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segunda-feira, setembro 23, 2024

TANELLA BONI, YAEL VAN DER WOUDEN, SANDRA ROSAS & & DARELADAS – CENTENÁRIO DE DAREL

 

 Imagem: Dareladas – Centenário de Darel.

Ao som da Sonata for Viola & Piano (1919), da compositora e violista britânica Rebecca Clarke (1886-1979), inspirada no poema La nuit de Mai, do poeta francês Alfred Musset (1810-1857), na interpretação da violista japonesa Nobuko Imai e do pianista filipino Albert Tiu, no Yong Siew Toh Conservatory Concert Hall em Cingapura, 2023. Veja mais abaixo.

 

Dareladas... - A chuva lavou meus passos vida afora e o menino se fez esperança acesa para nunca ter que voltar. A imagem do lugar de antes se esvaiu retorcida no apagão das pegadas e o que havia de sereno seguiu firme pelos conflitos do que sou, jogando sementes para reflorir umbrais, como se pudesse reinventar a cidade perdida. Refiz ideias como fotomontagens: a prova não era um teste; um original na tradução dos rabiscos esquecidos pelos traços. A caligrafia de riscos não se apagou por inteiro: um esboço mais que vivo na paisagem das lembranças, que se alastravam com as multidões de anjos-máquinas e os alardes de suas pisadas. Era órfão deserdado na cena repetida dos ferros ferindo a pele, das engrenagens esmagando músculos, de britadeiras respingando o sangue da dor repisada - era como se paz desse as costas à guerra! Tudo se fizera pelos sórdidos becos, como se para lá fosse o não e por ali o sim, quando aqui tudo desconexo pelos ditos e desditos de narradores compulsivos pelas noites de Goeldi. Era como se me perdesse pelas tão fantasiosas linhas de contorno dos desenhos e identificasse o que separa e o que agrega. Era como se as hachuras fossem construídas pelo que foi vivido e o a ser feito. E as ilustrações do gestual nas gravuras reconstruíssem tudo a partir da paleta monocromática. O que havia de melhor era a emersão das silhuetas com os meneios de dança das ancas curvilíneas daquelas que são verdadeiras obras-primas da criação. Foram elas, belas e sintomáticas, que atravessaram comigo todas as labaredas das fogueiras dos dias. E dancei com o fogo porque o que ocorre dentro da gente vai pro lado de fora: inventando a própria verdade no tão denso e fragmentário repertório das memórias compartilhadas. Quando passar, tudo será passado e nada importará porque deixei o inferno para trás e dei meu terno sorriso até pra quem sequer acenasse ou desse por mim. Nunca dei adeus porque sou meteorito errante a repassar sem disfarce. Nunca precisei de esconder a escura face porque a tarde é parda e da noite virá amanhã. Nem parece que voltei, porque cheguei até aqui e não desperdicei o tempo ao vencer os simulacros às pedaladas. Foi a herança do Sol que me fez na crença de que devíamos fazer sempre todos juntos, para que tudo fosse melhor e quando será. Até mais ver.


Goeldi: Um sorriso por favor... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Ruth Stone: Como bandos de pequenos pássaros escuros, partes ocultas do eu choram... Veja mais aqui.

Charlotte Wood: Criar é desafiar o vazio. É generoso, afirma. Fazer é acrescentar ao mundo, não subtrair dele... Veja mais aqui.

Bell Hooks: Saber como ser solitário é central para a arte de amar. Quando podemos ficar sozinhos, podemos ficar com os outros sem usá-los como um meio de fuga... Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

QUE É O AMOR? - O que é o amor? \ Ser comido, mastigado,\ esmagado pela nuca\ pelos desejos do outro.\ O que é o amor?\ Pergunta a pele alisada\ que busca um lar.

A CIDADE QUE CAMINHO - A cidade que caminho se chama Eu. \ Embarco nela com a convicção\ de chegar ao meu destino.\ São os olhos postos na casa não construída,\ a massa na superfície das minhas mãos,\ o número que se repete nos meus sonhos,\ o corpo sobre as pontas dos meus dedos.

Poemas da escritora mexicana Sandra Rosas.

 

O GUARDIÃO – [...] Algo que parece triste tanto quanto parece amor. [...] É o que acontece quando as pessoas morrem. Elas se levam com elas e você nunca descobre nada de novo sobre elas. [...] As lembranças eram pesadas, coisas vazias no fundo de seu ser e só a irritavam: que sua própria porta pudesse ser tirada dela, que uma infância, uma juventude e uma vida vividas através daquela porta pudessem desaparecer em favor de uma única pessoa. [...] Isso a envergonhava, seu próprio reflexo. Ela tinha ideias fortes de beleza que não encontrava em si mesma: quão terno o rosto deveria ser, quão espesso o cabelo. Ela tinha pensamentos fortes sobre o que significava, importar-se demais com a beleza. Querê-la, procurá-la em si mesma. Em outro. Não eram pensamentos agradáveis [...] O que era alegria, afinal. Qual era o valor da felicidade que deixou para trás uma cratera três vezes maior que o tamanho do seu impacto. [...]. Trechos extraídos da obra The Safekeep (Avid Reader - Simon & Schuster, 2024), da escritora e professora israelita Yael van der Wouden.

 

O FUTURO TEM UM ENCONTRO COM O AMANHECERSorria e acumule o tempo que está chegando o vento tem um sentido o redemoinho também sorria para o tesouro. Poema extraído da obra The Future Has an Appointment with the Dawn (University of Nebraska Press, 2018), da filósofa e escritora marfinense Tanella Boni, autora de obras como Tolerância (1997), Escritos e saberes (1998), Internet, tempo e tradição oral (2001), entre outros. Numa entrevista concedida ao Mots Pluriels (fevereiro de 2002), ela explanou acerca da temática Exílio, violência e morte ambiental – como resistir e envolver-se com a sua arte?, observando que: […] nas “democracias” onde vivemos, matamos, torturamos, violamos mulheres que se atrevem a sair às ruas para expressar as suas ideias, massacramos... Tudo isto não é novo em África. Num tal clima, temos tempo para pensar livremente, para fazer investigação, teatro, cinema, arte numa palavra, para escrever? Para fazer sugestões em redações? Para quem escreveremos? vamos fazer arte? Os cérebros estão sujeitos à tirania de um pensamento único, aos discursos marciais dos detentores do poder político, ao controle dos partidos políticos sobre os meios de comunicação; o pensamento livre é praticamente inexistente. O pensamento crítico é uma joia rara. Não há debate de ideias. Existem apenas preconceitos. […] Os cérebros vão embora porque a vida é impossível. Basta visitar as nossas universidades e os nossos laboratórios para se convencer! Um pesquisador não tem como ficar “visível” em casa. Os resultados das pesquisas muitas vezes ficam nas gavetas. Se ele escreve ensaios, o intelectual aqui tem dificuldade de ser publicado e ouvido. E aí os preconceitos da sociedade contra ele são tantos que ele acaba se desgastando antes do tempo. Muitos intelectuais morrem jovens em África, poder-se-ia perguntar porquê. Morremos física ou simbolicamente: acabamos fazendo como todo mundo. “Juntamo-nos” ou “cantamos”, como disse em “Vida de Caranguejo”, em 1990. Existem outras alternativas? Talvez ir para o exílio? [...] Não posso dizer o que me mantém na Costa do Marfim. Afinal, é o meu país. Foi aqui que nasci e continuamos sempre ligados ao nosso país. Posso dizer também que sou um “cidadão do mundo”, viajo muito, sou convidado para inúmeros eventos internacionais, participando frequentemente em grandes debates sobre o futuro da humanidade. [...]. Veja mais aqui.

 

DARELADAS – CENTENÁRIO DE DAREL

[...] Um dia sai para um lanche com colegas de trabalho, e resolvi abandonar o emprego, porque decidira que desejava mesmo era ser artista. [...] No meu entender, o ilustrador não deve procurar competir com o fotógrafo, mas se deixar contaminar pelo texto de tal modo que consiga alcançar aos níveis onde o leitor comum nem sempre consegue chegar [...] Sou rigoroso e exigente comigo mesmo, como ilustrador, pintor, litógrafo; sempre procedo dessa maneira [...] Sou ilustrador, sempre fui, de jornais e revistas, e muitas vezes perdi o emprego por ser um artista que se liga no que há de subjetivo no livro [...] Assim eu sou, como artista e como pessoa. [...].

Trechos da entrevista do gravador, pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins (1924-2017), concedida ao editor José Mario Pereira, em 25 de abril de 2012, e publicada na Veja (9 de dezembro de 2017), coluna do Augusto Nunes. (Imagens: Leitoras de Darel). Veja mais aqui e aqui.

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COMITÊ DE CULTURA EM PERNAMBUCO NA MATA SUL

Nos dias 24 e 25 de setembro o Comitê de Cultura em Pernambuco promoverá Formação em Elaboração de Projetos com Foco na PNAB, em Palmares, detinada aos profissionais da cultura local e dos municípios de Joaquim Nabuco, Água Preta, Xexéu, Catende e Bonito. No dia 24, a partir das 8h, o encontro se dará na Biblioteca Fenelon Barreto, dando andamento ao Programa Nacional dos Comitês de Cultura. No dia 25, também a partir das 8h, acontecerá no Centro Municipal de Formação Douglas Marques. O evento de mobilização é gratuito e aberto ao público.

 

UM OFERECIMENTO:

NNILUP CROCHETERIA

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SANTOS MELO LICITAÇÕES

Veja detalhes aqui.

&

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

&

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

 



domingo, outubro 23, 2022

ADELA CORTINA, SONIA HERNANDÉZ, TRUDI CANAVAN, JANETE LINS & PINTANDO NA PRAÇA

 

Ao som dos álbuns Desconhecido (Independente, 2011), Ó (YB Music/Natura, 2016) e Folhuda (Circus, 2019), da instrumentista, cantora e compositora Juliana Perdigão.

 

TRÍPTICO DQP: - Mãe caeté, malunguinho sou... – Ah, do quilombo onde nasci as cinzas, estou no esconderijo da Cova da Onça saboreando a Jurema Sagrada: Caboclo índio, índio africano /Caboclo índio da Jurema. Êhô! Nenhum festejo e algo me assalta. Coisas que não entendo, voo por desvendar, tal Sonia Hernandéz: Tudo o que não entendo me move, o que é muito. Leio e escrevo para entender as coisas e assimilá-las. É a minha forma de pensar, o resto é deixar-se arrastar. Assim sou, minha mãe. Não sei se ficou sabendo: a cabeça a prêmio e altas recompensas porque fugitivo do que não sei, escapando das manobras de tropas tão imperiais pelas clareiras primaveris. O que sei é que todos os meus estão sendo caçados e fogem da escravidão. E o que somos, todos caetés e bantos que se valem do Malunguinho, companheiro quimbundo, marinheiro congolês, o líder do Catucá. Foi ele que me deu a Acácia Jurema e, com isso, ganhei dos meus ancestrais a sabedoria com a trindade de Mestre, Exu e Caboclo. Ô Malunguinho, onde estás? Malunguinho, vem pra cá. Para quem vejo peço que me diga lá as novidades, quem somos e que fim levou João Batista da Cabanada, cadê João Pataca dos batuques e o séquito das mulheres. Cadê João Bamba e os cento e tantos outros rebelados: nada, como sempre, esclarecido. Só escuto Trudi Canavan repetidas vezes: Há sempre um pouco de verdade em cada boato, o problema é descobrir qual... A sabedoria e o conhecimento estão em toda parte, mas a estupidez também... Tudo como se antes fosse agora e o grotesco respira sua aporofobia fungando no cangote da nossa desgraça, sou ressurreto Zumbi pelos Palmares dagora...

 


Escritos esparsos no meio da diáspora... – Imagem: arte do gravador, desenhista e pintor Lívio Abramo (1903-1992). - Meu coração Goeldi, minha solidão de Debord: a espetacularização & o cansaço. Entre vozes, Adela Cortina me chama atenção: Devido à crise, percebemos que por falta de ética, o dinheiro foi para muitos lugares e trouxe sofrimento, principalmente para os mais vulneráveis... Nenhum país pode sair da crise se o comportamento imoral de seus cidadãos e políticos continuar a proliferar impunemente... Esta a vez da aporofobia, lembrando Ortega y Gasset: O homem é a sua circunstância. Alguém reitera e não sei quem é: como confiar numa pessoa que não gosta do que os outros escolhem ou gostam como se tivessem seus interesses contrariados. Há quem bata o pé: não há alternativa. E por que não? Ao menos era mais um doido observando outro pretendente à normalidade, ou melhor, normose. Se tudo está invertido, talvez o outro lado do inverso, quem sabe, lá tenham razão, enquanto lacerado sei que tudo passa. Quem ainda ousa isso nesse calor? Até depois de mortos há quem deixe conflitos por resolver. Quando não o desfile daqueles que formam a pútrida legião de descarados, com a obra-prima do mau gosto, afora dar importância desmedida ao dinheiro, ué! Ninguém sabe de Lin Yutang: A vida social só pode existir na base de uma certa dose de mentiras refinadas e de que ninguém diga exatamente o que pensa. Quase me permite uma licença poética, Felizberto Hernández: Não creio que deva escrever apenas sobre o que sei, mas que devo escrever também sobre os outros... E lá vou eu com as diversas maneiras de atrair o desastre e o fracasso, não mais que dois dedos de largura por espaço e me descubro mero diletante como se fosse uma constelação de nada.

 


Pintando na praça... - E ontem mais que um sábado inteiro agora, outra vez felizmente uma manhã ensolarada, propícia para récita da Criação de Vinicius. Tela, pincéis, cavaletes a postos, a mãe caeté renascendo na minha solidão. A primeira saudação foi da lindamiga Sil Neves que me trouxe notícias do maridamigo e do filho maestro-Marwin. E a gente Pintava na Praça com a meninada estudantil esfuziante que alvoroçava a praça diante da exposição no anfiteatro. Foi bom rever Emerson do Barro moldando fisionomias, o parceirirmão Zé Ripe solto nas artesanias, enquanto a anfitriã Nalva sorria com a mão na massa da oficina, ao lado do mestre Celso Madeira de Igarapeba. Alexandre Freitas me peitou pra câmara do seu canal virtual, vamolá. Nem deu pra conversar direito com João Paulo às providências & Mary & Sheila mangando dum e doutro do povo passante. Ana Paula veio de Xexéu para me mostrar a casa da sua infância, boas lembranças aquelas da Rua Nova. Amigos dantanho contava lorotas e pisoteios de idos e acontecidos. O esplendor do casal AG – marimbondamigos do coração – ensolarava de afagos meu coração. E mais de uma vez vi Profeta com a satisfação do dever cumprido. Estamos sempre juntos. (Veja fotos e registros do evento aqui). Até mais ver.

 


[...] É suficiente lembrar que ingressamos no terceiro milênio com novas demandas de formação e de conhecimento requeridas pelas mudanças sociais em curso., sem sequer termos assegurado direito à escolarização fundamental de qualidade para a maioria da população, o que exemplifica tanto a permanência como o agravamento dos níveis de desigualdade social historicamente imperantes entre nós. Essas mudanças, elas próprias causadoras dos perversos níveis de desigualdades, ao atingir toda a realidade social, fazem com que os seus reflexos atinjam os processos de produção do conhecimento científico. [...].

 Trechos extraídos da obra A educação como política pública: polêmicas do nosso tempo (Autores Associados, 2001), da professora Janete Maria Lins de Azevedo. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


quinta-feira, setembro 28, 2017

STEVENSON, GOELDI, CELSO FURTADO, TENSHIN TANOUYE ROSHI, EDUCAÇÃO AMBIENTAL, J. BORGES, BÓRIS TRINDADE & AMARO MATIAS

QUEM ANDA DE NOITE QUE VÊ MUITA COISA, TAMBÉM CALA A BOCA – Imagem: arte do desenhista, ilustrador, gravador, químico e professor Oswaldo Goeldi (1895-1961). - Um dia lá, não sei quando, apareceu em Alagoinhanduba o afoito sargento Satanás que, mal chegando à delegacia da cidade, mostrou logo ao que veio. No primeiro plantão não deu moleza: recolheu uma ruma de bêbados, desocupados, suspeitos e abestalhados que marcavam bobeira depois das dez badaladas noturnas. E agora tem toque de recolher é? Tem sim, senhor! Agora é a minha lei! Foi o maior escarcéu, a cidade em peso não pregou os olhos, amanhecendo todo mundo de ressaca. Expediente vinte e quatro horas no ar, o último interrogado findou quase meio dia, ao final ele encarou a multidão: - De agora em diante, aqui é direto que nem cantiga de grilo! Quero ver meliante, desocupado ou quem quer que seja que tenha o topete de não respeitar minhas ordens. Agora é pra valer! Podem dizer aos quatro cantos que agora a cidade está sob as ordens do sargento Satanás! E chispem todos daqui que quero descansar um pouco para manter a ronda! Não deu nem meia hora, ele já estava de casa em casa perguntando por crimes dos matagais, do canavial, de vinte anos passados. Oxe! Quem mais se lembra? Comigo não tem prescrição penal, matou, roubou ou cometeu qualquer delito, pode ser de duzentos anos atrás, eu pego e prendo! Esse homem é a gota! Vixe! Ele não dorme, é cada boticão de olho, parece mesmo o tinhoso de tão aceso que é! Mas num é que é mesmo! Será que ele tem partes mesmo com o desnaturado? Sei não, sei que ele está falando pelas casas que visita de crimes de não sei de onde, outros do tempo do ronca, vôte! Dizem que é porque está sabendo que a cidade é calma, mas nos canaviais, nos arredores, nos ermos distantes, todo dia aparece presunto. Tem mais: ele disse que vai descobrir o que é que está acontecendo por aqui. Ué, mas aqui não morre gente nem de morte matada, nem de morte morrida, faz tempos! O coveiro já desapareceu porque não se enterra gente de jeito nenhum há muitos anos. Pois é. Você aí, que é que você sabe sobre aquele corpo que apareceu ontem no canavial? Não sei, não vi, sei de nada não! E você? Oxe, sargento, nem sabia que tinha defunto no canavial, ora! Vocês estão de bico calado, estou só brechando a conduta de vocês, está todo mundo suspeito. Tenho certeza que tem um monte de gente envolvida! Minha cisma não me deixa enganar, vou investigar a fundo e ai de quem estiver implicado! E todo dia ele partia da entrada à saída da cidade, prendendo quem fosse encontrado no meio da rua depois das dez da noite. Gente que largava do turno da usina, enfermeira, vigia, prostituta, gigolô, cafetão, quem saía da sessão de cinema ou largava da escola, duzentas voltas do camburão e gente como a praga no interrogatório até depois do dia amanhecer. Uma semana se passaram e ele não conseguiu avançar um passo nas investigações. Até o dia em que um bêbado linguarudo delatou: sargento, o senhor tem que investigar é nas cidades vizinhas, na rodovia, por aí, não é aqui não. Bastou isso e o cabra teve que se explicar, como estava completamente embrigadíssimo, no primeiro aperto, arriou no ronco. A autoridade não deixou por menos e carregou o camburão, foi pra rodovia inquirir o primeiro que passasse: sei de nada não, estou indo pra casa. Uma hora dessas? Seu polícia, larguei agora. Está sabendo de defunto no canavial? Seu polícia, saber, não sei não, mas sei que quem dá com a língua nos dentes já tem missa de sétimo dia encomendada. Como é? Ah, aqui falou, no outro dia aparece com a boca cheia de formiga! E é? É, sim senhor. Pois você está detido para maiores esclarecimentos! Ei, ei! Sim? E você? Eu o quê? O que é que está fazendo por aqui uma hora dessa, hem? Ah, nem sei o que estou fazendo aqui! Preso! Mas, sargento! Preso sob suspeita! Leva! E saiu vasculhando tudo até topar um estranho que não abriu o bico nem com aperto, nem com cano de revólver no toitiço. Esse é teimoso, encarca mais! Aperta mesmo! Um que ia passando e foi interpelado, explicou: ele é surdo-mudo. Ah, tá. E você? Estou indo pegar ficha no posto de saúde. Oxe, a essa hora? As fichas são distribuídas a partir das três da manhã. Está sabendo dos crimes no canavial? Olhe, seu polícia, saber, eu até soube sim, mas tem um ditado que diz: quem anda de noite e vê muita coisa, também cala a boca. Preso para averiguação! Assim era todo dia, maior trupé! Prendia trocentos de noite, tudo solto lá pelo meio dia. E nada de apuração nenhuma, nenhum inquérito instaurado. E pra valer, os esquifes eram encontrados em terras de outros municípios, não de Alagoinhanduba. Mas ele não arredou pé, de mutuca dia e noite. Até ser surpreendido: quem é? Sargento! Quem é? Ele olhou do lado e não viu ninguém. Quem é? Apareça disgramado! Seja home, mostre a cara, cabra safado! Sargento, aprenda: quem anda de noite que vê muita coisa, também cala a boca. E ninguém nunca mais viu o sargento. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o cantor, compositor e miltiinstrumentista Beto Guedes ao vivo + o álbum Contos da lua vaga + Todo azul do mar com Roupa Nova; a pianista Miriam Ramos interpretando Retrata de Ricardo Tacuchian + Grande Valsa Brilhante & Fantasia de Chopin; o violonista Álvaro Henrique com a Suíte Candanga, Preludes de Villa-Lobos e a Grand Overture de Mauro Giuliani; e a cantora e compositora Cris Braun cantando músicas do seu álbum Cuidado com as pessoas como eu. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAA dor não está piorando; sua capacidade de suportá-la é que está diminuindo. Você precisa aprender a empurrar a rocha para onde ela quer ir. Pensamento do mestre zen Tenshin Tanouye Roshi (1938-2003).

PROJETO BRASIL - [...] a natureza, o alcance e os riscos da chamada política de integração latino-americana poderão ser colocado sob nova luz. O mesmo pode-se dizer com respeito à controvérsia em torno do papel do Estado no desenvolvimento. Como a eliminação do desenvolvimento à base de um projeto nacional não seria compatível com a preservação da identidade cultural, não é demais afirmar que política de desenvolvimento e luta pela preservação da personalidade nacional tenderão a confundir-se em nosso país. Trecho extraído da obra Um projeto para o Brasil (Saga, 1968), do economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). Veja mais aqui.

MEIO AMBIENTE & EDUCAÇÃO - [...] os trabalhos sobre poluição e preservação ambiental surgiram com freqüência cada vez mais crescente. A maioria diz respeito ao desaparecimento de espécies vegetais e animais, à devastação de florestas, à inadequação do uso do solo, ao uso de ecossistemas hídricos com depósitos de resíduos industriais e, sobretudo, à solicitação desregrada de recursos naturais pela indústria. Seus resultados preconizam dois pontos básicos: a preservação da natureza e o combate à poluição. O crescimento populacional e o tipo de desenvolvimento econômico têm sido apontados como causas básicas do desequilíbrio ecológico. [...] partindo do princípio de que a educação pode ser usada como instrumento para reforçar a integração do homem com o ambiente, discute-se e questiona-se seu papel naquela comunidade. [...] é possível cogitar-se de uma prática educativa integrada à realidade e, portanto, a serviço do bem-estar humano. [...] Na prática significa que a educação, vista como instrumento das relações sociais, inculca paradoxalmente um efeito conscientizador, libertador, propiciando condições para um papel reformista. E, pois, neste contexto de relacionamento dialético que se situa o espaço onde a consciência ecológica emerge, postulado a defesa ambiental para sobrevivência do homem e da sociedade. Trechos extraídos do livro Ecologia humana: realidade e pesquisa (Vozes, 1984), da professora, bióloga e pesquisadora Maria José Araújo Lima. Veja mais aqui, aqui e aqui.

DIREITO SEM DIREITOO palácio do governo, seguramente, não era o meu lugar. Ali estava eu, indicado pelo advogado José David Gil Rodrigues, ao então governador Paulo Guerra. Quando cheguei em casa, vários recados me aguardavam, depois de exaustiva caminha por algumas cidades do interior. E o convite estava aceito. Abril de 1964. Abril de 1964: senti que ali não era o meu lugar. Um dia, o poeta Edson Régis, então secretario do governo, me pediu para defender dois presos políticos, um dos quais, Maria Celeste Vidal, militante das Ligas Camponesas, organização onde atuei como advogado, durante muito tempo, chamado que fui por Francisco Julião. Foi a minha primeira causa política. Com ela, o motivo decisivo para que deixasse o Palácio do Campo das Princesas. Também começava ali a ser gerada a ideia de como se desenvolviam os processos juridic0-militares. Conselho composto de oficiais do Exército. Iniciada a audiência, interrogados os réus do processo – como determinava o então Código de Justiça Militar – arguí a incompetência da Justiça Castrense sob alegação de que não se tratava de crime militar, coisas assim. – Portanto, esse Conselho é incompetente. Nem bem terminei, e o seu presente, aborrecido: - Incompetente é V. Excia. O pedido do poeta e o início de tudo, recolhido da obra Alvará de soltura, meu amor (Recife, 1983), do advogado e produtor teatral Bóris Trindade.

O MÉDICO E O MONSTRO – [...] O espelho não me deteve mais que um instante. [...] Faltava verificar se eu perdera minha identidade sem possibilidade de volta, tendo que deixar aquela casa, que já não me pertencia, antes de amanhecer. Voltei correndo para meu escritório e novamente preparei e bebi a poção; mais uma vez, sofri as dores da dissolução e, mais uma vez, voltei a mim com o caráter, a estrutura e o rosto de Henry Jekyll. [...]. Trecho extraído da obra O médico e o monstro (Saraiva, 1960), do escritor britânico Robert Louis Stevenson (1850-1894).

DICIONÁRIO DOS SONHOS
(fragmentos)
Comprava uma rapadura
E um pão no meio da feira
Era lanche no caminho
Para subir a ladeira
Da velha Serra do Sapato
Que dava muita canseira
[...]
No bolso eu já levava
Um folheito do Pavão
Comprado a João de Lima
Por pouco mais de um tostão
Que ao chegar em casa
Era a minha diversão
[...].
Trechos do poema O cordelista por ele mesmo, extraído da obra Dicionário dos sonhos e outras histórias de cordel (L&PM, 2003), do poeta e xilogravurista J. Borges. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Liberdade de expressão aqui.
A entrevista de Beto Guedes aqui e aqui.
A pianista Miriam Ramos aqui.
O violonista Álvaro Henrique aqui.
A arte de Cris Braun aqui e aqui.
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&
Agenda de Eventos aqui.

TERRA DOS PALMARES
Pérola do Una
Menina faceira
Ambiente das letras
Tens sempre tu’alma em festas
Desenvolvida
És tão querida
Como terra dos poetas.
Teu Clube Literário
Abrigo de gente de cultura
Silva Jardim, Zé Mariano
E o nosso Joaquim Nabuco
Grandes líderes
Do ditoso torrão
De nosso Pernambuco.
Parte dos Quilombos
Começo de tua história
Que teus filhos te amem
Estudando, pesquisando
E trabalhando vençam,
Escrevendo, vivificando
No apanágio da glória.
Eia, Palmares, em frente!
Poema extraído da obra Das musas de ontem e hoje (Recife, 1985), do poeta, professor e pesquisador Amaro Matias Silva (1922-2002), autor da obra Dos Palmares – extensão, lutas e fatos (Bagaço/Fundação de Hermilo, 1988). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...