, / Sempre o impossível tão estúpido como o real, / Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, / Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. / Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) / E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. / Semiergo-me enérgico, convencido, humano, / E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. / Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los / E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. / Sigo o fumo como uma rota própria, / E gozo, num momento sensitivo e competente, / A libertação de todas as especulações / E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. / Depois deito-me para trás na cadeira / E continuo fumando. / Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. / (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira / Talvez fosse feliz.) / Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. / O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). / Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. / (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) / Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. / Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo / Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu. Veja mais aqui e aqui.

DE OLIMPIA ATÉ HOJE - A trajetória da premiadíssima atriz de teatro, cinema e televisão Denise Fraga, começou no teatro, no qual possui formação de mais de vinte anos de palco, seis deles na pele da empregada doméstica "Olímpia", da peça Trair e coçar é só começar, o seu maior sucesso no teatral. Ela estreou na televisão em 1987, na Rede Globo, participando de novelas, quadros, séries, entre outros. No cinema ela estreou no filme Um casal chamado paixão (1992), seguindo-se O efeito ilha (1994), Sonho (1995), Até a eternidade (1995), Lembrança do futuro (1996), Lápide (1997), O cineasta da selva (1997), Boleiros – era uma vez o futebol (1998), Por trás do pano (1999), O auto da compadecida (2000), Cristina quer casar (2003), Como fazer um filme de amor (2004), Boleriso 2 – vencedores e vencidos (2006), Os porralokinhas (2007), O signo da cidade (2007), As melhores coisas do mundo (2010), Hoje (2011) e As aventuras do homem invisível em mundo invisível (2011). Além de atriz, ela é comediante e mantem uma coluna no jornal Folha de São Paulo. Entre os prêmios da sua carreira, estão Prêmio de Melhor Atriz pela atuação em Cristina Quer Casar - 7º Festival de Cinema Brasileiro de Miami (2003), Prêmio de Melhor Atriz pela atuação em Por Trás do Pano no Grande Prêmio Cinema Brasil (1999), Kikito de Ouro de Melhor Atriz pela atuação em Por Trás do Pano – Festival de Gramado (1999), Prêmio de Melhor Atriz pela atuação em Felicidade é... – Festival de Brasília (1995), Prêmio de Melhor Atriz pela atuação em Por Trás do Pano – Festival de Havana (1999) e Melhor Atriz Teatral no troféu APCA/2008 pela atuação no espetáculo A Alma Boa de Setsuan. Veja mais aqui.

BEFORE SUNRISE – O filme Before Sunrise (Antes do Amanhecer, 1995), dirigido por Richard Linklater e escrito pelo direitos e por Kim Krizam. Conta a história de uma jovem francesa e um rapaz estadunidense que se encontra na Europa. Eles se encontram casualmente em um trem e despertam para uma paixão repentina. No dia seguinte, a jovem irá para Paris e o jovem voltará aos Estados Unidos. Ele, então, a convida para descerem do trem em Viena para um passeio que durará a noite toda, até o amanhecer. O destaque do filme vai para a belíssima atriz, roteirista, cantora, compositora e diretora de cinema, Julie Delpy. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 The Three Graces,as três deusas da mitologia grega antiga chamada Graças, conhecidas em grego como as Charites. Originalmente deusas da natureza, elas chegaram a ser geralmente consideradas como companheiras de Afrodite (Vênus), a deusa do amor e da beleza. De acordo com a tradição poética e literária, as Graças eram em número de três, e seus nomes eram Euphrosyne, Thalia e Aglaia. Eternamente jovens e adoráveis, elas representavam charme, beleza e criatividade humana, e foram retratadas nus, originalmente segurando atributos tais como maçãs, rosas e ramos de murta. As três deusas estão ligados entre si em um anel, abraçados pela cintura ou no pescoço para formar uma cadeia graciosa.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa SuperNova, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...