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segunda-feira, outubro 21, 2024

YŌKO TAWADA, NATALIE DIAZ, KAKA WERÁ, PAULO BRUSCKY & INDÍGENAS PELA PAZ

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Choreography (2004), Subject to Change (2001), Storm (1997), The Classical (1996) e The Original Four Seasons and the Devil's Trill Sonata: The Classical (1999), da violinista e esquiadora singapurense Vanessa-Mae (Vanessa-Mae Vanakorn Nicholson). Veja mais aqui.

 

Pantomima dos simulacros... – Ontem morri, hoje sou outro. Uma coisa ficou certa: o passado é uma ilusão, como tudo que deixou de ser verdade, então só lembrança incorrigível. Agora encarei o que possa ser o real e não era nada do que já vi ou senti - só sei porque fechei as pálpebras e reduzi-me à minha própria escuridão. Era quase um sonho de múltiplos espelhos borgeanos e, em cada um deles, uma fisionomia antiga – uma das minhas muitas faces. Parei diante da efígie mais próxima e não era eu sobrevivendo enlutado à voz de uma locutora que reiterava a minha descrição indubitável. E me falava de quantos Golias e o último homem do profético bigodudo que piscava um olho escondido. Havia rumores e era preciso mitigar as expectativas, enquanto sentia-me provocado pela indiferença nas ruas das noites despovoadas, todas elas quase apagadas pela neblina e declives de sombras disfarçando reviravoltas, hedonismos e ressentimentos, heroísmos e paliativos, devoções cegas e facas amoladas. Surpreendi-me com a sua persuasão iminente de que deveria procurar por meu próprio deserto. Aqui não seria jamais o meu lugar, como e onde o mundo da condenação compungido pelo insuperável: a cena milenar se repetia de norte a sul, lestoeste, a cada dia, razão pela qual sugeriu-me não mais fizesse a barba, nem cortasse as unhas ou cabelos. Afinal, o inferno era aqui mesmo e sequer sabia onde ficava - havia quem sugerisse nos matasse a todos para conferir-se bem de perto, oh sabidos. Corri o risco e até o dia de hoje não sei sonhei ou o que sucedera dessa insólita viagem, simplesmente não lembro: a vida é morte e vice-versa, parece – fiquei com essa impressão. Até mais ver.


Elif Shafak: Os livros nos mudam. Os livros nos salvam. Eu sei disso porque aconteceu comigo... Veja mais aqui.

Trudi Canavan: É melhor conhecer a dor rápida da verdade do que a dor contínua de uma falsa esperança arraigada... Sempre há um pouco de verdade em cada boato, o problema é descobrir qual parte... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Catherine Deneuve: Amor não é sobre posse, mas sobre estimar e permitir que a outra pessoa seja livre. O amor deve ser celebrado todos os dias, não apenas em ocasiões especiais... Veja mais aqui.

 

OS FATOS DA ARTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A estrada do Arizona navegou pelo deserto – \ um navio de guerra cinza desenhando um velório preto, \ parando ao pé da mesa laranja, \ não querer andar por aí. \ Homens e mulheres Hopi – castanho, pequeno e argiloso \ —peered para baixo a partir de suas mesas em tratores amarelos, caminhões de água, \ e homens brancos com bolhas de sol – vermelhos como formigas de fogo – rebocando \ Esperam protetores solares em reboques de Airstream reboques \ em caravanas atrás deles. \ Os anciãos sabiam que essas estradas da bia eram remédios ruins – sabia também \ que os jovens ouvem cada vez menos, e esses jovens Hopi \ necessário trabalho, portanto, reserve suas ferramentas, blocos de raiz de algodão de madeira \ e meio acabado Koshari o palhaço katsinas, então \ assinado com o Departamento de Transportes, \ foram contratados para esfaquear exercícios profundamente na grossa carne vermelha da terra \ em First Mesa, dirija lâminas de faísca gigante nos rostos das mesas, \ executar as brocas tão profundas que fumam, barbundo todos os homens Hopi \ em branco – maus espíritos, disseram os Anciãos – \ As lâminas pegaram fogo, queimadas – Ma’saw está com raiva, disseram os Anciãos. \ Novas lâminas foram levadas de helicóptero. Enquanto os anciãos sonhavam \ seus braços e pernas tinham sido clivados e seus torsos foram arremessados \ ao longo da borda de uma mesa de jantar, os jovens Hopi foram \ de volta ao trabalho cortando a terra em grandes pedaços de ferrugem. \ Ninguém notou no início – não os trabalhadores brancos, \ não os trabalhadores indianos, mas nos montes de mesa desmantelada, \ entre os tortos e pilhas de areia, \ coloque as pequenas tigelas cinzentas de crânios de bebês. \ Não até que eles subiram até o fundo eles viram \ os ossos prateados brilhando da parede de terra e rocha recém-difundada - \ um mosaico de mausoléum, uma tapeçaria doente: os minúsculos restos \ despertado do berço empoeirado da morte, cortado pela metade, rachado, \ envolto em pedaços de cobertores com o tempo. \ Vamos chamá-lo de um dia, disse o capataz branco. \ Naquela noite, todos os trabalhadores indianos ficaram bêbados – ficaram doentes \ — enquanto os anciãos afundaram em suas kivas em oração. Na manhã seguinte, \ enquanto a amanhece no horizonte, os trabalhadores do estado escalavam as mesas, \ bateu às portas de pueblos que os tinha, gritou \ para aqueles que não têm eles, \ exigindo que os homens Hopi voltem ao trabalho – então implorando-lhes – \ em seguida, comprá-los uísque – implorando novamente – finalmente enviando seu branco \ esposas até a trilha perigosa gravada nos lados íngremes \ para comprar cestas de mulheres Hopi e avós \ como sinal de tratado. \ Quando isso não funcionou, os trabalhadores do Estado chamavam os índios de preguiçosos, \ enviou suas esposas que usavam o chapéu de sol para comprar mais cestas \ katsinas também – então chamado de Hopis good-for-nothings, \ Antes de implorar-lhes de volta mais uma vez. \ Vamos tentar novamente de manhã, disse o capataz. \ Mas os trabalhadores indianos nunca mais voltaram – \ As chamadas de bia e dot para o trabalho ficaram sem resposta, \ como a febre Hopis ficou amontoada dentro. \ Os pequenos ossos meio enterrados nas fendas da mesa \ na escuridão uma vez santa da terra silenciosa e sempre-noite – \ Sorrissou ou suspirou sob o luar, enquanto as mulheres brancas \ em Airstream trailers escreveu cartas para casa \ elogiando a paciência de seus maridos, descrevendo os selvagens preguiçosos: \ tal miséria em suas casas de pedra e gesso – cobs de milho empilhado \ chão a teto contra paredes em ruínas - suas cerimônias diabólicas \ e a maneira bárbara enterraram seus bebês, \ Oh, e aqueles lindos e belos cestos.

Poema da premiada poeta, professora & ativista mojave extadunidense Natalie Diaz.

 

MEMÓRIAS DE UM URSO POLAR – [...] Eu sempre me sinto sendo empurrado de volta para a solidão quando alguém me diz que está frio em um dia quente. Não é bom falar tanto sobre o clima — o clima é um assunto altamente pessoal, e a comunicação sobre o assunto inevitavelmente falha. [...] Começou a crescer mofo nos meus ouvidos porque ninguém nunca falava comigo [...] Eu abomino a estupidez e a vaidade humanas que se orgulham de forçar tigres, leões e leopardos a se sentarem confortavelmente lado a lado. Isso me lembra da coreografia do governo que exibe minorias vestidas com cores vivas em um desfile, minorias às quais foi concedida uma migalha de autonomia política em troca de fornecer uma simulação óptica da diversidade cultural em seu país de residência. Mas os animais selvagens (ao contrário dos humanos) formam grupos de acordo com as espécies para desfrutar de benefícios específicos [...]. Trechos extraídos da obra Memoirs of a Polar Bear (New Directions, 2016), da escritora japonesa Yōko Tawada, que na sua obra akzentfrei - Literarische Essays (Konkursbuch Verlag, 2016), expressa que: [...] O muro que tenho na memória ainda consiste em homens armados que estavam prontos para atirar nas pessoas após serem instruídos a fazê-lo. Novos muros estão constantemente sendo construídos em nosso planeta aquoso e azul. Onde há um muro, a vida está ameaçada de ambos os lados. [...]. Já no seu livro The Emissary (New Directions, 2018), ela expressa que: [...] Ser capaz de ver o fim de qualquer coisa lhe dava uma tremenda sensação de alívio. Quando criança, ele presumia que o objetivo da medicina era manter os corpos vivos para sempre; ele nunca havia considerado a dor de não poder morrer. [...]. Por fim, no seu livro Scattered All Over the Earth (New Directions, 2018), ela expressa que: […] As pessoas estão sempre dizendo que as humanidades estão mortas, então é estranho quantas conferências existem. [...] para qualquer funcionário, o trabalho é, até certo ponto, um lugar onde estranhos puxam você da direita, da esquerda, de cima e de baixo, beliscando, esfregando e geralmente bagunçando você de manhã à noite. [...].

 

DIVERSIDADE - Sem diversidade não há vida... Pensamento do escritor, educador e ambientalista tapuia Kaka Werá Jecupé, que no seu livro O Trovão e o Vento: um caminho de evolução pelo xamanismo Tupi-Guarani. (Polar\Instituto Arapoty, 2016), expressa que: [...] o risco de perdermos nossa identidade é bem grande. Realmente: integrar o antigo ao novo e o novo ao antigo é um paradoxo. Como a harmonia do mundo vem do jogo dos contrários, ela requer uma integração desses opostos [...]. [...] a matriz tupi está na base de dialetos que [...] se desdobram [...] marcando as etnias com matizes próprios [...] A tradição revela que a natureza repete até hoje a dança da criação macrocósmica para que possamos guiar-nos de acordo com seu ritmo e sua harmonia. [...]. O seu pensamento está embasado nas expressões de que: Muito massacre, dor, sofrimento: é isso o que marca a história. É o nascimento do Brasil, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Salvador. Cada cidade grande deste país tem em seu bojo, no seu centro, uma memória escondida de muito sangue derramado... Muitos aqui sabem que nós lutamos pela demarcação de nossos territórios, mas é importante saberem que os territórios mais degradados não foram os materiais, mas sim os territórios das culturas e das almas. No meu entendimento, essa geração precisa, cada vez mais, saber da importância que é o respeito e a manutenção de uma cultura, de uma alma, da diversidade, de todos aqueles diferentes de si... Veja mais aqui.

 

A ARTE DE PAULO BRUSCKY

Tão antiga quanto a história da humanidade, é na carnavalizAÇÃO que a performance assume, de uma forma prática/contínua… Num palco chamado Pernambuco, cada folião é um performático, inventando gestos, quebrando conceitos, criando estéticas, mesclando linguagens, assumindo/teatralizando o seu personagem... Na troca de informações entre artista e cientista, um aprende com o outro. Considero essa troca de informações essencial. Cada um em sua área, sem ser absorvido. É mais fácil subverter o cientista do que o contrário. Somos cientistas também... A subversão só faz sentido se a obra não é entendida como uma ordem autoritária, se ela permite a recreação/recriação...

Pensamento do poeta e artista multimídia Paulo Bruscky. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

&

11.645 INDÍGENAS E DIVERSIDADE PARA A PAZ

O Movimento de Retomada Mata Sul Indígena & ONG Thydêwá lançaram o livro 11.645 Indígenas e Diversidade para a Paz, com objetivo de revitalizar a língua materna, salvaguardar saberes/práticas ancestrais e lutar pelo direito à terra/território, pela soberania alimentar e recuperação da vegetação nativa (Mata Atlântica), compartilhando suas cosmovisões para a Educação Escolar. A obra está disponível em português para download gratuito. Para baixar clique aqui.


Vem aí:

Dareladas – Centenário de Darel Valença Lins aqui.

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 


terça-feira, junho 21, 2016

FRANÇOISE SAGAN, MAGGIE COLE, ARISTÓTELES, HANNAH HÖCH, CATHERINE DENEUVE, ORLY FAYA, CHARLES BAPTISTE & LITERATURA BRASILEIRA


O DIA AMANHECE E É MARAVILHOSO VIVER (Imagem: acervo LAM) - Ainda ontem não sabia o que pensar, fazer o que não fiz, dizer o que não disse. Coisas e lembranças, aventuras e destroços, festas e escombros, radiações e monturos, o flagra e divagar. O que era guerra fria hoje é iminente. Anteontem a quimera do futuro, hoje horagá. A vida passa depressa, eu vou devagar. Havia tanta incerteza, farsas, ratatá. Aqui há muito mais além de possibilidades, consequências, o que é que há? Houve um tempo em que tudo era factível, infância, adolescência, ah, não mais, só o impossível se revelar, desvelar, abrir o breu e tudo raiar. Afinal, o que já foi saiu da moldura, desbotou, quase sumiu e não cabe mais nem sequer cogitar, ou o que vai, o que terá de ser, será. O que se sabe é quase nada, fiapinho dagora, cabelinho de sapo, o triz, já fora de moda, o perene descartável. Vale ainda o aperto de mão, o abraço amigo, o eflúvio das rosas, a luz, o luar. Melhor a surpresa e tudo passar ou desandar, correr ou parecer que para tudo e tudo não para, deslizes, acomodações. Melhor é saber que nasce o dia e que é lindo o amanhecer, como é maravilhoso viver e viver e viver. Vamos adiante pro imprevisível e tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: The Beautiful Girl, fotomontagem da artista visual alemã Hannah Höch (1889-1978), representante do movimento dadaísta e precursora da fotomontagem, refletiu no seu trabalho as representações culturais, dos papéis de gênero na sociedade e da sexualidade das mulheres, abordando os medos, possibilidades e novas esperanças.


Curtindo o álbum Bach: Goldberg Variations/Keyboard Works -Italian Concerto / Partita nº 1/Chromatic Fantasia – (Veritas/Virgin Records, 1999), da pianista estadunidense Maggie Cole.

PESQUISA
Introdução à literatura no Brasil (Civilização Brasileira, 1978), do professor, critico literário e ensaísta Afrânio Coutinho (1911-2000), tratando sobre as amplas perspectivas para o estudo em profundidade das letras nacionais, expondo de forma clara os fundamentos metodológicos e observações críticas, originais e inteligentes acerca da Literatura no Brasil. Veja mais aqui.

LEITURA 
La Chamade (1965), romance da dramaturga e romancista francesa Françoise Sagan (1935-2004), adaptado para o cinema pelo diretor Alain Chevalier e estrelado pela sempre musa e atriz Catherine Deneuve, contando a história de uma bela mulher que é a paixão de maduro empresário, porém ela se apaixona por um jovem de quem tem um filho, desaparecendo a paixão repentina para reencontrar seu antigo enamorado. Veja mais aqui, aquiaqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Uma andorinha não faz verão, nem o faz um dia só. [...] Pelo que é de todos ninguém se interessa. Toda a gente inclina-se a fugir a uma obrigação quando espera que outrem a desempenhe [...] e a tarefa principal do legislador consiste em criar em todos os homens disposição cooperativa. Cabe inteiramente ao legislador a obrigação de prover ao interesse público por meio de altruística reciprocidade dos interesses privados dos cidadãos. Para esse fim não deve haver uma distinção rígida entre as classes, particularmente entre as classes dos dirigentes e a classe dos dirigidos. Na verdade, todos os cidadãos deveriam, igualmente, a seu turno, governar e ser governados, com a cláusula geral de que os velhos são os mais indicados para governar, e os jovens para obedecer [...].
Trecho do pensamento extraído das obras do filósofo grego Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.). Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Arte Yoga – Dia Mundial do Yoga

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino & Psicologia Infantil, Jean-Paul Sartre, Machado de Assis, Adélia Prado, William Shakespeare, Dante Alighieri, Eumir Deodato, Jean-Luc Godard, Carlos Scliar, Sarah Adler, Nade Dieu & Ballet Stagium aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagens do álbum La symphonie pornographique (Robert Records, 2015), do músico Charles Baptiste.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Imagem: Projeto Gaia - Bodypainting in Peru, do artista visual Orly Faya.
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

O NATAL DE POPÓ COM DENEUVE, BJÖRK, JOSEPH CONRAD, NINO ROTA. VIVIANE, LARS, TEATRO, VIVIANE, MEIMEI & MUITO MAIS!



VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O NATAL DE POPÓ - Popó é o papagaio do Doro. Um psicitaciforme piouníneo, mais apropriadamente um Amazona aestiva, com colorido predominantemente verde, encontros das asas vermelhas e a fronte tingida de azul, numa plumagem atraente, brilhante e colorida. Popó? Eita, tagarela! Fala pelos cotovelos. Só vive mexendo com tudo e com todos. Mora ali já desde anos, tendo, segundo dizem, percorrido toda árvore genealógica dos Doros. É um bicho peralta, gosta de dar bicada na cabeça dos desavisados que se insinuam por seu território. Gente, com aquele bico, adunco, curto e bojudo ele proporciona uma dor indesejável em quem quer que seja. Quando não é isso, todo folgadão, num deixa de participar do converseiro familiar. Maior tititi. Para se ter uma ideia, Popó acorda o povo solfejando o hino nacional: pãrã pãrã pãrã pãrã pãrã pãrãaaaaã pãrã… É, na vera. Maior barulhada! E em tempo de copa do mundo, danou-se, aí é que ele se mostra brasileiro da gema, a ponto de se vestir a rigor, com camisa, tênis, calção, boné, todo paramentado de verde-amarelo, e de sair narrando o jogo o dia inteiro, feito locutor endiabrado, principalmente os lances de gol. E os pitacos na hora do jogo? Nossa, parece mais peru que fica dizendo faz assim, faz assado, vai porra, num deixa a peteca cair, desgraçado, vai, vai, vai!… até quando o gol sai e ele ginga solto dando bundacanasca no ar. Brasil!!!!!! - Eita, esse tomou da água de chocalho! -, reclamam costumeiramente. Ninguém vê nada, ninguém ouve nada, só dá ele na cabeça! Maior amostramento. E bote adiantado nisso. - Qualquer dia desses, eu faço esse papagaio ficar mudo! -, ameaça Doro. Outra: não pode ver chuva, ocasião que não dá o menor pio possível e quando alguém constata o seu silêncio, chega lá onde o mudo está e encontra o danado a postos, com máscara, pés-de-pato e respirador, pronto para manobras de sobrevivência. Pode? - Esse é o papagaio mais cheio de munganga, mais cheio de pantim que já vi na vida -, diz Doro mangando da ave. Ôxe, isso não é nada, ele gosta de soltar assobio para as mocinhas e mulheres que passam, dele ficar berrando: - Eita cacarejado bom! Sou bom nisso! Sou bom nisso! Isso sem contar uma paixão platônica por uma cracatua branca da vizinhança e das paqueras insolentes por uma arara doutro quarteirão, que, invariavelmente, levam-no a expressar sua dor-de-cotovelo por canções de roedeira braba. Tome lubrificação de gaia, larari, larará. - Esse Popó é corno, tenho certeza! Vai gostar de brega assim na casa de caixa-pregos, vai! -, mais uma reclamação vinda de alguém. Quando Doro mesmo chega em casa, ele logo diz: - Eita, macacada, chegou o corno-mor! Ôxe, Doro fita o folgado pelo canto do olho, prometendo providências para muito em breve. Ah, ele nem aí. E quando todos se sentam para o café da manhã, ou almoço ou jantar, ele começa o enredo, descobrindo podres de um ou de outro dos ocupantes da mesa. - Esse papagaio deve ser da turma da Candinha, vai gostar de fofoca assim na casa da puta da tua mãe, enredeiro! Nem, nem. Vôte! Mas de quem ele mais tem verdadeira ojeriza é do vizinho: o Jardenildo. Quando o cabra aparece, ele solta maior caboetagem das atitudes salafrárias do desafeto. Tudo isso, porque certo dia, Jardenildo entrou na casa e insinuou que o Popó era viado, porque tinha pra mais de 50 anos e jamais vira dizer que ele havia acasalado qualquer arara, cracatua, periquita ou tuin. - Esse papagaio deve acasalar uma brachola! -, insinuava Jardenildo. - Rapaz, mas num é qui é mermo, parece que esse papagaio quebra na munheca! -, assevera na zombaria o Doro. - Nunca que ouvi dizer que um papagaio pudesse ser tão fresco. Ai, veja o jeitão dele! É ou num é pirobo? - Rapaz, mas num é qui é mermo que ele tem todas as ferramentas!? O quêeeeeee? Popó virou na porra! Ôxe, ingicou-se de ficar imóvel por horas e horas. E o pior: lá prás tantas, o Jardenildo cheio dos quequéos, achou de, ninquém sabe por que razão, pegar o bicho desprevenido e tascar uma dedada no furico dele. Menino, foi aí que ele se indignou e prometeu revide na maior desforra. Hum, ficou invocado de formas a não querer jamais dirigir a palavra pro apaideguado. E lá se vai tempo, remoendo, remoendo. Dia desse finalmente chegara o natal, Popó lá, solto: “Jingle bell, jingle bel, acabou papel, não faz mal, não faz mal, limpe com meu pau!”. O bicho era desbocado mesmo. Parodiava as músicas natalinas com insinuações sacanas de fudelança e cornagem na redondeza. Não escapava ninguém. Depois dele soltar meio mundo de insulto, Doro arretou-se, já alterado pela carraspana, pegou Popó pelo gogó, deu-lhe uns bregues e fez com que ele bebesse aguardente. Destá, hã! Popó fez ar de maior repugnância, mas, no frigir dos ovos, gostou. Gostou tanto que até hoje cultiva o hábito de se aventurar numa cachaçada boa, enrolando a língua e soltando lorota à toa. Pois bem, foi nesse natal que ele sentiu que podia se vingar de quem guardava maior rancor. E foi, vez que lá pras tantas chega Jardenildo mostrando algo. - Doro, vê só o presente que papai Noel me deu! -, era Jardenildo não se contendo de felicidade. - Rapaz, isso foi papai Noel que deu, foi? - Foi, rapaz. - Tu tem certeza? - Tenho. Minha mulher agarantiu que papai Noel deixou isso lá em casa para mim. - Rapaz…. - Verdade. Eu confio na minha mulher. Ela é a mais honesta do mundo. - Rapaz…. - Tá duvidando da honra da minha mulher, é? Se ela disse que foi papai Noel, disse por que foi! Pronto! Aí Popó se vingou: - A-há! Esse papai Noel é um sujeito pintudo que dá uns amasso na madame mulher dele, toda vez que ele não tá em casa. O cara é só socavando nela. Pronto. Não tá mais aqui quem falou, câmbio, desligo! Bum!!!!! Era uma vez… E veja mais aqui.


Imagem: Female nude, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849). Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns The Film Music of Nino Rota & The Essential Nino Rota Film Music Colletion, com as música para o cinema do compositor italiano Nino Rota (1911-1979).

ELAS NÃO SABEM O QUE DIZEM – Na obra Elas não sabem o que dizem: Virginia Woolf, as mulheres e a psicanálise (Zahar, 1999), da psicanalista francesa de origem neerlandesa, Maud Mannoni (1923-1998), destaco os trechos: [...] A família do século XIX acabou. A de hoje se funda no contrato social imaginado por Rousseau para a vida política; repousa sobre um “estar junto”, respeitando a vida profissional da mulher, associando pai e mãe na responsabilidade da educação dos filhos. [...] Não há como evitar: a mulher, como mãe, encontra-se na origem da guerra dos sexos que ocorre no inconsciente dos homens. Em nome da mãe excessivamente presente e do pai ausente, ela está também na origem da relação de ódio-amor que as mulheres têm entre si mesmas. Sua função de educadora é sempre marcada por ter mãe demais ou de menos. O pai, paradoxalmente, se beneficia em estar menos presente: é assim mais facilmente idealizado. O lugar simbólico que lhe é atribuído não depende da importância que a mãe lhe dá, em sua fala? O pai presente na fala da mãe – foi a isso que Lacan nos tornou atentos. Mas, se ele não está suficientemente presente como referente na fala da mãe, é mais uma vez esta que será acusada! Não fomos nós que fabricamos esse homem misógino, autoritário, talvez um pouco condescendente em relação às mulheres quando simplesmente não as despreza? Essa teia de aranha da qual ele quer escapar, para, quando adulto, prender nela a mulher, não se teceu sem que as próprias mães soubessem? A divisão sexual das tarefas, a proibição do incesto, a união reconhecida dos casais (casados ou concubinos) são o próprio fundamento da estrutura social. Daí resultam atores sociais (homens e mulheres) e uma relação que se traduz por uma desigualdade vivida, embora, no Ocidente, se tenda cada vez mais para uma “igualdade dos sexos”. [...] Veja mais aqui e aqui.

O CORAÇÃO DAS TREVAS – No livro O coração das trevas (Estampa 2000), do escritor polonês radicado na Inglaterra, Joseph Conrad (1857-1924), destaco o trecho: A Nellie, chalupa de recreio, rodou à volta da âncora sem panejar as velas, e ficou imóvel. A maré enchia quase sem vento, e com o seguíamos rio abaixo só nos restava fundear à espera da viragem. O estuário do Tamisa rasgava-se como a boca de um canal interminável. Céu e mar uniam-se ao largo, sem traço de separação, e as velas crestadas das barcaças, a subirem com a maré, pareciam imobilizar-se no espaço luminoso como fardos de lona muito tensa, vermelhos, onde luzia o verniz dos mastros. As margens baixas corriam para o mar e sobre elas carregava uma névoa diluída na planura. O ar estava sombrio acima de Gravesend, e mais longe parecia condensar-se numa treva desolada que pesava, imóvel, sobre a mais vastae grandiosa cidade do mundo. O diretor da Companhia era nosso capitão e anfitrião. De costas, com os olhos postos no mar, a nós quatro inspirava simpatia. Em todo o rio nada havia mais náutico do que ele. Tinha ar de piloto de barra, o que entre marinheiros quer dizer confiança personificada. Era difícil admitirmos que a sua profissão deixasse de chamá-lo ali, ao luminoso estuário, e o não levasse longe, para enigmáticas sombras. Eu já disse noutro lado que a todos nos ligava o laço do mar. Em largos períodos de afastamento mantinha unidos os nossos corações, mas, além disso, garantia a tolerância mútua que devemos às nossas histórias - ou mesmo certezas. O advogado - o melhor dos camaradas – era homem com tantos anos e virtudes que lhe dávamos direito à única almofada e a estender-se no único tapete do convés. O contabilista já tinha à frente a caixa do dominó e divertia-se a fazer construções com pedras de osso. Marlow, esse estava à popa com as pernas cruzadas e encostado ao mastro da catita. Era um homem de rosto cavado, tez lívida e tronco hirto. Com ar ascético de ídolo. [...]. Veja mais aqui.

A VOZ, A POESIA & VÍDEOS – Como sinal de gratidão e indispensável homenagem, fiz uma reunião parcial do trabalho da queridamada poeta e radialista Meimei Corrêa no Blogagenda. Lá estão os poemas dela recitados por ela mesma, os meus poemas na voz dela, as canções de parcerias dela e as que fiz pra ela e os meus poemas recitados por mim e dedicados pra ela, todos já incluídos no meu canal do YouTube, relacionados nessa seleção do excelente trabalho por ela desenvolvido. Ela além dessa atividades edita o maravilhoso blog Baú deIlusões, no qual ela reúne todo o seu trabalho literário e demais atividades. Entre os poemas que ela a mim dedicou, destaco Ser teu amor: Ser teu amor é mais que renascer Para a vida que antes não me sorria É sonhar, ser livre, ter paz, viver Sou tão feliz por ser tua alegria Ser teu amor faz da vida um encanto Que acolhe a poesia dos meus segredos Tu me afagas, secas meu pranto E arrancas do meu ser todos os medos Ser teu amor faz de mim tua musa Faz de mim paixão debaixo da blusa E toda a explosão no meu coração Ser teu amor é brilhar no sorriso Que me vem de ti e o que mais preciso Se seguimos juntos nessa emoção. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A PEÇA DE TEATRO – No livro Teatro (Fename, 1980), da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001), encontro o texto A peça de teatro, o qual destaco: As histórias passadas no teatro são chamadas de peças de teatro e o lugar onde se passam essas histórias chama-se palco. Para haver teatro é preciso uma história, alguns atores para representar e um palco. O palco pode ser daqueles que se veem comumente nos teatros com cortina e cenários e pode ser também qualquer lugar onde haja espaço para se representar. Uma sala grande ou um tablado armado no meio de um terreno, tudo isso pode servir para se representar uma peça. Como é que se começa a fazer uma peça de teatro? depois que ela foi escrita pelo dramaturgo (escritor de peças de teatro), o diretor da peça reúne os atores para distribuir os papeis. Então ele escolhe os atores e atrizes que vão representar a peça. Aí começa um trabalho muito difícil. É o estudo da história pelo diretor e pelos atores para se entender o que a história quer contar. Todos se sentam em volta de uma mesa, cada um com um texto na mão e começam a ler seus papeis enquanto o diretor vai descobrindo a significação de tudo. E ele sabe a significação de tudo? Bem, ele tem mais experiência que os atores e procura, ouvindo a história, descobrir por que um personagem (personagem são as pessoas da peça) faz isto ou aquilo. Por exemplo: se um personagem chamado João diz para sua irmã que se chama Maria “Vamos fugir de casa” o diretor e os atores têm que descobrir se João está brincando, se está falando sério, se quer mesmo fugir porque está infeliz, etc. Só depois de descobrir estas coisas é que os atores começam a se movimentar. Depois de estudar o texto, então eles vão para o palco. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


DANCER IN THE DARK – O drama musical Dancer in the Dark (Dançando no escuro, 2000), dirigido e roteirizado pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier, é o terceiro da trilogia composta pelos filmes Ondas do destino e Os idiotas. O filme se passa nos Estados Unidos, no ano de 1964, e a protagonista, uma imigrante tcheca que se mudou para aquele país com seu filho, aluga um trailer na propriedade do policial local e sua esposa, onde vive muito humildemente. Para sobreviver, trabalha em uma fábrica de indústria metalúrgica pesada com sua melhor amiga. O que ninguém sabe é que uma delas sofre de uma doença hereditária degenerativa que está lhe ocasionando uma rápida cegueira progressiva. Por este motivo, ela guarda cada centavo em uma lata em sua cozinha para custear uma operação que evite que seu filho sofra do mesmo destino. O destaque do filme é duplo: primeiro, para a sempre bela atriz francesa Catherine Deneuve e, em segundo para a protagonista, a cantora e compositora islandesa Björk, que compôs e gravou a trilha sonora em um dos seus álbuns, Selmasongs. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor francês Étienne-Maurice Falconet (1716-1791).
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista capixaba, Viviane Mosé. Veja aqui e aqui.

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...