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terça-feira, dezembro 22, 2015

GUIMARÃES ROSA, MARINETTI, RACINE, REXROTH, IAMAMOTO, BARDOT, ABEL, ÍSIS NEFELIBATA & MUITO MAIS!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? QUANDO ENTÃO, É NATAL... - É Natal, a festa da cristandade e da satisfação – como um maçarico doido com os fogos de artifício do consumo – do capitalismo. É tudo lindo nas vitrines, luzes, sinos tocando, promoções e presentes a mancheia. Os olhos chegam enchem d’água com a trilha sonora dos corais de jingle bell e afins. É a hora da felicidade, fartura, do esbanjamento das emoções mais íntimas de prazer e gozo, de chega dá um nó na garganta poder torrar o décimo terceiro naquilo que foi sempre a necessidade de realização e de afirmação. Comprar e ter aquela última novidade que será daqui mais um mês totalmente obsoleta pela barbárie eletrônica; e ter a última edição do mais estrondoso vídeo game pras horas de lazer; e fazer listas de compras para a ceia e de presentes pros mais achegados; e receitas de bolos e pratos sofisticados; e as confraternizações nos bares e hotéis; e um professor de Bioética compra uma metralhadora de brinquedo pro filho; e Papai Noel tira uma dedada numa bunduda que não consegue segurar seu filho capetinha que quer porque quer, todo pirracento, dar um murro no bucho do bom velhinho; e tudo não passa de passatempo nas voláteis e volúveis relações que depois do ano novo volta em pé de guerra para a concorrência e sobrevivência. Mas é Natal, ora. O Brasil para e só volta a funcionar depois do carnaval. Sempre foi assim – e enquanto todo mundo festeja, os sabidos grandões armam nesse período suas estratégias e colocam em prática as suas mais nefastas táticas. E isso me dá a impressão de que verdadeiramente não existe crise – ou não?! -, ou ninguém está nem aí pra quem pintou a zebra. Desde que nasci que ouço falar em crise, sempre a sua presença no dia a dia. Será que essa crise existe realmente ou é um artifício pra dar uma movimentada mais no mercado quando ele sente falta de demanda? É como se o vuque vuque do quero agora fazer feliz meu coração, fosse comparável a uma anestesia inoculando as broncas e óbices do cotidiano: uma panaceia. E isso porque é Natal, hora de fazer bem, se reconciliar, apagar os infortúnios e apostar que, a partir de agora, tudo será diferente e melhor. Em última instância, o culto do descartável, do inócuo ou do inútil reinstaurando escrúpulos anacrônicos na reprise anual, como um remédio eficaz praquilo que se possa chamar de preenchimento do vazio e da solidão de todos os meses anteriores. É Natal, ora. E em último caso, a dissolução das relações e todas as suas implicações, no fazer o bem e a fraternidade agora para resolver todas as pendências que ficaram marcadas nas culpas e decepções. É Natal e todos embriagados de felicidade – afinal, todo mundo merece ser feliz! Ou não? Ora, ora. Então, vamos nessa aprumando a conversa aqui.

PICADINHO
 Imagem: Nu, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849), Veja mais aqui.

 Curtindo Allegro in D Minor WKO 208, do compositor alemão Carl Friedrich Abel (1723-1787), com a viola da gamba de Shirley Edith Hunt.

EPÍGRAFE – No livro Grande serão: veredas (José Olympio, 1982), do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967): No real da vida as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso. Veja mais aqui e aqui

UM ALERTA PRA AGORA – No livro Serviço Social em tempo de capital e fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social (Cortez, 2008), da socióloga e assistente social de renome, Marilda Villela Imamoto, encontro o trecho seguinte: [...] É, hoje, fundamental contribuir para a análise das classes na história brasileira, densa de determinações étnico-raciais, regionais e cultural, rurais e urbanas, que resguarde a efetiva reciprocidade entre o conhecimento científico e as configurações da vida social ao longo dessa era de extremos, nos termos de Hobsbawm. Em outros termos, somos desafiados a integrar pensamento teórico e as condições de existência social captadas a partir da diversidade das posições que os homens ocupam nos quadros da estrutura social, o que implica o reconhecimento das diferentes visões de mundo daí derivadas, às quais não é imune o pensamento científico. Isso envolve a afirmação das condições de totalidade e do devir histórico que norteie tanto os estudos monográficos quanto as interpretações globalizadoras, inter-relacionados e complementares. Em outras palavras, impulsionar o “ato científico como um ato de imaginação criadora”, cuja decadência encontra-se na raiz da crise do conhecimento científico com as invasões positivistas e empiristas, a-históricas, que estimulam a expansão irracional das especializações. Estas se desdobram na transformação do cientista em técnico, adstrito às tarefas que lhe são impostas com alvos não-científicos, em que os procedimentos e a teoria são reduzidos a instrumento de ações, orientadas segundo os interesses daqueles que financiam o seu labor. [...] Veja mais aqui e aqui.

MANIFESTO FUTURISTA – Oportuno trazer aqui o Manifesto futurista (Le Figaro, 1909), do escritor, editor, ideólogo, jornalista e ativista político italiano Filippo Marinetti (1876-1944), estabelecendo que: 1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito à energia e à temeridade. 2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia. 3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro. 4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia. 5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita. 6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais. 7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem. 8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade omnipresente. 9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo da mulher. 10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária. 11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o voo deslizante dos aviões, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta. Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMAS – Os poemas de amor de Marichiko inseridos na obra Selected poems (1967), do poeta, tradutor e ensaísta crítico estadunidense Kenneth Rexroth (1905-1982), destaco dois traduzidos por Adrian’dos Delima: XVI - Calcinada pelo amor, a cigarra / Grita em surto. Em silêncio como o vaga-lume, / Minha carne toda incendeia do amor. LVII - Noite sem fim. Solidão. / O vento traz uma folha de bordo / Contra a porta de papel translúcido. / Eu espero, como nos velhos dias, / No nosso lugar secreto, sob a lua cheia. / Os últimos grilos-de-sininhos cantam. / Eu achei tuas antigas cartas de amor, / Repletas de poemas que nunca tornaste públicos. / E importaria a alguém? / Eles foram somente para mim. Veja mais aqui.

OS PERSONAGENS TRÁGICOS – No prefácio de peça teatral Berenice (1670), o poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês Jean Racine (1639-1699), assim se expressa: [...] A regra principal é agradar e comover; todas as outras foram feitas para servir esta. [...] Os personagens trágicos devem ser vistos noutro ângulo, diferente daquele no qual vemos, regra geral, as personagens que vemos mais próximas. Pode-se dizer que o respeito que se tem pelos heróis aumenta à medida que se afastam de nós: major e longínquo reverentia. O afastamento dos locais repara, de certa forma, a demasiada proximidade dos tempos: porque o povo não encontra diferenças entre o que está, se assim posso falar, a mil anos de distancia dele, e o que está a mil léguas. É isto que faz com que, por exemplo, os personagens turcos, por mais modernos que sejam, tenham dignidade no nosso teatro. olham-nos como se fossem antigos. Veja mais aqui e aqui.

EN EFFEUILLANT LA MARGUERITE – O filme En Effeuillant la Marguerite (Desfolhando a Margarida, 1956), do cineasta e roteirista francês Marc Allégret (1900-1973), conta a odisseia parisiense de uma jovem filha de um general que irritou o pai com a publicação do seu livro que empresta título ao filme, tudo se desenrolando com muito bom humor e destacando a graça e beleza da atriz, modelo, ativista e cantora francesa Brigitte Bardot. Veja mais  aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PRO ANO TODO – As previsões pro ano todo do mestre Dorus está bombando na rede. Além de trazer as orientações de procedimentos quanto ao amor, saúde e dia a dia de cada signo, o cara-de-pau ainda dá de troco duas simpatias: a da virada do ano e a Tiro e Queda. Quer enriquecer da noite pro dia? Siga o mestre e aproveite para conferir e dar boas risadas aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do acervo de Ísis Nefelibata. Veja aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à eterna musa do cinema Brigitte Bardot
Veja aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, dezembro 03, 2015

O NATAL DE POPÓ COM DENEUVE, BJÖRK, JOSEPH CONRAD, NINO ROTA. VIVIANE, LARS, TEATRO, VIVIANE, MEIMEI & MUITO MAIS!



VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O NATAL DE POPÓ - Popó é o papagaio do Doro. Um psicitaciforme piouníneo, mais apropriadamente um Amazona aestiva, com colorido predominantemente verde, encontros das asas vermelhas e a fronte tingida de azul, numa plumagem atraente, brilhante e colorida. Popó? Eita, tagarela! Fala pelos cotovelos. Só vive mexendo com tudo e com todos. Mora ali já desde anos, tendo, segundo dizem, percorrido toda árvore genealógica dos Doros. É um bicho peralta, gosta de dar bicada na cabeça dos desavisados que se insinuam por seu território. Gente, com aquele bico, adunco, curto e bojudo ele proporciona uma dor indesejável em quem quer que seja. Quando não é isso, todo folgadão, num deixa de participar do converseiro familiar. Maior tititi. Para se ter uma ideia, Popó acorda o povo solfejando o hino nacional: pãrã pãrã pãrã pãrã pãrã pãrãaaaaã pãrã… É, na vera. Maior barulhada! E em tempo de copa do mundo, danou-se, aí é que ele se mostra brasileiro da gema, a ponto de se vestir a rigor, com camisa, tênis, calção, boné, todo paramentado de verde-amarelo, e de sair narrando o jogo o dia inteiro, feito locutor endiabrado, principalmente os lances de gol. E os pitacos na hora do jogo? Nossa, parece mais peru que fica dizendo faz assim, faz assado, vai porra, num deixa a peteca cair, desgraçado, vai, vai, vai!… até quando o gol sai e ele ginga solto dando bundacanasca no ar. Brasil!!!!!! - Eita, esse tomou da água de chocalho! -, reclamam costumeiramente. Ninguém vê nada, ninguém ouve nada, só dá ele na cabeça! Maior amostramento. E bote adiantado nisso. - Qualquer dia desses, eu faço esse papagaio ficar mudo! -, ameaça Doro. Outra: não pode ver chuva, ocasião que não dá o menor pio possível e quando alguém constata o seu silêncio, chega lá onde o mudo está e encontra o danado a postos, com máscara, pés-de-pato e respirador, pronto para manobras de sobrevivência. Pode? - Esse é o papagaio mais cheio de munganga, mais cheio de pantim que já vi na vida -, diz Doro mangando da ave. Ôxe, isso não é nada, ele gosta de soltar assobio para as mocinhas e mulheres que passam, dele ficar berrando: - Eita cacarejado bom! Sou bom nisso! Sou bom nisso! Isso sem contar uma paixão platônica por uma cracatua branca da vizinhança e das paqueras insolentes por uma arara doutro quarteirão, que, invariavelmente, levam-no a expressar sua dor-de-cotovelo por canções de roedeira braba. Tome lubrificação de gaia, larari, larará. - Esse Popó é corno, tenho certeza! Vai gostar de brega assim na casa de caixa-pregos, vai! -, mais uma reclamação vinda de alguém. Quando Doro mesmo chega em casa, ele logo diz: - Eita, macacada, chegou o corno-mor! Ôxe, Doro fita o folgado pelo canto do olho, prometendo providências para muito em breve. Ah, ele nem aí. E quando todos se sentam para o café da manhã, ou almoço ou jantar, ele começa o enredo, descobrindo podres de um ou de outro dos ocupantes da mesa. - Esse papagaio deve ser da turma da Candinha, vai gostar de fofoca assim na casa da puta da tua mãe, enredeiro! Nem, nem. Vôte! Mas de quem ele mais tem verdadeira ojeriza é do vizinho: o Jardenildo. Quando o cabra aparece, ele solta maior caboetagem das atitudes salafrárias do desafeto. Tudo isso, porque certo dia, Jardenildo entrou na casa e insinuou que o Popó era viado, porque tinha pra mais de 50 anos e jamais vira dizer que ele havia acasalado qualquer arara, cracatua, periquita ou tuin. - Esse papagaio deve acasalar uma brachola! -, insinuava Jardenildo. - Rapaz, mas num é qui é mermo, parece que esse papagaio quebra na munheca! -, assevera na zombaria o Doro. - Nunca que ouvi dizer que um papagaio pudesse ser tão fresco. Ai, veja o jeitão dele! É ou num é pirobo? - Rapaz, mas num é qui é mermo que ele tem todas as ferramentas!? O quêeeeeee? Popó virou na porra! Ôxe, ingicou-se de ficar imóvel por horas e horas. E o pior: lá prás tantas, o Jardenildo cheio dos quequéos, achou de, ninquém sabe por que razão, pegar o bicho desprevenido e tascar uma dedada no furico dele. Menino, foi aí que ele se indignou e prometeu revide na maior desforra. Hum, ficou invocado de formas a não querer jamais dirigir a palavra pro apaideguado. E lá se vai tempo, remoendo, remoendo. Dia desse finalmente chegara o natal, Popó lá, solto: “Jingle bell, jingle bel, acabou papel, não faz mal, não faz mal, limpe com meu pau!”. O bicho era desbocado mesmo. Parodiava as músicas natalinas com insinuações sacanas de fudelança e cornagem na redondeza. Não escapava ninguém. Depois dele soltar meio mundo de insulto, Doro arretou-se, já alterado pela carraspana, pegou Popó pelo gogó, deu-lhe uns bregues e fez com que ele bebesse aguardente. Destá, hã! Popó fez ar de maior repugnância, mas, no frigir dos ovos, gostou. Gostou tanto que até hoje cultiva o hábito de se aventurar numa cachaçada boa, enrolando a língua e soltando lorota à toa. Pois bem, foi nesse natal que ele sentiu que podia se vingar de quem guardava maior rancor. E foi, vez que lá pras tantas chega Jardenildo mostrando algo. - Doro, vê só o presente que papai Noel me deu! -, era Jardenildo não se contendo de felicidade. - Rapaz, isso foi papai Noel que deu, foi? - Foi, rapaz. - Tu tem certeza? - Tenho. Minha mulher agarantiu que papai Noel deixou isso lá em casa para mim. - Rapaz…. - Verdade. Eu confio na minha mulher. Ela é a mais honesta do mundo. - Rapaz…. - Tá duvidando da honra da minha mulher, é? Se ela disse que foi papai Noel, disse por que foi! Pronto! Aí Popó se vingou: - A-há! Esse papai Noel é um sujeito pintudo que dá uns amasso na madame mulher dele, toda vez que ele não tá em casa. O cara é só socavando nela. Pronto. Não tá mais aqui quem falou, câmbio, desligo! Bum!!!!! Era uma vez… E veja mais aqui.


Imagem: Female nude, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849). Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns The Film Music of Nino Rota & The Essential Nino Rota Film Music Colletion, com as música para o cinema do compositor italiano Nino Rota (1911-1979).

ELAS NÃO SABEM O QUE DIZEM – Na obra Elas não sabem o que dizem: Virginia Woolf, as mulheres e a psicanálise (Zahar, 1999), da psicanalista francesa de origem neerlandesa, Maud Mannoni (1923-1998), destaco os trechos: [...] A família do século XIX acabou. A de hoje se funda no contrato social imaginado por Rousseau para a vida política; repousa sobre um “estar junto”, respeitando a vida profissional da mulher, associando pai e mãe na responsabilidade da educação dos filhos. [...] Não há como evitar: a mulher, como mãe, encontra-se na origem da guerra dos sexos que ocorre no inconsciente dos homens. Em nome da mãe excessivamente presente e do pai ausente, ela está também na origem da relação de ódio-amor que as mulheres têm entre si mesmas. Sua função de educadora é sempre marcada por ter mãe demais ou de menos. O pai, paradoxalmente, se beneficia em estar menos presente: é assim mais facilmente idealizado. O lugar simbólico que lhe é atribuído não depende da importância que a mãe lhe dá, em sua fala? O pai presente na fala da mãe – foi a isso que Lacan nos tornou atentos. Mas, se ele não está suficientemente presente como referente na fala da mãe, é mais uma vez esta que será acusada! Não fomos nós que fabricamos esse homem misógino, autoritário, talvez um pouco condescendente em relação às mulheres quando simplesmente não as despreza? Essa teia de aranha da qual ele quer escapar, para, quando adulto, prender nela a mulher, não se teceu sem que as próprias mães soubessem? A divisão sexual das tarefas, a proibição do incesto, a união reconhecida dos casais (casados ou concubinos) são o próprio fundamento da estrutura social. Daí resultam atores sociais (homens e mulheres) e uma relação que se traduz por uma desigualdade vivida, embora, no Ocidente, se tenda cada vez mais para uma “igualdade dos sexos”. [...] Veja mais aqui e aqui.

O CORAÇÃO DAS TREVAS – No livro O coração das trevas (Estampa 2000), do escritor polonês radicado na Inglaterra, Joseph Conrad (1857-1924), destaco o trecho: A Nellie, chalupa de recreio, rodou à volta da âncora sem panejar as velas, e ficou imóvel. A maré enchia quase sem vento, e com o seguíamos rio abaixo só nos restava fundear à espera da viragem. O estuário do Tamisa rasgava-se como a boca de um canal interminável. Céu e mar uniam-se ao largo, sem traço de separação, e as velas crestadas das barcaças, a subirem com a maré, pareciam imobilizar-se no espaço luminoso como fardos de lona muito tensa, vermelhos, onde luzia o verniz dos mastros. As margens baixas corriam para o mar e sobre elas carregava uma névoa diluída na planura. O ar estava sombrio acima de Gravesend, e mais longe parecia condensar-se numa treva desolada que pesava, imóvel, sobre a mais vastae grandiosa cidade do mundo. O diretor da Companhia era nosso capitão e anfitrião. De costas, com os olhos postos no mar, a nós quatro inspirava simpatia. Em todo o rio nada havia mais náutico do que ele. Tinha ar de piloto de barra, o que entre marinheiros quer dizer confiança personificada. Era difícil admitirmos que a sua profissão deixasse de chamá-lo ali, ao luminoso estuário, e o não levasse longe, para enigmáticas sombras. Eu já disse noutro lado que a todos nos ligava o laço do mar. Em largos períodos de afastamento mantinha unidos os nossos corações, mas, além disso, garantia a tolerância mútua que devemos às nossas histórias - ou mesmo certezas. O advogado - o melhor dos camaradas – era homem com tantos anos e virtudes que lhe dávamos direito à única almofada e a estender-se no único tapete do convés. O contabilista já tinha à frente a caixa do dominó e divertia-se a fazer construções com pedras de osso. Marlow, esse estava à popa com as pernas cruzadas e encostado ao mastro da catita. Era um homem de rosto cavado, tez lívida e tronco hirto. Com ar ascético de ídolo. [...]. Veja mais aqui.

A VOZ, A POESIA & VÍDEOS – Como sinal de gratidão e indispensável homenagem, fiz uma reunião parcial do trabalho da queridamada poeta e radialista Meimei Corrêa no Blogagenda. Lá estão os poemas dela recitados por ela mesma, os meus poemas na voz dela, as canções de parcerias dela e as que fiz pra ela e os meus poemas recitados por mim e dedicados pra ela, todos já incluídos no meu canal do YouTube, relacionados nessa seleção do excelente trabalho por ela desenvolvido. Ela além dessa atividades edita o maravilhoso blog Baú deIlusões, no qual ela reúne todo o seu trabalho literário e demais atividades. Entre os poemas que ela a mim dedicou, destaco Ser teu amor: Ser teu amor é mais que renascer Para a vida que antes não me sorria É sonhar, ser livre, ter paz, viver Sou tão feliz por ser tua alegria Ser teu amor faz da vida um encanto Que acolhe a poesia dos meus segredos Tu me afagas, secas meu pranto E arrancas do meu ser todos os medos Ser teu amor faz de mim tua musa Faz de mim paixão debaixo da blusa E toda a explosão no meu coração Ser teu amor é brilhar no sorriso Que me vem de ti e o que mais preciso Se seguimos juntos nessa emoção. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A PEÇA DE TEATRO – No livro Teatro (Fename, 1980), da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001), encontro o texto A peça de teatro, o qual destaco: As histórias passadas no teatro são chamadas de peças de teatro e o lugar onde se passam essas histórias chama-se palco. Para haver teatro é preciso uma história, alguns atores para representar e um palco. O palco pode ser daqueles que se veem comumente nos teatros com cortina e cenários e pode ser também qualquer lugar onde haja espaço para se representar. Uma sala grande ou um tablado armado no meio de um terreno, tudo isso pode servir para se representar uma peça. Como é que se começa a fazer uma peça de teatro? depois que ela foi escrita pelo dramaturgo (escritor de peças de teatro), o diretor da peça reúne os atores para distribuir os papeis. Então ele escolhe os atores e atrizes que vão representar a peça. Aí começa um trabalho muito difícil. É o estudo da história pelo diretor e pelos atores para se entender o que a história quer contar. Todos se sentam em volta de uma mesa, cada um com um texto na mão e começam a ler seus papeis enquanto o diretor vai descobrindo a significação de tudo. E ele sabe a significação de tudo? Bem, ele tem mais experiência que os atores e procura, ouvindo a história, descobrir por que um personagem (personagem são as pessoas da peça) faz isto ou aquilo. Por exemplo: se um personagem chamado João diz para sua irmã que se chama Maria “Vamos fugir de casa” o diretor e os atores têm que descobrir se João está brincando, se está falando sério, se quer mesmo fugir porque está infeliz, etc. Só depois de descobrir estas coisas é que os atores começam a se movimentar. Depois de estudar o texto, então eles vão para o palco. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


DANCER IN THE DARK – O drama musical Dancer in the Dark (Dançando no escuro, 2000), dirigido e roteirizado pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier, é o terceiro da trilogia composta pelos filmes Ondas do destino e Os idiotas. O filme se passa nos Estados Unidos, no ano de 1964, e a protagonista, uma imigrante tcheca que se mudou para aquele país com seu filho, aluga um trailer na propriedade do policial local e sua esposa, onde vive muito humildemente. Para sobreviver, trabalha em uma fábrica de indústria metalúrgica pesada com sua melhor amiga. O que ninguém sabe é que uma delas sofre de uma doença hereditária degenerativa que está lhe ocasionando uma rápida cegueira progressiva. Por este motivo, ela guarda cada centavo em uma lata em sua cozinha para custear uma operação que evite que seu filho sofra do mesmo destino. O destaque do filme é duplo: primeiro, para a sempre bela atriz francesa Catherine Deneuve e, em segundo para a protagonista, a cantora e compositora islandesa Björk, que compôs e gravou a trilha sonora em um dos seus álbuns, Selmasongs. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor francês Étienne-Maurice Falconet (1716-1791).
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista capixaba, Viviane Mosé. Veja aqui e aqui.

terça-feira, novembro 03, 2015

BETINHO, ÉSQUILO, HESÍODO, BYINGTON, MORELEMBAUM, ETTY, LUIZ NOGUEIRA, MECA MORENO, HOLÍSTIA & PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DE SEGUNDA PRA TERÇA - Maria não sabe quais seus direitos, José nem o que é cidadania. Sim, pra que instrução? Tudo erra, avalie. Zefinha na esperança de ontens apela com veias no pescoço pro prefeito amainar sua agonia. E espera. Lasqueira de vida. E João, o que dele seria? Nem sinal de vida. Mariazinha, moça vistosa, escorreita, seios túmidos bulindo no vestido a atração que subia das pernas torneadas pelas coxas roliças, guardava na saia o desejo incontido vasculhando no ventre desnudo. Encantou Zé Barão, indomável novo rico cheio de vida nas costas. Machadeiro na cajazeira meteu-se ele, intemperança descontrolada, praquela aquela bela espécie de fêmea, mais uma pro seu álbum de figurinhas, esforço denodado de posse e gamação. Ela, inocente de sempre, deu-lhe correspondência, o idílio pras fofocas, o enleio da fábula, sem saber que em casa Marizete, até então dona de casa exemplar que não leva desaforo de nada, cuidava dos três filhos que lhe dera o marido, coisa de macho que agora, mais uma vez, beirava proutras bandas. Ele enlevado, montou-lhe teúda e manteúda, e o que era fortuito tornou costumeiro. Isso até a noite de plena calmaria em que a esposa sabedora ciosa torna-se bruxa, invade insidiosa o recinto com várias punhaladas insanas do sangue escorrer ladeira abaixo. Mariazinha, ah beauté du diable, agonizava roupão entreaberto, seios à mostra, ventre nu depois do prazer. Tudo abafado, só alucinadas sirenes com a unha riscando no asfalto, a carne arrastada no chão deixando pedaços esmagados na parede no meio de guitarras arranhando agonia de solos desafinando as ferragens que afinam a lâmina da guilhotina pra alimentar o ódio inimigo nos grilhões do bruto concreto onde tudo se gasta virando cascalho. Tudo em ebulição: o arame farpado na pele do braço. Uma caixinha de surpresas. Esse o vaivém dos que resistem agarrando os dejetos das atribulações que perduram pros soluços e gritos por salvação. Enquanto isso, do outro lado da cidade tem um posto de saúde que nem fila tem e ninguém sabe. O daqui não tem médico presse mês, só pro ano que vem. Quem tem dor de dente morre três dias pra poder vê-la passar. E quem não tem saúde pra esperar? A condução demora cada vez mais e sempre mais cheia como velhinho na fila da aposentadoria. E Nelson sonha com a moradia, será dessa vez? Ah, o prêmio da loteria e Pedro continua penseiro e Joaquim quer colocação, concluiu o Ensino Médio e aprendeu que despejo é uma ação. Conceição não sabe o que é justiça, só que tem juiz pra tudo sem que faça nada por ela. Pesarosos, se atiram nas águas revoltas da vida, querem é viver em estado de graça. Inaptos, ineptos. Assim o presente com voracidade e pra quem tem teorias nem sempre sabe a verdade: a realidade é outra, ruptura, instabilidade. Tem que dá um passo adiante. Pra onde? Ah, é tudo novidade e não tem fórmulas prontas de arroz e feijão, quantas mudanças e nada é tal qual: muitas variáveis no contexto. Quantas queixas e tudo na base do balão de ensaio. Se é árduo, é difícil, dilúvios que surgem do passado, questionamentos, reformulações. Ah, incompletude, santa inconclusão. Ninguém sabe o que fazer. E se espera por ordem e regularidade, como se situações heterogêneas dessem por caber em solução homogênea: volume maior que invólucro. Impacto do desafio: quantas perguntas, quê responder? Interações humanas, coisas que vão e que vem. Por vezes já perdi a conta, estado de coisas que nem sei mais contar na expectativa de um novo dia. Tudo passa no fluxo da vida e da morte. E vamos aprumar a conversa aqui.


Imagem: Female nude, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849).


Curtindo o álbum CelloSam3atrio - Saudade do Futuro, Futuro da Saudade (Biscoito Fino, 2014), do violoncelista, arranjador, maestro, produtor musical e compositor Jaques Morelenbaum.

CIÊNCIA SIMBÓLICA – No livro O novo paradigma holístico: ciência, filosofia, arte e mística (Summus, 1991), organizado por Dênis M. S. Brandão e Roberto Crema, encontro o artigo escrito pelo médico psiquiatra, conferencista e analista Carlos Byington, do qual destaco os trechos: [...] Grande parte do desenvolvimento das ciências no Ocidente, porém, se fez seguindo um caminho característico. Principalmente a partir do século XVIII, a polaridade sujeito-objeto foi considerada de modo específico para se afastar o componente subjetivo da interrelação dos fenômenos entre si. Isto foi feito tanto nas chamadas ciências da natureza quanto nas ciências humanas. [...] Acumulou-se assim um enorme saber sobre a natureza, lado a lado com um mínimo de conhecimento sobre a subjetividade. É comum encontrar-se um currículo de dezoito anos de estudo (que culminou num diploma universitário), durante o qual não foi estudado, durante um semestre sequer, a formação e o desenvolvimento da consciência. Um engenheiro pode se especializar por mais de dez anos, sem nunca aprender os padrões arquetípicos que regem o pensamento. Antropólogos, sociólogos e cientistas políticos podem chegar ao mestrado ou ao doutoramento após vinte e cinco anos de estudo (dezoito de graduação, três de mestrado e quatro de doutorado) sem saber o que significa a estruturação da consciência através de símbolos a partir de relações indiferenciadas. Um médico pode se tornar professor titular de anatomia, fisiologia ou clínica médica sem ter a menor noção do que é o corpo simbólico e sua função na estruturação normal da consciência, na formação de sintomas e na relação médico-paciente. No entanto, todos esses especialistas trabalham convencidos de que sabem como é o ser humano. Os resultados produtivos deste caminho estão aí, inegáveis na imensa aquisição do conhecimento expresso, entre outras coisas, pela tecnologia moderna. Este imenso acúmulo de saber ocorre, porem, com frequência, indiferente ao destino humano: fome e miséria em mais da metade do mundo, devastação e desequilíbrio ecológico em larga escala, uso alienante progressivo de psicotrópicos, envenenamento alimentar com pesticidas e corrida armamentista mundial com potencial genocida aterrador. À volta e no centro desta alienação humanista e holística, distinguimos a ignorância defensiva e orgulhosa sobre como se forma e d desenvolve a consciência humana, a principal reguladora do saber e da conduta. [...] A dissociação subjetivo-objetivo no Ocidente não só paralisou somente a integração da industrialização e do desenvolvimento científico-tecnológico num todo humano. Ao centralizar a problemática politico-social no regime econômico, esta dissociação impede ideologicamente a busca do regime social-democrático, mesmo quando a ela se dedica. Ao bloquear, através da formação universitária, a vivência cultural quaternária do conhecimento objetivo e da própria vida, a dissociação subjetivo-objetivo impede a vivência simbólica plena da alteridade, condição essencial para a prática da consciência cósmica. Isso nos mutila a sabedoria em vida e nos impede o preparo para a morte. Como na lenda do holandês errante de Wagner, vagamos pelo desconhecido, condenados por nosso próprio orgulho a não saber morrer. Ao descobrir a energia atômica, chegamos à posse do fogo mais íntimo da matéria. Incapazes de integrar tamanho segredo de forma construtiva na psique individual e coletiva, jazemos, como Prometeu, acorrentados na onipotência de nossa objetividade dissociada. Enquanto somos devorados pela culpa das consequências crescentes de nossa insanidade, buscamos, ainda no escuro, a integração holística da genialidade cientifica dissociada, cuja vinda se confunde cada vez mais com a esperança da sobrevivência de nossa espécie. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A DE OLHOS AZUIS – No livro Do sertão ao litoral (Catavento/Casa do Penedo, 2001), reunindo contos, crônicas e ensaios do escritor e médico pediatra alagoano Luiz Nogueira, encontro a crônica A de olhos azuis: Riacho Doce: Bar do Doquinha, num domingo de muito sol! Conversávamos, eu e alguns amigos. Os mais afoitos tomavam caipirinhas. Outros preferiam cerveja. Paras de carangueijo, sururu, peixe frito e ostras com limão chegavam, aos poucos, trazidos pelas mãos da garçonete. Quem a examinasse, com cuidado, haveria de ver a marca de um trabalho desgastante naquelas mãos ainda jovens. Mesmo o disfarce das unhas cortadas e esmaltadas – com um esmalte vermelho escuro – permitia ver o que os sabões grosseiros são capazes de fazer nas mãos de quem ainda cedo precisa garimpar a sobrevivência. Mas a garçonete, para os mais conquistadores, poderia até nem ter as mãos. Seus lindos olhos azuis faziam com que todos, de modo por vezes inconveniente, ficassem abismados. Além do mais seu corpo era esbelto, ágil e desenvolto. E nem parecia andar, quando vinha até a nossa mesa. Voava, graciosa. E isso provocou da parte de um amigo poeta: - Parece uma ave! Percebendo ser observada ela ria, discretamente, por vezes jogando para trás a cabeleira clara e esvoaçante. E então um vento inesperado e brincalhão corria sobre sua cabeleira revolvendo-a ora carinhosamente e ora de modo extravagante, semelhando os atos dos amantes. Mais de vinte anos ela não teria, com alguma certeza, diria outro amigo. Outro, mais afoito e não se controlando, afirmou: - Que seios túmidos! Ficamos a rir. Os tempos eram eram assim: a literatura adotara seios túmidos e languidez do olhar como importantes traços para uma composição poética. Também se falava em olhar mortiço, aquele iluminado pelos candelabros dos filmes de amor, os imperdíveis filmes da era hollywoodiana. Mas era estranho que aquela garçonete, moça simples e sofrida, causasse tanta sensação entre a rapaziada, se possivelmente nenhum deles desejaria para um longo caso de amor. E sobretudo para um casamento, tais os preconceitos em moda naquela época. Um outro amigo e poeta, mais calado e por vezes até pessimista, arrematou, para o espanto de todos: - Seus olhos são lindos e azuis. Mas nela poderão ser inúteis! Um longo silêncio tomou conta de todos nós. Era como se uma imensa atmosfera de fantasia houvesse se dissipado, estendida que estava sobre as nossas cabeças. Ficamos a olhar para o mar, azul tais os olhos da linda garçonete. Anos depois, terminando o curso de medicina e de plantão na maternidade a enfermeira chegou ao meu quarto, ofegante, e me disse: - Doutor, estamos com um caso difícil. A moça está dando à luz pela primeira vez. O senhor precisa ir até a sala de parto. Foi-me facílimo reconhecer naquela moça aflita para ter o seu primeiro filho a quase-esquecida garçonete. Não senti que ela me houvesse reconhecido. O que expressava, de dentro dos seus lindos olhos azuis era um humilhado pedido de socorro indigente que era naquela hora. Algumas manobras de facilitação do parto e uma linda menina, de olhos também azuis, veio ao mundo! Na manhã seguinte fui até a enfermaria. Curioso, perguntei-lhe se o seu amado já havia visto a filhinha. Ela me respondeu: - Não. Ele fugiu para São Paulo. Insisti: - Foram os seus lindos olhos azuis? E tristonha ela balbuciou: - Era do que ele mais me falava. Veja mais aqui.

POEMA ENAMORADO À TERRA NATAL & OUTROS VERSOS – O conterrâneo poeta, compositor, artesão, produtor cultural e estudioso da poesia popular Meca Moreno, é autor dos livros Universos (1986) e Giramundo (2005), membro da União dos Cordelistas de Pernambuco (Unicordel) e escreve no portal Interpoética, entre outras atividades artísticas. Da sua lavra destaco inicialmente o Poema enamorado à terra natal: Deste-me as primeiras alegrias, / as primeiras tristezas / e as primeiras safadezas / de menino levado / a correr pelos teus campos e colinas, / sem a preocupação com o amanhã / a nadar afoito / nas águas ainda límpidas / do caudaloso Una, / com um eterno sorriso na face, / a saudade ainda fresca do dia que passou / e a profunda vontade / de não mais findar / aqueles movimentos / livres qual sabiá / a gorjear um canto lindo, / compartilhando comigo / a sombra da frondosa ingazeira / que derramava galhos / sobre o volumoso leito hídrico / de estada tão vital, / deixando-me fascinado / com tão sublime momento / e dando-me motivos para continuar / a descobrir um novo irmão a cada minuto, / transformando-me / no mais feliz dos seres, / na esperança de ver nascer um novo dia / pra começar tudo outra vez. / Deste-me também / o primeiro amor... / a primeira dor. / Foste testemunha ocular / das primeiras lágrimas / de dor... / de amor. / Inspiraste os meus primeiros versos / minhas primeiras fantasias / sonhos e esperanças. / És cúmplice / da minha primeira mentira / e foi contigo / que aprendi tantas verdades / mesmo quando encoberto / pelo manto azulado de tua noite / calma e serena, / como a minha / consciência ingênua / de menino pássaro, / iluminada / pelo esplendor lúcido / da poética e eterna / namorada dos homens... / ... e do sol: / a lua! / Lua que tantas vezes / eu mirei curioso / na esperança de ver São Jorge / sobre o seu cavalo, / numa eterna luta / contra o dragão lunático; / lua essa que no teu céu / é sempre mais bonita / do que em qualquer / outro lugar do mundo / e que continua / a encantar o sol / os homens / e os sonhos deste menino / que tanto te quer. Também o belo poema A fonte e o rio: Eu queria ser a fonte / pra tua sede matar. / Acariciar teu corpo / e assim me deliciar. / Eu queria ser o rio / pra entre as pedras, correr. / Acariciar teu leito, / no teu grande mar morrer. / Eu queria ser a fonte / para o teu rosto espelhar; / molhar os teus lábios quentes / meu líquido em ti jorrar. / Ser aquele rio imenso, / os teus campos irrigar / e nas curvas do teu corpo, / as águas perenizar. / Eu queria ser a fonte / para te dar esperança; / mesmo depois da partida, / ficar na tua lembrança. / Eu queria ser o rio / pra atravessar tuas florestas, / deslizar entre os teus montes / e te dar o que me resta. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PROMETEU ACORRENTADO – Na obra Teogonia: a genealogia dos deuses (Iluminuras, 2006), o poema mitológico de 1022 versos hexâmetros escrito pelo poeta oral grego Hesíodo (750-650aC), no qual se encontra a descrição da origem do mundo que se constitui o mito cosmogônico dos gregos, com a geração sucessiva dos deuses e, na parte final, o envolvimento destes com os homens originando os heróis. Nesse mito, as deidades representam fenômenos ou aspectos básicos da natureza humana, expressando assim as ideias dos primeiros gregos sobre a constituição do universo. Entre os relatos da obra está a narrativa de que Júpiter, ao assumir o governo do universo, tornando-se deus supremo, cogitava de conservar a espécie humana em uma condição próxima da animalidade irracional, senão destruí-la, substituindo-a por outra, de sua criação. Contrariando, porém os desígnios da suprema potestade, o titã Prometeu, condoído da sorte da humanidade consegue apoderar-se de uma faísca do fogo celeste, com o que dotou o homem da razão e da faculdade de cultivar a inteligência, as ciências e as artes. Como punição por esse crime, Júpiter ordena que Prometeu seja acorrentado a um rochedo, na inóspita região da Cítia, no Cáucaso, e ali permaneça pelos séculos adiante, a menos que consinta em revelar, aos emissários do irritado nume, os segredos terríveis que só ele conhece, e que permitiriam a Júpiter devassar os mistérios de seu próprio futuro e evitar uma queda semelhante à que causou a ruina de Cronos, Saturno, seu pai e antecessor no domínio do orbe. Prometeu, porém, conhecedor desses arcanos do Fatum (significando o que prevê), resiste aos mais atrozes sofrimentos, como imortal que é, procedendo com uma altivez extraordinária, sem proferir um só queixume enquanto Vulcano, cumprindo as ordens de Júpiter, o prende, por meio de cadeias indestrutíveis, ao inacessível penedo. O poder (Krakós), que determina e fiscaliza a execução dessas ordens cruéis, instiga e ameaça o próprio Vulcano, que se mostra penalizado pela tortura a que, bem a seu pesar, está sujeitando a um deus, seu parente. Retiram-se os deuses, enviados por Júpiter (inclusive a Violência, personagem mudo) – e só então Prometeu solta os seus brados de revolta e desespero, na solidão em que se encontra. Surgem, então, as Ninfas, filhas do Oceano, que ali foram ter, atraídas pelo rumor dos martelos de Vulcano. A seu pedido, o infeliz Prometeu conta-lhes o que fizera, e explica a razão do suplicio a que fora condenado. O próprio Oceano ali vai ter, e, comovido, procura confortar a vítima da cólera de Zeus, aconselhando-lhe prudência, e submissão, e prometendo, sob tais condições, intervir junto ao supremo senhor do Olimpo em favor do desgraçado. Prometeu rejeita esses bons ofícios e procura dissuadir Oceano de tal proposito. O diálogo que entre os dois se trava contém afirmações de impressionante beleza. Depois de um longo diálogo entre o herói decaído, e o coro que deplora seu sofrimento, surge a figura horrível de Io. Filha de Ínaco, rei de Argos, Io era sacerdotisa de Juno, quando Júpiter por ela se apaixonou. Com o proposito de iludir a esposa, o deus olímpico transformou a jovem numa ovelha de extraordinária beleza. Vendo-a, após a metamorfose, Juno pediu, e obteve do esposo que lhe cedesse a ovelha; e, zelosa, suspeitando já de alguma coisa, confiou-a à guarda do cão Argos, de cem olhos. A mando de Júpiter, porém, Mercúrio consegue iludir a vigilância de Argos, e retira Io da prisão onde se achava. Foi então que, descobrindo o embuste, Juno, irritada, resolve que um moscardo de medonho aspecto persiga, sem cessar, a pobre Io, que, desesperada, foge atravessando campos, mares e desertos, galgando serranias e atingindo os confins do mundo. Bem se compreende o extraordinário efeito que o autor alcançou pondo, um diante do outro, a Prometeu, condenado à eterna imobilidade, e Io, condenada a não parar nunca em sua corrida louca, ambos vítimas da iniquidade e da prepotência dos numes. Prometeu, como prova de sua infalibilidade em devassar o destino humano, refere o que se passou com Io até aquele momento, e profetiza os seus ingentes padecimentos ainda futuros, e sua final libertação. Reaparece o medonho inseto, e a pobre Io prossegue, desatinada, em sua fuga. No último ato da tragédia, é o próprio Mercúrio, filho e emissário de Júpiter, que vem ter junto ao desgraçado prometeu e, renovando as ameaças tremendas do deus supremo, tenta arrancar do acorrentado titã os segredos que ele conhece e guarda. Mas esse esforço é baldado. Dando provas de uma coragem que toca as raias do sublime, o revoltado herói resiste ainda, em resposta plena de altivez, e de audaciosa ironia. Comunica-lhe, então, Mercúrio a última determinação do irado Zeus: Prometeu teria seu suplício aumentado pelo abutre que viria, diariamente, devorar-lhe o fígado, até que um raio, expedido por Júpiter, precipitasse nos abismos do Tártaro o acorrentado prisioneiro, sob o peso da derruída penedia. E com comovente brado, Prometeu, que, presciente, já ouve o fragor da horrenda catástrofe, termina a tragédia grega que faz parte da trilogia do dramaturgo e poeta trágico Ésquilo (525-466aC), da qual destaco a parte final: PROMETEU: Eu já sabia de tudo, tudo, o que ele acaba de me anunciar!... que um inimigo sofra todo mal que lhe pode fazer o outro, nada mais natural. Pois que caiam sobre mim os raios fulminantes; que os ventos furiosos inflamem os céus; que a tempestade, agitando a terra em seus fundamentos, abale o mundo; que os flagelos sem exemplo confundam as vagas do oceano com as estrelas da abobada celeste; que Júpiter, usando seu invencível poder, precipite meu corpo nos abismos do Tártaro; faça ele o que fizer!... eu hei de viver! [...] Com efeito, não foi uma ameaça, apenas: a terra põe-se a tremer... o soturno ronco já se faz ouvir... turbilhões de poeira se erguem... todos os furacões desencadeados parece que estão contra mim! Contra mim, é que Júpiter desfecha tão horrendo cataclismo. Ó minha augusta mãe: ó tu, divino éter que cercais o universo de luz eterna... vede que injustos tormentos me fazem sofrer! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA – Acaba de ser lançado o documentário Betinho: a esperança equilibrista (2015) – vencedor do Festival de Cinema do Rio de Janeiro -, dirigido por Victor Lopes, que conta a trajetória do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, desde seu nascimento em 1935, em Bocaiúva, no sertão mineiro, até 1997, quando morre vítima das complicações da Aids. O filme narra histórias de vida e cidadania de um líder social que uniu o Brasil para enfrentar a fome e a miséria, problemas que atingiam mais de 40% de brasileiros na década de 1990. Betinho foi o criador da Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria e Pela Vida e estimulou a criação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), da Presidência da República. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do ilustrador Armando Lemos, extraído do livro Universos (1986), de Meca Moreno e Alfredo Moraes.
Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Egberto Gismonti, Rolando Boldrin, Chopin, Chico Buarque & Milton Nascimento, Edson Natale & Alex Braga, Mulheres de Hollanda, Max de Castro, João Só, Fábio Lima, Beto Saroldi & Eduardo Dusek, Sonia Mello, Jarbas Barros, Antônio Jardim & Andréia Pedroso, Paulynho Duarte, Ju Mota, Jussanam, Ricardo Machado, Frederico Amitrano, Denise Dalmacchio, Vinny, Maxine Nightingale, Paul Mauriat, Edson Lopes, Eduardo Santhana & Isolda, Chiko Queiroga & Ana Vitória, Pedrinho Piri & muito mais. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...