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quinta-feira, dezembro 03, 2020

PATRICK CHAMOISEAU, MORGAN LLYWELYN, TADEUSZ KANTOR, MARYAM EISLER & BRUNA VALENÇA

 

TRÍPTICO DQC: JANELOUTRA - Ao som de Ressonâncias, da compositora e pianista Marisa Rezende, na interpretação da pianista Miriam Ramos. - Postulante à vereança: Vote em mim! Todos os políticos mentem e só falo a verdade. E descascou fulano, estraçalhou a reputação de beltrano, desmascarou sicrano e depôs contra todo alfabeto do panteão dos três poderes da Nação: Sou a salvação da humanidade! E depôs a Bíblia e santinho: Vote em mim, preciso me eleger! Só com um mandato de vereador? Começa assim! E se foi. Ainda bem, alívio. As pretensões são admiráveis. Logo se aproximou a sorridente Heloneida Studart: Mulher também é gente. Vote numa inteligente. O mundo é das Mulheres! Claro, sou ginocrata! - respondi-lhe com um aceno. O delírio de uma campanha contamina, mas não é essa a forma que me interessa, tem de haver outro modo. Compras de voto e de cabresto, meu país se dissolve com os conluios. Por mais quanto tempo, não sei. Ruminava sozinho e o escritor francês Patrick Chamoiseau: Levar a liberdade é o único fardo que mantém as costas retas. Rimos juntos. E contei o sucedido. Passado o pleito eleitoral, ah, aquele intruso e fui conferir: não foi eleito. Cada uma que me aparece! Ninguém merece isso na manhã.

 


QUINTA À TARDE – Ao som do álbum Thursday Afternoon (Virgin Records, 2005), do compositor, músico, artista visual e produtor britânico de música ambiente, Brian Eno. – O mormaço da tarde chegou com uma tremenda barulheira. Vozes para todo lado. Curioso, só depois de muito investigar, era ensaio de um espetáculo teatral. Qual e ouvi alguém discursar: Esforço-me por determinar os motivos e o destino dessa entidade insólita que surgiu de maneira imprevista em meus pensamentos e em minhas ideias. Plantaremos os limites desta fronteira que se chama a condição da morte, porque constitui o ponto de referência mais avançado, e não amenizado por nenhum conformismo sobre a condição do artista e da arte. Só os mortos se fazem perceptíveis (para os vivos) e obtém assim, por esse preço, o mais elevado, sua singularidade, sua silhueta resplandecente, quase como no circo. Era uma performance revolucionária do premiado dramaturgo e pintor polonês Tadeusz Kantor (1915-1990), o mesmo criador do Teatro Clandestino, fundador do Teatro Cricot 2 e autor do The Autonomous Theatre (1963), Theatre Happening: The Theatre of Events (1967), O Teatro Informal (1969), The Zero Theatre (1969) e O Teatro da Morte (1975). Foi aí que me dei conta tratar-se de ensaio para o espetáculo A classe morta. Do outro lado outros falavam da peça Que morram os artistas! Fiquei apreciando, prestava atenção a tudo. Nem vi quando ela se aproximou tal AlysonNoël: Viva o presente, lembre-se do passado e não tema o futuro, pois ele não existe e nunca existirá. Só existe o agora. O perfume de sua beleza me inebriava e ali juntinhos, a minha inquietude ao seu lado sedutor. Dali a pouco: Vamos? Vamos.

 


O POEMA EM PEDAÇOS – Imagem: a arte da fotógrafa, escritora, editora e artista iraniana Maryam Eisler: A arte vence onde a política costuma falhar. Ao som de A time for us (2015), do compositor italiano Nino Rota, na interpretação da saxofonista Hiroko Yamakawa e da pianista Chiaki Oshima, em recital no Tokyo Opera City. - O mundo podia ser outro ao crepúsculo. O momento, pelo menos, era de satisfação: ela linda e nua fazia o anoitecer prazeroso. E lá fora tudo se consumia como uma coisa qualquer degustada apenas pelo vício forjando a necessidade: as três refeições diárias nos horários indicados, só por força do hábito; televisão ligada sem que se identifique sequer o que se passa; a vida no automático e passageiro sem se ligar no trajeto, ligado às asas de pensamentos soltos, tudo fragmento e simulacro. Ela usou de Joseph Conrad: É difícil resistir onde nada importa. Estava escrito que eu deveria ser leal ao pesadelo da minha escolha. Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens. Tudo é muito confuso, a existência refém da insatisfação. Ela cita a escritora irlandesa Morgan Llywelyn: Quando me sinto bem, me sinto melhor do que qualquer pessoa, quando estou com dor, grito a plenos pulmões e, quando estiver morta, estarei mais morta do que qualquer um. E um beijo nos fez viajar galáxia afora perdidos na imensidão do Universo. Esse mundo é muito pouco para nós dois. Até mais ver.

 

A ARTE DE BRUNA VALENÇA

O meu maior hobby é sonhar acordada. O amanhã está meio nebuloso. Como uma água turva, sabe? Às vezes fica um pouco difícil de enxergar a frestinha de luz, mas ela está lá, piscando. Eu acredito, imagino e visualizo o amanhã com esperança e consciência e muito mais presença. Saudade também é quando a gente vê alguém nos sonhos e os encontros são leves e fazem você acordar com um sorriso no rosto e o peito aquecido. Saudade, vô.

A arte da premiada fotógrafa e artista visual Bruna Valença, que já trabalhou com grandes marcas do mercado. Ela foi vencedora do prêmio People's Choice Award, no concurso Exposure Competition pela See.Me Institution, em Nova York. Veja mais aqui e aqui.

 


 


segunda-feira, novembro 06, 2017

FLAUBERT, SOMERSET MAUGHAN, SOPHIA BREYNER, ELZA BARROSO, SONIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO, KENNETH BURKE, AMARAJI & ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE.

E ISSO É TUDO A VIDA TODA NO CAOS – Já vai longe o tempo em que eu me empolgava avexado na buraqueira, enfrentando os meus moinhos e dando azo à perseguição dos desejos. Ah, quanta coisa esdrúxula me era importante, já passou, não mais. Rio. Não era demais toda irrisão diante da minha conspícua investida na surpresa das inclementes quedas patéticas. Nada mais risível, avalie. Eu atraio estranhos afetos e coisas do outro mundo. Além do mais, vejo o imperceptível que é usualmente insignificante para todos: um desplante pra quem sempre foi tratado por disparatado. As surpresas ao final eram nada mais que previsíveis desastres. Batia, persistia, insistia e até perseverava na minha credulidade tola: jamais admitido em nada, estornado pelas costas ou por insultos tácitos. Precisei de muito até ser abatido pela ruína, às vezes me tornando cáustico, impertinente, metido em desregramentos, até obscenidades, esborrando revoltas que evanesciam ao primeiro sinal de chance proutras pelejas. Resignava insatisfeito, pudera. Cabeça a mil, aprendia, recomeçava do zero. Quando aprumava pro êxito, lamúrias alheias me faziam abdicar na horagá. Tanto renunciei que nem júbilos interessam mais, reduzi-me à existência enclausurada, apartada do mundo. Deixei para trás os arroubos, ambições, tudo esfacelado na dispersão do tempo: desapontamentos são lições valiosas. Deixei para trás coisas até hoje sem solução, acho. Pronde vou, sempre o rebanho humano em sentido contrário, uns atrás dos outros, aceno e me são indiferentes, seguem importunos pro cenário da libação das virtudes corrompidas, enquanto lívido e perplexo encaro os desafios dos conflitos de meu tempo. O que importa é que se deram bem, eu recomeço das cinzas, juntando pedaços que sobraram de mim mesmo, quase nada. Refaço silente e insistente, transgrido para padecer de dores por todo corpo, quando não sucumbo de vez entre a sístole e a diástole: não sou a primeira nem a última criatura entre o deleite e o desespero, desejos por satisfazer, sofrimentos por evitar. A despeito de mim mesmo, apesar de ignorado, parece que alguém me lê às escondidas, quase ninguém se atreve a me escrever, ninguém ousa interlocução. Os meus inimigos sempre estiveram dentro da minha casa, entre meus familiares, quando não ao redor e à espreita de qualquer bocejo meu. Nunca me importei com isso. Hoje desapressado – talvez sinal da minha precoce senectude -, ainda assim transgrido de mim mesmo reiterada e recorrente a duvidar do que penso ou de me ver equivocado com frases que possam ser particularmente felizes, ou não. Talvez acerte, quem sabe, aprendi o erro e persigo circunspecto pelos princípios imutáveis que governam as mudanças. E se vou longe, não sei, sirvo-me do horizonte para saber da infinitude que reluz oculta no meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Yanomami for choir & guitar com o Coro Cervantes, Passaglia for Orchestra & Três Cantos de Yemanjá for cello & piano; da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006): Symphony nº 2 & Poem nº 1; do compositor, regente, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): Alegres trópicos, um baile na Mata Atlântica, Piano solo & Saudades do Parque Balneário Hotel com a OSESP; e da pianista Miriam Ramos interpretando o compositor, regente e flautista Octavio Maul & o maestro e compositor Ricardo Tacuchian. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que me parece mais belo, o que eu mais gostaria de fazer, seria um livro acerca de nada, um livro sem nenhum vínculo exterior, mas sustentado pela força interna do estilo [...] um livro que quase não tivesse assunto, ou pelo menos, em que o assunto fosse quase invisível, se tal é possível. As obras mais belas são as de menos matéria [...] Acredito que o futuro da arte esteja em tais canais. [...]. do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CAMBÃO TORTO, AMARAJI - O povoamento de Amaraji teve inicio em 1868. Tomou vulto, pouco a pouco, devida a uma geira que ali se realizava, o que deu lugar à construção de casas comerciais e muitas outras, para residência de moradores vindos de partes mais distantes para dedicar-se ao pequeno comercio e aos misteres agrícolas. O povoamento teve rapico desenvolvimento, e os viandantes e moradores chamavam a nascente povoação pelo de Cambão Torto. Depois de algum tempo, essa denominação foi mudada para São José da Boa Esperança, que teve o predicamento de vila pela Lei munciipal 2137, de 09 de novembro de 1889. Foi desmembrada do município de Escada. A sua instalação ocorreu em 11 de outubro de 1890. Tomou, então, o nome de Amaraji. Foi elevada à categoria de cidade pela Lei estadual 991, de 1 de julho de 1909. Administrativamente, o município é formado pelo distrito-sede e pelo povoado de Demarcação. Atualmente, no dia 01 de julho, Amaraji comemora sua emancipação política. [...]. Extraído da Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986), Veja mais aqui.

A ARTE E O ARTISTA - [...] Toda a gente tem predicados de artista em criança, ainda mais verdade é que toda a gente tem índole de artista na adolescência [...]. De vez que a Arte, com tornar-se um fim em si mesma, se tornava um problema do indivíduo – ou, com tornar-se um problema do individuo, se tornava um fim em si mesma [...] A inteligência talvez seja um funcionamento inadequado dos instintos, ou os primórdios de instintos que ainda não se cristalizaram [...] em relação às estrelas, um homem não tem maior importância que um gafanhoto. [...] Um autor que vive a maior parte de sua vida mentalmente tem de cometer suas transgressões no papel. [...] A blasfêmia é um experimento sério, uma transgressão por via dos pecados alheios. Blasfemar é restabelecer os deuses perdidos renunciando a eles; a blasfêmia é a luta de uma natureza emotiva, um protesto contra o intelecto que tende a torná-lo estéril de êxtases religiosos. A blasfêmia é ímpia, mas não irreligiosa. [...] A verdade, em Arte, não é a descoberta dos fatos, não é um acréscimo ao conhecimento humano, no sentido científico do termo. É, antes, o exercício da propriedade humana, a formulação de símbolos que enrijecem nosso senso de equilíbrio e ritmo. A verdade artística é a exteriorização do gosto. [...]. Trechos extraídos da obra Teoria da forma literária (Cultrix, 1979), do filósofo e teórico da literatura estadunidense Kenneth Burke (1897-1993). Veja mais aqui.

FÉRIAS DE NATAL –[...] Dançar com uma moça inteiramente nua acima da cintura era para Charley uma sensação nova e emocionante. Ao pousar a mão naquele corpo e ao sentir aqueles seios nus colados a seu peito, perdeu o fôlego. A mão que segurava era pequena e macia. Charley, sendo um rapaz bem-educado, de boas maneiras, sentiu necessidade de entabular uma conversa polida. [...]. Trecho extraído da obra Férias de Natal (Globo, 2003), do escritor britânico William Somerset Maughan (1874-1965). Veja mais aquiaqui.

UM DIAUm dia, gastos, voltaremos / A viver livres como os animais / E mesmo tão cansados floriremos / Irmãos vivos do mar e dos pinhais. / O vento levará os mil cansaços / Dos gestos agitados irreais / E há-de voltar aos nosso membros lassos / A leve rapidez dos animais. / Só então poderemos caminhar / Através do mistério que se embala / No verde dos pinhais na voz do mar / E em nós germinará a sua fala.  Poema extraído da Antologia (Portugália, 1968), da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Veja mais aqui.

NEGRINHA, DE SÔNIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO
O olhar perde-se
infinidades de dúvidas
ondas em cirandas
cercando a infância
de sanhas insanas
decepastes as bonecas
em mares de indiferenças
mergulhei fundo, contive
em tuas entranhas, brincos
brincadeiras indescritíveis
arrastada às cozinhas abastadas
percorri impassível entre:
brilhos, bombril, resmungos,
choros da criança que sou
e que não era eu
O sol do meu sorriso
derrama-se em felicidades ingênuas
Irascível - a ira - derrama-se
incandescente em teu coração
Negrinha! Tiziu!Tição!
ressoam ventos adormecidos
em desertos de sal
Tu me atinges
O coração rios em chama
a margem - revolta
Torrentes tempestuosas
arremessam ao infinito
tua tentativa ingênua
de romper castelos, fadas
cirandas, infância.
Poema extraído dos Cadernos Negros (Autores, 1981), da escritora Sonia Fátima da Conceição. Veja mais aqui.

ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE
A coletânia Itinerário Musical do Nordeste (Massangana, 2011), lançado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) reúne 10 cds e um livro com sonoridades de cultos afros-brasileiros, tais como cerimônia de Obori, jurema, orixás, tambor de mina e Casa Nagô, além de bandas de pífanos, ciranda, tambor de crioula, maneiro-pau, coco de embolada, aboio, incelência, reisado, guerreiro, histórias e cantigas. Os CDs reúnem Orixás, Jurema/Obori, Tambor de Mina/Casa de Nagô, Ciranda/Tambor de Crioula, Banda de Pífanos, Repentistas, Reisado/Guerreiro, Maneiro-Pau/Coco de Embolada, Aboio/Incelência e Histórias/Cantigas. A pesquisa foi realizada pelo então sociólogo da Fundaj, Enemerson Muniz, juntamente com os pesquisadores José Jorge de Carvalho, Rita Segato e Cristina Machado, registrando sonoridades apuradas em expedição realizada de Alagoas ao Maranhão, em uma parceria com o Instituto de Etnomusicologia e Folclore de Caracas (Um presente da conterrâneamiga Graça Lins, obrigado).

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa e artista plástica Elza Barroso
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quinta-feira, setembro 28, 2017

STEVENSON, GOELDI, CELSO FURTADO, TENSHIN TANOUYE ROSHI, EDUCAÇÃO AMBIENTAL, J. BORGES, BÓRIS TRINDADE & AMARO MATIAS

QUEM ANDA DE NOITE QUE VÊ MUITA COISA, TAMBÉM CALA A BOCA – Imagem: arte do desenhista, ilustrador, gravador, químico e professor Oswaldo Goeldi (1895-1961). - Um dia lá, não sei quando, apareceu em Alagoinhanduba o afoito sargento Satanás que, mal chegando à delegacia da cidade, mostrou logo ao que veio. No primeiro plantão não deu moleza: recolheu uma ruma de bêbados, desocupados, suspeitos e abestalhados que marcavam bobeira depois das dez badaladas noturnas. E agora tem toque de recolher é? Tem sim, senhor! Agora é a minha lei! Foi o maior escarcéu, a cidade em peso não pregou os olhos, amanhecendo todo mundo de ressaca. Expediente vinte e quatro horas no ar, o último interrogado findou quase meio dia, ao final ele encarou a multidão: - De agora em diante, aqui é direto que nem cantiga de grilo! Quero ver meliante, desocupado ou quem quer que seja que tenha o topete de não respeitar minhas ordens. Agora é pra valer! Podem dizer aos quatro cantos que agora a cidade está sob as ordens do sargento Satanás! E chispem todos daqui que quero descansar um pouco para manter a ronda! Não deu nem meia hora, ele já estava de casa em casa perguntando por crimes dos matagais, do canavial, de vinte anos passados. Oxe! Quem mais se lembra? Comigo não tem prescrição penal, matou, roubou ou cometeu qualquer delito, pode ser de duzentos anos atrás, eu pego e prendo! Esse homem é a gota! Vixe! Ele não dorme, é cada boticão de olho, parece mesmo o tinhoso de tão aceso que é! Mas num é que é mesmo! Será que ele tem partes mesmo com o desnaturado? Sei não, sei que ele está falando pelas casas que visita de crimes de não sei de onde, outros do tempo do ronca, vôte! Dizem que é porque está sabendo que a cidade é calma, mas nos canaviais, nos arredores, nos ermos distantes, todo dia aparece presunto. Tem mais: ele disse que vai descobrir o que é que está acontecendo por aqui. Ué, mas aqui não morre gente nem de morte matada, nem de morte morrida, faz tempos! O coveiro já desapareceu porque não se enterra gente de jeito nenhum há muitos anos. Pois é. Você aí, que é que você sabe sobre aquele corpo que apareceu ontem no canavial? Não sei, não vi, sei de nada não! E você? Oxe, sargento, nem sabia que tinha defunto no canavial, ora! Vocês estão de bico calado, estou só brechando a conduta de vocês, está todo mundo suspeito. Tenho certeza que tem um monte de gente envolvida! Minha cisma não me deixa enganar, vou investigar a fundo e ai de quem estiver implicado! E todo dia ele partia da entrada à saída da cidade, prendendo quem fosse encontrado no meio da rua depois das dez da noite. Gente que largava do turno da usina, enfermeira, vigia, prostituta, gigolô, cafetão, quem saía da sessão de cinema ou largava da escola, duzentas voltas do camburão e gente como a praga no interrogatório até depois do dia amanhecer. Uma semana se passaram e ele não conseguiu avançar um passo nas investigações. Até o dia em que um bêbado linguarudo delatou: sargento, o senhor tem que investigar é nas cidades vizinhas, na rodovia, por aí, não é aqui não. Bastou isso e o cabra teve que se explicar, como estava completamente embrigadíssimo, no primeiro aperto, arriou no ronco. A autoridade não deixou por menos e carregou o camburão, foi pra rodovia inquirir o primeiro que passasse: sei de nada não, estou indo pra casa. Uma hora dessas? Seu polícia, larguei agora. Está sabendo de defunto no canavial? Seu polícia, saber, não sei não, mas sei que quem dá com a língua nos dentes já tem missa de sétimo dia encomendada. Como é? Ah, aqui falou, no outro dia aparece com a boca cheia de formiga! E é? É, sim senhor. Pois você está detido para maiores esclarecimentos! Ei, ei! Sim? E você? Eu o quê? O que é que está fazendo por aqui uma hora dessa, hem? Ah, nem sei o que estou fazendo aqui! Preso! Mas, sargento! Preso sob suspeita! Leva! E saiu vasculhando tudo até topar um estranho que não abriu o bico nem com aperto, nem com cano de revólver no toitiço. Esse é teimoso, encarca mais! Aperta mesmo! Um que ia passando e foi interpelado, explicou: ele é surdo-mudo. Ah, tá. E você? Estou indo pegar ficha no posto de saúde. Oxe, a essa hora? As fichas são distribuídas a partir das três da manhã. Está sabendo dos crimes no canavial? Olhe, seu polícia, saber, eu até soube sim, mas tem um ditado que diz: quem anda de noite e vê muita coisa, também cala a boca. Preso para averiguação! Assim era todo dia, maior trupé! Prendia trocentos de noite, tudo solto lá pelo meio dia. E nada de apuração nenhuma, nenhum inquérito instaurado. E pra valer, os esquifes eram encontrados em terras de outros municípios, não de Alagoinhanduba. Mas ele não arredou pé, de mutuca dia e noite. Até ser surpreendido: quem é? Sargento! Quem é? Ele olhou do lado e não viu ninguém. Quem é? Apareça disgramado! Seja home, mostre a cara, cabra safado! Sargento, aprenda: quem anda de noite que vê muita coisa, também cala a boca. E ninguém nunca mais viu o sargento. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o cantor, compositor e miltiinstrumentista Beto Guedes ao vivo + o álbum Contos da lua vaga + Todo azul do mar com Roupa Nova; a pianista Miriam Ramos interpretando Retrata de Ricardo Tacuchian + Grande Valsa Brilhante & Fantasia de Chopin; o violonista Álvaro Henrique com a Suíte Candanga, Preludes de Villa-Lobos e a Grand Overture de Mauro Giuliani; e a cantora e compositora Cris Braun cantando músicas do seu álbum Cuidado com as pessoas como eu. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAA dor não está piorando; sua capacidade de suportá-la é que está diminuindo. Você precisa aprender a empurrar a rocha para onde ela quer ir. Pensamento do mestre zen Tenshin Tanouye Roshi (1938-2003).

PROJETO BRASIL - [...] a natureza, o alcance e os riscos da chamada política de integração latino-americana poderão ser colocado sob nova luz. O mesmo pode-se dizer com respeito à controvérsia em torno do papel do Estado no desenvolvimento. Como a eliminação do desenvolvimento à base de um projeto nacional não seria compatível com a preservação da identidade cultural, não é demais afirmar que política de desenvolvimento e luta pela preservação da personalidade nacional tenderão a confundir-se em nosso país. Trecho extraído da obra Um projeto para o Brasil (Saga, 1968), do economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). Veja mais aqui.

MEIO AMBIENTE & EDUCAÇÃO - [...] os trabalhos sobre poluição e preservação ambiental surgiram com freqüência cada vez mais crescente. A maioria diz respeito ao desaparecimento de espécies vegetais e animais, à devastação de florestas, à inadequação do uso do solo, ao uso de ecossistemas hídricos com depósitos de resíduos industriais e, sobretudo, à solicitação desregrada de recursos naturais pela indústria. Seus resultados preconizam dois pontos básicos: a preservação da natureza e o combate à poluição. O crescimento populacional e o tipo de desenvolvimento econômico têm sido apontados como causas básicas do desequilíbrio ecológico. [...] partindo do princípio de que a educação pode ser usada como instrumento para reforçar a integração do homem com o ambiente, discute-se e questiona-se seu papel naquela comunidade. [...] é possível cogitar-se de uma prática educativa integrada à realidade e, portanto, a serviço do bem-estar humano. [...] Na prática significa que a educação, vista como instrumento das relações sociais, inculca paradoxalmente um efeito conscientizador, libertador, propiciando condições para um papel reformista. E, pois, neste contexto de relacionamento dialético que se situa o espaço onde a consciência ecológica emerge, postulado a defesa ambiental para sobrevivência do homem e da sociedade. Trechos extraídos do livro Ecologia humana: realidade e pesquisa (Vozes, 1984), da professora, bióloga e pesquisadora Maria José Araújo Lima. Veja mais aqui, aqui e aqui.

DIREITO SEM DIREITOO palácio do governo, seguramente, não era o meu lugar. Ali estava eu, indicado pelo advogado José David Gil Rodrigues, ao então governador Paulo Guerra. Quando cheguei em casa, vários recados me aguardavam, depois de exaustiva caminha por algumas cidades do interior. E o convite estava aceito. Abril de 1964. Abril de 1964: senti que ali não era o meu lugar. Um dia, o poeta Edson Régis, então secretario do governo, me pediu para defender dois presos políticos, um dos quais, Maria Celeste Vidal, militante das Ligas Camponesas, organização onde atuei como advogado, durante muito tempo, chamado que fui por Francisco Julião. Foi a minha primeira causa política. Com ela, o motivo decisivo para que deixasse o Palácio do Campo das Princesas. Também começava ali a ser gerada a ideia de como se desenvolviam os processos juridic0-militares. Conselho composto de oficiais do Exército. Iniciada a audiência, interrogados os réus do processo – como determinava o então Código de Justiça Militar – arguí a incompetência da Justiça Castrense sob alegação de que não se tratava de crime militar, coisas assim. – Portanto, esse Conselho é incompetente. Nem bem terminei, e o seu presente, aborrecido: - Incompetente é V. Excia. O pedido do poeta e o início de tudo, recolhido da obra Alvará de soltura, meu amor (Recife, 1983), do advogado e produtor teatral Bóris Trindade.

O MÉDICO E O MONSTRO – [...] O espelho não me deteve mais que um instante. [...] Faltava verificar se eu perdera minha identidade sem possibilidade de volta, tendo que deixar aquela casa, que já não me pertencia, antes de amanhecer. Voltei correndo para meu escritório e novamente preparei e bebi a poção; mais uma vez, sofri as dores da dissolução e, mais uma vez, voltei a mim com o caráter, a estrutura e o rosto de Henry Jekyll. [...]. Trecho extraído da obra O médico e o monstro (Saraiva, 1960), do escritor britânico Robert Louis Stevenson (1850-1894).

DICIONÁRIO DOS SONHOS
(fragmentos)
Comprava uma rapadura
E um pão no meio da feira
Era lanche no caminho
Para subir a ladeira
Da velha Serra do Sapato
Que dava muita canseira
[...]
No bolso eu já levava
Um folheito do Pavão
Comprado a João de Lima
Por pouco mais de um tostão
Que ao chegar em casa
Era a minha diversão
[...].
Trechos do poema O cordelista por ele mesmo, extraído da obra Dicionário dos sonhos e outras histórias de cordel (L&PM, 2003), do poeta e xilogravurista J. Borges. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Liberdade de expressão aqui.
A entrevista de Beto Guedes aqui e aqui.
A pianista Miriam Ramos aqui.
O violonista Álvaro Henrique aqui.
A arte de Cris Braun aqui e aqui.
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TERRA DOS PALMARES
Pérola do Una
Menina faceira
Ambiente das letras
Tens sempre tu’alma em festas
Desenvolvida
És tão querida
Como terra dos poetas.
Teu Clube Literário
Abrigo de gente de cultura
Silva Jardim, Zé Mariano
E o nosso Joaquim Nabuco
Grandes líderes
Do ditoso torrão
De nosso Pernambuco.
Parte dos Quilombos
Começo de tua história
Que teus filhos te amem
Estudando, pesquisando
E trabalhando vençam,
Escrevendo, vivificando
No apanágio da glória.
Eia, Palmares, em frente!
Poema extraído da obra Das musas de ontem e hoje (Recife, 1985), do poeta, professor e pesquisador Amaro Matias Silva (1922-2002), autor da obra Dos Palmares – extensão, lutas e fatos (Bagaço/Fundação de Hermilo, 1988). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sexta-feira, julho 14, 2017

AL-GHAZZALI, MARLOS NOBRE, DALTON TREVISAN, GALINA USTVOLSKAYA, GILBERTO MENDES, KAZIMIERZ MIKULSKI, MIRIAM RAMOS & LUCIAH LOPEZ

É ELA TODAS AS MUSAS – Imagem: arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. - Ainda que não seja possível a poesia nesse tempo desfigurado de desumanos trajetos de pedras perdidas e que o coração desfaleça sedento à beira do charco que a solidão sitiou das lágrimas empoçadas, mesmo assim, isso eu sei, haverá o amor que emerge em flor no meio dos vendavais, atravessando imensos óbices e temporais pelas enxurradas de desejos indomáveis inflamando noites incendiadas de esperas na demorada ligação das pontas convergentes dos anseios mútuos e paralelos, quase desesperançados. Isso porque se sou a desolação que quedou diante das expectativas e dos sonhos inconclusos, ela se faz poeta qual Melpômene depondo sua grinalda a me entregar a clava do poder, entoando a voz Calíope que sai ao buril da tabuleta a se mostrar incorporada à lírica de amável Erato que me dá a lira pra que o canto seja renovado e todas as canções e poemas sejam meus. E mesmo que eu me veja abandonado ao ermo das posses e sem bússula para seguir em frente, ela chega a se revelar proclamadora Clio, a me expor com seu pergaminho todo passado indisfarlável, todo o presente de promessa e todo futuro de quimera na realização carnal que desde a véspera fez-se crástico pra me presentear agora. E mesmo que eu emudeça diante da esterilidade do silêncio com todas as mordaças e rouquidões, ela avança Euterpe a me embalar com a música de sua flauta ensolarada para que eu tenha o ânimo de recomeçar do zero e a mão no amanhã. E mesmo que eu esteja ao calor das paredes cruas e a vida afora, ela festeja Poliminia em mim todos os seus hinos sacros e profanos para que eu me faça festa na abundância de seus poderes e posses, como se tudo seu passase a ser meu. E mesmo que me precipite solitário entre recaídas sucessivas por sucumbências imprevisíveis, ela é mais que envolvente Terpsícore a rodopiar na dança embalada pelo plectro na lira, a me ensinar novos versos e cantares, até que eu exorcize minha loucura e possa entoar cordas harmônicas. E mesmo que eu tenha perdido a graça de tudo no transbordamento de aguados choros entre fracassos e fraquezas, ela me chega com o perfume das flores no seu sorriso Tália de ser para alegrar meus dias com sua coroa de Hera e bastão entre histrionices e chistes a me fartar de rir como se não mais houvesse ontens nem amanhãs pra mandar ver com despudor. E mesmo que eu tenha errâncias infindas por saldo na perda de toda e qualquer fronteira da lucidez e prumo, ela se revela Urânia a me entregar o céu e as estrelas, a vida no compasso e a posse da Terra, mesmo que sequer saiba o que fazer depois noites mal dormidas e dias nublados. E depois tudo, salvo de todas as quedas e precipícios nas saradas feridas dos talhos abertos, ela se despe de todas elas e das vestes para ser apenas ela a panacéia e o meu amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

O OCASIONALISMO DE AL-GHAZZALI
[...] Lembrem-se de seus contemporâneos que faleceram e tinham a mesma idade que você. Lembrem-se das honras e famas que eles obtiveram, dos altos postos que ocupavam e dos belos corpos que possuíam, e de que hoje todos eles se transformaram em cinzas. Como eles deixaram órãos e viúvas atrás de si, como sua riqueza está sendo desperdiçada depois deles e suas casas transformando-se em ruínas. Nem sinal deles existe hoje e eles estão deitados em buracos escuros debaixo da terra. Reconswtruam suas faces mentalmente e ponderem. Não depoistem esperanças em suas riquezas e não desprezem a vida. Lembrem-se de como eles andavam e de como agora todas as suas junta separaram-se, de que a língua com a qual falavam agilmente foi devorada pelos vermes e de como seus dentes estão corroídos. Eles estavam tolamente se provendo para mais vinte anos, quando nem mesmo um dia de suas vidas lhes restava. Eles nunca esperaram que a morte viesse para eles numa hora tão inesperada... Quando algo no mundo lhe agrada e nasce em você uma vinculação com isto, lembra-se da morte.
Trecho extraído da obra The revival of religions sciences (Sufi Publishing, 1972), do filósofo, teólogo, psicólogo e místico islâmico Al-Ghazzali (1058-1111), propondo a teoria do ocasionalismo

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Tudo em mim, mestiço sou, O povo brasileiro de Darcy Ribeiro, A história da minha vida de Helen Keller, Anarquismo & ensaios de Emma Goldman, a escultura de Luiz Morrone, a fotografia de Pisco Del Gaiso, Os Fofos Encenam & Viviane Madu, a música de Guilhermina Suggia & a pintura de Martin Eder aqui.
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AH, É? DE DALTON TREVISAN
Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo. Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo. Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbiguinho. Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da mão. Mas você pára? Nem ele.
Ministória extraída do livro Ah, é? (Record, 1994), do escritor Dalton Trevisan. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especial do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Yanomami for choir & guitar com o Coro Cervantes, Passaglia for Orchestra & Três Cantos de Yemanjá for cello & piano; da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006): Symphony nº 2 & Poem nº 1; do compositor, regente, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): Alegres trópicos, um baile na Mata Atlântica, Piano solo & Saudades do Parque Balneário Hotel com a OSESP; e da pianista Miriam Ramos interpretando o compositor, regente e flautista Octavio Maul & o maestro e compositor Ricardo Tacuchian. Para conferir é só ligar o som e curtir.

SÉTIMO DIA DE LUCIAH LOPEZ
Havia muitos anos desde que a Sentinela do Tempo - resignada - depositou na palma da minha mão, a Chave que Desdobra a Eternidade e todos as trombetas soaram e a chegada do dia estendeu-se em campo aberto unindo todos os planos celestiais. Uma lágrima escapando dos meus olhos transforma-se em diamante ganhando a credibilidade do Arauto de Todas as Verdades. Ambos, Sentinela e Arauto -, ajoelhados diante do Sol, quando em seu esplendor, corre o céu eclodindo a vida para dentro dos meus olhos -, outrora cegos, entoam cânticos reverenciando a Hora do Choro Que Não é Triste. Um raio do espectro solar faz dissipar um resto de nuvens que já cumpriram sua missão e o Leão de Pedra reluz...
Sétimo dia, poema/imagem da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, designer e desenhista polonês Kazimierz Mikulski (1918-1998).
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...