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segunda-feira, dezembro 02, 2019

NIETZSCHE & LOU, MIGUEL COVARRUBIAS, ANA VIDOVIĆ & MAIARA MORAES, WOLFGANG ISER & BIBLIOTERAPIA


A SOLIDÃO DE NIETZSCHE – Uma vez mais e esta será, definitivamente, a minha última carta, Lou, esteja certa, asseguro. Sei que sou um poeta louco, sobrecarregado de dores e não tenho um amigo sequer. Uma vez mais, reitero: nasci velho e desprezo a mim mesmo. Tudo se passa na minha cabeça: desde a fatídica queda do meu pai, a morte trágica recorrente, as dores insuportáveis da minha grande cabeça, o sofrimento na fraqueza dos olhos estrábicos, a respiração difícil, o corpo doentio, as vertigens, a minha irmã e a vida triunfante, a minha mãe e os sonhos venturosos entre moribundos, a zombaria de todos. Só me resta viajar com a música e os antepassados: a dor do mundo na face, a solidão e os livros por meus ditirambos dionisíacos. Vivo entre a euforia e a depressão, o parcial e o fragmentário, a apatia e a agonia: como poderia viver com a necessidade por virtude, como poderia, ora, a fraude da moralidade – a raposa substituiu a águia, a crueldade congênita para quem, desde criança, era chamado de pequeno pastor. Ah, não! Não fui, nunca serei. Valho-me da bebida e das anedotas escusas, a poesia obscena, a devassidão e os bordeis, perdi a vontade de viver e grito de dor. Renunciei à vida, estou à margem do mundo, vivo a noite, não mais suporto o dia e o crepúsculo dos ídolos. Por isso, uma vez mais, Lou, porque a hora pode chegar a qualquer momento e encerrado numa água-furtada o céu é vazio e infinito. Sinto-me cada vez mais só com meu poema aforístico como uma tocha que a claridade da luz não treme, um intérprete do meu tempo que fala o que foi emudecido à forma da mentira, estimulado a pensar e o pensamento confirma a vida: a unidade da vida e da morte, a ascensão da montanha ao voo da águia e os devires. Por isso a minha última carta estranha: sou um Dioniso crucificado e se foi me dado uma oportunidade para a felicidade, este fora diante do seu fogo vulcânico, seu jeito irrequieto de aquariana inteligente, companhia divertida de exuberante e apaixonada pela vida: de longe, a pessoa mais brilhante que conheci. Ah, os seus olhos azuis perturbadores e lábios carnudos e sensuais me fazem ainda viver. Se me disseca, não me dilacera; ao contrário, me faz meditar o amor, enquanto você premedita apenas uma tese. Os seus poemas me perturbam com a oferenda de palavras enganosas, de efusões sem objeto, mas não sem efeito. Eu pretendia, como sempre pretendi, desposá-la. Recusou-me, era seu direito. Sofri, era meu destino: asfixiado de solidão, desiludido no amor. Estou louco, um quase morto e o mal por você feito é pior que um assassinato, arrancou-me o insubstituível. Bem dissera: fui e sou uma vítima da dependência de emoções intensas e dos impulsos da alma. Eu sempre esperei: uma paixão à beira da loucura. A compaixão é uma espécie de inferno. Uma vez mais e não precisará responder esta missiva, como de resto fez a todas as demais cartas enviadas. A minha doença se agravou por este amor não correspondido que carrego até o fim dos meus dias. Tudo amargura e decepção. Mais tarde – se houver um mais tarde depois de tudo -, não sei se poderei dizer mais do que sinto, uma vez mais humano, demasiadamente humano com a vontade alegre e a gaia ciência. Sou apenas um andarilho e sua sombra para além do bem e do mal. Sinto que já vou e só me resta um adeus antecipado com sabor de nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Se o leitor realiza os atos de apreensão exigidos, produz uma situação para o texto e sua relação com ele não pode ser mais realizada por meio da divisão discursiva entre Sujeito e Objeto. [...] o efeito depende da participação do leitor e sua leitura [...] o leitor não mais pode ser instruído pela interpretação quanto ao sentido do texto, pois ele não existe em uma forma sem contexto [...] só na leitura que os textos se tornam efetivos [...] o pólo artístico designa o texto criado pelo autor e o estético à concretização produzida pelo leitor [...] a obra é o ser constituído do texto na consciência do leitor [...] a atualização da leitura se faz presente como um processo comunicativo que deverá ser descrito [...] os elementos de indeterminação permitem sem dúvida um certo espectro de realização, mas isso não significa que a compreensão seja aleatória, pois representa a condição central para a interação entre o texto e o leitor [...] A interpretação tende a mostrarse objetivista; em consequência, seus atos de apreensão eliminam a multiplicidade de significações da obra de arte. Se afirmarmos, como sucede muitas vezes, que uma obra literária é boa ou má, então formamos um juízo de valor. Mas quando necessitamos fundar esses juízos, utilizamos critérios que, na verdade, não são de natureza valorativa, mas que descrevem características da obra em causa. Se compararmos essas com as de outras obras, não conseguimos ampliar os nossos critérios, pois as diferenças entre esses critérios já não representam o valor próprio. [...] um leitor ideal deveria ter o mesmo código que o autor. Mas como o autor transcodifica normalmente os códigos dominantes nos seus textos, o leitor ideal deveria ter as mesmas intenções que se manifestam nesse processo. [...] Tal tipo de leitor precisa então não só das competências citadas como também deve observar suas reações no processo de atualização para que sejam elas controláveis. A necessidade dessa autoobservação se funda, em primeiro lugar, no fato de que Fish desenvolve sua concepção do leitor informado em conexão à gramática transformacional, e, em segundo lugar, em que algumas das consequências desse modelo gramatical não podem ser integradas. [...] Nessas concepções do leitor se evidenciam interesses cognitivos diferentes. O arquileitor apresenta um meio de verificação e serve para captar o fato estilístico pela densidade de codificação do texto. O leitor informado é uma concepção didática que se baseia na autoobservação da sequência de reações, estimulada pelo texto, e visa aumentar o caráter de informação e assim a competência do leitor. Por fim, o leitor intencionado é um tipo de reconstrução que permite revelar as disposições históricas do público, visadas pelo autor. [...] Esses papéis mostram dois aspectos centrais que, apesar da separação exigida pela análise, são muito ligados entre si: o papel de leitor se define como estrutura do texto e como estrutura do ato. Quanto à estrutura do texto, é de supor que cada texto literário representa uma perspectiva do mundo criada por seu autor. O texto, enquanto tal, não apresenta uma mera cópia do mundo dado, mas constitui um mundo do material que lhe é dado. [...]. Trechos extraídos da obra O ato da leitura: uma teoria do efeito estético – 2 volumes (34, 1996/99), do professor alemão Wolfgang Iser (1926-2007), que se tornou a principal base da Estética da Recepção, nome pelo qual ficou conhecida a Escola de Constança. O autor procura identificar as estruturas do texto ficcional capazes de despertar certos efeitos no leitor, destacando seu papel na constituição do sentido da obra literária. Veja mais sobre leitor, leitura, biblioterapia & livroterapia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A MÚSICA DE ANA VIDOVIC
Quando eu tinha 16 ou 17 anos, não foi uma decisão fácil, porque eu era criança e queria fazer outras coisas também. Eu sempre me perguntei sobre escolher outra coisa, mas eu continuava voltando ao violão. Existe uma conexão lá que não pode ser interrompida. Percebi então que teria que trabalhar muito e sacrificar muito. É um processo longo. Eu não quero sair e tocar uma peça nova que não esteja pronta. É difícil tocar uma nova peça pela primeira vez. Demora muitos meses para se preparar. Às vezes, uma peça pode parecer certa, mas pode não estar realmente pronta. Eu toco para que os amigos recebam feedback e depois o apresento lentamente ao público. Quando uma peça é nova, é emocionante tocá-la. Depois que você souber, você sempre terá. Você pode guardá-lo e programá-lo para outra temporada. É assim que você constrói seu repertório.
ANA VIDOVIC – A arte da violonista virtuosa croata, Ana Vidović, que começou a estudar música aos 5 anos de idade e fez sua primeira apresentação aos 7, tornando-se a mais jovem estudante na Academia Nacional de Música de Zagreb. Ela já ganhou vários prémios e competições por todo o mundo. Veja mais aqui.
&
MAIARA MORAES
Eu não nasci em família de músicos, mas meus pais sempre ouviram muita música e meu pai tocava violão em um grupo de choro. Isso de certa forma me aproximou da música brasileira. Quando pequena comecei a estudar um pouco de piano, mas aos 12 decidi tocar flauta.
MAIARA MORAES – A arte da flautista Maiara Moraes que se formou em flauta popular pelo Conservatório de Tatui e EMESP (SP), além de estudar na Escola Municipal de São Paulo. Graduou-se em licenciatura pela UDESC e no mestrado em música pela UNICAMP, onde, sob orientação do Prof. Dr. Rafael dos Santos, realizou pesquisa sobre o flautista Copinha. Ele sempre se dedicou ao estudo da música popular latino-americana, especialmente a brasileira, com foco na interpretação e improvisação dentro dos gêneros. Veja mais aqui.

A ARTE DE MIGUEL COVARRUBIAS
A arte do pintor, ilustrador, etnólogo, historiador e caricaturista mexicano Miguel Covarrubias (1904-1957). Veja mais aqui.

A OBRA DE NIETZSCHE
O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.
NIETZSCHE – A obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
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LOU SALOMÉ
HINO À VIDA (1881) – Tão certo quanto o amigo ama o amigo, / Também te amo, vida-enigma / Mesmo que em ti tenha exultado ou chorado, / mesmo que me tenhas dado prazer ou dor. / Eu te amo junto com teus pesares,/ E mesmo que me devas destruir, / Desprender-me-ei de teus braços / Como o amigo se desprende do peito amigo. / Com toda força te abraço! / Deixa tuas chamas me inflamarem, / Deixa-me ainda no ardor da luta / Sondar mais fundo teu enigma. / Ser! Pensar milênios! / Fecha-me em teus braços: / Se já não tens felicidade a me dar / Muito bem: dai-me teu tormento.
LOU SALOMÉ – A poeta e psicanalista russa Lou Andreas-Salomé (1861-1937), foi a estudante eslava que conheceu o seu professor em 1882 - Nietzsche tinha então trinta e oito anos e ela tinha apenas vinte e já era um modelo de mulher livre e libertária. A paixão dele por ela perseguiu toda sua vida. Ela insubmissa, enfrentou a rigidez religiosa na Rússia czarista e mudou-se para Zurique, na Suíça, onde funcionava uma universidade que aceitava mulheres. Seu objetivo inicial era o estudo, a meditação, a escrita. Casamento não cabia em seus planos. Nem filhos. Envolveu-se em paixões viveu com o filósofo Paul Rée e o poeta Rainer Maria Rilke, entre outras tantas, e foi admirada por Freud, a única mulher aceita pela sociedade psicanalítica. Após o suicídio de Paul Rée, em 1902, ela entrou em uma profunda depressão, a qual o médico austríaco Friedrich Pineles a ajudou a se recuperar e, da amizade, nasceu um caso amoroso que resultou em um aborto voluntário de Lou. Ela lançou o seu primeiro livro chamado Na luta por Deus. Em 1893 ela publicou um livro intitulado Ensaio sobre a caracterização de Nietzsche. Escreveu o ensaio Anal und Sexual (1916), entre outras obras. Sua vida é retratada no drama histórico Lou (2016), da diretora alemã Cordula Kablitz e seu envolvimento com Nietzsche no filme Além do bem e do mal (1977), da diretora Liliana Cavani. Também nas publicações Lou Salomé: a mulher a quem Nietzsche amou (2016), de  A. de Monzie; Lou Andreas-Salomé: paixão e política Capa Comum (Milfontes, 2019), de Sônia Mattos Missagia; e a biografia Lou Andreas-Salome: la aliada de la vida, escrita por Stéphane Michaud. Veja mais aqui, aqui & aqui.
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Perto do coração selvagem de Clarice Lispector, Brunilda & Gunther, a música de Björk, O pensamento de Vicente do Rego Monteiro, Absurdo: Zenão de Eleia, Kierkegaard, Unamuno, Camus & Sartre; Vontade de amar da poeta Yedda Gaspar Borges, El, o alucinado de Luis Buñuel, a arte da atriz Téa Leoni, Doro parafraseando Sartre & poemiuderótico Paladar aqui.
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Anita Malfatti (1889-1964) aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A arte da cantora lírica grega, Maria Callas – La Divina (1923-1977) aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A música do compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


quinta-feira, março 01, 2018

SIENKIEWICZ, BURFORD, CASTAÑEDA, MILLÔR, DELEUZE, BERGSON, TONINHO HORTA, RUTH KLIGMAN, HARBSMAIER, IKUKO KAWAI, MULHERES & INCLUSÃO

É DUM DIA PRO OUTRO QUE A GENTE VAI VIVENDO – Imagem: arte da pintora abstrata estadunidense Ruth Kligman (1930-2010). - UMA: DO MUITO QUE APRENDI PRO NADA QUE SEI - Muito aprendi na vida! O resultado? Qual Sócrates, aprendi nada de nada, desaprendi para aprender. Sim, tive que desaprender de tudo, nada do que tinham garantido por líquido e certo, apenas parecia, jamais seria verdadeiro. O que me deram por definitivo, era só efêmero. O que me disseram por eterno, era para lá de falso ou, no máximo, instantâneo, triz, já era, areia ou nuvem levada ao vento. O que me ensinaram, quando fui ver, era o contrário, quando muito apenas o que queriam que eu soubesse do que sabiam. Ou pior: que acreditasse na mentira que inventaram. Tive por mim que brincar de certo e errado, até saber que cara ou coroa é só jogo. Daí, tive que aprender a conviver com o paradoxal e a contradição: o que é, não é; o que não é, é; ou não, talvez. Desdenhei do ortodoxo, fui até onde deu a heterodoxia e nada me satisfez porque o defendido era só ilusão ideológica, prisão do maniqueísmo na fúria sectária. Até então o que havia decorado e aprendido, na prova dos nove, valia nada, zero na estaca. Tive que me refazer dentro do desconforme, e me reinventar fora dos moldes, ousar e renascer fora do convencionado. Por consequência, o que eu tinha por direito, foi tomado; o que tinha por meu, não era, sabia que nem nada nem ninguém poderiam ser de quem quer que fosse. Aí duvidei de tudo, graças a Deus! E não queria apenas mais o que ouvia meus ouvidos, ou o que tocava às minhas mãos, ou saboreava minha boca, ou cheirava meu olfato, sabia já a lição que os olhos me negavam, pois para que eu veja não preciso de olhos abertos e para que eu ouça não preciso ouvir o que dizem e para que eu diga não preciso falar e para que eu saiba dos cheiros não preciso senti-lo pelo nariz, foi o que me ensinou William Blake: Ver um mundo em um grão de areia e um céu numa flor selvagem, é ter o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora. Não preciso de nada, nem preciso ser nada, nem saber nada, sou o que me basta e voo além. OUTRA: ZÉ-CORNINHO & A COMADRE MORTE – Zé-Corninho parece que não tinha mais um pingo de juízo pra remédio. Achando pouca a bruguelada, inventou de emprenhar a mulher e aumentar a filharada. O problema era arrumar padrinho, ninguém queria ser mais seu compadre. Os nascidos eram todos devidamente batizados e apadrinhados, uns trinta e três, acho, coisa que ele não acertava contar, depois dos quinze parecia que tinha mais e se perdia recontando. Danou-se! Era uma tuia de menino, dizem que nenhum dele de mesmo, tudo resultado da infedilidade das ditas esposas dele que fugiam no cangote de outros amantes. E como ele já tinha pra mais de dez casamentos, nem ele sabe, todas embuchavam e sacudiam os recém-nascidos nas costas dele pra criar. É tudo filho meu legítimo!, bate até hoje ele o pé, ninguém acredita e deixam pra lá. Acontece que o caçula estava para rebentar e sem padrinho arranjado pro batismo. Ele saiu angariando a um e a outro, todos se recusaram. Será possível? Ele não desistiu e saiu de porta em porta até estrada afora quando bateu de frente com a Morte. Olá, comadre, como é que vai? Vou bem, e você? A senhora, por um acaso, não aceitaria ser minha comadre batizando meu filhinho caçula? Claro que aceito, vamos fazer uma grande festa e garantir o melhor futuro pra ele! Oba! E assim foi, no dia certo, a parteira anunciou mais um pra coleção do Zé. A festa corria solta quando a Morte chamou o compadre do lado e cochichou: Agora vamos garantir o futuro da criança, você ficará rico, vai curar gente, só você me verá e, então, diante de um doente, se eu estiver na cabeceira é que vai ser curado; se eu estiver no pé da cama, é caso perdido. Certo e ajustado, lá foi Zé-Corninho curando o povo e ficando rico. Um dia lá um ricaço estava pagando uma fortuna para salvar o filhinho dele e quando Zé chegou lá, a comadre estava no pé da cama. Eita! Zé resolveu passar a perna na comadre, mandando virar a cama de ponta cabeça e a comadre ficou na cabeceira, obrigada a salvar. A Morte ficou possessa de raiva e jurou se vingar. Um dia lá a comadre resolveu pegá-lo na virada e foi convidá-lo para ir na casa dela: Eu vou, mas só se você garantir que eu volto. Garanto. E foram. Lá chegando Zé se deparou com um bocado de vela pelo chão, uma atrás da outra, encarreada. O que é isso, comadre? É a vida das pessoas na terra. Eita! Essa é do seu amigo fulano, aquela da sua amiga sicrana, essa outra do seu vizinho beltrano, e no meio da coisa Zé ficou curioso pra saber da sua: Qual? Aquela. Vixe! Um toquinho já se apagando. Ah, comadre, mas a senhora prometeu que eu voltaria. E vai voltar. Lá estava Zé em casa, morre mas num morre, até que fez um último pedido: Permita, comadre, que eu reze um Pai-nosso antes de morrer. Concedido. E ele começou a rezar e parou. Vamos, conclua a reza! Agora não, a senhora prometeu que eu só morreria quando terminasse a reza, só vou findar daqui uns cem anos. A Morte saiu injuriada, Zé estava sabido que só e passou-lhe a perna pela terceira vez. Aí um dia lá, anos e mais anos, Zé teve um desgosto danado e disse: Ah, só queria morrer agora pra não ver uma desgraça dessa! Mal terminou de dizer e a comadre já estava toda feliz do lado dele: Agora você me paga, compadre! Calma, comadre, eu não disse quando, só falei que queria e não quero, ora, ora. Rasgou a boca de novo. (Historieta apresentada nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseada em material recolhido por folcloristas brasileiros). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta: Foot on the road, Durandi Kid 1 & 2; da violinista japonesa Ikuko Kawai: Jupiter form de Symphony The Planett, Exodus & Sun Flower; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Tu não podes ver o que não podes explicar. Trata de esquecer de tuas explicações e começarás a ver. [...]. Trecho extraído da obra A erva do diabo: as experiências indigenas com plantas alucinógenas reveladas por Dom Juan (Record, 1968), do escritor e antropólogo estadunidense Carlos Castañeda (1925-1998). Veja mais aqui e aqui.

OUTRA PRO DIADevemos ser gratos aos portugueses. Se não fossem eles, estaríamos hoje falando tupi-guarani, língua que não entendemos. Uma das muitas do escritor, dramaturgo, tradutor, desenhista, humorista e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui.

SACADA: O QUE NÃO DIZ NADA, DORME! - Um behuana (nativo da atual Botsuana, na África meridional) perguntou um dia que eram aqueles objetos sobre a mesa. Quando lhe foi dito que eram livros, e que esses livros contavam novidades, levou um deles ao ouvido e, como não ouviu nenhum som, disse: “Este livro não está me dizendo nada”. Pondo-o de novo sobre a mesa, comentou: “Será que está dormindo?”. Extraído da obra Invention of writing (Unwin Hyman, 1988), de Michael Harbsmaier.

COISAS DO SER HUMANO - [...] Nenhuma divindade, ninguem mesmo, a não ser um invejoso, se compraz com a minha impotência e com o meu desgosto, e toma por virtude as lágrimas, os soluços, o temor e outras coisas do mesmo gênero que são o sinal de uma alma impotente; mas, pelo contrário, quanto maior é a alegria que nos afeta, maior é a perfeição a que passamos, isto é, tanto mais participamos , necessariamente, da natureza divina. Por conseguinte, usar as coisas e delas extrair o maior prazer possível (não, é claro, até a saciedade, pois isso já não daria prazer) -, eis o que é próprio do homem sábio...Os supersticiosos, que gostam mais de censurar os vícios do que ensinar as virtudes, e que não se aplicam a conduzir os homens pela Razão mas a contê-los pelo temor, de tal modo que evitem mais o mal do que amem as virtudes, não pretendem outra coisa senão tornar os outros tão infelizes como eles próprios são; deste modo, não é de admirar que eles sejam, o mais das vezes, insuportáveis e odiosos aos outros homens. Trecho extraído da obra Espinoza e os signos (Rés, 1989) do filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995). Veja mais aqui.

DEPOIMENTO INCLUSÃOA inclusão é possível, sim, mas desde que todos se adaptem, pessoas com deficiência e sem deficiência. Não há dicotomia: nem só a sociedade se adapta ou só os portadores de deficiência. [...] É, principalmente, uma questão de educação, de formação. [...] Porque é difícil: o ser gumano não sabe lidar e não sabe tratar com o que não conehce; sua tendência é agredir. É também necessário estar sempre trabalhando poara o preparo emocional de todos, pois há uma tendência ao boicote, da pessoa portadora consigo mesma e dos outros em relação a ela. [...] Porque é conversando, abordando, falando que essas questões serão desmistificadas, e a sociedade poderá se tornar inclusiva. Trecho de Um depoismento sobre Inclusão, de Gabriela de Chevalier, portadora de hemiparisia, formada em História e Design & Estilo, extraído da obra Transversalidade e inclusão: desafios para o educador (Senac, 2009), organizado por Rosane Carneiro, Nely Wyse Abaurre, Monica Armon Serrão et al. Veja mais aqui e aqui.

A EVOLUÇÃO CRIADORA - [...] Todos os seres vivos estão ligados, e todos cedem ao mesmo formidável impulso. O animal tem a planta como ponto de apoio, o homem cavalga na animalidade, e a humanidade inteira, no espaço e no tempo, é um imenso exercito que galopa ao lado de cada um de nós, à frente e atrás de nós, numa arremetida capaz de vencer todas as resistências e de atravessar todos os obstáculos, talvez até a morte. [...]. Trecho extraído da obra A evolução criadora (Delta, 1964), do filosofo francês Henri Bergson (1859-1941), Prêmio Nobel de 1927. Veja mais aqui.

DEVEMOS SEGUI-LO - [...] Cina ainda era demasiado moço para que a vida para ele perdesse toda atração. E a filha de Timão, Antéia, acabou por deixá-lo totalmente escravizado. Anteia não era menos formosa que seu pai, em toda Alexandria. [...] Timão não permitia que ela vivesse encerrada em um gineceu, como as demais mulheres. Dera-lhe uma instrução tão alta quanto podia. [...] Era companheira de Timão em todas as elucubrações. [...] O velho sábio amava-a enternecidademente. [...] Quando Cina a viu, pela primeira vez, teve impetos de erigir para ela um altar no atrio de sua casa e sacrificar pombos em sua honra. Havia conhecido inúmeras mulheres em toda sua vida. Desde as jovens do norte, cujos cílios tinham a cor do trigo maduro, até as da Numídia, negras como as lavas. Mas, até ali, jamais havia encontrado tal beleza nem tão pura alma. Quanto mais a via, mais a admirava. Quanto mais a ouvia falar, mais supreendido ficava. De tal forma se sentia enfeitiçado pelo seu encanto que, às vezes, embora nãoa acreditasse em deuses, surpreendia-sae pensandop que talvez Anteia não fosse filha de Timão e sim de algum deus. [...] Anteia era diferente de outras mulheres. Desejou que fosse sua, para poder adorá-la. Para obter tal favor estava pronto a dar a própria vida. Para ele, valia mais ser pobre, junto dela, do que ser poderoso como César, sem ela. O amor apossou-se dele com a mesma força com que um remoinho se apoderava de quem se aproxima de seu circulo. De tal forma o dominava, que absorvera seus pensamentos, sua alma, seus dias e suas noites. Nada mais existia para Cina senão o amor por Anteia. Por fim, Anteia também se sentiu atingida pelo mesmo sentimento. [...]. Trecho do conto Devemos segui-lo, extraído da obra O faroleiro & outros contos (Delta, 1962), do escritor polaco & Prêmio Nobel de Literatura de 1905, Henryk Sienkiewicz (1846-1916).

DOIS POEMASESTRELA: Estrela / companheira / se és compassiva / conosco irás junto / este ano e vamos vê-la / na glacial distância inteira / brilhante viva / a teus pés muitos. O FOGO: Nestes dias de inverno / a lareira acendemos: / sçao dois seres somente / a fazer sacrifício. / O nosso combustível: / os jornais deste dia ; frio devem servir / colaunas de palabras / e homens no local / escuro onde arde o fogo. / E colhemos então / e gentilmente pomos / as estilhas de pau / que nos restam, até / havermos erigido / uma espécie de pira / e tumba para a coisa / pesada a levantamos / nos braços, oferenda / ou criança, e a pomos / sobre as barras de ferro / junto agora acendemos ; e a besta salta viva / e ficamos de pé / sangrando com a luz. Poemas do poeta modernista estadunidense William Burford.

CIRANDA FEMININA NA MATA SUL
Acontecerá nesta quarta, às 10hs, na Biblioteca Fenelon Barreto, o lançamento do livro Ciranda feminista na Mata Sul: uma luta em movimento, publicação desenvolvida sob a coordenação do SOS Corpo e promovida pela Articulação de Mulheres da Mata Sul, sob a condução de Eliane Nascimento, Alexsandra Bezerra e Maria Solange do Rego. Veja mais aqui.

Veja mais:
Crônica de amor para ela, Senhora Magdala de José Condé, Magdalena de Pablo Milanés & Joaquín Sabina, Fonte, a arte de Ruth Kligman & Todo dia é dia da mulher aqui.
O Trabalho da Mulher aqui.
Saúde da Mulher aqui.
Kid Malvadeza aqui.
Tzvetan Todorov, Oduvaldo Vianna Filho, Os epigramas de Marcial, Jacques Rivette, Frédéric Chopin & Artur Moreira Lima, Sandro Botticelli, Carmen Silvia Presotto & Egumbigos no país dos invisíveis aqui.
Antonio Gramsci aqui.
Fecamepa, Psicologia Escolar, Sonhoterapia, Direito & Família Mutante aqui.
O Monge & o executivo, Neuropsicologia, Ressocialização Penal &Educação aqui.
Sexualidade na terceira idade aqui.
Homossexualidade e Educação Sexual aqui.
Globalização, Educação & Formação, Direito Ambiental & Psicologia Escolar aqui.
Federico Garcia Lorca aqui.
Aids & Educação aqui.
Sincretismo Religioso aqui.
Racismo aqui.
Levando os direitos a sério de Ronald Dworkin aqui.
Ética & moral aqui.
A luta pelo direito de Rudolf Von Ihering aqui.
Abuso sexual, Sonhos lúcidos, Antropologia & Psicologia Escolar aqui.
Cândido ou o otimismo de Voltaire aqui.
A liberdade de Espinosa aqui.
Cantarau Tataritaritatá: vamos aprumar a conversa aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

A ARTE DE RUTH KLIGMAN
A arte da pintora abstrata estadunidense Ruth Kligman (1930-2010). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, novembro 24, 2017

ESPINOZA, AHMADOU KOUROUMA, TOULOUSE-LAUTREC, PSICANÁLISE & DIREITO, GERUSA LEAL, CLARA REDIG, OVÍDIO POLI JÚNIOR & LAJEDO

COMO QUEM ESPERA E JÁ FOI – Imagem: The Hangover, do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). - Como quem espera tal pedra que bóia por quem saiu até já e um beijinho entre os dedos jogados de adeus, eu espero de volta o aceno de chegada e a um palmo de lonjura, dois palmos, três palmos, nada não, distância de êxito vencida no afeto por mimos e dengos em loas e juras no embalo das batidas do meu coração a sentir outro coração pulsando rente pelas diástoles e sístoles de siameses, sem se dar conta do tempo porque não tem hora marcada, nem nunca findar entre beijos e abraços e eu me sentir entregue e aceito, envolvido pelo que há de melhor em viver e se amar. Como quem espera vitrine nos trinques e engalanada com a última moda por confetes e serpentinas de festas promocionais, por toda avidez de quem quer e precisa agora mesmo e sem mais tardar para sentir-se melhor porque era o que mais queria e sou sua realização de felicidade e de todos os desejos sonhados e premidos, sou por ter de esperar sem ter que já já ter de ir embora, coisa de nunca saber, nunca se sabe, nem ter que bater as botas e sumir, já foi, já era, não, não mais, por favor, fica que a vida é agora e vamos viver. Como quem espera tudo longe bem perto de não ter mais tamanho ao alcance das mãos frenéticas apegadas e trêmulas de emoção, apertando com força, tateando confornos, é isso mesmo, será, deixa ver, tem de ser, que bom que é, e agarrar pra que não vá nunca mais e fique comigo a sorrir ou chorar, está valendo e só valerá desde que esteja e seja mútua na satisfação de dois em um só. Como quem espera a prestar atenção em algaravias e coisas perdidas ao léu, sem dever de ofício pra tudo correr ladeira abaixo e subir ao cansaço de ter de retornar ao ponto de partida e recomeçar porque é um prazer ter de ir eterno retorno e a noite passa e o dia também, na madrugada que teima solidão esconida entre quatro paredes e derrubá-las como quem vence o mar e o fim do mundo e ninguém mas ninguém mesmo se dê conta do que venha a ocorrer, seja lá o que Deus quiser, eu espero sabe-se lá do quê nem pra quê, só que espero sem ter de dizer até basta porque nunca será o bastante e com certeza será coisa boa ou não, pode ser, ou não, não é, que seja, fazer o quê, bater o pé ou deixar de mão, e defenestrar pra depois puxar, trazer junto, chegar bem perto e sentir que vive e ama. Como quem espera quer queira ou não, não mais espero, vou atrás, não dá pra esperar, é agora, urgente, iminente, adeus espera, preciso viver e amar e voo de mim e quero aonde chegar porto seguro e viver e amar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta: Terra dos Pássaros & Diamond Land; a cantora, violonistak, compositora e percussionista Badi Assad no Milenium Stagium, Live California World Festa, Feminina & Ai que saudade docê; o compositor alemão Max Richter Concert Reimagining Vivaldi & The leftovers Season; e a cantora e atriz franco-inglesa Charlotte Gainsbourg: IRM & 5.55. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Facilmente veremos em que se diferencia o homem que se conduz apenas pelo afeto, ou pela opinião, do homem que se conduz pela razão. Com efeito, o primeiro, queira ou não, faz coisas que ignora inteiramente, enquanto o segundo não obedece a ninguém mais que a si próprio e só faz aquelas coisas que sabe serem importantes na vida e que, por isso, deseja ao máximo. Chamo, pois, ao primeiro, servo, e ao segundo, homem livre. [...] Só os homens livres são muito gratos uns para com os outros [...] O homem livre jamais age com dolo, mas sempre de boa fé [...] O homem que se conduz pela razão é mais livre na sociedade civil, onde vive de acordo com as leis comuns, do que na solidão, onde obedece apenas a si mesmo [...] A felicidade não é o prémio da virtude, mas a própria virtude; e não gozamos dela por refrear as paixões, mas, ao contrário, gozamos dela por podermos refrear as paixões [...] Trechos extraídos de Ética (Relógio d’Água, 1992), do filósofo racionalista holandês Baruch Espinoza (1632-1677). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PSICANÁLISE & DIREITO – [...] Desde o início dos tempos, quando o homem tomou conhecimento da morte e experimentou a angustia diante de sua finitude, foi-lhe necessário representar sua existência, por meios de ritos e crenças que o submetessem a um lugar de alteridade. Dessa experiência de desamparo, nasceu a humanidade, e, com ela, a lei que a inaugura. Uma lei que nos torna tributários de uma dívida com a linguagem, de forma que só nos resta pagar por nossa existência por meio da palavra. Trecho extraído da obra Psicanálise e direito: uma abordagem interdisciplinar sobre ética, direito e responsabilidade (Companhia Freud, 2014), da psicanalista Renata Vescovi, que ainda se expressa: [...] O homem de nosso tempo vive o conflito de ter que cumprir normas como se fossem cartilhas de conduta, colocando-se a serviço do politicamente correto. Ao mesmo tempo, pretende-se livre e caprichoso para viver às últimas consequências suas vontades. Por isto, ele sonha em despojar-se de suas incertezas, de sua dor de existir, valendo-se do extraordinário avanço das técnicas científicas, que costumam saber tudo, responder a tudo, e recua da responsabilidade em decidir solitariamente sobre seus atos. Ética não pressupõe valores morais, nem prescrições de condutas dadas a priori. Ela é o questionamento incessante de um sujeito, no ponto em que ele se vê angustiado e dividido entre a sua palavra e seu ato. Se perdermos, tanto na esfera privada quanto pública, a capacidade de nos espantarmos e nos questionarmos a respeito de nossos atos, corremos o risco de assumir uma posição passiva e infantilizada. Abdicamos de nossa cidadania ao mesmo tempo que apelamos para um Estado paternalista, que se arroga a condição de ser gerador de favores a uma população que, no mesmo gesto, se despolitiza, impedindo-se de lutar por consquistas políticas e sociais. Veja mais aqui.

LAJEDO – O município de Lajedo está localizado na Microrregião de Garanhuns e na Mesorregião do Agreste, tendo o núcleo urbano originado a partir da interiorização da atividade pecuária, responsável pelo surgimento de fazendas, tendo como fundador o desbravador da propriedade Cágado, Sr. Vicente Ferreira. A partir dele, ocorreu a construção da primeira casa e deu origem ao povoado de Santo Inácio dos Lajeiros. Por volta de 1900, o povoado transformou-se em distrito do município de Canhotinho, criando-se o município pela lei Estadual nº 377, de 24 de dezembro de 1948, pelo então governador Barbosa Lima Sobrinho. O nome da cidade tem origem a partir da existência de “lajeiros” no seu entorno, área chamada de “Caldeirões”, que armazena água de chuva e que durante muito tempo abasteceu a cidade. Está inserido na unidade geoambiental do Planalto da Borborema e nos domínios da bacia hidrográfica do Rio Una, tendo como principais tributários os rios Quatis, da Chata e do Retiro, e os riachos Bonito, Doce e do Serrote, todos de regime intermitente. Conta ainda com distribuição de água oriunda do Açude São Jaques, situado no município de Jurema, cidade próxima a Lajedo. Veja mais aqui.

ALÁ E AS CRIANÇAS-SOLDADOS - [...] segundo o meu Larousse, oração fúnebre é o discurso em honra de um personagem célebre falecido. A criança-soldado é o personagem mais célebre deste final de século. Quando um soldado-criança morre, deve-se dizer em sua honra a oração fúnebre, isto é, como é que ele pôde tornar-se uma criança-soldado neste mundo vasto e desgraçado. Eu faço isso quando quero, não sou obrigado. Eu faço isso para Sara porque tenho vontade e acho bom, tenho tempo e é divertido. [...] Como impedir as eleições livres? Como impedir o segundo turno? Ele pensa no assunto e, quando Foday [Foday Sankoh] pensa seriamente, ele não usa álcool nem mulheres. [...] Era evidente: quem não tinha braço não podia votar. (evidente significa de uma certeza facilmente apreensível; claro e manifesto). Ele manda cortar as mãos do maior número de pessoas, do máximo possível de cidadãos leonenses. É preciso cortar as mãos de todo leonense preso antes de enviá-lo para a zona ocupada pelas forças governamentais. Foday deu as ordens e os métodos foram aplicados. Procederam às mangas curtas e às mangas compridas. [...] as amputações foram gerais, sem exceção e sem piedade. [...]. Trechos da obra Alá e as crianças-soldados (Estação Liberdade, 2003), do escritor marfinense Ahmadou Kourouma (1927-2003). Veja mais aqui.

O SENHOR PADILHA - [...] Luiz chegava todo dia às sete da manhã, fazia as entregas, buscava as correspondências, enfrentava as filas nos bancos e passava o resto da tarde lutando com os carimbos. Era sempre o culpado pela desordem dos arquivos e ficou primeiro encaramujado, depois revoltado com o eufemismo: “Exonerado! Exonerado!”, repetia ele, ao ver que tinha acabado de levar um pé-na-bunda. [...]. Trecho do conto O Sr. Padilha, do escritor, editor e promotor cultural Ovídio Poli Júnior, extraído da antologia Anais da Fliporto 2005, organizado por Eduardo Côrtes. Veja aqui e aqui.

PÔR-DO-SAL, DE GERUSA LEAL
sentado sobre a pedra
o homem escuta o mar
não o olha mais de frente
já não lhe teme a força
pois mesmo forte o rugido
pelas mãos de Deus contido
não ousa seus pés molhar
o homem escuta o mar
que já fez olhar tão longe
até onde o céu baixando
esconde o que vem de lá
não o olha mais de frente
agora tão diferente
de quando a alma nos olhos
imaginando tesouros
gostava de mergulhar
já não lhe teme a força
pois sabe que em seu peito
a inundar-lhe de anseios
tão feroz quanto o primeiro
transborda um outro mar
e mesmo forte o rugido
a urgência com que clama
aprendeu com as marés
a ir e depois voltar
não ousa seus pés molhar
pois receia que o desejo
de entregar-se ao infinito
suba ao seu corpo inteiro
e o leve de volta ao lar
pela mão de Deus contido
senta o homem sobre a pedra
e apurando os ouvidos
escuta as vozes do mar.
Poema da premiada escritora Gerusa Leal. Veja mais aqui, aqui & aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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