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quinta-feira, abril 28, 2016

EDUCAÇÃO, GIANNETTI, JEAN DELVILLE, ANDRÉ LEMOS, ROSANA LAMOSA & LYGIA COELHO

A EDUCAÇÃO NOSSA DE CADA DIA - Para todo lugar que a gente se vire, seja na esquina, nos auditórios, nos holofotes, nas fofocas, onde quer que seja, uma unanimidade: a educação é fundamental para melhorar o ser humano e a realidade no mundo em que vivemos. E isso é repetido a torto e a direito: é preciso investir maciçamente na educação para melhorar a humanidade. Por conta disso, como todo mundo fala, vou também colocar o meu bedelho no assunto. Cá pra nós, é evidente que a educação não será jamais a panaceia para todos os males da sociedade, mas indubitavelmente é o alicerce fundamental para um melhor encaminhamento da humanidade, como também para resolver um bocado de bronca oriunda de equívocos e desinformação no Brasil. Nisso todos concordamos. Principalmente quando se procura saber qual o problema da educação brasileira. Usualmente esse problema é visto de uma forma maniqueísta e, diga-se de passagem, bastante reducionista, colocando-se como apenas dois: os alunos não querem saber de pirocas nenhuma, quanto mais estudar; ou os professores estão naquela do Vampeta: fingem que ganham altos salários, fingindo que ensinam. Quer dizer, colocam a culpa do fracasso escolar ou no aluno, ou no professor. E só. Quando muito, uma visão um pouco mais esclarecida, ao que parece, grita a necessidade de maior investimento em educação. Bem, ao que se sabe, oficialmente, o Brasil investe 5,7% do Produto Interno Bruto (PIB), o que representa, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econônico (OCDE), R$ 5,5 trilhões e que está acima da média dos países mais desenvolvidos do planeta. Tá. É muito? Não, todo mundo está careca de saber que é pouco. Todavia, melhor a gente dá uma olhada mais acurada para ver se é isso mesmo o nó do problema. Analisemos friamente: o que os alunos da educação básica até o ensino superior esperam da educação são conteúdos importantes e diretamente relacionados com a sua realidade, aulas dinâmicas e preparação para a vida, pro trabalho e pra vida. Sim. O que os professores esperam da educação é uma valorização profissional, estabilidade e condições dignas de existência, estrutura adequada pro desempenho de suas funções, alunos aplicados e ambiente horizontal nas relações hierárquicas. Certo. Quanto ao investimento governamental na educação pública brasileira é uma coisa a se considerar, vez que a gente também está careca de saber que existe muita tramoia desviando a finalidade das verbas públicas em tudo quanto é área de responsabilidade governalmental. Não é à toa que o Brasil é o país da espórtula e do vamos nos arrumar. Então, vamos colocar mais gente na roda para avaliação melhor, ou seja, vamos colocar os pais, a comunidade e a sociedade nesse contexto. Os pais depositam total responsabilidade pela educação dos filhos na escola, esquecendo-se - para não dizer eximindo-se - das suas próprias responsabilidades a respeito, se livrando dos filhos como se os sacudisse em um turno ou tempo integral lá dentro, dizendo: tomem esse troço e dêem um jeito aí nessa bronca, a responsabilidade é de vocês, se virem! Esse também é o desejo da comunidade e, por tabela, de toda sociedade. Ninguém quer segurar no bico do bule para ver o quanto está fervendo, joga a responsabilidade pros outros. Por conta disso, os pais esperam que a escola faça dos seus presepeiros e indomáveis pupilos, gente quieta, obediente, direita e promissora, capazes de lhes proporcionar orgulho no futuro. Entretanto, há uma coisa a ser dita: educação não é só depósito de conteúdo, condicionamento, reforço, aperto no disciplinamento, meritocracia e religiosidade. Educação é muito mais. Já a escola com seus altos muros quase impenetráveis, fechada e sem diálogo com a comunidade, muito menos com a sociedade, precisa ser vista: é lá que estão os alunos e os professores apontados como os dois principais problemas da educação. Além de professores, a escola reúne outros tantos profissionais que fazem o corpo de gestores e administração. Muito se fala por aí na eleição direta de diretores nas escolas públicas em atendimento à gestão democrática, mas todo mundo sabe que a maior parte, principalmente nas cidades interioranas, as diretorias das escolas são ocupadas por pessoas ligadas ao prefeito ou de suas relações políticas, muitas delas, inclusive, alheias a área. Essa direção racha a escola em duas: a área pedagógica, que deve resolver as principais broncas e fim de papo; e a área administrativa, que é a dos achegados na gestão financeira. A bronca pedagógica é delegada aos coordenadores e supervisores; a bufunfa fica nas mãos de quem passa a tratar a escola pública como um negócio rentável que tem que dar certo e, se possível, lucro para o diretor e os seus, mesmo em se falando de escola pública, observe. Assim não fosse, não apareceria tantos problemas com a merenda escolar no noticiário. Epa! Mas dizem que isso é problema da secretaria de educação. Sim, se a gente olhar quem é que ocupa as secretarias municipais de educação no Brasil, constatará que em sua esmagadora maioria, também, está ocupada por pessoas ligadas ao gestor público ou de suas relações políticas e, provavelmente, de área alheia à educação, afora um quadro de pessoal descomprometido com a questão, que está ali apenas para garantir sua aposentadoria e ter o que fazer, salvo raríssimas exceções, atente pra isso. Contudo, salvo melhor juízo, o caso das broncas da merenda escolar é doutra esfera: da secretaria estadual de educação. Tá. Não precisamos perguntar quem é o secretário de educação na maioria dos estados brasileiros, que seguem a cantilena dos municípios, também ocupados por pessoas das relações políticas do governador e que, em sua grande maioria, nada tem a ver com a educação, salvo as raríssimas exceções, reitero. Todavia, esta secretaria coloca a culpa no Ministério da Educação (MEC). Sim, também, se a gente for ver quem é o Ministro dá pra sacar que o problema começa em cima, afora os gabinetólogos de bunda quadrada que em Brasília querem fazer uma educação uniforme e homogeneizada para o Brasil todo, desconsiderando a heterogeneidade regional do nosso continental país. Em suma, uma primeira conclusão: há mais interesse individual na educação pública brasileira que qualquer outra coisa. Sim, a tragédia está tanto na educação pública como na rede privada: a diferença entre elas é só a limpeza e disciplina. O resto é uma tragédia só. Isso faz com que a educação não só tenha um ou dois problemas, mas muitos como uma corda de guaiamum bastante complexa. Excetuando-se aqui, ali ou alhures alguma iniciativa louvável raríssima e pontual, da educação infantil até o ensino superior, a educação brasileira é no mínimo disfuncional, quando não contraproducente: preparam os estudantes apenas e tão somente a serem serviçais do capitalismo. Trocando em miúdos: o problema da educação começa pela negligência, descompromisso e descomprometimento dos pais com o futuro dos seus filhos, ou por uma compreensão equivocada acerca do futuro da humanidade. Das duas, uma. Não será bastante alertar que o futuro pode ser no mínimo um abrigo pros pais negligentes ou, de uma forma mais contundente, a consideração da covardia que levarão nossos filhos a nos responsabilizar por não termos a competência, a coragem e a seriedade de resolver os nossos próprios problemas a respeito, transferindo-os como uma avalanche para uma realidade mais grave e trágica no futuro. Pense nisso. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. PS: e por falar em Educação veja mais aqui, aqui e aqui

 Imagem: a arte do pintor, escritor e ocultista belga Jean Delville (1867-1953).


Curtindo o álbum da ópera Jupyra (Biscoito Fino), do compositor Francisco Braga, com a cantora lírica Rosana Lamosa & a OSESP. Veja mais aqui.

PESQUISA
Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea (Sulina, 2007), do sociólogo e professor André Lemos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa (Companhia das Letras, 2010),
o economista, sociólogo e professor Eduardo Giannetti. Veja mais aqui e aqui. 

PENSAMENTO DO DIA
 Quem se acha dono da razão, com certeza nunca teve educação. 

Veja mais Osman Lins, Adolphe Appia, Paul Éluard, Pedro Almodóvar, Alberto de Oliveira, José Malhoa, Paulo César Pinheiro, Penélope Cruz &Valéria Pisauro aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Deusa Flora, da pintora Lygia Coelho.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.


segunda-feira, setembro 28, 2015

ÉSQUILO, GIANNETTI, MALLE, JARA, BARDOT, CAPP, CABANEL, JOÃO COSTA, PSICOLOGIA ESCOLAR & CALEIDOSCÓPIO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? CALEIDOSCÓPIO - Todo dia faço uma boa caminhada. Saio de casa, pernas no mundo. Assim que ponho os pés na rua, os pensamentos se agitam e saio à cata daquele que me leve para boas lembranças. Vasculho o quengo carregado, tem muita coisa. Aliás, tem de tudo. Tem até um bocado que sempre me assalta e que gostaria nunca tê-los de volta e, não sei que cargas d'água insistem em reaparecer, mantendo-se recluso e pronto para me repassar na cara. Sempre descartado, insiste em reaparecer. Por isso saio catando, escolhendo. Logo me dedico a pensar nos anseios de calmaria e de acesso à conquista daquilo que almejo. A cada passo visualizo momentos de glória e satisfação, buscando a realização plena dos meus desejos. Penso, então, no pódio, coroado de reconhecimento e aplausos. Enquanto isso, aceno pra conhecidos, cumprimento passantes, sorrio pra vida. De antemão, precavido que é inevitável o surgimento de condições aversivas. Afinal, a cidade virou uma selva com tudo de imprevisível. Tento mantê-la agradável pra mim: curto a brisa do mar longínquo, busco a harmonia com o universo. Constato o colorido, alguns descorados e bufentos prédios, escombros e suntuosidades, desníveis e contradições. À medida que me afasto do lar, mais me fecho dentro de mim. Não há rostos amigáveis nem feições simpáticas. E ao me aproximar da travessia do primeiro semáforo, um ronco de navio me rouba o prazer. Assusto-me. Quem ousaria roubar meu gozo? Pudera, acabei de adentrar numa avenida que por repulsa à sua denominação devido acontecimento histórico descabido, passo a tratá-la por inominável. Isso é lá nome que se dê a uma rua? É quando constato que tem muita coisa com nome indevido. Muita mesmo que o tempo desmascara. Paro diante da faixa de pedestre e procuro identificar o insolente que me aplacou a consumação da querência. De que adianta? Não há como demonstrar minha indignação e já me vejo pensando em um transatlântico deslizando no asfalto descendo a ladeira para encontrar o mar e seguir a viagem. Essa miragem ocupa minha mente até me dar conta da maior bobeira de trazer uma ideia inútil e quimérica. A gente pensa cada coisa! Retomo ao agora e revolvo as ideias em busca de uma que me traga de volta o prazer de viver. Eis que uma sirene me atordoa, escamoteia minha intenção. A cidade está violenta. Uma frenagem mais ríspida atormenta mais ainda minha calma, persigo intranquilo e procurando bom porto. Andar está ficando difícil. Apresso os passos e eis que um transeunte quase me leva o ombro, fico desconfortável na caminhada. Como as pessoas são maleducadas! Deu vontade de emendar os umbigos. Ora, desnecessário. O buzinaço é a prova eloquente de que nada está em ordem, tudo desordenado e que nada está ao nosso favor. Aliás, nunca está. O trânsito é a prova cabal de que estamos em processo no meio de um conflito interminável. É guerra. Minhas ideias não conseguem se organizar, não há como ter apreço numa turbulenta passagem entre um quarteirão e outro. Ouso então olhar do lado para ver se identifico algo que me chame pela atenção, inútil. Só rostos graves, gestos descorteses, pressa, gritos, ruídos, roncos de motores, estardalhaço do movimento. Tudo passa de forma despótica: se correr o bicho pega, se parar o bicho come. Ou vai, ou racha. Não se pode perder tempo para parar, o resto é mandar ver. Quem se importa, é melhor agir antes de pensar, não marcar bobeira, senão o arrependimento, já sabe. De cara as escolhas: por ali ou acolá? Adiante. Por onde? Direita ou esquerda? Não, pelo meio. Ih, volte, contorne, o lamaçal na calçada vai sujar o calçado. As pedrinhas da buracada vão levá-lo ao tombo, cuidado, pode arranhar a venta no chão. O cão ladra, perigo! É propriedade particular, não ouse aproximação. É proibido passar por ali, só para fregueses em atendimento. Respeite o cordão de isolamento. Se chamar, ignore; se cismar, corra. Confesso que não sei lidar com tudo isso, afinal ecoa tudo dentro de mim que não consigo firmar um pensamento lógico sequer. Tudo repassa no meio da barulhada: infância, momentos desagradáveis, decepções, o que deixei de fazer e o que devia ter feito, o que fiz e queria voltar atrás, em replay, flash back, mas com novo desfecho, corrigindo tudo, passando a borracha no que ficou fechado de errado, consertando tudo para finais felizes, pudera. Final feliz? Piada. Nisso, não há exceção è regra, não há retorno. Foi, tá feito. Para desfazer dá trabalho. Mas tem que ser refeito, faz-se necessário. Como? Dá-se um jeito. O que importa é refazer, recomeçar. Está difícil. Hummmm. Eita, já cheguei em casa, findei a caminhada. Nossa, agora que percebi: a guerra não está lá fora, está mesmo dentro de mim. Vamos aprumar a conversa e veja mais aqui.

 Imagem: The Birth of Venus (1863), do pintor francês Alexandre Cabanel (1823-188). Veja mais aqui e aqui.


Curtindo o álbum Victor Jara habla y canta (1996), do poeta, cantor, compositor, professor, diretor de teatro e ativista chileno Victor Jara (1932-1973).

A ESCOLA COMO ESPAÇO DE PRAZER – O livro A escola como espaço de prazer (Summus, 2000), de Icleia Rodrigues de Lima e Gomes, aborda temas como a nudez nocional da fase teórica, o quebra-cabeça da fase prática, do campo e da coleta de dados, dos dados e da análise, o espaço, o ritmo e as formas do rito escolar, as percussões sagradas e os deuses iluminadores da escola, o ritual da alumiação: a aula, as sacralidades clandestinas, ato de contrição: a atenção, ato de expansão: a festa escondida do corpo, as muitas caras de Dionisio, as vozes que o corpo cala, um falar sobre estar junto, anatomia e fisiologia da sala de aula, formas e cores, ruídos e odores da socialidade, o toque das coisas e dos corpos, o toque familiar, o toque sensual, o toque sexual, os toques e os limites escolares, o toque professoral, os sentidos de prazer e o cotidiano da escola, a fala do professor: o prazer da atenção, a fala do aluno: o prazer de estar junto, o convívio entre os colegas: atração e repulsão, entre outros assuntos. Da obra destaco os trechos a seguir: [...] Vários alunos vêm me revelar que o prazer vivenciado no espaço da sala de aula se deve, mais que a sua relação com os professores, ao convívio que têm uns com os outros como colegas. Registrava aqui, que os alunos, na ocupação do espaço da sala, tendem a desfazer as conformações de filas e a se colocarem próximos uns dos outros, em duplas, trios ou em pequenos grupos. Nas suas falas, esses adolescentes me fazem perceber melhor como se formam esses ajuntamentos. É comum um rapaz afirmar que tem mais intimidade e que conversa mais com as moças. Também é comum ouvir as moças dizerem de contato mais prazeroso com os rapazes. Segundo a maioria dos entrevistados, a permanência entre colegas na sala de aula cria um clima propicio para a aproximação física e para a criação de intimidade. Existem as atitudes de namoro, as trocas de olhares, os toques, a malícia [...] Essas atitudes de namoro – esses toques reais e simbólicos dos corpos uns dos outros – muitas vezes acontecem sem que o professor ou os outros colegas possam perceber. A ambiência da sala de aula não se caracteriza apenas por um clima de sedução e malicia entre moças e rapazes. Há no espaço clima produzido por uma multiplicidade de experiências havidas entre uns e outros. [...] Observo em quase todas as salas consideradas, atitudes de distanciamento, de evitação e até mesmo de repulsa por parte de integrantes desses agrupamentos nas suas relações com os outros ou com o grupo maior da sala. A animosidade pode se dar de modo tal a deixar antipatizado todo um grupo que se coloque na frente da sala [...] Segundo essas vozes, a sala de aula é lugar de uma guerrinha entre uns e outros, de ojeriza velada, de discriminação do mais pobre que veste camisa chinfrim. É um lugar de deixar de lado a menina quietona ou a assanhada. É também lugar de maledicência em relação aos falsos, invejosos, bagunceitos, impertinentes. Enfim, é o espaço em que o desprazer da convivência entre colegas é feito de pequenos e grandes rancores e intolerâncias. Entretanto, quando os alunos falam de suas experiências de maior desprazer na sala de aula, quase nunca se referem às relações que têm com os colegas. Referem-se a professores e lições. [...] A quse maioria absoluta dos alunos entrevistados, ao tentar explicar sobre o desprazer que experimenta no espaço da sala, fala de circunstâncias bem claras. É quando entre um professor chato, com suas aulas chatas e dá vontade de sair da classe. Ficar na classe, então, é calar a boca, decorar, escutar o professor falando, falando, falando. É quando é preciso ficar quieto, faz calor, o corpo está cansado e enjoado de ficar sentado. É no momento da quinta aula – vai quase todo mundo embora – e a quietude da sola mostra um tédio de aula que não passa. Levando em conta essas explicações dos adolescentes, a sala de aula é também um lugar de desprazer, um continuado sacrifício imposto ao corpo e aos sentidos, além daquele que penaliza o espírito. Apesar ou além desse duplo desprazer revelado pelos alunos, a sala de aula é um espaço de prazer. [...] Quando falam de suas experiências de maior prazer eles não apontam os professores ou lições. Apontam os colegas. [...]. Veja mais aqui e aqui.

A ILUSÃO DA ALMA – No romance A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa (Companhia das Letras, 2010), do escritor e economista Eduardo Giannetti, encontro o trecho que destaco a seguir: [...] Quando Ralph Waldo Emerson começou a sofrer de Alzheimer e a perder a memória, um amigo perguntou a ele como se sentia. “Muito bem”, retrucou o filósofo, “perdi minhas faculdades mentais, mas estou perfeitamente bem”. Nunca fui adepto do transcendentalismo emersoniano nem conhecia a anedota naquela época, mas foi mais ou menos assim que respondi a mim mesmo ao me questionar, no dia seguinte ao retorno a Belo Horizonte, sobre o susto carioca. Eu estava perfeitamente bem, tudo voltara ao normal, ainda que tivesse temporariamente perdido a lucidez. A ilusão conveniente é sorvida de um só gole; a verdade amarga, a conta-gotas. Seria o caso de consultar um médico? Cheguei a flertar com a possibilidade, mas a inercia da rotina acoplada à preguiça decidiram que não. Escavei timidamente as possíveis causas do surto e decidi deixar como estava. O autodiagnostico de um estresse pontual ou simples estafa – era fim de ano, minha vida pessoal andava meio torta, vinha dormindo pouco e bebendo muito, precisava ler e publicar mais, fazia um calor insano naquela noite, não foi tão grave assim -, tudo isso de embrulhada me pareceu mais que suficiente para legitimar a inércia e preencher o vácuo de uma necessária explicação. Ademais, creio que herdei do meu pai – não me pergunte como – a curiosíssima noção de que ficar doente e ter de recorrer a um médico ou terapeuta, em qualquer circunstância, era sinal de fraqueza; uma espécie de afetação ou capitulação moral a que apenas os frouxos estavam sujeitos. Adoecer lá em casa, caxumba, diarreia ou resfriado, era como ir mal na escola ou dormir até mais tarde – motivo de culpa e vergonha. Ir ao medico ou à farmácia, só em último caso. O simples olhar do meu pai dizia tudo. (Hoje me dou conta de que a altivez e a couraça estoica dessa recusa, encobriam, no fundo, boa dose de medo e covardia diante da dor eventual de se ver forçado a encarar certas realidades da vida.) Tudo somado, um imobilismo de ocasião venceu a prudência e o bom senso. Não havia de ser nada. Resolvi tocar o barco e pôr um ponto-final no assunto [...]. Veja mais aqui e aqui.

ELIANA & SOLIDÃO - Na antologia Poetas de Palmares (Fundarpe/FCCHBF, 1987), organizada pelo poeta Juareiz Correya, encontro os poemas do poeta, redator-chefe do jornal A Notícia e da revista Palmira, João Costa, que é autor do livro de poesia Confidências de outono. Dele trago primeiro o soneto Eliana: Riso de fada, um porte de princesa, / doce na fala, meiga nas ações, / Eliana tem na sua singeleza / o mesmo brilho das constelações. / Por isso mesmo, deu-lhe a natureza / uma voz enfeitada de canções, / para matar as noites da tristeza / e dar dias de sol aos corações. / Esbelta, quando passa, tudo para... / que flor humana isenta dos abrolhos, / urdida só para os mais belos fins! / Eliana é tudo; além do mais, é rara, / porque conduz no lírio dos seus olhos / o perfume de todos os jardins. E também o soneto Solidão: Vivo só. No meu ser sempre a sangrar / a chaga enorme da desolação. / Expulso, às vezes, minha dor num bar, / porque o vinho entorpece a solidão. / Só; perdi a noção de caminhar, / e se estreita o meu senso de afeição, / enquanto se avoluma, sem parar, / o meu mar de tumulto e de aflição. / Quando a morte apagar meu ser bisonho, / e o corpo, só, tiver no duro chão, / todas as células inermes, / eu terei realizado o maior sonho: / para matar a minha solidão, / a companhia tumular dos vermes. Veja mais aqui e aqui.

OS PERSAS – A tragédia Os persas (472aC), do poeta grego Ésquilo (525-455aC), faz da tetralogia do autor que ganhou o Festival Ateniense das Grandes Dionísias, com o tema que se baseia em fatos contemporâneos e que ocorrem em Susa, capital da Pérsia, por alturas da Batalha de Salamina, analisado pelo lado do inimigo dos gregos, os derrotados persas, com a trama em torno dos comportamentos dos seus nobres, de Xerxes que foi derrotado por sua mãe Arossa e o fantasma do pai Dario. Da obra destaco o trecho inicial do Coro: (A cena passa-se em Susa. O teatro deve representar o palácio dos reis da Pérsia. Ver-se-á, ao lado, o túmulo de Dario) CORO - Somos, entre os persas, chamados os Fiéis. Guardiães deste rico e soberbo palácio, aqui estamos, enquanto eles marcham contra a Grécia. Foi à nossa experiência, que o filho de Dario, Xerxes, nosso rei e senhor, confiou os cuidados do império. Porém, triste pressentimento. Nossa alma inquieta-se, no íntimo, pelo regresso do rei e seu brilhante exército. A Ásia viu levar todas as suas forças, e acusa um jovem príncipe. Não chega à capital da Pérsia nenhum correio ou mensageiro. De Susa a Ecbatana, dos antigos baluartes de Ásia, infantes, cavaleiros, gente do mar, que enorme massa de exércitos, deixaram todos a pátria. Assim partiram Amistres, Artafernes, Megabises, Astaspes, príncipes dos persas, reis submissos do grande rei, comandantes de numerosas hostes, hábeis no manejo do arco e dos cavalos, temíveis no aspecto, terríveis nos combates, de insuperável coragem. Assim partiram Artembares, bravo capitão de cavalaria; Masistres, Imeu, o hábil arqueiro, Farandaces e Sostanes, que tão bem doma os corcéis. Das fecundas margens do Nilo vieram Susiscanes, Pegastagon, que o Egito viu nascer; Arsames, que governa a sagrada cidade de Menfis, e Ariomardo, senhor da antiga Tebas. Dos pântanos egípcios chegaram inúmeros, excelentes remadores. No séquito do rei marchavam os efeminados lídios e todos os povos do continente, submetidos ao sátrapa Metrágato, ao virtuoso Arceu. A opulenta Sardes viu sair do seu seio milhares de homens em carros de duplo e triplo jugo, cujo aspecto basta para fazer estremecer. Habitantes do monte sagrado de Tmolus, Mardon e Taribis, infatigáveis guerreiros, e seus núsios armados dardos, jactavam-se de que em breve a Grécia escrava se curvaria ao seu jugo. A rica Babilônia enviou tropas de toda a espécie: marujos, arqueiros, orgulhos de sua perícia. À ordem ameaçadora de seu rei, todas as nações da Ásia se armaram e o seguiram. Assim vimos partir a juventude florescente dos persas. A terra que a nutriu a lamenta e chora. Mães e esposas contam, a tremer, os dias de tão longa ausência. O exército real, que arrasa todos os baluartes, já passou para o vizinho continente. Sobre seus navios, ligados por cabos, atravessou o estreito de Heles, ficha de Atmas; indissolúvel ponte se estendeu sobre a face dos mares, que ela subjugara. Digno rebento de augusta estirpe, mortal igual aos deuses, o belicoso soberano da fecunda Ásia, pleno de confiança no valor de seus intrépidos súditos, à Europa conduziu, por terra e mar esse imenso exército. Qual dragão homicida, lança olhares flamejantes. Armado de um milhão de braços, seguido de mil navios, impelindo seu carro assírio, leva contra um povo famoso por sua lança, guerreiros temíveis por suas flechas. Quem poderia enfrentar essa vaga enorme de soldados? Nenhum dique deteria a indomável torrente. Nada resistiria à bravura do persa. Mas quem, dentre os homens, evitará a insidiosa armadilha da sorte? Quem dela escapará com pé ligeiro, fácil impulso? Acariciante e lisonjeira, a princípio, ela atrai os homens a uma rede da qual nenhum mortal pode desvencilhar. Há muito se manifestou a vontade do céu, que anima os persas ao assalto das torres, à tumultuosa confusão dos corcéis, à destruição das cidades. Contemplando a vasta planície dos mares escumantes ao sopro dos ventos... confiaram povos a frágeis cabos, débeis engenhos. O temor dilacera, ao imaginá-lo, minha alma angustiada. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais a imensa cidade de Susa, sem defensores, aprenda a proferir tais palavras. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais os muros de Ássia necessitem responder ao grito de uma turba de mulheres, que em prantos, a rasgarem os seus véus. Todos, infantes, cavaleiros, como um enxame de abelhas, nas pegadas de seu príncipe, galgaram os promontórios de ambos os continentes, unidos por uma ponte. Na ausência do esposo, o pranto umedece os leitos nupciais. Desoladas esposas. Com amorosa saudade seguistes o impiedoso companheiro, que para correr às armas, vos deixou solitárias. Quanto a nós, persas fiéis, firmes neste palácio antigo, redobremos de necessária prudência e sensatez. E meditemos. Que foi feito de Xerxes, nosso rei, filho de Dario, pai tão bem amado? Caberá a vitória à flecha disparada pelo forte arco persa? Ou vencerá o brandir da acerrada lança helena? Já se adiante, porém, a mãe de Xerxes, astro semelhante ao olhar dos deuses. Adoremo-la, todos, à uma, rendamos homenagem à rainha. (O Coro se prosterna. Entra a rainha em seu carro, seguida de numeroso séquito). Veja mais aqui, aqui e aqui.

VIDA PRIVADA – O drama Vida privada (Vie privée, 1962), dirigindo pelo cineastra Louis Malle, conta a história de uma jovem de classe média alta que tem uma mãe viúva na Suíça e se paixona pelo marido de uma amiga, paixão esta não correspondida. Ela se muda para Paris para trabalhar como modelo e dançarina, e que se transforma numa grande estrela de cinema. As pressões e a fama, o assédio dos fãs e da imprensa afeta sua vida, obrigando-a ao retorno à Suíça para se recuperar, quando ressurge sua paixão antiga, agora divorciado. O caso de amor vai ter vários problemas em virtude de sua fama, com trágicas complicações. O destaque do filme é para a atriz e ativista francesa Brigitte Bardot, para quem o roteiro do filme foi dedicado, sendo considerado sua biografia. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do cartunista e escritor estadunidense Al Capp (1909-1979), autor das tiras satíricas de quadrinhos Ferdinando (Li’l Abner, no Brasil Família Buscapé).


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de Amor, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sexta-feira, março 20, 2015

SCHOLASTIQUE MUKASONGA, BELOSLAVA DIMITROVA, GÓGOL & ÂNGELA DINIZ

 


ÂNGELA, A LINDA VÍTIMA VILÃ - Ela era uma linda mineira escorpiana e chamava atenção por onde passasse. Era cobiçada por todos, a ponto de, com apenas 17 anos de idade, casar-se e ter filhos. Desquitou-se 9 anos depois, perdendo os filhos em troca de uma mansão em Belo Horizonte e uma pensão mensal. Mantinha-se livre, mantendo relacionamentos esporádicos. Sua vida começou a virar um pandemônio quando o caseiro foi assassinado com um tiro cravado na face. Ela assumiu legítima defesa, acobertando um terceiro, na verdade: circunstâncias jamais esclarecidas. Por isso afastou-se de Minas Gerais e mudou-se pro Rio de Janeiro, quando conheceu o Pantera de Minas, um colunista social afamado. Pouco tempo depois, aproximava-se o natal e foi visitar os filhos em Belo Horizonte. No seu retorno trouxe a filha sem avisar a família do ex-marido: foi acusada de sequestro e condenada a 6 meses de prisão. Os tumultos voltaram à tona quando foi surpreendida por uma denúncia anônima: foi presa sob acusação de esconder maconha na sua residência, admitindo ser viciada em drogas. Badalações, festas e muito glamour na inda para Armação dos Búzios. Findou com três tiros de Beretta no rosto e um na nuca, assassinada em sua casa na Praia dos Ossos. Morta tornou-se a vilã da história. Coisas do Brasil: mata-se em nome de ciúmes e cabeça quente. Assim a história de Ângela Diniz (Ângela Maria Fernandes Diniz – 1944-1976). Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A literatura me salvou. Se eu não pudesse escrever teria enlouquecido... Não me resta nada a não ser a lancinante recriminação de estar viva em meio a todos os meus mortos.... Pensamento da escritora tutsi Scholastique Mukasonga, sobrevivente dos massacres ocorridos na década de 1990 em Ruanda. No seu livro La femme aux pieds nus (Gallimard, 2008), ela narra: [...] Eles queriam dizer a nós, mulheres tutsis: 'Não dê mais à luz porque você dá à luz ao dar à luz. Vocês não são mais portadores de vida, mas portadores de morte. [...]. No seu livro Our Lady of the Nile (Archipelago, 2014), ela expressa: [...] Então você ainda quer fazer o que disse? 'Mais do que nunca! Agora que sou uma heroína, e você também, dirão que é mais uma de nossas façanhas e, acredite, será. — Você sabe muito bem que tudo se baseia nas suas mentiras. 'Não são mentiras, é política. […]. E no seu livro Cockroaches (Archipelago, 2006), ela narra: [...] Nenhum memorial foi construído em Rebero. Nada para comemorar os caídos, exceto pedregulhos e pedras brancas e vermelho-ferrugem. Procuro sinais na colina, cavo o chão. O sol está bem alto. Esta é a hora das miragens. Afasto as pequenas pedras, arranho o chão. Encontro um pedaço de pano esfarrapado meio enterrado na terra. Tento me convencer de que vem da camisa de Antoine. Hesito, então deixo aquela falsa relíquia onde está. Pego uma pedra com uma ponta afiada. Em memória. [...].

 

ALGUÉM FALOU: Todos os dias me dou a chance de nascer de novo... Eu não fujo, prefiro deixar as coisas que não preciso. Não acredito na fuga como um ato... Tenho dentro de mim uma casa, um lugar de onde observo o mundo e onde me sinto confortável... Pensamento da poeta e jornalista búlgara Beloslava Dimitrova, autora do poema Uma pessoa: pois - \ estou a 2.130 metros acima do nível do mar, \ em outras palavras, estou sentado no fim do mundo, \tudo está coberto de vulcões e gêiseres \ expelindo vapor e água saturada de enxofre, \ lembro-me de perguntar novamente como chegamos aqui \ . rock over apontar \ você mostra a banheira cheia de bactérias \ quente e rasa o meio é idêntico \ Espero que desta vez permaneça inalterado \ sem complicações acúmulos modificações \ para finalmente fechar \ as nadadeiras do peixe \ para que eles não se transformará \ em membros \ para que os répteis não rastejem para fora \ e alguns não criem penas \ para que o milagre da evolução não aconteça \ e as pessoas não apareçam \ para que você não apareça de novo \ e muito menos eu. Dela também o poema Antidepressivos: tudo pode ser feito\ desde que você não esteja com\ as pernas cruzadas\ grudadas em mim\ o travesseiro enrolado\ como se fosse seu corpo\ abraçado com dois braços\ não penso e não sonho\ com o passado como prometi\ só recito os dos outros poesia\ cumpro todas as recomendações\ desejo opiniões comigo mesmo\ e não vou escrever\ esse poema\ para não te machucar.

 

DIA INTERNACIONAL DA FELICIDADE – A Organização das Nações Unidas (ONU) consagrou o dia de hoje como o Dia Internacional da Felicidade. A propósito, trago um trecho do livro Felicidade: diálogos sobre o bem-estar na civilização (Companhia das Letras, 2002), do economista, sociólogo e professor Eduardo Giannetti: [...] Discutir a felicidade significa refletir sobre o que é importante na vida. Significa ponderar os méritos relativos de diferentes caminhos e pôr em relevo a extensão do hiato que nos separa, individual e coletivamente, da melhor vida ao nosso alcance. O que havia de errado e o que permanece vivo no projeto iluminista de conquista da felicidade por meio do progresso científico e material? Até que ponto as nossas escolhas têm conduzido à criação de condições adequadas para vidas mais livres e dignas de serem vividas? Que lições tirar das conquistas e desacertos das nações que lideram o processo civilizatório? A civilização entristece o animal humano? Qual deveria ser o peso do prazer na busca da felicidade e qual deveria ser o ligar da felicidade na melhor vida? O conhecer modifica o conhecido, o viver modifica o vivido. As questões da filosofia estão sempre voltando ao ponto de partida. Elas nunca se rendem, elas jamais se esgotam; só o que acaba é o nosso fôlego e a nossa capacidade de enfrenta-las. A humanidade não se coloca apenas os problemas que é capaz de resolver. A fome não garante a existência do alimento capaz de saciá-la. Encaradas de um ponto de vista sóbrio, sob a luz fria e clinica da razão, nossas aspirações de realização e transcendência estão fadadas ao desapontamento. O tamanho da distância entre a mais alta felicidade e a mais funda infelicidade de um homem é produto da nossa fantasia. “A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver”. No fundo do coração humano, entretanto, algo surdo e obstinado resiste; algo indomado protesta a nos dizer que há alguma coisa indefinível pela qual existimos e aspiramos, algo por que vale a pena viver e sofrer. A imaginação selvagem que nos habita em segredo insinua esperanças e inspira sonhos que a razão desautoriza. Os dois lados do embate têm suas armas, têm o seu apelo, têm o seu direito. O grande equívoco é supor que um deles precise ou deva sair vitorioso. A qualidade da tensão é o essencial [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

DIANA/ÁRTEMIS - Imagem: Diana - marble (1776), do escultor francês Jean Antoine Houdon (1741-1828) – Gulbekian Foudation, Lisboa - Portugal. - Na mitologia romana, Diana é a deusa da lua, da caça e dos animais selvagens. Muito poderosa e forte, era considerada a deusa pura, filha de Júpiter e de Latona. A sua mais famosa aventura foi transformar o caçador Acteão em um cervo porque a viu nua durante o banho. Não quis se casar e manteve-se casta. É a triformis dea – a deusa das três formas, a Lua: Ártemis, Selene (lua) e Hécate (Trívia), ou seja, a trindade da Lua. A deusa grega Ártemis, filha de Zeus e Leto, é a divindade da caça que traz entre as mãos um arco dourado e um coldre de setas nos ombros, trajando uma túnica de tamanho curto, sendo considerada uma prostituta sagrada e uma virgem responsável pelos partos, associada, portanto, à dupla faceta feminina que, ao mesmo tempo, protege e destrói, concebe e mata. Era irmã gêmea de Apolo e seu desejo desde criança foi pedir a Zeus para circular livremente pelas matas, dispensada da obrigação de casar. As festas em sua homenagem eram dedicadas as danças sensuais em louvor da lua. Ela é o símbolo maior do feminino, da sua autonomia e liberdade. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

Ouvindo Brasileirança (Kuarup, 2002) do cantor, compositor e violeiro Xangai - Eugênio Avelino. Veja mais aqui e aqui.

AMORES & A ARS AMATÓRIA – O livro Amores & arte de amar (Companhia das Letras, 2011), do poeta e autor teatral romano Publius Ovidus Nasso, conhecido como Ovídio (42aC – 17aC), faz parte das três grandes coleções de poesias eróticas. Ele é considerado o mestre do dístico elegíaco e o último dos elegistas amorosos latinos canônicos, escrevendo sobre amor, sedução, exílio e mitologia. Dessa obra destaco o poema 3 do Livro , na tradução de Carlos Ascenso André: É justo o que peço: que a moça que ainda há pouco me cativou / ou tenha amor por mim ou faça com que tenha eu amor por ela. / Ah, foi demasiado o meu desejo! Que apenas consinta em ser amada, / e já Citereia terá ouvido todas as minhas súplicas. / Aceita quem há de servir-te por longos anos, / aceita quem saberá amar com candura e lealdade. / se não tenho a abonar-me grandes nomes de velhos / avós, se quem me deu o sangue é um cavaleiro / e meus campos não são revolvidos por arados sem conta, / se têm de poupar nas despesas ambos os meus pais, / ao menos, tenho a meu lado Febo e as suas nove companheiras / e o inventor da vinha; / ao menos, tenho aquele que a ti me entrega, o Amor; / ao menos, tenho fidelidade, que a nenhuma outra há de ceder, / e um caráter sem mácula / e uma simplicidade pura e um pudor que me faz corar; / não são mil as que me agradam, não sou um saltitante do amor. / Tu, se alguma fidelidade existe, hás de ter o meu cuidado para sempre; / contigo, quantos anos me concederem os fios tecidos pelas Irmãs, / esses me caiba em sorte vivê-los, e, perante a tua dor, morrer. / Mostra que és feliz por seres assunto de meus poemas, / e meus poemas hão de surgir, dignos de quem os inspirou; / é graças à poesia que têm nome Io, apavorada com seus chifres, / e aquela que um amante enganou, em forma de ave dos rios, / e aquela que sobre os mares foi trazida por um touro a fingir / e com mãos de donzela se agarrou aos chifres recurvos. / Também eu hei de ser cantado, do mesmo modo, no mundo inteiro, / e o meu nome para sempre ficará ligado ao teu. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

Ovide and Corine, his lover from the Amores, painted by Agostino Carracci (1557 - 1602). Veja mais aqui e aqui

TARAS BULBA – O romance histórico Taras Bulba (Alianza, 2010), do escritor ucraniano Nikolai Gógol (1809-1852) conta a história de um velho cossaco e seus dois filhos na guerra contra a Polônia. Ele mata um dos seus filhos: - Eu te dei a luz, eu te matarei!”. O seu outro filho é capturado pelos polacos e é executado: - Pai, estás a me ouvir? Taras, escondido dentro da multidão responde: Sim. E foge depois. Por fim, Taras é capturado em combate e queimado vivo. A história foi transformada em filme estadunidense, em 1962, pouquíssimo baseado na obra, dirigido J. Lee Thompson. Do livro destaco este trecho: [...] Os historiadores descreveram a contento essa campanha. Sabe-se que, na terra russa, a guerra é feita em nome da fé. Uma fé terrível, sem piedade, semelhante a um rochedo inabalável no meio de um mar sempre agitado. A massa rochosa eleva-se das profundezas do oceano, e desgraçado do navio que se chocar com ela! O seu casco será reduzido a pedaços, tudo voará pelos ares e os lamentos de terror dos infelizes marinheiros encherão os ares. A história conta como fugiam as guarnições polonesas das cidades que iam sendo libertadas, como foram enforcados os desalmados arrendatários judeus, a inferioridade revelada pelo oficial da coroa polonesa, Nikolai Pototski, e seu numeroso exercito, perante a cavalgada vitoriosa dos cossacos. Esse general foi completamente batido e metade de seu exercito afogado no rio. Encurralado na região de Poloniel pelos cossacos, Pototski jurou solenemente que faria conceder aos cossacos, da parte do rei e do governo da Polonia, todas as liberdades e restituir-lhes os antigos privilégios. Os cossacos, porém, conheciam o valor dessas promessas. Potorski não teria mais oportunidade de desfilar com seu cavalo puro-sangue na frente das damas, nem poderia mais oferecer festas suntuosas aos senadores da dieta, se o clero russo de Poloniel não o tivesse salvo. Quando todos os popes, com suas casulas bordadas a ouro, com ícones e cruzes nas mãos, e levando à frente seu bispo com mitra e báculo, saíram ao encontro do exército vencedor, os cossacos descobriram e inclinaram a cabeça. Nenhum poder humano, nem mesmo o rei, teria sido capaz de submetê-los, mas inclinavam-se perante os popes. O atamã resolveu com seus coronéis deixar partir Pototski, depois de esse ter jurado que as igrejas seriam respeitadas e que o exercito cossaco tomaria posse de seus antigos direitos. Só um coronel não concordou com aquela paz: Taras Bulba. Arrancando um punhado de cabelo da cabeça, gritou: - Ei, atamã, coronéis! Não façam esses arranjos de mulheres! Não creiam nos poloneses, pois eles nos trairão! E, quando o escrivão principal leu o texto do tratado e o comandante o assinou, Bulba ergueu seu sabre de aço damasquino e o quebrou pela metade, como quem quebra uma vara e, jogando longe os pedaços, exclamou: - Adeus! Assim como os dois pedaços deste sabre não voltarão a ser uma só arma, também nós, camaradas, não voltaremos a nos ver neste mundo [...]. Veja mais aqui, aquiaqui.



BLACK WIDOW – O suspense Black Widow (O mistério da viúva negra, 1987), dirigido por Bob Rafelson, conta a história de uma rica e bela mulher, Catherine Petersen que tem sua forma elevada cada vez que se casa e mata seus maridos ricos. Após receber a herança, ela desaparece e assume nova identidade para se preparar para um novo golpe. O destaque do filme vai para a linda atriz estadunidense Theresa Russel. Veja mais aqui.

 


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A vida por uma peínha de nada, As mil e uma noites, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a crise da atualidade de Ivo Tonet, a violência de Necilda de Moura Santana, a pintura de Vincent van Gogh & Umberto Boccioni, o teatro de Caryl Churchill, a música de Eveline Hecker, a coreografia de Angelin Preljocaj, a escultura de Kaleb Martyn, o cinema de Christine Jeffs, Luciah Lopez & Sonho real amanhecido aqui.
Dia de São Nunca: tem dia pra tudo, até pro que eu não sei, A mulher fenícia & os fenícios, Uso e abuso histórico de Moses Finley, A era do globalismo de Octavio Ianni, A grande transformação de Karl Polanyi, a literatura de Antonio Tabuchi, o teatro de Sarah Kane, Béjart Ballet Lausanne, o cinema de Eliane Caffé, a música de Clara Sandroni, a entrevista de Mano Melo, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a arte de Sueli Finoto, a pintura de Shahla Rosa & Arthur Hunter-Blair aqui.
De perto ninguém é mesmo normal, O coração do homem de Erich Fromm, A civilização asteca de Jean Marcilly, a literatura de Edgar Allan Poe & Euclides da Cunha, a música de Maya Beiser, a escultura de Auguste Clésinger, o teatro de José Celso Martinez Corrêa, o cinema de Peter Greenaway & Federico Fellini, a entrevista de Geraldo Carneiro, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a pintura de Jean-Paul Riopelle & Beatriz Milhazes, a dança de Martha Graham, a fotografia de Luiz Garrido, a arte de Paul-Albert Besnard & As mil faces do disfarce aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...