sexta-feira, março 08, 2013

NIETZSCHE E A MÚSICA




NIETZSCHE E A MÚSICA – O filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) abordou acerca da música a partir da percepção de que o mundo passa e voltará a passar indefinidamente pelas mesmas fases e cada homem voltará a ser o mesmo em novas existências. Além disso, defendia que novos valores poderiam ser criados para substituir os tradicionais, e sua discussão dessa possibilidade levou-o ao conceito do super-homem. Para ele, todo o comportamento humano é motivado pela busca do poder. Como adepto do perspectivismo, assinala que a pessoa enxerga o mundo de acordo com sua percepção sócio-cultural. A partir do sujeito que não pode ser pensado, só vivido, sempre a entender e a interpretar.

Com relação à música, Nietzsche afirma que ela não é a aparência da vontade, e sim o inverso, como defende no seu livro O Nascimento da Tragédia, de 1872. Nessa obra, a música é focalizada em seu aspecto produtivo, como elemento fundamental para a realização da tragédia. Desse modo, é na obra de arte dionisíaca, que de certa forma liberta a vontade inconsciente dos humanos. Para ele: "a melodia incessantemente geradora lança à sua volta centelhas de imagens". Ou ainda, é na força da música que se encontra a mais alta manifestação da tragédia, é saber interpretar o mito com nova e mais profunda significação; "Esse mito moribundo é agora capturado pelo gênio recém-nascido da música dionisíaca, e em suas mãos floresce mais uma vez, em cores como jamais apresentara, com um aroma que excita o pressentimento nostálgico de um mundo metafísico". Com isso, diferentes papéis assumidos pela música se correspondem também com diferentes sentidos que a tragédia encontra no filósofo. Ele vê na tragédia a expressão de uma alegria perfeitamente compatível com o caráter produtivo da música nietzscheana, pois, para ele, a música não é capaz de acessar a verdade interna do mundo, se concentrando em seu caráter produtivo, o que de modo algum garante o conhecimento da instância originária da qual esta mesma arte partiu. A música, em vez disso, exprime a vontade tal como se exprime um objeto, tal como se constitui um objeto que emana de si próprio, isto porque a música, como já foi dito, não é a aparência da vontade, e sim é a vontade a aparência da música.

Alguns excertos nietzschianos na obra, trazem: “[...] por aquele impulso apolíneo à beleza, a ordem divina, olímpica da alegria: como rosas irrompem de um arbusto espinhoso. [...] Assim os deuses legitimam a vida humana, vivendo-a eles mesmos – a única teodicéia satisfatória!”

“[...] Nos gregos a vontade queria intuir a si mesma na transfiguração do gênio e do mundo da arte: para se glorificar, suas criaturas tinham de sentir-se dignas de glorificação, tinham de ver-se refletidas em uma esfera superior, sem que esse mundo perfeito da intuição atuasse como imperativo ou como censura [...] O consolo metafísico – em que nos deixa, como já indico aqui, toda verdadeira tragédia – de que a vida no fundo das coisas, a despeito de mudança dos fenômenos, é indestrutivelmente poderosa e alegre [...] Salva-o a arte, e pela arte salva-o para si... a vida”.

“[...] Nesse sentido o homem dinionisiaco tem semelhança com Hamlet: ambos lançaram uma vez um olhar verdadeiro na essência das coisas, conheceram, e repugna-lhes agir; pois sua ação não pode alterar nada na essência eterna das coisas, eles sentem como ridiculo ou humilhante esperarem deles que recomponham o mundo que saiu dos gonzos. O conhecimento mata o agir, o agir requer que se esteja envolto no véu da ilusão – esse é o ensinamento de Hamlet, não aquela sabedoria barata de Hans, o Sonhador, que por refletir demais, como que por um excesso de possibilidades, não chega a agir; não é a reflexão, não! – é o verdadeiro conhecimento, a visão da horrível verdade, que sobrepuja todo motivo que impeliria a agir, tanto em Hamlet, quanto no homem dionisíaco”.

“[...] Apolo, esse decifrador de sonhos [...] Dioniso sofredor de mistérios, aquele deus que experimenta em si o sofrimento da individuação, do qual mitos maravilhosos contam que, quando rapaz, foi despedaçado pelos Titãs e nesse estado é venerado como Zagreu [...] Do sorriso desse Dioniso nasceram os deuses olímpicos, de suas lágrimas os homens”.

“[...] Enquanto em todos os homens produtivos o instinto é precisamente a força criadora-afirmativa e a consciência se porta como crítica e dissuasiva, em Sócrates é o instinto que se torna critico e a consciência, criadora – uma verdadeira monstruosidade per defectum””.

“[...] Virtude é saber; só se peca por ignorância; o virtuoso é feliz: nessas três formulas básicas do otimismo está contida a morte da tragédia”.

“[...] A partir desta intima relação que a música tem com a essência verdadeira de todas as coisas,pode-se também explicar por que, quando soa uma música adequada a alguma cena, ação, evento, circunstância, esta nos parece abrir seu sentido mais secreto e se introduz como o mais correto e mais claro dos comentários: do mesmo modo que, para aquele que se abandona inteiramente ao impacto de uma sinfonia, é como se ele visse passarem diante de si todos os possíveis eventos da vida e do mundo: contudo, quando presta atenção, não pode indicar nenhuma semelhança entre aquele jogo sonoro e as coisas que pairavam diante dele. Pois a música, como foi dito, difere de todas as outras artes por não ser copia do fenômeno, ou, mais corretamente, da objetividade adequada da vontade, mas cópia imediata da própria vontade e portanto apresenta, para tudo o que é físico no mundo, o correlato metafísico, para todo fenômeno a coisa em si”.

“[...] A analogia encontrada pelo compositor entre ambas, porém, tem de proceder do conhecimento imediato da essência do mundo, sem que sua razão tenha consciência disso, e não pode, com uma intencionalidade consciente, ser imitação mediada por conceitos: do contrário, a música não enuncia a essência interna, a própria vontade; imita apenas, insuficientemente, seu fenômeno; como o faz toda música propriamente descritiva. [...] Duas sortes de efeitos costuma, pois, exercer a arte dionisíaca sobre a faculdade artística apolínea: a música incita a uma intuição alegórica da universalidade dionisíaca, a música, em seguida, faz aparecer imagem alegórica em sua mais alta significação”.

“[...] Precisamos da mentira para triunfar sobre essa realidade, essa verdade, isto é, para viver... se a mentira é necessária para viver, até isso faz parte desse caráter terrível e problemático da existência. [...] o homem tem de ser mentiroso por natureza, precisa, mais do que qualquer outra coisa, ser artista”.

“A arte e nada mais que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida, a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida. A arte como única força superior contraposta a toda vontade de negação da vida, como o anticristão, antibudista, antiniilista par excellence. A arte como a redenção do que conhece – daquele que vê o caráter terrível e problemático da existência, que quer vê-lo, do conhecedor trágico. A arte como a redenção do que age – daquele que não somente vê o caráter terrível e problemático da existência, mas o vive, quer vivê-lo, do guerreiro trágico, o herói. A arte como a redenção do que sofre – como via de acesso a estados onde o sofrimento é querido, transfigurado, divinizado, onde o sofrimento é uma forma de grande delícia”.

A tragédia Nietzschiana, conta que é necessária a superação humana (vontade de potência). A modernidade transforma os homens em seres vingativos. A vontade de potência ou auto-superação é a redenção do passado e presente para a construção para o futuro, ou seja, Nietzsche quer que a vida humana não seja marcada por vinganças. Então encaminha Zaratustra para lhes ensinarem que só se encontra o homem/vida ou eterno retorno quando largarem a perspectiva antropológica. Até mesmo o próprio Zaratustra esquece de sua essência apolínea ao si considerar humano. Em um dos seus discursos deixa transparecer o caráter dionísico. Zaratustra já estava se contaminando pela trágica realidade moderna. Em vez de buscar a luz, o profeta do super-homem queria a escuridão; sendo apolíneo queria ser dionísico. Ficou infeliz quando tinha que voltar para sua caverna onde se fortaleceria pois, encontraria um ambiente solitário para suas meditações.

Para Paula (2006) “Percebe-se que, desde O nascimento da tragédia até O Caso Wagner, Nietzsche, por meio de seu pensamento genial e incomparável, tenta elevar o valor sobre a questão da existência. O homem, possuidor de instinto e de razão, não poderia omitir um em detrimento do outro. Nesse sentido, esse “psicólogo” da espécie humana, como se intitulava, formulará profundas e relevantes críticas às doutrinas que menosprezem a vida – como o cristianismo, conforme afirmava – tornando homens livres em submissos e separados da unidade da vida. A música, enquanto criação humana da arte, apreendida principalmente pelos sentimentos, remete-nos a um recurso otimista revitalizante para suportar a realidade da dor do sofrimento humano. Seu espírito livre e sua capacidade instintiva e criativa são despertados pela herança da cultura mítica grega, como forma de pensar o significado da vida – seu valor e sua força”.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
MACHADO, Roberto. Tragédia nietzschiana. São Paulo: Jorge Zahar, 1997.
MELLO, Mario Vieira. Nietzsche. São Paulo: Paz e Terra, 1985.
NIETZSCHE, F. A origem da tragédia no espírito da música. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
_______. O Caso Wagner: um problema para músicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
PAULA, Celia Evangelista. Nietzsche e a música: Considerações do filósofo sobre a música como proposta de afirmação da vida. Brasília: UnB, 2006.
SAFRANSKI, R. Nietzsche, biografia de uma tragédia. São Paulo: Geração Editorial, 2005.

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AS RAÍZES ÁRABES NA TRADIÇÃO POÉTICO-MUSICAL DO SERTÃO NORDESTINO – O livro “As raízes árabes na tradição poético-musical do sertão nordestino”, de Luis Soler aborda questões acerca dos violeiros nordestinos e de alhures, a poesia do árabes, do Oriente para o Ocidente, o transplante da tradução, as cruzadas, os trovadores, os jograis, o saldo das influências, o espírito da Renascença, o remanescente medieval no Ibéria renascentista, os sefardistas, o Barroco, a música e os instrumentos da tradição, a música e os instrumentos.

FONTE:
SOLER, Luis. As raízes árabes na tradição poético-musical do sertão nordestino. Recife: Universitária, 1978.




OTTO MARIA CARPEAUX: UMA NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA – O livro “Uma nova história da música” de Otto Maria Carpeaux trata das origens, da polifonia vocal, a Idade Média, a Renascença e a Reforma, a Contra-Reforma, Palestrina, o Maneirismo, o Barroco, as origens da ópera e do Baixo-Contínuo, Monteverde e a Ópera Veneziana, a homofonia na opera e na igreja, homofonia instrumental, o Rococó, Handel, Bach, a música clássica, Haydn, Gluck, Mozart, Beethoven, os romantismos, a ópera de Rossini e Belini, a ópera comique, Chopin, opereta, Berlioz, Schumann, Liszt, Wagner, Vruchner, Wolf, Verdi, Brahms, a crise da música européia, Mahler, Strauss, Tavel, a música nova, Stravinsky, Bartók, Schoenberg e o Dodecafonismo, a música concreta e eletrônica, cronologia dos compositores e cronologia das obras.

FONTE:
CARPEAUX, Otto Maria. Uma nova história da música. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1973.



EDIGAR DE ALENCAR: O CARNAVAL CARIOCA ATRAVÉS DA MÚSICA – O livro “O carnaval carioca através da música” de Edigar de Alencar, trata da cronologia da música e da canção carnavalesca carioca, os aspectos formais e temáticos, a sátira política, evolução, préstitos, corso e batalhas de confete, plagio, linguagem, intelectuais e cronistas, cantiga contra mascarado, modalidades da cantiga de carnaval, marcha-rancho, samba, marchinha, batucada, samba-enredo, o nascimento do carnaval carioca, o Zé-Pereira, danças e guizos, sungas e tropas, quadrilha, polca, maxixe, a moral da época, catões e puritanos, cantigas de empréstimo, os cordões e o Abre-Alas, todo inventário de 1901 a 1977, Chiquinha Gonzaga, Donga, Sinhô, Eduardo Souto, Noel Rosa, Lamartine Babo, Ary Barroso, Haroldo Lobo, Wilson Batista, com rica abordagem, fotografias e ilustrações.

FONTE:
ALENCAR, Edigar. O carnaval carioca através da música. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.


PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR – O livro “Pequena história da música popular (da modinha à canção de protesto)”, de José Ramos Tinhorão, traz apresentação de ritmos brasileiros como a modinha, o lundu, o maxixe, o tango brasileiro, o choro, música de carnaval, a marcha e o samba, a marcha-rancho, o frevo, o samba-canção, o samba-choro, o samba de breque, o samba-enredo, os gêneros rurais urbanizados, o baião, a bossa-nova e a canção de protesto.

FONTE:
TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular (da modinha à canção de protesto). Petrópolis: Vozes, 1975.




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