segunda-feira, dezembro 26, 2022

ELENA FERRANTE, JULIA KRISTEVA, NOELLE-NEUMANN & HIDEKA TONOMURA

 

 

Ao som Concert Classical Guitar at Siccas Guitars, da violonista inglesa Alexandra Whittingham.

 

TRÍPTICO DQP: - O legado & o abismo me vê ali... - A rua está deserta e as lembranças saltam pelas frestas do guarda-roupa como uma batucada de Naná Vasconcelos e dão conta de como tudo se tornou tão cruel agora, assombro e sombrio... Ouvi e vivo incerteza, a pupila dilatada pelo volátil e o ameaçador, quantos lobos nem sei mais. Para conversar restavam apenas o Gato de Schrödinger que brincava com minhas ideias desarrumadas. Do outro lado os besouros da caixa de Wittgenstein insistiam que a vida é só pra viver, que deixasse de lado todo viés da confirmação, pronto! Mais nada porque não adiantava eu me defender de todas as tribos, nunca pertenci a nenhuma delas e fui alijado até da família: ou luto ou fujo para a galáxia espiral NGC7469 lá na constelação de Pegasus. Eu me ajudo o mais que posso. Como os outros, a culpa é geral e lá estou eu exposto ao oganessônio – ou é polônio, sei lá! As galáxias se diluem e a existência é o que importa: sou o verdadeiro desconhecido. Sei que não é o desejável, nem nunca será: o arrependimento virá de qualquer jeito, mesmo que aprenda de cor as metamorfoses do espírito que Nietzsche me fez do camelo ao leão e a criança, ao amor fati. O bom foi que no meio da doidice pura pude ouvir Elena Ferrante: A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós... Em todas as investidas eu ia com punho fechado pro inopinado e me desarmei, fui em frente: nunca esperei por milagre ciente de que jamais sairia impune. Ninguém é sábio para ser imune aos infortúnios. Duvidava do mero acaso porque o mundo se dilatava sem que tivesse de constranger caminhos. Aturdido, sabia: o que tenho apenas é vida, nada mais...

 


Pacto: o caos sou eu... – Escrevi o poema e não tinha a quem dedicá-lo porque não é nada: nem ele, nem dedicatória alguma, como se os ditirambos hesitassem dos meus umbrais, enquanto eu me fartasse da carne da estátua, do uivo da pedra, das dores dos insetos. Estou tão cansado como se o chão cansasse das pisadas, a casa dos seus moradores, o crepúsculo do dia, deste a madrugada, e esta da noite, do mesmo modo que ela de tarde, o cansaço geral... Consegui me desvencilhar das alegorias da caverna e dos metais, da mentira nobre de Platão, das qualias, Post hoc, e me afastei ao máximo do zoadeiro, porque não havia como me conformar com a navalha de Hitchens: O que pode ser afirmado sem provas pode ser rejeitado sem provas - Quod gratis asseritur, gratis negatur. Cá comigo, os filósofos não sabem nada, mas nos dão a lição: precisamos aprender, ora! Estamos todos neuróticos e confusos como o diário de Neil Young, não há significado e isto soa como uma bomba no meu juízo! Parafraseando Montaigne: Escrever é aprender a morrer. Posso ser excêntrico e me viro, mas não divido a cena com essa realidade paralela do doidismo escroque, porque não tenho nenhuma preocupação com o que acontecerá depois da morte, o agora é que o problema, o que será não mais importa entre o suficiente e o desejado, suportar a finitude enquanto a cabeça segue infinitas ideias... Tudo passará, não adianta.

 


Coração de areia… – Imagem: arte da fotógrafa japonesa Hideka Tonomura. - Sou coração ao vento arrancando as vestes aos varais e a vida desnuda das flâmulas e bandeiras tremulantes. É só vento... E ela aparece Olga de Kiev depois que subjugou os Drevilianos e agora era a minha vez e pregou uma peça com seu bote de tigresa, trazendo o saco da noite de Valpurgis: Vamos comemorar com Julia Kristeva: O amor é a hora e o espaço onde "eu" me entrego o direito de ser extraordinária. E me levou qual musa da elegia de Donne para, depois de tudo, se insinuar Elizabeth Noelle-Neumann: Solta-se o verbo quando se sente que está em harmonia com o espírito de seu tempo... E depois da agonia dormimos na rede de pernas pro ar, graças! Ainda bem que normalmente tudo acaba em sexo, u-hu! A festa é dela quando sou vento de maio entre as pernas da moça, saia esvoaçante e o cheiro da vida... Quando sou vento forte agito as páginas, parafraseando Heine: Quem indiferente aos livros, também às pessoas... Faço o rascunho da vida, escarafunchei o que passou... Sobrevivi pra contar... Até mais ver.

 


Vem aí o PGM TTTTT. Veja mais aqui e aqui.

 


MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine...