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terça-feira, dezembro 22, 2015

GUIMARÃES ROSA, MARINETTI, RACINE, REXROTH, IAMAMOTO, BARDOT, ABEL, ÍSIS NEFELIBATA & MUITO MAIS!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? QUANDO ENTÃO, É NATAL... - É Natal, a festa da cristandade e da satisfação – como um maçarico doido com os fogos de artifício do consumo – do capitalismo. É tudo lindo nas vitrines, luzes, sinos tocando, promoções e presentes a mancheia. Os olhos chegam enchem d’água com a trilha sonora dos corais de jingle bell e afins. É a hora da felicidade, fartura, do esbanjamento das emoções mais íntimas de prazer e gozo, de chega dá um nó na garganta poder torrar o décimo terceiro naquilo que foi sempre a necessidade de realização e de afirmação. Comprar e ter aquela última novidade que será daqui mais um mês totalmente obsoleta pela barbárie eletrônica; e ter a última edição do mais estrondoso vídeo game pras horas de lazer; e fazer listas de compras para a ceia e de presentes pros mais achegados; e receitas de bolos e pratos sofisticados; e as confraternizações nos bares e hotéis; e um professor de Bioética compra uma metralhadora de brinquedo pro filho; e Papai Noel tira uma dedada numa bunduda que não consegue segurar seu filho capetinha que quer porque quer, todo pirracento, dar um murro no bucho do bom velhinho; e tudo não passa de passatempo nas voláteis e volúveis relações que depois do ano novo volta em pé de guerra para a concorrência e sobrevivência. Mas é Natal, ora. O Brasil para e só volta a funcionar depois do carnaval. Sempre foi assim – e enquanto todo mundo festeja, os sabidos grandões armam nesse período suas estratégias e colocam em prática as suas mais nefastas táticas. E isso me dá a impressão de que verdadeiramente não existe crise – ou não?! -, ou ninguém está nem aí pra quem pintou a zebra. Desde que nasci que ouço falar em crise, sempre a sua presença no dia a dia. Será que essa crise existe realmente ou é um artifício pra dar uma movimentada mais no mercado quando ele sente falta de demanda? É como se o vuque vuque do quero agora fazer feliz meu coração, fosse comparável a uma anestesia inoculando as broncas e óbices do cotidiano: uma panaceia. E isso porque é Natal, hora de fazer bem, se reconciliar, apagar os infortúnios e apostar que, a partir de agora, tudo será diferente e melhor. Em última instância, o culto do descartável, do inócuo ou do inútil reinstaurando escrúpulos anacrônicos na reprise anual, como um remédio eficaz praquilo que se possa chamar de preenchimento do vazio e da solidão de todos os meses anteriores. É Natal, ora. E em último caso, a dissolução das relações e todas as suas implicações, no fazer o bem e a fraternidade agora para resolver todas as pendências que ficaram marcadas nas culpas e decepções. É Natal e todos embriagados de felicidade – afinal, todo mundo merece ser feliz! Ou não? Ora, ora. Então, vamos nessa aprumando a conversa aqui.

PICADINHO
 Imagem: Nu, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849), Veja mais aqui.

 Curtindo Allegro in D Minor WKO 208, do compositor alemão Carl Friedrich Abel (1723-1787), com a viola da gamba de Shirley Edith Hunt.

EPÍGRAFE – No livro Grande serão: veredas (José Olympio, 1982), do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967): No real da vida as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso. Veja mais aqui e aqui

UM ALERTA PRA AGORA – No livro Serviço Social em tempo de capital e fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social (Cortez, 2008), da socióloga e assistente social de renome, Marilda Villela Imamoto, encontro o trecho seguinte: [...] É, hoje, fundamental contribuir para a análise das classes na história brasileira, densa de determinações étnico-raciais, regionais e cultural, rurais e urbanas, que resguarde a efetiva reciprocidade entre o conhecimento científico e as configurações da vida social ao longo dessa era de extremos, nos termos de Hobsbawm. Em outros termos, somos desafiados a integrar pensamento teórico e as condições de existência social captadas a partir da diversidade das posições que os homens ocupam nos quadros da estrutura social, o que implica o reconhecimento das diferentes visões de mundo daí derivadas, às quais não é imune o pensamento científico. Isso envolve a afirmação das condições de totalidade e do devir histórico que norteie tanto os estudos monográficos quanto as interpretações globalizadoras, inter-relacionados e complementares. Em outras palavras, impulsionar o “ato científico como um ato de imaginação criadora”, cuja decadência encontra-se na raiz da crise do conhecimento científico com as invasões positivistas e empiristas, a-históricas, que estimulam a expansão irracional das especializações. Estas se desdobram na transformação do cientista em técnico, adstrito às tarefas que lhe são impostas com alvos não-científicos, em que os procedimentos e a teoria são reduzidos a instrumento de ações, orientadas segundo os interesses daqueles que financiam o seu labor. [...] Veja mais aqui e aqui.

MANIFESTO FUTURISTA – Oportuno trazer aqui o Manifesto futurista (Le Figaro, 1909), do escritor, editor, ideólogo, jornalista e ativista político italiano Filippo Marinetti (1876-1944), estabelecendo que: 1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito à energia e à temeridade. 2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia. 3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro. 4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia. 5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita. 6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais. 7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem. 8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade omnipresente. 9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo da mulher. 10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária. 11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o voo deslizante dos aviões, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta. Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMAS – Os poemas de amor de Marichiko inseridos na obra Selected poems (1967), do poeta, tradutor e ensaísta crítico estadunidense Kenneth Rexroth (1905-1982), destaco dois traduzidos por Adrian’dos Delima: XVI - Calcinada pelo amor, a cigarra / Grita em surto. Em silêncio como o vaga-lume, / Minha carne toda incendeia do amor. LVII - Noite sem fim. Solidão. / O vento traz uma folha de bordo / Contra a porta de papel translúcido. / Eu espero, como nos velhos dias, / No nosso lugar secreto, sob a lua cheia. / Os últimos grilos-de-sininhos cantam. / Eu achei tuas antigas cartas de amor, / Repletas de poemas que nunca tornaste públicos. / E importaria a alguém? / Eles foram somente para mim. Veja mais aqui.

OS PERSONAGENS TRÁGICOS – No prefácio de peça teatral Berenice (1670), o poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês Jean Racine (1639-1699), assim se expressa: [...] A regra principal é agradar e comover; todas as outras foram feitas para servir esta. [...] Os personagens trágicos devem ser vistos noutro ângulo, diferente daquele no qual vemos, regra geral, as personagens que vemos mais próximas. Pode-se dizer que o respeito que se tem pelos heróis aumenta à medida que se afastam de nós: major e longínquo reverentia. O afastamento dos locais repara, de certa forma, a demasiada proximidade dos tempos: porque o povo não encontra diferenças entre o que está, se assim posso falar, a mil anos de distancia dele, e o que está a mil léguas. É isto que faz com que, por exemplo, os personagens turcos, por mais modernos que sejam, tenham dignidade no nosso teatro. olham-nos como se fossem antigos. Veja mais aqui e aqui.

EN EFFEUILLANT LA MARGUERITE – O filme En Effeuillant la Marguerite (Desfolhando a Margarida, 1956), do cineasta e roteirista francês Marc Allégret (1900-1973), conta a odisseia parisiense de uma jovem filha de um general que irritou o pai com a publicação do seu livro que empresta título ao filme, tudo se desenrolando com muito bom humor e destacando a graça e beleza da atriz, modelo, ativista e cantora francesa Brigitte Bardot. Veja mais  aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PRO ANO TODO – As previsões pro ano todo do mestre Dorus está bombando na rede. Além de trazer as orientações de procedimentos quanto ao amor, saúde e dia a dia de cada signo, o cara-de-pau ainda dá de troco duas simpatias: a da virada do ano e a Tiro e Queda. Quer enriquecer da noite pro dia? Siga o mestre e aproveite para conferir e dar boas risadas aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do acervo de Ísis Nefelibata. Veja aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à eterna musa do cinema Brigitte Bardot
Veja aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, setembro 28, 2015

ÉSQUILO, GIANNETTI, MALLE, JARA, BARDOT, CAPP, CABANEL, JOÃO COSTA, PSICOLOGIA ESCOLAR & CALEIDOSCÓPIO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? CALEIDOSCÓPIO - Todo dia faço uma boa caminhada. Saio de casa, pernas no mundo. Assim que ponho os pés na rua, os pensamentos se agitam e saio à cata daquele que me leve para boas lembranças. Vasculho o quengo carregado, tem muita coisa. Aliás, tem de tudo. Tem até um bocado que sempre me assalta e que gostaria nunca tê-los de volta e, não sei que cargas d'água insistem em reaparecer, mantendo-se recluso e pronto para me repassar na cara. Sempre descartado, insiste em reaparecer. Por isso saio catando, escolhendo. Logo me dedico a pensar nos anseios de calmaria e de acesso à conquista daquilo que almejo. A cada passo visualizo momentos de glória e satisfação, buscando a realização plena dos meus desejos. Penso, então, no pódio, coroado de reconhecimento e aplausos. Enquanto isso, aceno pra conhecidos, cumprimento passantes, sorrio pra vida. De antemão, precavido que é inevitável o surgimento de condições aversivas. Afinal, a cidade virou uma selva com tudo de imprevisível. Tento mantê-la agradável pra mim: curto a brisa do mar longínquo, busco a harmonia com o universo. Constato o colorido, alguns descorados e bufentos prédios, escombros e suntuosidades, desníveis e contradições. À medida que me afasto do lar, mais me fecho dentro de mim. Não há rostos amigáveis nem feições simpáticas. E ao me aproximar da travessia do primeiro semáforo, um ronco de navio me rouba o prazer. Assusto-me. Quem ousaria roubar meu gozo? Pudera, acabei de adentrar numa avenida que por repulsa à sua denominação devido acontecimento histórico descabido, passo a tratá-la por inominável. Isso é lá nome que se dê a uma rua? É quando constato que tem muita coisa com nome indevido. Muita mesmo que o tempo desmascara. Paro diante da faixa de pedestre e procuro identificar o insolente que me aplacou a consumação da querência. De que adianta? Não há como demonstrar minha indignação e já me vejo pensando em um transatlântico deslizando no asfalto descendo a ladeira para encontrar o mar e seguir a viagem. Essa miragem ocupa minha mente até me dar conta da maior bobeira de trazer uma ideia inútil e quimérica. A gente pensa cada coisa! Retomo ao agora e revolvo as ideias em busca de uma que me traga de volta o prazer de viver. Eis que uma sirene me atordoa, escamoteia minha intenção. A cidade está violenta. Uma frenagem mais ríspida atormenta mais ainda minha calma, persigo intranquilo e procurando bom porto. Andar está ficando difícil. Apresso os passos e eis que um transeunte quase me leva o ombro, fico desconfortável na caminhada. Como as pessoas são maleducadas! Deu vontade de emendar os umbigos. Ora, desnecessário. O buzinaço é a prova eloquente de que nada está em ordem, tudo desordenado e que nada está ao nosso favor. Aliás, nunca está. O trânsito é a prova cabal de que estamos em processo no meio de um conflito interminável. É guerra. Minhas ideias não conseguem se organizar, não há como ter apreço numa turbulenta passagem entre um quarteirão e outro. Ouso então olhar do lado para ver se identifico algo que me chame pela atenção, inútil. Só rostos graves, gestos descorteses, pressa, gritos, ruídos, roncos de motores, estardalhaço do movimento. Tudo passa de forma despótica: se correr o bicho pega, se parar o bicho come. Ou vai, ou racha. Não se pode perder tempo para parar, o resto é mandar ver. Quem se importa, é melhor agir antes de pensar, não marcar bobeira, senão o arrependimento, já sabe. De cara as escolhas: por ali ou acolá? Adiante. Por onde? Direita ou esquerda? Não, pelo meio. Ih, volte, contorne, o lamaçal na calçada vai sujar o calçado. As pedrinhas da buracada vão levá-lo ao tombo, cuidado, pode arranhar a venta no chão. O cão ladra, perigo! É propriedade particular, não ouse aproximação. É proibido passar por ali, só para fregueses em atendimento. Respeite o cordão de isolamento. Se chamar, ignore; se cismar, corra. Confesso que não sei lidar com tudo isso, afinal ecoa tudo dentro de mim que não consigo firmar um pensamento lógico sequer. Tudo repassa no meio da barulhada: infância, momentos desagradáveis, decepções, o que deixei de fazer e o que devia ter feito, o que fiz e queria voltar atrás, em replay, flash back, mas com novo desfecho, corrigindo tudo, passando a borracha no que ficou fechado de errado, consertando tudo para finais felizes, pudera. Final feliz? Piada. Nisso, não há exceção è regra, não há retorno. Foi, tá feito. Para desfazer dá trabalho. Mas tem que ser refeito, faz-se necessário. Como? Dá-se um jeito. O que importa é refazer, recomeçar. Está difícil. Hummmm. Eita, já cheguei em casa, findei a caminhada. Nossa, agora que percebi: a guerra não está lá fora, está mesmo dentro de mim. Vamos aprumar a conversa e veja mais aqui.

 Imagem: The Birth of Venus (1863), do pintor francês Alexandre Cabanel (1823-188). Veja mais aqui e aqui.


Curtindo o álbum Victor Jara habla y canta (1996), do poeta, cantor, compositor, professor, diretor de teatro e ativista chileno Victor Jara (1932-1973).

A ESCOLA COMO ESPAÇO DE PRAZER – O livro A escola como espaço de prazer (Summus, 2000), de Icleia Rodrigues de Lima e Gomes, aborda temas como a nudez nocional da fase teórica, o quebra-cabeça da fase prática, do campo e da coleta de dados, dos dados e da análise, o espaço, o ritmo e as formas do rito escolar, as percussões sagradas e os deuses iluminadores da escola, o ritual da alumiação: a aula, as sacralidades clandestinas, ato de contrição: a atenção, ato de expansão: a festa escondida do corpo, as muitas caras de Dionisio, as vozes que o corpo cala, um falar sobre estar junto, anatomia e fisiologia da sala de aula, formas e cores, ruídos e odores da socialidade, o toque das coisas e dos corpos, o toque familiar, o toque sensual, o toque sexual, os toques e os limites escolares, o toque professoral, os sentidos de prazer e o cotidiano da escola, a fala do professor: o prazer da atenção, a fala do aluno: o prazer de estar junto, o convívio entre os colegas: atração e repulsão, entre outros assuntos. Da obra destaco os trechos a seguir: [...] Vários alunos vêm me revelar que o prazer vivenciado no espaço da sala de aula se deve, mais que a sua relação com os professores, ao convívio que têm uns com os outros como colegas. Registrava aqui, que os alunos, na ocupação do espaço da sala, tendem a desfazer as conformações de filas e a se colocarem próximos uns dos outros, em duplas, trios ou em pequenos grupos. Nas suas falas, esses adolescentes me fazem perceber melhor como se formam esses ajuntamentos. É comum um rapaz afirmar que tem mais intimidade e que conversa mais com as moças. Também é comum ouvir as moças dizerem de contato mais prazeroso com os rapazes. Segundo a maioria dos entrevistados, a permanência entre colegas na sala de aula cria um clima propicio para a aproximação física e para a criação de intimidade. Existem as atitudes de namoro, as trocas de olhares, os toques, a malícia [...] Essas atitudes de namoro – esses toques reais e simbólicos dos corpos uns dos outros – muitas vezes acontecem sem que o professor ou os outros colegas possam perceber. A ambiência da sala de aula não se caracteriza apenas por um clima de sedução e malicia entre moças e rapazes. Há no espaço clima produzido por uma multiplicidade de experiências havidas entre uns e outros. [...] Observo em quase todas as salas consideradas, atitudes de distanciamento, de evitação e até mesmo de repulsa por parte de integrantes desses agrupamentos nas suas relações com os outros ou com o grupo maior da sala. A animosidade pode se dar de modo tal a deixar antipatizado todo um grupo que se coloque na frente da sala [...] Segundo essas vozes, a sala de aula é lugar de uma guerrinha entre uns e outros, de ojeriza velada, de discriminação do mais pobre que veste camisa chinfrim. É um lugar de deixar de lado a menina quietona ou a assanhada. É também lugar de maledicência em relação aos falsos, invejosos, bagunceitos, impertinentes. Enfim, é o espaço em que o desprazer da convivência entre colegas é feito de pequenos e grandes rancores e intolerâncias. Entretanto, quando os alunos falam de suas experiências de maior desprazer na sala de aula, quase nunca se referem às relações que têm com os colegas. Referem-se a professores e lições. [...] A quse maioria absoluta dos alunos entrevistados, ao tentar explicar sobre o desprazer que experimenta no espaço da sala, fala de circunstâncias bem claras. É quando entre um professor chato, com suas aulas chatas e dá vontade de sair da classe. Ficar na classe, então, é calar a boca, decorar, escutar o professor falando, falando, falando. É quando é preciso ficar quieto, faz calor, o corpo está cansado e enjoado de ficar sentado. É no momento da quinta aula – vai quase todo mundo embora – e a quietude da sola mostra um tédio de aula que não passa. Levando em conta essas explicações dos adolescentes, a sala de aula é também um lugar de desprazer, um continuado sacrifício imposto ao corpo e aos sentidos, além daquele que penaliza o espírito. Apesar ou além desse duplo desprazer revelado pelos alunos, a sala de aula é um espaço de prazer. [...] Quando falam de suas experiências de maior prazer eles não apontam os professores ou lições. Apontam os colegas. [...]. Veja mais aqui e aqui.

A ILUSÃO DA ALMA – No romance A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa (Companhia das Letras, 2010), do escritor e economista Eduardo Giannetti, encontro o trecho que destaco a seguir: [...] Quando Ralph Waldo Emerson começou a sofrer de Alzheimer e a perder a memória, um amigo perguntou a ele como se sentia. “Muito bem”, retrucou o filósofo, “perdi minhas faculdades mentais, mas estou perfeitamente bem”. Nunca fui adepto do transcendentalismo emersoniano nem conhecia a anedota naquela época, mas foi mais ou menos assim que respondi a mim mesmo ao me questionar, no dia seguinte ao retorno a Belo Horizonte, sobre o susto carioca. Eu estava perfeitamente bem, tudo voltara ao normal, ainda que tivesse temporariamente perdido a lucidez. A ilusão conveniente é sorvida de um só gole; a verdade amarga, a conta-gotas. Seria o caso de consultar um médico? Cheguei a flertar com a possibilidade, mas a inercia da rotina acoplada à preguiça decidiram que não. Escavei timidamente as possíveis causas do surto e decidi deixar como estava. O autodiagnostico de um estresse pontual ou simples estafa – era fim de ano, minha vida pessoal andava meio torta, vinha dormindo pouco e bebendo muito, precisava ler e publicar mais, fazia um calor insano naquela noite, não foi tão grave assim -, tudo isso de embrulhada me pareceu mais que suficiente para legitimar a inércia e preencher o vácuo de uma necessária explicação. Ademais, creio que herdei do meu pai – não me pergunte como – a curiosíssima noção de que ficar doente e ter de recorrer a um médico ou terapeuta, em qualquer circunstância, era sinal de fraqueza; uma espécie de afetação ou capitulação moral a que apenas os frouxos estavam sujeitos. Adoecer lá em casa, caxumba, diarreia ou resfriado, era como ir mal na escola ou dormir até mais tarde – motivo de culpa e vergonha. Ir ao medico ou à farmácia, só em último caso. O simples olhar do meu pai dizia tudo. (Hoje me dou conta de que a altivez e a couraça estoica dessa recusa, encobriam, no fundo, boa dose de medo e covardia diante da dor eventual de se ver forçado a encarar certas realidades da vida.) Tudo somado, um imobilismo de ocasião venceu a prudência e o bom senso. Não havia de ser nada. Resolvi tocar o barco e pôr um ponto-final no assunto [...]. Veja mais aqui e aqui.

ELIANA & SOLIDÃO - Na antologia Poetas de Palmares (Fundarpe/FCCHBF, 1987), organizada pelo poeta Juareiz Correya, encontro os poemas do poeta, redator-chefe do jornal A Notícia e da revista Palmira, João Costa, que é autor do livro de poesia Confidências de outono. Dele trago primeiro o soneto Eliana: Riso de fada, um porte de princesa, / doce na fala, meiga nas ações, / Eliana tem na sua singeleza / o mesmo brilho das constelações. / Por isso mesmo, deu-lhe a natureza / uma voz enfeitada de canções, / para matar as noites da tristeza / e dar dias de sol aos corações. / Esbelta, quando passa, tudo para... / que flor humana isenta dos abrolhos, / urdida só para os mais belos fins! / Eliana é tudo; além do mais, é rara, / porque conduz no lírio dos seus olhos / o perfume de todos os jardins. E também o soneto Solidão: Vivo só. No meu ser sempre a sangrar / a chaga enorme da desolação. / Expulso, às vezes, minha dor num bar, / porque o vinho entorpece a solidão. / Só; perdi a noção de caminhar, / e se estreita o meu senso de afeição, / enquanto se avoluma, sem parar, / o meu mar de tumulto e de aflição. / Quando a morte apagar meu ser bisonho, / e o corpo, só, tiver no duro chão, / todas as células inermes, / eu terei realizado o maior sonho: / para matar a minha solidão, / a companhia tumular dos vermes. Veja mais aqui e aqui.

OS PERSAS – A tragédia Os persas (472aC), do poeta grego Ésquilo (525-455aC), faz da tetralogia do autor que ganhou o Festival Ateniense das Grandes Dionísias, com o tema que se baseia em fatos contemporâneos e que ocorrem em Susa, capital da Pérsia, por alturas da Batalha de Salamina, analisado pelo lado do inimigo dos gregos, os derrotados persas, com a trama em torno dos comportamentos dos seus nobres, de Xerxes que foi derrotado por sua mãe Arossa e o fantasma do pai Dario. Da obra destaco o trecho inicial do Coro: (A cena passa-se em Susa. O teatro deve representar o palácio dos reis da Pérsia. Ver-se-á, ao lado, o túmulo de Dario) CORO - Somos, entre os persas, chamados os Fiéis. Guardiães deste rico e soberbo palácio, aqui estamos, enquanto eles marcham contra a Grécia. Foi à nossa experiência, que o filho de Dario, Xerxes, nosso rei e senhor, confiou os cuidados do império. Porém, triste pressentimento. Nossa alma inquieta-se, no íntimo, pelo regresso do rei e seu brilhante exército. A Ásia viu levar todas as suas forças, e acusa um jovem príncipe. Não chega à capital da Pérsia nenhum correio ou mensageiro. De Susa a Ecbatana, dos antigos baluartes de Ásia, infantes, cavaleiros, gente do mar, que enorme massa de exércitos, deixaram todos a pátria. Assim partiram Amistres, Artafernes, Megabises, Astaspes, príncipes dos persas, reis submissos do grande rei, comandantes de numerosas hostes, hábeis no manejo do arco e dos cavalos, temíveis no aspecto, terríveis nos combates, de insuperável coragem. Assim partiram Artembares, bravo capitão de cavalaria; Masistres, Imeu, o hábil arqueiro, Farandaces e Sostanes, que tão bem doma os corcéis. Das fecundas margens do Nilo vieram Susiscanes, Pegastagon, que o Egito viu nascer; Arsames, que governa a sagrada cidade de Menfis, e Ariomardo, senhor da antiga Tebas. Dos pântanos egípcios chegaram inúmeros, excelentes remadores. No séquito do rei marchavam os efeminados lídios e todos os povos do continente, submetidos ao sátrapa Metrágato, ao virtuoso Arceu. A opulenta Sardes viu sair do seu seio milhares de homens em carros de duplo e triplo jugo, cujo aspecto basta para fazer estremecer. Habitantes do monte sagrado de Tmolus, Mardon e Taribis, infatigáveis guerreiros, e seus núsios armados dardos, jactavam-se de que em breve a Grécia escrava se curvaria ao seu jugo. A rica Babilônia enviou tropas de toda a espécie: marujos, arqueiros, orgulhos de sua perícia. À ordem ameaçadora de seu rei, todas as nações da Ásia se armaram e o seguiram. Assim vimos partir a juventude florescente dos persas. A terra que a nutriu a lamenta e chora. Mães e esposas contam, a tremer, os dias de tão longa ausência. O exército real, que arrasa todos os baluartes, já passou para o vizinho continente. Sobre seus navios, ligados por cabos, atravessou o estreito de Heles, ficha de Atmas; indissolúvel ponte se estendeu sobre a face dos mares, que ela subjugara. Digno rebento de augusta estirpe, mortal igual aos deuses, o belicoso soberano da fecunda Ásia, pleno de confiança no valor de seus intrépidos súditos, à Europa conduziu, por terra e mar esse imenso exército. Qual dragão homicida, lança olhares flamejantes. Armado de um milhão de braços, seguido de mil navios, impelindo seu carro assírio, leva contra um povo famoso por sua lança, guerreiros temíveis por suas flechas. Quem poderia enfrentar essa vaga enorme de soldados? Nenhum dique deteria a indomável torrente. Nada resistiria à bravura do persa. Mas quem, dentre os homens, evitará a insidiosa armadilha da sorte? Quem dela escapará com pé ligeiro, fácil impulso? Acariciante e lisonjeira, a princípio, ela atrai os homens a uma rede da qual nenhum mortal pode desvencilhar. Há muito se manifestou a vontade do céu, que anima os persas ao assalto das torres, à tumultuosa confusão dos corcéis, à destruição das cidades. Contemplando a vasta planície dos mares escumantes ao sopro dos ventos... confiaram povos a frágeis cabos, débeis engenhos. O temor dilacera, ao imaginá-lo, minha alma angustiada. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais a imensa cidade de Susa, sem defensores, aprenda a proferir tais palavras. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais os muros de Ássia necessitem responder ao grito de uma turba de mulheres, que em prantos, a rasgarem os seus véus. Todos, infantes, cavaleiros, como um enxame de abelhas, nas pegadas de seu príncipe, galgaram os promontórios de ambos os continentes, unidos por uma ponte. Na ausência do esposo, o pranto umedece os leitos nupciais. Desoladas esposas. Com amorosa saudade seguistes o impiedoso companheiro, que para correr às armas, vos deixou solitárias. Quanto a nós, persas fiéis, firmes neste palácio antigo, redobremos de necessária prudência e sensatez. E meditemos. Que foi feito de Xerxes, nosso rei, filho de Dario, pai tão bem amado? Caberá a vitória à flecha disparada pelo forte arco persa? Ou vencerá o brandir da acerrada lança helena? Já se adiante, porém, a mãe de Xerxes, astro semelhante ao olhar dos deuses. Adoremo-la, todos, à uma, rendamos homenagem à rainha. (O Coro se prosterna. Entra a rainha em seu carro, seguida de numeroso séquito). Veja mais aqui, aqui e aqui.

VIDA PRIVADA – O drama Vida privada (Vie privée, 1962), dirigindo pelo cineastra Louis Malle, conta a história de uma jovem de classe média alta que tem uma mãe viúva na Suíça e se paixona pelo marido de uma amiga, paixão esta não correspondida. Ela se muda para Paris para trabalhar como modelo e dançarina, e que se transforma numa grande estrela de cinema. As pressões e a fama, o assédio dos fãs e da imprensa afeta sua vida, obrigando-a ao retorno à Suíça para se recuperar, quando ressurge sua paixão antiga, agora divorciado. O caso de amor vai ter vários problemas em virtude de sua fama, com trágicas complicações. O destaque do filme é para a atriz e ativista francesa Brigitte Bardot, para quem o roteiro do filme foi dedicado, sendo considerado sua biografia. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do cartunista e escritor estadunidense Al Capp (1909-1979), autor das tiras satíricas de quadrinhos Ferdinando (Li’l Abner, no Brasil Família Buscapé).


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de Amor, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
 Dê livros de presente para as crianças.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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segunda-feira, junho 15, 2015

BAUDRILLARD, HILST, MANABU, GRIEG, POUSSIN, BARDOT, ROUSSEL & ZULMIRA TAVARES.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A vida passa em cada passo do caminho, vou passarinho professando a minha fé. Vou bem cedinho pela estrada que se espalma, o Nordeste em minha alma, nos catombos do trupe. Vou Severino percorrer légua tirana, com toda aventura humana no solado do meu pé. Sou cantador e carrego no canto minha vida no manto que reveste o valor, pra onde eu for eu me valha do encanto, pra chegar em qualquer canto com a verdade do amor. Vou com meu canto em cada canto lado a lado, vou com cuidado afinando o meu gogó. Sem ter espanto, todo só de luz armado, tino aceso e aprumado, evitando um quiprocó. Vou confiante, entre o céu e a terra, a ponte no destino do horizonte, vou bater até no sol. Sou cantador e carrego no canto, minha vida no manto que reveste o valor. Pra onde eu for, eu me valha do encanto, pra chegar em qualquer canto com a verdade do amor. Digo bem alto e minha crença toma abrigo, sem ter asilo na redoma do mundão. Sigo o sermão no rumo a rota do estradeiro, assuntando o paradeiro na melhor entonação. Passo nos peitos a ficar comendo orvalho, se cantar é o meu trabalho Deus me dê toda canção. Sou cantador e carrego no canto, minha vida no manto que reveste o valor. Pra onde eu for, eu me valha do encanto pra chegar em qualquer canto com a verdade do amor. (Cantador © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados). Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Sleeping Venus and Cupid, do pintor francês Nicolas Poussin (1584-1665)

Curtindo o Concerto para Piano e Orquestra em Lá menor - op. 16 -, do compositor norueguês Edvard Grieg (1843-1907), com as pianistas Patricia Glatzl & Lígia Moreno, com a regência da Orquestra do maestro Flávio Augusto.

SIMULACRO E SIMULAÇÕES – A obra Simulacro e simulações (1961 – Relógio D´Água, 1991), do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007), aborda sobre a precessão dos simulacros, o cenário retro da história, o holocausto, China Syndrom, Apocalipse Now, o efeito Beaubourg: implosão e dissuasão, hipermecardo e hipermercadoria, a implosão no sentido dos media, publicidade absoluta e zero, clone story, hologramas, crash, simulação e ficção científica, os animais e o território da metamorfose, o resto, o cadáver em espiral, o último tango do valor, niilismo, entre outros assuntos. Logo de primeira o autor traz uma epígrafe do Eclesiastes: O simulacro nunca é o que oculta a verdade – é a verdade que oculta que não existe. O simulacro é verdadeiro. A obra traz a definição de simulacro como a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade que não são apenas abstrações fictícias, porém representando com um real que coincide com os vestígios imaginários dessa mesma realidade e que são produzidos a partir de um sistema operacional que envolve uma diversidade de componentes como a memória, modelos e matrizes de comando que são reproduzidos em séries e por muitas vezes. Com isso, ressalta a estratégia do real, observando que a hiper-realidade e a simulação são totalmente dissuasivas de todo o princípio e de todo fim, razão pela qual o nuclear torna-se o auge da simulação, considerando, porém, que há o terror da vertente espetacular de todo um sistema de fragmentação projetado no interior dos paradigmas da realidade, onde tudo é hiperfuncional, por que a circulação e o acidente, a técnica e a morte, o sexo e a simulação são como uma só grande máquina sincrônica. O autor, então, nos convoca a entender a realidade que há por trás do espelho, na qual a sua pluralidade pode ser questionada a partir das perspectivas do simulacro e simulações. Veja mais aqui e aqui.

UM ESTADO MUITO INTERESSANTE (Foto: Bel Pedrosa) – Entre os selecionados da antologia 26 Poetas hoje (Aeroplano, 2007), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, está a premiada escritora e pesquisadora pós-graduada em cinema, Zulmira Ribeiro Tavares. Entre os seus poemas destaco o Um estado muito interessante: Conheço o meu país / no escuro – pelo tato. / E se me amarram as mãos nas costas / conheço pelo cheiro. / E se me tapam o nariz / ainda assim conheço o meu país / pelo que dele sobra / à minha volta. / Não conheço o meu país pela boca. / Não conheço o meu país pelos ouvidos. / Não conheço o meu país pelos olhos. / O que a boca solta o ouvido não encontra, / o papel não grava, o olho não recorta. / Conheço o meu país / mas não o conheço de dentro. / Também não o conheço de fora. / Conheço-o de lado. / Quer dizer que o conheço / sem relevo. / Muito curioso esse país rasante / como um voo rasteiro. / Meu país bicho-de-concha / para dentro de sua casca / sem contorno. / Muito curioso esse país no escuro / sem local exato de pouso / para os dedos. / Muito curioso esse país de cheiros / sem apoio. / Muito curioso / e muito interessante. / O termo é este. / Um país interessante / é como uma mulher em estado interessante? / Uma mulher em estado interessante / sempre acaba / em trabalho de parto? / inevitavelmente? não há outra saída / além daquela prevista na barriga? / Um país muito barrigudo / é uma mulher inchada – / de basófia ou filhos? / A comparação não cabe, entre pessoas / estados, de corpo, alma / e federativos? / Ou cabe até demais? / É isto mesmo: / Tudo cabe em um país. / Ou não? / Como tirar a dúvida? / Por exclusão / do que primeiro? / estados? almas? / pessoas? / o que fica? sobra? federação? filhos? / O que faço / se não controlo as respostas / pela boca; assobio? / Deixo passar em brancas nuvens / o que o olho não / Por que não me conformo / pelo meu país a gastar menos / a só usar uma narina e um dedo? / Por que o anseio / de vir a conhecer a raiz dos cheiros / relevos posição dos corpos mares rios / rotas ares esquadrias? / Tão sentimental vou indo / olhos de leitura sem legenda / e boca sem sentenças / indo estou voltando / ao ponto de partida / No escuro meu país é simples. / Dois sentidos bastam. / E sobram. / Sem nenhum sentido / meu país teria / a mais perfeita ordem. Veja mais aqui.

O RATO NO MURO – A peça teatral Rato no Muro (1967 – Nankin, 2000), da poeta, ficcionista e dramaturga Hilda Hilst (1930-2004), traz a representação do rato como único ser que pode enxerfar além dos limites e que mesmo vivendo em lugares imundos conseguir ir, observar e voltar entre os muros onde se encontram vivendo freiras, estas inquirindo sempre o que há além dos muros de sua clausura. Da obra destaco o trecho: (Entram a Irmã Superiora e a Irmã D, carregando um pequeno caixão como de uma criança. Branco) TODAS JUNTAS - Oh! SUPERIORA - Ela se matou. Não tinha mais para quem dar o seu pão e o seu leite. IRMÃ H - Mas ela está aí? Neste caixãozinho? SUPERIORA - Ela era uma mulher-criança. E as mulheres-crianças ficam deste tamanho quando morrem. IRMÃ A - E ainda existe alguém que se mata por causa de um gato? Que se mata? SUPERIORA - É evidente, se ela está morta. IRMÃ C - E não seria por outra coisa? Talvez pelas próprias culpas? IRMÃ H - (em aflição) Não fale assim, não fale assim, meu Deus, nós temos que chegar até o muro. (vai até a janela) Olhem, olhem aquela ferida enorme nas montanhas de pedra... Tudo isso não deve ser em vão. Ninguém arranca as vísceras de uma montanha por nada. IRMÃ I - Mas se arrancam as vísceras do rato, porque não arrancariam as da pedra? SUPERIORA - (para a Irmã D) Eu não disse que elas ficam patéticas diante da morte? IRMÃ H - (com firmeza) Nós queremos chegar até o muro. SUPERIORA - Vocês sabem que é impossível. IRMÃ D - É inútil, é inútil. TODAS - (menos a Irmã G e Irmã D) Por quê? SUPERIORA - Porque sempre foi assim. IRMÃ D - Sempre. IRMÃ B - Não é verdade o que elas dizem. Nós podíamos quase encostar no muro, na hora da meditação e da leitura. Não é verdade? SUPERIORA - É verdade somente nessa hora. Mas assim mesmo vocês nunca chegaram muito perto. Por quê? IRMÃ B - Não sei... IRMÃ H - Vocês sabem? IRMÃ A - Eu não. IRMÃ C - Eu também não sei. IRMÃ F - Nem eu. IRMÃ D - (ri altíssimo) Elas nem sabem o que querem. Chegaram tão perto... SUPERIORA - É porque o muro parece tão irreal agora que vocês o desejam. IRMÃ H - A senhora quer nos confundir. IRMÃ G - Nós nos confundimos sempre. IRMÃ C - (referindo-se à Superiora) Só quando ela está por perto. Temos medo. - Vocês têm medo de mim? IRMÃ F - Mas aos poucos perderemos. SUPERIORA - Vocês têm medo é disto. (aponta o caixão) IRMÃ I - Imagine, eu posso até tocá-lo. IRMÃ A - Eu também. E vocês? IRMÃS B, C E F Nós não temos medo. (tocam o caixão) Pronto. IRMÃ H - Nem temos medo... Deles. SUPERIORA - Deles, quem? IRMÃ H - A senhora sabe muito bem. Os seres. SUPERIORA - Os estrangeiros? IRMÃ I - Os que vieram na noite. SUPERIORA - Cada uma de vocês pensará sempre nessa possibilidade. IRMÃ H - Que possibilidade? SUPERIORA - De chegar até o muro. IRMÃ A - De subí-lo. IRMÃ B - Transpô-lo. IRMÃ C - Ver mais adiante. IRMÃ D - É inútil. É inútil. IRMÃ F - (vibra as mãos como se fossem asas, cada vez mais alto) Como um pássaro... como um pássaro! IRMÃ H - É preciso que nós façamos tudo na noite. A noite é sempre melhor para essas empresas. IRMÃ I - (olhando pela janela) Lua... Baça. IRMÃ H - (em aflição) O quê? IRMÃ I - Lua... Baça. IRMÃ H - (indo rapidamente até a janela) Apenas uma névoa. Vamos. SUPERIORA - E se eu disser a vocês que isso é impossível. IRMÃ B - Nós temos força. Somos em maior número. IRMÃ A - Todos esses ritos, todos os dias... sempre na sombra. IRMÃ C - E eu estou cansada de sangrar. IRMÃ F - Como um pássaro... como um pássaro! IRMÃ G - Eu não me canso de comer. È uma coisa do ventre. É doença. SUPERIORA - É culpa. (Todas voltam para a Superiora) IRMÃS A, B, C e F(tom cantante, crescente. Tensão) Ai... Sim... Aaaííí... A... Í. IRMÃ H - Parem! Parem! Vocês não vêem que ela está tentando nos deixar sem resposta? Que quando ela fala na culpa nós pensamos no tempo? E que diante dela nós nos comportamos como um brinquedo de corda? Que estamos fartas de ficar diante da morte e da renúncia? IRMÃ G - Olha o rato. SUPERIORA - (para a Irmã H. Severa) O rato é você. Que deseja subir e ver. (tom crescente, procurando tensão) IRMÃ D - No entanto, no entanto. SUPERIORA - Ainda que tu subisses... IRMÃ D - Aquela pedra lisa... SUPERIORA - E assistisses... IRMÃ D - Ao mais fundo, ao mais alegre. SUPERIORA - O mais triste... IRMÃ D - Ainda que tocasses... SUPERIORA - Áquela pedra rara... IRMÃ D - E deixasses o vestígio... SUPERIORA - De uma mancha... IRMÃ D - Escura ou clara... SUPERIORA E IRMÃ D - Ainda... Ainda. SUPERIORA - Não seria o suficiente... IRMÃ D - Para o teu desejo de ser mais. SUPERIORA - E mais, e mais... (apontando a Irmã G) como a tua vontade enorme de comer! IRMÃ G - (tom cantante) Oh, Senhor de todas as nossas culpas, entristecei-vos. SUPERIORA - Hein? Como disseram? IRMÃ H - Não respondam, por favor, na respondam! TODAS - (menos a Irmã H) (tom agudo) Alegrai-vos para que nós não nos esqueçamos de todas as nossas culpas. IRMÃ H - Parem pelo amor de Deus, parem! SUPERIORA - São muitas? TODAS - (menos a Irmã H) (tom cantante) Muitíssimas. SUPERIORA - Quantas? IRMÃ H - Não, não continuem! (repetindo “PAREM”, até a exaustão) TODAS - (diversos tons) Tan... Tas, tan... Tas, tan... Tas, tan... Tas. (Irmã H aproxima-se da Irmã I, agarrando-a sempre repetindo “PAREM”. Rola pelo chão) FIM. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ET DIEU... CRÉA LA FEMME – O filme Et Dieu... cré la femme (E Deus criou a mulher, 1956), dirigo pelo cineasta, produtor e roteirista cinematográfico francês Roger Vadin (1928-2000), com roteiro do diretor e Raoul Lévy, e música de Paul Misraki, conta as experiências de uma órfã de dezoito anos com desejos sexuais à flor da pele e mania de andar descala, fato que chama muita atenção e acende os desejos masculinos ao seu redor. Ela passa a ser cobiçada por ricaços, incluindo o ancião que pretende usá-la como atração num novo cassino a ser construído, mas que é obstruído pelos proprietários que se negam a vender o terreno desejado. Eis que o filho mais velho da família, retorna ao lar para avaliação da situação familiar, logo se ver seduzido pela jovem que já se depara com a ameaça dos seus guardiões de enclausura-la num orfanato. Eis que ela se casa com o irmão mais novo e os problemas começam a surgir causando escândalos que ultrapassam os limites cênicos e envolvem as plateias de diversos países. Por conta da sedutora presença da jovem o filme foi banidos em diversos países católicos – incluindo além da Europa, os Estados Unidos onde a Liga da Decência Católica condenou com veemência – e exigiam censura moral, tudo por conta das cenas de nudez da atriz e ativista francesa Brigitte Bardot, como do biquíni usado e altamente contestado pela sociedade conservadora e pelas cenas de dança descalça. Eis, então, que o diretor resolve fazer uma refilmagem em 1988, substituindo a voluptuosa BB – ícone de popularidade da Bardotmania e símbolo sexual dos anos 50 e 60 - pela atriz Rebecca De Mornay. Entre outros tantos escândalos pela belíssima BB, um fato bastante polêmico foi o de ter sido premiada com a Legião de Honra Francesa e, sem cerimônia, recusou o prêmio. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Composição Humana, série erótica do pintor, desenhista e tapeceiro japonês, pioneiro do abstracionismo no Brasil, Manabu Mabe (1924-1997).

IMAGEM DO DIA
Imagem: The Reading girl (1886) do pintor e artista gráfico inglês Theodore Roussel (1847-1926)


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Quem desiste jamais saberá o gosto de qualquer vitória, A linguagem & as outras ciências de Roman Jakobson, Nos caminhos de Swan de Marcel Proust, a pintura de Henry Asencio, a arte de Regina José Galindo, a fotografia de Thomas Karsten, Tortura nunca mais, a música de Secos & Molhados & Luiza Possi aqui.

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