quinta-feira, março 07, 2013

JORGE DE LIMA: O GRANDE CIRCO MÍSTICO




O GRANDE CIRCO MÍSTICO

Jorge de Lima


O médico de câmara da imperatriz Tereza – Frederico Knieps resolveu que seu filho também fosse médico, mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes, com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico se casou com o clown, de que nasceram Marie e Oto. E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora que tinha no ventre um santo tatuado.

A filha de Lily Braun – a tatuada no ventre quis entrar para um convento, mas Oto Frederico Knieps não atendeu, e Margarete continuou a dinastia do circo de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo sofrendo muito por amor de Deus, pois gravou em sua pele rósea a Via-Sacra do Senhor dos Passos. E nenhum tigre a ofendeu jamais; e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos, quando ela entrava nua pela jaula adentro, chorava como um recém-nascido. Seu esposo – o trapezista Ludwig – nunca mais a pôde amar, pois as gravuras sagradas afastavam a pele dela e o desejo dele. 
Então, o boxeur Rudolf que era ateu e era homem fera derrubou Margarete e a violou. Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps. Mas o maior milagre são as suas virgindades em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado; são as suas levitações que a platéia pensa ser truque; é a sua pureza em que ninguém acredita; são as suas mágicas em que o simples dizem que há o diabo; mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Maria e Helene se apresentam nuas, dançam no arame e deslocam de tal forma os membros que parece que os membros não são delas. A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos. Marie e Helene se repartem todas, se distribuem pelos homens cínicos, mas ninguém vê as almas que elas conservam puras. E quando atiram os membros para a visão dos homens, atiram as almas para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps muito pouco se tem ocupado a imprensa.


JORGE DE LIMA. Nasceu em União dos Palmares (1893-1953), Alagoas. Fez Medicina em Salvador e se formou no Rio de Janeiro. Foi deputado estadual pelo Partido Republicano, em 1926. Também vereador pela União Democrática Nacional, no Rio de Janeiro. Publicou seu primeiro livro em 1915, “XIV Alexandrinos”. Assumiu a cátedra de Literatura da Universidade do Brasil e Universidade Católica, em 1949.
Segundo Assis Brasil, trata-se de um poeta de linhagem parnasiana e simbolista que passaria pelo Modernismo com a sua fase nordestina, experimentando o romance de sabor surrealista. E, ainda, segundo Assis Brasil: “Uma experiência poética vasta, tumultuada, com momentos de alto nível expressivo. Já foi comparado a Camões e Fernando Pessoa, pelo sentido cósmico de sua poesia. Após algumas incursões de cunho nacionalista, reflexo do movimento modernista, Jorge de Lima volta a um tipo de poesia imagística, subjetiva. Invenção de Orfeu representa o melhor de sua criação, um poema caótico para alguns, ou neobarroco, mas de densa beleza em muitas de suas passagens”.
O critico Wilson Martins assinala que “Realmente, Jorge de Lima é um poeta, como Cassiano Ricardo, impregnado de reminiscências literárias e, por isso mesmo, um pouco mimético. (...) na poesia de Jorge de Lima, há, por surpreendente que pareça, uma certa incapacidade de expressão propriamente poética: tanto nos poemas nordestinos e modernistas, quanto nos da restauração da poesia em Cristo, que seguirão a 1935, é sensível o ritmo prosaico (que ele procura dissimular com arbitrárias rupturas de verso) e a elocução editorializante, descritiva. Vindo do parnasianismo (parnasianismo aliás limitado no tempo e na técnica), Jorge de Lima parece haver compreendido o verso livre como simples disposição caprichosa das linhas na página e no poema; por isso mesmo, poemas de composição rítmica mais regular, como Essa Negra Fulô, revelam-se desde logo nitidamente superiores. Na terceira fase de sua carreira poética, que Tristão de Athayde denomina de mística, e que é a última no período modernista, Jorge de Lima abre um curioso tipo de poesia religiosa (que é, por definição, e não pode deixar de ser, proselitista): a poesia religiosa ligada ao hermetismo poético (ou, ao contrário, à simples exposição prosaica em que as jaculatórias e o fervor tomam o lugar da matéria poética)”.
Nelson Werneck Sodré dele fala: “(...) a importância da contribuição poética de um Jorge de Lima. Das três fases da sua atividade, realmente, no plano da poesia, a inicial e parnasiana, a regionalista e a final e religiosa, foi a segunda aquela em que a influencia modernista se mostra em toda a sua grandeza, a que assinala a posição do poeta alagoano em nossa literatura. A capacidade de transpor poeticamente os motivos nordestinos para a arte literária jamais seria tão perfeitamente realizada. O virtuosismo parnasiano, a que voltaria, sob outra forma, na última fase, o autor dos Poemas Escolhidos, ficaria inteiramente superado com a reconstituição, em saborosos versos livres, dos padrões e costumes, cuja marca estava presente numa região caracterizada do país. As tentativas para traduzir a inquietação social do tempo, como aquelas de Oswald de Andrade, mais significativas pelo que representavam como sintoma do que como realização, davam mostra do muito que restava à literatura explorar na realidade brasileira”.
Para Oliveiros Litrento, “Ao lado de Carlos Drummond de Andrade e Cassiano Ricardo, é um dos três grandes poetas do modernismo brasileiro. Poeta de múltiplas dimensões (...) No poema, em que a imitação não se confunde com plágios, a linguagem do mito desde às regiões abissais da criatura humana. O homem, condenado ao martírio por conseqüência do pecado, luta pela sobrevivência de sua parcela divina. E desta luta colossal entre o anjo e o demônio derramam-se versos. O poema, em cada estrofe e em cada canto, entoa em coro a insatisfação do homem que jamais se libertará de sua existência telúrica, angustiada e trágica. Esta, a grande mensagem de Invenção de Orfeu, o maior poema cancioneiro de todo o modernismo”.
Também Claufe Rodrigues assim se expressa: “Além de poemas, Jorge de Lima também escreveu romances ao logo de toda a sua carreira, entre os quais “Calunga” e “Guerra dentro do Beco”. Em 1952, publicaria a sua obra mais aclamada, “Invenção de Orfeu”, epopéia em dez cantos, na qual utiliza os recursos apreendidos em uma vida inteira dedicada à literatura”.

BRASIL, Dicionário prático de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
LIMA, Jorge de. Anunciação e encontro de Mira-Celi. Tempo e eternidade. A túnica inconsútil. Rio de Janeiro: Record, 2006.
LITRENTO, Oliveiros. Apresentação da literatura brasileira. Rio de Janeiro/Brasília: Forense-Universitária/INL, 1978.
MARTINS, Wilson. A literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1967.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976. Veja mais Jorge de Lima aqui.



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