sexta-feira, janeiro 17, 2014

EMILY CARR, GEORGE CARLIN, BARTHES, PRISCA AGUSTONI, GIANETTI, LAEL KEEN & DELURITO

 


DELURITO DESALMADO OU STENDHAL SE REPETE... – Delurito nasceu como seu nome: estranhamente. A mãe o pariu no dia que o pai foi emboscado e morto. Entre padrastos ocasionais e outros invasores noturnos ganhou uma penca de irmãos. Cresceu para liderar todos, inclusive os primos da vizinhança e vingar a morte paterna. Contudo, por conta de uma simpatia oculta por uma das primas, era então dominado por eles: o saco de pancada. Apelidos e mangações infernizavam sua vida. Rosnava, apenas, nem ousava morder. Fulminava, deixava quieto e se acovardava. Só caiu em si quando levou um fora da primamada ao falar namoro. Terrivelmente abalado e prestes ao alistamento militar, gemeu inconsolável. Tombou morto de ciúmes – ela preferiu outro. Foi à forra: ingressou no exército e nunca mais deu as caras. Aí transformou-se. Que raio de nome é esse? Seguiu firme engolindo humilhações nem advogou retificação de nome – isso em homenagem ao pai assassinado. Um dia vingaria, destá. E começou quebrando o dente de um cabo, inaugurou a cadeia. Começava aí sua fama desalmada. Ao longo dos anos ganhou uma mudez implacável afora a reputação de invencível. Um olhar profundo de arrepiar à covardia qualquer rival, tremiam todos na base. Tomou forma, músculos expostos e uma crueldade sem precedentes, só aplacada pelos superiores graúdos: Ainda chegarei a general. Bufava. Esbofeteou civil e patentes, passou mais tempo preso, obrigado a mudar de conduta. Enganou todo mundo, silente, aplicado. Chegou à patente de capitão quando resolveu dar o ar da sua graça aos parentes. Quantos anos, quase duas décadas. Quase tudo. Não previu que ao bater de cara com a paixão recolhida entraria em erupção. As vistas no namorado dela: salafrário comunista. Pegou-lo pelo gogó e esmurrou de deixá-lo bambo, quase sem vida. O pai da moça interveio e não deu outra: pediu de chofre a mão da filha em casamento. Ou casava ou morria, escolham! Se não for minha, não será de mais ninguém. Armou a cilada. O coitado paterno desamparado tremeu na base e titubeou com o safanão levado de deixá-lo estendido ao chão, desacordado. Na hora acuou a moça: Ou dá ou desce ao cadafalso! Bufou e todo mundo só no ó! Ora, o tempo passou, ele já coronel e ela reprimida de anos: o medo pelas costelas, dele mortes tantas nos costados. Às vésperas de se tornar general, foi dar as boas novas pra ela: o flagra! Não era o que pensou, mas não aliviou vingado. Descarregou sua fúria e munição da arma de deixar o suposto amante peneirado com sangue saindo pelo ladrão. Não ouviu qualquer explicação dela, arrancou o pênis da vítima e partiu pra cima dela, agarrando-a pelo pescoço, castigando-a de tiquinho só pra vê-la gemer e gritar de dor: arrancou um dedo, depois dois, um por um, todos, isso bem devagarinho, queria deixá-la em carne viva. Ela gritava tentando se explicar e nada. Tome, safada! Arrancou as vestes e com um golpe de quase decapitá-la torou o bico e amputou um seio, depois o outro. Quebrou-lhe os dentes aos murros, sob ordem de cuspi-los fora; rasgou-lhe a boca – Vou virá-la pelo avesso, desgraçada! Fraturou as clavículas dela com um caratê mortal, deixou-la maneta; partiu um braço em bandas, depois o outro; desentranhou na marra uma e todas as unhas, torando em seguida cada um dos dedos dos pés e das mãos; destruiu-lhe os tornozelos, fraturou-lhe as pernas aos chutes; sacou os joelhos fora; partiu as coxas ao meio; esfaqueou a vagina fora, furou-lhe os olhos, um a um; quebrou-lhe o nariz, de puxá-lo até jogar fora; desfigurada completamente e ao tê-la bamba aos farrapos, arrancou-lhe o coração e sacudiu longe. Puxou-lhe a pele e a esquartejou. Depois saiu arrastando aos urros insanos os restos mortais dela pela rua afora. O povo escondido por trás das janelas: Bem empregado. Nunca mais se soube dele, dizem: morreu espumando a fúria de sua ruindade! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Nosso mundo contemporâneo apresenta atitudes que estão arreigadas em traumas históricos, recalcados, transformados em comportamentos de violência, guerras, destruição de semelhantes. Essas atitudes repetem-se revelando feridas sociais ocultas. Se não lidarmos com os efeitos dessas dicotomias dominação-submissão, abundância-pobreza, cuidando dos traumas subjacentes por elas gerados, não se poderá encontrar uma forma de convívio social saudável. O nosso mundo atual, onde a violência, a guerra e o desrespeito á natureza fazem parte de um ciclo vicioso que revela a desconexão do ser humano com sua natureza amorosa e com a qualidade autorreguladora da própria natureza. Pensamento da professora e arteterapeuta antroposófica Lael Keen.

 

ALGUÉM FALOU - O humor desarma os poderosos e capacita os oprimidos, tornando a verdade inegável e impossível de ignorar... Pensamento do humorista, comediante, ator e escritor estadunidense George Carlin (1937-2008), que no monólogo Seven Dirty Words (Class Clown, 1972) pelo qual foi preso expressa: Merda, porra, foda, buceta, filho da puta, cuzão e cacete. Essas são as sete palavras pesadas. Essas são as que vão infectar sua alma, curvar sua coluna e impedir que o país ganhe a guerra. Em outro monólogo ele ironiza as pessoas que visitam Las Vegas: Pessoas que vão para Las Vegas, é preciso questionar a porra do intelecto delas para começar. Viajar centenas ou milhares de quilômetros para essencialmente dar seu dinheiro a uma grande empresa é meio idiota. Isso é o que eu sempre recebo aqui, esse tipo de gente com uma porra de um intelecto muito limitado. Durante o show Life is Worth Losing, ele expressou: Eu vejo as coisas desta forma... Durante séculos, o homem tem feito tudo o que pode para destruir, contaminar e interferir na natureza: desmatando florestas, minando montanhas, envenenando a atmosfera, pescando excessivamente nos oceanos, poluindo os rios e lagos, destruindo pântanos e aquíferos... então, quando a natureza contra-ataca e dá um tapa na cabeça dele e lhe dá um chute nas bolas, eu gosto disso. Não tenho absolutamente nenhuma simpatia pelos seres humanos. Nenhum. E não importa que tipo de problema os humanos enfrentem, seja ele natural ou provocado pelo homem, espero sempre que piore.Por fim, em sua apresentação You Are All Diseased, ele disse ao público: Eu sempre estive disposto a me colocar em grande perigo pelo bem do entretenimento. E eu sempre estive disposto a colocar vocês em grande perigo pelo mesmo motivo! Arrisquem-se! Ponham um pouco de diversão em suas vidas! A maioria dos estadunidenses são moles e medrosos e sem imaginação, e eles não percebem que existe uma coisa chamada diversão perigosa, e eles certamente não reconhecem um bom espetáculo quando veem um.

 

PREPARAÇÃO DO ROMANCE - [...] As atrações da subjetividade são melhores que as imposturas da objetividade.[...] o campo da Vita Nuova só pode ser a escrita: descoberta de uma nova prática de escritura [...] Por quê? Nesse nível, toda explicação de decisão é incerta, pois não se conhece a parte do inconsciente – ou: a verdadeira natureza do desejo empenhado. Direi, em plena consciência: porque há um sentimento de perigo [...] Poesia = prática da sutileza num mundo bárbaro. Daí a necessidade de lutar hoje pela Poesia. [...] Agora, enquanto o destino se aproxima e as horas respiram de leve, as areias do tempo se transformam em grãos de ouro. [...] Paradoxo que articula este curso, Proust e o haicai se cruzam: a forma mais breve e a forma mais longa. [...] O autor de haicais, o Homem do haicai: um budista imperfeito, relaxado, talvez astuto: um mestiço de Tao. Penso nesse apólogo: Bodhidharma (o introdutor mais ou menos mítico do Zen na China, por volta de 520) ele teria se retirado num mosteiro e aí teria passado nove anos numa cela, ‘olhando a parede’ (em Chinês, Pikuan): excluir do pensamento todo o desejo de agarrar [...] O Haicai não é uma ingenuidade, é antes uma terceira volta de parafuso dada à linguagem (linguagem sobre o fato). Eu me explico: uma parábola Zen diz, num primeiro tempo: as montanhas são montanhas; segundo momento (digamos de iniciação): as montanhas não são mais montanhas; terceiro momento: as montanhas voltam a ser montanhas É uma volta em espiral → Poderíamos dizer: primeiro momento: o da Tolice (ela existe em todos nós), momento da tautologia arrogante, do antiintelectualismo, um vintém é um vintém etc; segundo momento: o da interpretação; terceiro momento: o da naturalidade. [...] Enorme condicionamento do Ocidente a dar, a todo fato contado, o álibi de uma interpretação: civilização de padres; nos interpretamos, não suportamos as formas curtas de linguagem. O haicai é impossível para nós. [...] Coloco-me realmente na posição de quem faz alguma coisa, e não mais de quem fala sobre alguma coisa: não estudo um produto, endosso uma produção; elimino o discurso sobre o discurso; o mundo já não vem a mim sob a forma de um objeto, mas sob a de uma escritura, quer dizer, de uma prática: passo para outro tipo de saber (o do Amador) e é nisso que sou metódico. [...]. Trechos extraídos da obra The Preparation of the Novel: Lecture Courses and Seminars at the Collège de France, 1978-1979 and 1979-1980 (Martins Fontes, 2005), do escritor, sociólogo, filósofo, semiólogo e crítico literário francês, Roland Barthes (1915-1980). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

KLEE WYCK – […] Os índios não impedem o progresso dos seus mortos através do embalsamamento ou do caixão apertado. Quando o espírito se vai, eles devolvem o corpo à terra. a terra acolhe o corpo - extrai dele nova vida e beleza, apressa-se com aquilo que faz os homens estremecerem. A adorável erva tenra irrompe das sepulturas, rapidamente, exultando com a corrupção. [...] No fundo, todos nós abraçamos alguma coisa. A grande floresta abraça o seu silêncio. O mar e o ar abraçam os gritos derramados das aves marinhas. A floresta abraça apenas o silêncio; seus pássaros e até mesmo seus animais são mudos. Deve ter doído terrivelmente aos índios ver as coisas em que sempre acreditaram serem pisoteadas e arrancadas de seus abraços. [...] O velho serrou como se eras de tempo estivessem diante dele, e como se todos os anos atrás dele tivessem sido vagarosos e todos os anos à sua frente fossem igualmente ociosos. A vida havia adoçado o velho. Ele estava delicioso com o tempo, como as frutas vermelhas da temporada dos morangos.[...] Trechos extraídos da obra Klee Wyck (Douglas & McIntyre, 2004), da escritora e pintura canadense Emily Carr (1871-1945).

 

TRÊS POEMAS - I - Uso uma língua \ de respiração incerta, \ pois não percorre\ nem a medula\ nem a torção\ do verbo: já não sabe amputar os rostos \ ainda vivos nos retratos\ e deserta em mim a voz. II - Eles não sabem que são anjos \ os anjos que vivem conosco no campo: \ acostumado a vasculhar o lixo \ Eles conhecem a fome do estômago, \ cãibras musculares. \ Eles agitam suas línguas \ como fruta caída podre no chão, \ na torre daquela babel horizontal aqui, \ onde o latim eslavo lança suas sementes \ pessoas que amadurecem tardiamente \ no fígado do dia nós destilamos nosso álcool. III - Somos uma espécie que migra,\ sem rastros nem restos na memória\ das gentes. Sombras, apenas,\ palavras em mutação, segredos\ esses três pregos na fíbula do esqueleto.\ Um dia a tempestade chega e nos pega\ na encosta, onde largamos as flechas.\ Animais dormem dentro do tempo,\ enquanto mães cultivam hortas e facas.\ Logo surgem a chuva e o medo. E voltamos\ à marcha, afastamos as nuvens,\ apenas um cão nos segue, silente\ paciente, rumo ao norte. Poemas da poeta, tradutora e professora suíça Prisca Agustoni.

 

A ILUSÃO DA ALMA DE GIANNETTI  -
[...] Deitado no escuro, dorso nivelado à cama, resignado a passar a noite em claro se preciso, um cortejo de vislumbres e premonições veio sacudir a minha insônia. É ridículo, pensei. Cá estou no meu quarto, eu, um professor de letras precocemente aposentado, meio surdo e alcoolizado, um solteirão de meia-idade; cá estou eu, um esquisitão sobre quem ninguém nada sabe, o cumulo da insignificância, aterrado por uma insônia banal e, não obstante, esse ser ínfimo e obscuro, deitado no quinto andar de um edifício, dispara a ter ideias como se o mundo girasse em torno dele naquele instante: É possível que não tenhamos alcançado ainda menor compreensão do que nos faz ser quem somos e agir como agimos? É possível que estejamos radicalmente equivocados sobre nós mesmos, perdidos na mais espessa floresta de mitos e enganos, e que nossos descendentes das gerações futuras venham um dia a nos encarar com a mesma mistura de complacência e perplexidade com que encaramos os nossos ancestrais animistas, com seus rituais, sacrifícios e despachos? Sim, é possível. É possível termos acreditado falsamente durante milênios que a vontade consciente rege os nossos músculos quando, na verdade, ela é o subproduto inócuo de uma cadeia de eventos eletroquímicos no cérebro, como a fosforescência no rasto de um fósforo aceso no escuro ou a espuma de uma onda neural? E que, portanto, fazer de um propósito ou de uma intenção consciente a causa de uma ação humana é tão desprovido de fundamento como falar do propósito de um espermatozoide ao fecundar um óvulo ou da cigarra ao entoar sua cantoria ou do Sol irradiar calor? Sim, é possível. É possível que toda a reflexão e pregação da ética estejam colocadas no equivoco de que possuímos liberdade de escolha e de que existem coisas em nossas vidas que poderiam ser diferentes do que são; e que, não existindo vicio ou virtude, não há nada que mereça ser aplaudido ou condenado em sentido moral? É possível que Epiteto, o escravo e filosofo estoico do século I d.C.,  estivesse certo ao concluir, ainda que por caminho diverso, que “quem acusa os outros pelos seus próprios infortúnios revela uma total falta de educação; quem acusa a si mesmo mostra que a sua educação já começou; mas quem não acusa nem a si mesmo nem aos outros revela que a sua educação está completa? Sim, é possível. É possível que toda forma de feroz intransigência e todas as guerras religiosas e ideológicas e todos os conflitos sangrentos por terras, minérios, primazias sejam fruto de um pavoroso mal-entendido da consciência humana sobre si mesma? E que os autoproclamados “ateus militantes”, quando se propõem a tratar “a existência de Deus como uma hipótese cientifica como qualquer outra”, revelam uma falta de tino e uma superficialidade diante das necessidades espirituais do homem que é ainda mais espantosa do que a fé ingênua da maioria dos crentes e devotos aos quais se opõem? Sim, é possível. É possível que toda a história da ciência desde o atomismo grego não seja outra coisa senão a progressiva e implacável destruição de qualquer possibilidade de sentido para a existência, a autodiminuição do homem perante si próprio e sua metamorfose em fortuita, passageira e risível criatura, como um tipo peculiar de pulgão alucinado? E que a missão da ciência – única fonte de saber objetivo ao nosso alcance – seja reduzir todos os mistérios a trivialidades, demonstrando em minúcia a mecânica (ou quântica) absurdidade de todo o devir, até que só reste ao homem o mistério da absurda trivialidade de tudo? Sim, é possível. É possível, enfim, que nossa consciência de nós mesmos não passe de um engodo e de um continuo fantasiar que não somos, como uma farsa em que os personagens se creem autores de papeis que representam? E que aquilo a que me habituei chamar de eu não existe realmente, mas seja apenas sopro do que emerge da combinação de sopas e faíscas de um cérebro em vigília; e que eu e tudo o que me imagino ser seja uma peça de ficção que vive em mim em vez de ser escrita; e que ninguém exista realmente como se finge existir, mas seja o personagem de sua própria farsa, como peça assombradas do xadrez sem enxadrista que se desenrola em cada cérebro particular? Mas se tudo isso é possível e, mais que isso, possivelmente verdadeiro, então eu não posso ficar calado, encolhido como um caramujo, entregue à consciência oca e resignada do meramente existir. Então algo tem de ser feito. Tem de existir um furo, um erro fatal no meu pensamento. Preciso entender o que se passou comigo; preciso pôr em palavras o sinistro absurdo da clausura em que estou metido. Se eu não existo, se não sei quem – ou o que – sou, como se pensam os pensamentos que me atormentam? Não há caminho que me leve adiante? E assim, paciente leitor, no paredão daquela madrugada insone, brotou em mim o germe do livro que repousa em suas mãos. Refute-me se for capaz! A ILUSÃO DA ALMA – O livro A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa, do professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e PhD pela Universidade de Cambridge, Eduardo Giannetti, relata a história de um professor de literatura, especialista em Machado de Assis, e sua perturbadora conversão filosófica, sobre a relação entre o cérebro e a mente. Passando desde o embate entre Sócrates e Demócrito no século V a.C., até o advento contemporâneo da neurociência, a trama descreve a viagem de descoberta do narrador pela história das ideias. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
GIANNETTI, Eduardo. A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


PATRICK LOUTH: A POESIA VEIO DOS DEUSES – Eis um relato recolhido sobre a origem da poesia:  O nórdico antigo gosta de falar pelo prazer de bem falar, de forma difícil e erudita. Assim, como o aedo grego, o vates latino, o bardo celta, o escaldo também está ligado aos deuses. Aliás, a poesia veio dos deuses: é o que ensina Snorri logo nos primeiros trechos do Skaldskaparmal, no qual mostra Aegir, deus do Oceano, vindo saudar os Ases, no seu palácio de Asgard. Sentado ao lado de Bragi, deus da poesia, Aegir o interroga sobre a sua origem:
- No principio -, responde Bragi -, aconteceu que os Ases eram inimigos do povo que é chamado de Vanes, e eles se encontram para debater sobre a paz; os dois lados pediram garantias, de maneira que as duas facções foram até uma tina e escarraram dentro. Porem, quando se separaram, os deuses não quiseram que este penhor de paz se perdesse; tomaram-no e dele fizeram um homem. Ele se chama Kvasir e é tão sábio que não existe pergunta à qual não saiba responder. Saiu caminhando por todo o mundo, para ensinar aos homens a sabedoria. Mas quando chegou na propriedade de dois anões, que se chamam Fjatar e Galar, eles o aprisionaram, mataram-no e fizeram seu sangue escorrer dentro de duas tias e de um cântaro: este cântaro chama-se Oderir e as tinas, Son e Bodn. Misturaram o sangue com mel e disso resultou um hidromel tão especial, que quem o beber torna-se escaldo ou ságio. Por isso chamamos a poesia de fluxo de Kvasir. E o hidromel torna-se propriedade do gigante Suttung.

- Mas como os Ases se apossaram do hidromel? -, torna a perguntar Aegir.

- A propósito disso - responde Bragi -, existe uma história que diz que Odin saiu de casa e chegou num lugar onde nove escravos ceifavam feno. Perguntou-lhes se queriam que ele afiasse suas foices. Aceitaram. Então, Odin tirou de seu cinto uma pedra de amolar e as afiou. Achando eles que as foices, assim, cortavam muito melhor, quiseram comprar a pedra de amolar. Mas Odin decidiu que só compraria a pedra quem oferecesse, por ela, um preço justo; todos aceitaram, cada um desejando ser o comprador. Então, ele jogou a pedra para o alto; quando todos quiseram pegá-la, se precipitaram de tal forma que se decapitaram mutuamente com as foices. Depois disso, Odin foi procurar abrigo, para passar a noite, na casa de um gigante que se chamava Baugi, irmão de Suttung. Este lhe disse que estava numa situação difícil: seus nove escravos haviam-se matado uns aos outros e ele não tinha esperança de encontrar trabalhadores. Odin, então, disse chamar-se Bölverk, o artesão da infelicidade, e ofereceu-se para executar o trabalho de nove homens para Baugi, tendo, porém, como salário, um copázio de hidromel de Suttung.

A astucia do deus obteve êxito, depois de muitas peripécias:

- No primeiro trago, esvaziou todo o Odrerir, que abala a inspiração, no segundo o Bodn, no terceiro o Son. Ele havia, portanto, bebeido todo o hidromel. A seguir, transformou-se em águia e fugiu, voando tão depressa quanto pôde, mas Suttung, percebendo a águia em fuga, também se tranformou em águia e voou em sua perseguição. Quando os Ases viram Odin, que chegava voando, empurraram as tinas para o recinto. Então, ele chegou em Asgard e tornou a escarrar o hidromel dentro das tinas; porém, Suttung já estava tão próximo para o agarrar que Odin deixou escapar uma parte do hidromel, do qual, hoje, ninguém faz questão. Quem quiser, pode tomá-lo e nós o chamaremos o quinhão dos poetas de pacotilha. Porém o hidromel de Suttung, Odin o deu aos Ases e aos homens que sabem compor. Eis porque se chama a poesia de butin de Odin, e seu achado, sua bebida, dom dos Ases e bebida dos Ases.

FONTE:
LOUTH, Patrick. A civilização dos germanos e dos vikings. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1979.


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