segunda-feira, dezembro 02, 2019

NIETZSCHE & LOU, MIGUEL COVARRUBIAS, ANA VIDOVIĆ & MAIARA MORAES, WOLFGANG ISER & BIBLIOTERAPIA


A SOLIDÃO DE NIETZSCHE – Uma vez mais e esta será, definitivamente, a minha última carta, Lou, esteja certa, asseguro. Sei que sou um poeta louco, sobrecarregado de dores e não tenho um amigo sequer. Uma vez mais, reitero: nasci velho e desprezo a mim mesmo. Tudo se passa na minha cabeça: desde a fatídica queda do meu pai, a morte trágica recorrente, as dores insuportáveis da minha grande cabeça, o sofrimento na fraqueza dos olhos estrábicos, a respiração difícil, o corpo doentio, as vertigens, a minha irmã e a vida triunfante, a minha mãe e os sonhos venturosos entre moribundos, a zombaria de todos. Só me resta viajar com a música e os antepassados: a dor do mundo na face, a solidão e os livros por meus ditirambos dionisíacos. Vivo entre a euforia e a depressão, o parcial e o fragmentário, a apatia e a agonia: como poderia viver com a necessidade por virtude, como poderia, ora, a fraude da moralidade – a raposa substituiu a águia, a crueldade congênita para quem, desde criança, era chamado de pequeno pastor. Ah, não! Não fui, nunca serei. Valho-me da bebida e das anedotas escusas, a poesia obscena, a devassidão e os bordeis, perdi a vontade de viver e grito de dor. Renunciei à vida, estou à margem do mundo, vivo a noite, não mais suporto o dia e o crepúsculo dos ídolos. Por isso, uma vez mais, Lou, porque a hora pode chegar a qualquer momento e encerrado numa água-furtada o céu é vazio e infinito. Sinto-me cada vez mais só com meu poema aforístico como uma tocha que a claridade da luz não treme, um intérprete do meu tempo que fala o que foi emudecido à forma da mentira, estimulado a pensar e o pensamento confirma a vida: a unidade da vida e da morte, a ascensão da montanha ao voo da águia e os devires. Por isso a minha última carta estranha: sou um Dioniso crucificado e se foi me dado uma oportunidade para a felicidade, este fora diante do seu fogo vulcânico, seu jeito irrequieto de aquariana inteligente, companhia divertida de exuberante e apaixonada pela vida: de longe, a pessoa mais brilhante que conheci. Ah, os seus olhos azuis perturbadores e lábios carnudos e sensuais me fazem ainda viver. Se me disseca, não me dilacera; ao contrário, me faz meditar o amor, enquanto você premedita apenas uma tese. Os seus poemas me perturbam com a oferenda de palavras enganosas, de efusões sem objeto, mas não sem efeito. Eu pretendia, como sempre pretendi, desposá-la. Recusou-me, era seu direito. Sofri, era meu destino: asfixiado de solidão, desiludido no amor. Estou louco, um quase morto e o mal por você feito é pior que um assassinato, arrancou-me o insubstituível. Bem dissera: fui e sou uma vítima da dependência de emoções intensas e dos impulsos da alma. Eu sempre esperei: uma paixão à beira da loucura. A compaixão é uma espécie de inferno. Uma vez mais e não precisará responder esta missiva, como de resto fez a todas as demais cartas enviadas. A minha doença se agravou por este amor não correspondido que carrego até o fim dos meus dias. Tudo amargura e decepção. Mais tarde – se houver um mais tarde depois de tudo -, não sei se poderei dizer mais do que sinto, uma vez mais humano, demasiadamente humano com a vontade alegre e a gaia ciência. Sou apenas um andarilho e sua sombra para além do bem e do mal. Sinto que já vou e só me resta um adeus antecipado com sabor de nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Se o leitor realiza os atos de apreensão exigidos, produz uma situação para o texto e sua relação com ele não pode ser mais realizada por meio da divisão discursiva entre Sujeito e Objeto. [...] o efeito depende da participação do leitor e sua leitura [...] o leitor não mais pode ser instruído pela interpretação quanto ao sentido do texto, pois ele não existe em uma forma sem contexto [...] só na leitura que os textos se tornam efetivos [...] o pólo artístico designa o texto criado pelo autor e o estético à concretização produzida pelo leitor [...] a obra é o ser constituído do texto na consciência do leitor [...] a atualização da leitura se faz presente como um processo comunicativo que deverá ser descrito [...] os elementos de indeterminação permitem sem dúvida um certo espectro de realização, mas isso não significa que a compreensão seja aleatória, pois representa a condição central para a interação entre o texto e o leitor [...] A interpretação tende a mostrarse objetivista; em consequência, seus atos de apreensão eliminam a multiplicidade de significações da obra de arte. Se afirmarmos, como sucede muitas vezes, que uma obra literária é boa ou má, então formamos um juízo de valor. Mas quando necessitamos fundar esses juízos, utilizamos critérios que, na verdade, não são de natureza valorativa, mas que descrevem características da obra em causa. Se compararmos essas com as de outras obras, não conseguimos ampliar os nossos critérios, pois as diferenças entre esses critérios já não representam o valor próprio. [...] um leitor ideal deveria ter o mesmo código que o autor. Mas como o autor transcodifica normalmente os códigos dominantes nos seus textos, o leitor ideal deveria ter as mesmas intenções que se manifestam nesse processo. [...] Tal tipo de leitor precisa então não só das competências citadas como também deve observar suas reações no processo de atualização para que sejam elas controláveis. A necessidade dessa autoobservação se funda, em primeiro lugar, no fato de que Fish desenvolve sua concepção do leitor informado em conexão à gramática transformacional, e, em segundo lugar, em que algumas das consequências desse modelo gramatical não podem ser integradas. [...] Nessas concepções do leitor se evidenciam interesses cognitivos diferentes. O arquileitor apresenta um meio de verificação e serve para captar o fato estilístico pela densidade de codificação do texto. O leitor informado é uma concepção didática que se baseia na autoobservação da sequência de reações, estimulada pelo texto, e visa aumentar o caráter de informação e assim a competência do leitor. Por fim, o leitor intencionado é um tipo de reconstrução que permite revelar as disposições históricas do público, visadas pelo autor. [...] Esses papéis mostram dois aspectos centrais que, apesar da separação exigida pela análise, são muito ligados entre si: o papel de leitor se define como estrutura do texto e como estrutura do ato. Quanto à estrutura do texto, é de supor que cada texto literário representa uma perspectiva do mundo criada por seu autor. O texto, enquanto tal, não apresenta uma mera cópia do mundo dado, mas constitui um mundo do material que lhe é dado. [...]. Trechos extraídos da obra O ato da leitura: uma teoria do efeito estético – 2 volumes (34, 1996/99), do professor alemão Wolfgang Iser (1926-2007), que se tornou a principal base da Estética da Recepção, nome pelo qual ficou conhecida a Escola de Constança. O autor procura identificar as estruturas do texto ficcional capazes de despertar certos efeitos no leitor, destacando seu papel na constituição do sentido da obra literária. Veja mais sobre leitor, leitura, biblioterapia & livroterapia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A MÚSICA DE ANA VIDOVIC
Quando eu tinha 16 ou 17 anos, não foi uma decisão fácil, porque eu era criança e queria fazer outras coisas também. Eu sempre me perguntei sobre escolher outra coisa, mas eu continuava voltando ao violão. Existe uma conexão lá que não pode ser interrompida. Percebi então que teria que trabalhar muito e sacrificar muito. É um processo longo. Eu não quero sair e tocar uma peça nova que não esteja pronta. É difícil tocar uma nova peça pela primeira vez. Demora muitos meses para se preparar. Às vezes, uma peça pode parecer certa, mas pode não estar realmente pronta. Eu toco para que os amigos recebam feedback e depois o apresento lentamente ao público. Quando uma peça é nova, é emocionante tocá-la. Depois que você souber, você sempre terá. Você pode guardá-lo e programá-lo para outra temporada. É assim que você constrói seu repertório.
ANA VIDOVIC – A arte da violonista virtuosa croata, Ana Vidović, que começou a estudar música aos 5 anos de idade e fez sua primeira apresentação aos 7, tornando-se a mais jovem estudante na Academia Nacional de Música de Zagreb. Ela já ganhou vários prémios e competições por todo o mundo. Veja mais aqui.
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MAIARA MORAES
Eu não nasci em família de músicos, mas meus pais sempre ouviram muita música e meu pai tocava violão em um grupo de choro. Isso de certa forma me aproximou da música brasileira. Quando pequena comecei a estudar um pouco de piano, mas aos 12 decidi tocar flauta.
MAIARA MORAES – A arte da flautista Maiara Moraes que se formou em flauta popular pelo Conservatório de Tatui e EMESP (SP), além de estudar na Escola Municipal de São Paulo. Graduou-se em licenciatura pela UDESC e no mestrado em música pela UNICAMP, onde, sob orientação do Prof. Dr. Rafael dos Santos, realizou pesquisa sobre o flautista Copinha. Ele sempre se dedicou ao estudo da música popular latino-americana, especialmente a brasileira, com foco na interpretação e improvisação dentro dos gêneros. Veja mais aqui.

A ARTE DE MIGUEL COVARRUBIAS
A arte do pintor, ilustrador, etnólogo, historiador e caricaturista mexicano Miguel Covarrubias (1904-1957). Veja mais aqui.

A OBRA DE NIETZSCHE
O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.
NIETZSCHE – A obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) aqui, aqui, aqui & aqui.
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LOU SALOMÉ
HINO À VIDA (1881) – Tão certo quanto o amigo ama o amigo, / Também te amo, vida-enigma / Mesmo que em ti tenha exultado ou chorado, / mesmo que me tenhas dado prazer ou dor. / Eu te amo junto com teus pesares,/ E mesmo que me devas destruir, / Desprender-me-ei de teus braços / Como o amigo se desprende do peito amigo. / Com toda força te abraço! / Deixa tuas chamas me inflamarem, / Deixa-me ainda no ardor da luta / Sondar mais fundo teu enigma. / Ser! Pensar milênios! / Fecha-me em teus braços: / Se já não tens felicidade a me dar / Muito bem: dai-me teu tormento.
LOU SALOMÉ – A poeta e psicanalista russa Lou Andreas-Salomé (1861-1937), foi a estudante eslava que conheceu o seu professor em 1882 - Nietzsche tinha então trinta e oito anos e ela tinha apenas vinte e já era um modelo de mulher livre e libertária. A paixão dele por ela perseguiu toda sua vida. Ela insubmissa, enfrentou a rigidez religiosa na Rússia czarista e mudou-se para Zurique, na Suíça, onde funcionava uma universidade que aceitava mulheres. Seu objetivo inicial era o estudo, a meditação, a escrita. Casamento não cabia em seus planos. Nem filhos. Envolveu-se em paixões viveu com o filósofo Paul Rée e o poeta Rainer Maria Rilke, entre outras tantas, e foi admirada por Freud, a única mulher aceita pela sociedade psicanalítica. Após o suicídio de Paul Rée, em 1902, ela entrou em uma profunda depressão, a qual o médico austríaco Friedrich Pineles a ajudou a se recuperar e, da amizade, nasceu um caso amoroso que resultou em um aborto voluntário de Lou. Ela lançou o seu primeiro livro chamado Na luta por Deus. Em 1893 ela publicou um livro intitulado Ensaio sobre a caracterização de Nietzsche. Escreveu o ensaio Anal und Sexual (1916), entre outras obras. Sua vida é retratada no drama histórico Lou (2016), da diretora alemã Cordula Kablitz e seu envolvimento com Nietzsche no filme Além do bem e do mal (1977), da diretora Liliana Cavani. Também nas publicações Lou Salomé: a mulher a quem Nietzsche amou (2016), de  A. de Monzie; Lou Andreas-Salomé: paixão e política Capa Comum (Milfontes, 2019), de Sônia Mattos Missagia; e a biografia Lou Andreas-Salome: la aliada de la vida, escrita por Stéphane Michaud. Veja mais aqui, aqui & aqui.
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Perto do coração selvagem de Clarice Lispector, Brunilda & Gunther, a música de Björk, O pensamento de Vicente do Rego Monteiro, Absurdo: Zenão de Eleia, Kierkegaard, Unamuno, Camus & Sartre; Vontade de amar da poeta Yedda Gaspar Borges, El, o alucinado de Luis Buñuel, a arte da atriz Téa Leoni, Doro parafraseando Sartre & poemiuderótico Paladar aqui.
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Anita Malfatti (1889-1964) aqui, aqui, aqui & aqui.
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A arte da cantora lírica grega, Maria Callas – La Divina (1923-1977) aqui, aqui, aqui & aqui.
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A música do compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...