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segunda-feira, novembro 06, 2017

FLAUBERT, SOMERSET MAUGHAN, SOPHIA BREYNER, ELZA BARROSO, SONIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO, KENNETH BURKE, AMARAJI & ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE.

E ISSO É TUDO A VIDA TODA NO CAOS – Já vai longe o tempo em que eu me empolgava avexado na buraqueira, enfrentando os meus moinhos e dando azo à perseguição dos desejos. Ah, quanta coisa esdrúxula me era importante, já passou, não mais. Rio. Não era demais toda irrisão diante da minha conspícua investida na surpresa das inclementes quedas patéticas. Nada mais risível, avalie. Eu atraio estranhos afetos e coisas do outro mundo. Além do mais, vejo o imperceptível que é usualmente insignificante para todos: um desplante pra quem sempre foi tratado por disparatado. As surpresas ao final eram nada mais que previsíveis desastres. Batia, persistia, insistia e até perseverava na minha credulidade tola: jamais admitido em nada, estornado pelas costas ou por insultos tácitos. Precisei de muito até ser abatido pela ruína, às vezes me tornando cáustico, impertinente, metido em desregramentos, até obscenidades, esborrando revoltas que evanesciam ao primeiro sinal de chance proutras pelejas. Resignava insatisfeito, pudera. Cabeça a mil, aprendia, recomeçava do zero. Quando aprumava pro êxito, lamúrias alheias me faziam abdicar na horagá. Tanto renunciei que nem júbilos interessam mais, reduzi-me à existência enclausurada, apartada do mundo. Deixei para trás os arroubos, ambições, tudo esfacelado na dispersão do tempo: desapontamentos são lições valiosas. Deixei para trás coisas até hoje sem solução, acho. Pronde vou, sempre o rebanho humano em sentido contrário, uns atrás dos outros, aceno e me são indiferentes, seguem importunos pro cenário da libação das virtudes corrompidas, enquanto lívido e perplexo encaro os desafios dos conflitos de meu tempo. O que importa é que se deram bem, eu recomeço das cinzas, juntando pedaços que sobraram de mim mesmo, quase nada. Refaço silente e insistente, transgrido para padecer de dores por todo corpo, quando não sucumbo de vez entre a sístole e a diástole: não sou a primeira nem a última criatura entre o deleite e o desespero, desejos por satisfazer, sofrimentos por evitar. A despeito de mim mesmo, apesar de ignorado, parece que alguém me lê às escondidas, quase ninguém se atreve a me escrever, ninguém ousa interlocução. Os meus inimigos sempre estiveram dentro da minha casa, entre meus familiares, quando não ao redor e à espreita de qualquer bocejo meu. Nunca me importei com isso. Hoje desapressado – talvez sinal da minha precoce senectude -, ainda assim transgrido de mim mesmo reiterada e recorrente a duvidar do que penso ou de me ver equivocado com frases que possam ser particularmente felizes, ou não. Talvez acerte, quem sabe, aprendi o erro e persigo circunspecto pelos princípios imutáveis que governam as mudanças. E se vou longe, não sei, sirvo-me do horizonte para saber da infinitude que reluz oculta no meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Yanomami for choir & guitar com o Coro Cervantes, Passaglia for Orchestra & Três Cantos de Yemanjá for cello & piano; da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006): Symphony nº 2 & Poem nº 1; do compositor, regente, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): Alegres trópicos, um baile na Mata Atlântica, Piano solo & Saudades do Parque Balneário Hotel com a OSESP; e da pianista Miriam Ramos interpretando o compositor, regente e flautista Octavio Maul & o maestro e compositor Ricardo Tacuchian. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que me parece mais belo, o que eu mais gostaria de fazer, seria um livro acerca de nada, um livro sem nenhum vínculo exterior, mas sustentado pela força interna do estilo [...] um livro que quase não tivesse assunto, ou pelo menos, em que o assunto fosse quase invisível, se tal é possível. As obras mais belas são as de menos matéria [...] Acredito que o futuro da arte esteja em tais canais. [...]. do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CAMBÃO TORTO, AMARAJI - O povoamento de Amaraji teve inicio em 1868. Tomou vulto, pouco a pouco, devida a uma geira que ali se realizava, o que deu lugar à construção de casas comerciais e muitas outras, para residência de moradores vindos de partes mais distantes para dedicar-se ao pequeno comercio e aos misteres agrícolas. O povoamento teve rapico desenvolvimento, e os viandantes e moradores chamavam a nascente povoação pelo de Cambão Torto. Depois de algum tempo, essa denominação foi mudada para São José da Boa Esperança, que teve o predicamento de vila pela Lei munciipal 2137, de 09 de novembro de 1889. Foi desmembrada do município de Escada. A sua instalação ocorreu em 11 de outubro de 1890. Tomou, então, o nome de Amaraji. Foi elevada à categoria de cidade pela Lei estadual 991, de 1 de julho de 1909. Administrativamente, o município é formado pelo distrito-sede e pelo povoado de Demarcação. Atualmente, no dia 01 de julho, Amaraji comemora sua emancipação política. [...]. Extraído da Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986), Veja mais aqui.

A ARTE E O ARTISTA - [...] Toda a gente tem predicados de artista em criança, ainda mais verdade é que toda a gente tem índole de artista na adolescência [...]. De vez que a Arte, com tornar-se um fim em si mesma, se tornava um problema do indivíduo – ou, com tornar-se um problema do individuo, se tornava um fim em si mesma [...] A inteligência talvez seja um funcionamento inadequado dos instintos, ou os primórdios de instintos que ainda não se cristalizaram [...] em relação às estrelas, um homem não tem maior importância que um gafanhoto. [...] Um autor que vive a maior parte de sua vida mentalmente tem de cometer suas transgressões no papel. [...] A blasfêmia é um experimento sério, uma transgressão por via dos pecados alheios. Blasfemar é restabelecer os deuses perdidos renunciando a eles; a blasfêmia é a luta de uma natureza emotiva, um protesto contra o intelecto que tende a torná-lo estéril de êxtases religiosos. A blasfêmia é ímpia, mas não irreligiosa. [...] A verdade, em Arte, não é a descoberta dos fatos, não é um acréscimo ao conhecimento humano, no sentido científico do termo. É, antes, o exercício da propriedade humana, a formulação de símbolos que enrijecem nosso senso de equilíbrio e ritmo. A verdade artística é a exteriorização do gosto. [...]. Trechos extraídos da obra Teoria da forma literária (Cultrix, 1979), do filósofo e teórico da literatura estadunidense Kenneth Burke (1897-1993). Veja mais aqui.

FÉRIAS DE NATAL –[...] Dançar com uma moça inteiramente nua acima da cintura era para Charley uma sensação nova e emocionante. Ao pousar a mão naquele corpo e ao sentir aqueles seios nus colados a seu peito, perdeu o fôlego. A mão que segurava era pequena e macia. Charley, sendo um rapaz bem-educado, de boas maneiras, sentiu necessidade de entabular uma conversa polida. [...]. Trecho extraído da obra Férias de Natal (Globo, 2003), do escritor britânico William Somerset Maughan (1874-1965). Veja mais aquiaqui.

UM DIAUm dia, gastos, voltaremos / A viver livres como os animais / E mesmo tão cansados floriremos / Irmãos vivos do mar e dos pinhais. / O vento levará os mil cansaços / Dos gestos agitados irreais / E há-de voltar aos nosso membros lassos / A leve rapidez dos animais. / Só então poderemos caminhar / Através do mistério que se embala / No verde dos pinhais na voz do mar / E em nós germinará a sua fala.  Poema extraído da Antologia (Portugália, 1968), da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Veja mais aqui.

NEGRINHA, DE SÔNIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO
O olhar perde-se
infinidades de dúvidas
ondas em cirandas
cercando a infância
de sanhas insanas
decepastes as bonecas
em mares de indiferenças
mergulhei fundo, contive
em tuas entranhas, brincos
brincadeiras indescritíveis
arrastada às cozinhas abastadas
percorri impassível entre:
brilhos, bombril, resmungos,
choros da criança que sou
e que não era eu
O sol do meu sorriso
derrama-se em felicidades ingênuas
Irascível - a ira - derrama-se
incandescente em teu coração
Negrinha! Tiziu!Tição!
ressoam ventos adormecidos
em desertos de sal
Tu me atinges
O coração rios em chama
a margem - revolta
Torrentes tempestuosas
arremessam ao infinito
tua tentativa ingênua
de romper castelos, fadas
cirandas, infância.
Poema extraído dos Cadernos Negros (Autores, 1981), da escritora Sonia Fátima da Conceição. Veja mais aqui.

ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE
A coletânia Itinerário Musical do Nordeste (Massangana, 2011), lançado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) reúne 10 cds e um livro com sonoridades de cultos afros-brasileiros, tais como cerimônia de Obori, jurema, orixás, tambor de mina e Casa Nagô, além de bandas de pífanos, ciranda, tambor de crioula, maneiro-pau, coco de embolada, aboio, incelência, reisado, guerreiro, histórias e cantigas. Os CDs reúnem Orixás, Jurema/Obori, Tambor de Mina/Casa de Nagô, Ciranda/Tambor de Crioula, Banda de Pífanos, Repentistas, Reisado/Guerreiro, Maneiro-Pau/Coco de Embolada, Aboio/Incelência e Histórias/Cantigas. A pesquisa foi realizada pelo então sociólogo da Fundaj, Enemerson Muniz, juntamente com os pesquisadores José Jorge de Carvalho, Rita Segato e Cristina Machado, registrando sonoridades apuradas em expedição realizada de Alagoas ao Maranhão, em uma parceria com o Instituto de Etnomusicologia e Folclore de Caracas (Um presente da conterrâneamiga Graça Lins, obrigado).

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa e artista plástica Elza Barroso
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sábado, outubro 14, 2017

ÍTALO CALVINO, ARENDT, NIETZSCHE, CECÍLIA KERCHE, CUMMINGS, WOLF VOSTELL, RENATO JANINE, MAKABRESKU, O SOL & A LUA.

O SOL E A LUA - No tempo em que o Sol e a Lua eram gente, certo dia, o curumin caeté Fiietó brincava de caçar na mata, quando encontrou uma linda menina e se aproximou dela: Você está brincando de caçar? Tô não, tô perdida. Perdida? Sim, saí atrás de uma linda bobroleta e perdi o caminho de volta pra casa. Onde você mora? Não sei, estou perdida. Qual a sua tribo? Sou caingang. Nunca ouvi falar. Acho que corri demais atrás da borboleta de não perceber tão longe que fui. E você, é de qual tribo? Ah, sou caeté. Nunca ouvi falar, também. E agora? Não sei, estou perdida. Vamos brincar por ali pela lagoa, aí você, quem sabe, não encontra o caminho de de sua casa, hem? É, vamos. Como é seu nome? Iaravi. E o seu? Fiietô. Ah, tá, vamos pra lagoa? Vamos. E saíram os dois até chegarem à lagoa e ficaram brincando de mergulhar com os peixes. Pulavam, timbungavam, maior festa. Vamos ver de nós dois quem atira cipó mais longe dentro d’água? Nunca brinquei disso. Ah, porque você é menina, não sabe como é brincar coisa de menino. É, então vamos, quero aprender. E ficavam pegando gravetos e cipós no chão da mata e jogavam dentro d’água. Os peixes pulavam pra pegar as coisas jogadas no ar. Virou uma competição. Aí Fiietó gritou: Saiam, não é pra vocês pegarem, estamos apostando quem joga mais longe. Ah, os peixes nem deram conta, pulavam mesmo assim e interceptavam tudo no ar. Vocês estão atrapalhando nossa brincadeira! Ah, deixa, eles estão brincando com a gente, vamos nadar com eles? Então, vamos. E saíram nadando com os peixes e estes, para provocar os dois, ficavam apenas com o rabinho fora d’água só pra provocá-los a virem nadando atrás deles. Iaravi ia prum lado atrás dos que via, Fiietó ia pro outro com o mesmo objetivo. Tanto foram pra lados opostos que se distanciaram e, quando menos esperavam, esbarraram um no outro. Eita! Batemos com a cabeça. Foi. Estou cansada com esses peixes, eles me botaram para nadar muito. Eu também, vamos voltar pra margem? Vamos. E retornaram, ficaram olhando o brinquedo dos peixes pulando fora d’água e se riam muito com isso. Já estava escurecendo quando Iaravi ficou preocupada em voltar: E agora? Como volto pra casa? Ah, a gente se esqueceu de procurar o caminho, vamos ver se a gente encontra. Saíram, andaram, andaram, nada de Iaravi achar, quando Fêetó resolveu levá-la pra tribo dele. Lá chegando os dois se juntaram aos demais, cearam e foram dormir. No outro dia acordaram, tiraram o jejum e foram ver se achavam o caminho de volta pra casa dela. Foram pra mata e lá começaram a brincar de esconde-esconde, o que é que é, até que encontraram uns pica-paus e ele pediu um chapéu daquele cor de fogo feito os deles. Logo um dos pica-paus retirou um e deu pra ele, fazendo-o de leque. Bonito? Sim. E pra ela? Outro pica-pau deu um pra Iaravi. Eu estou bonita agora? Está. Vamos? Vamos. E ambos brincaram comos pássaros, de pula-pula e correr e voar. Lá pras tantas os pica-paus se despediram e foram embora, eles estavam felizes com os leques feitos chapéus cor de fogo na cabeça. Ah, agora você se faz de cega preu brincar de lhe guiar pela mata, tá bom. Nessa brincadeira ela muito tropicou nos galhos quebrados e secos, nas raízes e muitas pedras, a ponto de invocar-se e não querer mais brincar disso não. Ao abrir os olhos avistou uma casa de marimbondos. Vixe! Vamos embora, corre, olha ali uma casa de marimbondos. Era tarde, correram tanto que findaram mergulhados dentro da lagoa. Alguns peixes pularam e comeram alguns dos marimbondos que não resistiram e foram embora. Visse? Não fosem os peixes, a gente ia morrer afogado. Era mesmo, ainda me ferraram. E Fiietó realmente constatou inchaço nas faces e nas costas de Iaravi. Está doendo? Está. Vamos lá pra minha tribo cuidar disso. E voltaram. Chegaram lá, foram pro feiticeiro que passou uns ungüentos na pele de Iaravi e lhe deu um remédio para beber, demorou um pouquinho, a dor passou, mas continuava com a face e as costas inchadas. Ela então se deitou no chão da oca e ali adormeceu. Será que ela vai ficar boa? Vai, é só efeito do remédio que eu dei, logo ela acorda e volta a brincar com você. No outro dia Iaravi acordou e foram brincar de esconde-esconde de novo, ela tanto se escondeu que Fiietó não mais encontrou. Perdeu-se, sumiu-se. Caçou ele por tantos lugares e lonjuras, não mais encontrou Iaravi. Ele ficou muito triste, estava com saudades dela. Encostou-se numa pedra perto da lagoa e logo os peixes apareceram pulando na água. Ela desapareceu, não achei mais não. Queria era crescer, ficar grande, para encontrá-la. Quem sabe, ela esteja perdida na mata. Nessa hora um peixe deu um pulo maior e com um toque de barbatanas fez Fiietó crescer, agora um rapaz forte, bonito, guerreiro. Obrigado, amigos peixes, agora vou procurar Iaravi, se vocês encontrarem me avisem, viu? Vamos. E saiu morro acima, montanha abaixo, terras distantes nunca vistas. Bem distante dali, estava Iaravi soluçando na beira de um rio distante, quando os peixes pularam foram d’água. Ah, amigos peixinhos, que bom encontrar vocês por aqui. Viram Fiietó? E um dos peixes pulou, bateu a barbatana e Iaravi cresceu, tornando-se uma linda cunhã. Os peixinhos ficaram pulando como se a chamassem para nadar. Vocês sabem onde está Fiietó? Eles mais pulavan, ela entendeu que era pra segui-los. E ela nadou dias e noites. E Fiietó procurou por ela noites e dias. Cansavam, descansavam, tornavam a procurar um pelo outro, ao cabo de uma semana, quando ambos já haviam perdido as esperanças, sentaram cada qual na beira oposta de um grande rio, extenuados e sem mais esperanças. Estavam desapontados por não reencontrarem um ao outro. Ela olhava tudo ao redor, o céu, a terra, o mato, quando percebeu os peixes pulando de novo e não entendia. Vieram os pica-paus em bandos cantando, ah, os amiguinhos pica-paus, que vocês querem? Não entendia. Da mesma forma, na outra margem do grande rio, também os peixes e os pica-paus faziam o mesmo com Fiietó e ele não entendia. O que vocês querem? Os peixes mais pulavam e os pica-paus mais bicavam no ar, como se mandando ele a segui-los. E assim foi, ele mergulhou no grande rio e pôs-se a nadar acompanhando os peixes e os pássaros. Lá longe Iaravi avistava outros pica-paus voando aos pulos dos peixes na água, enquanto os que estavam com ela aumentavam no bater das asas e nos pulos na água. Demorou pra ela perceber umas braçadas firmes de gente na água, acompanhando os pulos dos peixes e o vôo dos pássaros, vindo em sua direção. Mais um pouco os braços se aproximavam e os pica-paus que vinham se encontravam com os outros que estavam com ela e, na água, aumentou em muito os pulos com muitos peixes até a chegada dele na beira do rio. Era Fiietó. Ela ficou feliz. Fiietó? Iaravi? Era o reencontro. E se abraçaram, se beijaram e juraram nunca mais se afastarem um do outro. Tanto é que passaram a tomar conta do mundo, ele de dia passou a ser o soberano Sol brilhando do amanhecer até o final das tardes, e ela, de noite, tornou-se a radiante Lua com suas fases para iluminar o caminho dos que se perdem. (Recriação a partir das lendas indígenas amazônicas recolhidas de Notícia dos Ofaié-Xavante (Revista Museu Paulista, 1951), de Darcy Ribeiro, e Os apinajé (Boletim do Museu Paraense Emiolio Goeldi, 1956), de Curt Nimuendaju). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor, regente orquestral, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): O anjo esquerdo da história, Alegres trópicos - um baile na mata atlântica & Qualquer música; a saudosa cantora Elis Regina (1945-1982) ao Vivo, em Montreaux & Trem azul; do multi-instrumentista, músico, compositor e ativista nigeriano Fela Kuti (1938-1997): Afordisiac, Go slow & Gentleman; e da cantora Irah Caldeira: Flor do dia, Quero ter você, A natureza das coisas, Sem segredo & Avoante com Santanna, o Cantador. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Houve também quem, embora literato da cabeça aos pés, não sentiu nenhum complexo de inferioridade diante da história, mas, antes, teve certeza de que foi ele a nutri-la e enriquecê-la com toda a sua fantasia e cultura. Trecho de Assunto encerrado (Companhia das Letras, 2009), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

TEMPOS SOMBRIOS - [...] Em nossa época, parece-me, nada é mais dúbio do que nossa atitude em relação ao mundo, nada menos assente que a concordância com o que aparece em público, imposta a nós pela homenagem, a qual confirma sua existência. Em nosso século, mesmo o gênio só pôde se desenvolver em conflito com o mundo e o âmbito público, embora, como sempre, encontre naturalmente sua concordância própria particular com sua platéia. Mas o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre as pessoas, e esse espaço intermediário — muito mais do que os homens, ou mesmo o homem (como geralmente se pensa) — é hoje o objeto de maior interesse e revolta de mais evidência em quase todos os países do planeta. Mesmo onde o mundo está, ou é mantido, mais ou menos em ordem, o âmbito público perdeu o poder iluminador que originalmente fazia parte de sua natureza. Um número cada vez maior de pessoas nos países do mundo ocidental, o qual encarou desde o declínio do mundo antigo a liberdade em relação à política como uma das liberdades básicas, utiliza tal liberdade e se retira do mundo e de suas obrigações junto a ele. Essa retirada do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; ele pode inclusive cultivar grandes talentos ao ponto da genialidade e assim, através de um rodeio, ser novamente útil ao mundo. Mas, a cada uma dessas retiradas, ocorre uma perda quase demonstrável para o mundo; o que se perde é o espaço intermediário específico e geralmente insubstituível que teria se formado entre esse indivíduo e seus companheiros homens. [...] Bem, a esse respeito, os últimos trinta anos dificilmente trouxeram algo que se pudesse chamar de novo. [...]. Trechos da obra Homens em tempos sombrios (Companhia das Letras, 2008), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS & A MORAL - [...] sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? E que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indícios de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro? [...] Já em princípio a palavra “bom” não é ligada necessariamente a ações “não egoístas”, como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que esta oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe mais à consciência humana. [...] Na origem, toda a educação e os cuidados do corpo, o casamento, a medicina, a agricultura, a guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os homens e as relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade: esta exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si mesmo como indivíduo. [...] Em toda a parte onde existe comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a ideia de que a punição pela violação dos costumes recai em primeiro lugar sobre a própria comunidade. [...] Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular, contar confiar – para isso, o quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! [...]. Trechos da obra Genealogia da moral: uma polêmica. (Companhia das Letras, 1998), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ENSINO & ESCOLHASVivemos uma enorme demanda de conhecimento qualificado, cientifico, acadêmico. Isso é ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. [...] O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é democrática, a oferta nem tanto. [...] Da cabeça aos pés, cada um de nós veste a ciência que não existia cinco anos atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo. [...] Num país preconceituoso com o conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num instante ouviria 101 machados retumbando!), isso é formidável. A universidade também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a sociedade – inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais ou não. Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa necessidade. [...]. Trecho do artigo A corrida do ensino: a crise da universidade e a voga dos cursos de extensão (Bravo, março 2005), do filósofo, escritor e professor da USP, Renato Janine Ribeiro.

A ARTE DE CECILIA KERCHE
A arte da bailarina Cecília Kerche.

Veja mais:
Fiietó & Iaravi aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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DOIS POEMAS DE E. E. CUMMINGS
I
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão….
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela….
o que é isso que o realejo toca
II
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
Recita
sobre a sua
carne
as pérolas
da chuva uma a uma murmurando.
Poemas extraídos da obra Livro de poemas (Assírio & Alvim, 1999), do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Tradução de Cecília Rego Pinheiro. (Imagens: arte da fotógrafa polonesa Laura Makabresku). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, videoartista e escultor suíço Wolf Vostell (1932-1998).
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, julho 14, 2017

AL-GHAZZALI, MARLOS NOBRE, DALTON TREVISAN, GALINA USTVOLSKAYA, GILBERTO MENDES, KAZIMIERZ MIKULSKI, MIRIAM RAMOS & LUCIAH LOPEZ

É ELA TODAS AS MUSAS – Imagem: arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. - Ainda que não seja possível a poesia nesse tempo desfigurado de desumanos trajetos de pedras perdidas e que o coração desfaleça sedento à beira do charco que a solidão sitiou das lágrimas empoçadas, mesmo assim, isso eu sei, haverá o amor que emerge em flor no meio dos vendavais, atravessando imensos óbices e temporais pelas enxurradas de desejos indomáveis inflamando noites incendiadas de esperas na demorada ligação das pontas convergentes dos anseios mútuos e paralelos, quase desesperançados. Isso porque se sou a desolação que quedou diante das expectativas e dos sonhos inconclusos, ela se faz poeta qual Melpômene depondo sua grinalda a me entregar a clava do poder, entoando a voz Calíope que sai ao buril da tabuleta a se mostrar incorporada à lírica de amável Erato que me dá a lira pra que o canto seja renovado e todas as canções e poemas sejam meus. E mesmo que eu me veja abandonado ao ermo das posses e sem bússula para seguir em frente, ela chega a se revelar proclamadora Clio, a me expor com seu pergaminho todo passado indisfarlável, todo o presente de promessa e todo futuro de quimera na realização carnal que desde a véspera fez-se crástico pra me presentear agora. E mesmo que eu emudeça diante da esterilidade do silêncio com todas as mordaças e rouquidões, ela avança Euterpe a me embalar com a música de sua flauta ensolarada para que eu tenha o ânimo de recomeçar do zero e a mão no amanhã. E mesmo que eu esteja ao calor das paredes cruas e a vida afora, ela festeja Poliminia em mim todos os seus hinos sacros e profanos para que eu me faça festa na abundância de seus poderes e posses, como se tudo seu passase a ser meu. E mesmo que me precipite solitário entre recaídas sucessivas por sucumbências imprevisíveis, ela é mais que envolvente Terpsícore a rodopiar na dança embalada pelo plectro na lira, a me ensinar novos versos e cantares, até que eu exorcize minha loucura e possa entoar cordas harmônicas. E mesmo que eu tenha perdido a graça de tudo no transbordamento de aguados choros entre fracassos e fraquezas, ela me chega com o perfume das flores no seu sorriso Tália de ser para alegrar meus dias com sua coroa de Hera e bastão entre histrionices e chistes a me fartar de rir como se não mais houvesse ontens nem amanhãs pra mandar ver com despudor. E mesmo que eu tenha errâncias infindas por saldo na perda de toda e qualquer fronteira da lucidez e prumo, ela se revela Urânia a me entregar o céu e as estrelas, a vida no compasso e a posse da Terra, mesmo que sequer saiba o que fazer depois noites mal dormidas e dias nublados. E depois tudo, salvo de todas as quedas e precipícios nas saradas feridas dos talhos abertos, ela se despe de todas elas e das vestes para ser apenas ela a panacéia e o meu amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

O OCASIONALISMO DE AL-GHAZZALI
[...] Lembrem-se de seus contemporâneos que faleceram e tinham a mesma idade que você. Lembrem-se das honras e famas que eles obtiveram, dos altos postos que ocupavam e dos belos corpos que possuíam, e de que hoje todos eles se transformaram em cinzas. Como eles deixaram órãos e viúvas atrás de si, como sua riqueza está sendo desperdiçada depois deles e suas casas transformando-se em ruínas. Nem sinal deles existe hoje e eles estão deitados em buracos escuros debaixo da terra. Reconswtruam suas faces mentalmente e ponderem. Não depoistem esperanças em suas riquezas e não desprezem a vida. Lembrem-se de como eles andavam e de como agora todas as suas junta separaram-se, de que a língua com a qual falavam agilmente foi devorada pelos vermes e de como seus dentes estão corroídos. Eles estavam tolamente se provendo para mais vinte anos, quando nem mesmo um dia de suas vidas lhes restava. Eles nunca esperaram que a morte viesse para eles numa hora tão inesperada... Quando algo no mundo lhe agrada e nasce em você uma vinculação com isto, lembra-se da morte.
Trecho extraído da obra The revival of religions sciences (Sufi Publishing, 1972), do filósofo, teólogo, psicólogo e místico islâmico Al-Ghazzali (1058-1111), propondo a teoria do ocasionalismo

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O passado escreveu o presente; o futuro, agora, Sociolinguística de Dino Preti, o teatro de Bertolt Brecht, Nunca houve guerrilha em Palmares de Luiz Berto, a música de Adriana Hölszky, a escultura de Antonio Frilli, a arte de Thomas Rowlandson, a pintura de Dimitra Milan & Vera Donskaya-Khilko aqui.

E mais:
A liberdade de expressão, A filha de Agamenon de Ismail Kadaré, A natureza de Parmênides de Eléia, Poema sujo de Ferreira Gullar, O teatro essencial de Denise Stoklos, a música de Badi Assad, o cinema de Ingmar Bergman & Liv Ullmann, a escultura de Emilio Fiaschi, Programa Tataritaritatá, a pintura de Gustav Klint & Vera Donskaya-Khilko aqui.
O discurso do método de René Descartes, a música de João Bosco, o teatro de Denise Stoklos, o cinema de Ingmar Bergman, a pintura de Gustav Klimt, Sandra Regina, Bernadethe Ribeiro & Danny Calixto aqui.
Literatura de cordel: História do capitão do navio, de Silviano Pirauá de Lima aqui.
Preconceito, ó! Xô pra lá, Diários de viagem de Franz Kafka, A revolta de Atlas de Ayn Rand, A lua e o infinito de Giacomo Leopardi, a música de Leoš Janáček & Cheryl Barker, o cinema de Alessandro Blasetti & Sophia Loren, Maguerite Anzieu & Jacques Lacan: caso Aimée, a arte de Liliana Castro, a pintura de Helmut Breuninger & Hermann Fenner-Behmer aqui.
Os vexames dum curau no sul, O absurdo de Thomas Nagel, Voragem de Junichiro Tanizaki, Pretidão de amor de Emílio de Meneses, Mão na luva de Oduvaldo Vianna Filho, o cinema de Olivier Assayas & Maggie Cheung, a música de Rosalia de Souza, a pintura de Pierre-Auguste Renoir & Suzanne Frie aqui.
Quadrilha das paixões mais intensas, Vaqueiros & cantadores de Luís da Câmara Cascudo, Terra de Caruaru de José Condé, a música da Orquestra Armorial & Cussy de Almeida, A Setilha de Serrador, O casamento de Maria Feia de Rutinaldo Miranda Batista, a arte de Roberto Burle Marx. a xilogravura de Severino Borges, J. Miguel & Vermelho aqui.
Entre nós, vivo você, as gravuras de Lasar Segall, a música de Sivuca, Cartilha do cantador de Aleixo Leite Filho, Cancão de fogo de Jairo Lima, a poesia de Belarmino França, a arte de Luciah Lopez, a xilogravura de J. Borges & José Costa Leite aqui.
Dos bichos de todas as feras e mansas, Cantadores de Leonardo Mota, O Romance da Besta Fubana de Luiz Berto, O martelo alagoano de Manoel Chelé, a música do Duo Backer, a escultura de Antoni Gaudí, a militância de Brigitte Mohnhaupt, a arte de Natalia Fabia & a xilogravura de J. Borges aqui.
Quem desiste jamais saberá o gosto de qualquer vitória, A linguagem & as ciências de Roman Jakobson, Nos caminhos de Swan de Marcel Proust, a arte de Regina José Galindo, a fotografia de Thomas Karsten, a pintura de Henry Asencio, a música de Secos & Molhados & Luiza Possi aqui.
Tudo em mim, mestiço sou, O povo brasileiro de Darcy Ribeiro, A história da minha vida de Helen Keller, Anarquismo & ensaios de Emma Goldman, a escultura de Luiz Morrone, a fotografia de Pisco Del Gaiso, Os Fofos Encenam & Viviane Madu, a música de Guilhermina Suggia & a pintura de Martin Eder aqui.
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AH, É? DE DALTON TREVISAN
Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo. Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo. Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbiguinho. Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da mão. Mas você pára? Nem ele.
Ministória extraída do livro Ah, é? (Record, 1994), do escritor Dalton Trevisan. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especial do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Yanomami for choir & guitar com o Coro Cervantes, Passaglia for Orchestra & Três Cantos de Yemanjá for cello & piano; da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006): Symphony nº 2 & Poem nº 1; do compositor, regente, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): Alegres trópicos, um baile na Mata Atlântica, Piano solo & Saudades do Parque Balneário Hotel com a OSESP; e da pianista Miriam Ramos interpretando o compositor, regente e flautista Octavio Maul & o maestro e compositor Ricardo Tacuchian. Para conferir é só ligar o som e curtir.

SÉTIMO DIA DE LUCIAH LOPEZ
Havia muitos anos desde que a Sentinela do Tempo - resignada - depositou na palma da minha mão, a Chave que Desdobra a Eternidade e todos as trombetas soaram e a chegada do dia estendeu-se em campo aberto unindo todos os planos celestiais. Uma lágrima escapando dos meus olhos transforma-se em diamante ganhando a credibilidade do Arauto de Todas as Verdades. Ambos, Sentinela e Arauto -, ajoelhados diante do Sol, quando em seu esplendor, corre o céu eclodindo a vida para dentro dos meus olhos -, outrora cegos, entoam cânticos reverenciando a Hora do Choro Que Não é Triste. Um raio do espectro solar faz dissipar um resto de nuvens que já cumpriram sua missão e o Leão de Pedra reluz...
Sétimo dia, poema/imagem da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, designer e desenhista polonês Kazimierz Mikulski (1918-1998).
Veja mais aqui.
 

terça-feira, outubro 13, 2015

CALVINO, GREENAWAY, BLAKE, GILBERTO MENDES, HAYEZ, GIL VICENTE, LAMBERT, MITANÁLISE & PROGRAMA TATARITARITATÁ.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A VIDA E CADA UM DE NÓS - A grande maioria das pessoas que eu vejo por aí, ou aqui, ali ou acolá e alhures, ou vivem de mangar dos defeitos dos outros, ou de esconder suas próprias desditas. Ué, alguém é perfeito? Arre. Os primeiros vivem só de escárnio, a tocar maldosamente com seus motejos na ferida depreciativa de quem quer seja. Bastam ver algo de desmazelado ou não, e logo passam a rotular; seja pela calça coronha pegando borboleta, seja pelo andar queimando o arroz no rego da bunda, ou pelo pixaim do cristão, a gola mamãe, o vinco desajeitado nas vestes desbotadas dos curaus ou ocrídios, a cara de foto bufenta que requer exorcismo pra erradicar a feiura, a falta do nome do pai na certidão de nascimento, o adotado ou enjeitado, a que perdeu os três vinténs, a vitalina, o que levou forquilha, o que penteou um asno, não escapando quer sejam os engomadinhos do clube do Bolinha, ou as patricinhas de bunda-rica do clube da Luluzinha. Tudo serve para mangação na base das saudações às caretas e pilhérias de enxeridos inescrupulosos na maior das caçoadas mais cínicas. Na verdade, todo desdém esconde lá neles os seus próprios conflitos: macaco não olha o rabo! Vai ver, é rindo dos outros que esconde seus escombros e fraquezas. Há também os que são as vítimas desse menosprezo, que emendam as camisas numa bravata pra lá de truculenta quando lhe denunciam a alcunha e que vivem de lamentar de ter nascido onde o malquisto perdeu as botas ao invés duma paradisíaca paragem europeia ou estadunidense. Nas suas horas minguadas vivem gemendo a jetatura de papa-vento malfadado a se precipitar nas suas lamúrias de escanteado da sorte e da vida. E ainda negam de pés juntos toda e qualquer suspeita enrustida de que, na verdade, queriam ser ou roliúde da situação, ou o suprassumo da espécie. Que tenha lá suas razões – já dizia Pascal que o coração tem razões que a própria razão desconhece! Cada qual valoriza ou não suas próprias recompensas. E pra esconder sua infelicidade trajam tudo de grife pra desfilar na moda! Eita, grei! Mas como a boca fala do que está cheio o coração, mesmo no maior dos trinques mandam ver na gesticulação furiosa e aziaga, a condenar de tudo contra os apelidos descabidos, a gritar engravatado e cheio de nove horas que bata na boca que isso é blasfêmia ou a velha carteirada do sabe com quem estás falando? E se arvoram com as suas exaltações temperamentais que está tudo errado, que ninguém presta e tudo está condenado ao fim do mundo. Minha nossa! Não tem cabimento, é o maior nhenhenhen. É só comer sal com esse tipo de gente que logo se vê quanta veleidade. Desculpe a má palavra, nem Deus com um gancho e o diabo com um garrancho, o que se tem de certo é que o desgosto varia de acordo com as circunstâncias, dependendo do temperamento de cada um ou do que melhor lhe convier. Mas como já dizia Vespasiano: a raposa muda de pelo, mas não de costume. É a maior lengalenga. Não seria mais fácil aceitar-se a si mesmo e olhar pro mundo como quem é o que é, sem o desserviço de com sua infelicidade estragar o repasto dos outros? Ah, o que vale mesmo é aquilo do se não sou feliz, ninguém será. Valha-me! Eu mesmo que sou baixim, banguela, buchudim, tronchim e feím, dou-me por satisfeito comigo mesmo – se bem que vou sempre resiliente pra me autosuperar e vez em quando me surpreendo até comigo mesmo, a mangar de minhas leseiras. Ué, a distância entre o chique do máximo e um zé-ruela é uma má impressão no meio. Mesmo que o espelho ou fotografia não dê jeito dum mondrongo virar Apolo, a gente bem que podia relevar na exigência, ser a gente mesmo e ver que a coisa não é tão péssima assim, ora, ora. O pior é querer ser o que não é. Aí sim é que é engodo, só de pensar que só você é sabido e que os outros todos são bestas, um dia a casa cai. E como todo dia é dia da vida, o que vale de mesmo é ser feliz, seja como for. E vamos aprumar a conversa aqui

 Imagem: Woman after Bath (1859-Nude Bather), do pintor italiano Francesco Hayez (1791-1882). Veja maisaqui.


Curtindo: cd/livro Música Contemporânea Brasileira (Lua Music 2005), do músico, compositor, regente orquestral, professor e jornalista Gilberto Mendes.

O TERAPEUTA E O SHAMANO livro Vínculos e mitos: uma introdução à mitanálise (Ágora, 1988), de Sophia Rozzanna Caracushansky, trata sobre as novas perspectivas, a grande heresia, o terapeuta e o Shaman, a mitanálise, sobre os mitos e sonhos, anomalias nos padrões de interação com a mãe, repetição adulta de padrões infantis, o padrão de relacionamento, mitos e fases do desenvolvimento, autismo normal, diferença entre autismo e síndrome pré-simbiótica, Eros e a Síndrome Simbiótica no Adulto, a saída do ovo, Ignis e a Síndrome do Desabrochamento no adulto, os dois níveis do desabrochamento, Mercúrioo, Paradigma da Síndrome do Treinamento, elementos da simbiose presentes ao inicio da reaproximação, Laio ou a Síndrome da Reaproximação no adulto, Síndromes de Separação e distância real, Síndrome da Separação no adulto, A dama e o vagabundo, o Actong-Out, Garuda, Apolo, a Síndrome da Distância Ideal no adulto, processo mitanalítico, Síndrome do Deus do Inferno, Síndrome de Tiamat, Síndrome de Laio, Síndrome de Apolo, Síndrome de Eros, Síndrome de Garuda, Shiva, mudando o significado do Final Feliz, mitologia brasileira do século X, multiplicidade de papéis na vida, processo irracional versus processo terapêutico, Hamlet, Peter Pan, Aladin e a Lâmpada Maravilhosa, João e Maria, Perseu, Odisseu, Endimião, Bel Mardik, os ciclos mitológicos subsequentes e a união dos opostos, os gêmeos, Ino, Semele, Idade do Bronze, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho O terapeuta e o Shaman: [...] O shaman é uma pessoa que na adolescência passou por uma séria crise psicologia, a qual chamaríamos em nossa cultura de psicose. Uma vez resolvida a crise, considera-se que a crise anormal lhe trouxe benefícios tanto no plano afetivo como no cognitivo. O reconhecimento entre os primitivos, que a crise possa ter um efeito regenerador não é muito diferente da posição do psicoterapeuta moderno das civilizações mais avançadas. Ele pode utilizar a crise como parte do processo de cura. Mas os esquimós não se limitam a tal reconhecimento. Eles passam a considerar o shaman como alguém superior, mais consciente que os demais. Sempre que um jovem apresenta uma crise similar, a família manda chamar o shaman para resolver o problema. Um shaman esquimó, de uma tribo radicada ao noirte do Canadá, contou que quando jovem tinha constantemente sonhos estranhos. Seres bizarros e desconhecidos dele se aproximavam e lhe falavam. Ao acordar lembrava-se de tudo de forma tão vívida que podia descreve-lo aos que estavam à sua volta. A família, perturbada, mas sabendo o que se passava, mandou chamar um velho shaman de nome Peqanaoq. Ele diagnosticou imediatamente o caso e levou-o, em pleno inverno, numa noite escura e gélida do inverno ártico – a um deserto longínqyo, solitário, construindo ali uma pequena cabana que mal daria para conter uma pessoa sentada. Não foi permitido ao jovem colocar os pés na neve. Ele foi carregado por Peqanaoq, e colocado dentro da cabana, sentado, de pernas cruzadas, sobre uma pequena tira de couro. O velho shaman, sem deixar-lhe comida ou bebida, deu-lhe ordem de pensar apenas no Grande Espírito, que deveria surgir ali. Foi deixado sozinho naquele lugar por trinta dias. Após cinco dias, Peqanaoq veio trazer-lhe uma bebida quente. E depois de outros quinze, compareceu com mais uma bebida e um pedacinho de carne. Mas isso foi tudo. O frio e o jejum eram tão abrasadores que, vez por outra, o jovem sentia como se estivesse morto. E durante esse tempo todo ficou pensando no Grande Espírito, até que, lá pelo fim da provação, um espirito benfeitor de fato apareceu, em forma de mulher, que parecia pairar sobre sua cabeça. Ele nunca mais a viu, mas ela se tornou seu espírito protetor. Peqanaoq levou-o, então, para casa e ele mesmo se tornou shaman. [...] A mitánalise repousa sobre umas tantas ideias a respeito dos mitos (e dos destinos humanos neles contidos), de um lado, e sobre determinadas descobertas no campo da psicologia do desenvolvimento, de outro. Os mitos contem normas de de vida. Representam a moral primitiva, voltada para a satisfação das necessidades instintivas do homem. falam de valores, ainda primários, ligados a forças biológicas originárias do ser e do mundo. [...] o conto de Aladim e a Lampada Maravilhosa [...] Aladim está para morrer de fome e sede na gruta escura, quando, ao tocar a lâmpada maravilhosa, ele consegue fazer sair dali o gênio, escrevao da lâmpada. “Às suas ordens, senhor”, diz o gênio, “seus desejos são ordens”. Aladim lhe pede, então, para voltar á face da terra e retornar à sua casa, a que o gênio atende imediatamente. Depois, pede-lhe riquezas e o gênio também atende. Assim, Aladim não precisa fazer coisa alguma a não ser chamar pelo gênio, para ter as suas necessidades supridas. O relacionamento de Aladim com o gênio retrata o relacionamento do Sujeito com o Objeto na fase simbiótica e em nenhuma outra. [...]. Veja mais aqui.

A ESPOSA-SEREIA - No livro Italian folktales (Pantheon, 1980), do escritor italiano Italo Calvino (1923-1985), encontro a história A esposa-sereia: Há muito tempo, uma mulher casou-se com um marinheiro, porém ele ficava longe de casa a maior parte do tempo, velejando pelos sete mares. Um dia, quando ele estava fora, a esposa viu o rei que passava a cavalo e os dois se apaixonaram. Ela foi viver com o rei, e quando o marido voltou, encontrou sua casa fria e vazia. Em pouco tempo, o rei e a mulher cansaram-se um do outro e ela voltou para casa. Suplicou ao marido que a perdoasse, mas ele enfurecido, lançou-a no mar e gritou: “mulher infiel!” – Essa é a punição que você merece! Logo a seguir, ele recuperou o juízo e se perguntou: - O que foi que eu fiz? Estou matando a única mulher que amo. Tentou salvá-la, no entanto, ela já sumira nas profundezas das águas. Ele voltou para casa com o coração partido. A mulher caiu entre as sereias, que estavam no seu jardim de coral e pérolas. Quando as sereias viram a mulher, exclamaram: “Que mulher linda!” Levaram-na para seu palácio e a reanimaram com suas mágicas. Você será uma de nós, disseram as sereias e seu nome será ‘Espuma’. Pentearam seu cabelo, perfumaram seu corpo e a adornaram com pérolas. A seguir fizeram uma festa em sua homenagem. Ela dançou a noite toda no salão do palácio entre lindas sereias. Daí em diante, viveu no luxo e na alegria do fundo das águas. Um dia lembrou-se do seu marido e encheu-se de tristeza, pois ainda o amava. Sentiu vontade de vê-lo novamente. As sereias perguntaram o que a atormentava. – Não é nada, disse ela, mas seu semblante estava muito triste e as sereias vendo-a sofrer não suportaram. Resolveram levá-la para a superfície para cantarem ao luar suas canções mágicas. Com essas canções elas faziam marinheiros caírem na água e os transformavam em moluscos e caranguejos. Certa noite, enquanto as sereias cantavam, um homem saltou nas águas e a esposa logo reconheceu seu marido. Vamos torná-lo um camarão, exclamaram as sereias. - Não, não, interrompeu a esposa. - O que você quer com ele, Espuma?, perguntaram as sereias. Ela teve uma idéia. – Eu quero tentar uma mágica, eu mesma. As outras concordaram. Prenderam o homem no palácio e foram dormir. A esposa foi, secretamente, até o aposento em que ele estava e cantou do lado de fora. O marido acordou e logo reconheceu a voz da esposa. Você está viva, disse ele e pediu-lhe que o perdoasse. Ela disse que já o perdoara há muito tempo, porém você deve ficar quieto. Se as outras acordarem irão fazer-lhe mal. Voltarei aqui mais tarde e o libertatarei. Foi ver se todas estavam dormindo e depois voltou e libertou o marido, levando-o para a superfície e o deixando-o em segurança. Logo, um navio passou por perto e ela mandou que ele fizesse sinal para que o resgatassem. Não posso ir com você, disse ela, agora sou uma sereia e, se sair da água, morrerei. Em seguida mergulhou e desapareceu. Ele gritou desesperado e os marinheiros do navio ouviram e vieram salvá-lo. Ele contou sua história, mas ninguém acreditou, acharam que ele tinha perdido o juízo. Levaram ele de volta para sua casa. Ele ficou muito inquieto,dia e noite só pensava na esposa. Certo dia, imerso em seus pensamentos, saiu andando pela floresta e aproximou-se de uma nogueira, em torno da qual diziam que as fadas dançavam. - Por que você está tão triste, meu bom homem? Perguntou uma velha que saíra de trás da árvore. Ele se assustou, mas contou-lhe tudo que estava passando. A velha disse que poderia ajudá-lo, mas não era uma tarefa fácil - Farei qualquer coisa, disse ele. A velha então falou: - Primeiro você tem que me trazer a ‘flor’ que cresce no palácio das sereias, a qual elas chamam de ‘a mais linda flor’ . Traga-a para mim e sua esposa sairá salva do fundo do mar. Ele coçou a cabeça, pensando como conseguiria esta flor do fundo do mar. - Bem, disse a velha, isso você tem que resolver e desapareceu atrás da árvore. Ele, finalmente, jogou-se na água e, no meio do oceano, chamou pela esposa. Quando ela apareceu na superfície, ele contou-lhe sobre a proposta da velha. A esposa disse-lhe que não podia fazer isso, porque as sereias haviam roubado a ‘flor’ das fadas há longo tempo. Se a perderem, morrerão e eu também, porque agora sou sereia. Não disse ele, a velha e as fadas vão salvá-la. Ela disse que ia pensar e pediu que ele voltasse no dia seguinte. No dia seguinte, ele voltou e ela falou que para conseguir a ‘flor’, precisava de sua ajuda, ou seja, ele tinha que vender tudo o que possuia e com o dinheiro comprar as mais lindas e preciosas jóias. Depois pendurá-las no seu barco e içar as velas. As sereias não conseguem resistir a jóias e certamente o seguirão. No momento que você levá-las para longe, eu colherei a ‘flor’. Ele voltou à cidade, vendeu o que tinha, comprou lindas e preciosas jóias, pendurou-as em seu barco e foi para o meio do oceano. As jóias atraíram as sereias e elas o seguiram para bem longe. Subitamente, o oceano tremeu e o mar se abriu. As sereias morreram, imediatamente. O oceano tremeu novamente, o marinheiro estava atônito, mas diante dele apareceu a velha da floresta, no dorso de uma grande águia. Atrás dela vinha sua esposa, sã e salva. A velha levou-a para a casa deles e quando ele chegou, abraçaram-se e renovaram os votos de amor para sempre! Veja mais aqui e aqui.

A POISON TREE & PROVÉRBIOS DO INFERNO – No livro William Blake poesia e prosa selecionadas (Nova Alexandria, 2006), do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827), destaco, inicialmente, o poema A poison tree: Estava com raiva de meu amigo. / Falei de minha ira; minha ira morreu. / Estava com rqaiva de meu inimigo. / Não falei disso. Minha ira cresceu. / E umedeci-a em meus medos / noite e dia com minhas lágrimas / e aqueci-a com sorrisos / e astúcias doces e insinceras. / E ela crescia de noite e de dia / até dar à luz luminosa maçã / que meu inimigo, vendo brilhar, / soube que era minha. / E meu jardim invadiu / quando a noite tudo tinha ocultado / e pela manhã feliz constatei / meu inimigo estendido sob a árvore. Também Provérbios do inferno: No tempo de semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta. / Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos. / O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. / A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência. / Aquele que deseja e não age engendra a peste. / O verme perdoa o arado que o corta. / Imerge no rio aquele que a água ama. / O tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê. / Aquele cuja face não fulgura jamais será uma estrela. / A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo. / À laboriosa abelha não sobra tempo para tristezas. / As horas de insensatez, mede-as o relógio; as de sabedoria, porém, não há relógio que as meça. / Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço. / Toma número, peso & medida em ano de míngua. / Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias alas. / Um cadáver não revida agravos. / O ato mais alto é até outro elevar-te. / Se persistisse em sua tolice, o tolo sábio se tornaria. / A tolice é o manto da malandrice. / O manto do orgulho, a vergonha. / Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião. / A vanglória do pavão é a glória de Deus. / O cabritismo do bode é a bondade de Deus. / A fúria do leão é a sabedoria de Deus. / A nudez da mulher é a obra de Deus. / Excesso de pranto ri. Excesso de riso chora. / O rugir de leões, o uivar de lobos, o furor do mar em procela e a espada destruidora são fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o olho humano. / A raposa culpa o ardil, não a si mesma. / Júbilo fecunda. Tristeza engendra. / Vista o homem a pele do leão, a mulher, o velo da ovelha. / O pássaro um ninho, a aranha uma teia, o homem amizade. / O tolo, egoísta e risonho, & o tolo, sisudo e tristonho, serão ambos julgados sábios, para que sejam exemplo. / O que agora se prova outrora foi imaginário. / O rato, o camundongo, a raposa e o coelho espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo e o elefante espreitam os frutos. / A cisterna contém: a fonte transborda. / Uma só idéia impregna a imensidão. / Dize sempre o que pensas e o vil te evitará. / Tudo em que se pode crer é imagem da verdade. / Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha. / A raposa provê a si mesma, mas Deus provê ao leão. / De manhã, pensa, Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme. / Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece. / Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces. / Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução. / Da água estagnada espera veneno. / Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais que suficiente. / Ouve a crítica do tolo! É um direito régio! / Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de água, a barba de terra. / O fraco em coragem é forte em astúcia. / A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão ao cavalo como apanhar sua presa. / Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtém. / Se outros não fossem tolos, seríamos nós. / A alma de doce deleite jamais será maculada. / Quando vês uma Águia, vês uma parcela do Gênio; ergue a cabeça! / Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus ovos, o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas. / Criar uma pequena flor é labor de séculos. / Maldição tensiona: Benção relaxa. / O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova. / Orações não aram! Louvores não colhem! / Júbilos não riem! Tristezas não choram! / A cabeça, Sublime; o coração, Paixão; os genitais, Beleza; mãos e pés, Proporção. / Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível. / O corvo queria tudo negro; tudo branco, a coruja. / Exuberância é Beleza. / Se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto. / O Progresso constrói caminhos retos; mas caminhos tortuosos sem Progresso são caminhos de Gênio. / Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis. / Onde ausente o homem, estéril a natureza. / A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia. / Suficiente! ou Demasiado. / Os Poetas antigos animaram todos os objetos sensíveis com Deuses e Gênios, nomeando-os e adornando-os com os atributos de bosques, rios, montanhas, lagos, cidades, nações e tudo quanto seus amplos e numerosos sentidos permitiam perceber. / E estudaram, em particular, o caráter de cada cidade e país, identificando-os segundo sua deidade mental; / Até que se estabeleceu um sistema, do qual alguns se favoreceram, & escravizaram o vulgo com o intento de concretizar ou abstrair as deidades mentais a partir de seus objetos: assim começou o Sacerdócio; / Pela escolha de formas de culto das narrativas poéticas. / E proclamaram, por fim, que os Deuses haviam ordenado tais coisas. / Desse modo, os homens esqueceram que todas as deidades residem no coração humano. Veja mais aqui, aqui e aqui.

AUTO DA ALMA – A peça teatral Auto da Alma (1518), do poeta e dramaturgo português Gil Vicente (1465-1537), é um auto de cunho religioso contando a história de uma alma que é levada por um anjo quando se defrontam com o Diabo e suas tentações. Da obra destaco o trecho inicial: Está posta uma mesa com uma cadeira. Vem a Madre Santa Igreja com seus quatro doutores: S. Tomás, S. Jerónimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho. E diz Agostinho: AGOSTINHO Necessário foi, amigos, que nesta triste carreira desta vida, pera os mui p'rigosos p'rigos dos imigos, houvesse alguma maneira de guarida. Porque a humana transitória natureza vai cansada em várias calmas; nesta carreira da glória meritória, foi necessário pousada pera as almas. Pousada com mantimentos, mesa posta em clara luz, sempre esperando com dobrados mantimentos dos tormentos que o Filho de Deus, na Cruz, comprou, penando. Sua morte foi avença, dando, por dar-nos paraíso, a sua vida apreçada, sem detença, por sentença, julgada a paga em proviso, e recebida. A Sua mortal empresa foi santa estalajadeira Igreja Madre: consolar à sua despesa, nesta mesa, qualquer alma caminheira, com o Padre e o Anjo Custódio aio. Alma que lhe é encomendada, se enfraquece e lhe vai tomando raio de desmaio, se chegando a esta pousada, se guarece. Vem o Anjo Custódio, com a Alma, e diz: ANJO Alma humana, formada de nenhüa cousa feita, mui preciosa, de corrupção separada, e esmaltada naquela frágoa perfeita, gloriosa! Planta neste vale posta pera dar celestes flores olorosas, e pera serdes tresposta em a alta costa, onde se criam primores mais que rosas! Planta sois e caminheira, que ainda que estais, vos is donde viestes. Vossa pátria verdadeira é ser herdei da glória que conseguis: andai prestes. Alma bem-aventurada, dos anjos tanto querida, não durmais! Um ponto não esteis parada, que a jornada muito em breve é fenecida, se atentais. ALMA Anjo que sois minha guarda, olhai por minha fraqueza terreal! de toda a parte haja resguarda, que não arda a minha preciosa riqueza principal. Cercai-me sempre ò redor porque vou mui temerosa de contenda. Ó precioso defensor meu favor! Vossa espada lumiosa me defenda! Tende sempre mão em mim, porque hei medo de empeçar, e de cair ANJO Pera isso sam e a isso vim; mas enfim, cumpre-vos de me ajudar a resistir Não vos ocupem vaidades, riquezas, nem seus debates. Olhai por vós; que pompas, honras, herdades e vaidades, são embates e combates pera vós. Vosso livre alvedrio, isento, forro, poderoso vos é dado polo divinal poderio e senhorio, que possais fazer glorioso vosso estado. Deu-vos livre entendimento, e vontade libertada e a memória, que tenhais em vosso tento fundamento, que sois por Ele criada pera a glória. E vendo Deus que o metal em que vos pôs a estilar, pera merecer, que era muito fraco e mortal, e, por tal, me manda a vos ajudar e defender. Andemos a estrada nossa; olhai: não torneis atrás, que o imigo à vossa vida gloriosa porá grosa, Não creiais a Satanás, vosso perigo! Continuai ter o cuidado no fim de vossa jornada, e a memória, que o espírito atalaiado do pecado caminha sem temer nada pera a Glória. E nos laços infernais, e nas redes de tristura tenebrosas da carreira, que passais, não caiais: siga vossa fermosura as gloriosas. Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo a ela e diz: [...]. Veja mais aqui e aqui.

8½ WOMEN – O filme 8½ Women (1999), dirigido pelo cineasta e artista multimídia britânico Peter Greenaway, e apresentado durante o Festival de Cannes daquele ano, é uma homenagem direta às mulheres de Federico Fellini. Conta a história de um pai e filho bilionários, donos de cassinos luxuosos no Japão que contratam oito mulheres para servirem de acompanhantes e supostas esposas, num mundo de requintada estranheza, descobrindo como melhor se relacionarem com elas em suas diferentes e bizarras características. Além de ser um ótimo e imperdível filme, merece destaque o grandioso desfile de belas mulheres que desfilam durante a trama, tais como as atrizes Vivian Wu, Annie Shizuka Inoh, Barbara Sarafian, Kirina Mano, Toni Collete, Amanda Plummer, Natacha Amal, Manna Fujiwara, Polly Walker, Elizabeth Berrington, Myriam Muller e Claire Johnston. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Lyrical Poetry, do escultor francês Lambert Sigisbert Adam (1700-1759).
Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Especial de Fagner & mais Lobo de Mesquita, Paul Simon, Edu da Gaita, Luiz Vieira, Margareth Menezes & Cláudio Zoli, Luis de Freitas Branco, Wilson Monteiro, Tatiana Cobett, Rosana Simpson, Wilson Miranda, Wagner e Wander Ponzo, Walter Pepê, Ricardo Machado, Paul Potts & Kanon, Christophe, Carlos Marín, Ashanti, Roupa Nova, Verney Filho & Rubem Alves, Meimei Corrêa & muito mais! Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...