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domingo, outubro 23, 2022

ADELA CORTINA, SONIA HERNANDÉZ, TRUDI CANAVAN, JANETE LINS & PINTANDO NA PRAÇA

 

Ao som dos álbuns Desconhecido (Independente, 2011), Ó (YB Music/Natura, 2016) e Folhuda (Circus, 2019), da instrumentista, cantora e compositora Juliana Perdigão.

 

TRÍPTICO DQP: - Mãe caeté, malunguinho sou... – Ah, do quilombo onde nasci as cinzas, estou no esconderijo da Cova da Onça saboreando a Jurema Sagrada: Caboclo índio, índio africano /Caboclo índio da Jurema. Êhô! Nenhum festejo e algo me assalta. Coisas que não entendo, voo por desvendar, tal Sonia Hernandéz: Tudo o que não entendo me move, o que é muito. Leio e escrevo para entender as coisas e assimilá-las. É a minha forma de pensar, o resto é deixar-se arrastar. Assim sou, minha mãe. Não sei se ficou sabendo: a cabeça a prêmio e altas recompensas porque fugitivo do que não sei, escapando das manobras de tropas tão imperiais pelas clareiras primaveris. O que sei é que todos os meus estão sendo caçados e fogem da escravidão. E o que somos, todos caetés e bantos que se valem do Malunguinho, companheiro quimbundo, marinheiro congolês, o líder do Catucá. Foi ele que me deu a Acácia Jurema e, com isso, ganhei dos meus ancestrais a sabedoria com a trindade de Mestre, Exu e Caboclo. Ô Malunguinho, onde estás? Malunguinho, vem pra cá. Para quem vejo peço que me diga lá as novidades, quem somos e que fim levou João Batista da Cabanada, cadê João Pataca dos batuques e o séquito das mulheres. Cadê João Bamba e os cento e tantos outros rebelados: nada, como sempre, esclarecido. Só escuto Trudi Canavan repetidas vezes: Há sempre um pouco de verdade em cada boato, o problema é descobrir qual... A sabedoria e o conhecimento estão em toda parte, mas a estupidez também... Tudo como se antes fosse agora e o grotesco respira sua aporofobia fungando no cangote da nossa desgraça, sou ressurreto Zumbi pelos Palmares dagora...

 


Escritos esparsos no meio da diáspora... – Imagem: arte do gravador, desenhista e pintor Lívio Abramo (1903-1992). - Meu coração Goeldi, minha solidão de Debord: a espetacularização & o cansaço. Entre vozes, Adela Cortina me chama atenção: Devido à crise, percebemos que por falta de ética, o dinheiro foi para muitos lugares e trouxe sofrimento, principalmente para os mais vulneráveis... Nenhum país pode sair da crise se o comportamento imoral de seus cidadãos e políticos continuar a proliferar impunemente... Esta a vez da aporofobia, lembrando Ortega y Gasset: O homem é a sua circunstância. Alguém reitera e não sei quem é: como confiar numa pessoa que não gosta do que os outros escolhem ou gostam como se tivessem seus interesses contrariados. Há quem bata o pé: não há alternativa. E por que não? Ao menos era mais um doido observando outro pretendente à normalidade, ou melhor, normose. Se tudo está invertido, talvez o outro lado do inverso, quem sabe, lá tenham razão, enquanto lacerado sei que tudo passa. Quem ainda ousa isso nesse calor? Até depois de mortos há quem deixe conflitos por resolver. Quando não o desfile daqueles que formam a pútrida legião de descarados, com a obra-prima do mau gosto, afora dar importância desmedida ao dinheiro, ué! Ninguém sabe de Lin Yutang: A vida social só pode existir na base de uma certa dose de mentiras refinadas e de que ninguém diga exatamente o que pensa. Quase me permite uma licença poética, Felizberto Hernández: Não creio que deva escrever apenas sobre o que sei, mas que devo escrever também sobre os outros... E lá vou eu com as diversas maneiras de atrair o desastre e o fracasso, não mais que dois dedos de largura por espaço e me descubro mero diletante como se fosse uma constelação de nada.

 


Pintando na praça... - E ontem mais que um sábado inteiro agora, outra vez felizmente uma manhã ensolarada, propícia para récita da Criação de Vinicius. Tela, pincéis, cavaletes a postos, a mãe caeté renascendo na minha solidão. A primeira saudação foi da lindamiga Sil Neves que me trouxe notícias do maridamigo e do filho maestro-Marwin. E a gente Pintava na Praça com a meninada estudantil esfuziante que alvoroçava a praça diante da exposição no anfiteatro. Foi bom rever Emerson do Barro moldando fisionomias, o parceirirmão Zé Ripe solto nas artesanias, enquanto a anfitriã Nalva sorria com a mão na massa da oficina, ao lado do mestre Celso Madeira de Igarapeba. Alexandre Freitas me peitou pra câmara do seu canal virtual, vamolá. Nem deu pra conversar direito com João Paulo às providências & Mary & Sheila mangando dum e doutro do povo passante. Ana Paula veio de Xexéu para me mostrar a casa da sua infância, boas lembranças aquelas da Rua Nova. Amigos dantanho contava lorotas e pisoteios de idos e acontecidos. O esplendor do casal AG – marimbondamigos do coração – ensolarava de afagos meu coração. E mais de uma vez vi Profeta com a satisfação do dever cumprido. Estamos sempre juntos. (Veja fotos e registros do evento aqui). Até mais ver.

 


[...] É suficiente lembrar que ingressamos no terceiro milênio com novas demandas de formação e de conhecimento requeridas pelas mudanças sociais em curso., sem sequer termos assegurado direito à escolarização fundamental de qualidade para a maioria da população, o que exemplifica tanto a permanência como o agravamento dos níveis de desigualdade social historicamente imperantes entre nós. Essas mudanças, elas próprias causadoras dos perversos níveis de desigualdades, ao atingir toda a realidade social, fazem com que os seus reflexos atinjam os processos de produção do conhecimento científico. [...].

 Trechos extraídos da obra A educação como política pública: polêmicas do nosso tempo (Autores Associados, 2001), da professora Janete Maria Lins de Azevedo. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


domingo, novembro 14, 2021

JHUMPA LAHIRI, BALTASAR GRACIÁN, JULIANA VALVERDE & JUAREIZ CORREYA.

 

 

TRÍPTICO DQP – A palavra calada... - Ao som dos álbuns Um cravo bem variado (Vol. 1,1996 – Vol. 2, 2006) e Um pouco de tudo (A Little bit of Everything, 2016) da pianista Regina Schlochauer. - Lá vou eu dia mais dia menos insulado em minhas próprias ideias e arroubos. Sigo como quem perdeu a vírgula e foi expatriado, quando não estranho em meu próprio país. Apesar de esgotado como se não tivesse mais nada a fazer, não preciso agradar, nem quero, diante de mim só desvios por descaminhos e bifurcações, nenhum pouso certo. Escapo e me seguro como posso para não ser levado de roldão, porque não quero me salvar dessa enlouquecida dissimilitude no meio de dogmas, superstições e notícias falsas - quantas insuficiências, privações. Na verdade, quanta gente ofendida, mal-humorada, umbigocentrista com seus acicates... Vira e mexe, o que rende? Não mais que loas irreveláveis. Vale dizer, o que quer que se faça, a crassa ignorância de acólitos vetores ressentidos, abraçados com seus próprios rancores e a repetirem aos borbotões o que nunca leram do vetusto Oráculo manual y arte de prudência (Sextante, 2006), do escritor espanhol Baltasar Gracián y Morales (1601-1658): Não se vive seguindo uma só opinião, um só costume ou um só século... Não há nada tão amável quanto a virtude, nem tão detestável quanto o vício. Só a virtude basta a si mesma. Faz-nos amar os vivos e lembrar os mortos... Um homem atento percebe que é ou será visto. Sabe que as paredes têm ouvidos e que o que é malfeito acaba sendo conhecido... Ah, não! Quantas máscaras pros seus disfarces de homo habilis, rudolfensis, erectus, heidelbergensis, neanderthalensis, ergasters, sapiens, fabers, communicans, o ludens do Huizinga, o videns do Sartori, – até o Homo Deus de Yuval Noah Harari:... estamos à beira de uma revolução importante. Os humanos correm o risco de perder seu valor econômico porque a inteligência está se desvinculando da consciência... - e o retrocedens (Vixe! Nossa! Será mesmo?). Nada por acaso. É como se um guarda-chuva encontrasse de novo uma máquina de costura sobre a mesa de autópsia para copularem desordenada e explicitamente. E, por causa disso, o tempo parasse de não mais. Sou salvo porque, de repente, ela chega e ao presenciar todo meu espanto, recitou-me um trecho d’O haver de Vinicius de Moraes: Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura / Essa intimidade perfeita com o silêncio / Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo / - Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido... Ah, como é prazeroso tê-la ali, revê-la, ouvi-la. Em retribuição, saquei do violão e entoei a canção que fiz para A palavra calada de Vital Corrêa de Araújo: desfibra a palavra quando cala / quando o caule da árvore da fala / que é vento verbo e alicerce / anoitece / quando as seivas todas são sugadas / e o trêmulo das folhas proibido / quando os discursos são lacrados / dentro das praças sitiadas / e o som negado aos ouvidos / e o grito cortado na garganta / e o medo aberto no meio abrupto do dia / desfibra a palavra quando a árvore da fala / e os frutos dos gritos são demolidos / pelos silêncios vivos. Sim, anoitecia. Ao final, ela me premiou um sorriso, sabia: era a minha forma de escapar da loucura.

 


Não era apenas uma... – Imagem: arte da artista visual Juliana Valverde: Sigo meu caminho rumo a regeneração fazendo colagens, recortando colando ressignificando ideias relações inquietações através arte arquitetura educação. - Sim, ela me salvou da loucura extrema, muito embora eu saiba que não detenho nenhuma sanidade mental no meio desse genocídio que virou o meu país, no meio desse tempo escatológico de últimos instantes. Sim, foi nos braços dela de Vênus restaurada de Man Ray, como se fosse Juba na pele da atriz neozelandesa Kerry Fox, a me envolver nas cenas do Intimité (2001) de Patrice Chéreau, por todas as manhãs, tardes e noites: embaraçados e sem tem ter o que dizer se não sabíamos nada um do outro. Nela, nada se equiparava: a vida é música e sequer sei em que direção sopra o vento. Para quem audiófilo ou melômano tanto faz – afinal, como já dissera o ensaísta e critico literário inglês, Walter Pater (1839-1894): Toda arte aspira à condição de música. E ela era música e nela sequer sabia por quantos anos consecutivos. Era ela, nada mais.

 


A semana passou... – Tudo passou e passa. E era Admmauro Gommes no Congresso Nacional de Escritores que a Semed-Palmares promoveu no meio da exposição da Biblioteca Municipal das artes do Pintando na Praça, oportunidade em que revi amigamigos & outras personagens de décadas passadas. No Teatro Cinema Apolo, o Carlos Calheiros me levou para um bate-papo na Associação dos Artesãos Palmarenses e, todos os dias, sem desgrudar das comemorações da antologia dos 70 Setembros, do poetamigo Juareiz Correya e o seu Poema vago olhando a cidade: Minha cidade / ficará gravada / num poema lívido e vago. / Não será preciso citar becos e ruas / inevitáveis em sua anatomia. / Nem correr com a memória / as lembranças, e os minutos de agora. / Minha cidade / não será vista / num poema sentimental. / Conservarei oculto até o seu nome / neste poema / de amor silente / às suas coisas, a ela mesma. E esta cidade sou eu dedilhando a minha canção para o poema dele Ponte sobre águas turvas e a gente às gaitadas cultuando Ascenso e festejando Hermilo com os versos do Americanto amar América e eu me sentisse abraçado com José Terra e João Guarani ainda meninos na sala da minha casa, com a maior torcida por Mariama, cantando juntos como se eu fosse Paulo Diniz no Poema para Léa. E era a Livro7 e os sonhos do Recife, os amigos e as rodadas dos pileques exaltados por becos e ruas, os versos e os desenganos, a teimosia, o abraço fraterno e a urgência de vida... Saudades demais... E a salvação novamente é dela no meio do meu naufrágio, sussurrando nua Jhumpa Lahiri ao meu ouvido: Há momentos em que me assombro com cada quilômetro que viajei, cada refeição que fiz, cada pessoa que conheci, cada quarto em que dormi. Por comum que pareça, há momentos em que tudo fica além da minha imaginação... Esta é a verdade sobre os livros: eles permitem que você viaje sem mover seus pés. Tudo é vivo, transpira e geme... Até mais ver.

 

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CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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terça-feira, julho 10, 2018

VINICIUS, UNAMUNO, JOSÉ RÉGIO, WODEHOUSE, ULLERSTAM, KARIN ZELLE, ORLANDO TEJO & ARANTES GOMES


A TRAÍRA GIGANTE – Imagem: Abstract Fish, da pintora australiana Karin Zeller. - Uma dia lá apareceu nas águas do rio Alagoinhanduba uma pirrototinha Traíra que muito chamou atenção de crianças, jovens, adultos e anciões. Era bem pequenininha, roliçazinha, brincalhona. Tudo fizeram para fisgá-la, pescador de toda parte caprichava na isca e ela só caçoava balançando a cauda, como se os chamasse de banguelos. A danadinha era vistosa, diferente de todas da espécie, muito diferente, por exemplo: sumia na primavera, quando da botada da usina – por causa das caldas da cana derramadas nos rios, matando tudo -, só reaparecendo com a pejada, lá entre os meses de abril ou maio. Da primeira vez que sumiu, não tinha nem uns 15 centímetros, voltou com mais de 40 e mais gordinha e risonha. Por conta disso, a cada dia aumentava a caça pra sua captura, de tudo se livrava. Com o tempo ela passou o tamanho normal das outras, já contava quase metro e brincava de acompanhar batendo as nadadeiras e balançar a jangada com os que iam pro outro lado da cidade. As sumidas dela no tempo da moagem canavieira nem era notada, até ela reaparecer com mais de metro e meio, brincando com Juvitildito, o Ditinho pescador, o único que descia as águas ao lado dela, até montar na sua cacunda e sumir por dias inteiros. Ao dar as caras, todos perguntavam: - Ditinho, cadê ela? Ela, quem? A traíra, meu! Ah, a Tildinha? Esse o nome dela, é? É, Esteldita, a Tildinha, traíra das boas. Rapaz, como é que é, pescasse ou não ela? Não, é minha amiga, gente boa. Oxe, endoidou, homem de Deus? Não, ela é minha amiga mesmo. Com ela fui até o alto mar, vi outros grandes peixes que ela me apresentou, gente fina. Ela já está com quase dois metros e com o inverno prolongado embocando já os meses de setembro e outubro, desse jeito ela passa dos três metros. Ah, ela é diferente das outras, inofensiva. Verdade. Brincando na passagem da jangada, quantas vezes ela não balançou de cair todo mundo dentro d’água, repondo quem podia na embarcação, ou levando quem se atrapalhou pras margens. Menino que caísse das beiradas, ela salvava tudo, ninguém morria afogado por ali que ela não deixava. Ah, mas a coisa tá pegando, o prefeito está denunciando que a culpa é dela de não mais parar de chover, entrou novembro e nada de primavera, pelo jeito nem sei se terá verão. Isso é conversa, se está chovendo é porque endoidaram o planeta, não por culpa de uma traíra encantada. Entrou dezembro e tome água descendo do céu. O discurso do prefeito aumentou contra a traíra, a ponto dele fazer um comício numa plataforma sobre o rio. Ela começou a brincar e derrubou tudo, quase que o prefeito era tragado de morrer ali mesmo, foi salvo por ela. mal-agradecido, ele jurou vingança e convocou pescadores com prêmio milionário para quem capturasse a intrusa. O usineiro, virado da breca, dobrou o prêmio, foi pescador até de um olho só na caçada. Foi preciso 3 batalhões da polícia militar, 4 corpos de bombeiro, mais de dois mil profissionais de mergulho, uns 500 pistoleiros, mil e quinhentos enxeridos e um tanto de boateiros para que aquilo virasse notícia nacional. E virou. Uns dez dias no encalço da Ditinha e lá estava enrolada numas duzentas redes, levada para um tanque especial que foi construído na praça principal. Virou festa. Todo dia a população inteira ao redor brincando com ela que crescia cada vez mais, já passava dos dois metros. O festejo continuava e ela começou a ficar estranha: comeu o braço de Jodilinho, agora maneta; o pé de Otacildito, agora perneta; o bilau do antes rancolho Otadélio, agora o sem sem; e saiu daquele estado de alegria de sempre, tornando-se agressiva. Até então nunca havia atacado ninguém, nem se mostrara tão hostil. Como crescia muito, mostrou-se voraz, briguenta, chegou ao ponto de derrubar as bordas do tanque, sair destruindo a praça aterrorizando todo mundo às carreiras pé na bunda, com as presas dela expostas causando pânico, pernas pra que te quero, e sair rasgando chão e calçamento com tudo, sumindo definitivamente nas águas do rio. Foi-se o que era doce, para sempre. A gente devia de ter feito um cozinhado daquela danada, num era? Era, rapaz, bom que mataria a fome de muita gente daqui. Oxente, se era! Bestamos. Até hoje contam desse episódio, ninguém acredita, nem eu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do poeta, compositor e diplomata Vinicius de Moraes (1913-1980): ao vivo na Itália com Tom, Toquinho & Miucha; Astronauta Berimbau; ao vivo com Tom, Baden Powel, Toquinho & Miucha em París & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Só espero dos que ignoram, mas que não se resignam a ignorar; dos que lutam sem descanso pela verdade e colocam a sua vida mais na luta do que na vitória. [...] Que eles busquem como eu busco; que lutem como eu luto, e entre todos algum cabelo do segredo arrancaremos a Deus; pelo menos, essa luta far-nos-á mais homens, homens de mais espírito. [...] reclamo a minha liberdade, a minha santa liberdade, até a de me contradizer, se for caso disso. Não sei se algo do que fiz ou do que fizer a seguir ficará por anos ou por séculos depois da minha morte; mas sei que se se açoitar o mar sem margens, as ondas à volta movem-se sem cessar, embora tornando-se mais fracas. Agitar é alguma coisa. Se, mercê desta agitação, vier outro a seguir a fazer algo de duradouro, nele persistirá a minha obra. [...]. Trechos extraídos da A minha religião (Covilhã, 2008), do filósofo, escritor e dramaturgo espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936). Veja mais aqui e aqui.

SEXUALIDADE X MORALIDADE - [...] Neste mundo, nós, seres humanos, não podemos suportar nosso destino, a não ser que de vez em quando tenhamos o direito de experimentar verdadeiras sensações de prazer. Mas, em todas as épocas, erguem-se pregadores e moralistas para fazer crer que os homens que é pecado satisfazer suas necessidades. É claro que eles visam, acima de tudo, os prazeres sexuais, embora não o digam claramente em suas prédicas. Com efeito, os ataques desses moralistas raramente se dirigem às necessidades culinárias ou de outra ordem, e os vitorianos mais sectários narravam, sem pudor, suas orgias gastronômicas. As doutrinas mais perigosas são aquelas que pregam o quietismo e ensinam que as necessidades são males dos quais nos devemos livrar. [...] Quase todos os pregadores religiosos do mundo ocidental adaptaram seus sermãos à sua época, e o deus cristão tornou-se o melhor guardião da moral secularizada da sociedade. [...] Os defensores dos princípios sagrados precisam recorrer a uma demagogia cada vez mais complicada para atrair os fieis. Pois o princípio da justiça é o único que faz séria concorrência ao princípio do prazer. Não se conseguiu impediu que a moral do bem-estar penetrasse no domínio da vida sexual. [...] Em geral, os legisladores e os autores de pastorais não são mais jovens, sendo talvez esta a razão pela qual eles são hostis à sexualidade, não representando a opinião geral. [...]. Trechos extraídos da obra As minorias eróticas (Imago/Lidador, 1967), do psiquiatra sueco Lars Ullerstam. Veja mais aqui e aqui.

SORRISO VITORIOSOAdriano Mulliner, o detetive, chegou a ser um ás na sua profissão [...] Que encontrou e se apaixonou por Millicent Shipton Bellinger, a filha caçula do quinto Duque de Brangbolton.[...] O velho par do reino permaneceu radiante, sob sua capa de sabão. Porém, bruscamente, o bom humor desapareceu, com rapidez inquietante. – Mulliner? Disse que se chama Mulliner? – Sim, senhor. – Seria então, por acaso, o tipo que... – Que adora sua filha Millicent, com fervor que desejaria lhe expressar? Sim, Lorde Brangbolton, sou eu. E espero que consentirá nessa união. Enrugamento horroroso deformou a fronte do duque. Seus dedos, que sustinham uma esponja, se crisparam convulsionados. – Ah! Assim crê, hein? Pensa que vou receber, em minha família, um sujo inspetor de pegadas e de cinza de cigarros, hein?... [....] Foi somente na sacristia, quando Adriano contemplou Millicent, que pareceu convencer-se de que todas as contrariedades haviam terminado e de que a formosa jovem lhe pertencia e então sentiu-se alagado pela visão da própria sorte. [...]. Trechos de conto do escritor inglês P. G. Wodehouse (1881-1975).

UNIÃO Tenho, ainda, o teu corpo nos meus braços; / sobre os meus ombros, teu cabelo. / Descansando dos meus e teus cansaços, / tu dormes por nós ambos. Só eu velo. / Nos meus braços teu corpo estremeceu, / desse tremor o meu foi percorrido. / Colados, curva a curva, onde começa o teu? / Onde se acaba o meu? Teu e meu têm sentido? / Teu ligeiro suor penetra a minha pele: / teu suor dos transportes de há momento / que me atrevo a provar como quem lambe mel, / em que refresco as mãos como num leve unguento. / Brandamente, por vezes, te desvio / de mim, para melhor, depois, sentir / que és bem tu que eu agarro, acaricio, / bem tu que eu pude, em mim, fundir. / Ai, anular-te em mim sem te perder! / Aniquilar-me em ti, - mas sendo nós! / Velo, e nem sinto a noite discorrer. / Sonho, e que sonho de que amor feroz? / Se ela viesse agora, Aquela que em seu manto / de silêncio e de sombra, nos transporta, / não seria melhor, meu doce encanto? / Poder eu, ao morrer, ver-te já morta? / Porque amanhã, / se não mesmo esta noite, o nosso inferno / não mais permitirá que qualquer sombra vã / da glória dum momento eterno. Poema extraído da Antologia (Nova Fronteira, 1985), do escritor, dramaturgo, ensaísta e critico português José Régio (1901-1969). Veja mais aqui.

ZÉ LIMEIRA, O POETA DO ABSURDO
A santa filosomia
Descreve os peixes do mar
As sereia do sertão
Mula preta e mangangá
Muié de saia rendada
Moça branca misturada
Carro de boi Jatobá.

Tudo que eu dixé agora,
Vocês note no caderno:
A feme o pato é pata,
O macho de perna é perno.
Seu Heleno me arresponda
Qual é o macho de onda,
Qual é a feme de inverno!

Um dia o Rei Salamão
Dormiu de noite e de dia.
Convidou Napoleão
Pra cantá pilogamia.
Viva a Princesa Isabé,
Que já moro em Supé
No tempo da monarquia.
Extraído do livro Zé Limeira, o poeta do absurdo (A União, 1978), do poeta, ensaísta, jornalista, folclorista e professor Orlando Tejo (1935-2018). Veja mais aqui e aqui.

VI Congresso Internacional de Pedagogia Social & Simpósio de Pós-Graduação & muito mais na Agenda aqui.
&
Dominando a acentuação gráfica de Arantes Gomes aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Vênus on the beach, da pintora australiana Karin Zeller
Veja mais aqui.
&
Sobrevivendo à nossa barbárie, A barbárie humana de Michel Maffesoli, a música de Turíbio Santos, Magda Tagliaferro, Álvaro Henrique & Anna Stella Schic; A condição humana de Flávio Leandro, a arte de Renné Magritte & Evelyn Bencicova aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


sábado, agosto 04, 2012

MONIQUE WITTIG, FRANK HERBERT, MICHAEL MCCLURE, ATHOS BULCÃO, MARILYN, HUNDERTWASSER, VIEIRA, JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES

 

A arte do escultor e pintor Athos Bulcão (1918-2008).

 


PARÊNTESIS LUXURIOSOS - I - (entre eu e eu, um homem e um animal. Um homem que se inicia, ilumina, transcende e comunga imanente com tudo e todas as coisas. Um animal lobo sedento e insaciável, soturno e insone. Quando equilibra o ser, domando e apascentando a fera indômita de si próprio, o eflúvio místico da sabedoria se insinua e eis que, na calmaria dos sentidos, surge do inopinado uma mulher linda e nua, olhos manhosos, rosto belo, boca sedutora, cabelos sedosos ao ombro, seios de fruta deliciosa, braços convidativos, ancas arredondadas, ventre palpitante, coxas e pernas bem delineadas. Esconde-se, então, o homem e se pronuncia o animal indomável que arde perante a imagem carnal mais cobiçada, até alcançar o lado extremo do prazer que ela proporciona. É nisso que assimilo Zaratustra, no momento em que "o homem é uma corda atada entre o animal e o além do homem, uma corda sobre o abismo". E essa rede abissal se forma desde remota infância, menininho miúdo, bolinha risonha, arrodeado e paparicado por mulheres e por todos os lados: tias, primas, sobrinhas, madrinhas, afilhadas, enteadas, vizinhas. Tudo cheirando meu ventre miúdo e acendendo minha incipiente satisfação. Havia até uma delas que cochilava com meu pingulizinho na boca de manhã, ou de tarde, ou de noite. Eu quietinho, nem chorava. Só esperneava com fome ou por falta de uma mulher ao meu lado. Assim fui crescendo, deitando no chão só para ver o segredo embaixo das saias. Minha tia se aperreava quando saía do banheiro enrolada numa toalha que eu me escondia embaixo. Aprontava das muitas. Fechadura de portas de quarto de fêmea, era o meu predileto passatempo. Até meus quatro anos quando conheci a professora peituda e bunduda, dela nascia meu gosto felliniano pelas desproporções, a ponto de colocar um espelhinho no sapato só para flagrar suas intimidades. Quanto mais peituda, mais se acentuava minha paixão infantil. Mesmo, e uma coisa curiosa ocorreu alguns anos atrás quando uma amiga minha, Cleonice, uma daquelas pessoas que a gente tem afinidade parecendo mais que já foi íntima da gente noutra encarnação, e eu gozava de sua estreita amizade.; até o dia em que, anos e anos no meio de tantas e tantas transparências confidenciais trocadas na maior cumplicidade de amigos, entreguei minha fantasia sexual: volumosos seios e carnes excedentes. Ao término do almoço no restaurante, ela saiu muda, acompanhando meu palavreado, eu nem me tocando que algo havia desgostado nela. Não havia como eu perceber que a anatomia que havia descrito, batia de cara com o seu ser. Eu não possuía essa maledicência. Não, Cleo, eu nunca cantei uma mulher. Minha timidez nunca permitiu e nunca, jamais fui possuído por tal ousadia. Sempre usei de outras mais sutis alternativas - abordagens com uma olhada tímida e persistente, provocando esbarrar na pessoa, deixando a coisa fluir com naturalidade, em tempo algum com uma cantada - para conseguir as mulheres que me deram a graça dos meus braços e provando de meu corpo. Cleo não entendera isso, e eu perdera uma linda amizade. Mas eu não vou aqui fazer um relato como a da Thérèse Philosophe, muito menos um diário como o de Kierkegaard porque voo pelo que persuade a não amar apenas uma, mas muitas e que deus fique com o céu, que eu fico com ela, nem uma pregação do hedonismo sofista de que nada é mais importante que o prazer. Não. Devo dizer que sempre ambicionei encontrar o Eldorado, não pela busca da riqueza ou outros louros, mas pela justiça e equidade social.; sempre procurei Canãa nalgum lugar, alhures; sempre invoquei Shangri-lá, a Cidade do Sol de Campanela, a L"an 2440 de Mercier, a Nova Atlântida de Francis Bacon, a Utopia de Thomas Moore, e todos esses lugares inatingíveis, só foram reunidos para mim, no corpo de uma mulher. Esta sim, a minha busca real, onde sou todo em minha pequenez; inteiro com meus pedaços; forte com as minhas fraquezas; adulto com minhas infantilidades; perfeito com todas as minhas imperfeições. Nela eu me completo com a sua compreensão e com a minha descarga animal da tensão biológica como a chuva que cai do espírito do universo para fertilizar a terra. É nela que me realizo, considerando o que mencionara Jung que "o animal humano sempre viceja quando não é premido pela dura necessidade" e aprendendo com ele que "é no coração onde reside todo drama e toda excentricidade". E a quem nascera com o coração capaz de amar a mulher, restaria não só a sede da volubilidade erroneamente detectada, mas a de amá-las todas, fielmente, em sua beleza e em sua razão de ser. Parece que foi Vinícuis de Moraes quem dissera que amava muitas mulheres mas que era fiel a cada uma. É neste sentido que deixo a minha imaginação viajar ao doce enleio do jeito feminino...).... ©Luiz Alberto Machado. Direitos Reservados. Veja mais aqui e aqui,

 


DITOS & DESDITOS - Não há males na Natureza, há apenas males do Homem. O teu direito de janela – o teu dever de árvore. Homens e mulheres criativos, tens o direito de enfeitar a teu gosto, e tão longe quanto teu. Devemos, finalmente, acabar com o fato de as pessoas se mudarem para seus aposentos como galinhas e coelhos em seus galinheiros. A linha reta é ímpia e imoral. Pensamento do artista austríaco Friedensreich Hundertwasser (Friedrich Stowasser – 1928-2000).

 

ALGUÉM FALOU: Estou com fogo entre os dentes e ainda nada além da minha página em branco. É bem possível que uma obra de literatura funcione como uma máquina de guerra em sua época. Pensamento da escritora francesa Monique Wittig (1935-2003), autora das obras L'opoponax (1964) e Les Guérillères (1969), entre outras.

 

OUTRA QUE FALOU... - A vida é o que acontece conosco enquanto estamos ocupados fazendo planos... Pensamento da atriz estadunidense Marilyn Monroe (Norma Jeane Mortenson – 1926-1962). Veja mais aqui,

 

A POESIA – [...] Em todos os tempos, a poesia será sempre um lance de dados, um jogo de azar entre paixão e razão. por isso, a linha em que elas se inserem será permanente mesmo diante de eventual desfavor crítico, para além das alternativas, que definem, hoje como ontem, o sentido dinâmico da criação. [...]. Trecho extraído da obra A tempestade engarrafada – ensaios (EGBA, 1995), do escritor, jornalista e professor João Carlos Teixeira GomesVeja mais aqui e aqui.

 

ENGENHO – [...] Que coisa já na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno, que qualquer desses vossos engenhos? Por isso foi tão bem recebida aquela bela e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno [...] as caldeiras ou lagos ferventes vomitando espumas, exalando nuvens de vapores, o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momentos de trégua, nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina, não poderá duvidar que é uma semelhança do inferno [...]. Trecho do Sermão XIV extraído de Os Sermões do Padre Antônio Vieira (1608-1697). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

DUNE – [...] Em tempos, os homens entregavam o pensamento às máquinas, na esperança de que isso os libertasse. Mas só permitiu que outros homens com máquinas os escravizassem [...] O mistério da vida não é um problema para resolver, mas uma realidade para experimentar. [...] Nas profundezas do inconsciente humano há uma necessidade generalizada de um universo lógico que faça sentido. Mas o universo real está sempre um passo além da lógica. [...]. Trechos extraídos da obra Dune (Ace, 1990), do escritor e jornalista estadunidense Frank Herbert (1920-1986).

 

PEIOTEI - Livre – sentidos claros – sentado na cadeira preta – De balanço – / paredes brancas refletindo a cor de nuvens / movendo sobre o sol. Intimidades! Os quartos / sem importância — mas como divisões de todo espaço / de toda hediondez e graça. Eu ouço / a música de mim e a anoto / sem esperar leitor. Eu passo fantasias como / Me são cantadas em Vozes-de-Circe. Eu vago / entre os povos de mim mesmo e sei de tudo / Que preciso saber. / EU SEI DE TUDO! EU PASSO PARA O QUARTO / uma cama dourada se põe a radiar a luz inteira / o ar enche de linhas e borrões de prata. / Eu rio pra mim mesmo. Sei de tudo / que há para saber. Eu vejo tudo que há / para sentir. Fiz as pazes com a dor / na minha barriga. A resposta / pro amor é minha voz. O tempo não existe! / Nem resposta nenhuma. Ao sentimento, meu sentir é a resposta. / À alegria, resposta é alegria sem sentir. / O quarto é um querubim de muitas cores / feito de ar e reluzentes tons. A dor no meu estômago / é quente e terna. Estou sorrindo. A dor / em mil pontadas, sem angústia. / A luz altera o quarto de amarelo a roxo! / O espaço amarronzado atrás da porta é o ouro / íntimo, silencioso e calmo. Terra natal / de Brahms. Sei tudo / que é preciso que eu saiba. Não há pressa. / Eu leio os sensos dos muros riscados, tetos pensos. / Estou à parte. Os olhos fecho em divindade e dor. / Solenemente eu pisco à insolente alegria. / Sorrio pra mim mesmo em movimentos. Andando / apresso o passo com cuidado. Preencho / o espaço com meu ser. Eu sei o segredo e os distintos / traços da fumaça que vem de minha boca. / Eu sou, sem atenção, parte de tudo. À parte / estou do que é triste e belo. Eu sei de tudo. / (VASTIDÃO / E dura intensidade — dentro de mim. Não mais / uma nuvem / mas carnal feito pedra. Como Herácles / de primevos vigor e substância. / Não temendo sequer o fim do encanto / mas aceitando. / As coisas belas não são pra nós, / mas miro. Estando entre elas. /E a coisa indígena. É à vera! / Aqui no apê é mais tribal minha mente.) / ESTÔMAGO!!! / O tempo não existe. Eis que visita um cara / que é deus das raposas / traz sujeira nas unhas de sua pata / recente do covil. / Sorrimos um ao outro em reconhecimento. / Estou livre do tempo. Aceito sem triunfo /— um fato. / Se fecho os olhos há clarões de luz. / Meus olhos já não focam, saltam. Eu vejo que tenho três pés. / Eu vi de uma só vez sete lugares! / Inclina o assoalho – o quarto oblíqua / coisas derretem / dentro de outras coisas. Clarões / de luz / e fusões. Eu espero / olhando a coisa física passar. / Estou numa mesa de tempo e espaço. /! ES-TÔMA-GO! / Escrevendo a música da vida / em versos. / Ouvindo os bons sons da guitarra / em cores. / Sentindo a carne a me tocar. / Enxergo o caos liberto das palavras / na página. / (suprema graça) / (O doce Yeats de esferais haxixes.) /Minha barriga e eu somos dois caras / unidos pela / vida. / ESTE É O PODEROSO CONHECIMENTO / sorrimos com ele. / Da janela eu olho pra melancolia azul-cinzenta / da lugubridade. / Tô aquecido. No dragão do espaço. / Eu fito as nuvens vendo /  suas convoluções brumosas. / Os turbilhões do vapor / Pequenarei as nuvens 'té que sumam. / Elas se tornam peixe e comem uma à outra. / E mudam como espíritos de Dante / a se tornar no céu mais alto imóvel garça / pra me desafiar. Poema do escritor, dramaturgo e compositor estadunidense Michael McClure (1932-2020). Veja mais aqui.



EITA, PORRA!
– Mandando ver na campanha, o Doro estava cheio das nove horas, castigando nos imbróglios num comício relâmpago, quando um macobeba insolente gritou lá no meio da mundiça:


- Aprume a cunversa, ocê, seu fidapeste, pruquê votá num corno dum canidato probe, é o mermo que pidi esmola pra dois.

Nessa hora, a cônjuge do amolestado candidato, Marcialita, estava toda ancha alisando sua mão de pilão e resmungando:

- Toma, cachorro, todo castigo pra corno é pouco!


E BOTE FÉ NA VERA!!! – A Vera Indignada estava injuriada com uma boataria mais sem graça que estava rolando adoidado pelas línguas maldizentes. É que a mesma, no apagar das luzes, resolveu depois duma manguaçada boa de esborrar o pote, se candidatar a vereadora. Não contava ela com a desfeita dum juiz eleitoral rejeitando a proposta. Não deu outra, ela deu uma de Andressa Mendonça, invadiu o gabinete do magistrado, sapecou sedução fatal e se enrolou numa foda ruidosa que virou escândalo pelos quatro cantos do mundo. Não deu outra, ela de nariz empinado arrotou soberba:

- Também, pudera, o pinto dele é menor e mais fino que dum japonês. Destá, eu sou eu e nenhum fidaputa deita desaforo na minha cara. Tenho dito!

E nem aí, mostrou os peitos...


COMO É QUE É? FODEU!!! – Quando o sol nasce todo dia, o cara já acorda atolado na merda do Fecamepa. O brabo é comer a merda dos outros no montura da sua própria bosta.


CARTESIANISMO DO FECAMEPA – Cago, logo, existo! Ué, também contribuo fabricando coprólitos pra merdaria toda, ora.


POIS É, TUD´IN RIBA?! – Se tem um cara chato da porra pior que dor de dente em noite de insônia, é um tal do fidapeste chato de galocha dum evangélico metido a Eric Cartman, explicando tintim por tintim, porque ele está coberto de razão.  Sai-te, sectário duma figa! No boga: é tchá, é tché, é tchu, e vá tomar no cu!





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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...