terça-feira, setembro 22, 2020

NIETZSCHE, LAURA VINCI, HERMES TRISMEGISTOS, SABINA SPIELREIN, LOUISE VON FRANZ & VENTOS DE AGOSTO


  

DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DE QUEM VAI E VOLTA, SEMPRE RECOMEÇAR - Para quem já foi um tanto de vezes, desinventar talvez não deva. Lá debaixo, não há outra coisa a fazer senão unhas e ânimos cravados na sobrevivência. Sigo em círculos elípticos pelos cantos entre o flagra e o divagar, parece não haver mais portas ou absolvição que seja. Teimo enquanto houver tempo, embora sequer saiba se presente ou pesadelo na zoada dos instantes. Ouço passos apressados que se aproximam. Alguém ocupa o mesmo espaço que eu. Enxergo o brilho dos seus olhos nas imediações e, para minha surpresa, era Nietzsche: Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez, - um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo. Era o primeiro passo e os degraus do eterno retorno. E nem me deixou racionar sobre o que dissera e já era Zaratustra e o dionisíaco sobre o abismo do perecer e do apolíneo, a liberdade sob a lei. Parou por um instante, movimentou a cabeça negativamente e vociferou: Vive de si próprio: seus excrementos são seu alimento. E assim, como viera, desaparecera na escuridão e fiquei só à cata das brechas para galgar sobre o ônus dos meus próprios percalços.

 


DUAS PASSADAS & UM TROPEÇO, ERA ELA A JORNADA DA ALMA – Prossegui na caminhada, andarilho sem rumo. Na verdade tateava, logo tropecei em alguém. A queda e o desconforto. Era uma mulher. Pedi desculpas, ela assentiu com um gesto. Tentei me explicar, ela aquiesceu com um toque ao meu ombro. Ali, sentados no chão, silenciosos. E de repente ela falou algo que não ouvi, apresentando-se e tagarelava de forma desconexa, a me dizer de si, falava e deu para adivinhar quem era pelos fatos narrados, coisa de filme, como do drama Prendimi l'anima (Jornada da alma, 2002), de Roberto Faenza, do documentário Ich hieß Sabina Spielrein (Meu nome era Sabina Spielrein, 2002), de Elisabeth Marton, do drama A dangerous method (Um método perigoso, 211), de David Cronenberg, e do livro Sabina Spielrein: de Jung a Freud (José Olympio, 2012), de Sabine Richebächer. Todos eu havia conhecido e tudo era sobre sua paixão escandalosa e seu diário secreto, sua correspondência escondida e o Berçário branco – o seu pioneirismo na psicanálise infantil, sua enfermidade e projeção. Sim, era ela mesma, Sabina Spielrein, corpalma ali, a me dizer com um sorriso carregado de lágrimas: Onde reina o amor, o ego morre. Saquei do lenço e ousei passa-lo às suas faces. Ela não recusou, mas enxugou-as com a barra da saia. Guardou o pranto e me fitou firme. Levantou-se e falou que eu era um ser em extinção. Não entendi nem havia como interpretar o que dissera, apenas seguia seus gestos. Então girou sobre os calcanhares e seguiu descalça pelo breu daquela noite eterna, com um aceno tímido de despedida. Ali fiquei, recostado e pensando tal surpresa. Nenhum ânimo para seguir adiante, apenas mergulhado naquele encontro. Num breve cochilo, as pisadas retornaram e, aproximando-se, pude perceber que não era ela de volta, só soube muito depois quem me dissera: Você não pode organizar a função inferior. Tenho para mim que ninguém pode realmente desenvolver a função inferior antes de haver criado um têmeno, a saber, um bosquete sagrado, um lugar oculto onde possa brincar. Para minha surpresa era Marie-Louise von Franz, que me saudara com um afeto e seguia o seu caminho. Duas mulheres em tão pouco tempo, pensei comigo. Não sabia o que fazer, buscava ânimo para prosseguir. Talvez ali fosse mais proveitoso, não sei, precisava descansar.

 


TRÊS COCHILOS & UMA VISÃO ESOTÉRICA - Imagem: arte da escultora, artista intermídia, pintora, desenhista e gravadora Laura Vinci – Houve um tempo em que tudo era factível. Agora, não mais: dizer o que não disse, fazer o que não fiz, destroços, mentiras, farsas. A guerra é iminente e o ódio é morte certa. Precisava da luz do Sol e a surpresa trouxe Hermes Trismegistos que levitava adivinhando meus pensamentos: o Sol exerce no Universo a função do coração do qual a vida se espalha por todas as partes. A luz é o veículo da vida, da mesma forma que lhe é a fonte e causa próxima. Dito isto, ainda inquiri a respeito do Corpus hermeticum, da Tábua de Esmeralda, Atanor, o Elixir e de como eu poderia sair dali. Antes de partir, virou-se e respondeu minhas indagações com sua voz oracular: Invoca o Espírito da luz eterna, fala pouco, raciocina muito e julga com retidão e justiça. Nada mais disse, nem mais o vi. Tudo passa e desanda no imprevisível. A vida vai depressa e o futuro, quimera impossível. Apenas vivo e é maravilhoso viver. Até mais ver.

VENTOS DE AGOSTO

O premiado drama Ventos de agosto (2014), do cineasta e artista visual Gabriel Mascaro, conta a história de uma jovem que deixa a cidade grande para viver em uma pacata província litorânea para cuidar do seu avô e trabalhar numa plantação de coco, dirigindo trator e cultivando o sonho de ser tatuadora. Aparece, então, um pesquisador de som que abala a sua rotina com um jovem que também trabalha na fazenda e é praticante da pesca submarina. Daí surge uma jornada de vida e morte, perda e memória, vento e mar. Veja mais aqui e aqui.


 


STELLA NYANZI, NASTASSJA MARTIN, AGUSTINA BAZTERRICA & SEMANA HERMILO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Liszt: Piano Sonata & other works (Hyperion Records, 2015), Bach: The Art of Fugue (Hy...