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quarta-feira, setembro 21, 2016

ONFRAY, VIVIANE MOSÉ & NIETZSCHE, NATALIA GUTMAN, DÉBORA MASSMANN, BIERRENBACH & SCHENDEL

INEDITORIAL: COLOCANDO OS PINGOS NOS IIIIIS! – Olá, gentamiga desse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada! Salve, salve! Em tempos de temerança, nada pior que perder a esperança! Qualé, meu? Nunca é tarde pra gente fazer desse país um Brasil melhor, nunca é tarde. Vamos em frente, desesperar jamais. Eu mesmo digo logo: quanto mais me decepciono, quanto mais degusto de revestrés, mais insisto, persisto, resisto e persevero! Primeiro recadinho: no Dia da Árvore, olhelá – atenção dendroclastas de plantão, não tem como comprar oxigênio por aí não, viu? Ou planta e cuida, ou vamos aprender a viver no deserto ou embaixo d’água, ta? No Dia do Radialista, uma reflexão: que é que estão fazendo com o rádio, hem? PelamordeDeus, gente!  Agora vamos pras novidades, pois hoje tem de tudo: o Grupo de Pesquisa de Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, a poética da geografia na teoria da viagem de Michel Onfray, a poesia de Viviane Mosé, o discurso e a argumentação de Débora Massmann, mais uma da Gaia Ciência de Nietzsche,  a fotografia de Cris Bierrenbacj, a arte de Mira Schendel, a música da Natalia Gutman e outra do doutor Zé Gulu passando aperto com questões de paternidade. No mais, vamos aprumar a conversa & Tataritaritatá. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Revolução copernicana ao contrário, Luis Cernuda, Herberto Sales, Radamés Gnatalli, Norma Benguell, Roberto Szidon, Stella Miranda, Wilman Emir Causa Acero, Appolonia Saintclair, Literatura Infantil & A democracia na América Latina aqui.
E mais:
Ramakrishna Paramahamsa, Maria João Pires, Rodolfo García Vazquez, Woody Allen, Richard Bach, Lilia Silvestre Chaves, Cléo de Páris, Apollonia Sainclair & Miklos Mihalovits aqui.
Fecamepa: a cana dos coronéis aos mamoeiros aqui.

DESTAQUE: NEUROFILOSOFIA & NEUROCIÊNCIA COGNITIVA
Realizou-se na última segunda, dia 19 de setembro, mais uma reunião do Grupo de Pesquisa de Neurofilosofia e Neurociência Cognitiva, em que se ressaltou a realização do curso As pensadoras: as grandes mulheres filósofas da história, que prosseguirá nesta quarta, dia 21/09, das 17 às 19hs, no auditório do prédio Íris III – do curso de Direito do Centro Universitário Cesmac -, sobre o tema As mães da igreja e pensadoras cristãs medievais, ministrado pelo professor e coordenador do grupo Álvaro Queiroz. Em seguida deu-se andamento no tratamento e levantamento dos dados atinente ao estudo sobre a temática Epidemiologia do suicídio no município de Maceió, desenvolvido pela professora e coordenadora do Grupo, Janne Eyre Araújo de Melo Sarmento. Logo após foi dado andamento ao estudo Equoterapia & Autismo, desenvolvimento pelo psicólogo Weverky Farias. Foram abertos então os debates, ficando definida a data de 24 de setembro, a partir das 8hs, no Centro Universitário Cesmac, para a próxima reunião, contando com a presença da professora e orientadora do Grupo, a professora doutora Daniela Botti. Veja mais aqui.

CONVERSA DE BAR & FILHO NÃO RECONHECE PAI – Anclotinato era um dos assíduos acompanhantes dos devaneios intelectuais do doutor Zé Gulu. Claro, com um nome desse, dizia o ilustre pensador, não há castigo pior. Na faculdade tive colegas como Arsênico, Aschelminto, 1 2 3 de Oliveira 4, coisas do tipo. Isso é lá graça pra ninguém. E Anclotinato às gargalhadas. Ô, meu fio, num tinha um nomezinho melhor, não? Isso é lá graça pra ninguém? E você não diz nada? Hômi, seu minino, sô sujeito curau das brenhas. Saí do campo pra Sumpaulo com dezoito anos, me despedindo dos pais pra nunca mais. Naquela terra de doido, arrumei colocação de servente no Tribunal de Justiça. Um juiz distinto se afeiçoou de mim, passei de recadista para escriturário, depois escrevente e já tinha destinação certa pras ciências jurídicas. Estava tudo indo muito bem encaminhado, quando um tio meu odontólogo, me fez virar dentista da noite pro dia. Troquei o certo pelo duvidoso. Cinco anos no batente da faculdade, tinha futuro promissor: a clientela do tio. Cheio das gaitas me engracei por uma japonesa. Bastou uma massagem, casei-me com ela no outro dia por causa das suas perícias sexuais. Concorrência braba, resolvi montar consultório na minha terra, findei na capital: endinheirado com as novidades. Fui enfeitiçado pela secretária do consultório, resultado: a japa me expulsou de casa armada dum rifle e acabei metido numa camisa de onze varas. A amásia montou casa e trouxe família do interior com tudo: pai, mãe, irmãos, filharada. Não havia fábrica de dinheiro que desse. Pra reaver o apartamento, tive que botar tudo pra correr sob ameaça de golpe com polícia e tudo. Falido e sem um tostão furado, tive que recomeçar de vida aqui em Alagoinhanduba, como quem puxa só desgraça e miséria. Dentista do município, fui aos poucos reorganizando a vida e resolvi fazer Direito na capital. Cinco anos indo e vindo, formei-me, comecei uma nova carreira. Hoje dá pro gasto, recém-amigado com uma mulher que me compreende, tentando manter o equilíbrio da vida. Só tenho um desgosto: um dia procurei meu filho, o único que tive com a japonesa, ele me virou as costas, dizendo-me que não tem pai, só mãe. É duro isso, meu único filho não quer me ver nem pintado a ouro. Foi aí que o doutor Zé Gulu, compreendendo as lágrimas que lavavam a face do coitado, apertou-lhe a mão com firmeza, deu-lhe um abraço e saiu: - Inté mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Doutor Zé Gulu aqui, aqui e aqui.

UMA MÚSICA
Curtindo os álbuns Cello Concerto & Portrait Séries, da violoncelista russa Natalia Gutman. Veja mais aqui.

PESQUISA: A POÉTICA DA GEOGRAFIA NA TEORIA DA VIAGEM -  [...] Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. [...] Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta o véu do ser. [...] Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente a mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la. [...] A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha do destino. [...] Toda documentação alimenta a iconografia mental de cada um. A riqueza de uma viagem requer, a montante, a densidade de uma preparação – assim como as experiências espirituais convidam a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade capaz de infundir. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. [...] Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera a vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela. [...] Nem a sós, nem com vários: circular com o amigo permite evitar a angústia multiplicada do trajeto solitário, da barreira das línguas estrangeiras, dos incômodos burocráticos nas fronteiras com funcionários e policiais de todo o mundo. O estrangeiro que circula livremente num país inquieta as autoridades, sobretudo onde não reina a democracia, isto é, na maioria dos lugares do planeta. A amizade serve de tônico necessário para a conjuração do estado de fragilidade consubstancial ao afastamento do domicílio, longe das referências habitualmente tranqüilizadoras do animal em nós. No exercício da amizade, o outro é o estranho menos estranho possível. [...] No detalhe da viagem, a amizade permite a descoberta de si e do outro.  [...] um poema bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiência vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou sei, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação. [...] Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser. [...]. Trecho extraído da obra Teoria da viagem: poética da geografia (L&PM, 2009), do filósofo francês Michel Onfray, realizando um elogio à arte de viajar como expediente para filosofar, uma vez que, para ele, só é possível a partir de uma experiência autobiográfica resgatando os significados de sair em busca do desconhecido. Com essa obra ele remonta à história de Caim (agricultor, sedentário) e Abel (pastor, nômade), estabelecendo dois polos entre os quais todos oscilam: nomadismo versus sedentarismo, e amor ao movimento versus paixão pelo imobilismo, pelo enraizamento.

UM LIVRO, UMA LEITURA: VIDA/TEMPO 
Quem tem olhos pra ver o tempo? / Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele / Soprando sulcos? / O tempo andou riscando meu rosto / Com uma navalha fina. / Sem raiva nem rancor / O tempo riscou meu rosto com calma. / Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante. / Acho que ganhei presença. / Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando. / Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim / Por falar em sexo quem anda me comendo / É o tempo. Na verdade faz tempo, mas eu escondia / Porque ele me pegava à força, e por trás./ Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo, se você tem que me comer Que seja com o meu consentimento.  E me olhando nos olhos. Acho que ganhei o tempo. De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando.
Vida/tempo, poema extraído do livro Toda palavra (Record, 2008), da poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista Viviane Mosé. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: DISCURSO & ARGUMENTAÇÃO - [...] O discurso constitui assim um lugar de formulação e de projeção de visões de mundo: é o espaço em que as relações entre palavras e entre frases constroem, a cada enunciação, um modo diferente de apreender a realidade, de representá-la e de verbalizá-la. A cada enunciação, portanto, um novo esquema de significações e de representações, um novo microuniverso conceitual é expresso. Nessa perspectiva, o autor compreende que toda a argumentação, ao expor um ponto de vista, uma opinião ou uma tese, expressa uma visão de mundo pessoal, um modo subjetivo de perceber a realidade e de enunciá-la. Nesse sentido, o discurso e a argumentação constituem o lugar em que cada sujeito constrói, representa e expressa o seu modo de perceber e de categorizar a realidade. Discurso e argumentação apresentam-se como atores do mundo. Através deles, as diferentes visões de mundo são construídas e representadas discursivamente de forma distinta a cada enunciação. [...] é no espaço da controvérsia que a argumentação se consolida à medida que se estabelece a interação entre os interlocutores, ou seja, à medida que se considera o outro como um sujeito capaz de reagir e de interagir discursivamente pelo exercício da negociação e do entendimento através do debate. Trecho do artigo Argumentação: em busca de um conceito, da professora e pós-doutora em Semântica, Débora Massmann, destacando os discursos jurídico, político e midiático, entre outros, extraído da obra Línguas e instrumentos lingüísticos (RG/Unicamp, 2009).

A GAIA CIÊNCIA
Quer considere os homens com um olhar benevolente ou malevolente, vejo-os todos, e cada um em particular, fazer a mesma coisa: a saber, o que é útil para a sobrevivência da espécie. Ora, não é por amor a essa espécie que agem assim, mas simplesmente porque não há neles nada mais antigo, nada mais forte, mais inexorável, mais invencível que esse instinto – porque esse instinto é precisamente a essência de nossa espécie e de nosso rebanho. [...] De fato, o homem mais prejudicial pode ser o homem mais útil à conservação da espécie; com efeito, ele sustenta em si ou, por sua influência, nos outros, instintos sem os quais a humanidade estaria há muito entorpecida ou corrompida. O ódio, o prazer de ver o outro sofrer, a sede de rapina e de dominação e de tudo aquilo que se dá o nome de mal: tudo isso faz parte da espantosa economia da conservação das espécies, uma economia dispendiosa certamente, pródiga e no fundo totalmente insensata – mas que, como está provado, manteve a nossa espécie até agora. [...] É preciso amar a vida, pois...! É preciso que o homem ative sua vida e aquela do próximo, pois...! [...].
Aqueles que ensinam o objetivo da vida, extraído da Parte I da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa, ilustradora e repórter fotográfica Cris Bierrenbach.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Arte da artista plástica suíça radicada no Brasil, Mira Schendel (1919-1988)
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


quinta-feira, dezembro 03, 2015

O NATAL DE POPÓ COM DENEUVE, BJÖRK, JOSEPH CONRAD, NINO ROTA. VIVIANE, LARS, TEATRO, VIVIANE, MEIMEI & MUITO MAIS!



VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O NATAL DE POPÓ - Popó é o papagaio do Doro. Um psicitaciforme piouníneo, mais apropriadamente um Amazona aestiva, com colorido predominantemente verde, encontros das asas vermelhas e a fronte tingida de azul, numa plumagem atraente, brilhante e colorida. Popó? Eita, tagarela! Fala pelos cotovelos. Só vive mexendo com tudo e com todos. Mora ali já desde anos, tendo, segundo dizem, percorrido toda árvore genealógica dos Doros. É um bicho peralta, gosta de dar bicada na cabeça dos desavisados que se insinuam por seu território. Gente, com aquele bico, adunco, curto e bojudo ele proporciona uma dor indesejável em quem quer que seja. Quando não é isso, todo folgadão, num deixa de participar do converseiro familiar. Maior tititi. Para se ter uma ideia, Popó acorda o povo solfejando o hino nacional: pãrã pãrã pãrã pãrã pãrã pãrãaaaaã pãrã… É, na vera. Maior barulhada! E em tempo de copa do mundo, danou-se, aí é que ele se mostra brasileiro da gema, a ponto de se vestir a rigor, com camisa, tênis, calção, boné, todo paramentado de verde-amarelo, e de sair narrando o jogo o dia inteiro, feito locutor endiabrado, principalmente os lances de gol. E os pitacos na hora do jogo? Nossa, parece mais peru que fica dizendo faz assim, faz assado, vai porra, num deixa a peteca cair, desgraçado, vai, vai, vai!… até quando o gol sai e ele ginga solto dando bundacanasca no ar. Brasil!!!!!! - Eita, esse tomou da água de chocalho! -, reclamam costumeiramente. Ninguém vê nada, ninguém ouve nada, só dá ele na cabeça! Maior amostramento. E bote adiantado nisso. - Qualquer dia desses, eu faço esse papagaio ficar mudo! -, ameaça Doro. Outra: não pode ver chuva, ocasião que não dá o menor pio possível e quando alguém constata o seu silêncio, chega lá onde o mudo está e encontra o danado a postos, com máscara, pés-de-pato e respirador, pronto para manobras de sobrevivência. Pode? - Esse é o papagaio mais cheio de munganga, mais cheio de pantim que já vi na vida -, diz Doro mangando da ave. Ôxe, isso não é nada, ele gosta de soltar assobio para as mocinhas e mulheres que passam, dele ficar berrando: - Eita cacarejado bom! Sou bom nisso! Sou bom nisso! Isso sem contar uma paixão platônica por uma cracatua branca da vizinhança e das paqueras insolentes por uma arara doutro quarteirão, que, invariavelmente, levam-no a expressar sua dor-de-cotovelo por canções de roedeira braba. Tome lubrificação de gaia, larari, larará. - Esse Popó é corno, tenho certeza! Vai gostar de brega assim na casa de caixa-pregos, vai! -, mais uma reclamação vinda de alguém. Quando Doro mesmo chega em casa, ele logo diz: - Eita, macacada, chegou o corno-mor! Ôxe, Doro fita o folgado pelo canto do olho, prometendo providências para muito em breve. Ah, ele nem aí. E quando todos se sentam para o café da manhã, ou almoço ou jantar, ele começa o enredo, descobrindo podres de um ou de outro dos ocupantes da mesa. - Esse papagaio deve ser da turma da Candinha, vai gostar de fofoca assim na casa da puta da tua mãe, enredeiro! Nem, nem. Vôte! Mas de quem ele mais tem verdadeira ojeriza é do vizinho: o Jardenildo. Quando o cabra aparece, ele solta maior caboetagem das atitudes salafrárias do desafeto. Tudo isso, porque certo dia, Jardenildo entrou na casa e insinuou que o Popó era viado, porque tinha pra mais de 50 anos e jamais vira dizer que ele havia acasalado qualquer arara, cracatua, periquita ou tuin. - Esse papagaio deve acasalar uma brachola! -, insinuava Jardenildo. - Rapaz, mas num é qui é mermo, parece que esse papagaio quebra na munheca! -, assevera na zombaria o Doro. - Nunca que ouvi dizer que um papagaio pudesse ser tão fresco. Ai, veja o jeitão dele! É ou num é pirobo? - Rapaz, mas num é qui é mermo que ele tem todas as ferramentas!? O quêeeeeee? Popó virou na porra! Ôxe, ingicou-se de ficar imóvel por horas e horas. E o pior: lá prás tantas, o Jardenildo cheio dos quequéos, achou de, ninquém sabe por que razão, pegar o bicho desprevenido e tascar uma dedada no furico dele. Menino, foi aí que ele se indignou e prometeu revide na maior desforra. Hum, ficou invocado de formas a não querer jamais dirigir a palavra pro apaideguado. E lá se vai tempo, remoendo, remoendo. Dia desse finalmente chegara o natal, Popó lá, solto: “Jingle bell, jingle bel, acabou papel, não faz mal, não faz mal, limpe com meu pau!”. O bicho era desbocado mesmo. Parodiava as músicas natalinas com insinuações sacanas de fudelança e cornagem na redondeza. Não escapava ninguém. Depois dele soltar meio mundo de insulto, Doro arretou-se, já alterado pela carraspana, pegou Popó pelo gogó, deu-lhe uns bregues e fez com que ele bebesse aguardente. Destá, hã! Popó fez ar de maior repugnância, mas, no frigir dos ovos, gostou. Gostou tanto que até hoje cultiva o hábito de se aventurar numa cachaçada boa, enrolando a língua e soltando lorota à toa. Pois bem, foi nesse natal que ele sentiu que podia se vingar de quem guardava maior rancor. E foi, vez que lá pras tantas chega Jardenildo mostrando algo. - Doro, vê só o presente que papai Noel me deu! -, era Jardenildo não se contendo de felicidade. - Rapaz, isso foi papai Noel que deu, foi? - Foi, rapaz. - Tu tem certeza? - Tenho. Minha mulher agarantiu que papai Noel deixou isso lá em casa para mim. - Rapaz…. - Verdade. Eu confio na minha mulher. Ela é a mais honesta do mundo. - Rapaz…. - Tá duvidando da honra da minha mulher, é? Se ela disse que foi papai Noel, disse por que foi! Pronto! Aí Popó se vingou: - A-há! Esse papai Noel é um sujeito pintudo que dá uns amasso na madame mulher dele, toda vez que ele não tá em casa. O cara é só socavando nela. Pronto. Não tá mais aqui quem falou, câmbio, desligo! Bum!!!!! Era uma vez… E veja mais aqui.


Imagem: Female nude, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849). Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns The Film Music of Nino Rota & The Essential Nino Rota Film Music Colletion, com as música para o cinema do compositor italiano Nino Rota (1911-1979).

ELAS NÃO SABEM O QUE DIZEM – Na obra Elas não sabem o que dizem: Virginia Woolf, as mulheres e a psicanálise (Zahar, 1999), da psicanalista francesa de origem neerlandesa, Maud Mannoni (1923-1998), destaco os trechos: [...] A família do século XIX acabou. A de hoje se funda no contrato social imaginado por Rousseau para a vida política; repousa sobre um “estar junto”, respeitando a vida profissional da mulher, associando pai e mãe na responsabilidade da educação dos filhos. [...] Não há como evitar: a mulher, como mãe, encontra-se na origem da guerra dos sexos que ocorre no inconsciente dos homens. Em nome da mãe excessivamente presente e do pai ausente, ela está também na origem da relação de ódio-amor que as mulheres têm entre si mesmas. Sua função de educadora é sempre marcada por ter mãe demais ou de menos. O pai, paradoxalmente, se beneficia em estar menos presente: é assim mais facilmente idealizado. O lugar simbólico que lhe é atribuído não depende da importância que a mãe lhe dá, em sua fala? O pai presente na fala da mãe – foi a isso que Lacan nos tornou atentos. Mas, se ele não está suficientemente presente como referente na fala da mãe, é mais uma vez esta que será acusada! Não fomos nós que fabricamos esse homem misógino, autoritário, talvez um pouco condescendente em relação às mulheres quando simplesmente não as despreza? Essa teia de aranha da qual ele quer escapar, para, quando adulto, prender nela a mulher, não se teceu sem que as próprias mães soubessem? A divisão sexual das tarefas, a proibição do incesto, a união reconhecida dos casais (casados ou concubinos) são o próprio fundamento da estrutura social. Daí resultam atores sociais (homens e mulheres) e uma relação que se traduz por uma desigualdade vivida, embora, no Ocidente, se tenda cada vez mais para uma “igualdade dos sexos”. [...] Veja mais aqui e aqui.

O CORAÇÃO DAS TREVAS – No livro O coração das trevas (Estampa 2000), do escritor polonês radicado na Inglaterra, Joseph Conrad (1857-1924), destaco o trecho: A Nellie, chalupa de recreio, rodou à volta da âncora sem panejar as velas, e ficou imóvel. A maré enchia quase sem vento, e com o seguíamos rio abaixo só nos restava fundear à espera da viragem. O estuário do Tamisa rasgava-se como a boca de um canal interminável. Céu e mar uniam-se ao largo, sem traço de separação, e as velas crestadas das barcaças, a subirem com a maré, pareciam imobilizar-se no espaço luminoso como fardos de lona muito tensa, vermelhos, onde luzia o verniz dos mastros. As margens baixas corriam para o mar e sobre elas carregava uma névoa diluída na planura. O ar estava sombrio acima de Gravesend, e mais longe parecia condensar-se numa treva desolada que pesava, imóvel, sobre a mais vastae grandiosa cidade do mundo. O diretor da Companhia era nosso capitão e anfitrião. De costas, com os olhos postos no mar, a nós quatro inspirava simpatia. Em todo o rio nada havia mais náutico do que ele. Tinha ar de piloto de barra, o que entre marinheiros quer dizer confiança personificada. Era difícil admitirmos que a sua profissão deixasse de chamá-lo ali, ao luminoso estuário, e o não levasse longe, para enigmáticas sombras. Eu já disse noutro lado que a todos nos ligava o laço do mar. Em largos períodos de afastamento mantinha unidos os nossos corações, mas, além disso, garantia a tolerância mútua que devemos às nossas histórias - ou mesmo certezas. O advogado - o melhor dos camaradas – era homem com tantos anos e virtudes que lhe dávamos direito à única almofada e a estender-se no único tapete do convés. O contabilista já tinha à frente a caixa do dominó e divertia-se a fazer construções com pedras de osso. Marlow, esse estava à popa com as pernas cruzadas e encostado ao mastro da catita. Era um homem de rosto cavado, tez lívida e tronco hirto. Com ar ascético de ídolo. [...]. Veja mais aqui.

A VOZ, A POESIA & VÍDEOS – Como sinal de gratidão e indispensável homenagem, fiz uma reunião parcial do trabalho da queridamada poeta e radialista Meimei Corrêa no Blogagenda. Lá estão os poemas dela recitados por ela mesma, os meus poemas na voz dela, as canções de parcerias dela e as que fiz pra ela e os meus poemas recitados por mim e dedicados pra ela, todos já incluídos no meu canal do YouTube, relacionados nessa seleção do excelente trabalho por ela desenvolvido. Ela além dessa atividades edita o maravilhoso blog Baú deIlusões, no qual ela reúne todo o seu trabalho literário e demais atividades. Entre os poemas que ela a mim dedicou, destaco Ser teu amor: Ser teu amor é mais que renascer Para a vida que antes não me sorria É sonhar, ser livre, ter paz, viver Sou tão feliz por ser tua alegria Ser teu amor faz da vida um encanto Que acolhe a poesia dos meus segredos Tu me afagas, secas meu pranto E arrancas do meu ser todos os medos Ser teu amor faz de mim tua musa Faz de mim paixão debaixo da blusa E toda a explosão no meu coração Ser teu amor é brilhar no sorriso Que me vem de ti e o que mais preciso Se seguimos juntos nessa emoção. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A PEÇA DE TEATRO – No livro Teatro (Fename, 1980), da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001), encontro o texto A peça de teatro, o qual destaco: As histórias passadas no teatro são chamadas de peças de teatro e o lugar onde se passam essas histórias chama-se palco. Para haver teatro é preciso uma história, alguns atores para representar e um palco. O palco pode ser daqueles que se veem comumente nos teatros com cortina e cenários e pode ser também qualquer lugar onde haja espaço para se representar. Uma sala grande ou um tablado armado no meio de um terreno, tudo isso pode servir para se representar uma peça. Como é que se começa a fazer uma peça de teatro? depois que ela foi escrita pelo dramaturgo (escritor de peças de teatro), o diretor da peça reúne os atores para distribuir os papeis. Então ele escolhe os atores e atrizes que vão representar a peça. Aí começa um trabalho muito difícil. É o estudo da história pelo diretor e pelos atores para se entender o que a história quer contar. Todos se sentam em volta de uma mesa, cada um com um texto na mão e começam a ler seus papeis enquanto o diretor vai descobrindo a significação de tudo. E ele sabe a significação de tudo? Bem, ele tem mais experiência que os atores e procura, ouvindo a história, descobrir por que um personagem (personagem são as pessoas da peça) faz isto ou aquilo. Por exemplo: se um personagem chamado João diz para sua irmã que se chama Maria “Vamos fugir de casa” o diretor e os atores têm que descobrir se João está brincando, se está falando sério, se quer mesmo fugir porque está infeliz, etc. Só depois de descobrir estas coisas é que os atores começam a se movimentar. Depois de estudar o texto, então eles vão para o palco. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


DANCER IN THE DARK – O drama musical Dancer in the Dark (Dançando no escuro, 2000), dirigido e roteirizado pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier, é o terceiro da trilogia composta pelos filmes Ondas do destino e Os idiotas. O filme se passa nos Estados Unidos, no ano de 1964, e a protagonista, uma imigrante tcheca que se mudou para aquele país com seu filho, aluga um trailer na propriedade do policial local e sua esposa, onde vive muito humildemente. Para sobreviver, trabalha em uma fábrica de indústria metalúrgica pesada com sua melhor amiga. O que ninguém sabe é que uma delas sofre de uma doença hereditária degenerativa que está lhe ocasionando uma rápida cegueira progressiva. Por este motivo, ela guarda cada centavo em uma lata em sua cozinha para custear uma operação que evite que seu filho sofra do mesmo destino. O destaque do filme é duplo: primeiro, para a sempre bela atriz francesa Catherine Deneuve e, em segundo para a protagonista, a cantora e compositora islandesa Björk, que compôs e gravou a trilha sonora em um dos seus álbuns, Selmasongs. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor francês Étienne-Maurice Falconet (1716-1791).
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista capixaba, Viviane Mosé. Veja aqui e aqui.

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...