TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, abril 28, 2016
EDUCAÇÃO, GIANNETTI, JEAN DELVILLE, ANDRÉ LEMOS, ROSANA LAMOSA & LYGIA COELHO
segunda-feira, setembro 28, 2015
ÉSQUILO, GIANNETTI, MALLE, JARA, BARDOT, CAPP, CABANEL, JOÃO COSTA, PSICOLOGIA ESCOLAR & CALEIDOSCÓPIO!
A ESCOLA COMO ESPAÇO DE PRAZER – O livro A escola como espaço de prazer (Summus, 2000), de Icleia Rodrigues de Lima e Gomes,
aborda temas como a nudez nocional da fase teórica, o quebra-cabeça da fase
prática, do campo e da coleta de dados, dos dados e da análise, o espaço, o
ritmo e as formas do rito escolar, as percussões sagradas e os deuses
iluminadores da escola, o ritual da alumiação: a aula, as sacralidades
clandestinas, ato de contrição: a atenção, ato de expansão: a festa escondida
do corpo, as muitas caras de Dionisio, as vozes que o corpo cala, um falar
sobre estar junto, anatomia e fisiologia da sala de aula, formas e cores,
ruídos e odores da socialidade, o toque das coisas e dos corpos, o toque
familiar, o toque sensual, o toque sexual, os toques e os limites escolares, o
toque professoral, os sentidos de prazer e o cotidiano da escola, a fala do
professor: o prazer da atenção, a fala do aluno: o prazer de estar junto, o
convívio entre os colegas: atração e repulsão, entre outros assuntos. Da obra
destaco os trechos a seguir: [...] Vários
alunos vêm me revelar que o prazer vivenciado no espaço da sala de aula se
deve, mais que a sua relação com os professores, ao convívio que têm uns com os
outros como colegas. Registrava aqui, que os alunos, na ocupação do espaço da
sala, tendem a desfazer as conformações de filas e a se colocarem próximos uns
dos outros, em duplas, trios ou em pequenos grupos. Nas suas falas, esses
adolescentes me fazem perceber melhor como se formam esses ajuntamentos. É
comum um rapaz afirmar que tem mais intimidade e que conversa mais com as
moças. Também é comum ouvir as moças dizerem de contato mais prazeroso com os
rapazes. Segundo a maioria dos entrevistados, a permanência entre colegas na
sala de aula cria um clima propicio para a aproximação física e para a criação
de intimidade. Existem as atitudes de namoro, as trocas de olhares, os toques,
a malícia [...] Essas atitudes de
namoro – esses toques reais e simbólicos dos corpos uns dos outros – muitas
vezes acontecem sem que o professor ou os outros colegas possam perceber. A
ambiência da sala de aula não se caracteriza apenas por um clima de sedução e
malicia entre moças e rapazes. Há no espaço clima produzido por uma
multiplicidade de experiências havidas entre uns e outros. [...] Observo em quase todas as salas
consideradas, atitudes de distanciamento, de evitação e até mesmo de repulsa
por parte de integrantes desses agrupamentos nas suas relações com os outros ou
com o grupo maior da sala. A animosidade pode se dar de modo tal a deixar
antipatizado todo um grupo que se coloque na frente da sala [...] Segundo essas vozes, a sala de aula é lugar
de uma guerrinha entre uns e outros, de ojeriza velada, de discriminação do
mais pobre que veste camisa chinfrim. É um lugar de deixar de lado a menina
quietona ou a assanhada. É também lugar de maledicência em relação aos falsos,
invejosos, bagunceitos, impertinentes. Enfim, é o espaço em que o desprazer da
convivência entre colegas é feito de pequenos e grandes rancores e
intolerâncias. Entretanto, quando os alunos falam de suas experiências de maior
desprazer na sala de aula, quase nunca se referem às relações que têm com os
colegas. Referem-se a professores e lições. [...] A quse maioria absoluta dos alunos entrevistados, ao tentar explicar
sobre o desprazer que experimenta no espaço da sala, fala de circunstâncias bem
claras. É quando entre um professor chato, com suas aulas chatas e dá vontade
de sair da classe. Ficar na classe, então, é calar a boca, decorar, escutar o
professor falando, falando, falando. É quando é preciso ficar quieto, faz
calor, o corpo está cansado e enjoado de ficar sentado. É no momento da quinta
aula – vai quase todo mundo embora – e a quietude da sola mostra um tédio de
aula que não passa. Levando em conta essas explicações dos adolescentes, a sala
de aula é também um lugar de desprazer, um continuado sacrifício imposto ao
corpo e aos sentidos, além daquele que penaliza o espírito. Apesar ou além
desse duplo desprazer revelado pelos alunos, a sala de aula é um espaço de
prazer. [...] Quando falam de suas
experiências de maior prazer eles não apontam os professores ou lições. Apontam
os colegas. [...]. Veja mais aqui e aqui.
A ILUSÃO DA ALMA – No romance A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa (Companhia das
Letras, 2010), do escritor e economista Eduardo
Giannetti, encontro o trecho que destaco a seguir: [...] Quando Ralph Waldo Emerson começou a sofrer
de Alzheimer e a perder a memória, um amigo perguntou a ele como se sentia.
“Muito bem”, retrucou o filósofo, “perdi minhas faculdades mentais, mas estou
perfeitamente bem”. Nunca fui adepto do transcendentalismo emersoniano nem conhecia
a anedota naquela época, mas foi mais ou menos assim que respondi a mim mesmo
ao me questionar, no dia seguinte ao retorno a Belo Horizonte, sobre o susto
carioca. Eu estava perfeitamente bem, tudo voltara ao normal, ainda que tivesse
temporariamente perdido a lucidez. A ilusão conveniente é sorvida de um só
gole; a verdade amarga, a conta-gotas. Seria o caso de consultar um médico?
Cheguei a flertar com a possibilidade, mas a inercia da rotina acoplada à
preguiça decidiram que não. Escavei timidamente as possíveis causas do surto e
decidi deixar como estava. O autodiagnostico de um estresse pontual ou simples
estafa – era fim de ano, minha vida pessoal andava meio torta, vinha dormindo
pouco e bebendo muito, precisava ler e publicar mais, fazia um calor insano
naquela noite, não foi tão grave assim -, tudo isso de embrulhada me pareceu
mais que suficiente para legitimar a inércia e preencher o vácuo de uma
necessária explicação. Ademais, creio que herdei do meu pai – não me pergunte
como – a curiosíssima noção de que ficar doente e ter de recorrer a um médico
ou terapeuta, em qualquer circunstância, era sinal de fraqueza; uma espécie de
afetação ou capitulação moral a que apenas os frouxos estavam sujeitos. Adoecer
lá em casa, caxumba, diarreia ou resfriado, era como ir mal na escola ou dormir
até mais tarde – motivo de culpa e vergonha. Ir ao medico ou à farmácia, só em
último caso. O simples olhar do meu pai dizia tudo. (Hoje me dou conta de que a
altivez e a couraça estoica dessa recusa, encobriam, no fundo, boa dose de medo
e covardia diante da dor eventual de se ver forçado a encarar certas realidades
da vida.) Tudo somado, um imobilismo de ocasião venceu a prudência e o bom
senso. Não havia de ser nada. Resolvi tocar o barco e pôr um ponto-final no
assunto [...]. Veja mais aqui e aqui.
OS PERSAS – A tragédia Os persas (472aC), do poeta grego Ésquilo (525-455aC), faz da tetralogia do autor que ganhou o
Festival Ateniense das Grandes Dionísias, com o tema que se baseia em fatos
contemporâneos e que ocorrem em Susa, capital da Pérsia, por alturas da Batalha
de Salamina, analisado pelo lado do inimigo dos gregos, os derrotados persas,
com a trama em torno dos comportamentos dos seus nobres, de Xerxes que foi
derrotado por sua mãe Arossa e o fantasma do pai Dario. Da obra destaco o
trecho inicial do Coro: (A cena passa-se
em Susa. O teatro deve representar o palácio dos reis da Pérsia. Ver-se-á, ao
lado, o túmulo de Dario) CORO - Somos, entre os persas, chamados os Fiéis.
Guardiães deste rico e soberbo palácio, aqui estamos, enquanto eles marcham
contra a Grécia. Foi à nossa experiência, que o filho de Dario, Xerxes, nosso
rei e senhor, confiou os cuidados do império. Porém, triste pressentimento.
Nossa alma inquieta-se, no íntimo, pelo regresso do rei e seu brilhante
exército. A Ásia viu levar todas as suas forças, e acusa um jovem príncipe. Não
chega à capital da Pérsia nenhum correio ou mensageiro. De Susa a Ecbatana, dos
antigos baluartes de Ásia, infantes, cavaleiros, gente do mar, que enorme massa
de exércitos, deixaram todos a pátria. Assim partiram Amistres, Artafernes,
Megabises, Astaspes, príncipes dos persas, reis submissos do grande rei,
comandantes de numerosas hostes, hábeis no manejo do arco e dos cavalos,
temíveis no aspecto, terríveis nos combates, de insuperável coragem. Assim
partiram Artembares, bravo capitão de cavalaria; Masistres, Imeu, o hábil
arqueiro, Farandaces e Sostanes, que tão bem doma os corcéis. Das fecundas
margens do Nilo vieram Susiscanes, Pegastagon, que o Egito viu nascer; Arsames,
que governa a sagrada cidade de Menfis, e Ariomardo, senhor da antiga Tebas.
Dos pântanos egípcios chegaram inúmeros, excelentes remadores. No séquito do
rei marchavam os efeminados lídios e todos os povos do continente, submetidos
ao sátrapa Metrágato, ao virtuoso Arceu. A opulenta Sardes viu sair do seu seio
milhares de homens em carros de duplo e triplo jugo, cujo aspecto basta para
fazer estremecer. Habitantes do monte sagrado de Tmolus, Mardon e Taribis,
infatigáveis guerreiros, e seus núsios armados dardos, jactavam-se de que em
breve a Grécia escrava se curvaria ao seu jugo. A rica Babilônia enviou tropas
de toda a espécie: marujos, arqueiros, orgulhos de sua perícia. À ordem
ameaçadora de seu rei, todas as nações da Ásia se armaram e o seguiram. Assim
vimos partir a juventude florescente dos persas. A terra que a nutriu a lamenta
e chora. Mães e esposas contam, a tremer, os dias de tão longa ausência. O
exército real, que arrasa todos os baluartes, já passou para o vizinho
continente. Sobre seus navios, ligados por cabos, atravessou o estreito de
Heles, ficha de Atmas; indissolúvel ponte se estendeu sobre a face dos mares,
que ela subjugara. Digno rebento de augusta estirpe, mortal igual aos deuses, o
belicoso soberano da fecunda Ásia, pleno de confiança no valor de seus
intrépidos súditos, à Europa conduziu, por terra e mar esse imenso exército.
Qual dragão homicida, lança olhares flamejantes. Armado de um milhão de braços,
seguido de mil navios, impelindo seu carro assírio, leva contra um povo famoso
por sua lança, guerreiros temíveis por suas flechas. Quem poderia enfrentar
essa vaga enorme de soldados? Nenhum dique deteria a indomável torrente. Nada
resistiria à bravura do persa. Mas quem, dentre os homens, evitará a insidiosa
armadilha da sorte? Quem dela escapará com pé ligeiro, fácil impulso?
Acariciante e lisonjeira, a princípio, ela atrai os homens a uma rede da qual
nenhum mortal pode desvencilhar. Há muito se manifestou a vontade do céu, que
anima os persas ao assalto das torres, à tumultuosa confusão dos corcéis, à
destruição das cidades. Contemplando a vasta planície dos mares escumantes ao
sopro dos ventos... confiaram povos a frágeis cabos, débeis engenhos. O temor
dilacera, ao imaginá-lo, minha alma angustiada. Ó infortunado exército dos
persas. Que jamais a imensa cidade de Susa, sem defensores, aprenda a proferir
tais palavras. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais os muros de Ássia
necessitem responder ao grito de uma turba de mulheres, que em prantos, a
rasgarem os seus véus. Todos, infantes, cavaleiros, como um enxame de abelhas,
nas pegadas de seu príncipe, galgaram os promontórios de ambos os continentes,
unidos por uma ponte. Na ausência do esposo, o pranto umedece os leitos
nupciais. Desoladas esposas. Com amorosa saudade seguistes o impiedoso
companheiro, que para correr às armas, vos deixou solitárias. Quanto a nós,
persas fiéis, firmes neste palácio antigo, redobremos de necessária prudência e
sensatez. E meditemos. Que foi feito de Xerxes, nosso rei, filho de Dario, pai
tão bem amado? Caberá a vitória à flecha disparada pelo forte arco persa? Ou
vencerá o brandir da acerrada lança helena? Já se adiante, porém, a mãe de
Xerxes, astro semelhante ao olhar dos deuses. Adoremo-la, todos, à uma,
rendamos homenagem à rainha. (O Coro se prosterna. Entra a rainha em seu carro,
seguida de numeroso séquito). Veja mais aqui, aqui e aqui.
VIDA PRIVADA – O drama Vida privada (Vie privée, 1962), dirigindo pelo cineastra Louis Malle, conta a história de uma jovem
de classe média alta que tem uma mãe viúva na Suíça e se paixona pelo marido de
uma amiga, paixão esta não correspondida. Ela se muda para Paris para trabalhar
como modelo e dançarina, e que se transforma numa grande estrela de cinema. As
pressões e a fama, o assédio dos fãs e da imprensa afeta sua vida, obrigando-a
ao retorno à Suíça para se recuperar, quando ressurge sua paixão antiga, agora
divorciado. O caso de amor vai ter vários problemas em virtude de sua fama, com
trágicas complicações. O destaque do filme é para a atriz e ativista francesa Brigitte Bardot, para quem o roteiro do
filme foi dedicado, sendo considerado sua biografia. Veja mais aqui, aqui e
aqui.sexta-feira, março 20, 2015
SCHOLASTIQUE MUKASONGA, BELOSLAVA DIMITROVA, GÓGOL & ÂNGELA DINIZ
ÂNGELA, A LINDA
VÍTIMA VILÃ - Ela era uma linda mineira escorpiana e chamava atenção por onde
passasse. Era cobiçada por todos, a ponto de, com apenas 17 anos de idade, casar-se
e ter filhos. Desquitou-se 9 anos depois, perdendo os filhos em troca de uma
mansão em Belo Horizonte e uma pensão mensal. Mantinha-se livre, mantendo
relacionamentos esporádicos. Sua vida começou a virar um pandemônio quando o
caseiro foi assassinado com um tiro cravado na face. Ela assumiu legítima
defesa, acobertando um terceiro, na verdade: circunstâncias jamais esclarecidas.
Por isso afastou-se de Minas Gerais e mudou-se pro Rio de Janeiro, quando
conheceu o Pantera de Minas, um colunista social afamado. Pouco tempo depois,
aproximava-se o natal e foi visitar os filhos em Belo Horizonte. No seu retorno
trouxe a filha sem avisar a família do ex-marido: foi acusada de sequestro e
condenada a 6 meses de prisão. Os tumultos voltaram à tona quando foi surpreendida
por uma denúncia anônima: foi presa sob acusação de esconder maconha na sua residência,
admitindo ser viciada em drogas. Badalações, festas e muito glamour na inda
para Armação dos Búzios. Findou com três tiros de Beretta no rosto e um na nuca,
assassinada em sua casa na Praia dos Ossos. Morta tornou-se a vilã da história.
Coisas do Brasil: mata-se em nome de ciúmes e cabeça quente. Assim a história
de Ângela Diniz (Ângela Maria Fernandes Diniz – 1944-1976). Veja mais
aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS - A literatura me salvou. Se eu não pudesse escrever teria
enlouquecido... Não me resta nada a não ser a lancinante recriminação de estar
viva em meio a todos os meus mortos.... Pensamento da escritora tutsi Scholastique
Mukasonga, sobrevivente dos massacres ocorridos na década de 1990 em
Ruanda. No seu livro La femme aux pieds nus (Gallimard, 2008), ela
narra: [...] Eles queriam dizer a nós,
mulheres tutsis: 'Não dê mais à luz porque você dá à luz ao dar à luz. Vocês
não são mais portadores de vida, mas portadores de morte. [...]. No seu livro Our
Lady of the Nile (Archipelago, 2014), ela expressa: [...] Então você ainda quer fazer o que disse? 'Mais do que
nunca! Agora que sou uma heroína, e você também, dirão que é mais uma de nossas
façanhas e, acredite, será. — Você sabe muito bem que tudo se baseia nas suas
mentiras. 'Não são mentiras, é política. […]. E no seu livro Cockroaches (Archipelago, 2006), ela narra: [...]
Nenhum memorial foi construído em Rebero. Nada
para comemorar os caídos, exceto pedregulhos e pedras brancas e
vermelho-ferrugem. Procuro sinais na colina, cavo o chão. O sol está bem alto. Esta
é a hora das miragens. Afasto as pequenas pedras, arranho o chão. Encontro um
pedaço de pano esfarrapado meio enterrado na terra. Tento me convencer de que
vem da camisa de Antoine. Hesito, então deixo aquela falsa relíquia onde está. Pego
uma pedra com uma ponta afiada. Em memória. [...].
ALGUÉM FALOU: Todos os dias
me dou a chance de nascer de novo... Eu não fujo, prefiro deixar as coisas que
não preciso. Não acredito na fuga como um ato... Tenho dentro de mim uma casa,
um lugar de onde observo o mundo e onde me sinto confortável... Pensamento
da poeta e jornalista búlgara Beloslava
Dimitrova, autora do poema
Uma pessoa: pois - \ estou a 2.130 metros acima do nível do mar, \ em outras
palavras, estou sentado no fim do mundo, \tudo está coberto de vulcões e
gêiseres \ expelindo vapor e água saturada de enxofre, \ lembro-me de perguntar
novamente como chegamos aqui \ . rock over apontar \ você mostra a banheira
cheia de bactérias \ quente e rasa o meio é idêntico \ Espero que desta vez
permaneça inalterado \ sem complicações acúmulos modificações \ para finalmente
fechar \ as nadadeiras do peixe \ para que eles não se transformará \ em
membros \ para que os répteis não rastejem para fora \ e alguns não criem penas
\ para que o milagre da evolução não aconteça \ e as pessoas não apareçam \ para
que você não apareça de novo \ e muito menos eu. Dela também o poema Antidepressivos:
tudo pode ser feito\ desde que você não esteja com\ as pernas cruzadas\ grudadas
em mim\ o travesseiro enrolado\ como se fosse seu corpo\ abraçado com dois
braços\ não penso e não sonho\ com o passado como prometi\ só recito os dos
outros poesia\ cumpro todas as recomendações\ desejo opiniões comigo mesmo\ e
não vou escrever\ esse poema\ para não te machucar.
DIA INTERNACIONAL DA
FELICIDADE – A
Organização das Nações Unidas (ONU) consagrou o dia de hoje como o Dia Internacional da Felicidade. A
propósito, trago um trecho do livro Felicidade:
diálogos sobre o bem-estar na civilização (Companhia das Letras, 2002), do economista,
sociólogo e professor Eduardo Giannetti:
[...] Discutir a felicidade significa
refletir sobre o que é importante na vida. Significa ponderar os méritos
relativos de diferentes caminhos e pôr em relevo a extensão do hiato que nos
separa, individual e coletivamente, da melhor vida ao nosso alcance. O que
havia de errado e o que permanece vivo no projeto iluminista de conquista da
felicidade por meio do progresso científico e material? Até que ponto as nossas
escolhas têm conduzido à criação de condições adequadas para vidas mais livres
e dignas de serem vividas? Que lições tirar das conquistas e desacertos das
nações que lideram o processo civilizatório? A civilização entristece o animal
humano? Qual deveria ser o peso do prazer na busca da felicidade e qual deveria
ser o ligar da felicidade na melhor vida? O conhecer modifica o conhecido, o
viver modifica o vivido. As questões da filosofia estão sempre voltando ao
ponto de partida. Elas nunca se rendem, elas jamais se esgotam; só o que acaba
é o nosso fôlego e a nossa capacidade de enfrenta-las. A humanidade não se
coloca apenas os problemas que é capaz de resolver. A fome não garante a
existência do alimento capaz de saciá-la. Encaradas de um ponto de vista
sóbrio, sob a luz fria e clinica da razão, nossas aspirações de realização e
transcendência estão fadadas ao desapontamento. O tamanho da distância entre a
mais alta felicidade e a mais funda infelicidade de um homem é produto da nossa
fantasia. “A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre
entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver”. No fundo do
coração humano, entretanto, algo surdo e obstinado resiste; algo indomado
protesta a nos dizer que há alguma coisa indefinível pela qual existimos e
aspiramos, algo por que vale a pena viver e sofrer. A imaginação selvagem que
nos habita em segredo insinua esperanças e inspira sonhos que a razão
desautoriza. Os dois lados do embate têm suas armas, têm o seu apelo, têm o seu
direito. O grande equívoco é supor que um deles precise ou deva sair vitorioso.
A qualidade da tensão é o essencial [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
DIANA/ÁRTEMIS - Imagem: Diana - marble (1776), do escultor francês Jean Antoine Houdon (1741-1828) – Gulbekian Foudation, Lisboa - Portugal. - Na mitologia romana, Diana é a deusa da lua, da caça e dos animais selvagens. Muito poderosa e forte, era considerada a deusa pura, filha de Júpiter e de Latona. A sua mais famosa aventura foi transformar o caçador Acteão em um cervo porque a viu nua durante o banho. Não quis se casar e manteve-se casta. É a triformis dea – a deusa das três formas, a Lua: Ártemis, Selene (lua) e Hécate (Trívia), ou seja, a trindade da Lua. A deusa grega Ártemis, filha de Zeus e Leto, é a divindade da caça que traz entre as mãos um arco dourado e um coldre de setas nos ombros, trajando uma túnica de tamanho curto, sendo considerada uma prostituta sagrada e uma virgem responsável pelos partos, associada, portanto, à dupla faceta feminina que, ao mesmo tempo, protege e destrói, concebe e mata. Era irmã gêmea de Apolo e seu desejo desde criança foi pedir a Zeus para circular livremente pelas matas, dispensada da obrigação de casar. As festas em sua homenagem eram dedicadas as danças sensuais em louvor da lua. Ela é o símbolo maior do feminino, da sua autonomia e liberdade. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
AMORES & A ARS AMATÓRIA – O livro Amores & arte de amar (Companhia das Letras, 2011), do poeta e
autor teatral romano Publius Ovidus Nasso, conhecido como Ovídio (42aC – 17aC), faz parte das três grandes coleções de
poesias eróticas. Ele é considerado o mestre do dístico elegíaco e o último dos
elegistas amorosos latinos canônicos, escrevendo sobre amor, sedução, exílio e
mitologia. Dessa obra destaco o poema 3 do Livro , na tradução de Carlos
Ascenso André: É justo o que peço: que a
moça que ainda há pouco me cativou / ou tenha amor por mim ou faça com que
tenha eu amor por ela. / Ah, foi demasiado o meu desejo! Que apenas consinta em
ser amada, / e já Citereia terá ouvido todas as minhas súplicas. / Aceita quem
há de servir-te por longos anos, / aceita quem saberá amar com candura e
lealdade. / se não tenho a abonar-me grandes nomes de velhos / avós, se quem me
deu o sangue é um cavaleiro / e meus campos não são revolvidos por arados sem
conta, / se têm de poupar nas despesas ambos os meus pais, / ao menos, tenho a
meu lado Febo e as suas nove companheiras / e o inventor da vinha; / ao menos,
tenho aquele que a ti me entrega, o Amor; / ao menos, tenho fidelidade, que a
nenhuma outra há de ceder, / e um caráter sem mácula / e uma simplicidade pura
e um pudor que me faz corar; / não são mil as que me agradam, não sou um
saltitante do amor. / Tu, se alguma fidelidade existe, hás de ter o meu cuidado
para sempre; / contigo, quantos anos me concederem os fios tecidos pelas Irmãs,
/ esses me caiba em sorte vivê-los, e, perante a tua dor, morrer. / Mostra que
és feliz por seres assunto de meus poemas, / e meus poemas hão de surgir,
dignos de quem os inspirou; / é graças à poesia que têm nome Io, apavorada com
seus chifres, / e aquela que um amante enganou, em forma de ave dos rios, / e
aquela que sobre os mares foi trazida por um touro a fingir / e com mãos de
donzela se agarrou aos chifres recurvos. / Também eu hei de ser cantado, do
mesmo modo, no mundo inteiro, / e o meu nome para sempre ficará ligado ao teu.
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
TARAS BULBA – O romance histórico Taras Bulba (Alianza, 2010), do escritor
ucraniano Nikolai Gógol (1809-1852)
conta a história de um velho cossaco e seus dois filhos na guerra contra a
Polônia. Ele mata um dos seus filhos: - Eu te dei a luz, eu te matarei!”. O seu
outro filho é capturado pelos polacos e é executado: - Pai, estás a me ouvir?
Taras, escondido dentro da multidão responde: Sim. E foge depois. Por fim,
Taras é capturado em combate e queimado vivo. A história foi transformada em
filme estadunidense, em 1962, pouquíssimo baseado na obra, dirigido J. Lee
Thompson. Do livro destaco este trecho: [...] Os historiadores descreveram a contento essa campanha. Sabe-se que, na
terra russa, a guerra é feita em nome da fé. Uma fé terrível, sem piedade,
semelhante a um rochedo inabalável no meio de um mar sempre agitado. A massa
rochosa eleva-se das profundezas do oceano, e desgraçado do navio que se chocar
com ela! O seu casco será reduzido a pedaços, tudo voará pelos ares e os
lamentos de terror dos infelizes marinheiros encherão os ares. A história conta
como fugiam as guarnições polonesas das cidades que iam sendo libertadas, como
foram enforcados os desalmados arrendatários judeus, a inferioridade revelada
pelo oficial da coroa polonesa, Nikolai Pototski, e seu numeroso exercito,
perante a cavalgada vitoriosa dos cossacos. Esse general foi completamente
batido e metade de seu exercito afogado no rio. Encurralado na região de
Poloniel pelos cossacos, Pototski jurou solenemente que faria conceder aos
cossacos, da parte do rei e do governo da Polonia, todas as liberdades e
restituir-lhes os antigos privilégios. Os cossacos, porém, conheciam o valor
dessas promessas. Potorski não teria mais oportunidade de desfilar com seu
cavalo puro-sangue na frente das damas, nem poderia mais oferecer festas
suntuosas aos senadores da dieta, se o clero russo de Poloniel não o tivesse
salvo. Quando todos os popes, com suas casulas bordadas a ouro, com ícones e
cruzes nas mãos, e levando à frente seu bispo com mitra e báculo, saíram ao
encontro do exército vencedor, os cossacos descobriram e inclinaram a cabeça.
Nenhum poder humano, nem mesmo o rei, teria sido capaz de submetê-los, mas
inclinavam-se perante os popes. O atamã resolveu com seus coronéis deixar
partir Pototski, depois de esse ter jurado que as igrejas seriam respeitadas e
que o exercito cossaco tomaria posse de seus antigos direitos. Só um coronel
não concordou com aquela paz: Taras Bulba. Arrancando um punhado de cabelo da
cabeça, gritou: - Ei, atamã, coronéis! Não façam esses arranjos de mulheres!
Não creiam nos poloneses, pois eles nos trairão! E, quando o escrivão principal
leu o texto do tratado e o comandante o assinou, Bulba ergueu seu sabre de aço
damasquino e o quebrou pela metade, como quem quebra uma vara e, jogando longe
os pedaços, exclamou: - Adeus! Assim como os dois pedaços deste sabre não
voltarão a ser uma só arma, também nós, camaradas, não voltaremos a nos ver
neste mundo [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS
Imagem: Acervo ArtLAM . Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...
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