quarta-feira, fevereiro 18, 2009

JOHN DONNE, CORA CORALINA, DUARTE VITÓRIA, CELSO KELLY, ATALANTA & HIPOMENES, INJUSTIÇA

 
Art by Duarte Vitória


NA CAIXA A INJUSTIÇA BRABA DE TODO DIA - Era ainda finzinho da madrugada para início da manhã e já o Doro estava se desentronchando e afinando os cambitos no coarador dum rabinho de fila do lado de fora duma das agências da Caixa Economica Federal, quando, assim do nada, apareceu a espalhafatosa e exuberante Dacilda, uma reboculosa morenaça sestrosa de fazer o apaideguado suspirar virando os olhos e a sentir aquele lastimável e patético eflúvio dos enamorados na horagá do inicio das paixonites mais arrebatadores que se infincam pelas entranhas e atravessam a pleura deixando o cabra mais amolestado que afogueado no tirinete da existência de qualquer cristão. Vixe, santa! Quando a pândega apareceu, logo o desinfeliz se esqueceu do que estava fazendo ali, maravilhado com todo aquele rebuliço de mulher! Nossa, o cara estava mesmo extasiado porque aquela boazuda ali, pertinho, do seu lado, se balançava toda, cabelos, seios, vestido, aura e mais bregueços pendurados a fazer verdadeiro chocalhos na simpatia do malsinado, dele chega até abrir caminho e ficar arrodeando toda inquietude da mondronga. Demais era ele sentir aquele perfume de carne perdida que dela exalava assanhando toda libido que eriçava topetes, trunfas e pentelhos, deixando o cara mais arrepiado que penteado de piloto de Fórmula 1, a ponto dele ficar amocegando passos dela e debulhando essências libidinosas para uma traquinagem certeira nos furunfados deliciosos duma deusa daquela nos sonhos dele. Menina! Santa sedução mais endemoninhada tomou conta do cabra dele num parar quieto feito quem tem cotoco no rabo. Nesse vuco-vuco todo, o bocó tomou pé da situação e foi se achegando no impado dos tremiliques segurados, sapecando cortesia jeitosa: - Mas, madama, que sassucede prum milagreiro desses da sinhorita por estas arredondezas! - Oi, querido, tudibão? Vim resolvê umas coisicas aqui. Nossa tá calor logo cedo, né? Era a espaçosa toda em carne viva, suando pelos poros todos e deixando neguinho mais doido que de costume. - Eita, maravilha! Mas num savexe qui tô aqui para sastifazê suas vontades! Xá, cumigo, madama, tô aqui pruquidé e vié! Não podia fazer ele muita coisa não, a não ser segurar as pontas de não deixar a moça desconfortável, se bem que tinha para mais de mil na frente dele. Enquanto ela ficava num pé e noutro, ele macaqueava as idéias no quengo. Pensou soltar um daqueles de todo mundo correr, mas o tiro podia sair pela culatra e distinta também se escafeder com a fedorência do peido dele. Outra idéia de jerico foi a de levar os que estavam na frente tudo na munheca e nos peitos, mas percebeu logo a meleca do insucesso quando sacou que tinha gente mais parruda na sua frente para desindereitar seus propósitos. Inquietou-se com a mulher buliçosa do lado e ele sem poder fazer, idéia nenhuma que prestasse a não ser a de agarrá-la logo para ela não fugir, o que daria, com certeza, numa queixa de assédio sexual de mofar na cadeia. Não, isso não. Tinha que ter tino. Era ele todo jeitoso pras bandas dela e ela sorrindo aquele riso grande e largo com aquela dentadura de cachorra da moléstica que deixa marmanjo arreado de manha pro resto da vida, esprivitada toda com mesura do rapaz. - Brigada, distinto! -, se empiriquitou a moça toda. Eita, gota! A mulher exibia um jeito de gratidão desde do cabelo da cabeça aos dedos dos pés, que se exibia pelos beiços melado de batom vermelho, pelos olhos pretos vivos de dar gosto, pelo decote desarrumado nos peitos quase saltando com coração e tudo, pelo lascão rasgado e profundo da saia no entre-coxas roliças, na rabeta proeminente chamando o otário de banguela, tudo pulando fora pra cima do sujeito que já arrumava o carrinho-de-mão para dar algumas viagens a mais naquele carregamento exorbitante. - De nada, dona moça bonita, está eu aqui praisso mermo, pronto para servi-la casa, comida e vida ajeitada pro todo o sempre, amem. A jumentuda percebeu que havia fisgado a simpatia do rapaz e não deixou por menos já se aboletando maquiagem e adereços todos pra cima dele. O rapaz com aquele ar de quem ganhou no papo, não se fez de rogado, tascou flerte solto enquanto a fila empancava ainda na calçada sol quente já das 7 da manhã torrando tudo. - Quéqui a madama vai fazê na Caixa mermo, hem? Essa curiosidade quase lhe valeu uma descompostura, mas a rabuda quedou-se sem passar recibo: - Vô dá entrada no seguro desemprego -, disse ela com o sorriso já meio amarelado. Ele se tocou, arrumou-se em riba da fivela e tentou consertar tudo: - Ah, uma distinta assim num pode se gastá em empregos. Tem que sê venerada num trono feito uma rainha quié. Acertou em cheio: ela ficou corada de satisfação de quase explodir de tanta volúpia arrebentando por dentro pra fora dela, quando o cabra aumentou na dose. - Espia só, se num quisé ficá coarando aqui, podexá qui guardo o seu lugar. Vá se descansar na sombrinha ali da praça que eu guardo seu lugá. Aí a moça só faltou pular em cima do cara! Mas sem saber o que fazer, se beijava ou abraçava ou agradecia, enrolou-se toda e só disse: - Então ta! Soltou um beijo para ele, deu uma volta da poeira subir e saiu nos saltos altos pesunhando com um rebolado macho daquelas modelos em dia de desfile de moda, para atravessar espalhafatosamente a rua e se aboletar escandalosamente num banco da praça em frente. Um alvoroço mesmo. Todo mundo só olhava pra ela. O Doro se moía de ciúmes, mas pensou melhor e viu que ia dar para enrolar os outros e foi logo deitando uma conversa mole alugando o juízo dos outros, quando todo mundo caindo no papo de derrubar avião dele, foi deixando ele passar na frente da fila. Oxe! Loguinho o cara estava o primeiro da fila e de lá só acenando pra ela. Os dois ficavam ali, ele no sol quente no quengo no meio daquela calçada e ela lá espragatada no banquinho da pracinha em frente, olhos nos olhos, cada um mais ancho que o outro quando o vigilante entregou a senha e ele chamou-la dela vir toda extravagante como uma égua no cio galope solto, adentrando ambos o recinto da instituição bancária mais espremidos que sardinha na lata. Estão lá conversa mole, risinhos, piadinhas, jeitinhos, quando ambos, depois de horas levando chá de cadeira lá dentro – ele nem notou que chegou 5 horas da manhã pra fila do lado de fora, que entrou no recinto com a moça era já mais de 9 horas da manhã e que já passava das 3 da tarde quando foram atendidos cada um em guichês diferentes -, coisa muito prazerosa, por sinal, que ele queria que nunca findasse. Foi simpaticíssimo com o caixa invocado que lhe pediu trocentos documentos e colocou todas as dificuldades do mundo para que o negócio não fosse resolvido nem pro resto da vida, quando ele num tava nem aí porque seu negócio mesmo era ela que brilhava no outro guichê toda atanazada. Não adiantava colocar dificuldades porque não perdia a esportiva, vez que não tirava o olho da Dacilda, nem podia, claro, aquilo era um desmantelo nos projetos de vida dele. Marcialita que visse, hem? Aí, meu, tanto idílio e no meio desse paradisíaco onirismo o mundo dele desabou. Como é? Tudo foi desmanchando, não por completo, quando o funcionário disse que só no dia seguinte por causa de um problema de desconfiguração do sistema que precisava ser renomeado e que ele deveria voltar no dia seguinte para que tudo fosse resolvido. - Como é? -, já estava quase ríspido quando o cara explicou tudo de novo e ele foi se emputecendo cada vez mais sem entender nadica de nada do que o cara explicava. Foi quando ele viu Dacilda fula da vida com o cara do guichê dela. Eita! Ele segurou a chateação e se dirigiu para Dacilda que também estava empancada com os problemas dela. - Ele tá dizendo que só o mês que vem que vou receber, pode? –, se queixou meio que chorosa. - Mas rapaz! -, reclamou Doro pro caixa. Aí ele foi ficando injuriado partindo em defesa da amantíssima, alterando a voz e os palavrões e nem adiantavam as explicações do funcionário porque ela estava inquieta, remexendo que só nas coisas e pedindo pelos santos e anjos do céu inteiro para que aquilo fosse resolvido, ele dando corda, abufelado e metido a cheio da pregas, ronronando que só, ciscando e cagando raio, quando exigiu que se resolvessem tudo ali e agora mesmo. Não foi. O vigilante educadíssimo pegou-lo pelo gogó e fundilhos, arrastou-lo até o meio da rua, a sacudiu-lo dele espragatar-se feito uma prastada de manteiga derretida no asfalto. Ela veio atrás danando a bolsa no segurança que ainda deu-lhe um empurrão dela deitar-se com as pernas pra cima e bunda de fora para risadagem geral. Que coisa, hem? Saíram os dois, ela completamente desolada e ele se aproveitando – sim, mas estava mais fodido que ela, pois o dele só poderia ser encaminhado no dia seguinte e também só se resolveria deus sabe lá quando. Foi nessa hora que ambos presenciaram o desolamento da escritora Clotilde Tavares que saíra da mesma agência com um piripaque de quase morrer pelo pesadelo de dívida que se tornou o sonho dela ter uma casa própria com financiamento da Caixa. Por isso a Caixa Economica Federal está mais para o Caixote do Fecamepa. Vai pra Caixa você também? Eu, hem! Coisas do Brasil. Veja mais aqui


DITOS & DESDITOS - Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores. Pensamento da poeta Cora Coralina (1889-1985). Veja mais aqui

A ARTE - [...] Qualquer que seja a forma de arte, ocorre a comunicação: a mensagem se transfere. Entre a obra e o espectador, prossegue o colóquio humano. Há outras que se contemplam; outras que intrigam. Numa ou noutra hipótese, volta-se à peça. Existe sempre algo a mais para a percepção. As novas modalidades exigem uma assimilação progressiva. A vivência em grupo aumenta a necessidade da comunicação. Estimula os contatos. Estabelece as variações da percepção. O alargamento dos grupos, no rumo de comunidades mais ricas, proporciona ao artista motivações novas, solicitações mais numerosas. O fato social desponta aos olhos criativos do artista, desde o ser humano até a intrincada vida grupal. Motivação humana, motivaão social... a acuidade do alastista-criador (o autêntico artista) acorde aqui e ali, onipresente num mundo confuso e quase indecifrável. Justifica-se a expressão de Pound, de essência profética: os artistas são antenas! Antenas que auscultam, descobrem e revelam, como o fazem, no campo da ciência, os pesquisadores. [...] Trecho extraído da obra Arte e comunicação (AGIR/MEC, 1972), do jornalista, escritor, teatrólogo, professor, historiador e crítico de arte Celso Kelly (1906-1979).

ATALANTA & HIPOMENES - Atalanta era uma donzela que vencia na corrida os homens mais velozes. Era difícil dizer se ela se destacava mais pela perícia na corrida ou pela perfeição de sua beleza. Tempos antes de tornar-se exímia corredora, Atalanta consultou um oráculo sobre a possibilidade de se casar. Ela não poderia se casar. Aterrorizada com tal predição, ela vivia sozinha nas florestas. Mesmo assim, uma turba de pretendentes a perseguia. Ela conseguia afastá-los com a seguinte condição: “Só me possuirá aquele que me vencer na corrida”. Muitos rapazes arriscavam e perdiam a vida na tentativa de conquistá-la. Até que um dia, um jovem chamado Hipômenes ficou sabendo do estranho concurso e resolveu ir até lá, só por curiosidade. Quando ele viu alguns corpos derrotados no chão e mais outros rapazes que se preparavam para a disputa, exclamou: “Vocês são ridículos! Arriscar a vida só por causa de um casamento! Que tolice!” Porém, ao se deparar com Atalanta passando óleo no corpo e se preparando para a competição, ele ficou maravilhado! Jamais havia visto beleza semelhante e apaixonou-se de imediato. Aproximando-se dela, ele disse: “Por Júpiter! Perdão pelo que eu disse agora a pouco. Eu não fazia ideia de que o prêmio era tão valioso assim!” E encorajado pelo fogo invisível da paixão, acrescentou: “Você só os venceu porque eles são fracotes! Compita comigo! Garanto que se você for vencida não se arrependerá!” Atalanta ficou surpresa com a ousadia do rapaz que, embora prepotente, era audacioso e belíssimo. Um dilema cruel invadiu o coração da virgem. Ela já não sabia mais se desejava vencer ou ser vencida... Todavia, o desafio foi aceito. Hipômenes tremeu ao se dar conta do que havia acabado de fazer. Então ele pediu ajuda à Vênus, a deusa do amor. Vênus tinha acabado de voltar da ilha do Chipre e trazia consigo três maçãs de ouro. Ela deu as maçãs para Hipômenes e ensinou-o como usá-las. Começa a corrida. Ambos os competidores estão no mesmo pique, mas Atalanta abre vantagem facilmente. Hipômenes joga unum de tribus pomis no chão. Atraída pelo fruto reluzente, a donzela pára e o jovem a ultrapassa. Na metade do percurso Atalanta o alcança novamente, cheia de força e fôlego. Com a boca seca e a respiração ofegante, Hipômenes lança mão do segundo fruto. A formosa corredora não resiste e desvia do caminho para pegar o pomo dourado. Hipômenes lidera mais uma vez. Eles já estavam se aproximando do fim da prova. Atalanta usa toda a sua energia e deixa o jovem pretendente para trás. Entretanto, Vênus com seu poder divino, fez com que as maçãs ficassem mais pesadas. Hipômenes só tinha mais uma maçã de ouro. Ele atirou o último fruto obliquamente para um dos lados da pista, fazendo com que Atalanta se dispersasse na reta final. Ele venceu a prova e recebeu seu tão almejado prêmio. A moça se casou com ele de bom grado! Mas Hipômenes, orgulhoso, se esqueceu de agradecer à Vênus. Irada com o esquecimento, a deusa queria um exemplo para não ser menosprezada novamente e dois amantes transformados em leões. Em vez de palavras de amor, eles trocam rugidos. Em vez de num quarto, eles vivem nas grutas. A profecia dos oráculos mais uma vez se cumpriu. FONTE Mitologia grega (Vozes, 1989), do professor Junito de Souza Brandão (1924-1995). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

BOM DIA - Bom Dia / Espanta-me, em verdade, o que fizemos, tu e eu / Até nos amarmos? Não estaríamos ainda criados, / E, infantilmente, sorvíamos rústicos prazeres? / Ou ressonávamos na cova dos Sete Santos Adormecidos? / Se alguma vez beleza eu de facto vi, / desejei e obtive, não foi se não um sonho de ti. / E agora, bom dia às nossas almas que acordam / E que, por medo, uma à outra se não contemplam; / Porque Amor todo o amor de outras visões influencia / E transforma um pequeno quarto numa imensidão. / Deixa que os descobridores partam para novos mundos, / E que aos outros os mapa-mundos sobre mundos mostrem. / Tenhamos nós um só, porque cada um possui, e é um mundo. / A minha face nos teus olhos, e a tua nos meus, aparecem, / que os corações veros e simples nas faces se desenham; / Onde poderemos encontrar dois melhores hemisférios, / Sem o agudo Norte, nem o declinado Oeste? / Só morre o que não foi proporcionalmente misturado, / E se nossos dois amores são um, ou tu e eu nos amamos / Tão igualmente que nenhum abranda, nenhum pode morrer. / Vai apanhar uma estrela cadente / Vai apanhar uma estrela cadente, / Engravida da raiz de uma mandrágora, / Diz-me onde se encontra o passado, / Ou quem fendeu o pé do diabo, / Ensina-me a ouvir o cântico das sereias, / Ou a afastar o ferrão da inveja / E descobre / O vento / Que serve para melhorar uma mente honesta. / Se nasceste para ver coisas estranhas / Ou coisas invisíveis, / Cavalga dias e noites sem fim / Até que a neve cubra os teus cabelos, / Quando regressares, contar-me-ás / Todas as maravilhas que te aconteceram / E jurar-me-ás / Que em lugar algum / Vive uma mulher bela e honesta. / Se encontrares alguma, diz-me, / Tal peregrinação seria para mim uma doçura; / Mas não, não me digas, eu não iria, / Mesmo que fosse na porta ao lado, / Mesmo que ela fosse real, quando a encontrasses / E por fim me escrevesses a contar, / Enquanto eu lá chegasse, / Ela já teria sido falsa / Para dois ou três… Poema extraído da obra John Donne, o poeta do amor e da morte (J. C. Ismael, 1985), do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


Art by Duarte Vitória




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