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segunda-feira, dezembro 02, 2019

NIETZSCHE & LOU, MIGUEL COVARRUBIAS, ANA VIDOVIĆ & MAIARA MORAES, WOLFGANG ISER & BIBLIOTERAPIA


A SOLIDÃO DE NIETZSCHE – Uma vez mais e esta será, definitivamente, a minha última carta, Lou, esteja certa, asseguro. Sei que sou um poeta louco, sobrecarregado de dores e não tenho um amigo sequer. Uma vez mais, reitero: nasci velho e desprezo a mim mesmo. Tudo se passa na minha cabeça: desde a fatídica queda do meu pai, a morte trágica recorrente, as dores insuportáveis da minha grande cabeça, o sofrimento na fraqueza dos olhos estrábicos, a respiração difícil, o corpo doentio, as vertigens, a minha irmã e a vida triunfante, a minha mãe e os sonhos venturosos entre moribundos, a zombaria de todos. Só me resta viajar com a música e os antepassados: a dor do mundo na face, a solidão e os livros por meus ditirambos dionisíacos. Vivo entre a euforia e a depressão, o parcial e o fragmentário, a apatia e a agonia: como poderia viver com a necessidade por virtude, como poderia, ora, a fraude da moralidade – a raposa substituiu a águia, a crueldade congênita para quem, desde criança, era chamado de pequeno pastor. Ah, não! Não fui, nunca serei. Valho-me da bebida e das anedotas escusas, a poesia obscena, a devassidão e os bordeis, perdi a vontade de viver e grito de dor. Renunciei à vida, estou à margem do mundo, vivo a noite, não mais suporto o dia e o crepúsculo dos ídolos. Por isso, uma vez mais, Lou, porque a hora pode chegar a qualquer momento e encerrado numa água-furtada o céu é vazio e infinito. Sinto-me cada vez mais só com meu poema aforístico como uma tocha que a claridade da luz não treme, um intérprete do meu tempo que fala o que foi emudecido à forma da mentira, estimulado a pensar e o pensamento confirma a vida: a unidade da vida e da morte, a ascensão da montanha ao voo da águia e os devires. Por isso a minha última carta estranha: sou um Dioniso crucificado e se foi me dado uma oportunidade para a felicidade, este fora diante do seu fogo vulcânico, seu jeito irrequieto de aquariana inteligente, companhia divertida de exuberante e apaixonada pela vida: de longe, a pessoa mais brilhante que conheci. Ah, os seus olhos azuis perturbadores e lábios carnudos e sensuais me fazem ainda viver. Se me disseca, não me dilacera; ao contrário, me faz meditar o amor, enquanto você premedita apenas uma tese. Os seus poemas me perturbam com a oferenda de palavras enganosas, de efusões sem objeto, mas não sem efeito. Eu pretendia, como sempre pretendi, desposá-la. Recusou-me, era seu direito. Sofri, era meu destino: asfixiado de solidão, desiludido no amor. Estou louco, um quase morto e o mal por você feito é pior que um assassinato, arrancou-me o insubstituível. Bem dissera: fui e sou uma vítima da dependência de emoções intensas e dos impulsos da alma. Eu sempre esperei: uma paixão à beira da loucura. A compaixão é uma espécie de inferno. Uma vez mais e não precisará responder esta missiva, como de resto fez a todas as demais cartas enviadas. A minha doença se agravou por este amor não correspondido que carrego até o fim dos meus dias. Tudo amargura e decepção. Mais tarde – se houver um mais tarde depois de tudo -, não sei se poderei dizer mais do que sinto, uma vez mais humano, demasiadamente humano com a vontade alegre e a gaia ciência. Sou apenas um andarilho e sua sombra para além do bem e do mal. Sinto que já vou e só me resta um adeus antecipado com sabor de nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Se o leitor realiza os atos de apreensão exigidos, produz uma situação para o texto e sua relação com ele não pode ser mais realizada por meio da divisão discursiva entre Sujeito e Objeto. [...] o efeito depende da participação do leitor e sua leitura [...] o leitor não mais pode ser instruído pela interpretação quanto ao sentido do texto, pois ele não existe em uma forma sem contexto [...] só na leitura que os textos se tornam efetivos [...] o pólo artístico designa o texto criado pelo autor e o estético à concretização produzida pelo leitor [...] a obra é o ser constituído do texto na consciência do leitor [...] a atualização da leitura se faz presente como um processo comunicativo que deverá ser descrito [...] os elementos de indeterminação permitem sem dúvida um certo espectro de realização, mas isso não significa que a compreensão seja aleatória, pois representa a condição central para a interação entre o texto e o leitor [...] A interpretação tende a mostrar‐se objetivista; em consequência, seus atos de apreensão eliminam a multiplicidade de significações da obra de arte. Se afirmarmos, como sucede muitas vezes, que uma obra literária é boa ou má, então formamos um juízo de valor. Mas quando necessitamos fundar esses juízos, utilizamos critérios que, na verdade, não são de natureza valorativa, mas que descrevem características da obra em causa. Se compararmos essas com as de outras obras, não conseguimos ampliar os nossos critérios, pois as diferenças entre esses critérios já não representam o valor próprio. [...] um leitor ideal deveria ter o mesmo código que o autor. Mas como o autor transcodifica normalmente os códigos dominantes nos seus textos, o leitor ideal deveria ter as mesmas intenções que se manifestam nesse processo. [...] Tal tipo de leitor precisa então não só das competências citadas como também deve observar suas reações no processo de atualização para que sejam elas controláveis. A necessidade dessa auto‐observação se funda, em primeiro lugar, no fato de que Fish desenvolve sua concepção do leitor informado em conexão à gramática transformacional, e, em segundo lugar, em que algumas das consequências desse modelo gramatical não podem ser integradas. [...] Nessas concepções do leitor se evidenciam interesses cognitivos diferentes. O arquileitor apresenta um meio de verificação e serve para captar o fato estilístico pela densidade de codificação do texto. O leitor informado é uma concepção didática que se baseia na auto‐observação da sequência de reações, estimulada pelo texto, e visa aumentar o caráter de informação e assim a competência do leitor. Por fim, o leitor intencionado é um tipo de reconstrução que permite revelar as disposições históricas do público, visadas pelo autor. [...] Esses papéis mostram dois aspectos centrais que, apesar da separação exigida pela análise, são muito ligados entre si: o papel de leitor se define como estrutura do texto e como estrutura do ato. Quanto à estrutura do texto, é de supor que cada texto literário representa uma perspectiva do mundo criada por seu autor. O texto, enquanto tal, não apresenta uma mera cópia do mundo dado, mas constitui um mundo do material que lhe é dado. [...]. Trechos extraídos da obra O ato da leitura: uma teoria do efeito estético – 2 volumes (34, 1996/99), do professor alemão Wolfgang Iser (1926-2007), que se tornou a principal base da Estética da Recepção, nome pelo qual ficou conhecida a Escola de Constança. O autor procura identificar as estruturas do texto ficcional capazes de despertar certos efeitos no leitor, destacando seu papel na constituição do sentido da obra literária. Veja mais sobre leitor, leitura, biblioterapia & livroterapia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A MÚSICA DE ANA VIDOVIC
Quando eu tinha 16 ou 17 anos, não foi uma decisão fácil, porque eu era criança e queria fazer outras coisas também. Eu sempre me perguntei sobre escolher outra coisa, mas eu continuava voltando ao violão. Existe uma conexão lá que não pode ser interrompida. Percebi então que teria que trabalhar muito e sacrificar muito. É um processo longo. Eu não quero sair e tocar uma peça nova que não esteja pronta. É difícil tocar uma nova peça pela primeira vez. Demora muitos meses para se preparar. Às vezes, uma peça pode parecer certa, mas pode não estar realmente pronta. Eu toco para que os amigos recebam feedback e depois o apresento lentamente ao público. Quando uma peça é nova, é emocionante tocá-la. Depois que você souber, você sempre terá. Você pode guardá-lo e programá-lo para outra temporada. É assim que você constrói seu repertório.
ANA VIDOVIC – A arte da violonista virtuosa croata, Ana Vidović, que começou a estudar música aos 5 anos de idade e fez sua primeira apresentação aos 7, tornando-se a mais jovem estudante na Academia Nacional de Música de Zagreb. Ela já ganhou vários prémios e competições por todo o mundo. Veja mais aqui.
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MAIARA MORAES
Eu não nasci em família de músicos, mas meus pais sempre ouviram muita música e meu pai tocava violão em um grupo de choro. Isso de certa forma me aproximou da música brasileira. Quando pequena comecei a estudar um pouco de piano, mas aos 12 decidi tocar flauta.
MAIARA MORAES – A arte da flautista Maiara Moraes que se formou em flauta popular pelo Conservatório de Tatui e EMESP (SP), além de estudar na Escola Municipal de São Paulo. Graduou-se em licenciatura pela UDESC e no mestrado em música pela UNICAMP, onde, sob orientação do Prof. Dr. Rafael dos Santos, realizou pesquisa sobre o flautista Copinha. Ele sempre se dedicou ao estudo da música popular latino-americana, especialmente a brasileira, com foco na interpretação e improvisação dentro dos gêneros. Veja mais aqui.

A ARTE DE MIGUEL COVARRUBIAS
A arte do pintor, ilustrador, etnólogo, historiador e caricaturista mexicano Miguel Covarrubias (1904-1957). Veja mais aqui.

A OBRA DE NIETZSCHE
O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.
NIETZSCHE – A obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
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LOU SALOMÉ
HINO À VIDA (1881) – Tão certo quanto o amigo ama o amigo, / Também te amo, vida-enigma / Mesmo que em ti tenha exultado ou chorado, / mesmo que me tenhas dado prazer ou dor. / Eu te amo junto com teus pesares,/ E mesmo que me devas destruir, / Desprender-me-ei de teus braços / Como o amigo se desprende do peito amigo. / Com toda força te abraço! / Deixa tuas chamas me inflamarem, / Deixa-me ainda no ardor da luta / Sondar mais fundo teu enigma. / Ser! Pensar milênios! / Fecha-me em teus braços: / Se já não tens felicidade a me dar / Muito bem: dai-me teu tormento.
LOU SALOMÉ – A poeta e psicanalista russa Lou Andreas-Salomé (1861-1937), foi a estudante eslava que conheceu o seu professor em 1882 - Nietzsche tinha então trinta e oito anos e ela tinha apenas vinte e já era um modelo de mulher livre e libertária. A paixão dele por ela perseguiu toda sua vida. Ela insubmissa, enfrentou a rigidez religiosa na Rússia czarista e mudou-se para Zurique, na Suíça, onde funcionava uma universidade que aceitava mulheres. Seu objetivo inicial era o estudo, a meditação, a escrita. Casamento não cabia em seus planos. Nem filhos. Envolveu-se em paixões viveu com o filósofo Paul Rée e o poeta Rainer Maria Rilke, entre outras tantas, e foi admirada por Freud, a única mulher aceita pela sociedade psicanalítica. Após o suicídio de Paul Rée, em 1902, ela entrou em uma profunda depressão, a qual o médico austríaco Friedrich Pineles a ajudou a se recuperar e, da amizade, nasceu um caso amoroso que resultou em um aborto voluntário de Lou. Ela lançou o seu primeiro livro chamado Na luta por Deus. Em 1893 ela publicou um livro intitulado Ensaio sobre a caracterização de Nietzsche. Escreveu o ensaio Anal und Sexual (1916), entre outras obras. Sua vida é retratada no drama histórico Lou (2016), da diretora alemã Cordula Kablitz e seu envolvimento com Nietzsche no filme Além do bem e do mal (1977), da diretora Liliana Cavani. Também nas publicações Lou Salomé: a mulher a quem Nietzsche amou (2016), de  A. de Monzie; Lou Andreas-Salomé: paixão e política Capa Comum (Milfontes, 2019), de Sônia Mattos Missagia; e a biografia Lou Andreas-Salome: la aliada de la vida, escrita por Stéphane Michaud. Veja mais aqui, aqui & aqui.
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Perto do coração selvagem de Clarice Lispector, Brunilda & Gunther, a música de Björk, O pensamento de Vicente do Rego Monteiro, Absurdo: Zenão de Eleia, Kierkegaard, Unamuno, Camus & Sartre; Vontade de amar da poeta Yedda Gaspar Borges, El, o alucinado de Luis Buñuel, a arte da atriz Téa Leoni, Doro parafraseando Sartre & poemiuderótico Paladar aqui.
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Anita Malfatti (1889-1964) aqui, aqui, aqui & aqui.
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A arte da cantora lírica grega, Maria Callas – La Divina (1923-1977) aqui, aqui, aqui & aqui.
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A música do compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


terça-feira, novembro 06, 2018

SOPHIA DE MELLO BREYNER, ANITA MALFATTI, LÍGIA MORENO & COLÓQUIO TEORIA DA HISTÓRIA


A RUA DAS VIÚVAS – Anita Malfatti (1889-1964). - Nada mais sombria paisagem do que aquela quase rua mal iluminada e tão estreita de parecer um beco sem saída, mais vai dar noutros tantos acessos de avenidas e estrada afora com seus murmúrios baixinhos e sussurros espremidos, pela qual quantas Atalantas haviam perdido a soberba da juventude de princesas, tão altivas beldades de rejeitarem pretendentes por serem consagradas a Ártemis, a grande deusa lunar rebelde das florestas e animais selvagens, libertárias e independentes, e tão capazes de competir em verdade com todos os Hermes de então, agora viúvas trancadas da vida. Elas que então se esquivavam dos assédios como até hoje, jovens robustas a brincar de bem-me-quer e malmequer com as pétalas de rosas, até a chegada do sapo próspero príncipe de reinados e posses na engalanada festa de véus e grinaldas na matriz, chuva de arroz e presentes dos padrinhos e convidados, para nas núpcias se entregarem aos seus maridos escolhidos a dedo e com eles correrem com a leveza dos deuses a se comprazerem enredados nas teias das paixões violentas, a ponto de se esquecerem da gratidão devedora à Afrodite. Essa ingratidão dita como sempre o destino dos infelizes por provocar a fúria da deusa e dela emanam castigos de toda sorte. Não sabiam sequer do esquecimento e hoje pagam todas órfãs do dia a esperarem a qualquer momento pelas maçãs dos Hipomenes, colhidas do Jardim das Hespéridas ou da Discórdia ou da Árvore do Conhecimento no Jardim do Éden, ou mesmo as presenteadas com o perdão de Afrodite. Desoladas, refugiam-se em rezas de joelhos na sua solidão ou no culto do templo mais próximo, em orações muitas de todos os arrependimentos e culpas. E choram desconsoladas não mais Esqueneu para repudiá-las ao nascimento e abandoná-las nas montanhas, até se arrepender e trazê-las do Monte Partênio para o lar e, diligentemente, protegê-las das ruínas e libertar suas almas apenas pros bons partidos. Não mais noites de boas conversas ou mesmo de algumas contrariedades alimentadas pelos desentendimentos inerentes a qualquer casal, não mais pés para esquentar no frio os seus embaixo do cobertor, nem finais de semana aos passeios, nem filhos prometidos, muito menos promessas de paz na velhice. Todas as noites ali elas se deitam solitárias com seus sofrimentos, padecem de quantas angústias, fobias, medos e depressões que povoam do crepúsculo à aurora sua clausura, quando não se valem da maldição da Mulher da Sombrinha ou daquelas que saem de suas lápides para enfeitiçarem os notívagos às portas do cemitério ou nas esquinas movimentadas acenando ao primeiro passante a gentileza de pagar ou não um momento de prazer nos escuros dos quartos. Ninguém me vira por Hesíodo naquela via da Arcádia e meus olhos de Higino flagraram aquela via da Beócia, todas elas, inclusive aquelas que também são viúvas de maridos vivos - sobreviventes reféns das safras canavieiras em todo o território brasileiro. Pra elas minha solidária emoção de estrelas que alumiam o caminho a seguir. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina. Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho. Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada. E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas. Assim foi durante várias gerações. Mas, com o passar do tempo, surgiu um problema terrível, e por mais que todos meditassem e discutissem, ninguém era capaz de arranjar uma boa solução. Porque, ao longo dos anos, a árvore tinha crescido tanto, os seus ramos tinham-se tornado tão compridos, a sua folhagem tão espessa e a sua copa tão larga que, durante o dia, metade da ilha ficava sempre à sombra. De maneira que metade das casas, das ruas, das hortas e dos jardins nunca apanhava sol. E, na metade ensombrada, as casas estavam a ficar úmidas, as ruas tinham-se tornado tristes, as hortas já não davam legumes, os jardins já não davam flor. E a gente que ali morava andava sempre pálida e constipada. E, à medida que a sombra da árvore crescia, crescia também a perturbação. As pessoas gemiam: — Que havemos de fazer? Que havemos de fazer? Até que foi decidido a população reunir-se toda em conselho para examinar bem o problema e decidir o remédio que devia dar-lhe. Discutiram durante muitos dias e, depois de todos terem falado, chegou-se à triste conclusão de que era preciso cortar a árvore. Houve choros, lamentações, gemidos. A árvore era bela, antiga e venerável. Fazê-la desaparecer era um ato que não só entristecia os habitantes da ilha mas que também os assustava. Mas não havia outro remédio e quase todos acabaram por concordar com o corte. No lugar onde antes ela se erguia, plantaram um pequeno bosque de cerejeiras, pois as cerejeiras nunca crescem muito. Abater a árvore foi difícil e toda a gente teve de ajudar. Mas, depois de cortada, ela ocupava tanto espaço que a ilha ficou quase sem lugar para mais nada. Por isso começaram a desfazê-la: primeiro cortaram os ramos e as pernadas e a sua madeira foi distribuída entre todos, para que cada um pudesse fabricar alguma coisa que lhe lembrasse a árvore tão amada. Alguns fabricaram pequenas mesas, outros, varandas para as suas casas, outros, caixilhos para os biombos, outros, caixas, tabuleiros, tigelas, colheres, pentes e ganchos para as mulheres espetarem no cabelo. No fim ficou só o enorme e grosso tronco nu, deitado através da ilha. Então começaram a chegar viajantes e armadores que queriam aquela ótima madeira para fabricar barcos. Mas a população não quis. Reuniram todos outra vez em conselho e decretaram: — Os habitantes desta ilha não querem separar-se da sua árvore que, antes de crescer demais, lhes deu tanta alegria. Vamos nós próprios construir o nosso barco. E assim foi. Depois da chuva do Outono, deixaram o tronco secar durante longos meses e, logo que viram que a madeira já estava bem seca, meteram mãos à obra. E, como são um povo muito inteligente, os japoneses, que trabalham muito bem, muito depressa, com muito esmero e são ótimos carpinteiros, construíram rapidamente uma grande e linda barca toda esculpida e pintada de muitas cores. Então houve uma grande festa e a barca foi lançada ao mar. À noite houve fogo de vista e em todas as ruas e praças se acenderam balões de papel, azuis, amarelos e vermelhos. Daí em diante a vida do povo daquela terra passou a ter uma vida muito mais animada e variada e quase todos se tornaram muito mais ricos. Antes, como a ilha era tão pequena, os seus habitantes só possuíam pequenos barcos de pesca e só podiam navegar até às ilhas vizinhas. Quando alguém precisava de ir mais longe tinha que arranjar um lugar em certos barcos maiores que de vez em quando por ali passavam. Agora tudo tinha mudado. Agora, graças à grande barca, navegavam constantemente de ilha em ilha davam grandes passeios pelo mar e faziam ótimos negócios. Às vezes nas noites calmas de Verão ou de Outono grupos de pessoas embarcavam e iam até ao largo ver a lua cheia sobre o mar. Ou então rondavam a ilha junto à costa, até ao extremo sul, para irem ali admirar os recortes negros dos rochedos sobre a claridade clara e azulada do luar. Depois, no Inverno seguinte comentavam estes passeios, comparavam tudo o que tinham visto, discutiam qual fora a mais bela noite, a mais bela paisagem. Entretanto, à medida que o tempo ia passando, as cerejeiras que tinham plantado iam crescendo e embelezando. Por isso a gente da ilha passou a celebrar, todos os anos, a festa da cerejeira em flor. Quando acabava o Inverno e começava a surgir a Primavera tudo se animava. Os pedreiros, os tanoeiros e os carpinteiros vinham trabalhar para o ar livre e riam e cantavam enquanto esculpiam, serravam, martelavam. Havia grande azáfama e pelas ruas passavam pessoas muito apressadas: iam a correr às lojas de tecidos comprar kimonos de Primavera para vestirem quando chegasse o dia em que já pudessem ir admirar o primeiro desabrochar das flores. E nas ruas, nos jardins, nos campos, os marmeleiros, as macieiras, as cerejeiras já estavam carregadas de botões fechados. No centro da povoação aparecia então o macaco amestrado, vestido com um casaquinho azul e acompanhado pelo seu dono. E em redor juntavam-se as crianças e adultos para admirarem as habilidades do animal sábio. E as crianças ficavam mudas de espanto quando aparecia um grande leão de papel que vinha pela rua fora num andar baloiçado, acompanhado por dois homens vestidos com kimonos amarelos. Passavam por todas as ruas e por fim paravam debaixo dos ramos das cerejeiras. Então os homens do kimono amarelo começavam a rufar os tambores e o leão começava a dançar. E um dos homens cantava: Já dança o leão / Debaixo da cerejeira / Ao som dos tambores / O seu bailar faz abrir / Mais depressa as flores. E, no dia seguinte, nos ramos das cerejeiras, as pequenas flores cor de rosa estavam todas abertas. Assim, durante muitos anos, a vida naquela ilha correu com muita alegria e animação. Mas apesar dessa alegria, apesar dos bons negócios e dos grandes passeios, todos se lembravam com saudade da velha árvore. — Como era alta e bela! — diziam. — Como a sua sombra era perfumada! — Como era doce e leve o sussurrar da brisa nas suas folhas! — Como a sua copa era redonda e bem formada! — Como as suas folhas eram verdes e bem desenhadas! — Como era tão suave a frescura debaixo dos seus ramos, nas manhãs de Verão! E, assim, entre palavras e pensamentos, a árvore nunca era esquecida. E os anos foram passando. Até que os marinheiros e os calafates descobriram que estava a acontecer uma grande desgraça: A madeira da quilha da grande barca tinha começado a apodrecer. — Ai de nós! — choravam os habitantes. — Não vamos dar mais passeios pelo mar. Nas noites de lua cheia, não vamos visitar mais as outras ilhas, não vamos fazer mais negócios. Mas os comerciantes sossegaram-nos. — Durante estes anos — disseram eles — graças à nossa grande barca, andámos a navegar de ilha em ilha, de porto em porto, a comprar e a vender, e fizemos negócios tão bons que juntamos muito dinheiro. Por isso, como aqui não há outra árvore enorme, e as árvores que agora temos fazem muita falta se forem cortadas, estamos dispostos a ir às outras ilhas comprar boa madeira. E todos juntos podemos construir outra grande barca. A população aplaudiu o discurso e concordou com o projecto e daí a poucos meses a barca nova ficou pronta e logo a puseram a flutuar. Então, a barca velha foi arrastada para a praia. O povo cercou-a em silêncio com grande tristeza, e os carpinteiros e os calafates examinaram-na tábua por tábua. A madeira do casco, do convés e dos bancos estava quase toda semiapodrecida e só servia para queimar. Mas o mastro grande, que tinha sido tirado do cerne da velha árvore, continuava são e bem conservado. — Temos que fazer com este mastro alguma coisa que nos lembre a nossa árvore antiga e a nossa barca — disse o chefe da ilha. Depois de muito pensar resolveram fazer uma biwa, que é uma espécie de guitarra japonesa. Quando a obra ficou pronta, a população reuniu-se na praça principal e sentaram-se em silêncio em redor do melhor músico da ilha para ouvirem o som da biwa. Mas, mal os dedos do músico fizeram soar as cordas, de dentro da biwa ergueu-se uma voz que cantou: A árvore antiga / Que cantou na brisa / Tornou-se cantiga. Então, todos compreenderam que a memória da árvore nunca mais se perderia, nunca mais deixaria de os proteger, porque os poemas passam de geração em geração e são fiéis ao seu povo.
Conto A árvore (Figueirinhas, 1987), da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AGENDA:
Colóquio Internacional de Teoria da História: Para ler a cultura e os intelectuais & muito mais na Agenda aqui.
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Melpomene & Atalanta aqui
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Viúvas de maridos vivos aqui
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Rachel de Queiroz, Gilles Deleuze, Mikel Dufrenne, Virgínia Palomeque, As tribos de Águas Belas, Ana Cruz, The Cage do Bolshoi Ballet and Opera Treatre, Quinteto Violado, Rachel Podger, Duofel & Meredith Monk aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da pianista Lígia Moreno: Concerto nº1 em Lá menor de Grieg, Jeux d’Eau de Ravel e Sonata nº 2 de Beethoven & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, março 07, 2016

ANITA MALFATTI, ALEXANDRE CABANEL & O TRAUMA DA MOÇA


O TRAUMA DA MOÇA (Foto Acervo LAM) – Brunilda acordou feliz com as suas dezesseis primaveras. Ela ganhou de presente nesse aniversário aquilo que desejava como a razão pra sua própria vida: um telefone celular novinho. Era o desejo de um aparelho sofisticado e assim o foi. Custou os olhos da cara do pai, mas sua vontade foi satisfeita. Agora ela podia conversar, filmar, fotografar, ouvir música, baixar e enviar arquivos, enfim, era tudo que precisava para ser feliz. A sua felicidade dependia disso. Agora sim, ela podia dizer que estava à altura das amiguinhas, não mais a última do grupinho a se atualizar na moda. De certa forma, entendia porque o pai, quando estava em casa nos últimos dias, fazia contas e mais contas. Devia de ter comprado numa valsa interminável de não sei quantas prestações, isso não importa, não vem ao caso, o que importa mesmo é que estava exultante por estar na moda e agora esquiparada às colegas do seu rol de amizade. Já se sentia excluída, infeliz e um nada de gente. Agora não, agora era gente de verdade. E foi se arrumar com suas roupas de grife combinado com aquela novidade. Podia agora estufar o peito e dizer: estou na onda. E se arrumando já pensava em como chegar pra turma da classe e exibir-se com aquilo que a traria de volta à imponência de ser gente de posse, gente fina e não uma pé rapado como estava se sentindo nos últimos tempos. Agora sim, agora ela podia ir fazer o trabalho escolar com dignidade e altivez, aproveitaria para mostrar pra turma do colegial o seu presente. O trabalho era uma coisa que desgostava, porém era o seu momento de se mostrar. Trabalho em equipe, hummmmm, isso lhe causava certa antipatia e mal-estar. Por que? Ninguém até agora lhe explicou direito a razão de se estudar literatura e ter que ler um texto de mais de cem anos, um tal de O espelho, de um certo escritor Machado não sei que lá, que ela não sabia quem era e que vivia num tempo que não era o dela, não tendo nada que ver com a sua vida, nem com seus sonhos. Ela já não gostava de ler e vinha essa obrigação forçosa de que tinha que ler e interpretar! Coisa mais sem propósito para ela isso de ter que ler, pensar e adivinhar o que o tal escritor queria dizer, isso é muito chato pra ela. Ficava aborrecida com isso, mas destá, ela preferia que fosse uma letra de música para decorar, principalmente se fosse de um funck novo, ou alguma poesia romântica. Mas os da escola? Tudo chato. Pra que estudar? Para que ler literatura, tudo uma velharia, passado, ela queria viver o presente, isso sim. Essas coisas do colégio são tudo chatas, os professores uns porres e os assuntos piores ainda. O que tinha a ver com a vida dela equações, fórmulas, leis, essas coisas tudo uma chatura da braba. O que é a vida? Para ela, com certeza, a vida não era nenhum dos conteúdos ministrados na sala de aula. Pra ela, viver é cantar, dançar, comprar, passear, ficar, curtir os amigos no shopping ou no cinema, nos barzinhos, nas festinhas e, sobretudo ficar e, se der certo e firme, namorar com um garoto lindo que será seu príncipe encantado para sempre. Antes disso, só beijar na boca e ficar muiiiiiiito. Ah, ela resolveu dar um chute na chateação e se arrumar melhor pra mostrar o seu presente pra galera, desfilando suas grifes, se mostrando presente e no ranking da moda. Foi aí que ajeitou-se toda, pôs o par de fones no ouvido e saiu dando um tchau breve pra mãe. Apressada, abriu e fechou a porta, livrou-se do portão e já na calçada saiu embalada com o som que rolava nos fones, curtindo o último lançamento dos funkeiros. Lá se ia contente e maravilhada na calçada da rua pro ponto pegar a condução, acompanhando a marcação da música, quase já coreografando com o andar a dança do seu universo, seu mundo, não via ninguém nem nada, só a música, seus sonhos, seu momento de felicidade. Nem deu conta de uma motocicleta parando ali perto, quase na sua frente e o passageiro descer da garupa e se dirigir até ela, assustando-se com a aproximação. Nem deu conta da mãozada que lhe deu de deixá-la estendida no chão. Três dias depois acordava ela na cama de um apartamento de hospital: afundamento craneano, duas costelas e o braço esquerdo fraturados, o olho esquerdo fechado e o pau da venta inchadíssimo, hematomas e escoriações. Quando tomou conta da situação viu sua mãe chorosa, seu pai aos pés da cama, seus dois irmãos encostados na parede, tudo muito triste. Ela olhou para cada um, olhou do lado e quando ousou falar, sentiu dificuldade. Conseguiu balbuciar esforçando-se: - Cadê meu celular? Ah, foi aí que tomou ciência: fora assaltada e espancada. E o seu presente de aniversário, no assalto, o dono levou. Um pranto inconsolável encheu o ambiente. (Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.

Confira também:











Imagem: a arte da pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui e aqui.

E veja mais: É pra ela, Carlos Gomes, Silviane Bellato, a lenda munduruci Quando mandavam as mulheres, Neila Tavares, Heloneida Studart, Maria Esther Maciel, Monica Bellucci, Giuseppe Tornatore, Piet Mondrian, Edwin Landseer & Meimei Corrêa aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Imagem Nu, do pintor do Neoclassicismo francês Alexandre Cabanel (1823-1889).
Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


sexta-feira, janeiro 22, 2016

MALFATTI, QUINTANA, VOLTAIRE, TRUFFAUT, CASCUDO, SPIELMANN, MOREAU, GERUSA LEAL & MUITO MAIS!!!!


TODO DIA É DIA DA MULHER - A campanha todo dia é dia da mulher nasceu em 2006 – na verdade, em 1996 quando escrevi a Crônica de amor por ela e se transformou em Folia Tataritaritatá em 2013 -, e tem duas razões muito simples. A primeira delas, é que não apenas se reduz à comemoração de dois dias, o 08 de março – Dia Internacional da Mulher, e o 30 de abril – Dia Nacional da Mulher, que se deve prestar homenagens a esse ser tão maravilhoso. Em segundo, é que também não é apenas a atitude estúpida masculina a responsável pela totalidade da injustiça cometida contra todas as mulheres. Evidente que o machismo idiota representa a maior parcela e mais representativa violência no âmbito da injustiça, contudo deve ser acrescentada, também, a responsabilidade cometida pela estrutura em que foi formada toda humanidade, notadamente aquela assentada no patriarcalismo – e nesse balaio entra toda sociedade, desde autoridades, sistema de saúde, educação, enfim, a sociedade como um todo também é responsável pelas atrocidades que são cometidas contra as mulheres. É evidente que isso está assentado na trajetória da mulher desde as mais remotas eras até o momento atual, registrando uma série de acontecimentos que vão desde a imposição da sua submissão ao homem na sociedade patriarcal, à sua fragilidade na questão de gênero, à sua exaltação ao posto de musa e rainha de poetas e sonhadores, à determinação dos seus afazeres domésticos e criação dos filhos, afora discriminações, ultrajes e violências. Ao longo dos tempos, a mulher sempre foi encarada religiosamente como a culpada pelo pecado, foi submetida a ser apenas a costela do homem e sua fiel companheira na criação dos filhos, na manutenção dos afazeres domésticos e condução da família. Não raro, a mulher se dedicou à luta da sua autonomia contra as discriminações de gênero e na busca por uma igualdade de condições. Dentro dessas lutas ela também se envolveu com outras questões democráticas, como o direito de voto, justiça social, anistia, melhores condições de trabalho, entre outras, engajando-se, inclusive, nas lutas dos homens e de toda humanidade. As lutas das mulheres não só reivindicavam os seus direitos, incorporavam o direito de todos, crianças, idosos, analfabetos, natureza, enfim, todo ser humano e planeta Terra. No meio dessas manifestações, a mulher foi, mesmo nas mais legítimas reivindicações gerais de suas propostas e da sociedade em geral, sempre discriminada, desafiada, ultrajada, maltratada e até violentada pelas mais torturantes iniciativas totalitárias e opressoras. Vítima de uma violência das mais trágicas, a mulher perseguiu ao longo dos milênios com seus anseios e lutas por sua afirmação, pelo feminismo, pela democratização, pelo direito de todos e pela justiça social. Esta é a prova inconteste de que existem diversas formas de violência praticadas contra a mulher, desde a discriminação social, até o espancamento físico, estupros, maus tratos, assédios e assassinatos. É essa a violência que parte da própria sociedade e é mais terrível no seio da família, quando praticada nos domínios do lar pela supremacia de mando do seu marido. Com o passar dos tempos, a violência contra a mulher começou a ser combatida no mundo inteiro e seus direitos passaram a ser exigidos nas sociedades democráticas. A partir da Revolução Francesa, com o surgimento dos direitos, a luta das mulheres direcionou-se entre as reivindicações de classe e questões políticas que se adensaram na Revolução Industrial, articulou-se com o Marxismo, fez frente aos movimentos sufragistas e se delinearam nos movimentos feministas. No Brasil, a luta das mulheres não foi diferente dos cenários europeus e norte-americanos, culminando com a promulgação da Constituição Federal de 1988, quando esta estabeleceu a igualdade de gêneros, o principio da dignidade humana e o exercício da cidadania pela instituição do Estado Democrático de Direito, quando a mulher viu-se contemplada com seus direitos garantidos. A partir dessa Carta Magna, muitos institutos legais regulamentaram suas previsões, visando coibir a violência contra a mulher. Estes institutos podem ser constatados a partir da instituição das Delegacias de Defesa da Mulher, do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e a edição da Lei Maria da Penha, esta exclusivamente voltada para coibir a violência, entre outros tantos diplomas legais atinentes ao atendimento dos direitos da mulher. Mesmo com esse aparato legal, o problema ainda persiste – é porque não é só de lei que vive a Justiça e o Direito, muito menos o ser humano, mas de educação, consciência, respeito à diferença e solidariedade. (Luiz Alberto Machado).

Veja mais:
SAMIRA, A RUIVINHA SARDENTA 
SULINA, A OPULÊNCIA DA BELDADE
 
PICADINHO


Imagem: Female nude, do pintor austríaco Hans Temple (1857-1931)


Curtindo o álbum Brazilian Breath (Aosis Records, 2001), da saxofonista, flautista, compositora e arranjadora Daniela Spielmann.

EPÍGRAFE – Os homens usam o pensamento só para justificar suas injustiças, e o discurso para esconder seus pensamentos, frase recolhida do livro Dialogues d'Euhémère (1777), do escritor, dramaturgo e filósofo iluminista francês Voltaire (François Marie Arouet/1694-1778). Veja mais aqui, aqui e aqui.

COMUNICAÇÃO – No livro O que é comunicação (Nova Cultural/Brasiliense, 1986), do intelectual paraguaio que estudo a comunicação, Juan Diaz Bordenave (1926-2012), encontro que: Alguém fez, uma vez, uma lista dos atos de comunicação que um homem qualquer realiza desde que se levanta pela manhã, até a hora de deitar-se, no fim do dia. A quantidade de atos de comunicação é simplesmente inacreditável, desde o bom dia à sua mulher, acompanhado ou não por um beijo, passando pela leitura do jornal, a decodificação de números e cores do ônibus que o leva ao trabalho, o pagamento ao cobrador, a conversa com o companheiro de banco, os cumprimentos aos colegas no escritório, o trabalho com documentos, recibos, relatórios, as reuniões e entrevistas, a visita ao banco e as conversas com seu chefe, os inúmeros telefonemas, o papo durante o almoço, a escolha do prato no menu, a conversa com os filhos no jantar, o programinha da televisão, o dialogo amoroso com sua mulher antes de dormir, e o ato final de comunicação num dia cheio dela: boa noite. A comunicação confunde-se, assim, com a própria vida. Temos tanta consciência de que comunicamos como de que respiramos ou andamos. Somente percebemos a sua essencial importância, quando, por um acidente ou uma doença, perdemos a capacidade de nos comunicar. Pessoas que foram impedidas de se comunicar durante longos períodos enlouqueceram ou ficaram perto da loucura. A comunicação é uma necessidade básica da pessoa humana, do homem social. Veja aqui.

O CABOCLO, O PADRE E O ESTUDANTE – No livro Contos tradicionais do Brasil (Itatiaia/Edusp, 1986), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), encontro a narrativa sobre O caboclo, o padre e o estudante: Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhe numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividi-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com seus recursos oratórios. Todos aceitaram e foram dormir. À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o. Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O frade disse ter sonhado com a escada de Jacob e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara já dentro do céu à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou: - Eu sonhei que via seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava da terra e gritava: - Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo. Então, vosmincês respondiam de longe, do céu: - Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo. O sonho foi tão forte que eu pensei que era verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo... Veja mais aqui, aqui e aqui.

ESPARADRAPO – No livro Da preguiça como método de trabalho (Globo, 1987), do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994), encontro o poemeto em prosa Esparadrapo: Há palavras que parecem exatamente o que querem dizer. “Esparadrapo”, por exemplo. Quem quebrou a cara fica mesmo com cara de esparadrapo. No entanto, há outras, aliás de nobre sentido, que parecem estar insinuando outra coisa. Por exemplo: “incunábulo”. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

HORÁRIO DE VISITA – Tive oportunidade em 2003, de assistir em São Paulo, no Teatro do Centro da Terra, à montagem do espetáculo O horário de visita, de Sérgio Roveri, com direção de Ruy Cortez, contando a história de um casal sob o impacto de um trauma recente esperando a visita que poderá proporcionar o alivio para eles. Mas o inesperado traz, além dessa pessoa, uma segunda visita. A reunião, que deveria ser apaziguadora, transforma-se assim em um conturbado confronto de interesses. O destaque da peça teatral vai para a atriz Tuna Dwek. Veja mais aqui.

JULES ET JIM – O drama Jules et Jim (Uma Mulher para Dois, 1962), dirigido pelo cineasta francês François Truffaut (1932-1984),conta a história da amizade de dois homens e o amor de ambos pela mesma mulher na Paris do início do século XX. Trata-se de um judeu-alemão tímido e um francês extrovertido que se tornam grandes amigos. Eles têm muitos dos mesmos interesses, entretanto procuram alcançá-los de forma bastante diferenciada. Em uma viagem para uma ilha um pouco distante da Grécia, eles veem uma estátua com um sorriso sem igual e quando voltam à Paris conhecem uma mulher que se parece com a escultura. Logo os três boêmios se tornam um trio inseparável e eles têm muitos momentos agradáveis em passeios de bicicletas ou idas à praia, enquanto o cenário político mundial estremece com a possibilidade da Primeira Grande Guerra, estando o trio determinado em aproveitar a vida ao máximo e viver para o momento. O destaque do filme é para a atriz e cantora francesa Jeanne Moreau. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte da pintora, desenhista, gravadora e professora Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à escritora pernambucana Gerusa Leal & Flor de Gelo. Veja aqui.

Veja aqui & aqui.

Veja as homenageadas aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...