quinta-feira, março 07, 2013

ELEANOR FARJEON, JÚLIA ALMEIDA, ANNA SHAW, BERNHARD, CHILD, BOOKCHIN, FARROW & A FENOMENOLOGIA DE HUSSERL

 

UMAS DE MUITAS & OUTRAS – UMA: DA DIFUSA LUTA DAS MULHERES – Um exemplo dos mais extraordinários é aquele no qual constatamos as lutas da escritora abolicionista estadunidense Lydia Maria Child (1802-1880). Ela que esteve engajada como ativista dos direitos das mulheres no século XIX, também engrossou as vozes em defesa dos indígenas e da abolição da escravatura no seu país: Os escravos se esfaquearam pela liberdade, pularam nas ondas pela liberdade, famintos pela liberdade, lutaram como tigres pela liberdade! Mas eles foram enforcados, queimados e baleados - e seus tiranos foram seus historiadores!... Que a maioria das mulheres não deseje nenhuma mudança importante em sua condição social e civil, apenas prova que elas são escravas irrefletidas dos costumes... Em seus diários ela tanto abordava questões domésticas, como também sobre a dominação masculina e supremacia branca, afora ter se imortalizado com o poema Over the River and Through the Wood (Veja mais dela aqui). DIFERENÇAS NÃO HIERARQUICAS – O filósofo e escritor estadunidense Murray Bookchin (1921-2006) foi o pioneiro das lutas ecológicas, razão pela qual desenvolveu sua teoria da ecologia social e do planejamento urbano. Para ele: Não há hierarquias na natureza além daquelas impostas pelos modos hierárquicos do pensamento humano, mas apenas diferenças de função entre e dentro dos seres vivos... O que fica constatado que a gente inventa cada coisa. (Veja mais dele aqui). APRENDENDO DEPOIS DE MUITAS – Depois de muitas idas e vindas com Sinatra, Woody Allen e André Prévin, afora ter convivido com sua melhor amiga Dory Prévin, a atriz estadunidense Mia Farrow deu uma dentro: Você aprende indo aonde tem que ir. A raiva e a dor são companheiros selvagens, mas o desespero é a ruína final. Aprendi que você não pode realmente possuir nada, que a verdadeira propriedade vem apenas no momento de dar... (Veja mais dela aqui). Depois disso, vamos aprumar a conversa!!!

 


DITOS & DESDITOS - Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos... Pensamento expresso em texto publicado na revista A Mensageira (1897), da escritora, teatróloga e abolicionista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), que foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL), tendo sido omitida por ser mulher e em favor do seu marido, Filinto de Almeida, porque os fundadores decidiram que a Academia Brasileira deveria seguir o modelo da Academia Francesa, que era exclusivamente masculina. Numa entrevista que concedeu em 1904, ao João do Rio, expressa que: Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não imagina com que encanto. Era como um prazer proibido! [...] Um dia, porém, eu estava muito entretida na composição de uma história, uma história em verso, com descrições e diálogos, quando ouvi por trás de mim uma voz alegre: – Peguei-te, menina! Estremeci, pus as duas mãos em cima do papel, num arranco de defesa, mas não me foi possível. Minha irmã, adejando triunfalmente a folha e rindo a perder, bradava :– Então a menina faz versos? Vou mostrá-los ao papá! Ela também é autora de frases lapidares, tais como: Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ela, não conhecera outra na mocidade. Dera-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. A mocidade passa e o dinheiro foi inventado para se gastar. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Eu tenho tudo no mundo que é necessário para a felicidade, boa fé, bons amigos e todo o trabalho que posso fazer. Acho que a maior bênção de Deus para a raça humana era quando ele enviou o homem para o mundo para ganhar seu pão com o suor de seu rosto. Acredito em labuta, na dignidade do trabalho, mas também acredito em uma compensação adequada para aquela labuta. Qualquer mulher que não viva para o serviço altruísta é uma inútil ocupante da terra. Pensamento da médica e líder do movimento sufragista estadunidenser Anna Howard Shaw (1847-1919).

 

GÁRGULAS - [...] Você nunca está verdadeiramente junto com alguém que ama até que a pessoa em questão esteja morta e realmente dentro de você. [...] O homem pensante sempre se encontra em um gigantesco orfanato no qual as pessoas estão continuamente provando a ele que ele não tem pais. [...] Todo mundo, ele continuou, fala uma língua que não entende, mas que de vez em quando é compreendida por outros. Isso é suficiente para permitir que alguém exista e, pelo menos, seja incompreendido. [...]. Trechos extraídos do livro Gargoyles (Vintage, 2006), do escritor austríaco Thomas Bernhard (1931-1989). Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS - LIVROS - Que maravilhas são os nossos livros! \ Quando alguém os abre e olha, \ Novas idéias e pessoas surgem \ Em nossas fantasias e nossos olhos. \ A sala em que nos sentamos derrete, \ E nos encontramos brincando \ Com alguém que, antes do fim, \ Pode se tornar nosso amigo escolhido. \ Ou navegamos ao longo da página \ Para alguma outra terra ou era. \ Aqui está nosso corpo na cadeira, \ Mas nossa mente está lá. \ Cada livro é uma caixa mágica \ Que com um toque uma criança abre. \ Entre suas capas externas, \ os livros guardam todas as coisas para seus amantes. PAZ – I - Sou tão terrível quanto meu irmão War, \ sou o súbito silêncio após o clamor. \ Eu sou o rosto que mostra a cicatriz sórdida \ Quando o sangue e o frenesi perderam seu glamour. \ Os homens em minha pausa saberão finalmente o custo \ Que não será pago em triunfos ou lágrimas, \ Os homens começarão a julgar o que passou \ Como os homens o julgarão daqui a cem anos. \ Nações! cujos motores vorazes devem ser alimentados \ Infinitamente com o pai e o filho, \ Minha luz nua sobre sua escuridão, pavor! - \ Pelo qual vereis o que fizestes: \ Onde, mais como um abutre do que como uma pomba, \ colocas meu selo no ódio, não no amor. – II - Que nenhum homem me chame de bom. Eu não sou abençoado.\ Minha única virtude é o fim dos crimes, \ sou apenas o período de inquietação, \ A cessação dos horrores dos tempos; \ Meu bem é apenas o negativo do mal, \ Tal mal que dobra o espírito com desespero, \ Tal mal que faz a alma das nações parar \ E congelar em pedra sob um brilho de Górgona. \ Seja franco e diga que a paz é apenas um estado \ Em que a alma ativa é livre para se mover, \ E as nações apenas se mostram como mesquinhas ou grandes \ De acordo com o espírito então elas provam. - \ Ó, qual de vós, cujo grito de guerra é o Ódio, \ Será o primeiro em paz a ousar gritar o nome do Amor?... Poemas das escritora e dramaturga britânica Eleanor Farjeon (1881-1965).

 



HUSSERL & A FENOMENOLOGIA - O filósofo e matemático alemão Edmundo Husserl ( Gustav Albrecht Edmund Husserl - 1859-1938) foi o fundador da fenomenologia. Ele estudou nas universidades de Leipzig, de Berlim e de Viena, iniciando a carreira de professor em 1883, abandonando o posteriormente e se dedicando a escrever seus ensaios. Quando ele morreu em 1938, em Freiburg, deixou uma vasta gama de ensaios que foram posteriormente reunidos como Arquivos Husserl.
Em sua obra Investigações Lógicas (1900-1901) foi onde ele definiu sua filosofia como a análise da experiência que está por trás de todo o pensamento formal. É nela onde aparecem os primeiros sinais do método fenomenológico que se envolveu com as questões clássicas da filosofia desde Descartes, quando Husserl travou uma discussão da obra do filósofo francês: Meditações Cartesianas. A partir disso, a fenomenologia passa a servir de fonte para vários filósofos, em especial aos ligados ao existencialismo, chegando-se, inclusive, a se falar de uma sociologia, uma psicologia e uma teoria literária fenomenológicas. Isto porque o método voltou-se principalmente para as artes, nas quais proporciona um novo modo de consideração das obras artísticas. Depois, lança as bases sólidas da teoria da fenomenologia.
A partir de uma revisão na literatura, há que se entender, antes porem, que a Fenomenologia é uma corrente iniciada por Husserl ao pretender o estabelecimento de um método de fundamentação da filosofia e da ciência, baseada no conceito de fenômeno, ou seja, aquilo que é percebido pela consciência, no sentido de proceder a investigação da vida perceptiva, defendendo que a percepção tona possível a consciência dos objetos do mundo, como o juízo, a memória e os atos subjetivos. Estes, segundo ele, podem ser submetidos ao exame pela faculdade superior da consciência, entendia pelo autor como o eu transcendental, que é responsável pela síntese que torna possível a apreensão de objetos.
Muitas transformações ocorreram no pensamento fenomenológico até chegar em reorganizações conceituais que redundaram na formulação programática feita por Husserl no começo do século XX, quando a fenomenologia tornou-se mundialmente bem–aceita e tem influenciado discussões teóricas até hoje; ela introduziu uma forma prática no domínio teórico da filosofia, assim como no campo das ciências humanas e naturais.
A partir das investigações lógicas de Husserl ficou estabelecido por ele que a investigação deve ater-se ao modo como as coisas aparecem ao homem, como ele unifica a multiplicidade de aparições e como projeta significações sobre os objetos percebidos.
Para o fenomenólogo, não existe a consciência pura, mas sempre a "consciência de alguma coisa". Esse conceito, fundamental para a fenomenologia, é chamado de intencionalidade. Além disso, a atenção dispensada ao olhar, à percepção, à imaginação, às coisas e ao outro faz o método fenomenológico ir além das fronteiras da filosofia.
A fenomenologia faz uso de uma série de instrumentos metodológicos próprios que possibilitam a análise criteriosa dos fenômenos. Um deles é a redução, dividida nas seguintes modalidades: a epoché, a redução eidética e a redução trancendental. O termo epoché vem do grego e significa estado de dúvida. Consiste na suspensão do juízo a respeito de qualquer opinião; com o propósito de buscar unicamente os fatos, "pomos fora de ação a tese geral própria da atitude natural e pomos entre parênteses tudo o que ela compreende". Para ilustrar o método referido, tomemos o exemplo de como uma cor é percebida: a experiência pessoal da cor é o fenômeno puro, que se atinge mantendo-se em suspensão os dados científicos a respeito da composição da cor e os dados advindos da comparação com outras cores.
A partir da leitura de Marilena Chauí, observa-se que a atitude natural, segundo Russerl, compreende a aceitação do mundo em que vivemos, formado de coisas, bens, valores, ideais, pessoas, conforme ele nos é dado.A fenomenologia pretende se desvencilhar dassa atitude natural, por meio de um questionamento radical sobre o modo de existência do mundo, que consistiria no ponto inicial da pesquisa filosófica. A redução eidética analisa a apresentação do objeto a nossa á nossa (representação) de forma pura, prescindindo da existência do sujeito que conhece, assim como do objeto conhecido. Trata-se da forma do objeto no espírito, ou seja, trata- se de analisar a representação sem levar em conta o âmbito psicológico.Tomando como exemplo uma planta, podemos afirmar que, levando a cabo tal redução, os seus componentes básicos seriam a cor, as formas que a compõe e a textura.
Na redução transcendental, o fenomenologista considera apenas o que foi imediatamente apresentado á consciência; todos os outros elementos, Husserl sugere que sejam excluídos do julgamento.Retomando o exemplo da cor : uma página impressa em verde é apenas verde, não é feita da mistura de amarelo e azul, que é um dado cientifico. O interessante de Husserl está na cor como fenômeno pessoal e subjetivo, que depende de fatores complexos, como as diferenças de concepção dos sentidos.
O que é mais relevante para os defensores da fenomenologia é aquilo que pode ser experimentado pelos sentidos. Depois de realizada a redução, o que resiste é o individuo efetivamente sabe e passa a conhecer, transcendendo os dados científicos: é o que se designa resíduo fenomenológico.
Vê-se, portanto, que Husserl contribui para a filosofia com a formulação rigorosa e estruturada de um método fenomenológico, que propõe estudar o objeto do conhecimento de forma livre e pura, para alcançar a sua essência. Em outras palavras, a fenomenologia procura tratar do que é dado imediatamente como conteúdo conhecido, sem abordar as possíveis implicações e desdobramentos, que pertencem a uma construção posterior do saber. Assim, no processo de conhecimento, ou seja, na relação que se estabelece entre o sujeito e o objeto, Husserl distingue os seguintes elementos fundamentais : a noésys ("forma"), a h ‘yle ("matéria") e o nóema ("conceito"). A noésys consiste no pensamento considerado um evento psíquico individual; é o conteúdo subjetivo do pensamento que confere sentido ao objetivo conhecido.A h’ yle trata do dado sensível, do contato físico com o objeto, que em si mesmo não comporta nenhum significado, a não ser quando alcançado pela noésys.Por fim, temos o nóema ,totalmente distinto do objeto físico.
É com isso que Husserl faz uma distinção entre o pensamento como um evento psíquico individual ( noese,ou faculdade do pensar ou inteligência ) e o pensamento como conteúdo ( noema, ou pensamento, intenção).Na operação 2 + 2 = 4 existe uma atividade de natureza psíquica, ao mesmo tempo que há um conteúdo pensado, que se expressa no conteúdo de sentido ideal independentemente do sujeito pensante.Esse segundo sentido revela que a estrutura da consciência é intencional e conduz o sujeito na direção do objeto pensado.
O filosofo distinguiu a essência, entendida como a parcela ideal de significação do objeto, dos aspectos que constituem a nossa experiência, ou seja, do que designou como conteúdo objetivo do pensamento.Portanto, no seu método de análise do fenômeno, a essência é a sua dimensão mais relevante.
Segundo Husserl, existe uma intuição da essência, que é o ato ideador , uma espécie de apreensão imediata da essência juntamente com o fenômeno ; desse modo, conheceríamos o fato e sua essência, simultaneamente. O conhecimento ocorreria por semelhanças, que é própria da essência e não da existência; para Husserl, pensar é, antes de tudo pensar na essência. O passo seguinte a redução é a análise cognitiva, que consiste na comparação detalhada entre fenômeno, tal como é apresentado á consciência, é a universal do fenômeno. A fenomenologia busca conciliar aquilo que experimentamos com aquilo que supomos saber teoricamente. Há aqui implícita uma diferenciação entre o fenômeno experimentado e o fenômeno apreendido, que Husserl compara com a relação entre a aparência e aquilo que aparenta. Recorrendo mais uma vez ao exemplo da cor com o reconhecimento científico que temos sobre ela.
De acordo com Husserl, através da redução, cada sujeito pode tornar-se observador de si mesmo, consciente de si.Assim adquirimos conhecimento e podemos aprender sobre nós mesmos e sobre a nossa volta.Pressupomos a existência de outras pessoas com a mesma capacidade para conhecer, mas é impossível provar que, de fato, elas estejam conscientes de si.Não observamos os pensamentos alheios, vemos apenas as ações do comportamento dos outros.É o que denominamos observação da "coisa" enquanto fenômeno.
Assim, da mesma maneira que aprendemos sobre o mundo observando fenômenos externos, aprendemos sobre nós mesmos por meio dos outros. A única forma de observarmos os resultados de nossas emoções e pensamentos é através das respostas das outras pessoas. É a vida no mundo, que Husserl denominou Lebenweslt, e que nos permite ver e experimentar sem as limitações impostas pelas fórmulas e equações do conhecimento científico. Uma coisa é saber que a água é formada por átomos de oxigênio e de hidrogênio, outra bem diferente é ver, sentir, sorver a água. A análise cognitiva nos permite conciliar o conhecimento científico e a observação ; entretanto, só realizamos essa análise quando nos é solicitado, não se trata de um processo involuntário.
O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) utilizou a fenomenologia em sua maior obra, Ser e Tempo (1927), para estudar a essência do ser, a temporalidade e o sujeito sempre em um contexto.
Os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) usaram o método para o estudo das estruturas da percepção, da consciência e da imaginação.
Para Marilena Chauí, o filosofo privilegia a consciência reflexiva ou o sujeito do conhecimento, isto é, afirma que as essências descritas pela Filosofia são produzidas ou constituídas pela consciência, enquanto um poder para dar significação à realidade.
Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaquiaqui e aqui

FONTE:
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
CRITELLI, D. M. Analítica do sentido: uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica. São Paulo: EDUC Brasiliense, 1996.
GILES, Thomas Ranson. História do Existencialismo e da Fenomenologia. São Paulo: EPU, 1989.
HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas – sexta investigação – elemntos de uma elucidação fenomenológica do conhecimento. São Paulo: Abril, 1980.
_____. A Ideia da Fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986.
Lyotard, J.-F.. A fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986.
MARTINS, Joel e DICHTCHEKENIAN, Maria Fernanda S.F. Beirão. (Orgs.) Temas Fundamentais de Fenomenologia. São Paulo: Moares, 1984.
MERLEAU-PONTY, M.. Ciências do homem e fenomenologia. São Paulo: Saraiva, 1973.
SALANSKIS, Jean-Michel. Husserl. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.  


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